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Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

3 de abril de 2018

Reflexões Pascais

domtotal.com
A Páscoa de Jesus Cristo é um hino ao amor de Deus, desde sempre mais forte que a morte.
A morte e ressureição de Jesus estão alinhavadas no projeto de salvação de Deus para a humanidade.
A morte e ressureição de Jesus estão alinhavadas no projeto de salvação de Deus para a humanidade.
 (Bruno van der Kraan/ Unsplash)
Por Tânia da Silva Mayer*

Com sabedoria, a Igreja celebra as festividades mais importantes para a fé ao longo dos oito dias subsequentes às festas do Natal e da Páscoa. Mistério tão grande não pode ser esgotado, é preciso, pois, tempo para ser ruminado, a fim de que encontre eco nos corações daqueles e daquelas que o celebram. Ainda nesta oitava pascal, propomos mais essa reflexão sobre os acontecimentos fundadores de nossa fé cristã. A Páscoa de Jesus Cristo é um hino ao amor de Deus, desde sempre mais forte que a morte. Somente o amor foi e é capaz de superar as fronteiras e devolver a dignidade da vida que o pecado furtou. Desse amor desmesurado ninguém pode nos distanciar ou separar. O enfrentamento e a superação do mal, do pecado e, por fim, da morte deve animar nossa esperança e encorajar nossa luta por um mundo transformado pela paz e pela justiça, um mundo cujas relações se fundamentem na defesa irrestrita da vida, sobretudo de uma vida plena e abundante.

A morte e ressureição de Jesus estão alinhavadas no projeto de salvação de Deus para a humanidade. A fim de evitarmos exageros, elas devem ser compreendidas na esteira do Reino de Deus, do seu anúncio e inauguração mediante as palavras e ações proféticas e libertadoras de Jesus. Como sabemos, a postura de Jesus diante de Deus e das pessoas, em virtude da proximidade do Reino de Deus, será a mola propulsora que fomentará a rejeição, a condenação e a morte violenta sofrida pelo Nazareno, da qual muitas pessoas se tornam solidárias pela peregrinação na via crucis da existência. Por outro lado, a ressurreição do Senhor é sinal fecundo para a humanidade, à luz daquilo que o Reino é para a história, isto é, ajustamento e participação na maior vida de Deus, graças a iniciativa gratuita e amorosa Dele.

Nesse sentido, ainda do meio de tão grande dor, de números exponenciais de violências e mortes de inocentes, do roubo de direitos fundamentais e da usurpação da dignidade humana, ainda é possível desejar uma páscoa feliz aos que nos são próximos. No entanto, não é possível fazê-lo alijados e alijadas do compromisso com a transformação das realidades de menos em vida em espaços nos quais prevaleça o respeito e a justiça como frutos do amor ensinado por Jesus. Quem não é capaz de amar o outro naquilo que ele é e quem não se dispõe ao serviço dos irmãos e irmãs, não se decidiu pelo Reino e não se deixou confrontar pela promessa de plenificação do mundo, da história e do ser humano. Que os cristãos e as cristãs sejamos capazes de desejar uma feliz páscoa ao mundo, a partir do testemunho do amor da Cruz que, ainda que seja denúncia contumaz da maldade dos homens, é revelação do amor que celebra a vida, acreditando e lutando para que ela seja melhor, e será!

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

Relação de Abraham Lincoln com o filho morto inspirou o livro vencedor do Booker Prize

Chris Jackson/AFP - 17/10/07
(foto: Chris Jackson/AFP - 17/10/07)

Contista renomado, o americano George Saunders não planejava escrever um romance tão cedo, mas uma história o perseguiu durante pelo menos duas décadas: a de que o presidente Abraham Lincoln (1809-1865), inconformado com a morte, por tifo, de seu filho Willie, de 11 anos, visitou o túmulo em uma noite de fevereiro de 1862 e embalou o cadáver. “A trama era cativante demais”, diz ele.

O resultado não poderia ter sido mais bem-sucedido. Publicado no ano passado, Lincoln no limbo venceu o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio da literatura em língua inglesa. E o romance ganha agora versão em português, pela Companhia das Letras.

Mais que o ponto de partida por si só instigante, o que impressionou o júri foi a original opção de linguagem adotada por Saunders: em vez da prosa realista, a narrativa se apresenta como uma interessante colcha na qual foram costurados depoimentos de pessoas envolvidas na trama, resultando em um romance polifônico. Na verdade, são as vozes dos fantasmas que, como Willie, habitam o limbo em que se transformou o cemitério e acompanham atônitos a decisão de Lincoln de visitar o filho, estabelecendo uma inédita ponte entre vida e morte. Ou seja, o bardo – termo que está no título original (Lincoln in the bardo) e, no budismo tibetano, corresponde ao estágio intermediário entre o fim da existência e o renascimento.


Habilidoso, Saunders uniu trechos de documentos históricos com outros criados por sua imaginação, o que resultou em um raro experimentalismo nesse estilo. “Narrado por um deslumbrante coro de vozes, Lincoln no limbo é uma emocionante exploração da morte, do pesar, do significado e das possibilidades mais profundas da vida”, justificou o júri do Booker Prize.

A narrativa atinge um ponto sublime quando os fantasmas repetem a trajetória do espírito de Willie e “entram” no corpo de Lincoln, o que os torna mais virtuosos e evoluídos.


Nesta entrevista, George Saunders fala de seu personagem e também de Donald Trump, que assumiu a Casa Branca 152 anos depois do assassinato do ex-presidente dos Estados Unidos.

A leitura do livro faz concluir que você não escreveu sobre Lincoln, mas sobre a decisão dele em visitar a cripta do filho. O que tanto o atraiu nesse fato?

A história me foi contada há mais de 20 anos por minha mulher, Paula, que leu a notícia em um jornal. Fiquei imediatamente fascinado, mas não a ponto de escrever um romance. Aquela visita à cripta do filho, porém, ficou na minha memória e, quando finalmente resolvi escrever, sabia da necessidade de provocar no leitor a mesma surpresa que tive em 1992. Meu plano era simples, mas direto: fornecer pequenos instantâneos, certas particularidades de Lincoln naquela noite. Queria ser preciso ao descrever o estado de espírito daquele homem naquele momento.

Em suas pesquisas, você ficou surpreso com a figura de Lincoln?

Fiz, de fato, muitas pesquisas e li diversos livros para constatar como Lincoln era incrivelmente impopular naquele início de mandato e como ele, mesmo assim, não esmoreceu – ao contrário, fortaleceu-se com tanta adversidade. Mas o que me interessava era seu lado misterioso, relatos que mostrassem sua fragilidade.

Quando você fala em fornecer pequenos instantâneos de Lincoln naquela noite, já é uma explicação para sua opção em construir o texto em pequenos blocos de depoimentos?

Sim, com certeza. Quando comecei a escrever, tinha algumas certezas: não produziria um enorme monólogo de Lincoln, tampouco uma narrativa realista, salpicada de datas e lugares – queria evitar armadilhas óbvias. Muito texto certamente chatearia o leitor e meu objetivo era criar uma prosa atraente, magnética até. O momento crucial foi quando percebi que os depoimentos dos fantasmas poderiam se encaixar tranquilamente nos textos históricos, estabelecendo uma comunicação entre eles e permitindo a adoção de uma escrita ágil, que me possibilitasse transitar entre os personagens. Desde sempre, meu interesse era me aventurar pela linguagem para descobrir caminhos que não me entediassem.

A paixão desse pai pelo filho, nessas condições originais, fornece um aspecto religioso ao livro, não?

Com certeza. A questão espiritual é decisiva para mim. Na tradição budista, uma das ideias predominantes diz que a mente e o corpo trabalham juntos para amortecer as qualidades selvagens da mente. Quando vem a morte, a corrente é interrompida e a mente acaba superdimensionada. Isso é um aviso de que devemos observar sempre o trabalho de nossa mente. O termo bardo, que está no título original do livro, trata justamente desse momento entre a interrupção da vida e a preparação para seu renascimento.

Você escreveu sobre Donald Trump durante a campanha eleitoral, buscando decifrar a complexidade de um candidato que despontava como fenômeno. Hoje, com mais de um ano de mandato, Trump ainda é indecifrável para você?

É depressivo falar sobre Trump agora, pois ele é fruto de vários fatores, entre eles, a má formação cultural do eleitor americano. Adoro meu país, mas tenho uma visão pragmática: Trump não é um ideólogo. Na verdade, não passa de um caos. Não tem uma posição intelectual, tampouco política, apenas chama a atenção para si mesmo. O que é particularmente perigoso, pois é um homem imprevisível. (Ubiratan Brasil/Estadão Conteúdo)


TRECHO*

“No dia em que nos casamos eu tinha quarenta e seis anos e ela dezoito. Ora, bem sei o que você está pensando: homem mais velho (nada magro, começando a ficar calvo, puxando por uma perna, dentadura de madeira) exerce sua prerrogativa matrimonial, humilhando com isso a infeliz jovem…

Mas não é verdade.
Pois fique sabendo que foi exatamente isso que me recusei a fazer.
Na noite do casamento, galguei com passos pesados a escada, o rosto afogueado pela bebida e pelas danças, para encontrá-la vestindo algo quase transparente que a tia a obrigara a usar, a gola de seda vibrando de leve em compasso com seus tremores – e não fui capaz de fazer nada.
Falando baixinho, abri o coração: ela era bonita; eu era velho, feio, gasto; aquela união era estranha, não nascera do amor, mas das conveniências: seu pai era pobre, a mãe doente. Por isso ela estava ali. Eu sabia disso perfeitamente. E não sonharia em tocá-la, eu disse, quando senti seu medo e… usei a palavra “aversão”.
Ela me garantiu que não sentia “aversão” embora eu visse seu rosto (belo, corado) contorcido pela mentira.
Propus que fôssemos… amigos. Cuidaríamos de nos comportar para todos os efeitos como se houvéssemos consumado a união. Ela deveria se sentir à vontade e feliz na minha casa, esforçando-se para transformá-la em seu próprio lar. Eu não esperaria
mais nada dela.
E assim vivemos. Tornamo-nos amigos. Amigos queridos. Isso foi tudo. E, no entanto, era muito. Ríamos juntos, tomávamos decisões sobre a rotina da casa – ela me ajudou a prestar mais atenção nos criados, falar com eles de forma menos superficial. Ela tinha muito bom gosto e conseguiu remodelar os aposentos gastando uma fração do custo estimado. Vê-la alegrar-se quando eu chegava, sentir seu corpo junto ao meu quando discutíamos algum problema doméstico me fazia um bem que não sou capaz de explicar de forma adequada. Eu tinha sido feliz, suficientemente feliz, mas agora me via com frequência pronunciando uma prece espontânea em que dizia apenas: Ela está aqui, ainda aqui. Era como se um rio impetuoso houvesse aberto caminho pelo meio de minha casa, agora invadida por um aroma de água fresca e pela percepção de algo exuberante, natural e arrebatador sempre se movendo próximo a mim.”

* Lincoln no limbo
Tradução: Jório Dauster

Aplicativo desenvolvido por cearenses facilita a organização de casamentos

Uma plataforma desenvolvida por cearenses tem facilitado a vida de noivos de todo o país, com serviços inéditos na organização de casamentos. O aplicativo Willu tem o objetivo de facilitar a vida de muitos casais.
O idealizador do aplicativo, Leonardo Rocha, destaca como meta principal dessa plataforma a sensação de comodidade na organização para os novos casais. “A ideia é facilitar, e o acesso é muito fácil”.
Para utilizar o aplicativo basta acessar o site e inserir algumas informações principais como nome, email e fotos. “Funciona como uma rede privativa do casal e dos convidados”.  Ele já está disponível para download em Android e iOS, também podendo ser acessado pelo site.
Uma das principais ferramentas que tem na plataforma é a lista de presentes virtual. “O convidado compra o presente dos noivos no site personalizado através da plataforma, mas o presente é fictício. O que chega para os noivos é o dinheiro. Isso é uma tendência muito forte no mercado, porque faz com que os noivos otimizem mais o uso dessa lista de presentes”, comenta o idealizador.

Tribuna do Ceará

Série de livros fala sobre criação musical brasileira

por Roberta Souza - Repórter
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Fausto, Lenine, Flávio Venturini e Ednardo são alguns dos compositores contemplados na série
Jezebel, Calcutá, Alah meu only you... As palavras que ilustram a canção "Zanzibar", parceria do cearense Fausto Nilo com o baiano Armandinho, d'A Cor do Som, podem guardar um significado - ou não. A história da composição dessa e de outras 39 canções nacionais podem ser conferidas no volume 4 do livro "Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira", do pesquisador, produtor multimídia, escritor e radialista Ruy Godinho.
Ele estará em Fortaleza para o lançamento da obra nesta quarta (4), a partir das 19h, na Escola Porto Iracema das Artes, numa roda de conversa com Fausto, Mona Gadelha, Isaac Cândido e Aparecida Silvino.
A série é resultado de uma pesquisa iniciada em 1997, quando o radialista e Adriane Lorenzon produziam o programa "Estação Brasil" para a Rádio Cultura de Brasília. Um dos quadros era "A origem da música", no qual os compositores revelavam exatamente o momento da criação. "Esse quadro gerou um acervo maravilhoso. Em 2006 comecei a sistematizar o material para o lançamento do primeiro volume do livro, em 2008", conta Ruy. De cara, o autor contou a história de 80 músicas.
"O projeto se iniciou com foco somente na biografia das canções: como foram feitas, circunstâncias, emoções que sentiram na hora de compor, quem fez a letra, a melodia. Na seleção de repertório, músicas de todas as épocas, gêneros e movimentos brasileiros", contextualiza.
Já naquela primeira edição, Fausto Nilo aparecia assinando o prefácio e a autoria de duas canções: "Espinha de bacalhau", parceria com Severino Araújo, e "Paroara", composta com Fagner e Chico Buarque.
O cearense volta a aparecer no vol. 3, com a composição "Eu também quero beijar", ao lado de Moraes Moreira e Pepeu Gomes, e agora, no vol. 4, com a já anunciada "Zanzibar". "Foram duas entrevistas com ele; as duas realizadas em Fortaleza", afirma Godinho sobre a apuração com Fausto. Ednardo foi outro que teve a história de suas canções contadas pelo autor, a exemplo de "Enquanto engoma a calça" e "Pavão Mysterioso".
"Com este livro, ficou imperioso entrevistar as fontes primárias para evitar equívocos. Tem gente que divulga irresponsavelmente na internet algumas histórias que não tem nada a ver", critica. O autor faz o possível para entrevistar diretamente os compositores. Somente no caso de falecidos que ele recorre as pesquisas em periódicos, livros e programas de rádio antigos.
Vale destacar que "esse trabalho é dedicado aos criadores musicais. O foco principal é a criação. Só quando tem uma gravação em que o intérprete se destaca que cabe um comentário", pontua.
Edições
A medida que o projeto foi ganhando novas edições, o roteiro de perguntas para os entrevistados foi se ampliando também. No vol. 2, Ruy acrescentou "como funciona processo criativo?" e "como se dão relações de parceria?". Os capítulos aumentaram de tamanho e a quantidade de histórias baixou para 62.
Já no vol. 3 foram contadas 44 histórias, por ser acrescida mais uma questão: a relação da criação musical com o divino. "No vol. 4, coloquei outras duas questões e acho que agora atingi o questionário completo. Acrescentei 'qual seu diferencial pro cenário musical brasileiro?' e também 'o que te inspira? Não só para compor, mas para a vida'. Assim, fechei em 40 histórias. Fui diminuindo a quantidade pra manter o padrão de tamanho. Todos tem 320 páginas", explica o autor.
Estão presentes no último volume canções como "Coração de estudante" (Wagner Tiso/Milton Nascimento), "Fênix" (Flávio Venturini/ Jorge Vercillo), "Paciência" (Lenine/ Dudu Falcão), "Para Lennon e Mc Cartney" (Lô Borges/ Márcio Borges/ Fernando Brant), "Tropicana" (Vicente Barreto/Alceu Valença), "Cais" (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos), "Vapor Barato" (Jards Macalé/Waly Salomão), "Clube da Esquina Nº 2" (Lô Borges/ Milton Nascimento/ Márcio Borges), "Zanzibar" (Armandinho/ Fausto Nilo) e "O trem azul" (Lô Borges/Ronaldo Bastos).
Roda de conversa
Na primeira atividade de lançamento da série em Fortaleza, Ruy convida três cantores-compositores cearenses que têm em comum o fato de terem concedido entrevistas sobre seu processo de criação para o autor.
Fausto é o único que entrou no livro, mas Isaac Cândido e Mona Gadelha foram contemplados pelo programa de Rádio homônimo à obra impressa, existente desde 2010.
O programa é transmitido por 271 emissoras em todo Brasil. No Ceará, é contemplado por algumas webrádios. As entrevistas são publicadas no site abravideo.Org.Br e ficam à disposição de quem deseja retransmitir. "Faz parte de um projeto de compartilhamento de conteúdo. Essas rádios que retransmitem são universitárias, comunitárias, públicas", ressalta o radialista.
Para Isaac, o mais interessante do projeto é exatamente as entrevistas que Ruy realiza com todos os compositores de uma mesma canção. "Se tiver três autores, ele entrevista as três pessoas. Cada um tem uma memória e ele obedece isso de uma forma muito bacana. Esse registro fica para as pessoas saberem qual foi a intenção dos autores no processo criativo", observa.
Já Mona destaca o fato de Ruy não ter se restringido aos "medalhões da MPB" e lembra com carinho a entrevista que cedeu para ele há alguns anos. "Ele me contatou, já conhecia meu trabalho desde o primeiro disco. Na entrevista, abordou a história das canções 'Cor de sonho', 'Cinema Noir', 'Imagine nós' e 'Apenas meninas', esta uma parceria minha com Moisés Santana", recorda.
A quarta convidada para a roda, Aparecida Silvino, ainda não foi entrevistada por Ruy, mas entra na conversa como intérprete. "Além dela poder responder questões da criação musical, como compositora competente que é, pode falar sobre releituras e interpretação com sua linguagem própria", acredita o autor, que defende a ideia de um encontro aberto às colocações de todos os presentes, especialmente do público. Um violão dará o tom musical ao momento.
Saiba mais
Uma edição do livro "Então, foi assim?" de compositores nordestinos já está pronta com 50 histórias. A intenção de Ruy é lançar até o fim do ano.
Outro volume em processo de finalização é dedicado aos compositores mineiros, a ser lançado no primeiro semestre de 2019.
Ruy pretende dedicar mais de um volume aos compositores mineiros e nordestinos.
O autor passará o mês de maio no Amapá produzindo um volume especial sobre compositores amapaenses.
A ideia é que, com o tempo, o projeto se expanda a todos os estados brasileiros.

Livro

"Então, foi assim? - Os bastidores da criação musical brasileira" vol. 04
Ruy Godinho


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2018, 320 páginas
R$40

Mais informações:
Roda de Conversa "Processos Criativos da Música Brasileira" e lançamento da coleção "Então, foi assim? - Os bastidores da criação musical brasileira", de Ruy Godinho. Nesta quarta (4), às 19h, no Auditório do Porto (Rua Dragão do Mar, 160 - Praia de Iracema). Gratuito.

Diário do Nordeste

Obras do escritor argentino Julio Cortázar na Companhia das Letras

por Guilherme Sobota - Agência Estado
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O escritor argentino Julio Cortázar: a Companhia das Letras avalia que o autor passa por um momento de redescoberta. "Ele começa a ser lido de um jeito inédito, menos automático e reverente", diz o editor Emilio Fraia
A coleção Julio Cortázar na Companhia das Letras começará com a publicação, inédita no Brasil, de uma reunião de todos os contos do escritor argentino, em um box caixa, em dois tomos, segundo a nota da editora.
Depois, serão lançadas novas edições de "O jogo da amarelinha" (1963), "Bestiário" (1951), "Final do jogo" (1956), "As armas secretas" (1959), "Todos os fogos o fogo" (1966), "Octaedro" (1974), "Queremos tanto a Glenda" (1980), "História de cronópios e de famas" (1962), "Um tal Lucas" (1979), "Os autonautas da cosmopista" (1983), "Os prêmios' (1960), "62 modelo para armar" (1968), "Divertimento" (1986), "O exame" (1986), "A volta ao dia em oitenta mundos" (1967), "Último round" (1969), "O discurso do urso" (1952) e a versão ilustrada por José Muñoz do conto "O perseguidor".
Os livros terão capas feitas especialmente para as edições brasileiras pelo artista norte-americano Richard McGuire - capista da revista New Yorker e autor de "Aqui". O Grupo Record, que publicava os livros de Cortázar com a Civilização Brasileira, confirmou a informação, mas preferiu não falar nada sobre a mudança.
Experimentação
O professor e crítico Davi Arrigucci Jr., autor de "O escorpião encalacrado", diz via comunicado que "a escrita de Cortázar se distingue, entre os grandes narradores hispânicos do século XX, pelos riscos com que assumiu a liberdade de inventar, por vezes beirando o limite da destruição da narrativa ou o impasse do silêncio. Uma literatura de invenção marcada na essência pela busca e pela experimentação contínua de novos rumos. Uma obra em rebelião permanente, em constante transformação".
A Companhia das Letras avalia que Cortázar passa por um momento de redescoberta. "Ele começa a ser lido de um jeito inédito, menos automático e reverente", diz o editor Emilio Fraia, também em nota. "Às vezes é preciso que surja uma nova geração de leitores para enxergar um escritor com certa distância. É o que a Companhia vai ter a oportunidade de fazer agora com Cortázar", completa.

Diário do Nordeste

Caixa Cultural recebe peça em homenagem à escritora Clarice Lispector

FOTOS: CHRISTIANO NASCIMENTO/DIVULGAÇÃO
FOTOS: CHRISTIANO NASCIMENTO/DIVULGAÇÃO
Aos 22 anos, recém-saída da escola de teatro, Rita Elmôr estava decidida a levar Clarice Lispector (1920-1977) aos palcos. Sem dinheiro para tocar o projeto autoral, a atriz teve de vender o próprio carro para conseguir realizar a produção. Assim nasceu Que mistérios tem Clarice, um sucesso que rendeu para a paulistana radicada no Rio a indicação do Prêmio Shell de melhor atriz. A repercussão correu o País e, após três anos de intensa circulação entre 1998 e 2000, Rita resolveu tocar sua carreira além-Lispector. O laço entre as duas, porém, nunca se rompeu. Tanto que na próxima quinta-feira, Rita sobe ao palco da Caixa Cultural em novo trabalho sobre a autora de A hora estrela. A peça Clarice Lispector e Eu - O mundo não é chato faz curta temporada até domingo.
“Depois desse primeiro espetáculo, fiz outras peças, TV, cinema. Obviamente me afastei da Clarice, porque estava envolvida com outras coisas. Mas aí eu comecei a acompanhar um evento curioso: minha imagem sendo confundida com a dela. Vi numa banca, uma foto minha na capa de uma revista como se fosse ela. Ninguém me reconhecia ali”, conta Rita, em entrevista ao O POVO. Por mais que a atriz quisesse seguir, ao longo dos 18 anos que separam uma peça da outra, ela viu o vínculo com a escritora permanecer. “Os anos foram passando e essa coisa foi tomando uma proporção muito grande. O filho da Clarice me escrevia, me mandava edição de livro com a minha foto. Começaram a vender camiseta com a minha imagem, ímã de geladeira, caneca”, narra.
Foi a partir da permanência dessa confusão que a atriz reiniciou, aos poucos, um contato mais íntimo com a autora. “Essa associação começou a borrar a imagem dela e a minha. Isso começou a me perturbar um pouco e eu queira falar sobre isso, que estava cada vez mais forte”, explica. A artista, então, convidou o diretor teatral Rubens Camelo para iniciar um novo processo. A própria Rita criou uma dramaturgia que reúne trinta e seis recortes de textos de diferentes livros da autora. O foco dado é no lado “menos introspectivo” da escritora, em narrativas que revelam uma Clarice mais voltada ao mundo exterior e, consequentemente, num diálogo mais direto com questões políticas e sociais.
“Ler Clarice é aprender a observar a vida para além das aparências. Ela passou a vida olhando as pessoas e, a partir dessa observação, faz o leitor perceber as diversas camadas de um acontecimento, ela leva a gente para um exercício de aprofundamento das situações”, decanta Rita, esclarecendo de onde nasce a paixão pela autora. Para a atriz, mergulhar em Clarice permite suscitar novas leituras da vida ao redor. “Você começa a se relacionar com tudo a sua volta de maneira diferente. A obra dela mostra que se o pensamento tiver amortecido, não tiver vivo, a gente vai sempre repetir padrões”, continua. Para Rita, hoje aos 44 anos, é ainda mais fácil dialogar com a autora. “Na medida em que eu vivo, amadureço, vou entendendo Rita com mais profundidade”.


Clarice Lispector e Eu - O mundo não é chato não é um trabalho biográfico, não tem como objetivo contar a história de vida desas duas mulheres. A obra costura, a partir de um cenário minimalista, situações que saltam da literatura para dialogar com o agora. No caminho para pensar a construção dramatúrgica do espetáculo, a intérprete buscou também situações cômicas. “Dá para extrair humor falando de assuntos difíceis. Clarice consegue fazer rir e ao mesmo tempo nos deixar atônitos com uma situação. Eu persegui esse sentimento para que a peça não ficasse de uma nota só”. O intuito, ela detalha, é aproximar o público da obra de Clarice e tornar possível brincar com a fusão Clarice-Rita. “Por meio dos textos dela, falo sobre o desencaixe. No Brasil de hoje, muita gente tem se sentido como Clarice: desencaixada”, completa.
SERVIÇO
Clarice Lispector e Eu - o mundo não é chato
Quando: de quinta, 5, a sábado, 7, às 20 horas. Domingo, às 19 horas
Onde: Caixa Cultural (Avenida Pessoa Anta, 287 - Praia de Iracema)
Quanto: R$ 10 (inteira)
Telefone: 3453 2770

CONFUSÕES ENTRE AUTORA E ATRIZ
MEMES
Rita Elmôr é quem estampa muitas das imagens que circulam com frases atribuídas a Clarice Lispector nas redes sociais. “A foto não é dela e nem a frase. É quase uma metáfora de como as aparências enganam”, brinca a atriz.

PRODUTOS
De camisetas, canecas e imãs de geladeira a capas de revistas e outras, são muitas as trocas de imagem entre as duas. Até em propaganda de TV, Rita já se viu por engano, equívoco que se repete com frequência em publicações nacionais e internacionais.

“HOMENAGENS”
A Prefeitura do Rio de Janeiro também já confundiu Rita e Clarice. No dia do aniversário da autora ano passado, a foto usada foi da atriz em cena. A confusão também chegou a matérias de jornal sobre os 40 anos de morte dela, data lembrada em muitos veículos em 2017.

RENATO ABÊ
O Povo

Como Leonardo da Vinci pintou todos nós no seu quadro 'A Última Ceia'

A Última Ceia' de Leonardo da Vinci é sua obra cristã mais reproduzida e talvez de toda arte cristã.
‘A Última Ceia’, Leonardo da Vinci
‘A Última Ceia’, Leonardo da Vinci (Reprodução)
Por Terrance Klein
Há duas coisas que todos devem saber sobre as pinturas de Leonardo da Vinci. Elas ajudam você a apreciar tanto seu gênio quanto suas obras-primas.
Primeiro, Leonardo não pintou em linhas. Ele não adicionou cor aos esboços de linhas como muitos outros pintores. O mestre florentino percebeu que não há linhas na natureza. A mente humana as impõe, pois percebe mudanças sensoriais. A natureza não apresenta uma linha que define um limite entre a janela e o marco da janela. É assim que nossa mente organiza nossas percepções, o que é uma sorte porque de outra forma tudo o que podemos ver seria um caos sem sentido, muito parecido com a visão de um recém-nascido ou de um animal inferior.
Se você olhar atentamente para uma pintura de Leonardo, verá que suas cores se sobrepõem. Uma cor gradualmente dá lugar a outra, de modo que elas novamente formam uma linha em nossa mente. Mas na própria tela há uma mistura. Chamamos essa técnica de sfumatura, do italiano, que significa de tom baixo ou evaporado.
A outra característica essencial da arte de Leonardo é que ele também não acreditava que existissem linhas no tempo. Um momento leva constantemente a outro. É só mais tarde, na memória e na narrativa, que os separamos em sequências ordenadas.
Agora você está pronto para apreciar, de uma maneira nova, uma imagem que todos nós já vimos. É a obra mais reproduzida da arte cristã de Leonardo, talvez de toda arte cristã: "A Última Ceia".
Sem uma cópia da pintura à sua frente, você não pode apreciar a sfumatura física das cores, mas a narrativa pode recontar o Evangelho relacionando-o com sua sfumatura emocional.
Leonardo era um gênio quando se tratava de descrever fisicamente emoções psicológicas, e ele escolheu pintar o momento principal na narrativa da Última Ceia, o momento em que Jesus anuncia que seu traidor está com ele à mesa.
Primeiro, observe que Leonardo impôs uma ordem ao grupo dos 13 reunindo-os em pares de três, com Cristo no centro. Ele nos moverá através do tempo, se começarmos na extrema esquerda, onde Bartolomeu, Tiago o Menor e André estão, como escreve o biógrafo de Leonardo, Walter Isaacson, “todos ainda mostrando a reação imediata de surpresa frente ao anúncio de Jesus. Bartolomeu, aparece alerta e forte, está no processo de pular de pé, "prestes a se levantar, de cabeça para a frente", como Leonardo escreveu.
No livro Leonardo da Vinci, Isaacson escreve:
O segundo trio da esquerda é Judas, Pedro e João. Escuro, feio e de nariz encurvado, Judas segura na mão direita o saco de prata que lhe foi dado pela promessa de trair Jesus, cujas palavras ele sabe que são dirigidas a ele. Ele recua, derrubando o saleiro (que é claramente visível nas primeiras cópias, mas não na pintura atual) em um gesto que se torna notório. Ele se afasta de Jesus e é retratado nas sombras. Mesmo quando seu corpo recua e torce, sua mão esquerda alcança o pão incriminador que ele e Jesus compartilharão.
Pedro é combativo e agitado, expressando sua indignação. "De quem se fala?", pergunta Pedro. Ele parece pronto para agir. Na sua mão direita está uma faca comprida; ele iria, mais tarde naquela noite, cortar a orelha de um servo do sumo sacerdote enquanto tentava proteger Jesus dos soldados que vieram prendê-lo.
Em contraste, João está quieto, sabendo que não é suspeito; ele parece entristecido, mas resignado com o que sabe, não pode ser evitado. Tradicionalmente, João é mostrado dormindo ou deitado no peito de Jesus. Leonardo o mostra alguns segundos depois, após o pronunciamento de Jesus, ensimesmado tristemente.
“A última ceia” é uma única imagem, mas se lê ou pode ser vista como uma narrativa emocional momento a momento, que até mesmo antecipa a história que está por vir. Finalmente chegamos ao centro.
Jesus, sentado sozinho no centro da Última Ceia, com a boca ainda ligeiramente aberta, terminou de fazer seu pronunciamento. As expressões das outras figuras são intensas, quase exageradas, como se fossem jogadores em um concurso. Mas a expressão de Jesus é serena e resignada. Ele parece calmo, não agitado.
À direita de Jesus estão Tomé, Tiago o Maior e Felipe. Tomé levanta o dedo indicador direito. É o gesto favorito de Leonardo, mas este também é o discípulo que em breve será ordenado a colocar o mesmo dedo no lado ferido do Jesus ressuscitado. Leonardo está puxando momentos diferentes e juntando-os nesta cena.
O trio final à direita compreende Mateus, Tadeu e Simão. Eles já estão em uma discussão acalorada sobre o que Jesus pode ter dito e o que significavam suas palavras. Olhe para a mão direita de Tadeu, em concha. Leonardo era um mestre dos gestos, mas também sabia como torná-los misteriosos, para que o espectador pudesse ficar engajado com a pintura. Ele está batendo a própria mão como se dissesse: "Eu sabia?" Está sacudindo o polegar na direção de Jesus ou Judas? O espectador não precisa se sentir mal por estar confuso; em suas próprias maneiras, Mateus e Tadeu também estão confusos sobre o que acaba de ocorrer, e estão tentando resolvê-lo e procurar respostas em Simão. Voltando a Jesus, Isaacson escreve:
A mão direita de Jesus está se aproximando a um copo sem haste, um terço cheio de vinho tinto. Em um detalhe deslumbrante, seu dedinho é visto através do próprio vidro. A mão esquerda dele está com a palma para cima, gesticulando para outro pedaço de pão, que ele olha com os olhos baixos...
Esse gesto e olhar criaram o segundo momento que brilha na narrativa da pintura: a da instituição da Eucaristia. Esta parte da narrativa transluze para fora de Jesus, abrangendo tanto a reação à sua revelação de que Judas o trairá como a instituição do santo Sacramento.
Não é de estranhar que a pintura mais famosa de Leonardo seja a Última Ceia. Todos nós concordamos e nos sentimos dentro dela! Porque, não é verdade que todos nós, de alguma forma, traímos o Senhor, apesar de comermos com ele à mesa? E não somos todos facilmente agitados em cada momento novo do nosso dia a dia, imaginando o que o Senhor faria se estivesse na mesma situação? Não estamos propensos a tomar as próprias decisões, coisas, até facas, porque pensamos que sabemos o que deve ser feito? No entanto, como João, em momentos de profunda intimidade com o Senhor, não nos é dada a graça de aceitar tudo o que deve acontecer?
E então temos o Senhor. Focado, em paz, apontando para o sacramento. Com olhos de fé, pode-se olhar através das espécies externas e ver o verdadeiro corpo e sangue de Cristo. Seu dedo pode ser visto através do vidro.
Sfumatura. Quando as cores correm juntas. Quando os momentos se unem. E existe em todos e cada um de nós, que somos parte fiéis, parte infiéis. Vivemos em um mundo esfumaçado, mas a semana passada, Cristo, no centro, nos atraiu para si e se entregou por nós. Ele faz isso com grande compaixão e total clareza.

America Magazine - Tradução: Ramón Lara