Destaque

Choram porque amam

Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

25 de junho de 2018

31 livros foram lançados durante o Festival Vida & Arte

(Foto: Julio Caesar/O POVO)
Durante os quatro dias de Festival Vida & Arte, a programação de literatura  do evento recebeu 31 lançamentos de livros. O FVA também contou com nove relançamentos e um pré-lançamento. “O festival reúne praticamente todas as formas de arte, de representação artística. A literatura é uma delas, então não poderia ficar de fora. Tivemos dois espaços importantes, a Cafeteria Espiritual, com lançamentos de autores locais e saraus, e o 1º Mezanino, que também teve lançamentos de livros e debates sobre literatura com autores locais, nacionais e internacionais”, afirma Regina Ribeiro, editora-executiva da Editora Dummar.
 
Segundo Regina, a ideia foi de que a literatura tivesse uma expressão importante no evento e que os visitantes pudessem ter contato com a obra de escritores contemporâneos. “É importante destacar o livro da Juliana Diniz, uma jovem escritora que estreou no romance. Acredito que é uma forma de colocá-la, como escritora, e também sua literatura em contato com novos autores”, explica a editora, que também destaca o livro Cinema Falado, de Emerson Maranhão e Breve História da Arquitetura Cearense, de Romeu Duarte.
 
De acordo com o presidente da Associação Cearense de Escritores (ACE) Silas Falcão, a entidade lançou 11 livros de seus associados durante a programação. “Há muito tempo a gente trabalha a divulgação de escritores cearenses nos eventos que fazemos. A finalidade [da Associação] é divulgar a literatura local com um ponto bem específico: os autores que estão iniciando”, afirma.
 
Um dos títulos lançados pela ACE Edições foi Fez-Se Dezembro em Nós, de prosa e poesia, parte do projeto Edições em Co-Autoria, que reúne escritores para que possam dividir os custos e a produção da publicação. “Foi uma maneira que nós encontramos de, a um custo baixo, porque é tudo dividido, editar pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de publicar um livro”, explica o presidente.
 
Confira os lançamentos:
Abstrações – Eduardo Fontenele (Editora Autografia Edições)
Fez-se Dezembro em nós – Eudismar Mendes, Lucirene Façanha, Nice Arruda e Núbia Brilhante (ACE Edições)
Uma breve história da Arquitetura Cearense - Romeu Duarte (Editora Dummar)
Magia da Vida - Rita Upadhi Maggi
O Despertar de Homens Comuns - Nelson Liano (Editora Best Seller)
Pássaros Neófitos - José Rubens (Expressão Gráfica)
Quase 50, entre contos e encantos - Ana Valéria Moraes (Editora Reflexão)
Literatura cearense: outra história - Rodrigo Marques (Editora Dummar)
Mindfulness para uma vida melhor - Edu Farah
A verdadeira história de Frederico - Camila Barbosa (Editora Dummar)
Para minha mãe - Lilesh Varí Parvati (Editora Dummar)
A grande casca do S - Jorge Pieiro
Apenas viva sem mim - Maria Eduarda Duarte (Premius Editora)
Bullying estou fora - Evandro Ferreira (Premius Editora)
Cinema falado - Émerson Maranhão (Editora Dummar)
Memória dos ossos - Juliana Diniz (Editora Dummar)
Poesia reunida - Bruna Lombardi 
Clímax - Bruna Lombardi 
O jogo da felicidade - Bruna Lombardi 
O medo do sucesso - Ingra Lyberato
Os olhos da janela - Marília Lovatel (Editora Dummar)
Perfis de mulheres cearenses - Gildenia Moura, Wellington Rodrigues, Nadya Gurgel e Maria de Jesus (Arte Visual Gráfica e Editora)
O homem do último dia do mundo - Renato Pessoa (Luazul Edições)
Cruzeiro, vida e metamorfose - Frei Hermínio
Cadastro dos Desesperados - Dimas Carvalho (Expressão Gráfica)
O desespero do sangue - Zélia Sales (Luazul Edições)
Micro poemas - Rosa Morena (Luazul Edições)
Lúcia Rocha Dummar, a guardiã da memória - Lúcia Dummar (Armazém da Cultura)
Miltons poéticos e outros diversos - Carlos Dantas (Editora A Radiadora)
Fitá - Karla Tenório, Duda Coutinho e Padmini (Editora Dummar/Sextante)
Padre Cícero: o filme - Raymundo Netto (Edições Demócrito Rocha)

O Povo

Vanessa Ferrari, Rafaela Deiab e Pedro Schwarcz: Literatura no cárcere

Desde 2013, quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) autorizou a remição da pena pela leitura, 5.547 detentos foram beneficiados por esse projeto no Brasil, segundo dados de 2016 do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), sistema que reúne as informações do sistema prisional.
É um número baixo, se comparado com as quase 700 mil pessoas privadas de liberdade em todo o país. A recomendação do CNJ determina que, a cada livro lido, é possível reduzir quatro dias da pena. Para isso, o leitor deve escrever um resumo da obra que deve ser aprovado por um parecerista. Esses documentos seguem para o juiz responsável, que julga o pedido de remição.
Medir os benefícios dessa proposta, para além da redução da pena, tem gerado debates acalorados entre os que veem na leitura ganhos efetivos para a reintegração do indivíduo à sociedade e os que a avaliam como um privilégio concedido a pessoas que, de algum modo, causaram danos à população. Sem entrar no mérito dessa discussão, é fato que, dentro ou fora da prisão, as benesses da leitura são muitas e difíceis de mensurar.
De costas, homem com uniforme de presidiário lê livro
Detento participa de projeto de leitura em Governador Valadares (MG) - Carlos Alberto/Imprensa MG
 
Uma pesquisa feita em 2017 pela editora Companhia das Letras, que há três anos, em parceria com a Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel (Funap), subsidia um projeto de clubes de leitura e remição de pena em doze unidades prisionais do estado de São Paulo, indicou que os ganhos são mais concretos do que se pode imaginar à primeira vista.
Durante um ano, 177 detentos se reuniram mensalmente para discutir uma obra selecionada pela curadoria do projeto. Esses encontros foram pautados pela diversidade literária, pelo grau de dificuldade das obras e conduzidos por um mediador da Funap, capacitado para acolher opiniões diversas e instigar o debate. Esse grupo respondeu a um questionário sobre sua relação com a literatura, antes e depois da entrada no projeto, com foco nos hábitos de leitura, nas mudanças no cotidiano, nas habilidades de comunicação e, ainda, acerca de uma nova visão de si e do mundo.
No campo da formação do leitor, os participantes, que antes procuravam livros de um autor conhecido e recomendavam leituras aos outros detentos, passaram a debater sobre as obras e compará-las, a buscar novos autores e a frequentar de maneira mais assídua a biblioteca de sua instituição. Entre os que tinham ensino fundamental e médio, 65% relataram que a leitura se tornou "extremamente importante" depois de tomarem parte no projeto. Anteriormente, esse percentual era de 21% e 44%, respectivamente.
Do ponto de vista dos ganhos individuais e sociais, quando perguntados sobre as eventuais mudanças percebidas em si próprios, a resposta mais frequente foi que os envolvidos conseguiram perceber uma "ampliação de conhecimentos".
Em segundo, que se sentiam mais motivados "para traçar planos para o futuro". Na sequência, aparecem motivações como "capacidade de reflexão" e de "expressar sentimentos", possibilidade de "dizer o que pensa", "maior criatividade" e, por último, "maior criticidade".
De qualquer ângulo que se procure observar, esses ganhos já seriam significativos, pois no ambiente prisional revelam uma extraordinária mudança na chave da autoestima. O certo é que os leitores passam a reconhecer suas competências sociais e intelectuais e, como consequência, revelam o desejo de traçar planos para o futuro.
A reintegração na sociedade é complexa e depende de muitos fatores para ser bem-sucedida. Mais prudente do que enxergar a literatura como tábua de salvação é olhar para o espírito de projetos como esse, em que ganham o participante --que se sente respeitado e recompensado por seu esforço--e a sociedade, que recebe de volta alguém mais esperançoso, mais crítico e mais determinado a reescrever sua história.
Vanessa Ferrari
Editora e mestre em crítica textual pela Universidade de São Paulo; professora no curso de pós-graduação para escritor do Instituto Vera Cruz e ex-editora da Companhia das Letras
Rafaela Deiab
Graduada em ciências sociais e mestre em antropologia social pela Universidade de São Paulo; coordenadora do departamento de educação da Companhia das Letras

Pedro Schwarcz
Ator, formado pelo Teatro Escola Célia Helena, com participação nos espetáculos “Querô, uma reportagem maldita”, de Plínio Marcos, “Medida por medida”, de William Shakespeare, entre outros

Fonte: Folha de São Paulo

Padre casado e esposa escrevem livro sobre experiência de abandonar a batina para casar

O teólogo Geraldo Frencken e a educadora Claudete da Silva Morais Francken escreveram relatos sobre suas vidas com o objetivo de contribuir com o diálogo sobre o relacionamento de um “padre casado”. A experiência resultou no livro “Quebrando o silêncio – um relato vivencial “.
Dados mais recentes contabilizam mais de 100 mil “padres casados” pelo mundo, sendo cerca de oito mil no Brasil: homens que, com as esposas, pensam diferente sobre modelos preestabelecidos e, geralmente, pouco comentados.
Para o padre Geraldo Frencken, o que o motivou a escrever foi a dificuldade de abordar esse tema em um âmbito que não fosse a igreja. “Chegamos a entender que, se esse assunto se espalhasse em termos de reflexão, as pessoas teriam outra visão a respeito disso”.
Para abranger todas as linguagens, o padre comentou que – enquanto estavam escrevendo – deixavam outras pessoas analisarem o texto. “As pessoas liam e faziam algumas observações, isso servia para eu saber se o tom do livro estava certo”. Geraldo, que começou a escrever o livro há quatro anos, teve que parar por conta de problemas de saúde e retornou há um ano. “Eu era padre e casei, mas ainda continuo sendo padre, só não posso mais exercer as funções”.
Serviço:
Livro “Quebrando o silêncio – um relato vivencial”
Onde comprar: Centro de pastoral Maria Mãe da Igreja (Rua Rodrigues Júnior, 300)
Preço: R$ 30

Tribuna do Ceará

Confira entrevista com o escritor e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito

por Diego Barbosa - Repórter
Image-0-Artigo-2417567-1
O escritor Ronaldo Correia de Brito: "narrativas não são gratuitas" ( Foto: Luiz Santos )
Quando começou a esboçar seus primeiros escritos, no tenebroso Recife de 1970 - no auge da repressão da ditadura militar -, Ronaldo Correia de Brito já demonstrava o curso que ia seguir no segmento literário. Muito dessa perspectiva se deu face às vivências que coletava enquanto jovem e descobridor de um mundo diverso, povoado de indivíduos que carregavam, cada um à sua maneira, histórias próprias e narrativas dispersas. Natural de Saboeiro, interior do Ceará, e radicado em terras recifenses, o escritor, médico e dramaturgo sempre demonstrou interesse pelas relações que rompem o microcosmos de uma fala e ganham corpo a partir da experiência coletiva de diálogo com os universos intrínsecos aos seres. Em suas criações, nada é isolado do mundo. Ainda que a solidão abrace alguns personagens, eles estão sempre imersos em um arranjo histórico que os conecta com a vastidão de fatos e acontecimentos que permeiam a humanidade. São aspectos que residem e ganham moderna textura em seu mais novo romance, "Dora sem véu". Em entrevista ao Diário do Nordeste, Ronaldo - vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e autor de livros como "Galileia" (2008) e "Estive lá fora" (2012) - dimensiona aspectos que estão ligados à sua recente empreitada literária, entremeando visões acerca do fazer artístico que se concretiza a partir da fala e da escrita.
Quais foram suas inspirações para escrever "Dora sem véu"?
Eu diria que a inspiração - se não inspiração, a busca, a tentativa de alcance desse livro - é o diálogo permanente entre passado histórico, passado mítico (que, em nós, nordestinos, é muito forte) e essa pós-modernidade que nos dilacera e nos tem deixado perplexos e perdidos. Ele se passa no Brasil de agora, com todas as questões de agora, em um país que dialoga com os mesmos problemas de outros lugares do mundo. Eu descubro, por exemplo, que os nossos campos de concentração - que eram chamados de "currais do governo" aí no Ceará, uma coisa absurda que a História escondeu completamente - são rigorosamente iguais não aos campos de concentração nazistas, mas aos campos de refugiados na Europa toda. Quando narro, sempre o faço com a perspectiva do passado dialogando com o presente para dizer que a história é um permanente fluxo. Ou, se preferir, é um eterno retorno (nietzschiano) ou um rio que não para de correr, do grego Heráclito. Isso que desenvolvo é algo que se pode chamar de romance de ideias, que são aqueles que, além de contar uma boa história, são capazes de pensar o tempo passado e o presente, comparando, questionando, propondo e citando. No Brasil, percebo que há uma certa recusa a esse tipo de romance, por sinal.
Considerando esse seu trabalho com a temporalidade, como foi o processo de pesquisa para situar, na obra, eventos históricos e conectá-los às discussões da contemporaneidade?
Precisei pesquisar bastante sobre os currais de governo; sobre os campos de migração, esses presentes em países como Grécia, França, Alemanha e Áustria; e precisei, sobretudo, ler muito sobre a questão dos negros no Brasil e a questão da Amazônia, pelo fato de ela ter sido sempre considerada uma propriedade dos países ricos. Agora que temos um perigo talvez maior de perdê-la do que em toda a história, fiz questão de narrar aquele papo real que foi a Expedição Thayer, quando o Louis Agassiz esteve aqui no Brasil com a intenção de investigar a floresta como o lugar para o qual os americanos deportariam todos os seus negros com medo do hibridismo. É algo que está presente no livro. Tudo lá está plantado para as pessoas se remexerem e irem atrás de descobrir mais sobre os fatos.
O romance se passa em diferentes cenários (ora em Pernambuco, ora em Juazeiro do Norte, ora nas paisagens do Norte, além de em países como a França), percorrendo, assim, muitas geografias territoriais e sentimentais. Qual sua intenção em fazer os leitores transitarem por esse grande número de lugares?
A minha intenção é dizer que já não há mais geografias e que nós, cearenses, sacamos isso muito cedo. A nossa mobilidade aí no Ceará é impressionante e ninguém considera isso. Fala-se tanto em ciclos migratórios e ninguém nunca levou a sério as nossas migrações. Construímos o Norte, criamos o Acre, fizemos São Paulo, Brasília, o Rio de Janeiro, o Paraná, o Mato Grosso, Goiás. Aumentamos o território brasileiro. Estamos também em Portugal, na França, no mundo? O que eu quero falar, na verdade, é de permeabilidade, porque quero me sentir cada vez mais permeável. Quero que acabem essas fronteiras porque criar fronteira é uma forma de criar preconceito, estabelecer valores, demarcar território.
Seus livros anteriores têm muitos personagens masculinos. Em "Dora do Véu", eles não sumiram, porém é Francisca quem ganha a verdadeira força na história, tendo sua trajetória contada em primeira pessoa. Qual foi o desafio em desenvolver essa perspectiva feminina, antes quase ausente, acerca do mundo e das relações?
Não foi um problema porque eu carrego muitas mulheres dentro de mim. Muitas, muitas, muitas. Na verdade, não pensava em escrever um livro na primeira voz feminina. Mas, Francisca começou a falar. E acho que precisei, já que ela me pediu - ou melhor, já que ela me cobrou - dar voz a ela. Diria que 80% do livro é Francisca. Ainda que tenham muitos homens no que escrevo, sempre preferi mais as mulheres nas minhas narrativas. Sou sempre mais generoso com elas.
Na obra, os personagens interrompem sua fala e começam a contar outras histórias embutidas nela, o que demonstra sua dedicação em enfatizar as narrativas orais. Ainda que diante da amplitude de temáticas, leituras e visões que a obra traz, podemos dizer que a questão da oralidade talvez seja primordial na história?
Eu não diria que é a coisa mais primordial porque, apesar de ser um escritor muito erudito, culto, livresco e lido, sou um escritor que valoriza ao extremo a literatura oral. E que recorre a ela. Tanto que estou sempre dando aos personagens o direito a narrar. Eu sou um escritor que viveu em comunidades narrativas na minha infância e adolescência, e escolhi uma profissão em que dou às pessoas que me procuram a prerrogativa, o direito de narrar. As comunidades narrativas, todas elas, são comunidades (e esse é o grande valor da oralidade) que permanentemente estão a recorrer, a arrancar lá de dentro, do seu passado mais remoto - que vem lá da Índia e da França Medieval, por exemplo - as histórias para contá-las no hoje. Narrativas não são gratuitas e a minha literatura se faz toda num recurso permanente a elas.

Diário do Nordeste

A herança de encontros e sentimentos que o Festival Vida&Arte deixa para a Cidade, os dias e as pessoas

EMOÇÃO no palco Rachel de Queiroz. Elza Soares, Milton Nascimento, Liniker, Arnaldo Antunes e diversos outros artistas se apresentaram nesse espaço, que reuniu públicos de todas as idades em shows que entraram pela madrugada MATEUS DANTAS
EMOÇÃO no palco Rachel de Queiroz. Elza Soares, Milton Nascimento, Liniker, Arnaldo Antunes e diversos outros artistas se apresentaram nesse espaço, que reuniu públicos de todas as idades em shows que entraram pela madrugada MATEUS DANTAS
Tudo acontecendo e se misturando ao mesmo tempo, em um espaço comum - no Centro de Eventos do Ceará: mil e uma vozes, cantos, pensamentos, expressões, preces, cores, pessoas, ancestrais, convivências, conexões, descobertas. Mais do que a junção de vida e arte, o “maior evento multicultural do Brasil”, como se fez anunciar, desenhou um mundo possível e escreveu um princípio de futuro. Em par com os 90 anos do O POVO, o Festival Vida&Arte, realizado entre os dias 21 e 24 de junho e promovido pela Fundação Demócrito Rocha, trouxe “o bom, o belo, a alegria, a esperança”, como desejou a curadoria, convidando à paz e ao conhecimento (de si, do outro, do redor). E retribuiu, à Cidade e às gentes, as graças que o jornal recebeu.
“O que me trouxe aqui é que eu sabia que ia encontrar os amigos, abraçar, sentir alegria, dançar e equilibrar minhas energias no espaço da espiritualidade”, extraía Lucy Lopes, 57 anos, bancária durante 33 anos e professora de yoga. Atravessando o rio Jaguaribe (um dos espaços cenográficos do Festival), para aportar no palco Belchior (de shows regionais e nacionais), Lucy encantava-se com os caminhos abertos “para o povo se encontrar... Saio daqui feliz”, transmitia.
E eram os índios, os heróis, os maracatus, os sagrados, os femininos, os batuques, os mantras, o lírico, o cordel, a cantoria, a sanfona, o samba, o circo, o teatro, a dança, os quadrinhos, o cinema, o pop, o jornalismo, a literatura, as cores, as costuras, os diversos... Eram os abraços. O professor Sahmaroni Rodrigues, 37 anos, elogiava “o diálogo com todos os públicos”, que a programação do Festival Vida&Arte abarcava. Ele veio pela oportunidade das práticas holísticas em grupo: “A energia do grupo movimenta a mim, o indivíduo”. E voltaria para os dias repleto de vivências, completava-se: “Durante muito tempo, me senti só. Percebendo que tem muita gente que se interessa pela espiritualidade e se conectou comigo, esse diálogo fica”.
A espiritualidade, “a questão da libertação dos traumas”, como selecionou a estudante Valéria Lourenço, 20 anos, atraiu ainda as amigas Daiana Maria, 21 anos, e Mariana Rocha, 21 anos. “Mas eu vim também por causa do Bráulio (Bessa, poeta popular cearense) e da banda Las Tropicanas (com Lorena Nunes, Di Ferreira e Pepita York no comando)”, junta Daiana. “O Festival serviu para aumentar a aceitação da diversidade”, credita Mariana. Em todos os sentidos e do presente ao futuro.
“A gente se multiplica e mais lugares alcançamos”, demarcou a cantora paulista Liniker, em entrevista aberta durante o Festival, diante das questões de gênero. Mas ela sabe (sente) que, assim no próximo disco como na vida, “talvez ainda precise falar sobre amor, sobre afeto, sobre relação”.
A propósito, dizer, ouvir, olhar, sentir, transformar foram alguns dos verbos que conjugaram o Festival Vida&Arte. “Mulheres, a gente viveu a vida toda sem o direito de se expressar. A liberdade de expressão é nossa!”, a voz de Elza Soares reverbera pelos milênios. “Desde criança, venho buscando jeito de gritar, de pedir socorro”, falou a um público que se encontrava com as dores e os amores de Elza (de tantos) no palco Rachel de Queiroz.
Maria Flor, sete anos, pintada de borboleta em uma das atividades infantis, concorda com Elza Soares: “Como colorir o mundo? Essa é uma pergunta muito difícil!”. Enquanto resolvia se fazia, do mundo, um jardim ou uma borboleta, ela respondida sobre uma descoberta que podia mudar todas as coisas: “A coisa mais legal que eu vi aqui? Foi a pessoa pintando outra”, sorri.
O Festival Vida&Arte foi sobre tudo isso; das pessoas aos lugares, passando pelos tempos. De repente, uma saudade e um samba, e a vontade de dançar, de pular corda, de andar de bicicleta. E a vontade da infância, da inocência, da esperança. Tudo outra vez. Cada um se faz a chance do riso, da paz, dos mil e um encontros. Cada um se faz Marielle, Anderson, Edisca, África, Guarani-Kaiowá, floresta viva, nova aurora cada dia. E a cada um cabe aquela parte da canção do sempre, que Milton Nascimento, no show Semente da Terra, encantou: “Debulhar o trigo,/ recolher cada bago do trigo,/ forjar no trigo o milagre do pão/ e se fartar de pão”. 
NÚMEROS
627
ATRAÇÕES formaram a programação do Festival Vida&Arte, nas mais diversas temáticas: literatura, música, dança, teatro, artes visuais, moda, espiritualidade, cultura popular, circo, humor, universo geek e jornalismo.
2003
foi o ano do primeiro Festival Vida&Arte. Em 2005, houve a segunda edição. E, comemorando os 90 anos do jornal O POVO, o Festival representa “o maior evento multicultural do Brasil”. É realizado pela Fundação Demócrito Rocha, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura.
OLHAR INTERIOR
ESPIRITUALIDADE
Ocupando todo o segundo mezanino do Centro de Eventos, a programação de espiritualidade do FVA ofereceu ao público um universo de possibilidades, respeitando os mais diversos credos e inclinações. Foram palestras, shows musicais, vivências e palestras promovidas por nomes como Sri Prem Baba e o cantor Kléber Lucas.
REFLETIR O PRESENTE
JORNALISMO E LITERATURA
A curadoria de jornalismo e literatura reuniu um time de intelectuais para discutir os grandes dilemas da comunicação no século XXI. A diretora de redação da revista Época, a jornalista Daniela Pinheiro (foto), participou de conversa sobre os bastidores da cobertura política.
PARA OS PEQUENOS
INFANTIL E CIRCO
Espalhadas por todo o Centro de Eventos, as atrações infantis do FVA encantaram audiências de todas as idades. Diversos espetáculos de teatro e circo integraram a curadoria. O ator e diretor cearense Marcelino Câmara trouxe diversas atividades ao evento, entre elas a peça O menino maluquinho, momentos de contação de história e oficinas de teatro.

O Povo

JOÃO BATISTA, O MAIOR

Padre Geovane Saraiva*

O misterioso projeto de Deus, a respeito da salvação da humanidade, passa por São João Batista, que, na alegria do seu nascimento, já deixa óbvio que somos chamados a percorrer os caminhos do Senhor. A alegria de sua vinda ao mundo é por nós comemorada desde o ventre de sua mãe, Isabel, quando Deus o tinha consagrado como o maior entre os nascidos de mulher.

Desse modo, inspirados na figura do glorioso São João Batista, defensor da verdade e da justiça, que prometeu tempos bons e um futuro muito promissor para a humanidade, possamos, conscientes, olhar o mundo dos traços profundos de desigualdades, de toda natureza, vivenciados pelos filhos de Deus.

Resultado de imagem para JOAO BATISTA O MAIORNão temos dúvida de que seu nascimento é prenúncio de tempos novos e messiânicos, no anúncio da instauração do reino de Deus, sendo que a humanidade é chamada a travar um forte duelo: o de sair das trevas e experimentar, com grande disposição, a luz verdadeira, luz esta dadivosa e misteriosa, de tão bela e fulgurante que foi, que é e que sempre será. Não podemos, jamais, nos esquecer daquele que preparou um povo inclinado aos propósitos do nosso bom Deus. Numa jubilosa gratidão ao nosso Deus, infinitamente bom, não nos cansemos de nos pasmar pela alegria do nascimento de São João Batista.

A mensagem de esperança de João Batista é para deixar nítido o resplandecer da luz divina, mesmo em um mundo antagônico e sombrio, transformando, em lugar bom e solidário, lugar de Deus, o deserto da vida, sinal inexorável de sua agradável presença. Ele nos ensina que, pela ascese cristã e pelo rigor consequente - próprios dos seguidores de Jesus de Nazaré -, encontramos sentido no consistente compromisso diário: no de bater, com constante humildade e confiança, à porta do coração de Deus.

Seu grande trunfo consistiu no anúncio da vinda do Salvador da humanidade, e também no vibrante convite de acordar o povo do sono, muitas vezes profundo. Ele nos ensina o caminho da justiça e da solidariedade, seu legado maior: que lutemos em favor da vida, fazendo-nos um com Deus, no ânimo e no destemor de descer ao doloroso abismo de nossa humanidade, na perseverança e no amor. Amém!

*Padre, Jornalista, Colunista e Pároco de Santo Afonso, Parquelândia, Fortaleza-CE. Da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza geovanesaraiva@gmail.com