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21 de março de 2019

João Carlos Marinho, o gênio dos livros

Marcos Peres, Especial para O Estado de S. Paulo

Que os colégios priorizem a decoreba de afluentes do Volga e fórmulas químicas à formação do leitor de ficção, não há dúvidas. Também, pouco se questiona que as leituras, ainda infantis, sofram um baque com o ingresso do estudante no ensino médio; e de repente se tornem “crivo de avaliação” para o ingresso do aluno em uma Instituição de Ensino Superior. 
Entre as fábulas infantis e os “romances sérios” nascidos aos borbotões no Ensino Médio, há um deserto agreste e assassino de futuros leitores. De um dia para o outro, jovens acostumados com corvos falantes e lições de moral são levados para o centro do cânone literário brasileiro. O Cabo Alencar e seu arsenal romântico foram, sem dúvida, causa de uma chacina imensa na minha turma de ensino médio. Fórmulas mnemônicas, naquele momento, deram conta de explicar mapas, dinastias e regras de crase, mas incapazes de trazer para os dias atuais um livro como A Pata da Gazela. Aos quinze anos tudo é imortal, diz o Casmurro, relembrando o Bentinho jovem. O recurso de Machado pressupõe que o leitor, ao se deparar com o excerto, imagine-se em seu passado, junto as promessas quiméricas desta idade. Ao lado do personagem que relembra a juventude, há o autor piscando um olho e dizendo, cúmplice, que a experiência e as lembranças da adolescência constituem-se elementos imprescindíveis para compreender a sina de Bento e Capitu.  
Lembro-me de ter pensado o seguinte, à época: “Como vou saber se é imortal se eu também tenho quinze anos?”  
João Carlos Marinho, o gênio dos livro
João Carlos Marinho em 2001: 'O Gênio do Crime' vendeu mais de 1 milhão de exemplares Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão
Tal discussão não é nova, muito já se disse sobre a delicada missão de ensinar literatura para jovens (sem que isso seja uma experiência tão traumática quanto a participação na linha de frente de uma Guerra). Apenas quero deixar consignado aqui um lufo de ar fresco nesta travessia: João Carlos Marinho
No meio de um balaio de livros antiquados, ou exageradamente fofos, ou chatos, lembro-me de ter que ler O Gênio do Crime para o colégio. Os personagens, logo no início da trama, são envoltos por um enigma de falsificação de figurinhas, e o enredo se torna um thriller eletrizante, até as últimas páginas. A trajetória do livro fala por si só: publicado em 1969, um milhão de exemplares vendidos, mais de 60 edições, foi traduzido para o espanhol e contou com uma adaptação cinematográfica em 1973. Edmundo, Pituca, o Gordo e a inigualável Berenice, com o tempo, vão fazendo amigos e desvendando enigmas com mestria. Em Sangue Fresco (prêmio Jabuti), perdem-se na Amazônia e, em Berenice detetive (prêmio Mercedes Benz), protagonizam um noir digno de um Chandler ou de um Hammet.
Se há algo louvável em João Carlos Marinho (e, puxa, há tantas coisas), é o fato de nunca desdenhar da inteligência de seus leitores. Lembro-me da alegria, quase detetivesca, ao descobrir que a Berenice, com sua cabeleira bela, fazia referência a uma constelação; e que o assecla criminoso Atlas guardava referência a um personagem da mitologia grega. Em seus livros, momentos quase infantis, divertidíssimos, como o que Gordo voa após ser apertado por uma sucuri, convivem com trechos de requintado mistério – como na cena em que uma triste autora morre após comer uma maçã envenenada. Marinho não subestimava os jovens. E, ao mesmo tempo, nunca deixou de primar pela diversão, pela prática de contagiar através de seus enredos e personagens – uma lição que nunca deveria ser esquecida por quem deseja contar histórias: saber que diversão e inteligência podem andar juntas. 
Há uma frase do jurista Calmon de Passos, que sempre me relembra da importância da Tradição, como manancial da criação: “Os gigantes de ontem só nos são úteis se permitirem que, subindo em seus ombros, possamos ver além do que foram capazes de vislumbrar. Assim fazendo, nem os traímos nem os esquecemos, antes permitimos que sobrevivam conosco com alicerces sobre que assentamos nosso mirante mais elevado”. Gostaria muito de poder usá-la com Marinho; de abraçá-lo e dizer que foi responsável, não só por parcela do amor que tenho aos livros, mas pela formação de muitos leitores (e, consequentemente, de alguns autores). Infelizmente, não pude abraçá-lo. Também não pude subir em seu ombro e alçar voos mais altos – mas este fato não digo com pesar. Há gigantes que subimos no ombro, e há gigantes que existem para ser adorados. E, no caso, Marinho não é apenas um gigante. Marinho, e toda a sua turma, viverão na imortalidade do imaginário de seus muitos leitores. 
Marinho é um verdadeiro gênio. 
* Marcos Peres é autor dos romances O evangelho segundo Hitler (Prêmios SESC e São Paulo de Literatura) e Que fim levou Juliana Klein?
Estadão Conteúdo

Capela revestida por milhares de ossos é ponto turístico excêntrico em Portugal


A Capela dos Ossos é uma das atrações da região do Alentejo cuja capital, Évora, ganhou título de Patrimônio Mundial da Humanidade


Acima da porta de entrada, um aviso a todos pobres mortais que incluíram no seu roteiro uma das atrações da região do Alentejo, em Portugal: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos". Parece sinistro, fúnebre, até de mau gosto. A Capela dos Ossos de Évora, porém, é um convite à reflexão sobre a morte e, especialmente, sobre a vida. 
Imagine um templo com paredes e pilares totalmente revestidos com milhares de ossos humanos. Dependendo da sua relação com a finitude, pode não ser convidativo inclui-lo entre locais a conhecer nesta encantadora região, localizada a pouco mais de uma hora de carro de Lisboa. 
Confesso que só me arrisquei nessa imersão na segunda visita a Évora. E valeu muito a pena. Pela singularidade e, acima de tudo, pelos momentos de contemplação. É surpreendente, mesmo que antes eu tenha pesquisado sobre a história da capela.
Transitoriedade
Soube, por exemplo, que foi idealizada por três frades franciscanos no Século XVII, com intuito de fazer os frequentadores refletirem sobre a transitoriedade e fragilidade da vida. Outro fato curioso é como esse acervo chegou ao local. Conta-se que, no século XVI, existiam perto de 42 cemitérios monásticos em Évora, que ocupavam muitas áreas da cidade. A solução encontrada pelos monges foi extrair os ossos do chão e utilizaram-nos para construir e "decorar" esta capela.
Aprendi ainda que é um monumento de arquitetura penitencial dedicada ao Senhor dos Passos, que representa o sofrimento de Cristo na sua caminhada até o calvário com a cruz às costas. A imagem é conhecida pelos moradores da cidade como Senhor Jesus da Casa dos Ossos.
Capela dos OssosCapela dos Ossos
Detalhe da Capela dos Ossos de Évora, uma das três do gênero em Portugal. A cerca de uma hora dali, em Monforte, há outra bem menor. Já a de Campo Maior, quase na fronteira com a Espanha, é quase tão grande quanto a de Évora
FOTO: TURISMO ALENTEJO
 Com essas informações em mente, cheguei à Igreja de São Francisco, onde fica a capela, disposta a encarar essa realidade, lembrando da passagem bíblica "Do pó viemos e ao pó voltaremos" (Gêneses  3:19). Contudo, o espaço significa mais do que isso.  Além de o lugar abrigar dezenas de caveiras e ossos, está decorado com estátuas religiosas, uma pintura renascentista e um teto abobadado, com afrescos que representam passagens bíblicas ligadas à vida e morte.
espaço é pouco iluminado. A luz natural entra por brechas estreitas de três naves. Ah! Se fiz fotos? Algumas, mas não há nenhum registro meu no local. Achei desnecessário. A experiência por si só é inesquecível.
Arredores
A Capela dos Ossos justifica a viagem. Contudo, a cidade de Évora, Patrimônio Mundial da Humanidade, merece atenção especial. Um passeio a pé pelas ruas centrais é imperdível. Se estiver de carro, é possível explorar um pouco os arredores.
O Alentejo reúne história, arquitetura, natureza abundante e gastronomia singulares. Pelas aldeias, preste atenção nas casinhas todas brancas e portas com moldura pintadas, por exemplo, de amarelo ou azul. Por isso, se tiver tempo, fique pelo menos três dias. Caso contrário, embora seja mais cansativo, vale um bate-volta a partir de Lisboa.
COMO CHEGAR
De Fortaleza a Lisboa: Voos diretos da TAP a Lisboa ou com conexões da Air France ou KLM.
De Lisboa a Évora: O ideal é alugar um carro, pois há muito o que descobrir no Alentejo. O percurso é de 135 Km (cerca de 1h15m de duração ), com saída pela Ponte 25 de Abril (A2) ou Ponte Vasco da Gama (A12). Siga pela autoestrada A6. Há linhas de ônibus (autocarro), pela Rede Expressos.

SERVIÇO
Capela dos Ossos de Évora
Praça 1º de Maio 7000-650
Rua Bilhete único dá acesso ao templo, ao Núcleo Museológico e  Colecção de Presépios.
Visitação diária, com exceção de 1 de Janeiro; Domingo de Páscoa; 24 de Dezembro à tarde; 25 de Dezembro.
Para consultar horários e preço do ingresso, acesse:  o site da Igreja de São Francisco


Diário do Nordeste

Americana é a 1ª mulher a vencer importante prêmio de matemática

Pela primeira vez, uma mulher será agraciada pelo Prêmio Abel de Matemáticas 2019, segundo a Academia Norueguesa de Ciências e Letras. A pesquisadora norte-americana Karen Uhlenbeck, de 76 anos, estuda equações derivadas parciais. O trabalho dela também estabelece as bases para modelos geométricos contemporâneos em matemática e física.
Referência também na luta pela igualdade de gênero nas ciências e matemática, Karen Uhlenbeck é co-fundadora do programa Women and Mathematics do Instituto (WAM), criado em 1993 para recrutar e capacitar mulheres para liderar em pesquisa matemática em todas as fases de suas carreiras acadêmicas.
Karen Uhlenbeck
Karen Uhlenbeck é agraciada com o Prêmio Abel 2019 - Andrea Kane/Institute for Advanced Study
Atualmente, Karen Uhlenbeck é pesquisadora visitante em pesquisas na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, membro associado no Instituto de Estudos Avançados (IAS).
A norte-americana é uma das fundadoras do Instituto de Matemática Park City (PCMI) que se destina à formação de jovens pesquisadores e na promoção da compreensão mútua dos interesses e desafios da matemática.
O Prêmio Abel reconhece contribuições para o campo da matemática. A escolha do vitorioso é baseada em recomendações do Comitê Abel, composto por cinco matemáticos reconhecidos internacionalmente.
Agência Brasil