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Lampião: como o assassino brutal construiu a imagem de herói

Ainda em vida e durante as oito décadas após a morte de Lampião, cresceu a imagem de "bandido-herói", que tirava dos ricos para dar aos pobres. Ideia que esconde o assassino brutal, que matou inclusive mulheres, crianças e idosos de forma indiscriminada e que praticava estupros e outras violências contra mulheres. As boas ações existiram, mas eram exceçãoPor 
que Jesse James foi para os Estados Unidos, Lampião foi para o Brasil, e até mesmo em dose mais forte", diz a orelha do livro do historiador Billy Jaynes Chandler, que escreveu o que talvez seja a mais importante obra sobre o cangaceiro. Soaria provinciano, não fosse Lampião, o rei dos cangaceiros a obra de um americano.
Cem anos atrás, Virgolino Ferreira da Silva - conforme a grafia com "O" de sua certidão de nascimento - entrou em definitivo para o cangaço, ao se unir ao bando do cangaceiro Antônio Matilde, por volta de 1920. Já estavam envolvidos em episódios de violência. Desde 1918 os irmãos Ferreira só andavam armados e usando chapéu com aba virada na frente, lenços no pescoço e cartucheiras - trajes de bandidos profissionais. O apelido Lampião já havia surgido. A aliança com Matilde, porém, institucionalizou o ingresso no cangaço.
Em 29 de julho de 1938, jornais do Brasil e do mundo trouxeram a notícia de que o bando criminoso que espalhou violência pelo semiárido havia sido emboscado e morto no dia anterior. Há 82 anos, em 28 de julho de 1938, chegou ao fim a vida de Virgolino Ferreira da Silva. E cresceu a lenda de Lampião. A notícia saiu no mesmo dia no O POVO e no New York Times. Para relembrar as datas, O POVO+ reedita a série de reportagens especiais publicada por ocasião dos 80 anos da morte do bando.
Lampião já maduro, em seus últimos anos de vida
Foto: Biblioteca Nacional
Lampião já maduro, em seus últimos anos de vida
Passados 80 anos, não se tem a dimensão do interesse e curiosidade mundiais despertados pelo chefe de um bando criminoso que nunca pisou numa capital de estado e restringiu suas atividades às regiões mais pobres de um País então ainda mais periférico. Durante 16 anos, foi o criminoso mais temido, procurado e também admirado dos sertões. Não há paralelo em trajetória tão duradoura e bem-sucedida nesse tipo de atividade. 
A morte de Lampião foi festejada mesmo em locais dos quais o cangaceiro jamais chegara perto. "A notícia, como era natural, causou viva sensação no Rio, cuja população aguardou com enorme ansiedade sua confirmação", informou O POVO naquele dia. A festa na então capital federal era previsível, pois o combate ao cangaço se tornara questão de Estado para o governo Getúlio Vargas. Estava em seu começo a ditadura do Estado Novo - e nada era mais velho e atrasado que o cangaço.
A ansiedade quanto à confirmação, relatada pelo O POVO, era previsível. Em pelo menos oito ocasiões, houve informações falsas sobre a morte do "rei do Cangaço". A última delas havia surgido em Sergipe e divulgada em 12 de janeiro no O POVO e um dia depois no New York Times: "Nº 1 bad man dies in his bed in Brazil" - "Homem mau número um morre em sua cama no Brasil". A informação, equivocada, apontava que Lampião teria sido vitimado por tuberculose.

Os segredos da estratégia
de combate de Lampião

A notícia da morte no New York Times mostra que a fama do cangaceiro ia muito além do Nordeste e do Brasil. E o fato de o boato sobre sua morte ter sido veiculado antes demonstra que o interesse por ele não era esporádico. Virgolino Ferreira da Silva era personagem sem paralelo no Ocidente. Para os estrangeiros, tratava-se de curiosidade pitoresca. Para os Estados Unidos, soava como reminiscência do Velho Oeste.
Para o sertanejo, era personagem algo que lendário. Atribuíam-se a ele poderes místicos, "corpo fechado" para tantas vezes ter escapado. Ao morrer, falou-se que teria sido envenenado com vinho. Décadas depois, dizia-se que ainda estava vivo e refugiado no então pouco povoado estado de Goiás. O cangaço - e seu "rei" - influenciaram decisivamente a ideia que se faz de Nordeste, inclusive esteticamente. A mitologia em torno de Lampião criou ainda a imagem, até hoje difundida, de um "bandido social", um Robin-Hood dos sertões. Não era bem assim.
Lampião não morreu de tuberculose, tampouco pelas mãos de algum de seus inimigos mais empenhados, corajosos ou competentes. A ação que finalmente o matou foi liderada por policial suspeito de colaboração com criminosos e teve muito de acaso.
A partir do acervo do O POVO e do livro de Chandler, O POVO Online produziu a série de reportagens sobre os 80 anos da morte do rei do cangaço, o alcance da violência que espalhou e a marca que deixou no imaginário dos sertões. Conteúdo agora atualizado e publicado pelo O POVO+.

 

O marketing do heroísmo
de um bandido sanguinário

Da esquerda para direita: 1) Vila Nova; 2) não identificado; 3) Benjamin Abrahão; 4) Luis Pedro; 5) Amoroso; 6) Lampião; 7) Cacheado; 8) Maria Bonita; 9) Não identificado; 10) Quinta-feira
Foto: Foto tirada pelo cangaceiro Juriti
Da esquerda para direita: 1) Vila Nova; 2) não identificado; 3) Benjamin Abrahão; 4) Luis Pedro; 5) Amoroso; 6) Lampião; 7) Cacheado; 8) Maria Bonita; 9) Não identificado; 10) Quinta-feira
Virgolino era vaidoso quanto à reputação e tentava induzir a imagem que tinham dele. Dizia que o assassinato do pai, um inocente morto pela polícia, teria sido a motivação de sua entrada no cangaço. Porém, as fontes mais confiáveis mostram que ele e os irmãos mais velhos já estavam envolvidos em crimes e que a morte do pai teria sido, inclusive, reação a um dos atos nos quais os filhos se envolveram. Mesmo assim, o episódio ajudou a criar o mito de criminoso movido pela vingança.

Na construção da mitologia a seu respeito, concedeu entrevista em sua célebre visita a Juazeiro do Norte, em 1926. Questionado pelo jornalista se não o incomodava extorquir dinheiro de fazendeiros e destruir o patrimônio caso se negassem a colaborar, ele respondeu que jamais fez tal coisa. Conforme sua versão, tão somente pedia dinheiro a seus amigos. Virgolino lia matérias de jornais e revistas a seu respeito, quando os encontrava. Chegava a ficar muito zangado quando considerava algo injusto.

Em 28 de fevereiro de 1931, o New York Times (mais uma vez) chegou a divulgar que Lampião era espécie de Robin Hood - tirava dos ricos e dava aos pobres. Essa versão cresceu nas décadas após sua morte, difundida na literatura de cordel, na literatura, no cinema, até movimentos como o Manguebeat. Nessas narrativas, Lampião ganha ares de herói. Um herói-bandido, um justiceiro numa terra de injustiças.
Porém, os registros históricos não fornecem elementos para justificar essa versão. O contexto de surgimento do cangaço ajuda a entender o fenômeno. No sertão inóspito, as instituições quase não funcionavam. A Justiça quase nunca alcançava autores de crimes. A violência muitas vezes se tornava o recurso para vingar ofensas e fazer o que o Estado não foi capaz.
Fosse motivo legítimo ou não, o fato é que, aos olhos dos sertanejos, tais motivações diferenciavam seus autores de criminosos comuns. Além disso, a criminalidade aumentava durante secas mais intensas. Não só ela, como o fanatismo religioso e o messianismo. Eram sintomas da crise na sociedade sertaneja, conforme classifica Billy Jaynes Chandler, historiador americano, autor de Lampião, o rei dos cangaceiros. Esse era o ambiente no qual proliferava o cangaço.
José Saturnino em 1975, sentado, à direita
Foto: Billy Jaynes Chandler
José Saturnino em 1975, sentado, à direita
No caso de Lampião, todavia, não há elementos que fundamentem a vingança como razão para a entrada no cangaço. O início da vida de violência dele e dos irmãos foi muito mais decorrência de conflitos com vizinhos e acusações mútuas de invasão de propriedade e roubo de gado.
A divergência logo degenerou em conflito armado. Em seguida, é fato que o assassinato do pai foi um marco para mergulhá-los em definitivo na vida de crime. Porém, a vingança nunca foi alcançada. Os que foram apontados como principais responsáveis pela morte de José Ferreira sobreviveram em décadas aos irmãos cangaceiros.
Os atos também não justificam a imagem de Lampião como alguém motivado pelas injustiças sociais. É verdade que promovia atos de generosidade. Em Riacho Seco, município de Curaçá, na Bahia, houve um dos episódios no qual estabelecimentos comerciais foram saqueados, em 17 de setembro de 1929. Em um deles, as mercadorias foram distribuídas à população.
Além disso, dava esmolas a pobres e retirantes com quem simpatizasse - e fazia isso com grande ostentação. Episódios como esse fortalecem a tese de "Robin Hood sertanejo". As boas ações também costumavam ser exageradas. Porém, não era a regra de sua atuação. Os atos de violência cometidos por Lampião tinham como motivação conseguir dinheiro para o bando.
Houve, claro, vários casos de vingança, sim. Nos primeiros anos, raramente deixava de escolher seus alvos entre alguém com que tivesse contas a acertar. Esse padrão começou a mudar. Em julho de 1925, quando seu primeiro irmão morreu no cangaço - Levino - passou a direcionar sua ira de forma indiscriminada. Entre agosto e setembro de 1925, seu bando atacou povoados na divisa entre Pernambuco e Alagoas. Pelo menos sete pessoas morreram. Conforme testemunhas, os alvos tinham sido gente pobre e sem histórico de desavença com os cangaceiros. Entre as vítimas, pelo menos uma criança e um idoso, ambos desarmados.

Mapa interativo
Os caminhos de Lampião pelos sertões

Lampião também se irritava profundamente com construções de estradas. Grande parte de seu sucesso dependia do isolamento dos sertões, das dificuldades de deslocamento e comunicação. Por isso, incendiava estações de trem, cortavas fios telegráficos e ameaçava trabalhadores de obras de rodovias.
Em outubro de 1929, atacou canteiro de estrada que saia de Juazeiro, na Bahia, e matou nove trabalhadores. Em dezembro do mesmo ano, o bando matou a sangue frio sete policiais que estavam rendidos. Em outubro de 1935, como vingança pela morte de cangaceiros por uma milícia civil, o bando atacou fazenda e matou um idoso e uma jovem.
Existe a imagem de Lampião respeitoso com mulheres, mas ela convive com testemunhos de estupros cometidos pelo bando, alguns dos quais o próprio chefe tomava parte. Um dos relatos apontam que 25 cangaceiros violentaram a jovem mulher de um delegado, na frente do marido. Virgolino teria sido o primeiro.
Além disso, por volta dos anos 1930, há relatos de que o cangaceiro passou a impor um bizarro código de conduta. Mulheres que usavam cabelo cortado ou saias curtas eram surradas por ele. Um dos membros do bando, o terrível José Bahiano, instituiu como castigo a prática de marcar as mulheres com ferro em brasa.
Virgolino também estava longe de ser um crítico do poder. Como aponta Billy Jaynes Chandler, do ponto de vista das ideias e preconceitos, era um sertanejo convencional. Não se opunha a hierarquias e privilégios. Pelo contrário, frustrava-se de não estar entre eles. Ao ser entrevistado em Juazeiro do Norte, disse que gostaria de ser comerciante caso abandonasse o cangaço. Em outra ocasião, afirmou que gostaria de ser fazendeiro. A um jornalista, disse admirar a agricultura, a criação de gado e o comércio. "Eram as classes conservadoras que ele mais admirava." (CHANDLER, 1980. P. 239. Editora Paz e Terra).

13 curiosidades sobre Lampião


Talvez em certa bravata, Virgolino Ferreira da Silva dizia sonhar em ser governador de um novo estado sertanejo, formado com porções de Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
Lampião era descrito como alguém profundamente religioso. Tinha respeito pelos padres, em particular Cícero Romão Batista. Rezava sempre ao meio-dia, relataram seus ex-colegas. Às sextas-feiras, praticava jejum. Na Semana Santa, não comia carne e suspendia as operações. Era uma religiosidade primitiva, mística, típica do catolicismo dos antigos sertões. Muito relacionada às forças sobrenaturais. O centro de sua fé era a crença no seu "corpo fechado".
Virgolino Ferreira da Silva procurava combater ao máximo os avanços nos transportes e comunicações. Sua atuação dependia do isolamento, das dificuldades de deslocamento e da demora para as informações circularem nos sertões. Por isso, incendiava estações de trem, cortava fios de telégrafo. E investia contra construções de estradas. Em agosto de 1929, a construção de estrada entre Juazeiro e Santo Antônio da Glória foi suspensa temporariamente depois de ameaças de Lampião. Ele dizia que cortaria a cabeça do oficial e os pés dos trabalhadores. Em outubro, ao saber da retomada da obra, eçle atacou o local e matou nove trabalhadores.
A presença de mulheres no cangaço trouxe como problema a ser administrado pelo bando a realização dos partos. O próprio Lampião realizava os procedimentos. Havia sido vaqueiro quando criança e usava o aprendizado adquirido ao ajudar os animais a dar à luz as crias. Pelas circunstâncias, as mulheres não recebiam cuidados adequados nem durante nem depois do parto. Muito menos antes. Eram acostumadas a condições hostis. Como viram acontecer com suas mães, nem recebiam nem esperavam cuidados médicos.
Em 1932, nasceu Expedita, filha de Lampião e Maria Bonita. A menina foi entregue a um aliado de confiança de Lampião, em Sergipe, com a orientação de a mandarem para João Ferreira, único dos irmãos Ferreira a não entrar para o cangaço. O parentesco da menina era "segredo de Estado". Após o parto, o destino a ser dado às crianças era outro problema a ser administrado no cangaço.
Lampião feriu gravemente o olho direito, em um galho ou espinho de árvore. Adquiriu um leucoma (opacidade branca), que se agravou com o passar dos anos, levando-o quase à cegueira total daquele olho. Apesar disso, a pontaria era certeira. Usava frequentemente óculos com lentes coloridas, tanto para esconder o defeito como devido a intolerância a luminosidade.
Na visita a Juazeiro do Norte, em 1926, repórter do jornal O Ceará descreveu Virgolino: magro, de estatura mediana, pele escura, cabelos fartos e pretos. Usava chapéu de feltro simples, sem os enfeites na aba virada para cima, usuais entre cangaceiros. Calçava alpargatas de couro, típicas de vaqueiros. Colocava lenço verde no pescoço, preso por anel de brilhante. Nos dedos, seis anéis de pedras preciosas - rubi, topázio, esmeralda e três brilhantes. Portava rifle, pistola e punhal de quase 40 centímetros de cumprimento.
Os cangaceiros consumiam álcool em grandes quantidades, sobretudo cachaça. Lampião preferia conhaque e não bebia muito.
Lampião apreciava jornais, sobretudo quando falavam sobre ele, e revistas de Rio de Janeiro e São Paulo. Passava o tempo lendo ou ouvindo alguém ler para ele - provavelmente não tinha leitura fluente.
Os banhos eram escassos, sobretudo em épocas de seca. Por isso, usavam perfumes de forma abundante. A mistura da falta de banho, o perfume em excesso e a brilhantina com a qual untavam os cabelos davam cheiro característico que virou marca do cangaço. Há episódios nos quais davam banhos em cavalos e derramavam até nos animais os perfumes que roubavam.
Em 15 de agosto de 1931, o Jornal de Alagoas publicou relato de um caixeiro-viajante segundo qual Lampião e seu bando mantinham espécie de harém, com 17 mulheres enfeitadas com jóias e vestidas com roupas finas. A história, contudo, não parece ter fundamento.
Um dos segredos do sucesso de Lampião era a capacidade de esconder seus rastros. Usavam vários estratagemas para disfarçar sinais de sua passagem. Apagavam pegadas, caminhavam para trás de forma a ocultar a direção. Para muitos soldados que o perseguiam, o cangaceiro parecia ter poderes sobrenaturais.
Um dos maiores mistérios relacionados a Lampião era a fonte de suas munições. A origem do abastecimento nunca foi descoberta de forma a deixá-lo desprovido. Teria sido modo eficaz de combatê-lo. Sabe-se que a proteção de gente importante, entre fazendeiros, comerciantes e políticos, era indicativo dos caminhos da munição até ele.
Fontes: Lampião, o rei dos cangaceiros, de Billy Jaynes Chandler, e O POVO.doc

Como seria o encontro de Lampião com o coronavírus


Na quinta crônica do projeto Histórias de passar os dias, o cangaço recebe a visita do indesejável coronavírus. E Lampião vive o dilema de ser valente ou inteligente


Foi só ele chegar, correu o alvoroço: a mãe com a chinela na mão bota menino pra dentro; vaqueiro tira gibão e corre pro isolamento. O padre entrou na batina, a tartaruga no casco, a galinha escondeu o ovo, o pinto não deu um piu, o grilo não deu um 'criu', o preso implorou ao delegado: "não me tire daqui, viu?".
O medo estava se espalhando pelo mundo, ninguém mais podia sair de casa. O comércio estava fechado. O portão estava trancado. Dos telhados não se ouvia nem miado.
- Muito bem, gosto de ver assim. Taí uma coisa que gosto é o povo com medo de mim, convenceu-se Lampião.
- Vai pra dentro, abestado, gritou alguém de longe.
- Quem foi esse fi duma égua que gritou?
- Capitão, tá meio estranho. O gerente do banco sumiu, o prefeito também ninguém viu. Tá tudo muito parado. Até o vento fugiu, tá sentindo o abafado?
Enquanto Lampião e seu bando de cangaceiros tentam entender o que está acontecendo, um bêbado se aproxima sem nenhum constrangimento :
- Ei, macho. Tem álcool em gel aí não? É porque acabou a cachaça, queria ao menos ficar cheirando a mão..
- Você me respeite, seu cabra, vá pra casa que eu cheguei. Não tá vendo que sou Lampião, o cabra mais valente e destemido do Sertão?
- Valente e doido.
- É o quê?!
- Calma, seu 'Capetão', é que se o senhor pensa que tá todo mundo escondido com medo do senhor, tá enganado. O povo tá é com medo que o Coronavírus tenha chegado. É melhor cêis terem cuidado.
- Mas agora deu mesmo. Cadê esse "coronga" pra eu dar uma lição. Pra num gastar bala eu dou só uma pinicada com minha maior peixeira na mão. Jogo pra cima e dou um rodopio que ele não levanta mais do chão. Onde já se viu, achar que é mais valente que eu? O último que pensou assim já faz tempo que morreu.
Lampião estava enciumado. Até que um dos cangaceiros chegou com um panfleto que no chão estava jogado. Falava de uma pandemia, um vírus chamado corona se espalhando pelo Planeta. Para uns dava em quase nada, em outros, moleira baixa, febre, tosse, falta de ar. E, Deus o livre piorar, era morte à espreita. Mas "não entre em pânico, entre em casa". O remédio até agora: ficar quieto, lavar bem as mãos. Enquanto vacina não há, o prevenido remediado está.
- Ôh povo besta. Isso é uma gripezinha. Eu me admiro como é que se assusta com um negócio que nem tamanho tem. Cabras frouxo.. Onde já se viu? Nosso sinhô tem cada 'fio'. Sorte dele que tem eu.
- Capitão, né por nada não, meu Rei Leão do sertão, mas de Serra Talhada pra cá, uns cangaceiro começaram a tossir, ter moleza e espirrar. Não é melhor a gente também se aquietar?
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Ao lado de Maria Bonita e do bando, Lampião se vê numa cidade em isolamento
Rafael Crisóstomo
Mas espera aí: não é conselho de qualquer um que o chefe do bando concorda. Maria Bonita, que vinda não sei de onde só entra na história agora, chega junto do marido para ter prosa, abrir o baú da memória:
- Homem, bora dar um tempo, aproveitar é fazer o nosso isolamento. Sua vó Jocosa já falava que quando era moça ainda veio uma gripe que matou foi gente em Serra Talhada. Ela nunca esqueceu, porque teve um tio teu que morreu. Em vez de se aquietar, foi passear. Não lembra daquele ditado: só se meta com quem você consegue enxergar?
- Não.
- É que eu acabei de inventar, mas a história de vó Jocosa é verdadeira e ainda tá viva na memória. E tem outro ditado que diz que o maior felizardo é aquele que aprende com seu passado.
- Esse também não conheço.
- Inventei agora, diz rindo Maria Bonita, mas fica séria. Homem, por favor, vamo embora.
Lampião, condecorado Capitão, auto-intitulado o mais valente do sertão, que só ouvia Maria, a mais sensata do bando, mandou todo mundo encher a cara de pano e falar de longe. Pensou que se isso é verdade, vai vencer esse tal corona. E apesar de toda a vaidade, chegou a uma conclusão. Ter bom senso não é ser covarde: melhor ter precaução.
Mas já deixou avisado: "Cangaceiro que perto de mim der espirro, vai levar tiro!"
Agora, além de perfume francês, peixeira, espingarda, rosário e munição, um tubo de álcool em gel pendurado carrega o nobre Lampião. Enquanto rolava a pandemia, seu negócio só regredia: não tinha banco nem comércio pra atacar. Mas era melhor pobre vivo do que rico a sete palmos de terra batida. E lembrou do que Padim Ciço dizia: "Lampião, meu fio, maior poupança é a vida".
Os cangaceiros, como nunca antes se viu, seguiram enfileirados a metro e meio de distância. Iam montar cabana no meio dos matos. Esperar que venha depois da tempestade a bonança. Mas olhe, é de ficar bestificado: o bando quieto, parado. Com medo da morte, já pensando em sair dessa vida. Nunca tinha visto guerra sem tiro de canhão, muito menos só com pano, isolamento e lava-mão.. Se não é o fim dos tempos é o começo, então.
E esse foi o dia da peleja em que o auto-intitulado mais valente do Sertão, condecorado Capitão, cangaceiro, nordestino, Lampião Virgulino viu que força não tem tamanho. A doença invisível fez seu bando ficar pequenino.
É, Lampião, melhor vencedor é quem sabe ser valente. Nesse momento, era deixar o vírus passar, pra poder seguir em frente. Virgulino também um dia verá que no sertão não tem rei maior do que a lei. Por hoje, é que não tem briga maior que pela vida. Doido é quem não vê.
*Livremente inspirado na realidade atual, mais cruel que o cangaço

Diário do Nordeste

MARIA BONITA

“Maria Bonita, sexo, violência e mulheres no cangaço” é um excelente livro da autora paulista Adriana Negreiros, que aborda a vida no cangaço sob um enfoque diferente daquele que costumamos ler: a perspectiva das mulheres.
A autora, como não poderia deixar de ser, dá uma atenção especial a Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria de Déa, que viria a ser a companheira de Lampião e, por isso, a Rainha do Cangaço. Seria somente após a sua morte, em 28 de julho de 1938, aos 28 anos de idade, que Maria de Déa entraria para a História como Maria Bonita.
Maria Bonita nasceu em Malhada da Caiçara, no município de Paulo Afonso- BA, em 17.01.1910. Casou aos 15 anos de idade com um primo, Zé de Neném, mas o casamento era desarmonioso.
Na época, Lampião já inspirava temor, respeito e fascínio no sertão nordestino, então, em 1929, tomada de paixão pelo Rei do Cangaço, Maria de Déa largou o marido e foi viver com Lampião.
Adriana Negreiros relata as diversas atividades e histórias de Lampião e de seu bando, dos coiteiros, das forças repressoras, denominadas “macacos” pelos cangaceiros; suas investidas violentas em busca de arrecadar dinheiro e armas; seu encontro com o Padre Cícero, que lhe conferiu a patente de Capitão do Exército; a vaidade do Rei do Cangaço, conhecido no Brasil e no mundo, posteriormente, sendo registrado o seu cotidiano pelas lentes do fotógrafo sírio-libanês Benjamin Abrahão.
A história do cangaço é uma temática que desperta grandes paixões em muitos estudiosos e leitores, porém, o presente livro se caracteriza por tratar do tema com isenção, desnudando esse fenômeno em suas diversas nuances, mostrando o quando a vida poderia ser dura e cruel para as meninas/mulheres que despertassem o interesse dos cangaceiros.
Maria Bonita, diferentemente das demais mulheres que ingressaram no cangaço, o fez por vontade própria, por escolha própria, por paixão a um homem a quem resolveu seguir e que seria seu companheiro por toda a vida. Ela foi a primeira mulher a fazer parte do grupo de cangaceiros. Depois, vieram Dadá, Inacinha, Maria Jovina, Joana Gomes, Adilia, Sila, dentre tantas outras, e não necessariamente nessa ordem.
O Rei do Cangaço, violento, temido, frio, era paciente e calmo diante dos acessos de ciúmes de Maria Bonita, que não eram poucos. Quando Lampião decidia eliminar alguém, somente ela era capaz de dissuadi–lo.
“Quando Maria Gomes de Oliveira morreu, nasceu Maria Bonita”.

Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça
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