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Morre o poeta e cordelista Luciano Carneiro, por Covid-19

Mestre da Cultura morava desde os 16 anos no Crato


Legenda: Mestre Luciano Carneiro morre, aos 78 anos Foto: Jarbas Oliveira/Reprodução Livro dos MestresMorreu, nesta quinta-feira (23) o poeta e cordelista Luciano Carneiro, aos 78 anos. Ele foi diagnosticado com Covid-19. Em 2008, Carneiro foi nomeado Mestre da Cultura Popular pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult).

Natural da Paraíba, o poeta mudou-se para o Crato, no Cariri, aos 16 anos de idade, cidade onde desenvolveu a arte com as palavras enquanto trabalhava com outras funções, como agricultor, carroceiro e vigia. "Quando eu tinha dez anos de idade, eu já fazia um versinho completo, metrificado, já entendia um pouco", afirmou em entrevista.

O reconhecimento de sua poesia veio a partir de 1975, quando começou a divulgar suas obras no programa Coisas do Meu Sertão. Participou também da fundação da Academia dos Cordelistas do Crato, em 1991. Lançou ainda o livro "Onde Mora a Poesia", aos 75 anos. 

A morte de Luciano Carneiro foi lembrada pela Secult, que emitiu nota de pesar. "Os versos hoje são de tristeza e pesar. A Secretária da Cultura do Ceará (Secult Ceará) celebra a vida e a obra do nosso querido mestre Luciano Carneiro que faleceu, nessa quinta-feira, dia 23 de julho, vítima da Covid-19. O céu se abre em poesia, como o mestre tanto queria, para receber sua melodia, para festejar sua travessia. Viva o mestre, o Ceará agradece seu legado, reconhece sua arte, sua maestria. Que a encantaria lhe receba bem em sua nova moradia. São os votos da Secult Ceará e do povo cearense".

Diário do Nordeste

Obra do poeta e letrista Jorge Salomão é reunida em '7 em 1'

Antologia mostra várias facetas do artista baiano radicado no Rio de Janeiro, que morrreu no último dia 9
O escritor baiano era um incansável defensor da cultura brasileiro
O escritor baiano era um incansável defensor da cultura brasileiro (Rita Capell)
Jovino Machado*
MosaicalO olho do tempoCampo da AmérikaSonoroA estrada do pensamentoConversa de mosquitos e Alguns poemas e mais alguns são os sete livros do poeta e agitador cultural Jorge Salomão, reunidos no volume 7 em 1, pela Editora Gryphus. Essa é uma ótima oportunidade para os leitores de poesia que já conhecem a poesia do baiano e também para aqueles que querem conhecer, mas não encontram os livros nas livrarias. Com sua recente morte, esta antologia se faz ainda mais pertinente e necessária.
A maior parte desses textos foram lançados ao longo do tempo em pequenas tiragens e só em 2019 foram reeditados. A poesia musical que se apresenta nessa bela antologia é também obra de um maravilhoso letrista que teve como parceiros Roberto Frejat, Nico Rezende, Guto Goffi, Dé e muitos outros. Suas letras foram gravadas por feras da MPB, como Marina Lima, Adriana Calcanhoto e Cássia Eller, entre outros.
Na resenha publicada na Folha de São Paulo no último 9 de março, o resenhista escreve que a poesia de Jorge Salomão encerra a discussão sobre o antigo debate se letra de música é poesia ou não. Discordo e acho até infantil que se escreva ainda sobre esse assunto, mas aproveito esse texto para discordar.
Na minha bêbada e imodesta opinião, são duas coisas bem diferentes porque o poema é feito para ser lido e a letra tem que ter um casamento perfeito com a música. Minha intenção não é ofender ou provocar os letristas, mesmo porque o poeta de quem vou falar aqui sabia jogar em várias posições e fazia muitos gols nos livros e nas suas parcerias que já fazem parte da história da música brasileira.
Mosaical
"Criar não é tarefa do artista. Sua tarefa é mudar o valor das coisas", é uma frase de Yoko Ono, citada por Hélio Oiticica na revista Navilouca. Jorge Salomão cria e transforma o caos em ondas e em mensagens que não puderam navegar em uma garrafa que se partiu antes de chegar ao mar. Sua sensibilidade silenciosa não dá ouvidos para as saudades fincadas no cais e, por isso, retrata o mundo a partir do seu coração de poeta.
Se para Jorge Luis Borges, "Judas reflete Jesus", para Jorge, a dança não reflete o barulho e o barco não encalha na primeira onda do desejo. Poesia contaminada por diversas informações e sensibilidades de um autêntico mutante que nunca negou a sua raça e, em cada segundo de eternidade em sua vida, não teve nenhum medo de andar na corda bamba.
Num mundo onde a poesia ainda é (e sempre será) o patinho feio das artes, é digno de nota essa iniciativa incrível de resgatar poemas, que até pouco tempo só poderiam ser encontrados nos sebos virtuais e também nos empoeirados. A combinação de palavras e sonoridades não tem a velocidade das redes sociais, pois foi construída ao longo de muitos, com calma, talento e criatividade. É poesia pura ao rés do chão, do sapato furado, da barriga vazia, das fraturas expostas que saltam aos olhos como as sete cores do arco-íris, como um foguete que explode no ar.
Nesse mapa da alma do bardo, vejo o camelô comendo vidro, vejo o artista de rua soprando fogo nos sinais em dias de chuva e trovoadas. E é trovejando que essa obra amassa a massa do pão da alma. No seu redemoinho de vento e som, o poeta sabe que a poesia é risco, e mesmo assim insiste porque sempre soube que era essa a sua sina.
Ao longo da vida levantou muitas bandeiras pela liberdade e pertenceu a uma geração do desbunde, uma geração que leu Bandeira e deu bandeira. Na verdade, o 7 em 1 pode ser lido como um só livro composto de capítulos alinhavados como tapetes voadores das Mil e uma noites.
O olho do tempo e Campo da Amérika
Em tempos de mini-contos, mini-textos, mini-poemas e mini-poetas, o segundo e o terceiro livros nos brinda com uma belíssima prosa provocação, uma metralhadora que dispara inúmeras referências, influências, muitas citações, personagens reais e imaginários. Esses dois livros têm toda a pinta de uma pequena novela pop, uma peça de teatro para direção coletiva, um roteiro para televisão, para uma série do Canal Brasil, ou mesmo um roteiro pronto para Júlio Bressane ou Ivan Cardoso, colegas de geração do poeta.
Com a musicalidade natural dos poetas letristas, o baiano costura o texto como uma costureira alinhava as dobras de um vestido, como uma cozinheira prepara uma feijoada, como um filho de santo dança numa cerimônia de candomblé. É uma prosa política-poética, descabelada, hedonista, selvagem, ziguezagueando por guitarras, flautas, pianos e atabaques.
É poesia feita sob as asas de um dragão que bebe nos crânios dos amigos e dos inimigos, nadando num mar azul com cheiro de noite. Quem o ofende perde a língua, quem o ama ganha um coração. Nessas duas obras-irmãs, o sátiro Salomão constrói uma espécie de monumento que se instala na paisagem pelo gesto de dançar como uma bandeira dança no meio da torcida, num estádio de futebol.
Sonoro
No sonoro quarto livro os versos quebrados retornam com a intenção de descansar o leitor que ficou sem fôlego com os livros anteriores. Sonoro é a transformação do registro pessoal de vida em poesia. É a conquista de um sotaque próprio, marcado pela enumeração entrecortada, em que o corpo do poema se abre aos objetos do mundo para expressar o universo emocional. Sem derrapar para a lassidão confessional, comum aos poetas que supõem que à poesia bastam os sentimentos, esse sotaque vai se afirmando como linguagem a cada poema, com a fluência tão natural de seus ritmos irregulares, com suas subversões sintáticas instaurando quebras na linearidade discursiva, suas assonâncias entrelaçando delicadas correspondências de som e sentido, suas montagens cinematográficas, sua despontuação. O livro se encerra com o emblemático Manifesto, que lembra muito o espírito combativo do modernista Oswald de Andrade.
A estrada do pensamento
Meu ouvido atento às sonoridades volta a ouvir os tambores nessa estrada do pensamento que retoma a "proesia" que caminha na direção do horizonte, e se o leitor o deixa escapar, percebe que o horizonte é uma definição de lugar a chegar e onde nunca se chega.
Os dois últimos livros: Conversa de mosquitos e Alguns poemas e mais alguns confirmam que a língua-faca do poeta nunca se enferruja, ao contrário, ao longo do tempo se torna cada vez mais afiada, brindando a vida com aqueles que tiveram a felicidade e a coragem de penetrar na selva lírica de sua obra.
Salve, Jorge!!!
7 EM 1 – ANTOLOGIA
De Jorge Salomão
Gryphus
252 páginas
R$ 59,90 (livro) e R$ 24,90 (e-book)
*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).

Poesia

Por Gonzaga Mota - Professor aposentado da UFC

A criação poética é a expressão maior da literatura. Nela, estão explícitos ou implícitos o amor, a dor, a tristeza, a alegria, a saudade, enfim sentimentos vários que podem caracterizar o estado de espírito do poeta ou de quem ler e interpreta. A inspiração e a liberdade de pensamento são dois pilares fundamentais para a concepção de um texto poético. Assim disseram: Fernando Pessoa (“Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar”) e Carlos Drummond de Andrade (“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”). Pedimos permissão ao leitor para apresentar-lhe três poesias que concebemos em épocas diferentes. 1- Sentimentos (4 estrofes, cada uma com 3 versos): Inveja só traz desilusão, Odiar maltrata a vida, Pior somente a ingratidão/ Perdoar sempre será boa ação, Ajudar dá prazer e alegria, São atitudes vindas do coração/ Ser arrogante conduz à dor, Já humilde encontra a paz, O saber viver é doar-se com amor/ Ao lado dos justos Deus estará, Pois quem possui compaixão, Das trevas ou da escuridão longe ficará. 2- Educação infantil (3 estrofes, cada uma com 4 versos): Toda criança deverá ser amada, Ao crescer será pessoa generosa, Os pais poderão ensinar a boa caminhada, Aconselhando para uma vida gloriosa/ Não importa a classe social, Felicidade encontra-se na educação, Criança não deve viver fora da escola, Pior pedindo a humilhante esmola/ Todos nós somos responsáveis, Por uma educação eficaz, A alegria de uma criança educada, Será a garantia de vidas em paz. 3- Sextilha da superação (1 estrofe com 6 versos): As dores na mente e no corpo, Quase sempre juntas estão, A luta pela difícil superação, Traz sofrimento e maltrata o coração, A união da fé e da razão, Poderá ser a verdadeira solução. Eis, pois, um pouco de reflexão poética.

Poeta cria definições em busca do sentido fugidio

'Dicionário de imprecisões', de Ana Elisa Ribeiro, transforma em poesia e confere afeto aos significados das palavras
A poeta mineira Ana Elisa Ribeiro apresenta mais uma obra lúdica em que e afetiva sobre o cotidiano e a memória.
A poeta mineira Ana Elisa Ribeiro apresenta mais uma obra lúdica em que e afetiva sobre o cotidiano e a memória. (Eduardo Ribeiro Rocha)
“Amor
Substantivo masculino mas de todos os gêneros, singular
_________________________________________________________________
Acalmar os ânimos. Arrefecer.
Velocidade de cruzeiro.
Sujeito a derivações, desvirtuações, vícios e fim.
Ver paixão.”

Por Adriane Garcia*
Já dizia Mario Quintana que “todos os poemas são de amor”, mesmo se um poeta falar de um gato. Foi esse o verso que me veio à memória enquanto ainda estava nas primeiras páginas do Dicionário de imprecisões, de Ana Elisa Ribeiro. O decorrer da leitura confirmou a declaração do querido poeta gaúcho, que certamente teria gostado do humor e da ironia fina no livro da autora, coisas que lhe eram tão afeitas em poesia.
Partindo de verbetes, a poeta escreve seu dicionário afetivo. Escolhe as palavras que irão compô-lo e constrói poemas com um ritmo peculiar, e isto é muito interessante: que grande parte do livro faz o poema dançar ao som do que sabemos ser leitura de dicionário; porém quem acompanha a poesia de Ana Elisa Ribeiro sabe que sua voz poética vem nos mostrando uma habilidade de falar sério e brincar, no mesmo poema, ao mesmo tempo, com tema e forma. Falando em habilidade, neste dicionário, os fechamentos dos poemas são como fagulhas acendendo o pensamento, ora para confirmá-lo, ora para traí-lo: poesia repleta de inusitado.
Também é de se notar que em Dicionário de imprecisões a poeta traz seus conhecimentos da área de linguística para a poesia, assim como estabelece o contrário. É brincando com a organização que ela desorganiza, seu campo de estudos é invadido e invade, valida e invalida, define e indefine. O resultado é um livro delicioso, que alcançará várias camadas de sensibilidade, efeito da poesia que sabe se aproveitar de todos os meandros de uma palavra.
Se a poeta fala de amor, também fala de política (“a América do Sul padece/ da síndrome de Estocolmo?”), da experiência de ser uma mulher, sobretudo uma mulher que escreve – fala de feminicídio; fala da maternidade, da própria página em branco, antes do poema; do objeto livro, do sentimento medo; sobre as definições e indefinições dos gêneros quanto à sexualidade, afinal, “nos dicionários isso é mais simples do que na vida”. Os poemas chegam a abranger o grande problema nacional da leitura (“No país, vamos precisando de óculos/ que ajudem a interpretar”), assim como em um deles, Ouro Preto, retoma a fotografia, tema de seu livro anterior, Álbum. Curioso e bonito: Saudade ganha um lugar especial no dicionário.
O livro, com projeto gráfico muito bonito de Elza Silveira, conta com ilustrações de Wallison Gontijo e traz, ao final, um índice curioso, em que o leitor, só após a leitura dos poemas, dá-se conta de que leu um dicionário incompleto em que algumas letras iniciais não são contempladas. Esse é um ponto interessante, pois a poeta, quando definia um de seus verbetes, Dicionário, já havia nos avisado que nenhum dicionário é capaz de abarcar toda a experiência de um sujeito e, por isso, um dicionário “deve ser lido com intensa fé”. Lemos o dicionário de Ana Elisa Ribeiro com fé, e até vermos o índice, acreditamos que tudo está ali – então que nos deparamos com a falta de que a poesia cuida.
Voltando ao primeiro parágrafo e ao verso de Mario Quintana, Dicionário de imprecisões é um livro sobre o amor. Por isso dedica uma página para definir “Agora”. Pois o amor é urgente. Já a palavra “urgente” não entra em seu dicionário, porque os bons livros são aqueles que deixam alguma coisa para o leitor escrever.
Escadas
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Substantivo feminino aqui no plural
Escalera é vocábulo do espanhol para nossa escada.
Escadas são para escalar, por supuesto,
e me atraem as coisas mais literais.
No entanto, escadas podem servir para sentar e descansar ou
sentar e chorar, como fiz quando entreguei meu filho ao pai
pela primeira vez.
As escadas laterais do edifício em que trabalho servem para
amantes telefonarem para suas e seus amores,
além de abrigarem casais fazendo sexo,
às vezes, arriscando, amorosamente, suas reputações.
Nunca ouvi dizer que tenham se arrependido.
Filho
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Substantivo, aqui masculino e sujeito a plural
1. Diz-se daquele que nasce das entranhas de alguém.
2. Diz-se daquele que se forma a partir da matriz biológica
de seus pais e nasce das entranhas da mulher.
3. Diz-se daquele que pode ser adotado por pessoas
dispostas ao amor.
4. Diz-se daquele que provê céus e infernos a outrem.
5. É extremamente comum que tenha como mãe uma puta.
6. É também comum que não sejam mesmo putas suas mães.
7. Os pais escapam a essas acusações.
8. Os dicionários não podem definir essas relações
satisfatoriamente.
***
DICIONÁRIO DE IMPRECISÕES
De Ana Elisa Ribeiro
Ilustrações Wallison Gontijo
Edições de Minas
134 páginas
R$ 35
* Adriane Garcia (BH/MG) é poeta, historiadora e arte-educadora.
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