Obra do poeta e letrista Jorge Salomão é reunida em '7 em 1'

Antologia mostra várias facetas do artista baiano radicado no Rio de Janeiro, que morrreu no último dia 9
O escritor baiano era um incansável defensor da cultura brasileiro
O escritor baiano era um incansável defensor da cultura brasileiro (Rita Capell)
Jovino Machado*
MosaicalO olho do tempoCampo da AmérikaSonoroA estrada do pensamentoConversa de mosquitos e Alguns poemas e mais alguns são os sete livros do poeta e agitador cultural Jorge Salomão, reunidos no volume 7 em 1, pela Editora Gryphus. Essa é uma ótima oportunidade para os leitores de poesia que já conhecem a poesia do baiano e também para aqueles que querem conhecer, mas não encontram os livros nas livrarias. Com sua recente morte, esta antologia se faz ainda mais pertinente e necessária.
A maior parte desses textos foram lançados ao longo do tempo em pequenas tiragens e só em 2019 foram reeditados. A poesia musical que se apresenta nessa bela antologia é também obra de um maravilhoso letrista que teve como parceiros Roberto Frejat, Nico Rezende, Guto Goffi, Dé e muitos outros. Suas letras foram gravadas por feras da MPB, como Marina Lima, Adriana Calcanhoto e Cássia Eller, entre outros.
Na resenha publicada na Folha de São Paulo no último 9 de março, o resenhista escreve que a poesia de Jorge Salomão encerra a discussão sobre o antigo debate se letra de música é poesia ou não. Discordo e acho até infantil que se escreva ainda sobre esse assunto, mas aproveito esse texto para discordar.
Na minha bêbada e imodesta opinião, são duas coisas bem diferentes porque o poema é feito para ser lido e a letra tem que ter um casamento perfeito com a música. Minha intenção não é ofender ou provocar os letristas, mesmo porque o poeta de quem vou falar aqui sabia jogar em várias posições e fazia muitos gols nos livros e nas suas parcerias que já fazem parte da história da música brasileira.
Mosaical
"Criar não é tarefa do artista. Sua tarefa é mudar o valor das coisas", é uma frase de Yoko Ono, citada por Hélio Oiticica na revista Navilouca. Jorge Salomão cria e transforma o caos em ondas e em mensagens que não puderam navegar em uma garrafa que se partiu antes de chegar ao mar. Sua sensibilidade silenciosa não dá ouvidos para as saudades fincadas no cais e, por isso, retrata o mundo a partir do seu coração de poeta.
Se para Jorge Luis Borges, "Judas reflete Jesus", para Jorge, a dança não reflete o barulho e o barco não encalha na primeira onda do desejo. Poesia contaminada por diversas informações e sensibilidades de um autêntico mutante que nunca negou a sua raça e, em cada segundo de eternidade em sua vida, não teve nenhum medo de andar na corda bamba.
Num mundo onde a poesia ainda é (e sempre será) o patinho feio das artes, é digno de nota essa iniciativa incrível de resgatar poemas, que até pouco tempo só poderiam ser encontrados nos sebos virtuais e também nos empoeirados. A combinação de palavras e sonoridades não tem a velocidade das redes sociais, pois foi construída ao longo de muitos, com calma, talento e criatividade. É poesia pura ao rés do chão, do sapato furado, da barriga vazia, das fraturas expostas que saltam aos olhos como as sete cores do arco-íris, como um foguete que explode no ar.
Nesse mapa da alma do bardo, vejo o camelô comendo vidro, vejo o artista de rua soprando fogo nos sinais em dias de chuva e trovoadas. E é trovejando que essa obra amassa a massa do pão da alma. No seu redemoinho de vento e som, o poeta sabe que a poesia é risco, e mesmo assim insiste porque sempre soube que era essa a sua sina.
Ao longo da vida levantou muitas bandeiras pela liberdade e pertenceu a uma geração do desbunde, uma geração que leu Bandeira e deu bandeira. Na verdade, o 7 em 1 pode ser lido como um só livro composto de capítulos alinhavados como tapetes voadores das Mil e uma noites.
O olho do tempo e Campo da Amérika
Em tempos de mini-contos, mini-textos, mini-poemas e mini-poetas, o segundo e o terceiro livros nos brinda com uma belíssima prosa provocação, uma metralhadora que dispara inúmeras referências, influências, muitas citações, personagens reais e imaginários. Esses dois livros têm toda a pinta de uma pequena novela pop, uma peça de teatro para direção coletiva, um roteiro para televisão, para uma série do Canal Brasil, ou mesmo um roteiro pronto para Júlio Bressane ou Ivan Cardoso, colegas de geração do poeta.
Com a musicalidade natural dos poetas letristas, o baiano costura o texto como uma costureira alinhava as dobras de um vestido, como uma cozinheira prepara uma feijoada, como um filho de santo dança numa cerimônia de candomblé. É uma prosa política-poética, descabelada, hedonista, selvagem, ziguezagueando por guitarras, flautas, pianos e atabaques.
É poesia feita sob as asas de um dragão que bebe nos crânios dos amigos e dos inimigos, nadando num mar azul com cheiro de noite. Quem o ofende perde a língua, quem o ama ganha um coração. Nessas duas obras-irmãs, o sátiro Salomão constrói uma espécie de monumento que se instala na paisagem pelo gesto de dançar como uma bandeira dança no meio da torcida, num estádio de futebol.
Sonoro
No sonoro quarto livro os versos quebrados retornam com a intenção de descansar o leitor que ficou sem fôlego com os livros anteriores. Sonoro é a transformação do registro pessoal de vida em poesia. É a conquista de um sotaque próprio, marcado pela enumeração entrecortada, em que o corpo do poema se abre aos objetos do mundo para expressar o universo emocional. Sem derrapar para a lassidão confessional, comum aos poetas que supõem que à poesia bastam os sentimentos, esse sotaque vai se afirmando como linguagem a cada poema, com a fluência tão natural de seus ritmos irregulares, com suas subversões sintáticas instaurando quebras na linearidade discursiva, suas assonâncias entrelaçando delicadas correspondências de som e sentido, suas montagens cinematográficas, sua despontuação. O livro se encerra com o emblemático Manifesto, que lembra muito o espírito combativo do modernista Oswald de Andrade.
A estrada do pensamento
Meu ouvido atento às sonoridades volta a ouvir os tambores nessa estrada do pensamento que retoma a "proesia" que caminha na direção do horizonte, e se o leitor o deixa escapar, percebe que o horizonte é uma definição de lugar a chegar e onde nunca se chega.
Os dois últimos livros: Conversa de mosquitos e Alguns poemas e mais alguns confirmam que a língua-faca do poeta nunca se enferruja, ao contrário, ao longo do tempo se torna cada vez mais afiada, brindando a vida com aqueles que tiveram a felicidade e a coragem de penetrar na selva lírica de sua obra.
Salve, Jorge!!!
7 EM 1 – ANTOLOGIA
De Jorge Salomão
Gryphus
252 páginas
R$ 59,90 (livro) e R$ 24,90 (e-book)
*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).

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