Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

Diversas maneiras de ser feliz

Livro de crônicas retrará mulheres reais com seus desejos, alegrias e frustrações
Mulheres normais (Lura, 84 pp, R$ 39,90) é uma reunião de crônicas da escritora curitibana Izabella de Macedo que retratam as mulheres do jeito que são. Uma obra que faz ecoar pensamentos e sentimentos comuns do universo feminino, expostos como quem está de coração aberto para sorrir, chorar, se apaixonar. As crônicas são escritas em primeira pessoa, e retratam personagens em diferentes estados emocionais: entusiasmadas, felizes e desestruturadas por seus dilemas cotidianos e conflitos internos. Os acontecimentos narrados são fictícios, porém inspirados em relatos reais vividos por diferentes mulheres. Com a delicadeza e força próprias de suas protagonistas, Mulheres normais aborda, em suma, o desejo latente de ser feliz.

Via Publishnews

"Histórias de passar os dias": série de crônicas narra vivências de quem se reinventa na quarentena

Revelar histórias propositivas de crianças, jovens e idosos nestes dias tão diferentes é a essência do projeto "Histórias de passar os dias", lançado, nesta terça-feira (7), pelo Sistema Verdes Mares


O distanciamento social tão necessário neste período obriga muitos a se reinventarem entre as paredes de casa em seus cotidianos. Ter o isolamento como ponto de partida para uma nova rotina e as transformações positivas possíveis são o foco das crônicas de quarentena do projeto "Histórias de passar os dias", que o Sistema Verdes Mares partilha com leitores e ouvintes, a partir desta terça-feira (7), durante três semanas.
Escritas pelo repórter Melquíades Júnior, "Histórias de passar os dias" poderão ser acompanhadas na editoria Verso e no site do Diário do Nordeste, nas redes sociais, às terças e às quintas-feiras e nos fins de semana na Rádio Verdes Mares, com narração do repórter Diego Barbosa e convidados. Aos sábados, durante o programa "Conexão Verdinha", e aos domingos, no "Conversa com o Tom", ambos de 5 às 9 da manhã.

A queimar cartas de amor

Ele nunca soube o motivo de ser a inspiração de cartas de amor, já que não era tão intenso e passional quanto as cartas que recebia
Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas.
Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas. (Liam Truong / Unsplash)
Ricardo Soares*
A primeira mulher que lhe escreveu cartas de amor o fez com letras miúdas e intenções graúdas espalhadas em parágrafos longos e intensos, cheios de exclamações, suspiros e até espasmos. O coração dela batia ao ritmo das frases e elas eram tão sinceras e derramadas que podiam se ouvir ao fundo dos adjetivos o ruído de sinos remotos que tocavam.
Ele nunca soube o motivo de ser o inspirador de cartas de amor das mulheres, visto que não se achava tão intenso e passional quanto as cartas que inspirava. Era até um sujeito metódico, que dormia sempre na mesma posição e deixava o creme sobre o pincel na véspera de fazer a barba.
Assim sendo não surpreende que a segunda mulher que lhe escreveu cartas de amor tenha tentado se cortar nos finos braços alvos manchando de sangue o papel acobreado onde confessava sua lascívia e seu desespero. Sua letra rotunda revelava uma paixão cheia de afluentes e ele não deu conta de tanto transbordamento.
Ele sempre relutou em ler sob a luz dos abajures e a olhar direto nos olhos das amadas, temendo ver além ou através delas, temendo se ver diante da revelação de uma paixão encontrada - que é aquela que floresce quando identificamos que, atrás da maquiagem e acima das olheiras, há muito mais a desvendar.
Assim sendo não surpreende que a terceira mulher a lhe escrever cartas de amor tenha sido uma míope de olhos intensos e espremidos, mulher que mordia os lábios quando sofria e que assoprava seus próprios calores com um comedimento incompatível com o fogaréu dos seus escritos.
Assim sendo ele foi indo. Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas. Ao fim, por mais intensas que fossem, acabou por achar que todas aquelas cartas eram banais, fugidias, filhas apenas do arroubo do momento. E assim sendo, rasgou todas elas, debruçou-se sobre a pilha e ateou fogo. Ao queimar todas elas tornaram-se, enfim, fiador do seu próprio esquecimento...
*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

A cidade

Por Paulo Eduardo Mendes - Jornalista

Estacionamos numa bucólica cidade do interior e ali fizemos um pouso para uma semana de lazer. Brincar, comer, sonhar e acordar, renovado e de alma pura. Pela manhã, um galo cantou "encabulado" sem executar seu conto completo... Parecia engasgado! Cantou ou fez que cantava durante um breve tempo. Nenhum outro galo respondeu! Daí a pouco surge um arremedo de canto só de uma nota "có" e nada mais! Os galos recolhidos com medo de cantar. Pode haver constatação mais óbvia de que está tudo mudado? A falta de um "cocoricó" para nos despertar talvez seja um prenuncio da vitória do celular com "Google" trazendo a sonorização que se deseja para um acordar "diferente" e logo segurar o celular para as pesquisas de campo! Dedos hábeis digitam em teclado minúsculo as mensagens que não falam, mas dão o recado direitinho. Há romance nesta forma do viver eletrônico? Parece que sim. Os namorados, casais de todo tipo, têm a comunicação agora nas pontas dos dedos. Aqui e acolá um sorriso enquanto o outro joga um "carteado".

Quanta diferença no mundo de hoje. Se não entramos no "jogo", ficamos totalmente de fora da convivência com os mais jovens. A cidade já não tem encantos. Os sons naturais estão transformados em músicas invasivas de estridência aberrante. Há exceções. No meio de tanta tecnologia, pedimos a uma criança que tentasse captar o canto de Yma Sumac, a garota espantada disse: Yma de quê? - Yma Sumac, respondemos. Ela encontrou o ponto mágico da cantora Inca. Foi um espanto geral dos que nos cercavam. Retiramo-nos de mansinho e, no outro dia, encontramos a turminha jovem escutando Yma Sumac. A princesa Inca produziu o milagre da sensibilização e descobrimos que a educação ainda existe e é o caminho para vencer obstáculos! Nem tudo está perdido.

Vaidade: um causo

Por Gonzaga Mota - Professor aposentado da UFC

José e Antônio eram dois amigos de infância. Estudavam no mesmo colégio público e moravam na rua Esperança, no bairro Solidariedade, no município de Santo Expedito, no sertão nordestino. Ambos tiravam boas notas e cumpriam com suas obrigações escolares. Na adolescência, os dois foram pra cidade grande, São Paulo, tentar ingressar na Universidade e trabalhar. Conseguiram. José cursava medicina e trabalhava numa livraria. Já Antônio estudava ciência econômica e era corretor na Bolsa de Valores. José possuía formação humanitária; sem ambição financeira, procurava servir aos mais carentes. Antônio empolgou-se com sua atividade; ficou rico, passou a frequentar as altas rodas paulistanas, não mais se lembrava do amigo José e tornou-se uma pessoa extremamente vaidosa. Sempre preocupado com resultados financeiros, pouco dedicou-se à leitura. Assim, não conhecia Machado de Assis: “A vaidade é um princípio de corrupção” e Vieira: “A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto, e que mais facilmente engana os homens”. Ademais, não percebia que a vaidade é irmã da insegurança de conhecimento e da inveja. José, salvando vidas, era símbolo da generosidade. Por ironia do destino, em razão da vida desregrada e agitada, Antônio enfartou e foi salvo por José. Sem bem reconhecer o amigo, após receber alta, perguntou-lhe com arrogância: quanto custa, doutor? José respondeu: a nossa amizade infantil. “Chamamos de zombador o homem vaidoso que trata os outros com orgulho e desprezo” (Livro dos Provérbios 21:24). A vaidade desestimula a ética, a paz, a justiça, a humildade e favorece o surgimento do desamor e da calúnia. Com relação ao “causo” mencionado, sem ter a pretensão, a capacidade e a imaginação de Nelson Rodrigues, vale lembrar suas famosas crônicas: “A vida como ela é...”.

"Pai, por que você é marrom?"

Não há, neste mundo, consciência de cor sem choque de realidade

O crítico

O depoimento de um crítico de gastronomia na delegacia, depois de passar no hospital para tratar a queimadura na nuca:
“O anonimato, que para tantos é um martírio, delegado, para mim é uma obrigação profissional. Sou crítico de restaurantes. Em mim o paladar e os escrúpulos se mesclam, como a carne e os legumes num bolito misto, e faço questão de não ser reconhecido nos lugares que frequento e depois recomendo ou destruo. Uso disfarces tanto para que o dono do restaurante, descobrindo minha identidade, não tente comprar uma boa cotação com favores e porções maiores quanto para que não tente revidar alguma crítica mais rigorosa derramando sopa fervendo sobre minha cabeça ou me expulsando do lugar. Minha integridade repele o suborno e meu amor-próprio refuta substâncias muito quentes na nuca. Os disfarces podem trazer inconvenientes, como a vez em que meu bigode postiço caiu numa blanquette de veau e tive que ingeri-lo, pois a alternativa seria chamar o garçom e perguntar se o chef não tinha dado falta do SEU bigode. Ou a vez em que usei um nariz feito de material inferior que começou a derreter com as emanações de uma casserole e a pingar na minha gravata, obrigando-me a simular uma crise hemorrágica e fugir do restaurante. Mas são os disfarces que me mantêm honesto e ileso. Ou me mantinham, até hoje. 
Sou criterioso e justo, e costumo voltar a restaurantes que critiquei para lhes dar uma chance de se redimirem. Foi o que fiz com certo estabelecimento que, depois de uma primeira visita, descrevera como sendo algo pretensioso, pois insistia em chamar o que servia de comida, o que de certa forma desculpava a lentidão dos garçons em trazer os pratos, já que eram obviamente movidos pela misericórdia. Deixei passar alguns meses depois da publicação da minha crítica e fui de novo ao mesmo restaurante, tendo o cuidado de moldar um queixo falso, feito de material resistente ao calor, que com os óculos escuros e as costeletas compridas certamente impediriam meu reconhecimento e atos de retribuição violenta. O restaurante estava vazio. Minhas críticas são muito lidas e têm grande influência no público, que anseia por alguém que lhes diga o que é bom e o que não é, neste mundo em que as velhas certezas agonizam, o relativismo moral invadiu a gastronomia e tem até pizza de fruta. Além da minha, à qual fui levado pelo solícito dono do restaurante em pessoa, havia apenas outra mesa ocupada. Por um homem que lia um jornal. E que, quando levantou a cabeça e me viu, exclamou:
– Meu Deus, é ele!
Tenho vários discursos prontos para o caso de ser reconhecido apesar dos meus disfarces. Eles envolvem desde uma ficção sobre irmãos gêmeos – “O crítico de restaurantes é o outro, eu não sei nem a diferença entre rocambole e ratatouille!” – até uma dissertação sobre a necessidade de parâmetros alimentares numa sociedade carente de valores claros e a importância da crítica, mesmo um pouco impiedosa, nesse sentido, enquanto me encaminho, lentamente e andando de lado, para a porta da rua e a fuga. Já tinha escolhido a história dos gêmeos quando o homem da outra mesa começou a espetar o jornal com o dedo e mostrar:
– Olha o retrato falado do bandido que estão procurando. É ele! É ele!
Dei uma risada. Eu, bandido? O retrato falado podia ser de qualquer um. Podia ser do meu irmão gêmeo. Mas eu?!
O homem da outra mesa já estava de pé. Ia chamar a polícia. Disse:
– Com essa cara, com esse queixo, você ainda nega que é bandido?
Descolei o queixo e arranquei os óculos escuros e as costeletas.
– É tudo falso. É disfarce! Está vendo? Sou um crítico de restaurantes. A minha cara verdadeira é esta! 
O homem da outra mesa piscou, abriu e fechou a boca, e se sentou. Me sentei também. Olhei em volta. O dono do restaurante tinha desaparecido. Dali a pouco reapareceu. Vinha na minha direção carregando uma panela de sopa quente. Eu não tive tempo de fugir, delegado! 
Luis Fernando Verissimo
Estadão Conteúdo

Elogio do incômodo

Elogio do incômodo
Eu me queixei tanto sobre os obstáculos que penso que seria melhor fechar o ano comemorando-os como um elemento essencial da cultura carpetovetônica. Pertence à imprudente que fica na frente das escadas rolantes para refletir sobre o rabanete e longa vida para a senhora que pára de repente no meio de qualquer corredor como uma declaração simbólica de uma conquista íntima; Aplausos para todos os grupos que prolongam a reunião com os quais obstruem a borda de um bar longo, além das instalações, no meio da rua e vivem a senhora que interrompe seus passos para devolvê-la como uma parede com a qual ela tenta camuflar A conversa aborrecida que vem gritando no celular.
Comemore as centenas de motoristas que impedem o fluxo de veículos e até mesmo os passos de zebra com a desculpa inapelável para obter um snot ou olhar o telefone ou melhor ajustar as fofocas de uma reunião em que todos os convidados gritam parlamentos para impedir o curso de uma possível conversa e, por essa razão, comemoramos outro dia em que políticos e funcionários profissionais sem carteiras exibem a bela arte de dificultar a abordagem de possíveis soluções ou planos de convivência. Albricias, que olha para lá o casal amigável que pretende impedir o caminho no parque com a finalidade de denunciar a sua alegria forjada e ovação sonora por espirros, é jogado com um lenço e costumava cuspir no meio da estrada como para alertar todos para o possível contágio;Eu não sou ninguém, mas sou um incômodo para o resto da humanidade e inveja dos saxões ou ruminantes que fluem sem parar, que caminham até que se separem, que se dobram ao lado e renunciam à torrente que nos une por ônus , que nos dão as uvas na espera e que somos capazes de sufocar com uma bolacha para sincronizar seus próprios passos com o ritmo imprevisível dos gravames, a borda dos cotovelos que parecem inocentes e neste Madri, onde cada linha implica que alguém não está faltando Isso se adereàs suas costas, como se você perdeu seu caminho, como se o link da comunidade que lhe permita sentir a paz falhar, precisamente porque sempre haverá alguém que nos impede.
El País

Crônica ‘Um sol que chega’, da escritora Ayla Andrade

Por Ayla Andrade*

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima
Ia eu escrever sobre o calor que toma nosso corpo e juízo nesses últimos dias. É preciso mesmo ter Fortaleza na alma pra aguentar, sem hesitar, os efeitos do sol na boca, na cabeça, nas dobras do corpo enquanto você derrete ao andar. 
Ia eu escrever sobre esse calor que nos forma, que nos desorienta. Pensei em todas as sensações que a quentura provoca: a pele rachada, a terra rachada, o êxodo. Assola. O sol assola. “Um sol pra cada pessoa” como a gente escuta dizer por aí entre línguas de fora e goles d’água.

As crianças… ia eu dizer sobre as crianças. Vocês já viram como ficam as crianças no centro da cidade, puxadas pelo braço, aquela cara de descontentamento, sufoco e sede eterna?
Ia eu escrever que durante um tempo trabalhei, de manhã a tarde, rodando numa kombi. Sem ar-condicionado, janelas minúsculas e a gente gritando para o motorista: segue pra BR e acelera! Era nossa chance de sobrevivência, um descanso na loucura, alguns minutos de respiro. Desde então tenho pavor de calor. Eu não tomo banho, tomo banhos: antes, durante e depois do calor. Daqueles banhos de senhores sertanejo de antigamente. Molha-se e não enxuga-se. Se é de pingar que seja d’água. Suor em bicas nos tira a dignidade.
Maior prova de amor por aqui é andar de mãos dadas no sol. Já experimentou? É pacto de fluídos para uma vida! É o próprio derretimento das calotas coronárias através das mãos suarentas. Ia escrever sobre isso também.
Ia dizer eu que o calor de dentro pode não ser tão mordaz quanto o de fora, em Fortitudine, e que a gente já foi bem juntinho da Nigéria um dia e que nossas dunas talvez sejam irmãs. O calor de lá como o de cá.
Pensei ainda que a menopausa nos espreita em algum lugar do relógio. Preciso pensar em planos ou panos que resfriem as carnes por dentro e por fora quando Dezembro chegar.
Ia eu dizer, enquanto ofegava no ônibus em busca de ar, que as pracinhas da cidade são mais importantes que as igrejas porque somos de uma modorra herdada geração a geração, fundida pelo sol.

Ia eu escrever que o calor pode nos tornar resistentes, duros, secos, mas preparados e pertinazes. Antes de tudo, fortes.
Ia eu escrever sobre tudo isso, mas choveu.
E me apascentei em calma e umidade aqui na rede.

Ayla Andrade

Outubro, 2017
*Ayla Andrade é assistente social, cronista, contista e amante do cotidiano. Ela já publicou o livro Mais feliz dos silêncios (Editora Substânsia, 2014) e publicou contos em algumas antologias, entre elas Encontos e desencontos, Antologia Massanova e O cravo roxo do Diabo: o conto fantástico no Ceará.
Blog O Povo

A morte do amigo

Eram três da madrugada quando minha filha ligou para dizer que Lila e Fernando de Szyszlo tinham morrido. O mundo ao meu redor vai se despovoando e ficando mais vazio


A morte do amigo
FERNANDO VICENTE

Eram três da madrugada em Moscouquando o telefone tocou. Minha filha Morgana ligava para dizer que Lila e Fernando de Szyszlo tinham morrido, ao despencarem de uma escada de sua casa. Não consegui mais dormir. Passei o resto da noite paralisado por um atordoamento estúpido e um sentimento de horror.
Tantas vezes ouvi Szyszlo (Godi para os amigos) dizer que não queria sobreviver a Lila, que se ela morresse primeiro ele se mataria, que, pensei, talvez tivesse acontecido assim. Mas, minutos depois, quando pude falar com Vicente, o filho de Szyszlo, que estava lá trêmulo, junto aos cadáveres, me confirmou que tinha sido um acidente. Depois alguém me informou que haviam morrido de mãos dadas e, segundo os médicos, a morte tinha sido instantânea, por uma idêntica fratura de crânio.
MAIS INFORMAÇÕES


O que me resta de vida já não será o mesmo sem Godi, o melhor dos amigos. Foi um grande artista, um dos últimos, entre os pintores, a quem se podia aplicar esse adjetivo com justiça, e uma esplêndida pessoa. Culto, afetuoso, divertido, leal. Enriquecia a noite com suas histórias e suas piadas quando estava de bom humor, e suas observações eram agudas e certeiras quando se recordava das pessoas que havia conhecido e que admirava, como Tamayo, Breton e Octavio Paz. Havia nele uma decência indestrutível quando falava de política ou do Peru, uma falta total de oportunismo ou cautela, uma integridade que –sem que buscasse, e a contragosto– em seus últimos anos foi transformando-o no seu país em uma autoridade moral cuja opinião era solicitada sobre todos os assuntos. Quando estava de mau humor se fechava em um mutismo de sílabas, uma imobilidade de estátua, e o nariz se arrebitava.

Godi estava mais que penalizado com a grande confusão que caracteriza a arte em nossos dias

Sua paixão era a arte, claro, mas a literatura o apaixonava também, e havia lido muito, e lia e relia sempre seus autores favoritos, e era uma delícia para a inteligência ouvi-lo falar de Proust, de Borges, e ouvi-lo recitar de memória os sonetos mais barrocos de Quevedo ou o poema de amor que Doris Gibson inspirou a Emilio Adolfo Westphalen.
Quando o conheci, em julho ou agosto de 1958, era casado com Blanca Varela. Viviam numa pequena mansarda de Santa Beatriz, que era ao mesmo tempo casa e ateliê. Desde o primeiro instante soube que seríamos amigos íntimos. A amizade é tão misteriosa e intensa como o amor, e a amizade de Blanca e Godi foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida, à qual devo experiências estimulantes, cálidas, dessas que nos compensam pelos maus momentos e nos revelam que, feitas as contas, a vida afinal vale a pena ser vivida.
Blanca e Godi se casaram muito jovens e foram excelentes companheiros: ambos se ajudaram a ser, ele, um magnífico pintor, e ela, uma poeta delicada e sensível. Mas o grande amor-paixão de Szyszlo foi Lila, uma mulher maravilhosa que o entendeu melhor do que ninguém e lhe deu essa coisa elusiva e tão difícil que é a felicidade. Recordo agora a alegria que crepitava em cada linha dessa carta que me escreveu quando enfim puderam casar-se. Pensando bem, que tenham compartilhado esse final tão rápido e ostentoso foi talvez a melhor maneira que tinham de morrer. O problema já não é mais deles, é de nós que ainda ficamos por aqui, “intratáveis quando os recordamos”, como diz o poema de César Moro, outro dos que Godi tinha sempre intacto na memória.
Acho que Godi esteve sempre perto, ajudando-me com sua amizade generosa em quase todas as coisas importantes que me aconteceram. Nunca pude agradecer-lhe o suficiente por, nos três anos em que as circunstâncias me empurraram a atuar na política, ter se dedicado também de corpo e alma a essa tarefa tão pouco afim ao seu caráter e, com outros dois amigos –Cartucho Miró Quesada e Pipo Thorndike–, na mais delicada e incômoda das responsabilidades: controlando a lisura da arrecadação e dos gastos da campanha. Claro que foi a primeira pessoa em que pensei quando fui receber o Prêmio Nobel de Literatura, e lá estava, apesar da viagem interminável e dos transtornos que os longos trajetos de avião infligiam à sua saúde. Muitas vezes me havia prometido que, se algum dia meus livros fossem incorporados à Pléiade, iria acompanhar-me e, de fato, ali apareceu de repente, em Paris, com Vicente, e sua intervenção no Instituto Cervantes foi a mais pessoal e celebrada de todas.

Tenho certeza de que durará mais que sua geração e que a minha e que muitas outras mais.

Muitas vezes o vi enfrentar com estoicismo as decepções, tão frequentes na vida peruana. Mas há uma que o fez desmoronar e nunca pôde superar: a morte de seu filho Lorenzo, em um acidente aéreo. Uma ferida que sangrava sem cessar, inclusive naqueles períodos em que trabalhava melhor e parecia estar mais animado. Nunca esquecerei a extraordinária elegância com que suportou essa carta pública, tão mesquinha, de seus colegas peruanos, protestando por terem querido dar seu nome a um museu de arte moderna em Lima.
Esta manhã, enquanto visitava a galeria Tretiakov, sem deixar um só minuto de pensar nele, imaginava como teria sido melhor ter a sua companhia para este percurso pela Rússia artística dos anos dez e vinte do século passado, a de Kandinsky, Chagall, Malevich, Tatlin, Goncharova e tantos outros. E lembrava o muito que aprendi ao seu lado, visitando exposições ou ouvindo-o falar da própria pintura, algo que fazia raras vezes, e sempre para lamentar que cada quadro que saía do seu ateliê fosse, não importa quão árduo trabalhasse, “uma derrota irremediável”.
Estava mais que penalizado com a grande confusão que caracteriza a arte em nossos dias, como confessa na autobiografia, publicada em janeiro deste ano (Alfaguara), com os engodos que se perpetram e que são consolidados por críticos e galeristas sem escrúpulos e colecionadores gananciosos e insensíveis. Ele nunca enganou ninguém e suou frio para seguir em frente desde que abandonou os estudos de arquitetura e começou a pintar, ainda muito jovem, telas ligeiramente influenciadas pelo cubismo. Desde que descobriu a arte não figurativa se entregou a ela, com disciplina, perseverança e tenacidade, redescobrindo pouco a pouco, com o passar dos anos, a realidade por meio de seu país. A arte dos antigos peruanos se transformara em uma obsessão da sua idade adulta e se insinuaria em suas pinturas, confundindo-se com as formas e as cores mais ousadas da vanguarda. Até constituir esse mundo próprio do qual dão conta os misteriosos aposentos solitários e geométricos, que têm algo de templo e algo de sala de torturas, os estranhos ardis e totens que os habitam e que com suas sementes, nus, incisões, fendas e meias luas, sugerem um mundo bárbaro, anterior à razão, feito somente de instinto, magia e medo. Apesar de ser tão lúcido, provavelmente nem ele teria podido explicar tudo aquilo que sua pintura evoca e mescla, e que a clarividência de sua intuição e seu bom ofício artesanal integravam nesses belos quadros inquietantes, incômodos e perturbadores. Agora que ele não está mais, nos resta sua pintura. Tenho certeza de que durará mais que sua geração e que a minha e que muitas outras mais.
O mundo ao meu redor vai se despovoando e ficando cada dia mais vazio.

El País

A mesma fogueira, as mesmas vaidades

Nova York 
O estádio dos Yankees em Nova York, no Bronx.
O Yankees Stadium em Nova York, no Bronx. GETTY IMAGES
Os apartamentos de cerveja e design artesanais deslocaram-se para o Bronx do Sul, que é a selva de Nova York, onde há 30 anos, Sherman McCoy entrou com um Mercedes esportivo de US $ 48.000 (41.000 euros) como se fosse um civilização desconhecida. Agora, muitos o chamam de SoBro, ou o novo Williamsburg, os preços da habitação se dispararam e The New York Times oselecionou este ano como um dos 52 lugares do mundo que devem ser visitados. Os blocos em construção estão se multiplicando na Avenida 134 e algumas lojas de flerte abrem suas portas, mas convivem com edifícios miseráveis ​​que recordam que esta é uma área ainda em transição, que continua sendo um dos bairros mais perigosos que alguns anos atrás, as ruas ainda queimavam.
A fogueira das vaidades , ainda considerada a grande novela de Nova York, entrou em venda no outono de 1987, o ano da segunda-feira negra de Wall Street, quando os homicídios estavam em milhares, a boate O estúdio 54 viveu seu declínio, e Donald Trump, agora dono da sua torre da Quinta Avenida, estava construindo seu império de casino em Atlantic City. A estréia fictícia de Tom Wolfe relatou a história de McCoy, um jovem e bem sucedido vendedor de títulos que uma noite se perdeu com seu amante no Bronx do Sul, correu sobre um homem negro e fugiu. A partir daí, começa sua queda livre e, paralelamente a ela, Wolfe retrata todo o submundo da cidade.
O livro estava sentado, regozijando-se com temas sobre negros e brancos, e se divertiu de tudo: tensão racial, dinheiro, miséria política. "Tom Wolfe não deixa prisioneiros em sua comédia , " disse o crítico de The New York Times , escrito por Christopher Lehmann-Haupt . Hoje, ele acredita que "as coisas tornaram-se tão controversas que as pessoas são muito sensíveis, e esse trabalho parece uma trivialização dos problemas". "As coisas que são satirizadas no romance estão mais vivas do que nunca, dominam o debate público e invadiram a literatura: tensão racial, política de identidade ... Trump é uma personificação de Sherman McCoy", acrescenta.
30 anos depois, um personagem prototípico de The Bonfire como Trump, tornou-se presidente dos Estados Unidos e o Bronx, aquela antiga selva, vem recomendado em um guia do Times . Mas a essência dessa cidade ainda está viva.
O Reverendo Al Sharpton, em quem eles dizem que ele foi inspirado pelo escritor para criar o personagem do padre Bacon, ainda cheira como um chifre queimado hoje para ser solicitado. Sharpton, um antigo e controverso ativista dos direitos negros, acredita que a desigualdade racial ainda tem um longo caminho a percorrer. "Não é que avançamos muito, é que a sensibilidade cresceu", explica. "A grande diferença com 87 é que havia então um prefeito hostil aos problemas negros e latinos [Ed Koch], e isso desencadeou um grande número de ativismo de rua. O atual prefeito [Bill de Blasio] é um progressista que estava marchando conosco nas ruas em 1987 ", continua, mas" ainda sofremos enormes diferenças de educação e oportunidades profissionais ".
Apesar das ondas de gentrificação , Nova York continua a ser a segunda cidade segregada racialmente mais segregada nos Estados Unidos, superada apenas por Milwaukee. E com a Grande Recessão, além disso, o hiato socioeconômico aumentou.
Mesmo assim, os avanços experimentados e a cereja na chegada do primeiro afro-americano à presidência dos EUA criaram a ilusão de uma América pós-racial. Os dados econômicos e os crimes racistas mostram, em vez disso, que a ferida continua sangrando na sociedade americana, atordoada, além de uma sinistra primavera de supremacismo branco.
Também sobreviveu por certas criaturas de Wall Street. Em um artigo de 1996 - A morte de Sherman McCoy - Michael Lewis explicou que esses super-homens já não existia. " Nos anos 80 que não era incomum para celebrar a venda de 100 milhões de títulos a subir para a sua mesa, batendo no peito e gritando: Eu sou o mestre do universo ...". E em 96, o mesmo pode não conceber um dia de trabalho sem charutos e ternos de milhares de dólares foram apresentadas na estância com tênis. Em adição, embora o dinheiro envolvido tinha aumentado, as operações hostis e crimes financeiros estavam nos doldrums.
Mas a reflexão é que apenas os personagens como Jordan Belfort - mais conhecidos como The Wall Street Wolf - estavam em espiral de fraude e lavagem de dinheiro. Ele se declarou culpado em 99. E então veio a punção da bolha ponto-com, o escândalo das hipotecas juntas ...
Diz Charles Geisst, um especialista financeiro e autor de um livro sobre a história de Wall Street, que se algo foi mantido nestes 30 anos é precisamente o homem de Sherman. Muitos deles foram substituídos por computadores, mas "sua atitude arrogante não mudou". "Carros, relógios e drogas caros são de alta demanda", diz ele, "e os então Mestres do Universo agora são chamados de The Fabulous Fab , como aquele comerciante de ações francês de 2008 [Fabrice Tourre]".
Apesar da realidade de todo esse universo da fogueira das vaidades - a tensão racial, suas baixas paixões, seu ponto de esperpento - muitos vêem impossível que tal novela tenha sido escrita em 2017. "Existe algum tipo de festa inocente nesse livro de celebração, que simplesmente não acho que teria sido escrito o mesmo agora. Hoje, a correção política é muito mais forte ", explica o romancista de Nova York Joseph Olshan, em 1987, um jovem de vinte anos que acabara de publicar seu primeiro livro. "Não houve uma ótima novela de Nova York desde então, pode ter havido alguns, mas não assim", diz o autor da Vanitas, também publicado em Espanha. A literatura sobre esta grande metrópole, um gênero em si, mudou, em sua opinião, após os ataques do 11 de setembro, um evento que um autor não pode mais ignorar e que, em sua opinião, ainda não é conhecido escreva bem. "Os ataques são uma grande sombra para nossa literatura".

UMA CIDADE MENOS EXCÊNTRICA

Para o romancista de Nova York Joseph Olshan, sua cidade mantém a excentricidade dessas páginas, aqueles anos que Wolfe relatou. A mão dura contra o crime atribuído aos prefeitos Rudy Giuliani e Michael Bloomberg, juntamente com o impulso econômico e turístico que o último deu à cidade após o 11 de setembro, transformaram Nova York. "É mais seguro, mas também mais comercial, tornou-se caro e já não atrai pessoas tão diversas", diz ele. Na verdade, ele se corrige imediatamente, continua a atrair todos. "Muitos artistas, muitas pessoas muito interessantes querem estar aqui, mas agora aqueles que conseguem isso são apenas aqueles que podem se dar ao luxo de ser financeiramente, e isso está deixando você para muitos".
El País

Pentecostes: a face da terra renovada

Padre Geovane Saraiva*
Fomos batizados, e pelo batismo somos convidados a falar a linguagem do amor, na consciência de que o Espírito do Senhor, que se espalhou por todo o universo, constantemente, quer renovar a face da terra, socorrendo e saciando a fome e a sede da humanidade. Jesus nos assegura a presença do seu espírito criador e santificador em nosso meio. Convençamo-nos da necessidade da linguagem compreensiva a todos, na busca por um mundo solidário, de justiça, reconciliação e paz.

O mundo fecundado é cheio de graças só a partir de Pentecostes, pelos dons do Espírito Santo derramado por toda a extensão da terra, dons traduzidos em amor e graça no coração dos fiéis. Contamos com o fundamento sólido da palavra de Deus, que, pedagogicamente, quer animar e vivificar os corações dos cristãos, convocando-os a levar adiante a desafiante tarefa, iniciada por Jesus de Nazaré, quando, ao subir ao Pai, prometeu-nos solenemente o Espírito Santo: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (cf. Mt 28, 20). Estejamos sempre mais convencidos de que vida nova, segundo a vontade de Deus-Pai, só mesmo com o Espírito Santo de Deus.

Que sejamos motivados a vencer o medo que parece crescer sempre mais entre nós, dizendo sim à ação criativa do Espírito de Deus. Urge sempre mais a certeza de que o Espírito Santo prometido por Jesus é a própria vida de Deus, causando-nos um novo impulso e um florescimento maravilhoso e responsável. Que o Espírito Santo possa mexer com os corações e a consciência dos seres humanos, agindo nos cristãos e nas pessoas de boa vontade em geral, fazendo-as diferenciadas pela força vivificadora do Espírito Santo de Deus, no amor e no testemunho.

Não nos esqueçamos jamais das palavras de Jesus diante dos empecilhos: “Vós chorareis e vós lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria” (cf. Jo 16, 20). Dentro de uma perspectiva acolhedora, na busca da conversão permanente e da infinita bondade de Deus, de coração aberto ao seu amor misericordioso, coloquemo-nos em estreita sintonia com a linguagem do Espírito Santo de Deus, na diversidade de dons e carismas, na promessa de renovar a face da terra.


*Pároco de Santo Afonso, Jornalista, Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal, integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - geovanesaraiva@gmail.com

Contradição


Nessa era em que há tanta comunicação,
Moram as falas que ficam num surdo grito aos ouvidos humanos.
Num deslizar por teclas e imagens, se veem as pessoas sem tocar a alma humana...
Imensuráveis chances para falar com alguém do outro lado,
Mas, infelizmente, nunca as pessoas estiveram tão sozinhas,
tão envolvidas em seus próprios casulos...
Procuram apenas construir patrimônios,
mas faltam-lhes a vontade de formar sonhos...
Têm herdeiros, mas não filhos...
Possuem casas, não lares!
O mundo tão repleto de barulho, mas elas tão caladas em seu mero egoísmo
A sala de estar tão impecavelmente arrumada, mas o quarto tão repleto do vazio de amor
Muitos corpos que se desnudam para se entregar
Em momentos de tão pouca sintonia
Infinitos olhares para se lançar, mas só se enxerga dor
A vida imensamente à sua frente, no entanto o coração farto de tanto passado
Tantos beijos para ofertar em meio a procrastinação em dizer que quer
Imensuráveis abraços para receber - tanta frieza que mais afasta do que une
Amores líquidos que  se esvaem em semanas
Conquistas feitas por mera satisfação
O se expor virou fetiche
Nada se guarda, tudo se mostra
Como uma vitrine aberta em meio ao caos
De uma sociedade adoecida pela inversão dos sentimentos
Nesse entremeio por tanto desejo de viver
Nada se vive e a solidão ocupa o espaço ao que deveria ser presença
Laços que já não se fazem mais...
Pra quê?
Há tanta pressa que nem se tem tempo de conhecer a si
Quanto mais o outro...
Em meio a tantos fármacos e terapias
Talvez a cura esteja no colo que aconchega
E nas mãos que acariciam
Porque não existe remédio ainda para sarar aquilo
Que se molda em forma de indiferença...
📩 📸 🌐 ▶️