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28 de novembro de 2010

DISCURSO DE JÚNIOR BONFIM NA SOLENIDADE DE POSSE DE NOVOS ACADÊMICOS DA AMLEF



AUTORIDADES QUE COMPÕEM A MESA,
SENHORAS E SENHORES:

BOA NOITE!

Gerardo Mello Mourão, o maior vate que o ardente e telúrico barro cearense produziu, quando veio a Fortaleza receber o prêmio Sereia de Ouro, na sagração da primavera de 1996, confessou que falar em nome dos demais contemplados era “uma honra, um perigoso privilégio”.

Instado a fazer a louvação de estilo aos recipiendários, eu, desafinado versejador da mata ciliar do Rio Poty e ocupante, nesta Arcádia, da cadeira que homenageia o fundador do País dos Mourões, sinto-me igualmente com aquela sensação de ventura e aventura, de fortuna e risco produzidos pela emoção militante.

Porém, hoje é a noite da completude da nossa Academia. Cinco novos amantes das letras se incorporam ao nosso grêmio para celebrarmos o preenchimento de todos os seus quarenta lugares. E a magnitude deste momento sobrepuja qualquer fragilidade verbal ou percalço emocional da minha parte.

Por isso, principio pedindo vênia para açoitar o protocolo e, ao invés de um tapete vermelho, pedir para estender aqui um invisível tapete azul. Azul, sim! Porque azul é o sangue desse nobre que se agrega às nossas fileiras. Talhado para as grandezas, desde a tenra idade teve a veia instilada pelo vírus da genialidade. Aos 17 anos já reluzia nos Estados Unidos da América recebendo o título de BEST ACADEMIC STUDENT. Com dezoito janeiros foi intérprete da Comitiva Papal de Sua Santidade João Paulo II no Brasil. Com vinte e dois anos foi aprovado em seleção de mestrado na UFC e, aos vinte e sete, por concurso, virava Procurador de Justiça. Foi meu professor no curso de Direito. Lembro-me de suas primorosas aulas na disciplina de processo civil. Em uma delas discorreu com tranqüilidade sobre o instituto do litisconsórcio. É com indizível alegria que o recebo para, neste organismo de jurisdição voluntária, nos consorciarmos sem lide. Em voz alta anuncio solenemente o nome do poeta FERNANDO ANTONIO TEIXEIRA TÁVORA, que ocupará a cadeira de número 02, abençoada por Hermes Vieira.

Há alguns meses o confrade Seridião Montenegro me presenteou com um romance. Disse: - Bonfim, a autora é minha candidata a uma cadeira na AMLEF. Assenti no escuro, pois sei do zelo desse meu claro companheiro. Acertou em cheio. O livro, batizado de ANJO CAÍDO, nos sacode com a história de Maria, jovem de alma marcada pelas feridas da exploração sexual. É uma das obras de uma romancista que escolheu o ofício de promover a justiça. Rosto angelical, alma generosa, coração em festa, límpida fronte. Mãe e mestra, pisa neste tablado com seu andar libertário. Na qualidade de custus legis, fiscal da cidadania feita ternura, vem aqui para nos cobrar obediência aos Estatutos que mais importam, aqueles que o caudaloso poeta Thiago inscreveu na madeira de lei da Amazônia e que em seu último artigo assevera:

Fica proibido o uso da palavra liberdade,/ a qual será suprimida dos dicionários/ e do pântano enganoso das bocas./ A partir deste instante/ a liberdade será algo vivo e transparente/ como um fogo ou um rio,/ e a sua morada será sempre/ o coração do homem.

Na cadeira de número 3, que tem por padroeiro Senador Pompeu, sentará a doutora GRECIANNY CARVALHO CORDEIRO.


Quem me abriu o coração ao sol da vida e me ensinou a mirar o mundo com outros olhos foi Antonio Batista Fragoso, o profético bispo de Crateús nas décadas de 60, 70 e 80. Errante adolescente, com ele descobri as raízes do mal, a engrenagem que gera a injustiça, o sonho de transformação, a festa do mundo, o pão da poesia! Desde então, passei a admirar os defensores das nobres causas. Na segunda metade da década de 1980, em um púlpito da arena política no centro de Fortaleza divisei certa manhã o terceiro daqueles que recepcionamos nesta noite memorável. Impossível olvidar a oratória inflamada, a postura destemida e a intimidade com a ousadia que sempre caracterizaram esse paraibano cearense. Polivalente, bacharelou-se em ciências jurídicas, fez-se mestre, doutor e cientista na área da odontologia. Poliédrico, incursiona pelas pedrinhas de brilhantes da crônica, pela ribalta azul da dramaturgia e pelas veredas mágicas da poesia. Poliglota, passeia com desenvoltura pelo inglês, francês, espanhol e alemão. Entre nós, MARCOS JOSÉ FERNANDES DE OLIVEIRA zelará pela cadeira 25, sob a proteção de Otacílio Azevedo.


O quarto que se perfila em nosso pavimento mosaico nasceu embalado pela brisa do Coreaú, na heráldica Granja. Depois de profícua trajetória na iniciativa privada, ocupando as mais diversas fainas de ordenação e coordenação, entregou-se ao empreendedorismo esotérico. Livre e de bons costumes, foi pedreiro, mestre de obra e arquiteto no imorredouro processo de construção do edifício social da humanidade. Sentará na cadeira que pertenceu ao nosso irmão José Muniz Brandão, substância do bem, mineral cachoeira de doação. Embora ejetado precocemente do nosso convívio, Muniz permanece em nossa memória com sua silhueta de gentleman. É por isso que o assento de número 19, cujo patrono é Joarivar Macedo, será ocupado por um homem que também subiu com formalidade cada degrau da escada de Jacó, que lapidou corações petrificados pela insensibilidade. Líder espiritual de milhares de pedreiros-livres espalhados por todo o território cearense, Sereníssimo Grão Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará, ETEVALDO BARCELOS FONTENELE.


Ruy Barbosa lecionou que “a fronte do sacerdote se verga para o cálice consagrado. A do lavrador para a terra. A do que espalha o grão da verdade para o sulco soaberto nas consciências novas. E todos três receberam ordens sacras. Todos concorrem para a fecundação divina do Universo. A hóstia, o arado, a palavra correspondem aos três sacerdócios do Senhor. Mas a suprema santificação da linguagem humana, abaixo da prece, está no ensino da mocidade”. Abraçou o nosso quinto neófito esta excelsa tarefa. Médico de almas, articulista iluminado, conferencista consagrado nacionalmente, semeador de fonemas de indulgência, tem feito da palavra escrita e falada instrumento sagrado em favor da dilatação da fraternidade. Publicou onze livros cheios de sílabas poderosas. Fundou e preside o Instituto de Cultura Espírita do Ceará e a Associação Médico-Espírita Alencarina. Por conta de uma dessas confluências místicas que só a retina da alma enxerga sucederá, neste Sodalício, outro timoneiro da doutrina espírita: Mário Kaula. Segundo o confrade Paulo Eduardo, Kaula era o mais humanista dos Amlefianos. Por isso, para sucedê-lo só outro trabalhador igualmente altruísta, admirado e querido na messe kardecista: FRANCISCO DE ASSIS CARVALHO CAJAZEIRAS. Protegerá a cadeira 16, que tem Inês Kaula como patronesse.

Portanto, adentrai todos.

Vinde, Fernando e Grecianny, assinar o decreto irrevogável que, ao gosto do cantor amazonense, estabelecerá o reinado permanente da justiça e da claridade, fazendo da alegria uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Vinde, Marcos, proclamar a atualidade da arte de Demóstenes e nos ensinar a fórmula da eterna juventude.

Vinde, Etevaldo, ceder aos movimentos dos corações sensíveis e subir ao altar dos juramentos à cultura.

Vinde, Cajazeiras, brindar-nos com vossos conselhos evolutivos e reafirmar o valor terapêutico do perdão.

Aqui poderemos celebrar a liturgia do sonho, formar uma cadeia de união em torno da inquebrantável eletricidade da coerência e compartilhar o elixir da profunda fibra existencial.

Uma advertência final: este Palácio é de Luz! Quem aqui é iniciado só tem um compromisso: manter vivo o vaga-lume da alma e tornar mais clara a existência humana!

Obrigado!


(Discurso proferido por Júnior Bonfim no Palácio da Luz, sede da Academia Cearense de Letras, em 19.10.2010)