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Choram porque amam

Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

26 de março de 2016

PÁSCOA E O CALVÁRIO DA HUMANIDADE

Padre Geovane Saraiva*
O Deus que morreu na cruz assume o sofrimento das pessoas e do mundo inteiro. Contemplamos um Deus humilhado e desfigurado, sofrendo conosco e entrando em nossas dores e angústias, desejando-nos uma única coisa: desmanchar a montanha da autossuficiência, do preconceito, do egoísmo e do orgulho, surpreendendo-nos como Deus encarnado na História, no seu imenso amor, redentor e libertador, que humanamente é inadmissível.

Somos convidados a meditar sobre a inexprimível grandeza de um Deus que entra em cheio nos nossos sofrimentos, dizendo-nos que participa das nossas misérias e calvários. Não é um Deus que está longe, à margem do mundo e da criatura humana. Ele nos convida, a partir de seu calvário e de sua morte de cruz, a uma generosa entrega e oferece tudo de que precisamos nos dando também a força e a luz, indispensáveis para prosseguirmos com segurança na construção do nosso futuro definitivo.

Papa prosta-se durante celebração na Sexta-Feira Santa no VaticanoDeus quer o compromisso de fé, ético e profético, dos cristãos que alimentam a esperança em um Deus enlouquecido de amor, nas palavras do Papa Francisco, na homilia da missa do Domingo de Ramos (20/03/2016), recordando que só Jesus nos salva dos laços do pecado, da morte, do medo e da tristeza, em referencia à carta do Apóstolo Paulo aos Filipenses, nos dois verbos, aniquilar e humilhar, indicando-nos até que extremos chegou o amor de Deus por nós. Jesus aniquilou-Se a Si mesmo: renunciou à glória de Filho de Deus e tornou-Se Filho do homem, solidarizando-Se em tudo conosco, que somos pecadores (cf. Fl 2, 7-8).

No duelo forte, na vida que vence a morte, meditamos sobre nosso Deus, essencialmente bom e terno, ao passar da morte para a vida, afirmando-nos que a tristeza e o desânimo são coisas do passado. A esperança e o otimismo, proclamados pelo Papa Francisco nos três anos de seu pontificado, são sempre na intenção de contagiar nossa existência, na certeza de que Jesus, vencedor da morte, quis se estabelecer para sempre no meio de seu povo e com ele conviver, vivo e vitorioso: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!” (Lc 24, 5-6).

Os cristãos se reúnem para celebrar a Páscoa, pela liturgia da Vigília pascal da noite do Sábado Santo. Para Santo Agostinho, a referida celebração é “mãe de todas as liturgias”, que, com seus ritos antigos, com toda a sua beleza, profundidade poética e, ao mesmo tempo, profética, deve nos estimular e desafiar a não ficarmos somente no rito, o que seria muito triste ao coração de Deus. Assim seja!


*Pároco de Santo Afonso e vice-presidente da Previdência  Sacerdotal, integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza -geovanesaraiva@gmail.com

PONTUAÇÃO: ESBOÇO HISTÓRICO

José Olímpio de Sousa Araújo*

A pontuação começa bem antes dos manuscritos em pergaminhos. Vem da longínqua época de inscrições em pedras, túmulos, árvores e outros materiais duros (daí o termo ‘literatura’ para designar a arte da palavra).
O Prof. João Henrique, em Pontuação na escrita — sua história e emprego é que nos explica:

“A palavra pontuação provém do verbo latino ponctuare. Este verbo tem sua origem no vocábulo ponctum, que significa pequeno buraco feito com o ponteiro (ponta do estilete que servia para abrir as letras nas tábuas de cera, quando escreviam). [...] Etimologicamente, pontuação significa: ação de pontuar. Ora pontuar quer dizer: empregar corretamente os sinais de pontuação nos escritos.
[...]
 “Na antiguidade a escrita era, geralmente, feita com letras todas maiúsculas e a igual distância umas das outras. Então o ponto tornava-se necessário para separar as palavras e distingui-las bem.” [...]
“Convém advertir que, sobretudo nas inscrições murais e nas campas tumulares, quando terminava a palavra no fim da linha, não se colocava aí ponto algum.”

Assim, o ponto surgiu com função distintiva, bem diferente do emprego atual. 
Mas ainda na Antiguidade têm início as funções pausais da pontuação.
Úrsula Dubosarsky, no sugestivo ensaio Pontuação?!... (revista Seleções Reader’s Digest, nov. 2008) também aborda o tema. Marcamos aqui algumas colocações suas para  complementamos este breve histórico.
Os sinais, chamados “pontos” (por isso, o termo ‘pontuação’), serviam para marcar a pausa de respiração e o que devia ser enfatizado pelo leitor.
 No século II a.C., Aristóteles já empregava a vírgula, os dois-pontos e o ponto, com funções de pausa, semelhantes às de hoje (as denominações desses sinais originam-se de expressões gregas): o ponto, significando “contorno”, indicava pausa longa ou final; a vírgula, significando “pedaço cortado”, indicava pausa curta; os dois-pontos, “membro, pedaço ou verso de um poema”, indicava pausa média.
No início da era cristã, já se usavam muitos sinais, mas sem uniformidade. Somente a partir do século XV, com a invenção da imprensa por Guttemberg, começaram a estabelecer-se as atuais regras de pontuação.
No século XVII, o ponto de exclamação (que originariamente indicava apenas pausa) passou ao emprego que hoje conhecemos; o mesmo ocorreu com o ponto de interrogação (no início, o desenho de uma minhoquinha em cima do ponto a sugerir um aumento de tom). Também no século XVII, o tipógrafo francês Guillaumet introduziu as aspas. Antes, o discurso direto era marcado por um grifo, como o sublinhado.
A pontuação muda inclusive geograficamente. A interrogação, por exemplo, no grego é assinalada pelo ponto e vírgula; no árabe, o mesmo sinal que usamos em português, mas posto no início da frase, com a abertura ao contrário; já o espanhol, além do ponto de interrogação no final da frase, põe outro no início, de cabeça para baixo. Holandeses e finlandeses usam como aspas os sinais <<  >>.
*Coautor dos livros “Desenvolvendo a habilidade de escrever” e “Ortografia Atualizada” / Secretário da Academia Metropolitana de Fortaleza. 

PAPA CODENA TERRORISMO E CORRUPÇÃO

Francisco rezou pelos idosos, pelas pessoas com deficiência e pelas crianças desnutridas.
Francisco citou as pessoas que trabalham para tornar o mundo melhor.

O papa Francisco condenou na sexta (25), durante oração após a cerimônia da Via Sacra, o fundamentalismo, o terrorismo, as guerras e os corruptos. Ele também denunciou a destruição do meio ambiente, em detrimento das futuras gerações, e os mares que se tornaram "cemitérios insaciáveis". No Coliseu de Roma, o papa rezou pelos idosos abandonados, pelas pessoas com deficiência e pelas crianças desnutridas.

Como sinal de esperança, Francisco citou as pessoas que sonham "com um coração de criança" e que trabalham para tornar o mundo um lugar melhor, mais humano e mais justo.

Ao longo da tarde desta sexta-feira, dezenas de milhares de pessoas entraram no Coliseu, depois de terem passado por fortes controles de segurança. O evento recria o caminho feito por Jesus, ao carregar a cruz desde o Pretório de Pilatos até o Monte Calvário.

Sentado em um trono vermelho, ao lado de uma grande cruz de metal, iluminada com tochas, o papa, de 79 anos, escutou um longo discurso escrito pelo cardeal italiano Gualtiero Bassetti, arcebispo de Perugia, no centro da Itália.

Dois sírios, um russo, um chinês e um centro-africano foram os escolhidos para transportar uma cruz de madeira pela histórica arena, onde morreram milhares de cristãos, durante o Império Romano.


Via Sacra

A Via Sacra compreende 14 estações, cada uma delas apresentando uma cena da Paixão. O título da Via Sacra deste ano foi Deus é misericórdia. No discurso, o cardeal Gualtiero Bassetti afirmou que, diante do medo, da dor, das perseguições e da violência, a misericórdia é o canal da graça de Deus.

O texto sugeriu meditações sobre perseguições e a violência que atingiram a humanidade no passado e a atingem também hoje. Houve ainda referências aos cristãos perseguidos, ao holocausto dos judeus na II Guerra Mundial e ao drama dos migrantes. Tratou também do sofrimento das famílias em crise e do desemprego.

A meditação, que antecedeu a intervenção do papa Francisco, recordou o drama dos judeus mortos nos campos nazistas. "Onde está Deus nos campos de extermínio? Onde está Deus nas minas e nas fábricas onde as crianças trabalham como escravas? Onde está Deus nos barcos improvisados que se afundam no mar?", questionou o arcebispo de Perugia.


Coleta

Todos os anos, a Congregação para as Igrejas Orientais envia uma carta convocando os fiéis a participarem da Coleta para a Terra Santa, tradicional recolhimento de donativos de Sexta-Feira Santa, dia em que a Igreja celebra a Paixão de Cristo.

Segundo a Congregação, há uma dívida de gratidão com as igrejas do Oriente, porque, além de ser a terra natal de Jesus, com elas foi aprendida a importância do diálogo ecumênico e interreligioso.

O prefeito da Congregação, cardeal Leonardo Sandri, informou que a Igreja Católica exprime, por meio da oração e do ofertório, o alento às comunidades dos fiéis e aos lugares santos, sobretudo ao dramático momento vivido pelo Médio Oriente.

*Com informações da Rádio Vaticano
Agência Brasil

CALOR RECORDE É PROVOCADO POR AÇÃO HUMANA

O ano passado foi o mais quente desde que os registros começaram a ser feitos.
Por Alister Doyle
OSLO - A série de anos de calor extremo com quebra de recordes a partir de 2000 quase certamente é sinal de um aquecimento causado pelo ser humano, e diminuem as chances de que tenha sido resultante de mudanças aleatórias e naturais.
O ano passado foi o mais quente desde que os registros começaram a ser feitos, no século 19, e mostra uma tendência que quase todos os cientistas atribuem aos gases de efeito estufa oriundos da queima de combustíveis fósseis, provocando ondas de calor, secas, chuvas intensas e aumento do nível dos mares.
"É extremamente improvável que a sequência de temperaturas recordes observadas recentemente tenha ocorrido na ausência do aquecimento global causado pelo homem", escreveu uma equipe de especialistas liderada pelos Estados Unidos no periódico Scientific Reports.
Elaborado antes de os dados sobre as temperaturas de 2015 serem divulgados, o documento estimou que a probabilidade de ocorrência da sequência recorde – que teve até 13 dos 15 anos mais quentes entre 2000 e 2014 – seria de entre uma em 770 e uma em 10 mil se a série fosse aleatória e sem influência humana.
Seu principal autor, Michael Mann, professor de meteorologia da Universidade Estadual da Pensilvânia, disse que as simulações de computador do grupo indicaram que esta possibilidade, incluindo 2015, cresceu para uma em 1.250 e uma em 13 mil.
"A mudança climática é real, é causada pelo homem e não é mais sutil, estamos vendo-a se desenrolar diante de nossos olhos", escreveu ele em um e-mail. As variações naturais incluem mudanças na oscilação do sol ou erupções vulcânicas, que atenuam a luz solar.
"As variações climáticas naturais simplesmente não explicam os recordes globais de calor observados recentemente, mas o aquecimento global causado pelo homem sim", afirmou Stefan Rahmstorf, co-autor do Instituto Potsdam de Impacto Climático, em um comunicado.
No mês passado, quase 190 nações assinaram em Paris o acordo mais robusto já formulado para trocar os combustíveis fósseis por energias mais limpas, como a eólica e a solar, para deter o aquecimento global.
Reuters

ESTUDO DESBANCA MITO DOS 'MIL AMIGOS'

O número máximo de pessoas com as quais podemos ter relações sinceras gira em torno de 150.
Ao contrário da crença popular, as redes sociais online não nos permitem ter mais amigos - é o que revela um estudo publicado na revista da Royal Society Open Science.
O número máximo de pessoas com as quais nós podemos ter relações sinceras e fortes gira em torno de 150. Este valor foi definido pelo britânico Robin Dunbar, também autor do estudo, e estaria ligado ao tamanho de nosso cérebro.
No limite fisiológico, somam-se restrições de tempo para manter amizades verdadeiras e duradouras.
Assim, o conhecimento pode ser classificado por nível de afinidade: amigos, melhores amigos, bons amigos, amigos, conhecidos e, finalmente, as pessoas que conhecemos de vista.
De acordo com o estudo, os grupos foram avaliados e consistem, respectivamente, de 5, 15, 50, 150, 500 e 1.500 pessoas.
"Os amigos (estimados em 150) representam as pessoas com quem temos relações reais, com quem temos desenvolvido obrigações mútuas", disse Robin Dunbar, professor de psicologia na Universidade de Oxford.
Este número pode variar, mas fracamente. "É como se cada um de nós tivesse uma quantidade limitada de capital social e pudéssemos optar por investir menos, mas com mais pessoas, ou mais, mas com menos pessoas, sem exceder essa quantidade", explica o pesquisador.
Em teoria, as redes sociais que se desenvolvem na Internet devem limitar as restrições de tempo e espaço nos permitem manter redes muito maiores.
Mas duas pesquisas separados realizadas no Reino Unido provam o contrário. Amizades online ou em "carne e osso", o número é limitado a 150.
De acordo com o estudo, as novas ferramentas de comunicação (como o Twitter ou Facebook) facilitam a manutenção das relações de amizade, mas não conseguem ultrapassar o número de Dunbar.
E de qualquer maneira, para que as amizades "online" sejam sustentáveis, precisamos nos ver de vez em quando.
"As pessoas podem ter 500 ou até 1.000 amigos no Facebook, mas isso inclui as pessoas que normalmente chamamos de conhecidas ou simplesmente pessoas que conhecemos de vista", nota Robin Dunbar.
AFP

VIVER A PAIXÃO

Falar da Paixão de Cristo me faz pensar nas nossas paixões. Tudo bem que na tradição cristã elas já se referiam aos afetos humanos, mas no senso comum designam outra coisa. E quem nunca viveu uma grande paixão?

No grego, a palavra pathos significa sofrimento, afetação. Quando se fala em sofrer a ação de algo, fala-se de estar passível a ela, estar submetido ao seu poder. Talvez por isso paixões designem os sentimentos humanos, porque são eles que nos movem. Alguém sem sentimentos, apático, é inerte, sem ação. Pessoas assim parecem não serem tocadas por nada. Já as pessoas ditas apaixonadas são afetadas por tudo com o que se relacionam, têm seus sentimentos suscitados e, por isso, expressam mais vida.

Nesse sentido, a paixão é um afetar-se pelo outro que move com toda a sua existência. Por sua vez, a paixão de Cristo recebe seu nome não tanto pela dor que ele atravessou, mas pelo seu sentir e implicar-se com toda a vida humana. Se somos marcados pela finitude, o Cristo, em sua paixão, abraçaria todo os nossos limites e dores e os sentiria. Portanto, antes da dor, o implicar-se. Eis, pois, a narrativa evangélica, que conta a história daquele que, apesar de sua condição divina, não fez disso algo em que se agarrar, mas esvaziou-se, dando-se aos homens, que receberia sua vida e onde ele próprio viveria.

Quem sente uma paixão é afetado pela pessoa do outro: alegra-se com sua alegria, entristece-se por sua tristeza; tem toda a existência movida pela presença daquele por quem se apaixonou. Não há como ficar indiferente quando se sente uma paixão. Os pensamentos maquinam um jeito de se aproximar que não espante, um falar que não canse, um olhar que cative, um tocar que seja agradável... O apaixonado tem suas forças direcionadas para o outro e seu sofrer está, justamente, no esvaziar que experimenta e na impossibilidade de controlar ou saber qual será a reação de quem ele deseja.

Ainda que se demonstre todo o afeto e o desejo de cuidar, isso tudo pode ser rejeitado pela pessoa desejada. Ela pode simplesmente não querer ou até mesmo temer ser amada. A grande dor de uma paixão está em ter o amor recusado. Quer-se amar o outro, dele cuidar e ser para ele. Mas quando o amado recusa tal amor, sofre o amante por nada poder fazer.

A via crucis do apaixonado tem como fim o pregar do coração. No esvaziar que experimenta, crê que, no outro, poderá ressuscitar. Para aquele que é sua morte, mas também é o seu céu, o apaixonado diz: “Em tuas mãos, eu entrego o meu espírito”. Perdoa-me, Senhor, se comparo tua dor à nossa, mas como pode conhecer a sua quem nunca atravessou uma paixão? Que se façam as devidas ressalvas, o Verbo de Deus é eterno; os nossos, transitivos (ou seriam infinitivos?).
 
Adélia Prado
 
No dia 16 de março, no Palácio da Artes, houve mais uma edição do programa Sempre um Papo. A convidada da vez foi a poetiza Adélia Prado. Na ocasião, a mineira de Divinópolis lançou uma coletânea de todos os seus poemas, ficando apenas os 3 inéditos de fora, como ela disse. Para quem não conhece bem a obra de Adélia, seus poemas são marcados por uma lírica sacro-profana. Há constantemente um modo secular (para não dizer humano) ao falar do divino e um olhar divino quando trata do secular. As duas realidades se imbricam em sua poesia, sempre coloridas de mineiridade. Já no alto dos seus oitenta anos, a artista continua com todo o vigor poético e sensibilidade de profundidade abissal. No evento ocorrido no Palácio das Artes, ela falou sobre sentido e a força do simbólico na vida humana. Diante daquilo que não se pode falar, propôs, ao final, um momento de oração e silêncio. Nesse tempo de Semana Santa, em que a mística cristã contempla o encontro apaixonado entre Deus e homem, a poesia de Adélia parece pertinente.
 
Para adquirir:
PRADO, Adelia. Adélia Prado: Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Record, 2016.
Preço médio, 70,00.

Gilmar P. da Silva SJMestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com pesquisa em Signo e Significação nas Mídias, Cultura e Ambientes Midiáticos. Graduação em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Possui Graduação em Filosofia (Bacharelado e Licenciatura) pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Experiência na área de Filosofia, com ênfase na filosofia kierkegaardiana. 

É LEGAL DIVÓRCIO SEM AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO

O ministro Marco Buzzi, do STJ, o Novo Código de Processo Civil não mantém mais a exigência.
No entendimento dos ministros do STJ, a audiência não era necessária.
A Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerou legal acordo de divórcio feito sem a realização de audiência prévia de conciliação entre as partes. A decisão confirma o entendimento de primeira e segunda instâncias.
Os ministros lembraram que a questão já foi debatida no STJ e que, desde a edição da Lei 11.441/07 (lei que possibilitou divórcios, partilhas e inventários feitos de forma administrativa), casos semelhantes têm entendimento pacífico na corte.
A controvérsia no caso analisado diz respeito à filha do casal. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a audiência deveria ter ocorrido para preservar os direitos da menor de idade. Ao recorrer para o STJ, o MPMG buscou anular o acordo homologado pelo juiz de primeira instância.

Celeridade
No entendimento dos ministros do STJ, a audiência não era necessária. Para o relator do recurso, ministro Marco Buzzi, não houve prejuízo às partes. Portanto, a decisão do juiz de homologar o acordo sem a realização de audiência foi, a seu ver, correta, visto que primou pela celeridade processual.
“Em que pese a audiência de ratificação ter cunho eminentemente formal, sem nada produzir, bem como ausente questão de direito relevante a ser decidida, não se justifica, na sua ausência, a anulação do processo. Assim, não se vislumbra a utilidade de dita audiência”, argumentou o ministro.
O ministro citou ainda outros julgados do STJ sobre o assunto, justificando a teoria de intervenção mínima do Estado, já que nos casos de acordo consensual não há o que se julgar.

Novo CPC
Marco Buzzi destacou ainda que as novas alterações do Código de Processo Civil (CPC) reforçam o posicionamento de dar ênfase aos acordos consensuais. “O Novo Código de Processo Civil  não mantém mais a exigência, implicando o fim de qualquer controvérsia que ainda pudesse ser suscitada”, disse.
Para que o acordo fosse anulado, na visão dos ministros, seria necessário que o Ministério Público apontasse alguma violação clara de direito de uma das partes, o que não houve.
STJ

VIVER A CAMPANHA DA FRATERNIDADE

A questão ecológica passa obrigatoriamente pela mudança de consumo.
Por Dom Rodolfo Luis Weber*
A Campanha da Fraternidade, por sua natureza, tem um tempo limitado e está se encerrando. Isto não significa que o assunto tenha se esgotado e que foi resolvido. Olhando para o passado percebe-se que as campanhas proporcionaram conhecimento, criaram consciência e, principalmente, suscitaram ações.
Nesta semana tive a oportunidade de ouvir duas palestras sobre o saneamento básico. Uma proferida pelo presidente da CORSAN e outra por um especialista em Direito Ambiental. As duas confirmaram a urgência do problema e que temos muito a fazer, tanto da parte do poder público como da parte de cada pessoa. Nenhuma das partes pode-se colocar na condição de atirar a primeira pedra e de condenar a outra. Ambas as partes precisam fazer um exame de consciência, assumir a culpa e, a partir daí, somar esforços.
As responsabilidades são coletivas, porém diferenciadas. O poder público, em suas diferentes esferas (federal, estadual e municipal), tem a responsabilidade de elaborar os diferentes planos e leis; realizar as obras de infraestrutura, tratar o esgoto, recolher e reciclar o lixo. 
Todos nós, cidadãos, podemos e devemos colaborar em todo este processo. Todas as atitudes contribuem, mesmo aquelas que parecem insignificantes, como: colocar lixo em lugar adequado e facilitando a reciclagem, apagar uma lâmpada numa sala vazia, consumir água racionalmente, etc... 
Soma-se a estas atitudes a mudança de consumo, como escreveu o Papa São João Paulo II, em 1991, na Encíclica Centesimus Annus: A questão ecológica passa obrigatoriamente pela mudança de consumo. Hoje fala-se em consumo sustentável. É possível viver com dignidade consumindo menos e melhor.
Certamente, a Campanha da Fraternidade Ecumênica foi um tempo favorável para adquirir maiores informações, conhecer melhor o assunto. A CFE proporcionou debates e despertou ações, mudanças de hábitos e de consumo. Que fique ressoando em nossa consciência, como um refrão musical, o lema: Casa comum, nossa responsabilidade.
CNBB, 18-03-2016.
*Dom Rodolfo Luis Weber: Arcebispo de Passo Fundo (RS).

FILME E LIVRO CELEBRAM A ARTE DE 'TIO JOE'

O lançamento de 'Cemitério do Esplendor' e do livro 'Apichatpong' engrandecem o autor tailandês.

São belos e misteriosos, os filmes de Apichatpong Weerasethakul. Basta citar Mal dos Trópicos e Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas para que o espectador - o cinéfilo - seja transportado a um mundo de sonho. Em sucessivas entrevistas - e em Cannes, no ano passado, num encontro para falar de Cemitério do Esplendor, que estreou na quinta, 17 -, o autor tailandês disse sempre ao repórter que sonha muito e que seus sonhos compõem uma parcela orgânica de sua vida. "Me parecem mais verdadeiros que a própria realidade. E são, com certeza, mais narrativos", ele brinca.

Sonhos narrativos? Estão na contramão do cinema de Apichatpong, conhecido no universo do cinema de autor e das artes visuais como ‘tio Joe’. Cemitério é mais uma prova, como se necessária fosse. O filme trata de soldados vítimas de uma misteriosa doença do sono. São tratados no anexo de um hospital. Uma mulher Jenjira - interpretada pela atriz fetiche do diretor, Jenjira Pongpas Widner -, interessa-se pelo caso de um deles, Itt, que não recebe nenhuma visita. Descobre que ele tem um diário, cheio de escritos e desenhos estranhos. Jenjira começa a pensar que o material tem conexão com um sítio mítico. Investiga e sua busca ilumina menos o caso do soldado do que indagações que a consomem - sobre ela mesma e o mundo ao redor.

Apichatpong - beleza, mistério, onirismo. Passada a temporada do Oscar, Cemitério do Esplendor estreia para ser um dos grandes filmes do ano, com O Cavalo de Turim, de Bela Tárr, e A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. E o bom é que, simultaneamente, ocorre o lançamento do livro Apichatpong Weerasethakul, da Iluminuras. Com base no filme Hotel Mekong e na exposição realizada em 2013/14 em Belo Horizonte e no Rio, o livro disseca tudo sobre ‘tio Joe’, sua vida, seus filmes, até 2013. Cemitério é referido somente como projeto, e ainda é Cemetery of Kings, Cemitério de Reis. Em Cannes, em maio do ano passado, Apichatpong estava feliz de apresentar seu filme, mas não muito contente de ficar fora da competição. "Foi uma decisão de Thierry (Frémaux, diretor artístico), que me jogou na mostra Un Certain Regard. Por mim, estaria na competição, se me fosse dado escolher." E se Cemitério estivesse na competição, o júri presidido pelos irmãos Coen teria continuado outorgando a Palma de Ouro para Dheepan, de Jacques Audiard? O repórter não era o único a achar que o filme de Apichatpong era dos melhores (o melhor?) da seleção oficial. O autor poderia ter bisado a Palma que recebeu por Tio Boonmee, em 2010.

Ele contou a gênese de Cemitério. "Há três anos (hoje, seriam quatro), falou-se muito na Tailândia de um hospital no norte do país, onde as autoridades colocaram em quarentena soldados que apresentavam sintomas de uma doença que ninguém conseguia identificar. A ideia do isolamento deflagrou um processo muito íntimo de lembranças que compõem minha identidade. Sou filho de médicos e cresci em Khon Kaen, onde eles eram clínicos. Morávamos numa cabana, no anexo do hospital, na selva, e as minhas memórias primevas remontam a esse lugar. Eventualmente, meus pais me permitiam brincar com o microscópio e o que via atiçava minha imaginação. Em Khon Kaen, havia um Instituto Americano - toda a região abrigava bases dos EUA. Lembro-me da minha excitação quando vi o King Kong antigo, em preto e branco (de Merian Cooper e Ernest Shoedsack, de 1933). Imagine tudo isso se misturando na cabeça de um garoto sugestionável, como eu era."

Some tudo - o hospital, a doença do sono, os sonhos que Apichatpong considera mais reais que a realidade, e locais que ele reencontrou em Khon Kaen. "Há muito tempo não voltava lá. A cidade mudou muito, mas lugares importantes para mim, como o lago, permaneceram intocados." E ele contou como essa região do país é a mais marcada pelos mitos e pela espiritualidade. "Khon Kaen situa-se em Isan, que sempre esteve na confluência dos grandes impérios - Camboja, Laos. Lá permanecem vivos os signos do animismo ‘khmer’. Estou falando de antes da ‘taisificação’, quando as autoridades de Bangcoc anexaram o norte." No filme, há o que talvez seja uma justificativa política para o sono dos soldados. Eles dormem sobre um antigo cemitério de reis, que se apossam de sua energia para travar suas batalhas no além. "A Tailândia tem vivido uma sucessão de golpes, é um país muito instável. Quis criar uma metáfora, o sono, para a letargia que paralisa tudo. De alguma forma, tenho a impressão de que se trata de uma despedida para mim. Sou conhecido, disponho de uma posição pessoal confortável, mas as liberdades, a pessoal e a artística, andam cada vez mais difíceis", afirma.

SERVIÇO

APICHATPONG WEERASETHAKUL

Org.: Daniella Azzi e Francesca Azzi

Editora: Iluminuras (231 págs., R$ 58)
Agência Estado