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Choram porque amam

Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

17 de maio de 2016

ALAÍDE, CENTENÁRIA TRAVESSIA ABENÇOADA!

Júnior Bofim*
Foto do perfil de Júnior Bonfim
Autoridades que compõem a mesa,

Parentes e Amigos,
Damas e Cavalheiros:
A todos que acorreram a este Clube de nome esplendoroso – Ideal... Ideal é o mais poderoso imã à atração do cérebro humano - meu cordial boa noite!
Este encontro de veias, celebração de consciências, delicada convenção de almas, marca o lançamento de uma obra especial, que comemora a centenária e abençoada travessia de Maria Alaíde Bomfim!
A mim me toca apresentar autor e obra. Como fazê-lo? Bem sabeis que o autor, José Maria, é rebento da obra, Alaíde Bomfim...
Principio fazendo um recuo cronológico para além do século pretérito e me fixo no ano de 1830, data em que mirou este mundo o avô da genitora de José Maria, Alexandre Ferreira Santiago, nascido na freguesia de Pelo Sinal, hoje Município de Independência. A morte dos pais, acontecimento desairoso ocorrido após o seu nascimento, fez com que o menino Alexandre fosse levado aos cuidados de uma tia, dita Bela, na Cidade de Crateús, cujo Padroeiro é o Senhor do Bonfim. Mulher forjada na via sagrada da devoção, que vivia sob a hóstia piedosa e o cálice da salvação, Bela teve um sonho bíblico e resolveu alterar o sobrenome da criança para auspiciá-la com uma existência abençoada. Em louvor ao padroeiro da cidade, o menino foi registrado Alexandre Ferreira do Bomfim.
Aureolado pela virtú e pela fortuna, Alexandre não passou despercebido pelo patamar da História. Energizado pela fé, cresceu e multiplicou. Além de militante religioso, filiado à Irmandade do Santíssimo Sacramento, foi um cidadão consagrado aos negócios de Estado. Em Crateús, à época sob o emblema da civilização do couro, destacou-se no pastoreio pecuário. Na seara pública, foi representante do povo no Legislativo e, também, Procurador da Câmara Municipal, ocasião em que projetou o Mercado da Cidade e requereu o aforamento do terreno.
(Era desses homens que, após cada parágrafo da vida, costumava considerar o melhor sinal gráfico para apor: nenhum reparo, ponto final; digno de elogio, interjeição; questionável, interrogação.)
Em 1873, como Promotor Público, ousou enfrentar o juiz local, recusando-se a votar no candidato que o magistrado lhe impunha, o que o levou a ser exonerado do cargo. À beira do Rio Poty, no silêncio do sítio Periquito, onde residia, Alexandre redigiu uma resposta ao Juiz que era, segundo o Monsenhor Bonfim, uma verdadeira Catilinária, protagonizando a primeira quizila dessa natureza, que consta nos anais do nosso Primeiro Cartório. O sítio Periquito, a Pasárgada do nosso Patriarca, hoje é o bairro Clemilândia, e sua principal artéria tem o nome de Rua Alexandre Bomfim.
É dessa nascente cristalina, é desse córrego venturoso, é dessa fonte de virtuoses, é dessa Pátria Alexandrina que provém Maria Alaíde Bomfim e, por consequência telúrica e consanguínea, José Maria Bomfim de Morais.
(A consorte de Felipe Morais não é centenária apenas na idade. O Joatan Bonfim me dizia agora há pouco que ela conta 106 primos pelo lado paterno e 88 pelo lado materno.)
Dona Alaíde é uma dama nascida para perfumar o mundo com as essências latinas “mater et magister”: mãe e mestra. Ou, como Zacharias Bezerra nomeou, “mestra de mestras”. Dela – “mulher miúda, de riso belo e farto e de capacidade de empilhar lembranças, de plantar sementes de amizade, de ser fonte lírica de saudade, mestre ainda quase adolescente, que começou cedo a sua luta pela vida como professora primária” – o filho José Maria diz quase tudo.
As epopeias que enfeitam os cânones da literatura universal nasceram, via de regra, do pedido de nobres. Virgílio foi instado pelo imperador Augusto a compor um poema épico que cantasse a glória e o poder do Império Romano. Nasceu Eneida. O brilho da coroa de D. Sebastião motivou Camões a laborar Os Lusíadas, uma avalanche marítima das ‘memórias gloriosas daqueles Reis, que foram dilatando a Fé, o Império, e as terras viciosas, tudo sob o pálio do engenho e arte que, cantando, espalhou por toda parte’.
O livro que hoje vos apresento, senhoras e senhores, não atende à demanda individual de um potentado palaciano, mas foi motivado pelo mais nobiliárquico dos sentimentos, aquele que irrompe do âmago mais profundo da palpitação vital, a iluminada gruta da consciência, cujas paredes repousam no magnífico lençol freático da alma e se espalham pela várzea formosa do coração.
Zé Maria canta, neste pergaminho de emoção, a excelência do verdadeiro amor filial, verifica a caminhada secular da sua genitora, expõe uma serena reflexão sobre atos e atores.
Varão de fé, discípulo da esperança e devoto da caridade, examina os fatos dos últimos cem anos sob as lâmpadas de led das virtudes teologais. Cumpre não apenas o mandamento sagrado de honrar pai e mãe, mas também de espalhar as sementes verdadeiras do Reino do Amor. Gratifica-nos com Cânticos de exaltação aos seus ascendentes ao mesmo tempo em que acende a lanterna da reflexão sobre os princípios fundamentais, os valores permanentes, as causas essenciais.
Mais relevante se torna esse linho escritural em momentos delicados como o que ora vivenciamos: um desassossego civilizacional, um grave fenômeno corrosivo, um desgaste generalizado que atinge praticamente todas as lideranças nacionais. Nessa penumbra angustiante, sentimos falta de homens e mulheres de têmpera, passados nas moendas da retidão e da decência. O autor, a partir do próprio Clã, os resgata e lança às luzes da ribalta, provando-nos que “o ideal que sempre nos acalentou pode renascer em outros corações”.
José Maria conseguiu nos brindar com uma cordilheira de vulcões em permanente erupção, ejetando larvas de envolvente emoção. Mergulha nas profundas raízes do indispensável chão, aponta a primavera do amor e o curso da história, as sementeiras de luzes e as grandes amizades, o espelho vazio e a cachoeirinha saudosa, os desalentos e momentos felizes, a litania de uma vida bem vivida.
Bem colocou Juarez Leitão: “Este livro – ALAÍDE, UMA CENTENÁRIA TRAVESSIA ABENÇOADA – muito mais que uma biografia com contexto histórico, é uma oração, um salmo em prosa poética, uma epístola de amor aos crateuenses”.
Certa feita, em um encontro em Londres, Brancusi perguntou a Pound o que buscava o Poeta em seu trabalho. Ele respondeu: - busca a Beleza, trabalha a Beleza.
O labor fonético de José Maria é manufatura de Beleza. E isso é a mais pura Poesia.
Gerardo Mello Mourão, o Ipueirense que Carlos Drummond de Andrade batizou de o grande poeta do Brasil, também descendente de um Alexandre, fincou as balizas invisíveis de um território que batizou de O País dos Mourões. José Maria, cronista-mor, escriba superior, habilmente opta por outro caminho. Não ergue um País, congrega uma Pátria. País é diferente de Pátria. País é coletividade reunida pela delimitação geográfica. Pátria é entrelaçamento afetivo. Este livro é um emaranhado de algemas, uma sucessão de laços, um punhado de correntes que nos prendem às deusas da Liberdade e da Beleza!
*Advogado e ex-presidente da Academia Metropolitana de Fortaleza

O EVANGELHO DA CRIAÇÃO

domtotal.com
O termo criação não exprime uma simples constatação empírica e objetiva da existência.
A terra é de Deus, portanto. Eis a motivação primordial da responsabilidade do ser humano para com a natureza.
A terra é de Deus, portanto. Eis a motivação primordial da responsabilidade do ser humano para com a natureza.

Por Frei Sinivaldo Silva Tavares*

Sugestivo o título dado pelo papa Francisco ao segundo capítulo da Laudato Si’.  Sugestivo e, sobretudo, coerente com as reflexões feitas por ele no decorrer da encíclica. Dizer “evangelho” da criação significa, em primeiro lugar, salientar a peculiaridade da experiência cristã expressa no termo “criação”. De fato, falar em criação é compreender cada criatura e o conjunto das criaturas no bojo de uma relação primordial com seu Criador, concebido como origem e plenitude de toda vida. A rigor, só se pode falar com sentido em criação, pressupondo uma relação prévia entre criador e criatura(s). Poderíamos não existir e, no entanto, existimos. Poderíamos, ademais, existir de outras formas e em circunstâncias diversas. Todavia, existimos assim como somos e existimos aqui e agora. Não há, portanto, explicações cabais que justificam a existência enquanto tal. Por esta razão, o termo criação não exprime uma simples constatação empírica e objetiva da existência. Nem, por outro lado, constitui uma explicação que dê conta das razões necessárias do fato de existirmos. Para todos os efeitos, o termo criação remete ao sentido que pessoas e comunidades cristãs deram à própria existência e à vida em geral: dom gratuito, fruto da imensa generosidade de um Criador que, ademais, se nos revela como Pai de bondade. Como afirma o papa: “Então cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo” (n. 77).

Daí a razão de o papa conceber a experiência cristã da criação como um autêntico “evangelho”. E em se tratando de “evangelho”, isso implica no fato de que a experiência de termos sido criados será narrada e proposta, nunca imposta. Por isso a decisão de se inserir esse capítulo no corpo da encíclica que constitui um apelo dirigido à inteira civilização planetária. Não se trata, portanto, de uma explicação ou de uma teoria que o papa quer oferecer como sendo a única ou a melhor visão do universo. Trata-se, na verdade, da contribuição específica, peculiar, que as comunidades cristãs oferecem ao riquíssimo diálogo em curso no seio da sociedade plural. A melhor maneira de se inserir nesse amplo debate é partilhar a própria experiência e visão com o intuito de simplesmente contribuir a esse diálogo plural na busca de alternativas que nos permitam desvencilhar desse emaranhado existencial, social e cósmico no qual estamos enredados.

Embora o papa diga explicitamente não querer elaborar uma teologia da criação propriamente dita, ele rememora dimensões imprescindíveis da visão cristã da criação. Num primeiro momento, ele recorda “a sabedoria das narrações bíblicas” (nn. 65-75).

Reconhece que, graças a uma interpretação incorreta das Escrituras sagradas, a tradição judaico-cristã tornou-se objeto de “uma acusação” de que Gn 1,28 “favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como denominador e devastador” (n. 67).  Propõe uma “justa hermenêutica” do texto bíblico no sentido de interpretar o texto no seu contexto próprio e, no caso específico, interpretar a primeira narrativa da criação (cf. Gn 1,1 – 2,4a) em sua intrínseca e recíproca relação com a segunda (cf. Gn 2,4b-25). Pois segundo escreve o papa: “É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cf. Gn 2,15). Enquanto “cultivar” quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, “guardar” significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza” (n. 67).

A terra é de Deus, portanto. Eis a motivação primordial da responsabilidade do ser humano para com a natureza. Essa é a incumbência específica do ser humano, tornando-se, ao fim e ao cabo, o sentido de sua singularidade no conjunto das criaturas. Pressuposta essa responsabilidade do ser humano para com a complexidade da criação, o papa Francisco rechaça de forma contundente o antropocentrismo moderno, caracterizando-o como “despótico” por fazer um “uso desordenado das coisas” (nn. 68-69). São veementes as palavras do papa, a este propósito: “Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada” (n. 67). E ainda: “Esta responsabilidade perante uma terra que é de Deus implica que o ser humano, dotado de inteligência, respeite as leis da natureza e os delicados equilíbrios entre os seres deste mundo” (n. 68).

O papa prossegue sua revisitação dos textos bíblicos oferecendo-nos uma releitura das narrativas simbólicas das origens (cf. Gn 1-11). Lembra-nos que o pecado se configura a partir da ruptura daquela relação primordial e constitutiva dos seres humanos: para com o Criador, para com seus semelhantes e para com o conjunto da criação. Mas, recorda-nos que a história da salvação não termina com o pecado. Somos filhos da promessa e a imagem do arco-íris se torna o perene símbolo do desígnio do Criador de jamais destruir a obra de Suas mãos. Dos textos jurídicos, o papa salienta o preceito do Shabbath como um expediente excogitado para garantir o direito à vida aos pobres, à vida da terra e do conjunto de suas criaturas. Nos escritos proféticos, o papa individua a conjugação do senhorio de Deus com seu carinho e cuidado para com todas as criaturas. E, por fim, nos escritos sapienciais ele salienta o convite à admiração, ao reconhecimento e ao louvor agradecidos.

Conceber a complexidade de tudo quanto existe como criação implica, ademais, em reconhecer a índole intrisecamente mistérica da inteira realidade criada. Nesse sentido as criaturas existem não como mera extensão da divindade criadora. Nem constituem, por outro verso, seres decaídos de uma condição anterior mais nobre. Nós e as criaturas todas existimos como fruto de uma decisão livre e amorosa de um Deus que é criador e Pai, como reza o primeiro artigo do nosso Símbolo de fé. Fomos criados, mediante a livre decisão divina e, portanto, criados livres. Afirma-se, nesse caso, a legítima autonomia e dignidade não apenas dos seres humanos, mas também das realidades históricas e cósmicas. A autonomia e a contingência de nossa existência se constituem assim na condição de possibilidade de nos relacionarmos com o Criador de forma livre. Liberdade e autonomia são condições imprescindíveis para toda e qualquer relação de amor. Só quem é livre e autônomo pode decidir-se, de fato, pelo amor, amando e deixando-se amar.

Portanto, somente enquanto pressuposta a autonomia das realidades criadas, é que podemos falar do mistério que habita a interioridade da matéria, das criaturas todas e de cada uma delas, em particular. O papa insiste muito nessa dimensão mistérica da criação, pois convencido está de que a consciência dessa dimensão talvez produza no ser humano contemporâneo uma mudança de atitude e de mentalidade. A consciência da dimensão mistérica da natureza poderá levar o ser humano a abandonar sua atitude instrumental e consumista para com as criaturas.

Vivemos, hoje, sob a hegemonia do paradigma da Tecnociência e do Mercado. Ambos, Mercado e Tecnociência, constituem autênticos horizontes no interior dos quais se desvelam praticamente todos os âmbitos da experiência humana. A Tecnociência tornou-se horizonte de compreensão do ser humano em relação ao mundo e a si próprio. Não apenas nossos estilos de vida, nosso modo de trabalhar e viver, são condicionados pela técnica, mas também nossa identidade mais profunda é dada pela diferença técnica. Somos ainda vítimas da “absolutização do Mercado”: uma autêntica mercantilização da vida. O mercado vai se impondo como único cenário de nossa trama civilizacional atual. Nossos fluxos vitais e também os valores e símbolos culturais se tornam mercadoria de consumo e de descarte. Portanto, podemos falar de processos em curso descritos como “mercantilização” e “tecnificação” da vida. Ambos os processos revelam aquela situação descrita pelo papa de que a Tecnociência submete a si a economia que, por sua vez, torna a política refém. Escreve ele: “Quando se propõe uma visão da natureza unicamente como objeto de lucro e interesse, isso comporta graves consequências também para a sociedade” (n. 82).

É a presença misteriosa do Criador na interioridade de suas criaturas por meio de Seu Espírito vivificador que recobra em nós a esperança mais genuína. Aquela singular esperança que brota dos escombros sombrios do sofrimento e da morte. Por isso tem sentido falar em “dores de parto”, em “tirar bem de um mal”, no sentido de forcejar a emergência das potencialidades internas e escondidas que propiciam o aparecer do novo. 

* Sinivaldo S. Tavares, OFM é doutor em Teologia Sistemática pela Pontificia Università Antonianum, Roma. Durante treze anos, professor de Teologia Fundamental e de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia do Instituto Teológico Franciscano, Petrópolis. Desde 2012, professor de Teologia sistemática na FAJE e no ISTA, Belo Horizonte. Entre suas recentes obras, publicadas pela Editora Vozes, estão: Evangelização em diálogo: novos cenários a partir do paradigma ecológico; Evangelização e Interculturalidade; Teologia da Criação: outro olhar – novas relações; Trindade e Criação. Em 2016, organizou com A. Murad, o livro: Cuidar da casa comum: chaves de leitura teológicas e pastorais da Laudato Si’, publicado por Edições Paulinas. Tem publicado ainda estudos em obras coletivas e artigos em revistas teológicas especializadas.

A MÍDIA E DONALD TRUMP

Ilustração de Marguerita Bornstein
Ilustração de Marguerita Bornstein
Por Lev Chaim*
Foi a mídia quem fez Donald Trump popular? Uma interessante pergunta, sem dúvida, mas foram duas as respostas, aparentemente antagônicas, publicadas na revista holandesa 360, numa mesma página: sim e não. O ‘sim’ foi do colunista do jornal The New York Times, Nicholas Kristof, vencedor de dois prêmios de imprensa Pullitzer. O ‘não’ foi de uma outra estrela do jornalismo norte-americano, também vencedor do prêmio Pullitzer, Eugene Robinson, do jornal The Washington Post.
O primeiro colunista lembrou que a mídia colocou Trump muitas vezes no ar, sem se incomodar com perguntas críticas e ligadas aos fatos reais, deixando-o solto com suas micagens, como se ele fosse um palhaço e com um roteiro próprio. E segundo ainda Kristof, esta mesma mídia, a primeira vista, não o levou a sério e achou que todos fariam o mesmo. Suas palavras: “Falamos muito com senadores e governantes, mas nos esquecemos totalmente de olhar para a população desempregada e insatisfeita do país, que viu em Trump a sua revanche para se vingar do status quo.
Já o colunista do The Washington Post, Eugene Robinson, pensa que a mídia é um meio de comunicação que procura tirar o melhor proveito de tudo, inclusive das apresentações do candidato Donald Trump. Ele acha que se a grande maioria dos Republicanos não o tivesse aceito desde o início, ele já teria desistido de sua campanha. Ele acredita que jogar a culpa na mídia é negar o grande eleitorado carente que o está apoiando, como se Trump fosse uma tábua de salvação e, com isto, o fizeram grande.
Dois brilhantes colunistas, de dois dos mais importantes jornais dos Estados Unidos. Mas analisando os fatos com calma, pode-se dizer que, de uma certa forma, os dois têm razão. Trump foi feito pela grande pela mídia que não o soube manejar e nem foi crítica, como, por exemplo, mostrar os insucessos empresariais deste homem de negócios que gosta de alardear o fato de ser bilionário. Como também acredito que o colunista do The Washington Post tem razão quando ele lembrou a desunião inicial do partido Republicano quanto a candidatura de Trump.
Portanto, com essas duas colunas, lado a lado, pode-se constatar que houve falhas de muitos lados, pegos de surpresa pelo tipo de campanha feita por Trump, onde ele fala os maiores descalabros e vende uma imagem falsa aos descontentes da sociedade norte-americana: a de ser um pássaro livre que não depende de ninguém para chegar à presidência, nem mesmo de seus companheiros de partido. Resta agora aos colunistas, jornalistas, à mídia e todos os republicanos, unidos, acharem uma fórmula para desmistificar essa imagem que Trump construiu, sem pensar seriamente no futuro político de seu país, tal qual espelha muito bem a ilustração de Marguerita Bornstein, ao desenhar Trump enchendo um balão de ar, nada mais. 
O resto ficará para a candidata democrata, Hillary Clinton, para acabar de vez com as pretensões deste bilionário megalomaníaco, que não tem a mínima ideia do que seja a vida política em Washington. Hillary, ainda desafiada nas primárias pelo colega da esquerda democrata, Ben Sanders, no final, estará agora muito mais apta para olhar melhor os mais fracos da sociedade norte-americana, após vencer definitivamente a nomeação de seu partido Democrata à presidência.
*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

O VAZIO DA CPLP

A Comunidade é exemplo de como uma boa ideia pode transformar-se em coisa nenhuma.
Nestes 20 anos, o que assistimos foi Portugal tentar, sem conseguir, ter alguma influência nos outros.
Nestes 20 anos, o que assistimos foi Portugal tentar, sem conseguir, ter alguma influência nos outros.
Por José Couto Nogueira*
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi fundada em 1996 com um objetivo estatutário bastante indefinido: “Aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre os seus membros”. Certamente que os participantes – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe – tinham expectativas diferentes, mas não incompatíveis, desta associação de ricos e pobres, grandes e pequenos, unidos apenas pela origem colonial portuguesa e o idioma oficial. (Timor Leste aderiu ao adquirir a independência da Indonésia, em 2002).
Esta diferença de expectativas poderia ser compensada procurando vantagens comuns, mas logo de início a falta de energia e objetivos da diplomacia portuguesa, tradicionalmente fraca, desconexa e pouco atreita a modernidades, esvaziou o projeto de um fio condutor indispensável. O que se pretendia? Ativar as trocas comerciais? Difundir o idioma? Criar um bloco de interesses econômicos e diplomáticos? Nos discursos, empolados com belas frases pescadas no arsenal diplomático, falava-se de tudo isto e muito mais; na prática, a primeira preocupação foi criar magníficos cabides de emprego para diplomatas em fim de carreira, desejosos de manter suas prerrogativas e salários internacionais.
Portugal tinha um dever a cumprir – manter o idioma e a cultura por esse idioma - e uma vantagem – servir de ponte comercial e diplomática entre a União Europeia e países doutros continentes, alguns deles mercados interessantes. Mas manter o idioma ficou a cargo de uma instituição sem verba e sem energia, o Instituto Camões, tutelado simultaneamente pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores) e da Educação. As duas tutelas nunca se entenderam e os países africanos da CPLP, interessados na língua como fator de união entre tribos com dialetos diferentes, fizeram mais – mas muito pouco – do que o Instituto para esse objetivo. A título de exemplo, caricato, o Instituto poderia utilizar os livros excedentes dos editores portugueses para fomentar a língua em países com falta de verbas e obras para imprimir literatura e mesmo livros técnicos; mas o sistema fiscal português torna oneroso para os editores fazer doações, saindo-lhes mais em conta destruir os livros. Quanto a cursos de português nesses países, o Camões não tem verba para manter um corpo de professores. Atualmente, o maior centro de ensino da língua portuguesa no mundo está... na China.
A questão não se coloca para o Brasil, evidentemente, que tem uma produção livreira até superior à portuguesa e um ensino que, pesem os seus problemas, é muito superior ao indigente sistema dos outros PALOP. Mas o Brasil é uma exceção na organização, por várias razões: é de muito longe o maior potentado internacional, e os seus interesses na organização limitam-se a um setor: aumentar as exportações e a influência econômica nas nações africanas e asiática onde tudo falta, e que até têm climas tropicais muito adequados para a produção industrial brasileira. Numa troca entre o Brasil e, digamos, São Tomé e Príncipe, é evidente a diferença da massa critica dos dois países e só a cordialidade diplomática permite que se tratem de igual para igual.
Quanto a Guiné, Moçambique, etc., países terceiro mundistas com enormes dificuldades básicas, a única coisa que esperam da CPLP é algum tipo de ajuda generosa, em nome de uma solidariedade pós-colonial.
Nestes vinte anos, o que assistimos foi Portugal a tentar, sem conseguir, ter alguma influência nos outros – e não consegue porque não tem meios nem estratégias para tal, desbaratando a ponte UE-África-América do Sul que lhe poderia trazer vantagens. E assistimos ao Brasil a exportar o que pode dos seus equipamentos tropicalizados para os africanos, sem lhes dar quaisquer concessões ou vantagens especiais. Apenas durante o Governo Dilma o país investiu nas infra-estruturas angolanas e moçambicanas, dominadas por cleptocracias que são as únicas beneficiárias das trocas.
Mas a machada final deste castelo de cartas e espelhos foi a entrada da Guiné Equatorial, em 2007. O país, além de dominado pela ditadura mais antiga do mundo, nem sequer fala português. A sua adesão foi comprada com alguns investimentos em Portugal, nomeadamente o entretanto falido banco Banif – assim como o ditador, Teodoro Obiang, investiu nas escolas de samba do Rio para conseguir a anuência brasileira. Se a CPLP era uma instituição vácua antes, com a entrada dum pais que nada tem a ver com os objetivos da organização, comprada a peso de ouro, tornou-se uma organização ridícula. Na cerimónia de entrada da Guiné Equatorial, que ocorreu em Timor Leste, o Presidente português foi ridicularizado pelo ditador, sem que a diplomacia lusa tomasse qualquer atitude. Obiang entrou na sala já como membro, antes da votação em que Portugal poderia ter levantado objeções – se levantaria, nunca se ficou a saber.
A sede da CPLP em Lisboa é um magnífico palácio, onde chegam em carros oficiais com motorista os diplomatas que conseguiram esse magnífico posto de representar a organização. Fazem discursos vazios, cheios de frases bombásticas, sobre uma tradição esquecida e vantagens nunca concretizadas. É isso, de fato, a CPLP.
Não admira, portanto, que ao celebrar-se os vinte anos da organização, numa cerimónia cheia de pompa e circunstância no Mosteiro da Batalha, Guilherme de Oliveira Martins, o português presidente do Centro Nacional de Cultura (um thinktank conservador) e administrador executivo da Fundação Gulbenkian, tenha afirmado que a CPLP “é uma instituição muito interessante”, mas “está claramente aquém das suas potencialidades e responsabilidades” na defesa da língua portuguesa.
“Há um campo extraordinariamente importante que tem de ser desenvolvido. Temos de trabalhar e trabalhar em conjunto”, apontou, lembrando que “Portugal é um país pequeno, com recursos mais limitados que outros porque não somos um país rico, mas com responsabilidades de grande potência”, concretamente na salvaguarda do português no mundo.
Oliveira Martins recusou-se a comentar a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP – “é uma questão controversa” – mas lembrou que, na Universidade de Pequim, na China, um dos centros mais desenvolvidos é o que se dedica às línguas ibéricas.
“Isso não acontece pelos nossos bonitos olhos. É pelos interesses econômicos. Preocupam-se tanto pelo conhecimento das línguas ibéricas porque são línguas de grande desenvolvimento no mundo.”
Oliveira Martins recordou ainda que o português “é a língua mais falada no hemisfério sul e a terceira língua europeia mais falada no mundo”: “Hoje são 250 milhões de pessoas, mas à medida que a estatística linguística progride, mais falantes se descobrem, graças sobretudo à concentração territorial na América do Sul, nomeadamente no Brasil, um caso singularíssimo”. Singular mesmo, pois o Brasil conta com 4/5 dos falantes de português.
Até ao final do século, explicou, apenas cinco línguas se vão desenvolver de forma global: mandarim, hindi, inglês, castelhano e português. “No final do século haverá pelo menos 400 milhões de falantes de português. Até 2070, o maior crescimento do português irá verificar-se na América do Sul. Entre 2070 e 2100 será em África, designadamente na linha Huambo – Benguela.
“Daí a necessidade que temos de preservar a língua. Falar bem a língua, cultivar a língua, não é questão de gramáticos, é questão de cidadãos. Porque é o modo de nos fazermos entender. É um dever.”
Antigo ministro da Educação de António Guterres (entre 1999 e 2000), Oliveira Martins sublinhou ainda que “há poucas culturas que conseguem projetar-se em todos os continentes”, como acontece com a portuguesa:
“A nossa cultura projeta-se não pela capacidade de adaptação, mas pela capacidade de ir ao encontro dos outros e receber o contributo dos outros, enriquecendo a nossa própria perspetiva, a nossa própria cultura. A nossa identidade afirma-se aberta, complexa e diversa”.
Este é o tipíco discurso que alimenta os cocktails da CPLP. O atual secretario executivo, o diplomata moçambicano Murade Isaac Murargy, é um grande especialista em falar durante horas sem nada dizer de concreto – porque de fato não há nada de concreto para falar.
Ao fim de 20 anos, a CPLP é um exemplo de como uma boa ideia pode transformar-se em coisa nenhuma – por desinteresse, incompetência e inércia. Também nestes particulares os países da CPLP têm muito em comum.
*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

O DISCERNIMENTO BUSCA A PÉROLA PRECIOSA

A consciência não pode se limitar ao reconhecimento de estar no erro ou no pecado.
Proposta de um caminho de amor, matrimônio e família que se enraíza em uma perspectiva de fé.
Proposta de um caminho de amor, matrimônio e família que se enraíza em uma perspectiva de fé.
A alegria do Evangelho que o Papa Francisco propõe oferecer à Igreja e aos fiéis como critério de discernimento não é a despreocupação do adolescente que passa a tarde apegado a um videogame, porque um colega lhe passou as tarefas, evitando-lhe o esforço de fazê-los por conta própria.
Em vez disso, é aquele sentimento de plenitude e de realização que vem da consciência de ter dado tudo, de ter executado um trecho musical no máximo das próprias possibilidades, embora isso tenha envolvido anos de esforços para continuar se exercitando.
É essa alegria que permite que a liberdade renuncie àquilo que é menos importante para alcançar o que mais importa. É a experiência, autenticamente evangélica, do "comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens, e compra essa pérola" (Mateus 13, 45-46).
Quem não conhece essa liberdade que é, ao mesmo tempo, renúncia e plenitude terá dificuldades para compreender a Amoris laetitia; mas, por outro lado, é difícil que a vida familiar não contenha ao menos algum traço dessa experiência, que será tarefa da pastoral ajudar a fazer emergir e a amadurecer.
Todo esse processo de discernimento na chave de alegria é outro modo de afirmar a centralidade da consciência: não é uma voz castradora, como faziam crer os mestres da suspeita, mas o lugar em que, como lembra o n. 222, ressoa a voz de Deus. Isso dá razão da insistência sobre a beleza da proposta de um caminho de amor, de matrimônio e de família que se enraíza em uma perspectiva de fé, mas que, ao mesmo tempo, se revela profundamente humanizante. É essa a chave que "abre a porta a uma pastoral positiva, acolhedora, que torna possível um aprofundamento gradual das exigências do Evangelho".
O guia do discernimento, assim, não pode ser senão o '' amor misericordioso" (n. 312), e a consciência das pessoas, acima de tudo, é o lugar apropriado em que ele se desenvolve, à qual "nos custa deixar espaço" (n. 37) e que, em vez disso, "deve ser mais bem incorporada na práxis da Igreja" (n. 303): os fiéis "muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas" (n. 37).
Na perspectiva que delineamos, o papel da consciência não pode se limitar ao reconhecimento de estar no erro ou no pecado: ela também pode "descobrir com certa segurança moral que essa é a doação que o próprio Deus está pedindo no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo" (n. 303).
A "aposta" do Papa Francisco é que esse caminho de discernimento, pessoal e eclesial, saberá produzir os recursos com os quais se poderá "continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais" (n. 2). Será a prática que vai mudar a teoria e, sobretudo, que vai descobrir o modo adequado de formulá-la e apresentá-la: "Não se deve jogar sobre duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica 'um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus'" (n. 122).
Justamente como a Laudato si' no n. 244, a Amoris laetitia também conclui com um convite a se pôr a caminho. Ele se dirige à Igreja, às comunidades cristãs individuais, a todas as famílias e a todos os fiéis, em qualquer situação de vida que se encontrem. É a vocação original de Abraão e Sara, que transformou a sua história de casal, em muitos aspectos, já no fim da linha, em bênção para todas as famílias e as gerações, não sem uma série de viradas e reviravoltas, e uma certa dose de ambiguidade e contradições.
Como eles, ao longo desse caminho, também nós somos sustentados pela certeza de que "aquilo que nos é prometido é sempre mais" (n. 325). A tensão ao cumprimento escatológico dessa promessa abre o espaço dos percursos de crescimento e de desenvolvimento da nossa humanidade e das nossas famílias, e, ao mesmo tempo, torna magnânimo o nosso olhar.
É difícil encontrar palavras melhores para dizer isso do que as usadas pelo Papa Francisco, ainda no n. 325: "Contemplar a plenitude que ainda não alcançamos permite-nos também relativizar o percurso histórico que estamos fazendo como família, para deixar de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo. Além disso, impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade. Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver nesse estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar!".

Revista Aggiornamenti Sociali
*Giacomo Costa, jesuíta, presidente da Fundação Cultural San Fedele e diretor da revista Aggiornamenti Sociali.

O DISCERNIMENTO BUSCA A PÉROLA PRECIOSA

A consciência não pode se limitar ao reconhecimento de estar no erro ou no pecado.
Proposta de um caminho de amor, matrimônio e família que se enraíza em uma perspectiva de fé.
Proposta de um caminho de amor, matrimônio e família que se enraíza em uma perspectiva de fé.
A alegria do Evangelho que o Papa Francisco propõe oferecer à Igreja e aos fiéis como critério de discernimento não é a despreocupação do adolescente que passa a tarde apegado a um videogame, porque um colega lhe passou as tarefas, evitando-lhe o esforço de fazê-los por conta própria.
Em vez disso, é aquele sentimento de plenitude e de realização que vem da consciência de ter dado tudo, de ter executado um trecho musical no máximo das próprias possibilidades, embora isso tenha envolvido anos de esforços para continuar se exercitando.
É essa alegria que permite que a liberdade renuncie àquilo que é menos importante para alcançar o que mais importa. É a experiência, autenticamente evangélica, do "comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens, e compra essa pérola" (Mateus 13, 45-46).
Quem não conhece essa liberdade que é, ao mesmo tempo, renúncia e plenitude terá dificuldades para compreender a Amoris laetitia; mas, por outro lado, é difícil que a vida familiar não contenha ao menos algum traço dessa experiência, que será tarefa da pastoral ajudar a fazer emergir e a amadurecer.
Todo esse processo de discernimento na chave de alegria é outro modo de afirmar a centralidade da consciência: não é uma voz castradora, como faziam crer os mestres da suspeita, mas o lugar em que, como lembra o n. 222, ressoa a voz de Deus. Isso dá razão da insistência sobre a beleza da proposta de um caminho de amor, de matrimônio e de família que se enraíza em uma perspectiva de fé, mas que, ao mesmo tempo, se revela profundamente humanizante. É essa a chave que "abre a porta a uma pastoral positiva, acolhedora, que torna possível um aprofundamento gradual das exigências do Evangelho".
O guia do discernimento, assim, não pode ser senão o '' amor misericordioso" (n. 312), e a consciência das pessoas, acima de tudo, é o lugar apropriado em que ele se desenvolve, à qual "nos custa deixar espaço" (n. 37) e que, em vez disso, "deve ser mais bem incorporada na práxis da Igreja" (n. 303): os fiéis "muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas" (n. 37).
Na perspectiva que delineamos, o papel da consciência não pode se limitar ao reconhecimento de estar no erro ou no pecado: ela também pode "descobrir com certa segurança moral que essa é a doação que o próprio Deus está pedindo no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo" (n. 303).
A "aposta" do Papa Francisco é que esse caminho de discernimento, pessoal e eclesial, saberá produzir os recursos com os quais se poderá "continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais" (n. 2). Será a prática que vai mudar a teoria e, sobretudo, que vai descobrir o modo adequado de formulá-la e apresentá-la: "Não se deve jogar sobre duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica 'um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus'" (n. 122).
Justamente como a Laudato si' no n. 244, a Amoris laetitia também conclui com um convite a se pôr a caminho. Ele se dirige à Igreja, às comunidades cristãs individuais, a todas as famílias e a todos os fiéis, em qualquer situação de vida que se encontrem. É a vocação original de Abraão e Sara, que transformou a sua história de casal, em muitos aspectos, já no fim da linha, em bênção para todas as famílias e as gerações, não sem uma série de viradas e reviravoltas, e uma certa dose de ambiguidade e contradições.
Como eles, ao longo desse caminho, também nós somos sustentados pela certeza de que "aquilo que nos é prometido é sempre mais" (n. 325). A tensão ao cumprimento escatológico dessa promessa abre o espaço dos percursos de crescimento e de desenvolvimento da nossa humanidade e das nossas famílias, e, ao mesmo tempo, torna magnânimo o nosso olhar.
É difícil encontrar palavras melhores para dizer isso do que as usadas pelo Papa Francisco, ainda no n. 325: "Contemplar a plenitude que ainda não alcançamos permite-nos também relativizar o percurso histórico que estamos fazendo como família, para deixar de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo. Além disso, impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade. Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver nesse estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar!".

Revista Aggiornamenti Sociali
*Giacomo Costa, jesuíta, presidente da Fundação Cultural San Fedele e diretor da revista Aggiornamenti Sociali.

RETROSPECTIVA TRAZ OBRAS DEDICADAS A PICASSO

Exposição Picasso: Mão Erudita, Olho Selvagem conta com algumas obras-primas do gênio.
Obras pertencem ao Musée National Picasso-Paris.
Obras pertencem ao Musée National Picasso-Paris.
Desde a última retrospectiva de Picasso em São Paulo, são 12 anos. Em 2004, uma grande mostra do artista espanhol ocupou toda a Oca, no Parque do Ibirapuera, atraindo milhares de visitantes. Agora, a cidade recebe mais uma vez um conjunto expressivo de criações do pintor - e novamente pertencentes à coleção do Musée National Picasso-Paris.

Entre os 116 trabalhos do artista selecionados do acervo do museu parisiense para a exposição Picasso: Mão Erudita, Olho Selvagem, que será inaugurada neste sábado, 21, para convidados, e domingo, 22, para o público, no Instituto Tomie Ohtake, há algumas obras-primas do gênio, como o autorretrato de 1906, considerado um prelúdio dos caminhos que ele tomaria em direção à realização de um dos quadros mais importantes do século 20, Les Demoiselles d'Avignon, de 1907. “É primitivo, geométrico, muito escultural”, descreve Emilia Philippot, curadora da mostra e da instituição francesa.

Mas há ainda muitos outros trabalhos referenciais de Pablo Picasso (1881-1973) chegando ao Brasil neste momento (veja quadro ao lado), como o óleo sobre madeira A Morte de Casagemas, de 1901, em que o artista pinta, “no estilo de Van Gogh” o amigo suicida, no caixão. Ou Figuras à Beira do Mar, de 1931, um desdobramento surrealista do cubismo, o revolucionário movimento do qual Picasso e Georges Braque (1882-1963) são considerados fundadores. Sem contar, ainda, os pouquíssimo conhecidos 22 fotogramas que o espanhol criou em parceria com o fotógrafo André Villers. “Em toda a história, não há exemplo de outro pintor que tenha sido capaz de criar tal diversidade de obras e de lhes conferir o poder de uma arte bem-sucedida”, já definiu o teórico da arte Meyer Schapiro.

A mostra Picasso: Mão Erudita, Olho Selvagem, com 34 pinturas, 42 desenhos, 20 esculturas e cerâmicas, 20 gravuras e os trabalhos fotográficos que o mestre realizou com Villers (além de filmes e imagens que o retratam), tem como objetivo justamente trazer à tona, em percurso cronológico, as várias facetas de produção do mestre - e o mote curatorial reflete o próprio acervo do Musée National Picasso-Paris, cuja singularidade é ser formado por “Picassos de Picasso”, ou seja, os trabalhos seletos que o artista guardou consigo - e alguns com os quais decidiu conviver, observa Emilia Philippot -, até a morte. “Desde os primeiríssimos anos de formação, durante os quais o jovem prodígio molda com habilidade cópias em gesso de mármores antigos, até as últimas etapas de sua vida, marcadas por intensa prática da gravura - entre reinvenção de técnicas e transgressão do motivo -, a coleção do museu parisiense constitui um corpus único que possibilita abordar o homem e sua obra em toda a sua complexidade”, afirma a curadora.

Como opina Emilia Philippot, de 34 anos, Picasso é muitas vezes conhecido apenas como “o homem de muitas mulheres” e de muitos estilos. “Prefiro mostrar as questões estéticas de sua obra.”

Sendo assim, Olga Koklova, Marie-Thérèse e Jacqueline Roque aparecem com menos protagonismo na mostra, citadas nas criações - exceto a fotógrafa Dora Maar, que está na gravura La Femme Que Pleure, mas participa ainda como autora dos famosos retratos que documentaram o artista criando cada passo da pintura Guernica, em 1937.

Aliás, a retrospectiva tem um segmento dedicado justamente a Guernica. Não apenas por ser uma das principais obras do artista seu “grito” sobre os horrores da guerra, mas também pelo fato de o painel ter sido apresentado na 2.ª Bienal de São Paulo, em 1953.

Depois da temporada no Instituto Tomie Ohtake, a exposição seguirá para o Rio - provavelmente, a exposição será abrigada no Paço Imperial. As exibições brasileiras estão orçadas em R$ 10 milhões, mas o projeto também prevê itinerância da mostra para o Centro Cultural Palacio de la Moneda, no Chile.

Agência Estado

VIGÍLIA INTERNACIONAL PELOS MORTOS DE AIDS: ENVOLVER, INFORMAR E EMPODERAR

2016-05-17 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) - Realizou-se no último domingo (15/05), Solenidade de Pentecostes, a Vigília Internacional pelos Mortos de Aids. Com a proposta ‘Unidos contra a Aids: envolver, informar e empoderar’ a atividade de caráter mundial realiza ações em memória das pessoas que morreram com a síndrome 
Em três décadas de lutas houve avanços e conquistas para a erradicação do HIV/Aids. Tendo em conta que milhões de pessoas vivem atualmente com o vírus, a vigília é uma iniciativa importante para promover a solidariedade mundial, reduzir o estigma e a discriminação e dar esperança às novas gerações. 

Nós contatamos em Porto Alegre (RS), o Assessor Nacional da Pastoral da Aids, Frei Luís Carlos Lunardi que nos fala sobre esse evento. (MJ)

(from Vatican Radio)

FRANCISCO: DINHEIRO E PODER SUJAM A IGREJA

2016-05-17 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) – O caminho que Jesus indica é o serviço, mas com frequência na Igreja se buscam poder, dinheiro e vaidade. Esta foi a advertência que o Papa Francisco fez na homilia da Missa celebrada na manhã de terça-feira, (17/05), na capela da Casa Santa Marta.

Francisco se inspirou no trecho do Evangelho do dia, em que Jesus ensina a seus discípulos o caminho do serviço, mas eles se perguntam quem era o maior entre eles. Para o Papa, essas tentações mundanas comprometem também hoje o testemunho da Igreja. “Jesus – observou o Papa – fala uma linguagem de humilhação, de morte e de redenção e eles falam uma linguagem de escaladores: quem irá mais alto no poder?”.

Os cristãos devem vencer a tentação de “galgar”

“No caminho que Jesus nos indica, o serviço é a regra. O maior é aquele que serve mais, quem está mais a serviço dos outros, e não aquele que se vangloria, que busca o poder, o dinheiro... a vaidade, o orgulho… Não, esses não são os maiores. E o que aconteceu aqui com os apóstolos, inclusive com a mãe de João e Tiago, é uma história que acontece todos os dias na Igreja, em toda comunidade. ‘Mas entre nós, quem é o maior? Quem comanda?’ As ambições. Em toda comunidade – nas paróquias ou nas instituições – sempre existe esta vontade de galgar, de ter poder.”

Também na Primeira Leitura, que propõe o trecho da Carta de São Tiago, se adverte para as paixões pelo poder, para as invejas e os ciúmes que destroem o outro”.

Sujar o outro para comandar

Esta também é a mensagem de hoje para a Igreja, disse Francisco. O mundo fala de quem tem mais poder para comandar, enquanto Jesus afirma que veio ao mundo “para servir”, não “para ser servido”:

“A vaidade, o poder… Como e quando tenho esta vontade mundana de estar com o poder, não de servir, mas de ser servido, não se poupam os meios para conquistá-lo: as fofocas, sujar os outros… A inveja e os ciúmes fazem este caminho e destroem. E isso nós o sabemos, todos. Isso acontece hoje em toda instituição da Igreja: paróquias, colégios, outras instituições, também nos episcopados...todos. A vontade do espírito do mundo, que é espírito de riqueza, vaidade e orgulho”.

“Dois modos de falar”, constatou Francisco: Jesus ensina o serviço e os discípulos discutem sobre quem é o maior entre eles. “Jesus – reiterou o Papa – veio para servir e nos ensinou o caminho na vida cristã: o serviço e a humildade”.

O espírito mundano é inimigo de Deus

“Quando os grandes santos diziam que se sentiam muito pecadores, é porque tinham entendido este espírito do mundo que estava dentro deles, e tinham tantas tentações mundanas”, explicou o Papa. “Nenhum de nós pode dizer: não, eu sou uma pessoa santa, limpa”:

“Todos nós somos tentados por essas coisas, somos tentados a destruir o outro para subir mais. É uma tentação mundana, mas que divide e destrói a Igreja, não é o Espírito de Jesus. É belo, imaginemos a cena: Jesus que diz essas palavras e os discípulos que dizem ‘não, melhor não perguntar muito, vamos avante’, e os discípulos que preferem discutir entre si qual deles será o maior. Nos fará bem pensar nas muitas vezes que nós vimos isso na Igreja e nas muitas vezes que nós fizemos isso, e pedir ao Senhor que nos ilumine, para entender que o amor pelo mundo, isto é, por este espírito mundano, é inimigo de Deus”.

(bf)

(from Vatican Radio)