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Relação de Abraham Lincoln com o filho morto inspirou o livro vencedor do Booker Prize

Chris Jackson/AFP - 17/10/07
(foto: Chris Jackson/AFP - 17/10/07)

Contista renomado, o americano George Saunders não planejava escrever um romance tão cedo, mas uma história o perseguiu durante pelo menos duas décadas: a de que o presidente Abraham Lincoln (1809-1865), inconformado com a morte, por tifo, de seu filho Willie, de 11 anos, visitou o túmulo em uma noite de fevereiro de 1862 e embalou o cadáver. “A trama era cativante demais”, diz ele.

O resultado não poderia ter sido mais bem-sucedido. Publicado no ano passado, Lincoln no limbo venceu o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio da literatura em língua inglesa. E o romance ganha agora versão em português, pela Companhia das Letras.

Mais que o ponto de partida por si só instigante, o que impressionou o júri foi a original opção de linguagem adotada por Saunders: em vez da prosa realista, a narrativa se apresenta como uma interessante colcha na qual foram costurados depoimentos de pessoas envolvidas na trama, resultando em um romance polifônico. Na verdade, são as vozes dos fantasmas que, como Willie, habitam o limbo em que se transformou o cemitério e acompanham atônitos a decisão de Lincoln de visitar o filho, estabelecendo uma inédita ponte entre vida e morte. Ou seja, o bardo – termo que está no título original (Lincoln in the bardo) e, no budismo tibetano, corresponde ao estágio intermediário entre o fim da existência e o renascimento.


Habilidoso, Saunders uniu trechos de documentos históricos com outros criados por sua imaginação, o que resultou em um raro experimentalismo nesse estilo. “Narrado por um deslumbrante coro de vozes, Lincoln no limbo é uma emocionante exploração da morte, do pesar, do significado e das possibilidades mais profundas da vida”, justificou o júri do Booker Prize.

A narrativa atinge um ponto sublime quando os fantasmas repetem a trajetória do espírito de Willie e “entram” no corpo de Lincoln, o que os torna mais virtuosos e evoluídos.


Nesta entrevista, George Saunders fala de seu personagem e também de Donald Trump, que assumiu a Casa Branca 152 anos depois do assassinato do ex-presidente dos Estados Unidos.

A leitura do livro faz concluir que você não escreveu sobre Lincoln, mas sobre a decisão dele em visitar a cripta do filho. O que tanto o atraiu nesse fato?

A história me foi contada há mais de 20 anos por minha mulher, Paula, que leu a notícia em um jornal. Fiquei imediatamente fascinado, mas não a ponto de escrever um romance. Aquela visita à cripta do filho, porém, ficou na minha memória e, quando finalmente resolvi escrever, sabia da necessidade de provocar no leitor a mesma surpresa que tive em 1992. Meu plano era simples, mas direto: fornecer pequenos instantâneos, certas particularidades de Lincoln naquela noite. Queria ser preciso ao descrever o estado de espírito daquele homem naquele momento.

Em suas pesquisas, você ficou surpreso com a figura de Lincoln?

Fiz, de fato, muitas pesquisas e li diversos livros para constatar como Lincoln era incrivelmente impopular naquele início de mandato e como ele, mesmo assim, não esmoreceu – ao contrário, fortaleceu-se com tanta adversidade. Mas o que me interessava era seu lado misterioso, relatos que mostrassem sua fragilidade.

Quando você fala em fornecer pequenos instantâneos de Lincoln naquela noite, já é uma explicação para sua opção em construir o texto em pequenos blocos de depoimentos?

Sim, com certeza. Quando comecei a escrever, tinha algumas certezas: não produziria um enorme monólogo de Lincoln, tampouco uma narrativa realista, salpicada de datas e lugares – queria evitar armadilhas óbvias. Muito texto certamente chatearia o leitor e meu objetivo era criar uma prosa atraente, magnética até. O momento crucial foi quando percebi que os depoimentos dos fantasmas poderiam se encaixar tranquilamente nos textos históricos, estabelecendo uma comunicação entre eles e permitindo a adoção de uma escrita ágil, que me possibilitasse transitar entre os personagens. Desde sempre, meu interesse era me aventurar pela linguagem para descobrir caminhos que não me entediassem.

A paixão desse pai pelo filho, nessas condições originais, fornece um aspecto religioso ao livro, não?

Com certeza. A questão espiritual é decisiva para mim. Na tradição budista, uma das ideias predominantes diz que a mente e o corpo trabalham juntos para amortecer as qualidades selvagens da mente. Quando vem a morte, a corrente é interrompida e a mente acaba superdimensionada. Isso é um aviso de que devemos observar sempre o trabalho de nossa mente. O termo bardo, que está no título original do livro, trata justamente desse momento entre a interrupção da vida e a preparação para seu renascimento.

Você escreveu sobre Donald Trump durante a campanha eleitoral, buscando decifrar a complexidade de um candidato que despontava como fenômeno. Hoje, com mais de um ano de mandato, Trump ainda é indecifrável para você?

É depressivo falar sobre Trump agora, pois ele é fruto de vários fatores, entre eles, a má formação cultural do eleitor americano. Adoro meu país, mas tenho uma visão pragmática: Trump não é um ideólogo. Na verdade, não passa de um caos. Não tem uma posição intelectual, tampouco política, apenas chama a atenção para si mesmo. O que é particularmente perigoso, pois é um homem imprevisível. (Ubiratan Brasil/Estadão Conteúdo)


TRECHO*

“No dia em que nos casamos eu tinha quarenta e seis anos e ela dezoito. Ora, bem sei o que você está pensando: homem mais velho (nada magro, começando a ficar calvo, puxando por uma perna, dentadura de madeira) exerce sua prerrogativa matrimonial, humilhando com isso a infeliz jovem…

Mas não é verdade.
Pois fique sabendo que foi exatamente isso que me recusei a fazer.
Na noite do casamento, galguei com passos pesados a escada, o rosto afogueado pela bebida e pelas danças, para encontrá-la vestindo algo quase transparente que a tia a obrigara a usar, a gola de seda vibrando de leve em compasso com seus tremores – e não fui capaz de fazer nada.
Falando baixinho, abri o coração: ela era bonita; eu era velho, feio, gasto; aquela união era estranha, não nascera do amor, mas das conveniências: seu pai era pobre, a mãe doente. Por isso ela estava ali. Eu sabia disso perfeitamente. E não sonharia em tocá-la, eu disse, quando senti seu medo e… usei a palavra “aversão”.
Ela me garantiu que não sentia “aversão” embora eu visse seu rosto (belo, corado) contorcido pela mentira.
Propus que fôssemos… amigos. Cuidaríamos de nos comportar para todos os efeitos como se houvéssemos consumado a união. Ela deveria se sentir à vontade e feliz na minha casa, esforçando-se para transformá-la em seu próprio lar. Eu não esperaria
mais nada dela.
E assim vivemos. Tornamo-nos amigos. Amigos queridos. Isso foi tudo. E, no entanto, era muito. Ríamos juntos, tomávamos decisões sobre a rotina da casa – ela me ajudou a prestar mais atenção nos criados, falar com eles de forma menos superficial. Ela tinha muito bom gosto e conseguiu remodelar os aposentos gastando uma fração do custo estimado. Vê-la alegrar-se quando eu chegava, sentir seu corpo junto ao meu quando discutíamos algum problema doméstico me fazia um bem que não sou capaz de explicar de forma adequada. Eu tinha sido feliz, suficientemente feliz, mas agora me via com frequência pronunciando uma prece espontânea em que dizia apenas: Ela está aqui, ainda aqui. Era como se um rio impetuoso houvesse aberto caminho pelo meio de minha casa, agora invadida por um aroma de água fresca e pela percepção de algo exuberante, natural e arrebatador sempre se movendo próximo a mim.”

* Lincoln no limbo
Tradução: Jório Dauster

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