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22 de maio de 2017

Palácio Piratini é cenário para filme sobre o movimento da Legalidade

Filme estrelado por Cleo Pires, Fernando Alves Pinto e Leonardo Machado combina personagens fictícios e protagonistas reais do episódio ocorrido em 1961, como Leonel Brizola

Por Carlos André Moreira 22/05/2017 - 07h00min · Atualizada em 22/05/2017 07h00min

Noite de sexta-feira. Fumando um cigarro, em pé diante da balaustrada, o ator Fernando Alves Pinto contempla as linhas solenes de uma das paredes do Palácio Piratini. Passam-se alguns segundos e Cleo Pires, trajando um tailleur de lã cinza, se aproxima. Ambos estão agora no centro de um semicírculo formado por sacos de aniagem e ladeado por duas metralhadoras. O diálogo é tenso, e versa sobre esperanças em um momento de grande risco. Cleo depõe a bolsa preta que carregava no parapeito, próximo da grande metralhadora dinamarquesa à sua esquerda. É aí que a voz do diretor de cinema Zeca Brito interrompe o ensaio para dizer que a bolsa ficaria melhor mais para a direita, entre os dois atores.

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Cleo e Fernando estão, sob a direção de Brito, ensaiando a cena que rodarão logo mais no longa Legalidade, em fase de filmagem. Com roteiro de Brito e Leo Garcia, a produção enfoca as intensas semanas de agosto e setembro de 1961 em que, após a renúncia de Jânio Quadros e com seu vice em viagem pelo Exterior, Brizola organizou um movimento de resistência à tentativa do dispositivo militar de impedir a posse do vice, prevista na Constituição.

– Eu brinco que esse é um filme que estou fazendo para pagar uma dívida com meu pai. Quando, há uns 20 anos, eu disse para ele que queria ser diretor de cinema, a primeira coisa que me disse foi: "Então um filme que tu tem de fazer é sobre a Legalidade" – conta Brito, que, entre pesquisas, entrevistas e mais de um tratamento do roteiro, vem desenvolvendo o projeto do filme há cinco anos.

Produção da Prana Filmes, com previsão de estreia para 2018, Legalidade enfoca o triângulo amoroso entre personagens fictícios engolfados pelo turbilhão dos acontecimentos daqueles 14 dias. Fernando Alves Pinto, um rosto bem conhecido do cinema nacional, protagonista de Terra Estrangeira e Dois Coelhos, vive o antropólogo Luis Carlos, que disputa com seu irmão, o jornalista Tonho (José Henrique Ligabue), as atenções da correspondente internacional Cecília, interpretada por Cleo Pires. O personagem de Luis Carlos é uma das formas de o diretor ancorar, de modo simbólico, a história da Legalidade em um quadro maior de tensões da história nacional.

– No filme, o Luis Carlos está trabalhando em um projeto nas Missões. Muita gente me comenta que um filme desses teria ligação com o que ocorre agora e até tem, mas eu trouxe as Missões como uma forma de ligar a história ao passado, a um outro momento em que uma crise provocada por forças estrangeiras, como já ficou comprovado no caso dos golpes dos anos 1960, estão pondo em choque a soberania do território – comenta Brito.

O personagem de Luis Carlos é vagamente inspirado em Darcy Ribeiro, amigo de Brizola, mas Fernando Alves Pinto diz que sua interpretação busca um tom mais austero do que a vulcânica extroversão de Ribeiro. – Até pensei em um primeiro momento se fazia algo com aquele nível de energia, mas decidi por um tom mais sério para o personagem.

O cronograma de produção de Legalidade prevê 27 dias de filmagens. Desses, oito devem ser usados para imagens no Palácio Piratini, epicentro do movimento de resistência liderado por Brizola – as cenas do porão do Piratini, onde foi montado o estúdio da Rádio da Legalidade, serão registradas na Prefeitura Municipal.

— Filmar aqui faz toda a diferença, é possível sentir toda uma energia, pois tudo aconteceu aqui. – diz Leonardo Machado, intérprete de Brizola.

Para Zeca Brito, a locação é tão importante quanto os personagens.

– O palácio é um dos protagonistas do filme, rodar aqui é mágico – comenta. O ensaio terminou, a iluminação está ajustada, a posição da bolsa está definida. Brito pede que um dos técnicos derrame água sobre a pedra da balaustrada do palácio para provocar gradações de luz, e agora a cena será filmada de fato.

– Vamos lá, gente. Energia, concentração, amor, revolução.

Brizola é figura central na produção

Enquanto Cleo e Fernando filmam a sequência que terminará com uma cena de amor entre seus personagens, em outro aposento do Piratini, transformado em camarim improvisado, Leonardo Machado se prepara para tornar-se o mais importante personagem da história contada em Legalidade: Leonel Brizola. Para viver o então governador do Rio Grande do Sul, Machado cultivou um bigodinho fino ao estilo do que o jovem político usava naquele tempo e fez permanente nos cabelos lisos e finos para ter uma aparência mais condizente com o "pelo duro" do governador gaúcho. A maquiagem também inclui lentes de contato para escurecer os olhos azuis do ator.

– Em primeiro lugar, é claro que é uma honra interpretar um personagem desse tamanho. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade enorme. No dia em que eu fui anunciado oficialmente como o Brizola do filme, eu recebi 500 mensagens in Box nas redes sociais. Nunca recebi tantas mensagens, de gente me felicitando, compartilhando histórias, contando causos. Ou seja, há uma multidão de gente que verdadeiramente ama o Brizola.

Machado, hoje com 40 anos (Brizola tinha 39 na época da Legalidade), mergulhou em uma intensa pesquisa que incluiu leituras, entrevistas e conversas com pessoas que conheceram o ex-governador. Ao longo da entrevista, mais de uma solta um "interésses" pronunciado com o segundo ¿e¿ aberto, à maneira do político gaúcho. Assistiu também a muitas imagens para apanhar, mais do que o modo de falar, o gestual característico de Brizola. E precisou também fazer uma síntese entre o Brizola que se tornaria nacionalmente conhecido na volta do exílio e o jovem político em ascensão dos anos 1960 – época em que os registros audiovisuais sobre ele são em menor número.

– O gestual dele era muito significativo. Aquela mão que ele sempre erguia, aquela mão é ele falando e segurando uma cuia de chimarrão imaginária, cada dedo crispado, contando uma história– diz Machado.

Para o diretor Zeca Brito, embora o paralelo entre a crise daquele período e a de agora não seja algo que ele pretenda forçar na narrativa, será inevitável para quem assistir ao filme imaginar um contraponto entre uma crise vivida com e sem Brizola:

– Diante da incrível mediocridade da classe política de hoje, faz muita falta uma figura como Brizola, com sua franqueza e com seu pensamento nacionalista, sua coragem de acreditar no povo brasileiro, não de uma maneira apenas discursiva, mas acreditar de verdade.

Zero Hora

Itaú Cultural apresenta em São Paulo uma exposição que percorre a memória do País por meio da arte

Essa não é a primeira e tampouco será a última exposição que lança um olhar sobre a história de nosso país por meio das produções artísticas de diferentes períodos, autores e regiões. A peculiaridade, porém, anuncia-se desde o título: "Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 anos". Foi a partir de um acervo de mais de 15 mil obras desta instituição - que em 2017 comemora três décadas de existência - , que o curador Paulo Herkenhoff e os co-curadores Thais Rivitti e Leno Veras enxergaram uma transversalidade de leituras e sentidos múltiplos da cultura nacional. Então selecionaram 750 trabalhos deste acervo - 46 deles recém-adquiridos, para serem expostos entre 25 de maio e 13 de agosto deste ano, na Oca de Niemeyer, São Paulo.

São mais de dez mil metros quadrados, distribuídos em quatro andares, inteiramente ocupados e sem uma sequência cronológica. A intenção é tornar o público sujeito, construindo nexos e diálogos diversificados sobre estética, linguística, conceito e política. Nada mais propício no momento atual, aliás. Paulo Herkenhoff, ao explicar o conceito da curadoria para cerca de 50 jornalistas de todo País que tiveram acesso à exposição em processo de montagem, levantou exatamente a importância deste protagonismo social possibilitado pela arte. "Quem aqui não está desalentado? Perplexo?", perguntou em referência aos acontecimentos recentes envolvendo o atual presidente da república Michel Temer.

E continuou, afirmando que em tempos de crise é preciso pensar aqueles capazes de enfrentar a entropia social. "Só a arte é capaz de se confrontar com a entropia, reverter processos entrópicos", reforçou, citando Mário Pedrosa, e atribuindo aos artistas esse papel transformador. "A arte é um exercício experimental de liberdade. Não existe liberdade plena sem a emancipação do sujeito", continuou. Herkenhoff também destacou a projeção dessa consciência lá fora. "O que salva o Brasil no mundo é a arte. O que hoje nos coloca no lugar que nos cabe é ela", disse.

Ainda sobre esse protagonismo, a curadoria ressaltou que esta não é uma exposição para quem já sabe de tudo, pelo contrário. A ela interessa estimular cada visitante, especialmente os pouco familiarizados com a arte, a organizar o próprio roteiro de interpretação e conhecimento, como quem flutua, trafega pela cultura brasileira.

Obras


Quadro do artista cearense Leonilson presente na mostra

Nesse tráfego, a Oca, onde os trabalhos ficarão até agosto, não deixa de ser ela própria um elemento expositivo. E foi em respeito a este prédio histórico, construído para comemorar o IV centenário da cidade de São Paulo, em 1954, que o Itaú resolveu investir em manutenção e melhorias para garantir a infraestrutura, construindo "paredes temporárias" para abrigarem as obras, entre outra ações que repaginaram o espaço. Uma constelação de 20 núcleos foi definida para ser percorrida pelos visitantes.

Em texto assinado pela curadoria, a visita é resumida. "No térreo, a arte expõe São Paulo. O subsolo abre-se em projetos de linguagens tecnológicas, os ciclos econômicos de Portinari, laços de subjetividade e outros. Já o primeiro andar traz a forma e a matéria do signo da arte e, na biblioteca, o Rumos Itaú Cultural. Por fim, o segundo andar concentra o período colonial, como barroco e a escravidão e seu impacto sobre o contemporâneo. Cada modo de ver é uma organização de ideias".

Entre as quase 800 obras expostas, estão desde algumas muito antigas, como os mapas "Jodocus Hondius: AmericaSeptentreionaliss", de 1613, e "Henricus Hondius: Accuratissima Brasilae Tabula", de 1630, até peças significativas de artistas contemporâneos - como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Vik Muniz, Berna Reale, Jaime Lauriano, Ayrson Heráclito e Éder Oliveira. Destes últimos, algumas figuram entre as novas aquisições, como "Bandeira Nacional #10", "Novus Brasilia Typus: invasão, etnocídio, democracia racial e apropriação cultural" e "Artefatos # (1, 2 e 3)", de Lauriano, todas de 2016.

Parceria

Do Ceará, saltam quatro obras de Leonilson: "Seis chapéus sobre fundo listrado, ca.", 1983, de tinta acrílica sobre tecido de algodão listrado, três Sem títulos, sendo uma de guache sobre papel (1983), outra de tinta acrílica e tinta metálica sobre tecido de algodão colorido (1983) e uma de acrílico sobre tela (1990).

Há também o trabalho "Fita de Moébius" (1996), de bronze e alumínio, do escultor cearense Luiz Hermano, fotos de Chico Albuquerque, pinturas de Antônio Bandeira e um vídeo de 9 minutos (Marca Registrada, 1985) da baiana que por muito tempo ficou radicada no Ceará, Letícia Parente. Não está prevista uma itinerância para a exposição "Modos de Ver o Brasil", porém ela é apenas uma das atividades que compõem esse ano comemorativo do Itaú Cultural. "Vamos celebrar não por meio de um único evento, mas de um programa", salientou o diretor do instituto, Eduardo Saron.

Há poucos dias ele esteve em Fortaleza, em diálogo com o presidente do Instituto Dragão do Mar, Paulo Linhares, sobre a especialização em gestão e políticas culturais que será ofertado pela primeira vez na capital cearense e que também integra ações pertinentes ao aniversário.

"Fortaleza tem um dos mais importantes equipamentos culturais do Nordeste, que é o Dragão do Mar, uma referência, e é natural que nesse processo de cada vez mais encontrarmos espaços de diálogo com esses vários 'brasis', o Dragão esteja no nosso roteiro obrigatório de conversas, trocas", explicou Saron.

A formação, que será ofertada no equipamento cearense a partir da parceria com o Itaú Cultural e a Cátedra Unesco de Políticas Culturais e Cooperação, da Universidade de Girona, na Espanha, terá início em agosto. Ela tem duração de um ano, sendo presencial e virtual, e conta com direção acadêmica do Prof. Dr. José Teixeira Coelho Netto, consultor do Observatório de Política Cultural do Itaú Cultural. As inscrições foram encerradas em março. Mas a sede por novidades e intercâmbios na área certamente ainda deve continuar.

Mais informações:

Exposição Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 anos. Visitação de 25 de maio a 13 de agosto de 2017, na Oca, Parque Ibirapuera, São Paulo. Gratuito

A jornalista viajou a São Paulo a convite do Itaú Cultural*

Diário do Nordeste

Theatro José de Alencar terá show em homenagem à obra de Belchior

Seguindo a agenda de celebrações à obra de Belchior, o Theatro José de Alencar irá receber uma grande homenagem ao rapaz latino-americano. Será no dia 24 de maio, uma quarta-feira, às 19 horas. O projeto, chamado "Sujeito de sorte", está sendo desenhado pelo grupo sobralense Trovador Eletrônico. No palco, além da banda, haverá as participações dos cantores Lídia Maria, Marcus Caffé e Quésia Carvalho. Os ingressos custam R$ 20.

O título do espetáculo é referência à música homônima assinada por Belchior e lançada no disco Alucinação, de 1976. "Selecionamos as principais canções do seu principal álbum, "Alucinação", mais as canções mais pedidas nas apresentações que vimos fazendo ao longo de mais de um ano de homenagem, desde que começamos o projeto, passando, claro, pelo álbum Coração selvagem. Em 2017, é sua vez de completar 40 anos", explica Léo Mackelene, vocalista do Trovador Eletrônico.

O cantor  adianta que, durante o espetáculo, serão compartilhadas algumas histórias contadas por Edna Araújo, companheira de Belchior durante dez anos, com quem ele viveu quase que exclusivamente durante o tempo que se manteve afastado dos holofotes. "Segundo ela, as histórias sobre Sobral eram pauta cotidiana das conversas. Tanto que ela o chama carinhosamente de um menino de Sobral", conta Léo em conversa com O POVO Online.  

Trovador Eletrônico

A banda, conta Léo, surgiu em fevereiro de 2016, para fazer uma homenagem ao disco "Alucinação", que estava completando 40 anos. Chamaram Kelvin Mota para a guitarra e Fernando Madeira para a bateria, ambos professores da Escola de Música de Sobral. Anderson Freitas passou a ser o tecladista. O nome da banda foi pinçado da música "Canção de Gesta de um Trovador Eletrônico", faz parte do repertório do disco de Belchior, chamado "Cenas do Próximo Capítulo", datado de 1984.

Homenagem em Sobral

Na noite do último sábado, 6, a banda também esteve à frente de homenagem que tomou o Theatro São João, em Sobral. No palco, estavam músicos de Sobral e outros da Capital, como Daniel Peixoto, Daniel Groove, Ilya Borges, Nayra Costa e Lorena Nunes. A homenagem teve um público de mais de 400 pessoas, e um teatro com capacidade para 300 (incluindo cadeiras extras), com duração de quase duas horas.

O evento teve, ainda, a presença de Edna Araújo, que, para surpresa de todos, discursou durante quase dez minutos. “A matéria-prima pela qual Belchior era constituído era puro amor”, resumiu a companheira. 

Serviço

Espetáculo "Sujeito de Sorte"

Quando: Quarta-feira, dia 24 de maio, às 19h

Onde: Palco principal do Theatro José de Alencar

Quanto: R$ 20

Redação O POVO Online

AMELINHA: Uma flor na janela

Marcos Sampaio Camila Holanda

 

Uma cerveja, por favor”. Esse foi o pedido que abriu uma conversa que passou de duas horas. Com a mesma voz que fez história no Festival MPB 80, com o romantismo de Foi Deus Que Fez você, Amelinha falou sobre uma vida entre a simplicidade e o sucesso popular. As muitas casas onde morou, a amizade com jovens compositores cearenses, o conflito de uma carreira de sucesso com as obrigações da maternidade. “Uma conversa dessas é bom com uma cerveja”, sentenciou.

No fim das contas, foi apenas uma latinha o suficiente para facilitar os caminhos da memória por uma história construída sem muitos planos. A menina que tinha que cantar afinado como Gal Costa, na verdade, queria ser chacrete. Pra nossa sorte, foi o incentivo dos amigos que fez dela cantora. Em Fortaleza, sentada de frente para o mar, ela contou essa história.

O POVO - Queremos começar falando sobre seus primeiros contatos com a música.

AMELINHA - Eu sempre me relacionei com a música, como uma brincadeira. Desde os dois anos e meio eu cantava o pastoril, cantava assim (cantarola “Perdoa linda açucena, por este caso, este caso acontecer”). Era um cantar muito meu, natural. Eu morava no Porangabuçu, numa casa portuguesa. Tinha São José de azulejo, escadaria, alpendre, casa alta. E passava horas deitada no chão, cantando. Meu pai imitava o Vicente Celestino, minha mãe gostava de ouvir Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, as cantoras do rádio. Ela tinha as preferências e gostava muito de afinação. Tanto que, quando vieram os novos, e ela muito impressionada com a afinação da Gal, eu tinha que ser tão afinada quanto ela. Tinha uma pressão. E tinha minha tia freira, a Irmã Silvia, que era a cantora da família.

 

OP– O repertório que você ouvia em casa não é muito distante do que você canta.

Amelinha – É, a influência vem daí. Vem de casa, porque tinha os saraus na casa da minha avó Amélia. Eu sou Amélia Neta e ela era Amélia Diogo Beleza Garcia. Ela tocava piano, bandolim. Era uma família muito musical. 

OP – Quando você começou a levar a música a sério?

Amelinha – Ah... demorou muito. Isso era uma coisa nossa. Eu fiquei estudando, terminando o curso normal. Mas eu não me envolvia com ninguém da música. Na verdade, eu só conhecia o Ricardo Bezerra, mas ele fazia arquitetura e morava na rua do meu avô. 

OP – Pelo que você está contando, a música não era nem um sonho de quando você era mais nova.

Amelinha – Quando eu era pequena, sonhava em ser chacrete (risos).

 

OP – Chegou perto?

Amelinha – Eu gostava de fazer brincadeiras. Na casa das minhas amigas, eu ia para o lado da televisão e ficava fazendo brincadeira com os programas. Essa plateia eu já tinha. As pessoas sempre gostaram da minha energia, de conviver comigo. 

OP – Você comentou que já conhecia o Ricardo Bezerra. Foi ele quem te apresentou à turma de compositores daqui?

Amelinha – Mas isso já na adolescência em algum momento que eu não lembro quando. Por acaso, ele disse que queria me apresentar ao Fagner. Apresentou e foi super legal.Acho que isso em 1967, 68, por aí... Já tinha uma movimentação, mas eu só ia pra (o curso de) Arquitetura conversar com o pessoal e tomar cerveja. Eu ia para as festas, não me ligava nessa coisa de cantar. Outras pessoas cantavam. Eu cantava pra mim, no colégio, na igreja...

 

OP – E quando você se assume como cantora?

Amelinha – Cantora eu fui sempre. Agora, cantora profissional foi quando eu estava estudando em São Paulo. Morando numa república, fiz alguns shows. Por influência de amigos da faculdade, amigos da minha irmã. Eles arranjavam gente pra tocar comigo. E eu não estava muito a fim. Eu tinha um pouco de receio, sabia que havia um metiêr, com divulgação, concorrência, muita vaidade, ego.

OP – Nessa época, havia uma movimentação por aqui, no Bar do Anísio, na TV Ceará. Como foi seu contato com esse grupo?

Amelinha – Foi em 1970, quando eu já estava em São Paulo. Mas meu pai ficou muito doente e eu tive que vir. Daí, 15 dias depois que o papai morreu, o Ricardo me chamou e eu fui para a televisão e eu conheci todo mundo. Rodger, Teti, Jorge Mello, Belchior... Foi quando passei a frequentar o Bar do Anísio, onde o Fagner me mostrou Mucuripe.

OP – Você frequentava os mesmos bares dessa turma?

Amelinha – O meu lugar era mais o Anísio. Eles faziam festivais, mas eu era de fora. Tinha outras amizades. Eu ia pras boates, era burguezinha. 

OP – E quem te apresentou ao Vinicius de Moraes foi o Fagner, não é?

Amelinha – Ele não apresentou. Ele disse que o Vinicius queria me conhecer. Ai meu Deus... Era um chamado, eu não podia escapar. 

OP – Até agora, a Amelinha é uma cantora só de pequenos shows, sem uma carreira...

Amelinha – Era uma diletante. Estavam me puxando. Aí na terceira vez que o Fagner falou sobre o Vinicius, eu fui e não consegui cantar. Ele esperava que eu cantasse uma música dos cearenses. Quando eu cheguei, minha voz não saía. Aí ele (Vinicius) disse “vai buscar um banco mais alto pra bichinha, que ela está com o diafragma preso”. Cantei, e ele ficou impressionado.

OP – Onde foi esse encontro?

Amelinha – Foi na casa do Toquinho, onde o Vinicius se hospedava quando vinha da Bahia. Um dia, toca o telefone e é o Belchior. Ele disse: “O Vinicius mandou um recadinho pra você. Pediu pra você ligar, porque vão te levar para Punta Del Este (Uruguai)”. Ele já tinha me feito o convite no dia em que fomos ver a Maysa cantando e queriam que eu fizesse a abertura do show. Era no bairro Bixiga, num lugar chamado Igrejinha, com um octeto do Julio Medaglia. Eu fui, mas graças a Deus não deu certo (risos).

OP – Por que “graças a Deus”?

Amelinha – Eu tava morrendo de medo. A Maysa abriu a porta, eu estava cantando mostrando a música. Ela chegou perto de mim e eu comecei a me tremer. Ela virou pra mim e disse: “eu invejo a sua afinação”. Eu não disse nada, só ri. Aí não teve o show, porque ela pegou a maior briga com o pessoal da casa.

OP – Vinicius voltou a convidá-la para viajar com ele?

Amelinha – Aí o Belchior ligou e disse que era para entrar em contato. Eu precisava de um banho de loja, porque eu andava muito vestida de hippie ou de homem, como minha sogra dizia. Eles queriam me compor de outra forma. Aí eu fui pra reunião e comecei a ficar íntima e abusada. 

OP – E como foi essa turnê?

Amelinha – Foram 40 dias no Casino San Rafael, que é maravilhoso. Lá eu me senti profissional. Depois de Montevidéo, fizemos alguns shows universitários em São Paulo. Ali, a coisa mudou. Eu me vi profissional e me separei do Maxim. 

OP – Depois dessa oportunidade com o Vinicius, o que sucedeu? Quem era a Amelinha naquele momento?

Amelinha – Sucedeu que eu me separei. Fui morar com um jornalista e um baixista, que é o Ife Tolentino. Ele tocou comigo, antes de tocar com Ednardo, Fagner... Inclusive, eu fiquei um ano meio que casada com o Ife. Teve uma afinidade entre a gente, musical e afetiva. Isso foi muito bom.

OP – O que saiu daí?

Amelinha – Aquilo me agradava. O ambiente musical me agrada. O ambiente da arte, eu gosto. A partir daí, eu comecei a ficar mais ligada nessas músicas, eles começaram a desenvolver e fazer músicas dentro da minha casa. Eu vi o Robertinho (de Recife) tocando noites e noites uma música que ele queria terminar e, um dia, eu ouvi quando ele terminou. Nesse dia, chegou o Fausto (Nilo). Ele sempre ia nos visitar, era um momento bacana, depois de sair do trabalho. Ali, ele pediu um papel, uma caneta e escreveu Flor da Paisagem.

OP – Como veio o convite para gravar?

Amelinha – Nessa mesma casa, tanto Belchior, como Ednardo e Fagner me visitaram em questão de dias. Quase na mesma semana. Todos três me fazendo convites para ir para a gravadora deles. Eles foram tão bacanas que, quando tiveram certeza do primeiro contrato, eles se lembraram de mim. 

OP – A escolha foi imediata?

Amelinha – A última proposta que chegou foi do Fagner. Talvez eu tivesse inconscientemente esperando. Ele disse: “vamos fazer um disco lá na CBS? Eu produzo pra ti. O Jairo Pires é o diretor, eu te levo pra você conhecê-lo. Vamos marcar?”. E eu disse na hora: “vamos”. Eu me senti confiante por que já estava acostumada a cantar com ele e já tinha a banda. Mas veio o primeiro conflito com a minha banda, porque nem todos poderiam entrar.

OP – Uma marca do seu primeiro disco, o Flor da Paisagem, é a simplicidade. Foi uma opção sua?

Amelinha – Isso que era minha onda. Quando eu ia a programas de televisão, as colegas diziam “mas você não faz maquiagem nem nada e fica tão bem na TV?”. Quando eu era menina, nem gostava muito de maquiagem. Então, essa é a flor da paisagem, uma coisa bem natural mesmo. 

OP – E qual a importância desse disco para aquele seu momento?

Amelinha – Ele foi decisivo. Ele foi o passaporte. Depois que eu dei o “sim” para o Fagner, começamos a escolher repertório, fomos pro estúdio Eldorado, que é um luxo. Também tinha uma coisa, eu não tinha medo dos caras. Era atrevida. Eu não gostava muito de ser testada, não. Era meio invocada. E o Fagner não me botou embaixo da asa e fez tudo. Sabe o que ele fez? Ele me levou, sentou atrás uma bancada, me botou de frente com o diretor artístico (Jairo Pires) e disse “agora venda seu peixe”.

OP – Você começou a ser cobrada para outros discos?

Amelinha – Sim, mas, pra isto, eu precisava ir ao Rio de Janeiro. Estava todo mundo lá: Geraldo Azevedo, Fausto Nilo, Moraes Moreira, Zé Ramalho e uma pessoa que eu queria que produzisse meu próximo disco, que chamava-se Carlos Alberto Sion (produtor do disco Ave Noturna, de Fagner). Eu precisava de um produtor que cuidasse da minha carreira. O Fagner tinha a dele.

OP – E já no Rio, para esse disco mais comercial, você se sentiu à vontade?

Amelinha – Ah, mas isso é um capítulo enorme à parte. É por isso que tem a música “Quantos aqui ouvem / Os olhos eram de fé/ Quantos elementos amam aquela mulher?”. Eu estava no mesmo hotel que o Zé Ramalho, e os compositores iam lá me mostrar pessoalmente as músicas. Foi aí que surgiu a música Frevo Mulher. Porque ele já ficou de olho em mim de duas maneiras: uma maneira musical e uma maneira que já traz outra história, um romance. Dessa fase, surgem músicas inspiradas em mim, que eu chamo de encantamentos poéticos.

OP – Com você define seu encontro com o Zé Ramalho?

Amelinha – Foi um encontro valiosíssimo, profícuo, um encontro muito bonito. Foi um encontro em que geramos músicas e filhos. 

OP – E, de cara, este encontro já produziu o Frevo Mulher?

Amelinha – Foi. Com nove meses que eu estava com o Zé, eu fiquei grávida. Eu estava tendo o João (o primeiro filho), aqui no Ceará, quando o disco estourou. 

OP – Como era virar estrela, ter músicas tocadas no Brasil todo e ser mãe?

Amelinha – Enlouquecedor. Foi um lance que não tinha como controlar. Ficou tudo muito maior do que Foi Deus que fez você (segundo lugar do Festival da Música Popular Brasileira de 1980). Eu vi aqui no Ceará o Bell (Marques), que ainda nem era do Chiclete com Banana, tocar uma minha música no Carnaval. Daí eu pensei: que conversa é essa? Vou já pro Rio de Janeiro. Me ajoelhei aos pés de uma babá, uma mulher maravilhosa, a Isabel. E a Isabel foi, deixou tudo, deixou emprego e foi comigo para o Rio, cuidar do João, para eu poder cuidar da minha carreira. 

OP – E como Zé Ramalho ficou nessa nova fase?

Amelinha – Nessa época, o homem não ficava nesse aperreio, não. Quando fiquei grávida, ele ficou esperando o menino nascer e depois foi embora fazer show. Ficou um mês esperando. Depois, com uns dois meses, pendurei meu vestido do Frevo Mulher no varal, como quem pendura a chuteira por enquanto. Porque agora eu ia ser mãe. 

OP – Como é seu contato hoje com o Zé?

Amelinha – Eu não tenho contato com o Zé hoje. É transcendental, talvez mental. Eu penso muito em tudo o que fiz, nas músicas dele, nos momentos. E ele deve pensar também. A gente não tem muita convivência, porque cada um seguiu a vida para um lado, ele mora no Rio e eu moro em Niterói. Não dá mais para ter contato musical, porque o momento foi mágico. E um momento mágico não se repete. 

OP – Passado esse período de explosão, você gravou uma série de outros discos de forró, entrando em outro momento da carreira. Você gosta dessa sua fase de produção?

Amelinha – Ali eu estava resguardando a minha obra. E eu precisava trabalhar, fazer show, ganhar dinheiro e recebia convite daqueles projetos. E eu fazia, porque sabia que não iria interferir na minha carreira. Não definiria um disco de carreira de Amelinha, era como se fosse uma asa, um afluente. E não tinha problema, desde que fosse digno. Foi um tempo sofrido para mim. Eu gosto por ter sido um tempo de aprendizado, mas houve um pouco de sofrimento. Porque não era o que eu queria fazer exatamente. 

OP – O Flor da Paisagem foi seu primeiro disco, mas acabou se tornando um lado B…

Amelinha – O Baleiro diz que eu adoro o lado B. E eu realmente gosto. É porque não me agrada muito quando uma pessoa está com uma música de sucesso e sai todo mundo correndo para gravar aquele sucesso. A cada dia, isto está mais comum. Acho falta de criatividade, acho inveja, aproveitamento, acho duvidoso. 

OP – Tem algum disco que você olhe hoje que lhe traduz melhor?

Amelinha – Todos os discos que fiz na CBS, todos estes LPs me traduzem. Fiquei 10 anos na CBS. Até estes projetos paralelos, os forrós, também me traduzem, porque são as festas que mamãe fazia, as festas de São João. É quando eu entro em um sertão e tenho um pouco de pertencimento. Então me dá uma possibilidade de entrar um sertão que eu não tenho intimidade. Ronaldo Bôscoli dizia: “Amelinha, você faz um forró soft”. E eu achava engraçado, porque era mesmo.

OP – Como é o seu contato Belchior, Ednardo e Fagner?

Amelinha – Eu os chamo, e tudo o mais que está em volta, de “os titãs”. É a turma que segura a cultura do Ceará. Eu já estive muito colada com o Fagner. A gente viajava. Fagner é viajador. O Bel me encontrei mais, depois de profissional, em camarins, em shows. O Ednardo, mais depois que fizemos o disco Pessoal do Ceará (2002), nos falamos pelo “zap”, ocasionalmente. 

OP – Você sempre tem boas histórias sobre os três, no entanto, parece que eles nunca se bicam. Como você vê isso?

Amelinha – Eles têm personalidades muito fortes. Mas aí eu nem dou muita importância. Me coloco como irmã dos dois (Fagner e Ednardo) e não dou muita importância a isso. Eu não quero me meter e acho os assuntos uma coisa tão antiga. Já passaram, nós vivemos outro tempo. Os hormônios eram outros, era uma garotada. Eu não vivo de passado. Não fico enchendo minha cabeça de muitas memórias, não. Eu solto muita coisa. Até o Belchior falou assim pra mim: “Amelinha, tem cuidado nessa hora em que você estiver soltando lembranças, para não soltar outras que foram positivas”. A gente se gosta muito, se respeita, se admira. 

OP – Sua voz se manteve muito firme neste anos de carreira. Quais são os cuidados que você toma?

AMELINHA – Fiz aulas com um professora chamada Maria de Lourdes Cruz Lopes. Ela foi fundamental, porque ela explicou minha voz. Minha voz não pode falar com muita altura, não pode gritar com filho, minha voz não pode ser forçada. Faço repouso vocal, fico muitas horas sem falar. Desligo até o telefone, porque falar ao telefone estraga muito a voz. Tem de fazer exercício vocal e ficar quieto.

OP – Quem é a Amelinha hoje?

Amelinha – Faço um trabalho para dizer assim: eu não tenho que provar mais nada. O que eu tinha de fazer, eu fiz. Eu não tenho que querer fazer algo totalmente diferente. Eu fiz e vou refazer algumas coisas, retocar, como se fossem quadros. Posso querer fazer um quadro diferente. E vou mostrar uma voz que eu cuido, uma Amelinha que eu cuido. Eu gosto muito de cantar com os violões e gosto de cantar com uma banda, mas peço para a banda tocar um pouquinho mais baixo. Eu não tenho aquela coisa de ter aquele frenesi pelo volume. Se comparar com uma dessas grandes cantoras que vão envelhecendo, eu sou mais para uma Sarah Vaughan, uma Ella Fitzgerald e menos Tina Turner.

BELCHIOR

OP - Como você recebeu a notícia da morte de Belchior?

Amelinha - Estou me recuperando aos poucos. Fiquei sete dias muito quieta, travada, entendem? Pensativa, me lembrando dele desde que nos conhecemos. Pedaços de conversas, viagens que fizemos, da gravação do CD com o Ednardo (Pessoal do Ceará, 2002), brincadeiras no estúdio, dos discursos que ele fazia em italiano... Enfim, passei dias entre o riso e a lágrima, o silêncio e o vazio. Lembrei que, lá pelos anos 2000, ele me pediu que cantasse De primeira grandeza, que gostaria muito de ouvir cantada por mim.

OP - Você foi convidada para gravar um tributo ao Belchior. Como será?

Amelinha - O Thiago (Marques Luiz, produtor) me convidou e eu aceitei. Mas, tudo dentro de um novo tempo, através de reflexões, músicas que bailam na minha cabeça e no meu coração. Chegou o momento de cantar De primeira Grandeza. Estamos trabalhando e é, por enquanto, o que posso dizer. E que vai ser lindo. Com todo o meu amor, estarei atenta à grandeza e à beleza da obra deste nosso pensador e poeta maior latino-americano. Ele estará sempre entre os grandes. Me sinto honrada e agradecida por essa tarefa. Não é das mais fáceis, mas vou procurar me dedicar de voz e alma.

PÓS-ENTREVISTA.

A ENTREVISTA OCORREU EM DOIS MOMENTOS. O PRIMEIRO FOI PESSOALMENTE, EM MARÇO DESTE ANO. O SEGUNDO OCORREU VIA EMAIL, POUCO DEPOIS DA MORTE DE BELCHIOR

NOVO DISCO.

AMELINHA REVELOU QUE TEM PROJETO PARA GRAVAR DISCO COM ANTIGOS PARCEIROS,COMO RICARDO BEZERRA, E COM OS NOVOS, COMO ZÉ MANUEL. CARLOS SION SERÁ O PRODUTOR

FORRÓ.

A CANTORA DIZ QUE RESPEITA A INDÚSTRIA CONTEMPORÂNEA DE FORRÓ, MAS CRITICA A “FORMA FÁCIL” COM QUE SE PRODUZ DETERMINADAS MÚSICAS. “TÁ FALTANDO POESIA”

 

PERFIL

Amélia Cláudia Garcia Collares nasceu em Fortaleza, no dia 21 de julho de 1950. Aos 20 anos, radicada no Sudeste, começou a participar de pequenos shows, enquanto estudava Comunicação. Seu primeiro disco, Flor da Paisagem (1977), é fruto da relação com a então crescente produção de compositores como Fausto Nilo, Ednardo e Fagner. Tirou o segundo lugar no Festival MPB 80, da Rede Globo, com a canção Foi Deus Que Fez Você. Tem 15 discos gravados, sendo mais recente o projeto Janelas do Brasil Ao Vivo, lançado em CD e DVD (2013). No momento, está na produção de um disco em homenagem a Belchior.

O Povo

Cientistas estudam fungos da Antártica em busca de medicamento contra dengue

Por Leo Rodrigues

Cientistas mineiros estudam fungos da Antártica em busca de substâncias que possam servir para elaboração de medicamentos contra o vírus da dengue. O projeto Micologia Antártica ou simplesmente MycoAntar está realizando testes com mais de 5 mil extratos de substâncias obtidas. Dois deles já demostraram potencial para dar origem a antivirais para humanos, pois foram capazes de inibir o vírus da dengue com baixa toxicidade.

A iniciativa envolve pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre outras instituições. Durante cada Operação Antártica, que ocorre anualmente entre os meses de outubro e março, cientistas viajam ao continente gelado para realizar a coleta de fungos. As amostras, reunidas desde a criação do projeto em 2013, permitiu à UFMG constituir a maior coleção de fungos da Antártica do mundo. São cerca de 8 mil espécies.

Utilizando essas amostras, os cientistas da UFMG crescem os fungos em baixa temperatura e coletam extratos das substâncias produzidas. Eles são enviados para o Centro de Pesquisa Renê Rachou, da Fiocruz, sediado em Belo Horizonte. Lá são identificados os que manifestaram atividade biológica em contato com o vírus da dengue.

"Digamos que, de mil extratos, 100 foram ativos. Então, vamos mapear cada substância desses 100 extratos para testá-las individualmente. Já estamos nessa fase do estudo. Dois extratos já se mostraram mais promissores e agora vamos caracterizar todas as suas substâncias", explicou Luiz Rosa, pesquisador da UFMG.

Também já foi identificada uma substância capaz de inibir o vírus da dengue, conhecida como meleagrina. No entanto, ela não é inédita. "Já havia sido observada em fungo marinho e agora nós a encontramos em um fungo da antártica. O problema é o seu preço. Apenas 1 miligrama vale US$ 1 mil. Mas pode ser que, de repente, nós descobrimos que esse fungo consegue produzi-la em maior quantidade. Ou quem sabe, no futuro, a gente consiga usar essa substância como modelo para criar uma molécula sintética que pode gerar um medicamento acessível", acrescenta Rosa.

O cientista esclarece que o medicamento que buscam não será necessariamente capaz de eliminar a dengue. Pode ser, por exemplo, um remédio que alivie os sintomas de uma fase aguda ou que ajude a desenvolver uma vacina.

Biodiversidade

Com aproximadamente 14 milhões de quilômetros quadrados, a Antártica é territorialmente 1,6 vezes maior que o Brasil e 1,4 vezes maior que os Estados Unidos. Em toda essa extensão há uma grande variedade de seres vivos. No entanto, a vida do continente gelado é composta de poucos macroorganismos. A maior biodiversidade é microbiana, isto é, composta de bactérias, fungos, vírus, microalgas etc.

O isolamento da Antártica também faz com que muitas dessas espécies tenham características particulares e sejam exclusivas, não existindo em qualquer outra parte do mundo.

"Este ano nós descrevemos um fungo novo, azul, o que é muito raro. Então estas espécies que existem lá podem ter vias metabólicas únicas, o que pode levar a descoberta de substâncias inéditas", esclareceu o pesquisador Luiz Rosa. A nova espécie foi encontrada na neve da Antártica e foi batizado de Antarctomyces pellizariae.

Os estudos com foco na busca por medicamentos contra a dengue estão mais avançados, mas também está sendo verificada a atividade das substâncias coletadas para os vírus da zika e da febre chikungunya, entre outras doenças. Luiz Rosa destacou a importância dos investimentos públicos no Mycoantar.

"As grandes indústrias farmacêuticas investem pouco nos estudos com doenças restritas aos países tropicais, que são geralmente países subdesenvolvidos. Isso porque pesquisas com essas enfermidades, como a dengue, a zika e a febre chikungunya, dão pouco retorno financeiro. Por isso, damos a elas o nome de doenças negligenciadas. Entretanto, elas nos afetam. Cabe aos órgãos públicos, como as universidades e a Fiocruz, desenvolverem esses estudos", acrescentou o pesquisador.

Programa Antártico Brasileiro

O MycoAntar é um dos projetos que integram o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), voltado para exploração científica do continente gelado. Ele existe desde 1982 e é desenvolvido a partir do apoio operacional da Marinha e do financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) e de instituições de fomento à pesquisa.

Desde 1982, em todos os anos, uma Operação Antártica é realizada. Entre outubro e março, os pesquisadores viajam para o continente gelado em expedições com apoio logístico da Marinha. Em 2016, ocorreu a 35ª Operação Antártica. Embora as expedições tenham período determinado, os estudos vinculados ao Proantar são ininterruptos e têm prosseguimento durante todo o ano nos laboratórios das instituições brasileiras participantes.

Agência Brasil

'Corra!' é o filme de terror que melhor capta os EUA da era pós-Obama

Por Alysson Oliveira

Escrito e dirigido por Jordan Peele, “Corra!” é um dos filmes que melhor consegue expressar a hipocrisia de um aparente liberalismo - que não se alinha claramente nem à esquerda, nem à direita, postando-se confortavelmente num meio termo, apegado ao politicamente correto.

Uma combinação de drama familiar com terror, o filme é protagonizado por um jovem afro-americano que num final de semana vai conhecer a família de sua namorada. Há um desconforto por parte de Chris (Daniel Kaluuya), porque todos são brancos e ele, que bem conhece o racismo, pergunta a ela se contou para os pais que ele é negro.

Espantada, Rose (Allison Williams) diz que isso não é um problema para os Armitage. “Meu pai votou no Obama duas vezes, e se pudesse votava uma terceira”, alega. Uma frase que será repetida no filme pelo próprio Dean Armitage (Bradley Whitford).

A chegada à casa luxuosa numa região afastada da cidade onde mora a família revela um universo à parte. São todos sorridentes e felizes. Além de Dean, também há Missy (Catherine Keener), a mãe de Rose, e logo chega Jeremy (Caleb Landry Jones), o irmão. Curiosamente, os únicos dois empregados são negros: Georgina (Betty Gabriel) e Walter (Marcus Henderson).

Quando percebe o desconforto de Chris diante da situação, o patriarca logo explica que não é racista, que isso não é uma herança da escravidão e praticamente diz: “Eles são da família” - o que mais tarde se revelará algo um tanto bizarro.

Por debaixo da superfície brilhante e polida dessa família, na qual quase todos são médicos, há algo digno de “O Bebê de Rosemary” ou “As Esposas de Stepford” (ambos criados pelo escritor Ira Levin). Aos poucos, uma trama que parece uma versão contemporânea de “Adivinhe quem vem para jantar” ganha contornos mais sinistros, quando Missy promete acabar com o vício de Chris de fumar usando hipnose.

Em uma festa repleta de figurões – todos brancos e de uma certa idade –, Chris é uma espécie de troféu racial exibido pelos Armitage, como prova de sua modernidade e mente aberta. Todo mundo sorri para ele e o olha com um ar condescendente de aceitação, fingindo que o rapaz é um deles – inclusive na cor da pele.

Há apenas outro jovem afro-americano ali – interpretado com tino por Lakeith Stanfield –, cuja posição, como uma espécie de gigolô de luxo de uma matrona, apenas evidencia o ar de zumbificação que domina o seu olhar.

“Corra!” é um filme sobre os EUA pós-Obama, sobre as estruturas que permanecem por debaixo do verniz polido da falsa igualdade. Georgina e Walter são subservientes, como qualquer personagem escravo de “...E O Vento Levou”, e, ainda assim, mostram-se conformados com essa condição. Sempre sorrindo e parecendo nunca piscarem, suas feições congeladas podem esconder algo, o que incomoda Chris o tempo todo.

O diretor e roteirista Peele joga com as expectativas do seu público, desde o prólogo, quando um jovem afro-americano anda por uma rua de subúrbio em alerta (cansado de saber que um negro sozinho à noite num bairro de classe média é visto com suspeita) até o final do filme, quando faz uma concessão a uma conclusão que poderia ser ainda mais forte.

De qualquer forma, com “Corra!” (um título que pode tanto significar uma ameaça quanto um aviso), o cineasta realizou um dos terrores mais sagazes desde “Corrente do Mal”, capaz não apenas de assustar, como, especialmente, incomodar – e isso tem mais a ver com a questão social que aborda do que com os sustos que provoca.

Clique aqui, confira o trailer e onde o filme está em cartaz na Agenda Cultural!

Reuters