Exposição de Tarsila do Amaral no Masp bate recorde histórico

Número total de visitantes foi de 402.850. Em pouco mais de três meses, exposição das obras de Tarsila do Amaral bateu um recorde estabelecido por uma mostra de Claude Monet.


Nas últimas semanas, o Museu aumentou o horário de visitação por conta da grande procura do público.
Nas últimas semanas, o Museu aumentou o horário de visitação por conta da grande procura do público. (Estadão Conteúdo)
A exposição Tarsila Popular, encerrada no domingo (28), bateu um recorde histórico e se tornou a mais visitada na história do Museu de Arte de São Paulo, o Masp. O número total de visitantes foi de 402.850. Em pouco mais de três meses no local (a mostra abriu no dia 5 de abril), a exposição das obras de Tarsila do Amaral bateu um recorde estabelecido por uma mostra de Claude Monet realizada em 1997, que havia atraído cerca de 401 mil pessoas.

A entrada no Masp custa R$ 40, mas é gratuita às terças-feiras. Nas últimas semanas, o museu aumentou o horário de visitação por conta da grande procura do público.

Com curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, Tarsila Popular apresentou cerca de 120 trabalhos da artista que teve importância central no movimento modernista brasileiro. Foi a maior já realizada sobre sua obra no Brasil.

Entre as atrações, estavam as icônicas Abaporu (1928), uma das mais populares da artista e que integra o acervo do Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires (Malba), Antropofagia (1929) e O batizado de Macunaíma (1956). A exposição marcou o retorno da obra da artista a São Paulo, depois de percorrer, entre 2017 e 2018, museus em Nova York e Chicago (EUA).

Agência Estado

Conheça Exu, a cidade natal de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião


Um trio com sanfona, triângulo e zabumba, em um posto de gasolina, nos "recepcionava" tocando "A Morte do Vaqueiro". Assim foi minha chegada a Exu, por volta de 9 horas, no sábado passado (27/8). À medida que surgiam visitantes, de passagem para Serrita, onde acontece a tradicional Missa do Vaqueiro, os pares se formavam nas calçadas e ruas para dançar. Homem com mulher. Mulher com mulher. Homem com homem.
Essa animação é comum no Município, sobretudo, neste meio de ano e em dezembro, mês de aniversário do filho mais ilustre: Luiz Gonzaga do Nascimento(1912 -1989). Por causa do "Rei do Baião", o forró pode ser visto em cada esquina exuense.
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A animação na cidade é comum no mês de aniversário de Luiz Gonzaga
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES
Do lado pernambucano da Chapada do Araripe, vizinho ao Crato, no Ceará, formou-se esse pequeno município de 31 mil habitantes. Com mais da metade da população morando na zona rural, a economia local se dá, principalmente, pela agricultura e pecuária. Contudo, a terra onde também nasceu Bárbara de Alencar, a heroína da Revolução Pernambucana, consegue viver na sombra do sanfoneiro. "Posto Gonzagão", "Farmácia Aza Branca", "Rua Assum Preto". Por todos os lados, há referências ao homem que popularizou o xote e o baião. O único lugar em que encontro tantas citações a um só personagem é a minha terra, Juazeiro do Norte, e sua devoção quase "onipresente" ao Padre Cícero.
Quase sempre - eu segui este roteiro - a visita começa pelo Parque Aza Branca - propositalmente escrito com 'Z' de LuiZ e de GonZaga - , onde o "Rei do Baião" ergueu sua fazenda, às margens do Açude Itamaragi. Lá, ficam o Museu do Gonzagão, sua casa, a casa onde o pai dele, Januário, passou os últimos dias e o mausoléu no qual o artista está sepultado. Cerca de 20 mil pessoas visitam o local por ano.
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Mausoléu onde o Rei do Baião está sepultado no Parque Aza Branca
FOTO; ANTÔNIO RODRIGUES

ACERVO PESSOAL

Museu do Gonzagão, idealizado quando o "Rei do Baião" ainda era vivo, reúne objetos pessoais, certificados, títulos, medalhas, troféus e prêmios que recebeu ao longo da carreira. Além disso, possui sanfonas que o acompanharam em momentos marcantes, como a visita do Papa João Paulo II, em Fortaleza, em 1980, e o último instrumento que empunhou antes de morrer.
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Peças do acervo do museu no Parque Aza Branca
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES
"Minha sanfona, minha voz, o meu baião, este meu chapéu de couro e também o meu gibão, vou juntar tudo, dar de presente ao museu", e como prometeu na música "A Hora do Adeus", tudo isso está lá. Por um pedido do filho Gonzaguinha é proibido fotografar o espaço.
A poucos passos dali, chegamos a sua casa, que ainda reúne outros objetos pessoais, como louças, porta-retratos, cama, guarda-roupas. Bem próximo, Gonzaga construiu uma pousada para receber amigos e artistas. Do outro lado, está a residência que ergueu para seu pai, Januário, quando deixou de morar no distrito de Araripe, para ficar na sede de Exu. Lá, também há peças como a cadeira de rodas que o mestre dos oito baixos usou antes de morrer. No mausoléu, está sepultado ao lado da esposa, Helena Cavalcante, do pai, Januário dos Santos, da mãe, Ana Batista de Jesus, dona Santana, e do irmão, o instrumentista Severino Januário. O espaço foi idealizado por Gonzaguinha (1945-1991).
Mais à frente, uma réplica da "Casa de Reboco", como cantou, chama atenção dos turistas e é alvo de fotografias. Se você tiver sorte, como aconteceu comigo, lá conversei com o cantor instrumentista Joquinha Gonzaga, sobrinho de Gonzagão e que, desde 1975 até os últimos dias de vida do "Rei do Baião", o acompanhou tocando nos shows. "Eu ando muito na aba do meu tio assim como muitos andam. Ele é uma referência", define. "Então vou por aí, por esse mundo, vou usando essa herança do meu tio e do vovô", gravou para definir esse DNA da música na família.
"Todo artista que se lança, principalmente daqui do Nordeste, pensa em Luiz Gonzaga. É como se ele não tivesse morrido. Me orgulho muito, porque participei da história dele. Não imaginava que ele seria essa potência, essa 'empresa'. Ele emprega muita gente, fazendo camisa, chapéu de couro, gibão, outros cantando, tocando sanfona. Até aqueles que imitam ele ganham dinheiro", diz Joquinha, demonstrando como a economia de Exu, aos poucos, referencia-se no músico.
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Joquinha Gonzaga, sobrinho de Luiz Gonzaga, com réplica ao fundo da casa de reboco que serviu de inspiração a uma de suas músicas
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES
Em uma prosa que durou cerca de 40 minutos, Joquinha só é interrompido para tirar fotos com turistas, que percebem a semelhança do sobrinho, usando o tradicional chapéu de couro de vaqueiro, com o parente ilustre. "Tio Gonzaga quando tava aqui mandava fazer a comida. A primeira coisa, tinha que ser no fogão a lenha. Segundo, ele criava bode, carneiro, galinha de capoeira, porque gostava muito da comida típica, da terra dele. E isso ele valorizava também na região onde passava. Se tocava no Rio Grande do Sul, por exemplo, queria sempre comer churrasco".
Parque Aza Branca hoje é o principal ponto turístico de Exu. Localizado na BR-122, quem cruza Pernambuco com destino ao Ceará ou vice-versa, costuma parar por lá. Uma estátua de Gonzaga, junto à sanfona branca, atrai logo a atenção.
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Acervo pessoal do Luiz Gonzaga
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES
Nesse espaço, também que conversei com outros turistas e partilhei com um deles esse sentimento: "Sempre me encantei pela história de Luiz Gonzaga. Pude observar que Exu é uma cidade pequena, pacata, como outra qualquer, mas tem esse privilégio. Aqui nasceu um rei. O poder público precisa de mais investimento, até pelo legado que ele deixou", acredita Lourenço Gouveia, vendedor autônomo, que viajou de Recife para conhecer a cidade.

'MEU RELICÁRIO'

Outra dica importante é ir até o distrito de Araripe, a cerca de 12 quilômetros da sede do Município. Foi lá onde nasceu Bárbara de Alencar, na Fazenda Caiçara, em 1760. A poucos metros dali, 152 anos depois, veio ao mundo Luiz Gonzaga do Nascimento, o único dos nove herdeiros que não carrega os sobrenomes dos pais, Januário dos Santos e Ana Batista de Jesus. "Luiz", porque nasceu no mesmo dia que celebra Santa Luzia (13 de dezembro); "Gonzaga", sugestão do vigário que o batizou, porque também homenageia São Luís de Gonzaga; e "Nascimento", por ter nascido no mesmo mês que Jesus Cristo. Seu batismo ocorreu na Capela de São João Batista, que permanece viva na história do distrito de Araripe.
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Monumento que marca a chegada do "Rei do Baião" ao mundo
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES
Um monumento marca a chegada do "Rei do Baião" ao mundo, vizinho ao histórico casarão do primeiro "Alencar", que pisou o sertão pernambucano. É nesse chão de terra, onde morou até os 17 anos, antes de fugir para servir ao Exército em Fortaleza, que Gonzaga cresceu. Muitas de suas músicas, como "No meu pé de serra" (em parceria com o cearense Humberto Teixeira), que batizaria o gênero que o consagrou, são inspiradas no Araripe.
Depois de rodar o País, já fazendo sucesso, retornou, em 1946, e protagonizou a história da canção "Respeita Januário". Ao bater à porta de casa, pedir um copo d'água a seu pai, ouvir o tibungado do caneco no fundo do pote e dizer: "Não tá me reconhecendo? É Gonzaga, seu filho", logo ouviu: "Isso é hora de chegar em casa, moleque?", retrucou seu pai. A mesma casa continua de pé, tombada pela Secretaria de Cultura de Pernambuco e fica aberta à visitação no mês de dezembro.
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Casa de Januário, onde Luiz Gonzaga cresceu
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES

PERSEVERANÇA

Mantido pela Organização Não Governamental Parque Aza Branca, o espaço onde fica o Museu de Luiz Gonzaga em Exu conta com 13 pessoas trabalhando, desde vigilantes, guias e atendentes. Uma das formas de mantê-lo são as vendas de produtos ligados ao artista, como camisas, chaveiros, chapéus de couro, e o ingresso no Museu. Com falta de apoio do poder público, a ONG busca ajuda de músicos para relembrar, neste dia 2 de agosto, os 30 anos de morte do "Rei do Baião". Por causa da data, todas as pousadas estão reservadas. "O fã nunca falha. Sempre está aqui prestigiando. O público sempre se renova, sempre traz alguém", conta o presidente da ONG, Júnior Parente. Em 13 de dezembro, data de aniversário de nascimento de Gonzagão, o movimento é tão grande que os moradores alugam suas casas para receber os turistas.

NA TERRA NATAL

A "Cavalgada da Saudade", às 16 horas, e a "Missa da Saudade", às 18 horas, são destaques na programação desta sexta-feira, 2 de agosto, em Exu, quando a cidade lembra os 30 anos da partida do filho mais famoso. As ações integram a terceira edição da Mostra Cultural Gonzaguiense, realizada até o próximo sábado. Na interessante programação, hoje tem exibição do filme "O menino que fez o museu", de Sérgio Utsch, com a presença do protagonista, Pedro Lucas Feitosa (veja matéria na página 5). Mais informações na página da Mostra Cultural Gonzaguiense
Como chegar
O Aeroporto Regional do Cariri (Juazeiro do Norte) recebe voos de diversas capitais, como Fortaleza e Recife. Ele é o ponto de chegada por via aérea mais próximo a Exu, distante cerca de 80 km e aproximadamente 1h15 min. Sugiro alugar carro para fazer bate-volta. Um dia é suficiente para conhecer a cidade. De ônibus, o trecho Juazeiro- Crato- Exu é feito pela Viação Pernambucana
Nas proximidades
Aproveite a visita a Exu para explorar também o Cariri cearense, com sua exuberante Chapada do Araripe e sua cultura popular. Não deixe de conhecer as cidades de Crato, Juazeiro e Barbalha.
Confira mais informações de roteiro turístico
Onde se hospedar
Em Exu, há algumas pousadas, mas se sua intenção é fazer um bate-volta, sugiro optar pela rede hoteleira disponível no Cariri cearense.
Mais informações sobre onde ficar na região Sul do Ceará 
Museu de Luiz Gonzaga
A entrada custa R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia). Endereço: Rodovia Asa Branca, Km 38, Rodovia BR- 122 | Gonzagão Exu - Pernambuco Fone: (87) 3879-1295 Horário de visitação: de terça-feira a domingo, de 8h às 17h.
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A equipe de reportagem: Antônio Rodrigues, Toni Sousa e Laerton Xenofonte, em frente à Capela de São João Batista
FOTO: ANTÔNIO RODRIGUES

Projeto do escritor e professor cearense Gonzaga Mota doa livros para escolas públicas da Capital e do interior

Com a ação, Gonzaga Mota já circulou por 20 instituições, ora aumentando acervos, ora criando novas mini-bibliotecas

Com facilidade, a porta em que está cravada a placa "Livros de escritores cearenses" escancara-se em nova visão. Do outro lado do anteparo, o olhar mira num aconchegante espaço, onde repousam, organizadas e coloridas, obras de toda ordem. São títulos tradicionais e contemporâneos, exemplares de poesias, contos, crônicas, romances. Em comum a todos eles, o DNA nosso: possuem assinatura de cearenses. E querem ganhar mais mundos, outras trilhas.
Mantido pelo escritor e professor Gonzaga Mota, o gabinete da descrição acima é recanto de possibilidades. Desde o começo deste ano, o profissional mantém um projeto de doação de livros para escolas públicas de Fortaleza e do interior, almejando estender o raio de alcance da leitura, especialmente entre crianças e jovens. A vontade de fazer com que os volumes saltem das prateleiras e peregrinem outras estradas mantém diálogo com algo profundo: a paixão alimentada pelo idealizador do projeto junto à literatura.
Economista por formação e com passagem pela vida pública do Ceará, Gonzaga afirma que, apesar das funções técnicas as quais cumpriu durante boa parte da vida, recorria com frequência aos títulos de ficção para prosseguir o caminhar.


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Acervo de Gonzaga Mota inclui livros assinados por nomes clássicos da literatura cearense, além de obras de amigos e de autoria própria. Foto: Kid Júnior

"Sempre gostei de ler. Comecei a ensinar aos 16 anos e lia muito, primeiramente obras infanto-juvenis e depois de uma literatura mais avançada. Aprecio muito o que escreveram os franceses e os ingleses, por exemplo, e considero que somos riquíssimos em nossas letras", avalia, citando nomes como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Adélia Prado, entre outros, como inspiração diária. Criadores e criadoras de prosas e versos para fazer refletir e atuar.
Mas é quando fixa a fala em José de Alencar (1829-1877) e Rachel de Queiroz (1910-2003), dois dos grandes do nosso chão, que ele destaca o porquê de ter iniciado a ação de doar e vender livros de escritores daqui.
"Via que o autor cearense não tinha oportunidade de expor as obras. E eles me pediam para que eu as expusesse. Resolvi colocar, de início, uma livraria do escritor cearense, que, na verdade, é uma estante que hoje tem mais de 300 escritores do Ceará".
Movimento
Entre montar o espaço para acomodar os exemplares e iniciar atividades visando a difusão da literatura, Gonzaga Mota conta que o processo foi rápido. Já em 2017, realizou saraus, um concurso literário e participou de feiras. Esta última atividade, por sinal, empreende ainda hoje, e pretende retomar as demais.
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é o número aproximado de autores e autoras cearenses contemplados nas estantes de livros de Gonzaga Mota. Em franco diálogo com a tradição e a contemporaneidade, diferentes nomes integram o panorama, promovendo novas perspectivas de apreciação das letras de nosso chão
Até lá, pretende contornar o maior número possível de escolas públicas da Capital e do interior cearense deixando livros novos, e apenas novos. "É uma questão de honra minha: não doar livros velhos", salienta. Para isso, conta com a parceria de amigos e de duas editoras, em específico: Imeph e Premius.


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Atividades como saraus, concurso literário e participação em feiras devem voltar a acontecer em breve sob o comando de Gonzaga Mota. Foto: Kid Júnior

Em cálculo rápido, a quantidade de lares educacionais visitados é positiva e reflete itinerância constante. Em Fortaleza, 16 deles já receberam entrega do material; no interior, quatro escolas foram contempladas, dos municípios de Itapiúna, Eusébio e Camocim. A logística para escolha dos locais a serem visitados acontece a partir de seleção feita pelo próprio Gonzaga e/ou por meio de solicitação dos colégios.
"Então, esse é o meu trabalho. Simples, solitário, mas apaixonante. Porque eu vejo que a cultura e a educação são tudo para que se tenha um povo com melhor qualidade de vida, em que um possa respeitar o outro. Me sinto, apesar de não ter nenhuma remuneração e apoio público, com vontade imensa de sempre continuar. Até onde Deus me dê força. Porque educar é nobre", resume o escritor.
Avaliação
Cerca de 30 livros são deixados em cada instituição. O intuito, conforme Gonzaga, além de ajudar a encorpar bibliotecas já existentes ou ajudar a criar uma, é avaliar a forma como as obras estão sendo utilizadas, tendo em vista que a escolha por contemplar títulos infantojuvenis para doação tem princípio particular.
"Quando chego com os exemplares, penso que aquela semente vai germinar. Outros livros virão, outros doadores aparecerão. E creio que falta à nossa juventude, principalmente na faixa dos 7 aos 15 anos, a leitura. Hoje todo mundo sabe pegar o celular e ficar durante horas. Tudo bem, nada contra, mas não é só isso. Você tem que pegar um livro e ler, interpretar e fazer com que aquilo possa servir de subsídio".


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Paixão pelas letras traduz-se em inspirado trabalho feito pelo professor e escritor. Foto: Kid Júnior

Talvez para que se concretize um dos muitos sonhos desse semeador incansável das letras. De, a partir do mergulho nas palavras feito por pequenos e pequenas, venham novos "Alencares" e novas "Racheis". Altas vozes a reverberar talento e inspiração. "Acho que o importante é deixar um legado. Daqui a 30 anos, talvez alguém se lembre: 'Teve um cara que passou aqui, deixou meia dúzia de livros e as crianças leram. Hoje um é médico, outro é advogado, engenheiro, professor'. É a minha vida".

Serviço
Doação de livros para projeto do escritor e professor Gonzaga Mota
Interessados em doar ou solicitar obras podem se dirigir ao gabinete do profissional, localizado na Rua Beni Carvalho, 159, Sala 104, Aldeota. Contato: (85) 3224-2004. E-mail: luizgmota@yahoo.com.br

AMLEF está com perfil oficial no Instagram

A Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF) começou também a divulgar seus trabalhos na nova ferramenta do Instagram. Aproveita a oportunidade para convidar a todos (as) os (as) acadêmicos (as) desta arcádia a divulgar e compartilhar nosso perfil oficial: https://www.instagram.com/acad.amlef/

“A literatura mudou minha vida“, diz escritor amazonense Jan Santos sobre leitura na infância

Enquanto os amigos ganhavam brinquedos, Jan preferia receber livros. Em 2013, o escritor publicou seu primeiro livro “Evangeline“


“A literatura mudou minha vida“, afirmou o escritor amazonense Jan Santos em entrevista ao Portal Amazônia. Aos 25 anos, o autor já publicou três livros e revelou que sempre contou com o apoio da família para seguir a carreira no universo literário. 



Ainda na infância, Jan já se interessava em literatura juvenil, mas foi na escola que ele teve oportunidade de se aprofundar na leitura. “Lembro que tinha uma campanha de distribuição de livros, e eu sempre levava o máximo que conseguia para casa“, revelou. Enquanto os amigos ganhavam brinquedos, Jan preferia receber livros. “Meus pais viram a minha paixão por literatura, por isso, nos meus aniversários me presenteavam com diversos livros“, disse.



Mas, qual será que foi o livro que marcou a infância do escritor amazonense? “Bem, um titulo que me marcou foi o primeiro que li, entitulado “A Odisseia“, uma versão adaptada por Ruth Rocha“, declarou Jan. A parti desse momento, a vida de Jan mudou. “Passei a estudar mais sobre mito e folclore, e por causa disso, aumentar meu foco literário, conhecer novos autores e possibilidades“, contou.






 
Foto: Divulgação
 


Incentivo importante



Para Jan, o incentivo da família foi primordial para o seu futuro. Ele acredita que os pais, além de incentivar a leitura, devem também saber o que os filhos querem de fato ler. “Muitos pais acham importante que os filhos tenham acesso aos livros, mas querem regrar o tipo de conteúdo. As crianças precisam ser livres e consumir aquilo que realmente tem vontade, se ele gosta de ler quadrinhos, então, deixe“, aconselhou o escritor. 



Obras



O amor pela literatura pesou até mesmo na escolha do curso de graduação de Jan. Ele se inscreveu no curso de Letras Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Em 2013, Jan lançou seu primeiro livro ”Evangeline - Relatos de um Mundo sem luz”. Sua segunda publicação, ”A Rainha de Maio”, em parceria com a editora Lendari, aconteceu em 2016. O livro mais recente do jovem amazonense é ”O Dia em que Enterrei Miguel Arcanjo”.

Portal Amazônia

Literatura de séculos passados ajuda a compreender dilemas atuais

Beauvoir usou tragédia "Antígona" para analisar o quadro político da França na ocupação militar alemã


F. de São Paulo

Em 2003 a escritora norte-americana Susan Sontag esteve na Feira do Livro de Frankfurt para receber o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão.
No seu discurso de aceitação, Sontag fez uso da literatura para questionar antigos mitos sobre as diferenças culturais entre os Estados Unidos e a Europa, como a ideia de que os americanos seriam os representantes de um novo mundo pleno de energia e tolerância, enquanto os europeus pertenceriam a uma ordem política em declínio, caracterizada pela malícia e o desmedido apego aos velhos privilégios coloniais.
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A escritora americana Susan Sontag (1933-2004), na França - Jean-Régis Roustan - 3.nov.1972/Roger-Viollet
Tema recorrente em vários romances de Henry James, ao exemplo de "Retrato de uma Senhora" e "As Asas da Pomba", livros em que a generosidade das personagens norte-americanas é interpretada como um sinal de fraqueza pelos seus convivas europeus que enxergam na ingenuidade das suas maneiras uma oportunidade de lhes passar a perna.
No entanto, Sontag chama atenção para uma interpretação ainda mais sombria dessa diferença cultural que ela descreve como um desdobramento inconsciente da velha querela filosófica entre antigos e modernos. Ou seja, da disputa entre aqueles que se atêm à tradição e aqueles que desejam subvertê-la.
Para tanto, ela cita o britânico D.H. Lawrence em "Estudos sobre a Literatura Clássica Americana", no qual o autor vê nos Estados Unidos a formação de uma antítese ao modelo europeu, a ressaltar a impossibilidade de construirmos algo novo sem destruir o que é antigo.
Ora, diz a ensaísta: “Lawrence intuiu que a América estava em uma missão de destruição da Europa, utilizando-se da democracia —particularmente da democracia cultural e de costumes— como instrumento. E, quando esta missão estiver concluída, ele prossegue: A América pode muito bem se transformar de uma democracia para qualquer outra coisa. (O que esta coisa pode ser talvez esteja prestes a emergir.)”
O que mais chama a atenção neste discurso de Sontag é a perspicácia da autora ao diagnosticar, em um momento político nascente, as consequências que pouquíssimos dos seus contemporâneos foram capazes de antever. Ora, quem poderia prever em 2003 que nos seguintes 16 anos assistiríamos à ascensão de Donald Trump à Casa Branca, bem como o brexit e a investidura de Boris Johnson como primeiro-ministro britânico?
Quem se atreveria a dizer naquela época que o multiculturalismo estava em crise e que, em um futuro não muito distante, seríamos testemunhas do acirramento de posicionamentos ideológicos a alimentar suspeitas sobre Deus e o mundo, sobre a ciência e, principalmente, sobre as instituições democráticas que servem de base para a preservação das nossas liberdades individuais.
Como bem disse o escritor Howard Jacobson em sua mais recente participação no programa A Point of Viewda BBC Radio 4, quem poderia imaginar que viveríamos um período de tribalização da retórica política e da linguagem cotidiana, a impedir cada vez mais qualquer chance de mediação entre pontos de vista distintos?
Embora o descompasso moral da esquerda progressista e a ascensão dos novos conservadores cause perplexidade, tal situação encontra diversos precedentes históricos. Podemos nos valer da literatura dos séculos passados para compreender um pouco mais dos dilemas da nossa época. Ressalta Sontag no seu discurso de premiação: “Uma das funções da literatura —daquela literatura importante ou necessária é profética.”
Assim, não causa surpresa que a escritora e filósofa existencialista Simone de Beauvoir tenha-se utilizado da antiga tragédia "Antígona" para analisar o complexo quadro político da França em consequência da ocupação militar alemã. Ou que hoje possamos remontar tanto à criação de Sófocles como à leitura de Beauvoir para refletir sobre como devemos nos conduzir com discernimento ante os desafios morais impostos pelo momento político.
Em um ensaio de 1945, "Idealismo Moral e Realismo Político", Beauvoir observa que as personagens principais da trama de Sófocles representariam as atitudes políticas dos seus contemporâneos franceses.
Alguns —ao exemplo dos pacifistas— imbuídos de um espírito puramente idealista, caracterizado por sentimentos de impotência diante da necessidade de se tomar decisões urgentes e muitas vezes contrárias às suas expectativas morais. Outros, instigados por um realismo grotesco, seja a rechaçar a demanda de grupos menos favorecidos por transformações sociais, seja a justificar os exageros da violência revolucionária, como os membros da elite conservadora e do Partido Comunista.
Posto isto, diz Beauvoir: “Antígona" é o protótipo daqueles moralistas intransigentes que, ao desprezarem os bens terrenos, proclamam a necessidade de certos princípios eternos; insistindo a todo custo em manter a pureza das suas consciências, mesmo que ao preço de suas próprias vidas ou de vidas alheias.
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A atriz Andrea Beltrão em cena do espetáculo "Antigona", em Curitiba - Lenise Pinheiro - 5.abr.2017/Folhapress
Creonte encarna o realista político apenas preocupado com os interesses do Estado e pronto para defendê-los por todos os meios possíveis. Este conflito permanece vivo durante toda a história, com nenhum dos lados a conseguir convencer o outro da validade dos seus princípios: cada lado feito refém do seu próprio sistema de valores, em nome do qual se rejeita o do adversário.”
Nestes primeiros sete meses de governo Bolsonaro, bem como nos três anos que se sucederam à guinada direitista das políticas inglesa e norte-americana, não faltou quem protestasse pela tomada de lado de amigos e familiares, transformando o convívio social em um verdadeiro campo de guerra.
A justiça e a retidão moral nele deveriam estar condicionadas por uma fé inabalável naquilo em que cada lado, em disputa por validação e poder, acredita representar os imutáveis valores de uma civilização, a necessidade histórica ou até mesmo o futuro de uma ideia.
Pergunto-me até que ponto esse tipo de convocatória contribui para o emprego da crítica e do bom senso entre os participantes de uma disputa. Ao compor o prólogo para a sua versão de "Antígona", Millôr Fernandes adverte que nada é mais difícil para o homem do que escolher o lado em que lutar. No entanto, o que eu observo desta trama é que devemos combater a ingenuidade dos nossos impulsos políticos.
Segundo Beauvoir, tanto o idealismo de Antígona como o realismo de Creonte são problemáticos. Afinal, nenhuma dessas personagens parece levar em consideração que, ao afirmarem determinados valores, cada uma das suas ações podem causar alguma espécie de dano irreversível ao próximo. Ora, para evitarmos uma tragédia não basta tomarmos partido, fazendo-nos cada vez mais necessário aprendermos a atuar com lucidez e responsabilidade.
Em vista disto, adverte a filósofa: “A ética não é uma coleção pronta de valores e princípios. Sim, o constante movimento a partir do qual esses valores e princípios são postulados; o movimento que o homem autenticamente moral deve reproduzir para si mesmo."
Juliana de Albuquerque
Escritora, doutoranda em filosofia e literatura alemã pela University College Cork e mestre em filosofia pela Universidade de Tel Aviv.
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