Confira entrevista com o escritor e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito

por Diego Barbosa - Repórter
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O escritor Ronaldo Correia de Brito: "narrativas não são gratuitas" ( Foto: Luiz Santos )
Quando começou a esboçar seus primeiros escritos, no tenebroso Recife de 1970 - no auge da repressão da ditadura militar -, Ronaldo Correia de Brito já demonstrava o curso que ia seguir no segmento literário. Muito dessa perspectiva se deu face às vivências que coletava enquanto jovem e descobridor de um mundo diverso, povoado de indivíduos que carregavam, cada um à sua maneira, histórias próprias e narrativas dispersas. Natural de Saboeiro, interior do Ceará, e radicado em terras recifenses, o escritor, médico e dramaturgo sempre demonstrou interesse pelas relações que rompem o microcosmos de uma fala e ganham corpo a partir da experiência coletiva de diálogo com os universos intrínsecos aos seres. Em suas criações, nada é isolado do mundo. Ainda que a solidão abrace alguns personagens, eles estão sempre imersos em um arranjo histórico que os conecta com a vastidão de fatos e acontecimentos que permeiam a humanidade. São aspectos que residem e ganham moderna textura em seu mais novo romance, "Dora sem véu". Em entrevista ao Diário do Nordeste, Ronaldo - vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e autor de livros como "Galileia" (2008) e "Estive lá fora" (2012) - dimensiona aspectos que estão ligados à sua recente empreitada literária, entremeando visões acerca do fazer artístico que se concretiza a partir da fala e da escrita.
Quais foram suas inspirações para escrever "Dora sem véu"?
Eu diria que a inspiração - se não inspiração, a busca, a tentativa de alcance desse livro - é o diálogo permanente entre passado histórico, passado mítico (que, em nós, nordestinos, é muito forte) e essa pós-modernidade que nos dilacera e nos tem deixado perplexos e perdidos. Ele se passa no Brasil de agora, com todas as questões de agora, em um país que dialoga com os mesmos problemas de outros lugares do mundo. Eu descubro, por exemplo, que os nossos campos de concentração - que eram chamados de "currais do governo" aí no Ceará, uma coisa absurda que a História escondeu completamente - são rigorosamente iguais não aos campos de concentração nazistas, mas aos campos de refugiados na Europa toda. Quando narro, sempre o faço com a perspectiva do passado dialogando com o presente para dizer que a história é um permanente fluxo. Ou, se preferir, é um eterno retorno (nietzschiano) ou um rio que não para de correr, do grego Heráclito. Isso que desenvolvo é algo que se pode chamar de romance de ideias, que são aqueles que, além de contar uma boa história, são capazes de pensar o tempo passado e o presente, comparando, questionando, propondo e citando. No Brasil, percebo que há uma certa recusa a esse tipo de romance, por sinal.
Considerando esse seu trabalho com a temporalidade, como foi o processo de pesquisa para situar, na obra, eventos históricos e conectá-los às discussões da contemporaneidade?
Precisei pesquisar bastante sobre os currais de governo; sobre os campos de migração, esses presentes em países como Grécia, França, Alemanha e Áustria; e precisei, sobretudo, ler muito sobre a questão dos negros no Brasil e a questão da Amazônia, pelo fato de ela ter sido sempre considerada uma propriedade dos países ricos. Agora que temos um perigo talvez maior de perdê-la do que em toda a história, fiz questão de narrar aquele papo real que foi a Expedição Thayer, quando o Louis Agassiz esteve aqui no Brasil com a intenção de investigar a floresta como o lugar para o qual os americanos deportariam todos os seus negros com medo do hibridismo. É algo que está presente no livro. Tudo lá está plantado para as pessoas se remexerem e irem atrás de descobrir mais sobre os fatos.
O romance se passa em diferentes cenários (ora em Pernambuco, ora em Juazeiro do Norte, ora nas paisagens do Norte, além de em países como a França), percorrendo, assim, muitas geografias territoriais e sentimentais. Qual sua intenção em fazer os leitores transitarem por esse grande número de lugares?
A minha intenção é dizer que já não há mais geografias e que nós, cearenses, sacamos isso muito cedo. A nossa mobilidade aí no Ceará é impressionante e ninguém considera isso. Fala-se tanto em ciclos migratórios e ninguém nunca levou a sério as nossas migrações. Construímos o Norte, criamos o Acre, fizemos São Paulo, Brasília, o Rio de Janeiro, o Paraná, o Mato Grosso, Goiás. Aumentamos o território brasileiro. Estamos também em Portugal, na França, no mundo? O que eu quero falar, na verdade, é de permeabilidade, porque quero me sentir cada vez mais permeável. Quero que acabem essas fronteiras porque criar fronteira é uma forma de criar preconceito, estabelecer valores, demarcar território.
Seus livros anteriores têm muitos personagens masculinos. Em "Dora do Véu", eles não sumiram, porém é Francisca quem ganha a verdadeira força na história, tendo sua trajetória contada em primeira pessoa. Qual foi o desafio em desenvolver essa perspectiva feminina, antes quase ausente, acerca do mundo e das relações?
Não foi um problema porque eu carrego muitas mulheres dentro de mim. Muitas, muitas, muitas. Na verdade, não pensava em escrever um livro na primeira voz feminina. Mas, Francisca começou a falar. E acho que precisei, já que ela me pediu - ou melhor, já que ela me cobrou - dar voz a ela. Diria que 80% do livro é Francisca. Ainda que tenham muitos homens no que escrevo, sempre preferi mais as mulheres nas minhas narrativas. Sou sempre mais generoso com elas.
Na obra, os personagens interrompem sua fala e começam a contar outras histórias embutidas nela, o que demonstra sua dedicação em enfatizar as narrativas orais. Ainda que diante da amplitude de temáticas, leituras e visões que a obra traz, podemos dizer que a questão da oralidade talvez seja primordial na história?
Eu não diria que é a coisa mais primordial porque, apesar de ser um escritor muito erudito, culto, livresco e lido, sou um escritor que valoriza ao extremo a literatura oral. E que recorre a ela. Tanto que estou sempre dando aos personagens o direito a narrar. Eu sou um escritor que viveu em comunidades narrativas na minha infância e adolescência, e escolhi uma profissão em que dou às pessoas que me procuram a prerrogativa, o direito de narrar. As comunidades narrativas, todas elas, são comunidades (e esse é o grande valor da oralidade) que permanentemente estão a recorrer, a arrancar lá de dentro, do seu passado mais remoto - que vem lá da Índia e da França Medieval, por exemplo - as histórias para contá-las no hoje. Narrativas não são gratuitas e a minha literatura se faz toda num recurso permanente a elas.

Diário do Nordeste

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