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Como seria o encontro de Lampião com o coronavírus


Na quinta crônica do projeto Histórias de passar os dias, o cangaço recebe a visita do indesejável coronavírus. E Lampião vive o dilema de ser valente ou inteligente


Foi só ele chegar, correu o alvoroço: a mãe com a chinela na mão bota menino pra dentro; vaqueiro tira gibão e corre pro isolamento. O padre entrou na batina, a tartaruga no casco, a galinha escondeu o ovo, o pinto não deu um piu, o grilo não deu um 'criu', o preso implorou ao delegado: "não me tire daqui, viu?".
O medo estava se espalhando pelo mundo, ninguém mais podia sair de casa. O comércio estava fechado. O portão estava trancado. Dos telhados não se ouvia nem miado.
- Muito bem, gosto de ver assim. Taí uma coisa que gosto é o povo com medo de mim, convenceu-se Lampião.
- Vai pra dentro, abestado, gritou alguém de longe.
- Quem foi esse fi duma égua que gritou?
- Capitão, tá meio estranho. O gerente do banco sumiu, o prefeito também ninguém viu. Tá tudo muito parado. Até o vento fugiu, tá sentindo o abafado?
Enquanto Lampião e seu bando de cangaceiros tentam entender o que está acontecendo, um bêbado se aproxima sem nenhum constrangimento :
- Ei, macho. Tem álcool em gel aí não? É porque acabou a cachaça, queria ao menos ficar cheirando a mão..
- Você me respeite, seu cabra, vá pra casa que eu cheguei. Não tá vendo que sou Lampião, o cabra mais valente e destemido do Sertão?
- Valente e doido.
- É o quê?!
- Calma, seu 'Capetão', é que se o senhor pensa que tá todo mundo escondido com medo do senhor, tá enganado. O povo tá é com medo que o Coronavírus tenha chegado. É melhor cêis terem cuidado.
- Mas agora deu mesmo. Cadê esse "coronga" pra eu dar uma lição. Pra num gastar bala eu dou só uma pinicada com minha maior peixeira na mão. Jogo pra cima e dou um rodopio que ele não levanta mais do chão. Onde já se viu, achar que é mais valente que eu? O último que pensou assim já faz tempo que morreu.
Lampião estava enciumado. Até que um dos cangaceiros chegou com um panfleto que no chão estava jogado. Falava de uma pandemia, um vírus chamado corona se espalhando pelo Planeta. Para uns dava em quase nada, em outros, moleira baixa, febre, tosse, falta de ar. E, Deus o livre piorar, era morte à espreita. Mas "não entre em pânico, entre em casa". O remédio até agora: ficar quieto, lavar bem as mãos. Enquanto vacina não há, o prevenido remediado está.
- Ôh povo besta. Isso é uma gripezinha. Eu me admiro como é que se assusta com um negócio que nem tamanho tem. Cabras frouxo.. Onde já se viu? Nosso sinhô tem cada 'fio'. Sorte dele que tem eu.
- Capitão, né por nada não, meu Rei Leão do sertão, mas de Serra Talhada pra cá, uns cangaceiro começaram a tossir, ter moleza e espirrar. Não é melhor a gente também se aquietar?
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Ao lado de Maria Bonita e do bando, Lampião se vê numa cidade em isolamento
Rafael Crisóstomo
Mas espera aí: não é conselho de qualquer um que o chefe do bando concorda. Maria Bonita, que vinda não sei de onde só entra na história agora, chega junto do marido para ter prosa, abrir o baú da memória:
- Homem, bora dar um tempo, aproveitar é fazer o nosso isolamento. Sua vó Jocosa já falava que quando era moça ainda veio uma gripe que matou foi gente em Serra Talhada. Ela nunca esqueceu, porque teve um tio teu que morreu. Em vez de se aquietar, foi passear. Não lembra daquele ditado: só se meta com quem você consegue enxergar?
- Não.
- É que eu acabei de inventar, mas a história de vó Jocosa é verdadeira e ainda tá viva na memória. E tem outro ditado que diz que o maior felizardo é aquele que aprende com seu passado.
- Esse também não conheço.
- Inventei agora, diz rindo Maria Bonita, mas fica séria. Homem, por favor, vamo embora.
Lampião, condecorado Capitão, auto-intitulado o mais valente do sertão, que só ouvia Maria, a mais sensata do bando, mandou todo mundo encher a cara de pano e falar de longe. Pensou que se isso é verdade, vai vencer esse tal corona. E apesar de toda a vaidade, chegou a uma conclusão. Ter bom senso não é ser covarde: melhor ter precaução.
Mas já deixou avisado: "Cangaceiro que perto de mim der espirro, vai levar tiro!"
Agora, além de perfume francês, peixeira, espingarda, rosário e munição, um tubo de álcool em gel pendurado carrega o nobre Lampião. Enquanto rolava a pandemia, seu negócio só regredia: não tinha banco nem comércio pra atacar. Mas era melhor pobre vivo do que rico a sete palmos de terra batida. E lembrou do que Padim Ciço dizia: "Lampião, meu fio, maior poupança é a vida".
Os cangaceiros, como nunca antes se viu, seguiram enfileirados a metro e meio de distância. Iam montar cabana no meio dos matos. Esperar que venha depois da tempestade a bonança. Mas olhe, é de ficar bestificado: o bando quieto, parado. Com medo da morte, já pensando em sair dessa vida. Nunca tinha visto guerra sem tiro de canhão, muito menos só com pano, isolamento e lava-mão.. Se não é o fim dos tempos é o começo, então.
E esse foi o dia da peleja em que o auto-intitulado mais valente do Sertão, condecorado Capitão, cangaceiro, nordestino, Lampião Virgulino viu que força não tem tamanho. A doença invisível fez seu bando ficar pequenino.
É, Lampião, melhor vencedor é quem sabe ser valente. Nesse momento, era deixar o vírus passar, pra poder seguir em frente. Virgulino também um dia verá que no sertão não tem rei maior do que a lei. Por hoje, é que não tem briga maior que pela vida. Doido é quem não vê.
*Livremente inspirado na realidade atual, mais cruel que o cangaço

Diário do Nordeste

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