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22 de fevereiro de 2016

TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO: O ELEFANTE BRANCO NORDESTINO?

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João Suassuna, engenheiro agrônomo analisa que a transposição do São Francisco nunca deveria ter sido uma prioridade.
Por João Vitor Santos
“Estou apostando e quero que esse projeto saia e que seja oferecido para a sociedade para fins de abastecimento, pois não vai ter volume para tudo. Com todos esses usos que se quer, esse projeto se transformaria no futuro num grande elefante branco”, alerta o pesquisador
João Suassuna é nordestino. O engenheiro agrônomo, e sobrinho do escritor Ariano Suassuna, destaca que essa relação com o nordeste o faz acompanhar há mais de 20 anos as discussões em torno das alternativas para amenizar a secura dessas terras. Para ele, a transposição do Rio São Francisco nunca deveria ser tida como prioridade. “Eles (técnicos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC) chegaram à conclusão, já em 2004, que o São Francisco tem uma séria limitação para fornecimento de volumes para um projeto de transposição”, destaca em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Segundo ele, foi por isso que o grupo pensou em alternativas. “O nordeste teria que construir uma infraestrutura hídrica no setentrional para buscar as águas que já existem na região. A região tem 70 mil represas”, aponta.
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Suassuna ainda destaca que mesmo com todo investimento, há nordestinos que não verão uma gota do São Francisco. “É a chamada população difusa, que vive nos pés de serras, são pessoas que são assistidas por frotas de caminhões pipa e que continuarão nessas condições porque não há uma adutora da transposição prevista”, explica.

Com muito menos recurso do que a transposição, outros projetos tentam dar conta das demandas dessa população através da construção de cisternas. Para o pesquisador, aliando as duas frentes, o primeiro projeto “resolveria o problema de abastecimento em municípios de até cinco mil habitantes e esse programa de construção de cisternas resolveria o problema do abastecimento da população difusa”.
Entretanto, fato é que – por questões políticas - venceu e está sendo implementado o projeto de transposição do Rio São Francisco. “Eu lamento muito porque estão fazendo um projeto dessa envergadura num rio que não tem a mínima condição de fornecimento desses volumes, custando mais do que o dobro do que a alternativa”, completa Suassuna. Mas o que fazer? O pesquisador entende que a saída é fiscalizar de cima as obras e apontar qualquer mau uso do dinheiro público ou peripécias das empresas que realizam a obra. Hoje, segundo ele, é preciso torcer que, já que está se investindo tanto nesse projeto, se faça do São Francisco uma fonte para abastecimento humano. “Agora, estou apostando e quero que esse projeto saia e que seja oferecido para a sociedade para fins de abastecimento, pois não vai ter volume para tudo (irrigação e geração de energia)” sinaliza.
João Suassuna é engenheiro agrônomo, pesquisador da fundação Joaquim Nabuco, no Recife, e especialista em convivência com o semiárido.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O senhor acompanha os debates sobre a transposição do Rio São Francisco há mais de 20 anos. Como avalia o projeto? Por que e como a transposição se tornou uma alternativa para combater a seca no nordeste?
João Suassuna - Estou envolvido nos debates da transposição desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele veio ao nordeste com sua comitiva, foi até a bacia do São Francisco, pegou um pouco da água e disse que o Rio era generoso e que não haverá de secar, porque o povo pegaria sua água só um pouquinho ali, outro aqui.
Acabei pegando essa visão do ex-presidente e fiz meu primeiro artigo, em 1995, criticando tal perspectiva. É preciso entender que o São Francisco é um rio de muitos usos e ele tem uma grave limitação de fornecimento de volumes. Tem 60% de sua bacia em geologia cristalina, onde nesse tipo de geologia seus tributários (tributário, em Geografia, é um termo que designa um curso de água que deposita suas águas em outro rio ou lago) secam em determinada época do ano e deixa de mandar água para o Rio, que tem uma limitação de vazão.
A vazão média do São Francisco é de 2,8 mil metros cúbicos por segundo. Se traçarmos um paralelo com o Rio Tocantins, por exemplo, que é da Bacia Amazônica, que tem a mesma área de bacia do São Francisco, 640 mil quilômetros quadrados, vermos que tem cinco vezes mais volume. Pois é um rio que corre no sedimentário, tem muita água e seus tributários são perenes. Ai está a diferença. O São Francisco é um rio hidrologicamente pobre.
A ideia da transposição
Em agosto de 2004, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC realizou uma reunião internacional no Recife, reunindo pesquisadores da Europa que mostraram para nós suas experiências de transposições de bacias. Os técnicos da SBPC, os 40 expoentes da hidrologia nacional, partiram dos exemplos apresentados e foram pesquisar os volumes, as minúcias do São Francisco. Eles chegaram à conclusão, já em 2004, que o São Francisco tem uma séria limitação para fornecimento de volumes para um projeto de transposição dessa envergadura.
Para se ter ideia, se concluiu em 2004 que o Rio, para fins consultivos (quando se retira água de um manancial e essa não retorna), só dispunha de 25 metros cúbicos por segundo. Isso para atender um projeto que vai necessitar de uma média de 65 metros cúbicos por segundo. Diante desse cenário, os técnicos destacaram que era preciso uma proposta alternativa, pois se falava no abastecimento de 12 milhões de pessoas no nordeste e mais 350 mil hectares para irrigar.
A alternativa
Assim, nessa reunião de 2004, os técnicos da SBPC fizeram a proposta de que o nordeste teria que construir uma infraestrutura hídrica no setentrional para buscar as águas que já existem na região. São as águas interiores do nordeste, pois a região tem 70 mil represas. Essas represas acumulam um potencial de 37 bilhões de metros cúbicos. É o maior volume de água represada em regiões semiáridas do mundo, e tudo isso está aqui no nordeste brasileiro. Foi assim que os técnicos pensaram numa proposta de buscar essa água e fornecer para população por meio de tubulações, visando o abastecimento das pessoas. Essa proposta existe e consta em relatório.
Desenvolvendo a alternativa
Além disso, em janeiro de 2006, a Agência Nacional de Águas – ANA, se baseando nas informações dessa reunião, fez uma proposta chamada Atlas Nordeste de Abastecimento Urbano de Água. O projeto previa a elaboração de uma estrutura para buscar essas águas que já existem no interior do nordeste e distribuir em municípios de até cinco mil habitantes. Era uma proposta bem mais abrangente, pois visava o abastecimento de 34 milhões de pessoas. O projeto de Transposição do São Francisco visa apenas o abastecimento de 12 milhões de pessoas.
E pasme: o projeto da ANA tinha menos da metade do custo previsto para a transposição em 2004, que na época era de seis bilhões de Reais. O projeto da ANA era de cerca de três bilhões de Reais. Ou seja: um projeto que custaria a metade e com uma abrangência muito maior.
As decisões
O curioso é que quando chegou a hora dessas propostas serem todas apresentadas ao Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, para buscar financiamento, venceu a transposição do São Francisco. Isso eu lamento muito porque estão fazendo – mais de 70% dos canais estão prontos – um projeto dessa envergadura num rio que não tem a mínima condição de fornecimento desses volumes, custando mais do que o dobro do que a alternativa. Hoje, o custo da transposição está orçada em pouco mais de 8 bilhões de Reais. Observe como esse Atlas Nordeste, no projeto da ANA, resolveria o problema de 34 milhões de pessoas em município de até cinco mil habitantes.
Complementação à alternativa
Entretanto, ainda existe uma população no nordeste que não vai ver uma gota de água do São Francisco. É a chamada população difusa, que vive nos pés de serras, nos sítios e pequenas propriedades, são pessoas que são assistidas por frotas de caminhões pipa e que continuarão nessas condições porque não há uma adutora da transposição prevista para levar uma só gota. Pensando nessa população difusa, existe uma instituição não-governamental, a Articulação do Semiárido – ASA Brasil, que congrega o trabalho de 600 outras Ong’s que tem sua atuação voltada para a convivência com o semiárido.
A ASA Brasil, juntamente com o Ministério de Desenvolvimento Social, elaborou um projeto de construção de cisternas rurais de placas. Essas cisternas têm 16 mil litros, são construídas nos oitões das casas para aproveitar as águas que caem das chuvas, e garantem água de boa qualidade para beber e cozinhar – não pode ser para outro uso, se não, entra em exaustão – para uma família de cinco pessoas nos oito meses sem chuva na região. Assim, está resolvido o problema para essa população que giram em torno de 12 milhões de pessoas.
Então, veja: com o Atlas Nordeste se resolveria o problema de abastecimento em municípios de até cinco mil habitantes e essa programa de construção de cisternas da ASA Brasil resolveria o problema do abastecimento da população difusa.
IHU On-Line - Mas nenhum dos projetos é realidade hoje?
João Suassuna – Somente o da ASA Brasil é realidade. Hoje, da meta de um milhão de cisternas já deve haver algo em torno de 700 mil em funcionamento. E para essa população difusa, a ASA Brasil está desenvolvendo também uma segunda água. É uma cisterna produtiva, maior, volumetricamente falando, com 52 mil litros e construída no campo para irrigar as culturas.
É construída uma espécie de grande calçada para captação da água da chuva, a chamada calçadão. No semiárido chove até 800 milímetros, volume suficiente para encher essa cisterna e aguar a horta. Assim, temos a água para o campo e também para beber, captada nos oitões de casa.
Com essas iniciativas, o problema da seca no nordeste estaria resolvido. Mas não, foram atrás do projeto mais caro de transposição que hoje está aí com as obras atrasadas. 70% dos canais já foram construídos e temos notícias de vazamentos.
IHU On-Line - Como compreender a opção por esse projeto mais caro? Que relação política podemos estabelecer com essa opção?
João Suassuna - As autoridades colocaram na cabeça que a água é um bem natural infinito, portanto pode ser usada a bel prazer. Isso não pode ser encarado assim! O Brasil é um país riquíssimos em água, 12% da água que escoa superficialmente no planeta está no Brasil, mas tem limitações sérias de distribuição dessa água. 73% dos volumes nacionais estão na Bacia Amazônica, uma região com pouca gente, menos de 7% da população nacional está lá.
No sul e sudeste temos algo em torno de 19% e no nordeste 3%, dos quais dois terços na Bacia do Rio São Francisco. Não foi por acaso que as autoridades quiseram ir atrás dessa água. Mas, por um lado, esqueceram que o Rio São Francisco não tinha a menor condição de fornecer esses volumes que se esperava.
Por outro lado, foi a oportunidade que o Governo Lula teve de investir no nordeste brasileiro. São 8,2 bilhões de Reais. Onde é que ia conseguir esse dinheiro? Nunca um presidente da República teve a oportunidade de empurrar 8,2 bilhões de Reais para o nordeste brasileiro. Só que o lado que ele enxergou foi o financeiro e não pode ser dessa forma. Observe que coisa maluca: empurraram 8,2 bilhões de Reais num projeto em um rio que não tem, hoje, condições sequer de gerar energia, não tem volumes para isso.
Agora, estou apostando e quero que esse projeto saia e que seja oferecido para a sociedade para fins de abastecimento, pois não vai ter volume para tudo.
IHU On-Line – Então, o senhor defende o uso apenas para o abastecimento da população, abandonando os usos para irrigação de culturas e geração de energia?
João Suassuna - Sim. Seria uma incompetência muito grande do governo ao aplicar 8,2 bilhões de Reais em projeto no qual o Rio não tem volume sequer para gerar energia. Com todos esses usos que se quer, esse projeto se transformaria no futuro num grande elefante branco. Então, como aplicaram muito dinheiro nisso, estou rezando para que esse projeto saia e seja inaugurado.
Agora, para o uso dessas águas é preciso outro trabalho muito sério. Os hidrogeólogos têm de entrar em campo para avaliar a verdadeira demanda hídrica do nordeste, mas com fins de abastecimento humano. É preciso, assim, chegar a um volume demandante para esse fim. É um trabalho que também precisa ser feito em toda a Bacia do São Francisco para se saber que volumes o Rio pode fornecer.
Uma vez chegado a esse volume, que não sei de quanto vai ser, tem-se determinar uma instituição isenta de ingerências políticas para fazer a gestão desse uso das águas. Uma instituição como hoje está a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco - Codevasf para gerenciar as águas do São Francisco é colocar a raposa dentro do galinheiro. Hoje, é a instituição que cuida da irrigação das áreas cultivadas do Vale do São Francisco. E ela tem o poder de gerenciamento da água. Não pode ser assim, tem de ser uma instituição que não sofra com ingerências políticas, pois, se não, vão tirar o restinho de água do Rio, acabando de matar o São Francisco.
IHU On-Line - Em janeiro, o tribunal de Contas da União apontou uma série de negligências no Programa de Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, que podem levar ao assoreamento do Rio. Qual a importância do Programa? Por que vem sendo negligenciado?
João Suassuna – O São Francisco é um rio de barranco e retiraram a mata ciliar, que fica nesses barrancos, para usar como lenha para fazer carvão, nos vapores que cruzavam o São Francisco. Ao retirar toda essa vegetação, começou a ocorrer o desbarranqueamento do Rio e todo esse solo foi carreado para o leito. Houve o assoreamento e hoje há a necessidade de revitalizar isso tudo.
Outro detalhe: todos os esgotos das cidades que estão margeando o São Francisco são despejados in natura no Rio. A grande Belo Horizonte, para se ter ideia, coloca seus esgotos dentro do Rio das Velhas, que, por sua vez, é um afluente do São Francisco. Assim, essa água está chegando no leito do São Francisco em péssima qualidade. A mesma água que querem que abasteça 12 milhões de pessoas. O nordeste não tem sistemas confiáveis de tratamento de esgoto.
Temos que partir para revitalizar tudo isso, plantando a vegetação que foi arrancada e resolvendo os problemas de esgotamento sanitário. E para isso se demanda muito dinheiro e tempo. E aí está o problema. Aonde vão pegar recursos para fazer uma obra dessa magnitude, já o Governo estando sem recursos para terminar a obra de transposição? Tudo isso tem levado o Governo a ficar omisso com relação a esse plano de revitalização.
IHU On-Line - Recentemente, em Cabrobó, Pernambuco, houve um vazamento no canal que faz a transposição. Qual sua avaliação quanto a qualidade da obra?
João Suassuna – Percebemos que as empreiteiras contratadas para fazer a transposição entraram de peito aberto no projeto sem ter conhecimento de causa com relação ao meio ambiente da região. Há um escudo cristalino (tipo de geologia onde as rochas, que dão origem ao solo, estão com alguns pontos aflorados na superfície, deixando o solo ralo e com escoamento muito intenso, com pouca infiltração de água) em mais de 70% da área. Praticamente não temos águas de subsolo aqui na região e as que temos, nas fraturas das rochas, são muito salinizadas. As águas da chuva, quando batem nesse tipo de substrato, se mineralizam com muita facilidade, deixando a água salobra (aquela que apresenta mais sais dissolvidos que a água doce e menos que a água do mar).
As empreiteiras não tinham conhecimento de causa dessa geologia e começaram a cavar os canais, quando bateu nas rochas tiveram de usar explosivos. O resultado é que essa obra foi atrasando e encarecendo ao longo do tempo. Esse projeto é muito heterogêneo em termos geológicos ao longo dos canais.
O primeiro erro
Quando construíram os primeiros canais, cometeram o primeiro erro grave: não colocaram água dentro desses canais. Qualquer leigo sabe o que poderia ocorre: numa região quente como essa nossa aqui no nordeste, onde a temperatura do solo passa facilmente dos 40 graus, os canais esquentavam muito durante o dia. E durante a noite esfriavam de vez. Então, o concreto dos canais, com toda essa variação e amplitude de temperatura, acaba rachando. O que rachou de canal aqui no nordeste nesse projeto da transposição foi uma coisa de doido. O Governo Federal acabou tendo de entrar em campo para contratar gente para reparar algo que nem havia fica pronto e já estava danificado.
O rompimento
Foi um vexame, pois os agricultores que já esperavam por essa água há muito tempo viram aquilo acontecer e ficaram muito tristes
Agora, começaram a colocar água e inaugurar alguns trechos dos canais, os canais de aproximação (que retira água do São Francisco e leva para a primeira represa para, a partir dela, começar a bombear água para todo o sistema). É nesses canais que, há algumas semanas, houve um rompimento. Foi justamente o que falei: a geografia é heterogênea. Pegou um canal com uma certa inclinação, e com os volumes da água passando ali, acabou rompendo e a água começou a cair fora do canal.
Foi um vexame, pois os agricultores que já esperavam por essa água há muito tempo viram aquilo acontecer e ficaram muito tristes. Um dano como esses num canal significa que para o conserto tem que haver um aporte de recursos muito grande. E esse projeto já não tem mais muito recurso nem para terminar a obra, agora, imagine para reparar um problema desses. Então, estão fazendo algo paliativo colocando areia e barro para ver se diminui o vazamento para pensar numa forma futuro de resolver o dano.
Deveria haver uma fiscalização constante ao longo dos canais para identificar esses problemas, porque um vazamento desses, quando identificado no começo, é de fácil solução. Agora, quando já chega a desmoronar as paredes, começa a haver vazamento, que leva a desmoronamento maior daquela parede e um desperdício de água muito maior.
IHU On-Line - A crise hídrica que assolou o sudeste nos últimos anos evidenciou que a seca no Brasil não é só um problema nordestino. O que a crise hídrica ensinou ao país? Como a falta de água em estados como São Paulo repercutiu no nordeste?
João Suassuna – Perdemos, recentemente, um hidrogeólogo chamado Aldo Rebouças. Era uma das pessoas que mais entendiam das águas do Brasil. Em seu último livro, O Uso Inteligente da Água (São Paulo: Escrituras, 2013), fala num português muito fácil de entender: o problema do sul, do sudeste, do nordeste é de gestão. Tem-se que saber usar a água disponível. Então, o que aconteceu no sudeste, em São Paulo, deixando o Brasil todo preocupado, foi só por falta de gestão. Usaram as águas em demasia, num limite em que as represas não poderiam fornecer.
Isso não aconteceu só em São Paulo. Acontece diariamente aqui no nordeste. Quando se constrói uma represa, é preciso entender que ela tem o poder de regularização daquele rio que foi represado. Existe um volume disponível naquele rio que tem que ser obedecido, é o volume de regularização. A gente costuma trabalhar com 10% de garantia, ou seja, quando se constrói uma represa e obedece o poder de regularização, sem tirar uma gota a mais desse limite, essa represa jamais secará.
Mas o que ocorre? Se constrói uma represa e a primeira providência é fazer um perímetro irrigado grande, depois começa a abastecer o povo de centenas de municípios. Assim, a represa não aguenta e seca. Por isso que secou a represa de Boqueirão, que abastece Campina Grande, Paraíba.
É uma represa de 400 milhões de metros cúbicos e praticamente entrou em volume morto. Campina Grande, que tem 450 mil habitantes, entrou em problemas sérios de abastecimento. Imagine uma cidade desse porte ter racionamento de quatro ou cinco dias.
Secaram o açude que abastece Caicó, no Rio Grande do Norte, o açude que abastece Acari, no Rio Grande do Norte, e centenas de açudes aqui do estado da Paraíba estão em estado crítico. Tudo porque as autoridades usaram em demasia as águas dos açudes. Se houvesse a consciência de que com o planejamento e com gestão não tem como secar esses açudes, a situação hídrica do nordeste e do Brasil era diferente.
IHU On-Line - Em entrevista concedida à IHU On-Line em 2010 , o senhor destacou que “da Bahia para baixo” ninguém conhece ou sabe dos impactos da obra. Isso mudou?
João Suassuna – Não mudou nada. E tem mais um detalhe: as águas do São Francisco vão para o setentrional nordestino, dos estados de Pernambuco para cima. Para baixo, Sergipe, Alagoas, Bahia e Minas Gerais, que é o berço das águas do Brasil, não há concordância em absoluto com o projeto de transposição porque as águas estão saindo de seus territórios para uso em estados lá da frente.
Quem está ao sul de Pernambuco não vai usufruir uma gota de água desse projeto. Pedem até compensação hídrica pelo que estão perdendo. E se a gente observar os estados que estão acima de Pernambuco veremos de 99,99% dessa população é favorável a transposição porque são os beneficiários diretos.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
João Suassuna – Há dois meses, o Tribunal de Contas da União – TCU encontrou um uso ilícito de recursos da transposição. Falou-se, a mídia de modo geral noticiou algo em torno de 200 milhões de Reais em superfaturamentos. Mas isso ficou abafado e ninguém fala mais. Isso deveria voltar à tona, a sociedade precisa acompanhar e descobrir para onde foi esse recurso para que isso não volte a acontecer.
Fonte: IHU On-Line

A CIÊNCIA ENTRA NOS MISTÉRIOS DO AMOR

Os efeitos da paixão são semelhantes aos que certas drogas provocam no organismo
Por Marco Lacerda*
Quando estamos apaixonados, uma explosão de neurotransmissores invade a corrente sanguínea, fazendo com que os amantes tenham sensações muito parecidas com as que teriam se experimentassem substâncias que induzem a estados alterados da consciência.
Mais do que isso, os especialistas já comprovaram que algumas fases do amor podem trazer sensações ainda melhores. Portanto, é bom saber o que acontece com o cérebro dos apaixonados e confirir as vantagens de ter um amor sempre por perto.

A maioria das pessoas já experimentou a sensação de estar apaixonado. Coração acelerado, vontade incontrolável de estar com o outro/a, ações irracionais são alguns dos sinais mais comuns que apresentamos quando a paixão se instala. A novidade é que essas alterações são consequências da presença de hormônios no sistema nervoso central. Será?

Apaixonar-se consiste no comportamento mais irracional que o cérebro pode vivenciar, tanto para o homem quanto para a mulher. Um estado de espírito capaz de levar a gestos inconseqüentes que só os apaixonados costumam fazer, tipo dar todas as economias da vida para o outro, e depois morrer de arrependimento.

Do ponto de vista hormonal, a paixão realmente “cega” o indivíduo. Este estado compartilha os mesmos circuitos cerebrais da obsessão, mania, intoxicação, sede e fome. Estes circuitos são primariamente sistemas de motivação, diferentes daqueles relacionados ao sexo, porém há uma interposição entre eles. Ocorre uma intensa atividade cerebral regida pelos hormônios: dopamina, estrógeno, oxitocina e testosterona.

A tecnologia da digitalização já permite que neurologistas registrem imagens do que acontece no cérebro quando alguém se apaixona. Eles mapearam as mudanças químicas que ocorrem e descobriram quais partes cerebrais ficam ativas — e quais ficam inativas — quando alguém inicia um namoro, segundo o site Daily Mail.

O córtex frontal, vital para o julgamento, desliga quando nos apaixonamos. Essa desativação ocorre apenas quando alguém vê a imagem da pessoa que gosta, suspendendo todas as críticas ou dúvidas.

As imagens também mostraram as áreas do cérebro que controlam o medo e as emoções negativas, explicando porque as pessoas se sentem felizes – sem medo do que pode dar errado – ao cair de cabeça em situações imprevisíveis.

Estudos apontam que a dopamina apresenta níveis mais elevados no cérebro em pessoas apaixonadas. Essa substância química é responsável por aumentar o prazer, a dor, o desejo, o vício e a euforia.

Um efeito colateral do aumento dos níveis de dopamina é a redução da serotonina, hormônio-chave do humor e apetite.
Os níveis dessa substância caem em pessoas que sofrem de transtorno obsessivo-compulsivo, explicando também porque o amor causa nervosismo e ansiedade.


Mas a ‘química do amor’ com a qual estamos mais familiarizados é com a adrenalina. É esse o hormônio que causa o aceleramento do coração, o suor frio nas mãos e a boca seca quando nos deparamos com a pessoa por quem estamos apaixonados.

Os cinco sinais da paixão

O coração bate mais rápido, dá até para ouvir o sangue pulsando nas veias. Toda vez que ela/ele olha, você sente uma explosão de energia.

Que o corpo nos envia sinais que dizem "essa pessoa pode mudar a sua vida" não é grande surpresa. Mas como isso funciona exatamente? É algo que fazemos inconscientemente? Não. Nossos cérebros e corpos realmente nos dizem quando estamos apaixonados. O site americano YourTango pediu para cientistas explicarem os cinco sinais físicos de alguém que está apaixonado:

1. Você se pega olhando fixamente - Os olhos são o que mais importa. Quando você está apaixonado, você involuntariamente mantém seus olhos focados no objeto de sua afeição. Os seres humanos naturalmente são adeptos ao contato visual.

2. Você se sente bem - Você se dá conta que fala de forma hiperativa sobre a pessoa. Estar apaixonado é como estar drogado. Muitos dos sintomas físicos são os mesmos: aumento da energia, aumento da freqüência cardíaca e pressão arterial (especialmente quando você vê a pessoa), e incapacidade de dormir ou comer. Estes sintomas ocorrem porque o cérebro produz ainda mais dopamina quando alguém está apaixonado. O cérebro também produz mais da norepinefrina química quando estamos apaixonados, acelerando o coração quando estamos nervosos.

3. Você não vai parar de se mover - Você não vai apenas procurar sua transa visualmente. Vai grudar ativamente na proximidade da pessoa. Isso explica porque o flerte muitas vezes envolve enrolar ou puxar cabelos. Quando estamos apaixonados os corpos involuntariamente se inclinam na direção do/a amado/a. Esta é uma manifestação física do desejo do cérebro de intimidade emocional.

4. Você não vai parar de pensar nele/a - Com os níveis altos de dopamina, as pessoas pensam sobre os seus interesses românticos em média 85% do dia. Isto é conhecido como "pensamento intrusivo". Nos estágios iniciais do amor, a maioria das pessoas não consegue parar de pensar em sua amada e a outra pessoa se torna uma obsessão. Se ele ocupar menos que 40%, não é realmente o amor intenso. O nível de obsessão é muitas vezes comparado com o de transtorno obsessivo-compulsivo. A diminuição dos níveis cerebrais de serotonina normais provoca comportamentos semelhantes quando alguém está apaixonado.

5. Só ele, só ela - Quando buscamos um/a parceiro/a com o amor em mente, preferimos que o relacionamento seja duradouro. Isso significa que temos fortes sentimentos de amor para apenas uma pessoa. Por outro lado, sentimentos de luxúria são menores sobre uma pessoa específica do que para o sexo em si. Quando se trata de luxúria, a relação privilegiada pode ser significativamente menor.

O padroeiro da paixão

Assim como ninguém sabe exatamente o que é o amor, também não se sabe com certeza por que o dia de São Valentim (14 de fevereiro) é o dia dos apaixonados. Uma das suposições mais aceitas é essa: São Valentim era um sacerdote romano lá pelo ano 200, época em que o imperador decidiu proibir os casamentos dos mais jovens com o argumento de que o casamento debilitava os soldados.

No entanto, contrário à medida, São Valentim celebrava casamentos às escondidas de quem assim o solicitava. Esse papel de casamenteiro o consagrou como patrono do amor (e também fez com que morresse martirizado). Mas essa é uma lenda a mais entre tantas outras que surgiram para explicar a questão. De forma parecida, muitos já tentaram elucidar o que é o amor, o que acontece quando ele aparece.

Em resumo, você pode estar pensando que a ciência ainda não sabe muito sobre o amor. Pode ser. Talvez esteja convencido de que a razão não pode compreender a paixão em toda sua complexidade. Muitos cientistas também acreditam.

O próprio Larry Young (pesquisador de neurociência do comportamento da Universidade de Emory, em Atlanta, e autor do livro Química entre nós sem ir mais longe) opina: “A ciência será capaz de nos dizer muitas coisas sobre a química e os mecanismos cerebrais envolvidos no amor. Mas não nos fará entender sua magia. Isso só se pode entender estando apaixonado”.

E acrescenta: “É possível que sua essência seja melhor entendida com a poesia, a música ou a arte, mas a ciência pode contribuir para compreender parte de seu mistério”. Porque o que é óbvio é que todo sentimento tem sua contraparte física, e que, em boa medida, esta pode ser estudada. Até onde chegará sua explicação, isso ninguém sabe.
Maria Bethania e Jeanne Moreau cantam ‘Poema dos olhos da amada’, de Vinicius de Moraes. Veja o vídeo:
*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Domtotal

MÁLAGA DE PICASSO

Abençoada por um sol incansável, a terra natal do pintor é uma cidade dominada pela arte.

Por Marco Lacerda*

Cidade portuária, com velhos bairros típicos, avenidas espaçosas e movimentadas, museus interessantes e monumentos imponentes, como a vasta Alcazaba ou a surpreendente mistura de estilos da catedral, tudo emoldurado por um Mediterrâneo azul, a respirar a alegria e vivacidade do Sul de Espanha. 

Málaga é a grande cidade do Sul da Espanha, um dos destinos turísticos mais importantes daquele país da Europa e do mar Mediterrâneo. Capital e centro geográfico da Costa del Sol, zona turística que se estende desde Nerja até Manilva (limites leste e oeste da província de Málaga), totaliza cerca de 160 km de litoral, com belas praias.

Terra natal do famoso pintor Pablo Picasso, é uma cidade cosmopolita, repleta de encantos, que se situa numa bonita baía, no sul de Andaluzia. Abençoada por um sol que brilha quase sempre e por uma qualidade de luz espetacular, é uma cidade de amplas avenidas, arborizadas com palmeiras, uma vida noturna animada, importantes museus e excelentes restaurantes de mariscos e peixes em geral.

O litoral possui uma posição geográfica privilegiada: protegida dos ventos do norte pelas montanhas, beneficia de temperaturas médias altas dominantes em Espanha e de, aproximadamente, 300 dias de sol durante o ano. Muito acidentada e irregular na parte Leste, com superfícies rochosas que penetram o mar, as suas praias, por outro lado, são planas e arenosas na parte oeste. Com as suas extensas praias, é uma das zonas mais desenvolvidas da Andaluzia, graças ao seu enorme atrativo turístico e demográfico.

Os Mouros ocuparam Málaga até metade do Séc. XV, após converterem a cidade num dos centros mercantis mais importantes da Península Ibérica. Este passado tão ilustre deixou as suas marcas no centro histórico de Málaga, em particular nos arredores de Alcazaba, uma fortaleza que data do ano 1065 e que é agora um museu arqueológico fascinante.

O valioso património cultural, festivo, botânico, gastronómico e, sobretudo, humano de Málaga reside numa cidade com mais de 3000 anos de História. O seu centro histórico assim o atesta, pois, nos seus recantos, podemos apreciar o registo artístico, que viaja desde os Fenícios até à época atual. Veremos o Teatro Romano e sobre ele, numa harmoniosa conjunção, a Alcazaba Nazarí e, mais acima, o Castelo Gibralfaro, de origem muçulmana, mas remodelado após a reconquista cristã. A Catedral de Málaga materializa, por seu lado, diferentes estilos arquitetônicos, realizados com magistral beleza.

Compromisso com a arte
 
A capital malaguenha acolhe numerosos palácios e palacetes, igrejas, edifícios nobres e monumentos, que vão do barroco ao gótico, do renascentista ao modernista. Por outro lado, com mais de 20 museus, 15 deles concentrados numa mesma zona, Málaga é uma cidade comprometida com a arte. Há opções para todos os gostos, desde a arte sacra às tendências mais vanguardistas, passando pela arte popular, pelos museus interativos ou as exposições ao ar livre.

Graças ao seu clima privilegiado, Málaga foi, e é, um paraíso botânico para muitas espécies chegadas dos locais mais recônditos do Planeta. Muitos dos seus jardins são únicos na Europa e possuem uma riqueza natural muito apreciável. O Parque
de Málaga, totalmente reformado há pouco tempo, e o Jardim Histórico La Concepción são duas das manifestações mais imponentes.

Outro grande ponto de interesse de Málaga é a sua oferta de entretenimento e compras, uma vez que o núcleo urbano concentra alguns dos centros comerciais e de lazer mais importantes da província. De igual modo, a gastronomia é outro dos pontos fortes. As sugestões culinárias passam por percorrer a rota das tapas no Centro Histórico, comer os tradicionais espetos ou o pesacdo frito nos chiringuitos junto à praia ou degustar criativas receitas nos prestigiados restaurantes de alta cozinha, onde não falta a “estrela Michelin”.

A marca de Picasso
 
Os primeiros anos de vida de Pablo Picasso estão intimamente ligados a Málaga, cidade onde nasceu em 1881. A infância do génio está, indubitavelmente, marcada pelo ambiente artístico do pai, pela luz do Mediterrâneo, pelas famosas pombas da Plaza de la Merced, pelos toiros em La Malagueta...

Entrar, por exemplo, na Fundación-Museo Casa Natal de Picasso é entrar na infância do artista mais universal da História. O seu talento respira-se em cada recanto deste edifício, declarado Monumento Histórico-Artístico de Interesse Nacional. No primeiro andar, tem a possibilidade de entrar no lar da família Picasso. Outras salas mostram importantes obras do artista, que englobam cerâmicas, obra gráfica, gravações, livros ilustrados... Adicionalmente, a fundação organiza exposições e atividades culturais. 

A Plaza de la Merced é o local dos primeiros jogos de Picasso. Neste preciso lugar é onde, na sua infância, corria atrás das icónicas pombas – a sua famosa pomba da paz é um símbolo completo – e em cuja areia, quem sabe, terá feito os seus primeiros rabiscos. Contém mais de 200 obras, entre pinturas, desenhos, esculturas, cerâmicas e gravações, que mostram a sua prolífica trajetória.

No interior também se pode visitar vestígios fenícios, descobertos durante a recuperação do palácio e que foram especialmente protegidos. Além da coleção permanente, o museu organiza distintas exposições temporárias. Assim, acolhe periodicamente atividades paralelas, como workshops, conferências, concertos, cursos, etc.

Pablo Picasso “vive” em Málaga. Vislumbra-se na igreja de Santiago, onde foi batizado, na escola onde o pai tinha aulas, no Ateneu, no Conservatório de Maria Cristina, onde recebeu o seu primeiro grande prémio artístico. Intui-se no Centro Histórico, na sua Baía, na praça de touros de La Malagueta, na sua valiosa casa natal e no seu resplandecente museu. A indelével marca que Málaga deixou em Picasso foi generosamente devolvida pelo artista. Não há dúvidas de que Picasso habita nesta cidade, percorre muitos dos seus recantos, reconhece-se na sua alma inquieta. É a Málaga de Picasso.

A Costa do Sol, Málaga. Veja o vídeo:
*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Domtotal

DEUS ENVIOU O SEU FILHO AO MUNDO

Não foi por medo ou assombro, mas foi com clemência e mansidão.
Por Dom Vital Corbellini*

Introdução
A encarnação do Verbo de Deus, celebrada no Natal, é um mistério do amor de Deus para com a humanidade. O Senhor se fez gente, se fez carne para a nossa salvação. Desde o início do cristianismo tiveram os cristãos apreço e adoração à vinda de Jesus no meio da humanidade. Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos colocaram a vinda do Filho de Deus na vida humana como a unidade perfeita para beneficiar o ser humano e ao mesmo tempo como ação divina de exaltação. Tudo é possível para Deus até mesmo se tornar um de nós em tudo, menos o pecado. Vejamos os autores que realçaram o mistério da encarnação. 

1. O Deus invisível tornou-se visível
A Carta a Diogneto(ns. 7-8) faz uma exaltação ao mistério da encarnação do Verbo de Deus. Aquele que é verdadeiramente Senhor e Criador de tudo, o Deus invisível, fez descer a verdade e o Verbo santo, sendo incompreensível aos seres humanos, colocou-o no seu meio, estabelecendo ali a sua morada nos seus corações. Deus não enviou um ser humano, pois esse não poderia salvar a ninguém. Ele não enviou um servo, ou anjo ou ainda um príncipe, ou ainda alguém que pudesse presidir as coisas terrenas ou ainda um encarregado da disposição das habitações celestes, mas o mesmo Autor e Criador do Universo, sendo Salvador, por meio do qual criou os céus e conteve os mares dentro de seus limites(cfr. Sl 103,9).

2. O motivo de sua vinda
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo? O autor da Carta a Diogneto responde pelo motivo da encarnação do Verbo de Deus: Não foi por medo ou assombro, mas foi com clemência e mansidão, da mesma forma como um rei envia o seu filho rei. Deus enviou o seu Filho como Deus, Redentor, persuasivo, como quem convida, não perseguidor; enviou-o como quem ama, não como juiz(cfr. Jo 3,16-17). 

3. Ele mesmo se manifestou como Deus ao ser humano
Como nenhum ser humano viu a Deus, Ele mesmo se manifestou, dando-se a conhecer na realidade humana(cfr. Jo 1,18). Ele manifestou-se pela graça da fé, a única à qual é consentido ver a Deus. E quem este Deus que se manifestou? O autor da Carta a Diogneto continua o seu discurso afirmando que o Senhor e Criador de tudo, Deus que fez todas as coisas e julga segundo a ordem, não só foi amigo dos seres humanos, mas se manifestou como longânime, cheio de amor para conosco. Ele também tem presentes atributos ao Senhor Deus como ótimo, bondoso, tolerante, e verdadeiro; na realidade só Ele é bom(cfr. Mt 19,17).

4. O plano de Deus inefável comunicado ao Filho
Tendo traçado um grande e inefável plano, Deus o comunicou só ao Filho. O autor afirma que enquanto o conservava em mistério e guardado no seu sábio desígnio, parecia não interessar-se e despreocupado a nosso respeito. Mas quando o revelou através o seu Filho amado e o manifestou aquilo que desde o início foi preparado, concedeu-nos simultaneamente tudo: participar de seus dons, benefícios, ver as coisas e compreendê-las no seu devido amor infinito. Tudo foi feito pela presença do Filho de Deus na carne na qual nós fomos envolvidos e amados. 

5. A encarnação é um fato real
Inácio de Antioquia, Bispo, séculos I e início do II, teve que reforçar o mistério da encarnação diante dos docetistas que negavam a encarnação de Jesus Cristo na realidade humana. Jesus Cristo era da linhagem de Davi, nascido de Maria, que verdadeiramente nasceu, que comeu e bebeu, que foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos, que foi verdadeiramente crucificado e morreu à vista do céu, da terra dos infernos. Ele realmente ressuscitou dos mortos, pela ação do Pai e também a cada um de nós, que cremos na verdadeira vida. 

6. Jesus Cristo, o recapitulador de todas as coisas
Santo Ireneu, Bispo de Lião(III, 16,6), séculos II e III, afirmou que a encarnação do Verbo de Deus recapitulou todas as coisas. Ele criticou os gnósticos que achavam que a encarnação do Verbo não teria acontecido para o bem da humanidade. Para contrapô-los disse Ireneu que o Verbo Unigênito de Deus, sempre achegado ao gênero humano se uniu intimamente à sua obra pelo beneplácito do Pai e se fez carne(cfr. Jo 1,14), outro não é senão Jesus Cristo Nosso Senhor, que por nós sofreu, ressuscitou e voltará na glória do Pai, para ressuscitar todo o ser humano. Pela encarnação recapitulou em si todas as coisas e todo o ser humano, homem e mulher, criaturas de Deus, porque de invisível, se tornou visível, de incompreensível, inteligível, de impassível, passível, de Verbo, ser humano. 

7. É possível a encarnação do Verbo de Deus? 
Santo Agostinho responde para grupos que achavam impossível Deus vir a este mundo, na qual Ele poderia ter libertado os seres humanos sem a necessidade da encarnação. O Senhor o podia certamente, diz o bispo de Hipona. No entanto se Deus não tivesse aparecido aos dos pecadores, certamente  a sua luz eterna, que se vê com os olhos da interioridade, não seria vista pelas mentes inclinadas e corrompidas pelo pecado. Ora Ele se dignou a instruir-nos visivelmente, de modo que nos levasse às coisas invisíveis, assumindo as coisas do corpo humano, nascido de uma mulher e com infinita paciência suportou as ofensas, foi crucificado, morreu e ressuscitou. Tudo isso graças à sua vinda neste mundo para ser semelhante a nós em tudo, menos o pecado. O Filho de Deus pela sua eternidade assumiu a natureza humana nas suas modificações para nos levar à eternidade. Santo Agostinho convidava as pessoas, sejam homens, sejam mulheres para não desprezar a presença de Deus na humanidade, porque Ele assumiu a natureza humana na sua integridade, dando-lhes vida nova, e um dia a ressurreição da carne. 

Conclusão
Deus enviou o seu Filho ao mundo para a nossa salvação. A sua entrada para a nossa realidade trouxe vida nova, paz e amor. Nós fomos beneficiados pela vida dada no Filho de Deus na carne. Nós somos chamados a acolher a encarnação do Verbo todos os dias para o bem que devemos fazer seja para nós, seja para o mundo e sobretudo em vista da glória de Deus Uno e Trino. Nós adoramos a Deus que se dignou assumir as coisas nossas para elevá-las aos céus. 
CNBB 26-01-2016.
*Dom Vital Corbellini: Bispo de Marabá (PA).