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5 de setembro de 2018

Educador Ari de Sá Cavalcante faria 100 anos de idade em 2018; novo livro celebra sua memória

 por Felipe Gurgel - Repórter
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No último dia 26 de agosto, o professor Ari de Sá Cavalcante (1918-1967) completaria 100 anos de idade. Para marcar o centenário, em edição do Colégio Ari de Sá Cavalcante, os herdeiros celebram a memória do pai, personalidade reconhecida no cenário educacional do Ceará, com o lançamento do livro "Centenário de nascimento: Professor Ari de Sá Cavalcante 1918 - 2018".
A organização do livro ficou a cargo de seu filho mais velho, Oto de Sá Cavalcante (engenheiro civil e professor). Casado com a professora Maria Hildete Brasil de Sá Cavalcante, Ari teve, além de Oto, mais quatro filhos: Hilda (professora), Tales (engenheiro e professor), Dayse (economista) e João (engenheiro).
A publicação conta com depoimentos assinados por diversas personalidades do Ceará, em homenagem ao educador. Textos de nomes como Adauto Bezerra, Elon Lages Lima (1929-2017), Hélio Guedes Campos de Barros, João Moreira Valle, José Aristides Braga, José Tarquínio Prisco, o colunista social Lúcio Brasileiro, o médico e ex-governador Lúcio Alcântara, a ex-prefeita de Fortaleza Maria Luiza Fontenele, o ex-deputado Mauro Benevides, dentre outros, marcam a memória de Ari.
Além dos textos em tom solene e depoimentos mais sensíveis (como o do filho Oto Sá, organizador do livro), a publicação traz a reprodução de discursos manuscritos, recortes de jornais, imagens de arquivo da família Sá Cavalcante e até poemas (a exemplo da homenagem do escritor e ex-governador Gonzaga Mota pela memória de Ari, Mario Simonsen, Nilson Holanda, Virgílio Távora, Aureliano Chaves, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães).
Nascido em Jucás/CE (cidade a 396 km de Fortaleza), no dia 26 de agosto de 1918, Ari de Sá era filho do coletor de impostos João de Sá Cavalcante e da professora Raimunda Rabelo de Sá Cavalcante. Começando os estudos ainda em sua cidade natal, Ari fez o curso secundário no Ginásio do Crato (CE) e concluiu em Fortaleza, no Colégio Castelo Branco. Na capital cearense, Ari de Sá trabalhou neste colégio, como secretário, para bancar seus estudos.
Ari de Sá, a princípio, queria cursar Engenharia na universidade, mas o curso não existia no Ceará, durante os anos de 1930. Em 1935, portanto, ele ingressou na Faculdade de Direito (após o segundo lugar no vestibular) e formou-se como advogado quatro anos depois. Sua carreira como professor teve início neste tempo, quando o educador começou a dar aulas de português e matemática pelos colégios de Fortaleza da época.
Dentre outras experiências na docência, Ari ensinou, desde 1941 (até sua morte, 26 anos depois), no colégio Farias Brito, ao lado do professor João Ramos de Vasconcelos César. O educador ocupou vários cargos na militância pela educação, seja na gestão pública (como Secretário de Educação do Estado), seja no ambiente universitário (dirigiu o Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade Federal do Ceará, de 1960 a 1963).
Sua passagem pela UFC se confunde à evolução do curso de Ciências Econômicas da UFC. E seu envolvimento com a faculdade foi tanto que, poucos dias antes de falecer, o professor tinha sido eleito para um mandato de três anos na direção do curso.
Homenagens
O curso de Economia da UFC é um dos lugares que registra a memória do professor até hoje. Em 2008, a biblioteca do curso de pós-graduação em Economia da universidade (CAEN/UFC) foi reinaugurada com o nome Ari de Sá Cavalcante.
O nome de Ari ainda batiza uma das ruas da Barra do Ceará, uma praça na Avenida Jovita Feitosa (Parque Araxá), além das bibliotecas dos colégios estaduais Noel Hugnen de Oliveira Paiva e Castelo Branco.
Intimidade
Dentre os textos do livro, o depoimento assinado pelo filho mais velho, Oto de Sá Cavalcante, traz alguns traços de personalidade e do temperamento do pai, na intimidade do lar. Ciente de suas limitações pessoais, Ari não tinha problemas em afirmar, para toda a família, que sentia que não viveria muito tempo. "Vocês se cuidem, porque eu vou viver pouco", teria afirmado o homenageado, segundo Oto.
O filho recorda sobre as orientações do pai para poupar dinheiro, por exemplo, e como Ari (enquanto pai e professor) lidava com a educação dos filhos dentro de casa. Oto recapitula que foi desafiado pelo pai, a respeito do ingresso na faculdade de Engenharia da UFC. "Era apenas um desafio para que levasse mais a sério o vestibular. Na verdade, eu era um estudante mediano, pois me dedicava apaixonadamente ao futebol contra a vontade do papai", lembra o filho mais velho.
Além da intuição pela sua própria morte, Ari de Sá foi diagnosticado com deficiência na válvula mitral do coração antes dos 40 anos de idade. Para corrigir o problema, ele teria de se submeter a uma cirurgia de risco. Desgastado por noites mal dormidas e um cansaço constante, o professor decidiu fazer o procedimento com o doutor Adib Jatene (1929-2014), em São Paulo. No entanto, Ari não resistiu e faleceu aos 49 anos de idade, em 1967.
Diário do Nordeste

Kindle de Literatura segue com inscrições abertas


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Ricardo Garrido, gerente geral de aquisição de conteúdo para Kindle: "Em 2012, tínhamos 12 mil livros digitais em português; hoje, temos mais de 150 mil"
Foi durante uma oficina de criação literária ministrada pelo escritor Marcelino Freire em São Paulo, no ano de 2009, que Gisele Mirabai desenvolveu a narrativa de "Machamba". Autora de livros infanto-juvenis, ela enxergou, no encontro, a oportunidade de fazer crescer a história que havia acabado de criar, sobre uma mulher que vive em Londres e tenta achar o elo perdido com a infância.
"Era um romance no qual eu acreditava muito e, contando com o apoio do Marcelino, tentei publicá-lo por uma ou outra editora", conta. "Porém, obtive a resposta que a maioria dos escritores escuta: 'Seu livro não se encaixa no nosso perfil editorial' ou 'daqui a seis meses te damos uma resposta'. Com isso, fiquei sem saber o que fazer com um livro que, na minha visão, tinha muita qualidade", afirma a autora.
Diante das poucas perspectivas de inserção no mercado editorial composto pelas grandes casas de publicação, Gisele percebeu as veredas se abrindo quando, zapeando pela internet, leu sobre o Prêmio Kindle de Literatura, criado pela Amazon em parceria com a editora Nova Fronteira. O concurso, além de R$ 20 mil, garantia à pessoa vencedora a publicação da obra em versão impressa pela editora parceira.
Para participar do projeto, o primeiro passo foi se cadastrar na plataforma da Amazon, Kindle Direct Publishing (KDP), destinada à autopublicação de autores independentes. A autora concorreu con outros 2,2 mil romances de todo o Brasil e conquistou o prêmio.
"A partir da conquista do prêmio, tudo mudou para mim nesse cenário porque, no processo de publicação do livro, passei a ver o e-book como um meio direto para chegar ao público", explica Mirabai. "Usei a ferramenta de autopublicação, a priori, apenas para participar do concurso e, com o tempo, vi como ela foi efetiva. Hoje, tenho um contato híbrido: tanto com a Nova Fronteira, para o livro impresso, quanto com o KDP, que continua mantendo meus direitos sobre a obra".
Oportunidade
Contar a travessia de Gisele para publicar sua mais recente obra é ato oportuno neste momento. Desde o último dia 15 de agosto que as inscrições para a terceira edição do Prêmio Kindle de Literatura estão abertas, ficando disponíveis até 15 de outubro. O vencedor receberá um prêmio de R$ 30 mil e iniciará um contrato com a Editora Nova Fronteira para a publicação do título em versão impressa.
Os cinco finalistas serão divulgados entre 21 e 31 de janeiro de 2019; já o nome da pessoa vencedora será anunciada entre 18 e 28 de fevereiro. Serão reservados 60 dias para a publicação do livro de forma independente no site da Amazon por meio da Kindle Direct Publishing. As histórias serão avaliadas por um painel de especialistas editoriais selecionados pela Nova Fronteira e a Amazon, incluindo o poeta e crítico literário, membro da ABL, Antônio Carlos Secchin.
Gerente do KDP na Amazon Brasil, Talita Taliberti conta que, desde que foi lançada no País, em dezembro de 2012, a plataforma tem gerado um retorno positivo para o cenário de autopublicação nacional.
"A gente tem dezenas de milhares de autores na nossa ferramenta e temos crescido fortemente a cada ano. O mais interessante é que ela está sendo procurada inclusive por escritores consagrados, como é o caso do Mário Sérgio Cortella, que recentemente publicou o primeiro livro dele, 'Descartes: A paixão pela razão' - fora de circulação há mais de 15 anos - em uma versão exclusiva em e-book pelo KDP", dimensiona.
De acordo com a profissional, a intensa procura no meio digital quando o assunto é literatura - tanto no ramo da criação quanto no consumo - sinaliza um importante aspecto a considerar sobre o esquema produtivo do ramo impresso.
"Acredito que a grande dificuldade do mercado impresso de inserir novos autores em seu contexto é porque o modelo das editoras é bastante caro. Tem a margem do varejo e toda uma estrutura produtiva, que envolve custos com editoração, gráfica, estoque? A cadeia é grande, o que faz com que seja muito difícil as casas apostar no nome de um autor desconhecido", detalha.
Integração
Apesar da aparente dicotomia combativa entre impresso e digital - que insiste em pautar os assuntos quando se trata de mercado editorial -, Taliberti pensa na direção contrária. A gestora visualiza um processo de integração entre os dois suportes, com os novos modelos de produção e consumo do livro surgindo para otimizar o tempo de leitura das pessoas.
"Eu não enxergo o mundo digital 'matando' o impresso de jeito nenhum. Creio que o livro digital veio muito para complementar, dar mais opções ao leitor. Temos que pensar que, hoje, estamos brigando pelo tempo das pessoas para ler, e não se elas estão lendo livros físicos ou digitais. Diante da quantidade de opções de entretenimento, garantir a opção da leitura é mais uma oportunidade de todos continuarem investindo no consumo dessa arte", opina. E completa: "A gente vê, inclusive, que os livros digitais ajudam a vender o livro impresso. Quando olhamos no nosso site, em geral a obra em formato digital incrementa a venda em versão física. Então, a questão é complementaridade".
Balanço
Gerente geral de aquisição de conteúdo para Kindle, Ricardo Garrido ajuda a endossar, com números, o panorama da literatura feita e consumida no ramo virtual. De acordo com ele, "o livro digital está no seu sexto ano no Brasil. Quando a Amazon chegou por aqui, em 2012, tínhamos 12 mil livros digitais disponíveis em português; hoje, temos mais de 150 mil, um aumento que tem a ver diretamente com a questão da adesão do público e também das editoras".
Garrido afirma ainda que, atualmente, todas as editoras estão lançando os livros em formato impresso e digital praticamente de forma simultânea. Tal método de publicação das obras ajuda na visualização da recorrência de leitura que o público brasileiro adquiriu com o passar do tempo.
"Temos uma informação de que a pessoa que compra ou passa a ler livros digitais continua a comprar livros impressos e passa a gastar de três a quatro vezes mais com livros do que ela gastava antes", detalha. "Acaba-se, então, intensificando a experiência de leitura das pessoas porque elas encontram mais facilmente os livros e podem lê-los de uma maneira mais democrática, valendo-se do livro físico ou contando com a acessibilidade digital", complementa.
Estratégia
Indagado sobre como é manter um estande feito o da Amazon - gigante do comércio online de livros - em uma das maiores feiras de livro do mundo, Ricardo Garrido é enfático: "Vejo a Bienal como uma celebração nacional do livro e da literatura. E o livro não tem um formato necessariamente definido. Porém, já que trabalhamos com outro formato, consideramos variáveis diferentes para escoar o material".
"Atuamos por meio de duas frentes: uma que é expandir a seleção de livros e outra que é oferecer uma maneira, preço e usabilidade que os clientes se interessem. Melhorando a experiência de leitura, removemos as barreiras de acesso", raciona. "No fim das contas, o que importa é ler".
Diário do Nordeste

Museu do Ceará - equipamento público que guarda a memória do Estado vai receber uma manutenção predial nos próximos quinze dias

Deivyson Teixeira em 25/10/2014
Deivyson Teixeira em 25/10/2014
O Museu do Ceará - equipamento público que guarda a memória do Estado em artefatos arqueológicos, obras artísticas e outras peças - vai receber uma manutenção predial nos próximos quinze dias. A intervenção está ligada ao processo de cuidado permanente que a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) precisa realizar nos equipamentos públicos. No fim de 2017, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) emitiu um comunicado para a pasta estadual pontuando alguns problemas estruturais que afetam o museu. Antes disso, entretanto, segundo Fabiano Piúba dos Santos, titular da Secult, a pasta já estava com os olhos voltados para o equipamento.
Essa manutenção dos próximos dias não afeta o funcionamento do museu, explica a diretora Carla Vieira. E ela é apenas uma prévia para a intervenção maior que será realizada no próximo ano. A manutenção vai custar R$ 224 mil. Quando assumiu a secretaria, pontua Fabiano, havia um projeto para reforma do Museu do Ceará. Mas, segundo o secretário, o texto apresentava uma série de lacunas, incluindo a prevenção de acidentes e incêndios. Novo projeto foi encomendado. Realizado pela empresa cearense Umpraum Projetos Integrados, o texto prevê especificações que vão da disposição dos extintores de incêndio aos alarmes, hidrantes e sinalizações. A obra, que deve custar por volta de R$ 5 milhões, já tem recursos previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) da Secult para o próximo ano.

Rafael Magalhães, arquiteto e urbanista da Umpraum Projetos Integrados, explica que o projeto prevê melhorias e modernizações em todas as instalações do Museu do Ceará, equipamento tombado pelo Iphan e localizado no Centro de Fortaleza. Prédios históricos, diz o arquiteto, possuem facilidade de combustão devido ao uso de madeira como matéria base das edificações. Esse teria sido um dos agravantes no incêndio que atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, no domingo, 2.
O projeto do Museu do Ceará contou com nove profissionais envolvidos - analisando detalhes e características da edificação (construída em 1873) - e foi elaborado entre fevereiro e junho deste ano. A Umpraum, esclarece Fabiano dos Santos, também está realizando projetos para o Theatro José de Alencar (TJA) e para o Teatro de Guaramiranga. "Não há motivo para pânico. É importante lembrar para a sociedade que há uma linha contínua de manutenção e custeio dos nossos equipamentos", diz o secretário.
"Os riscos existem em qualquer tipo de edificação, mesmo as mais modernas", ressalta Carla. Ela lembra, entretanto, que o Museu do Ceará tem sistema de combate de incêndio em funcionamento, extintores específicos para a estrutura, mangueira de hidrante no interior do prédio e não desenvolve atividades de alto risco ou que envolvam chamas. "Eu não poderia me capacitar a dizer que o museu não corre nenhum risco. O que nós temos são uma série de esforços voltados a evitar que tragédias aconteçam", diz.
O Povo

33ª edição da Bienal de São Paulo testa um novo modelo, para ser mais polifônica e atual

Nesta edição, sete mostras foram montadas segundo esse modelo, com artistas assumindo também o papel de curadores.
Na última edição da Bienal, mais de 900 mil visitantes (200 mil estudantes) passaram por ela no Ibirapuera.
Na última edição da Bienal, mais de 900 mil visitantes (200 mil estudantes) passaram por ela no Ibirapuera. Foto (Leo Eloy/Divulgação)
Numa das mais concorridas entrevistas coletivas da história da Bienal de São Paulo (mais de 230 jornalistas de todo o mundo), o curador-geral da 33.ª edição da mostra internacional, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, 48, reafirmou nesta terça-feira, 4, pela manhã o seu propósito de realizar uma exposição sem tema, justificando seu projeto de um modelo descentralizado de curadoria sintonizado com a liberdade artística. Trata-se, segundo ele, de um modelo menos hierárquico de mostra, que pretende contemplar um público bem variado, não necessariamente familiarizado com arte - afinal, na última edição da Bienal, mais de 900 mil visitantes (200 mil estudantes) passaram por ela no Ibirapuera.
Nesta edição, sete mostras foram montadas segundo esse modelo, com artistas assumindo também o papel de curadores, entre eles veteranos como o escultor carioca Waltercio Caldas, 72, que já participou de várias mostras e bienais internacionais, e a jovem paulista Sofia Borges, 34. Pérez-Barreiro lembrou que o artista-curador não é exatamente um modelo novo (considerando que os impressionistas já montavam as próprias exposições em sua época), mas tem o mérito de restabelecer uma prática menos autoritária que a ditadura curatorial dominante até a virada do século, em que os artistas deviam se submeter aos temas e caprichos do curador. Nesta edição, mais enxuta, a Bienal vai exibir 12 mostras individuais, nove delas comissionadas.
Há uma separação bem nítida entre as exposições dos artistas-curadores e os projetos individuais na expografia concebida por Álvaro Razuk, que recorreu ao conceito de arquipélago para isolar cada uma das "ilhas" dos artistas. Entre os projetos individuais estão os do paranaense Bruno Moreschi e da carioca Luiza Crosman, ambos os artistas nascidos nos anos 1980 e questionadores - Moreschi vai apresentar uma obra chamada Outra 33.ª Bienal, que leva em conta a opinião dos visitantes para propor novas ações na mostra internacional. 
Pela primeira vez, segundo anunciou a assessoria da Bienal, a mostra faz uma parceria com o Spotify, e terá seu audioguia e playlists especiais na plataforma de streaming. A Bienal também terá um aplicativo com todos os conteúdos informativos da mostra. O cartaz da 33.ª Bienal foi concebido pelo artista gráfico Raul Loureiro, que reproduz a obra Formas Expressivas, do escultor abstrato franco-alemão Hans Arp (1886-1966), uma pintura em relevo sobre madeira de 1932.
Entre os artistas participantes desta 33.ª edição de Bienal estão pintores como Siron Franco, que exibe uma série de telas de 1987 - baseadas no trágico acidente radioativo com a cápsula de césio 137 abandonada num terreno baldio em Goiânia - e Vânia Mignone, que mostra uma série de pinturas recentes inéditas. Entre os escultores destaca-se o artista carioca Nelson Felix, que montou no pavilhão da Bienal uma instalação de esculturas (Esquizofrenia da Forma e do Êxtase) que se relacionam com uma peça fora do espaço expositivo. Vasos com cactos e chapas com ameaçadores pregos simulam, nas palavras do artista, um "coito violento com a arquitetura de Niemeyer da Bienal".
Outro escultor, Tunga, morto há dois anos, é homenageado na mostra pelos artistas curadores Sofia Borges e Waltercio Caldas. Além dele, a Bienal presta tributo a três outros artistas mortos o guatemalteco Aníbal López (1964-2014), o paraguaio Feliciano Centurión (1962-1996), cujos bordados guardam semelhança com os do cearense Leonilson (1957-1993), e a brasileira Lucia Nogueira (1950-1998). 
Entre as homenagens prestadas pelos artistas-curadores aos mortos, um dos pintores que mais justificam o título da Bienal, Afinidades Afetivas, é o sueco Ernst Johnson (1851-1906), escolhido pela também sueca Mamma Anderson, 56, que expõe suas pinturas ao lado de suas telas - um diálogo, no mínimo, perturbador. Johnson queria ser o Rembrandt da Suécia, mas a sífilis o desfigurou e a esquizofrenia o destruiu. 
Johnson tinha visões místicas e se pintou como o Messias. No fim da vida, foi socorrido por duas almas bondosas que o abrigaram numa mansão. Mamma Anderson mantém estreito vínculo com a pintura nórdica da virada do século de Johnson.
Outra curadoria artística de grande impacto é a do escultor carioca Waltercio Caldas. Foi dele a frase, na coletiva de imprensa, que resume a proposta curatorial de Pérez-Barreiro, a de buscar afinidades entre artistas: "Arte é um rio que não tem mar, que vai em direção a não sei o quê". É para achar uma resposta que os artistas existem. "Não posso aprisionar aquilo que não tem tamanho", diz ele, sobre sua decisão de fazer uma curadoria não baseada em nomes, mas em objetos enigmáticos. No espaço que organizou, estão obras de outros grandes escultores (Sérgio Camargo, Tunga, José Resende, Gego).
A despeito de a Bienal não manter mais as salas históricas, a mostra traz obras de artistas que deixaram suas marcas no meio em que atuaram. É o caso da sala dedicada ao cineasta russo Ladislas Starevitch (1882-1965), pioneiro da animação stop motion. No curta animado La Revanche du Ciné-opérateur (A Vingança do Cameraman), realizado em 1912, ele acompanha a vida de um casal de besouros que herda uma boa caneca de cerveja. Detalhe: Starevitch usa besouros mortos de verdade, que ganham uma segunda vida na tela. Uma preciosidade quase tão desestabilizadora como o vídeo do holandês Roderick Hietbrink, 43, The Living Room, em que um carvalho (real) invade um apartamento modernista arrastando móveis e bibelôs pelo caminho.
A Bienal será inaugurada na sexta (7) e fica aberta até 9 de dezembro.

Agência Estado

ARDER EM CHAMAS

Grecianny Carvalho Cordeiro*

A História do Brasil é repleta de histórias de espoliações.
Essa frase pode soar tão redundante quanto constantes foram as espoliações sofridas pelo Brasil: quando da descoberta pelos portugueses, das incursões dos franceses e dos ingleses no litoral, das invasões holandesas, em busca de nossas riquezas. 
E não foi diferente quando do Brasil-Colônia, Brasil-Império e Brasil-República.
Os livros estão aí para relatar as “conquistas” dos portugueses, os “desbravadores” bandeirantes, os traficantes de escravos, os caçadores de diamantes, embora de uma forma quase romântica, afinal, não esqueçamos que a História é sempre contada pelos vencedores, portanto, para bem longe das versões dos índios escravizados, dos negros traficados.
O Brasil de hoje, com todos os seus problemas, que tanto desalento e desesperança trazem para seu povo, nada mais é do que a soma de todas essas espoliações e, nos tempos modernos, o escambo deu lugar à propina; o pau-brasil, o ouro e o diamante deram lugar aos milhões de reais em malas e aos milhões de dólares em contas na Suíça.
Talvez daí o reinante descaso dos governantes com a coisa pública, com o patrimônio nacional e sua riqueza cultural, científica, antropológica. Some-se a isso a arraigada apatia do povo brasileiro.
O incêndio ocorrido no Museu Nacional é o resultado desse descaso e apatia.
O belo prédio, inaugurado por D. João VI, em 1818, que serviu de residência para a família imperial, o local em que Dom Pedro II reinou e que Dona Leopoldina assinou o Decreto de Independência, o espaço destinado a elaborar a primeira Constituição da República, antes do fatídico incêndio, nada mais era que uma construção caindo aos pedaços, sem qualquer segurança, se mantendo às custas de uma minguada verba, porém, guardava um tesouro imensurável: a História de um país.
Em frente ao Museu Nacional havia a seguinte inscrição: 
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"Todos que por aqui passem, protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir seu próprio futuro." 
Todos os que por ali passaram, não protegeram o museu e os registros de nossa cultura e da história de nosso povo foram consumidos pelas cinzas. Não cuidamos do passado, estamos destruindo o presente e, por isso mesmo, o futuro nos parece nada promissor.
O Brasil arde nas chamas da incompetência e da corrupção de seus gestores, do passado, do presente e, quiçá, do futuro.


*Promotora de Justiça

Bancos e governo se reúnem para debater restauração do Museu Nacional

Após a destruição do Museu Nacional do Rio Janeiro por um incêndio há três dias, o presidente Michel Temer faz mais uma reunião nesta quarta-feira (5), no Palácio do Planalto para discutir o assunto.
Ele chamou autoridades da cultura e representantes de instituições bancárias públicas e privadas na tentativa de organizar o grupo que vai atuar no processo de  restauração do museu.
Um incêndio de proporções ainda incalculáveis atingiu, no começo da noite deste domingo (2), o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na zona norte da capital fluminense
Incêndio destruiu a maioria do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista. Prejuízos são incalculáveis       (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Temer quer montar uma espécie de rede de apoio para reconstrução do Museu Nacional no menor tempo possível. As parcerias devem definir mecanismos para que as empresas se associem na reconstrução do edifício e na busca pela recomposição do acervo destruído pelas chamas.
Algumas das alternativas para viabilizar o projeto se baseiam na Lei Rouanet, principal política de incentivos fiscais. Pela lei, empresas e cidadãos (pessoas físicas) ao aplicarem em cultura, poderão ter dedução do Imposto de Renda.
O percentual disponível é de 6% do tributo para pessoas físicas e 4% de IRPJ para pessoas jurídicas.
Para o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, o ideal é definir recursos diretos do Orçamento da União de 2019.
Nas reuniões que participou ontem (4) em Brasília, ele ressaltou a importância do edifício do museu por onde passaram os integrantes da família real brasileira e que a sociedade tem de contribuir nesse processo.

Integrantes

Devem participar da reunião no Palácio do Planalto, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, os presidentes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Dyogo Oliveira, e diretores da entidade e da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Murilo Portugal Filho.
Também foram convidados os presidentes da Caixa Econômica Federal, Nelson Antônio de Souza, do Banco Safra, Rossano Maranhão Pinto, do Banco Santander, Sérgio Agapito Lires Rial, do Banco BTG Pactual, Roberto Balls Sallouti, do Banco Bradesco, Octavio de Lazari Junior, e do Itaú Unibanco, Cândido Botelho Bracher.
São esperados ainda o presidente em exercício da Petrobras, Rafael Mendes Gomes, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Marcos Mantoan e Eneida Braga, uma das diretoras do órgão.

Agência Brasil