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Crônica ‘Um sol que chega’, da escritora Ayla Andrade

Por Ayla Andrade*

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima
Ia eu escrever sobre o calor que toma nosso corpo e juízo nesses últimos dias. É preciso mesmo ter Fortaleza na alma pra aguentar, sem hesitar, os efeitos do sol na boca, na cabeça, nas dobras do corpo enquanto você derrete ao andar. 
Ia eu escrever sobre esse calor que nos forma, que nos desorienta. Pensei em todas as sensações que a quentura provoca: a pele rachada, a terra rachada, o êxodo. Assola. O sol assola. “Um sol pra cada pessoa” como a gente escuta dizer por aí entre línguas de fora e goles d’água.

As crianças… ia eu dizer sobre as crianças. Vocês já viram como ficam as crianças no centro da cidade, puxadas pelo braço, aquela cara de descontentamento, sufoco e sede eterna?
Ia eu escrever que durante um tempo trabalhei, de manhã a tarde, rodando numa kombi. Sem ar-condicionado, janelas minúsculas e a gente gritando para o motorista: segue pra BR e acelera! Era nossa chance de sobrevivência, um descanso na loucura, alguns minutos de respiro. Desde então tenho pavor de calor. Eu não tomo banho, tomo banhos: antes, durante e depois do calor. Daqueles banhos de senhores sertanejo de antigamente. Molha-se e não enxuga-se. Se é de pingar que seja d’água. Suor em bicas nos tira a dignidade.
Maior prova de amor por aqui é andar de mãos dadas no sol. Já experimentou? É pacto de fluídos para uma vida! É o próprio derretimento das calotas coronárias através das mãos suarentas. Ia escrever sobre isso também.
Ia dizer eu que o calor de dentro pode não ser tão mordaz quanto o de fora, em Fortitudine, e que a gente já foi bem juntinho da Nigéria um dia e que nossas dunas talvez sejam irmãs. O calor de lá como o de cá.
Pensei ainda que a menopausa nos espreita em algum lugar do relógio. Preciso pensar em planos ou panos que resfriem as carnes por dentro e por fora quando Dezembro chegar.
Ia eu dizer, enquanto ofegava no ônibus em busca de ar, que as pracinhas da cidade são mais importantes que as igrejas porque somos de uma modorra herdada geração a geração, fundida pelo sol.

Ia eu escrever que o calor pode nos tornar resistentes, duros, secos, mas preparados e pertinazes. Antes de tudo, fortes.
Ia eu escrever sobre tudo isso, mas choveu.
E me apascentei em calma e umidade aqui na rede.

Ayla Andrade

Outubro, 2017
*Ayla Andrade é assistente social, cronista, contista e amante do cotidiano. Ela já publicou o livro Mais feliz dos silêncios (Editora Substânsia, 2014) e publicou contos em algumas antologias, entre elas Encontos e desencontos, Antologia Massanova e O cravo roxo do Diabo: o conto fantástico no Ceará.
Blog O Povo

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