23 de outubro de 2017

Um ‘supermacho’ em dúvida: a face oculta de Hemingway

Chicago
Ernest Hemingway, com um leopardo morto, em 1953.
Ernest Hemingway, com um leopardo morto, em 1953.  AP
Ernest Hemingway (1899-1961) adorava o boxe, a caça, a pesca e as touradas. Participou de três diferentes guerras, das quais retornou como um herói. Explorou o continente africano, onde participou de numerosos safáris. E tratou as mulheres com a crueldade e violência conhecidas. Criou, definitivamente, um personagem sob medida, com quem encarnou um paradigma de virilidade durante o século passado. Também em sua obra deixou para trás o gosto pelo lirismo, as metáforas e a adjetivação do modernismo literário. Preferiu adotar um estilo mais varonil, fundamentado em frases breves e contundentes como socos. Essa foi sua imagem pública até o final de seus dias. A privada, entretanto, era um pouco diferente. Isso foi dito por Zelda, a instável, mas lúcida esposa de Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby: “Ninguém pode ser tão machão”.
Uma nova biografia, feita por Mary V. Dearborn, publicada pela editora norte-americana Knopf no primeiro semestre, confirma a insegurança que Hemingway sentia sobre sua identidade sexual. “Isso foi parte do que o destruiu ao final de sua vida”, diz Dearborn, a primeira mulher que enfrentou o desafio de condensar a agitada existência de Hemingway, após dedicar diversos volumes a outros símbolos da masculinidade literária como Norman Mailer e Henry Miller.
A biografia de 750 páginas examina todos os aspectos de sua vida e obra, mas é seu estudo das questões de gênero que a diferencia de suas antecessoras. O livro revela a fascinação do escritor pela androginia e suas fantasias sexuais com os cortes de cabelo: costumava pedir às suas companheiras que o usassem o mais curto possível, enquanto ele o deixou crescer e chegou a tingi-lo de loiro e acaju (quando lhe perguntavam o que havia acontecido, respondia que era culpa dos raios de sol). Ao retornar de sua segunda viagem à África, o autor fez questão de furar as orelhas. “Usar brincos terá um efeito mortífero em sua reputação”, precisou dissuadi-lo sua quarta esposa, a jornalista Mary Welsh.
Hemingway foi um homossexual reprimido? “A resposta curta é não”, afirma Dearborn. Qual seria a longa? “Foi indubitavelmente queer [de gênero ambíguo]. Superou, se preferirem, o fato de se definir como gay. Inverteu as expectativas existentes sobre a identidade e o comportamento de homens e mulheres”, acrescenta. Lembra também que em seu romance póstumo e inacabado, O Jardim do Éden, o alter ego de Hemingway, um escritor chamado David Bourne, pede a sua mulher que corte o cabelo e depois o sodomize com um consolo, prática que o próprio Hemingway teria praticado com Welsh. Para Dearborn, essas fantasias “não falam de homossexualidade e de travestismo, mas em adotar o papel feminino durante o ato sexual”. Hemingway se adiantou assim a essa fluidez de gênero que hoje está em todas as bocas.
Antes de viver em Paris, Pamplona, Cayo Hueso e Havana, Hemingway nasceu e viveu até os seis anos em uma casa de três andares e estilo vitoriano no bairro de Oak Park, na periferia de Chicago, que o escritor costumava definir como “um lugar de jardins largos e mentes estreitas”. No bairro se encontra um pequeno museu dedicado à sua memória, na mesma rua arborizada onde está sua casa natal. No interior do museu está exposta uma caricatura desenhada para a Vanity Fair, em 1933, em que Hemingway aparece vestido com uma tanga e jogando tônico capilar nos peitorais. Em outro mostruário está uma foto do escritor quando bebê. Aparece vestido de menina, algo comum no começo do século XX, quando os bebês eram vestidos dessa forma durante seu primeiro ano de vida. Mas sua mãe, uma pintora e cantora de ópera chamada Grace, decidiu prolongá-lo por muitos anos mais. De fato, criou Hemingway e sua irmã Marcelline, 18 meses mais velha, como se fossem gêmeos, e os vestiu indistintamente como se ambos fossem meninos ou meninas, segundo seu humor.

Trauma

Para Hemingway, esse capítulo seria um grande trauma que terminaria provocando uma ansiedade que desembocou em sua exagerada virilidade, de acordo com a biografia que Kenneth S. Lynn publicou em 1987, que permitiu alterar sua imagem pública e também abrir sua obra a novas interpretações. Quando são relidos romances e contos de Hemingway, ganhador do Nobel de Literatura em 1954, sobressaem menos os super-heróis e mais os homens inseguros. Como o protagonista de A Curta Vida Feliz de Francis Macomber, envergonhado por sair correndo quando tentava atirar em um leão em um safári, muitos deles tentam alcançar um ideal de masculinidade impossível.
Outro de seus biógrafos, Paul Hendrickson, autor de Hemingway´s Boat, sobre o apego do escritor por um barco batizado como Pilar, não acredita que essa hombridade superlativa e quase paródica possa ser vista como uma atuação ao público. “A hipermasculinidade foi uma parte do que ele era. Foi real e autêntica. Talvez fosse uma máscara conveniente ao seu ego, mas não era fraudulenta”, afirma o professor da Universidade da Pensilvânia e antigo jornalista do The Washington Post. “Acho que foi homossexual, mas com muitos sentimentos contraditórios em relação ao seu gênero. Nunca encontrei a menor prova que sugerisse que se sentia atraído por outros homens”.
Hendrickson também descreve sua difícil relação com seu filho mais novo, Gregory, que praticou o transformismo por toda sua vida e acabou mudando de sexo aos 63 anos. Morreu com o nome de Gloria em uma prisão para mulheres na Flórida, na qual acabou por praticar exibicionismo em via pública. Uma vez, quando era pequeno, Hemingway o surpreendeu provando as meias-calças de sua mãe. Mais tarde lhe diria: “Você e eu viemos de uma tribo estranha”. Para Hendrickson, Gregory/Gloria realizou o que seu pai só admitia em seu foro interior e em algum texto clandestino. “Por isso existia uma relação de amor e ódio entre eles”, afirma. Dearborn diz que essa foi a cela de onde nunca conseguiria escapar: “Em um mundo melhor, Hemingway teria furado as orelhas”.
El País

FECHAMENTO DE SEU MUSEU EM CHICAGO

O museu dedicado à memória de Hemingway no bairro de Oak Park, na periferia de Chicago, fechou nessa semana 27 anos após sua inauguração. A fundação que controla o museu e casa natal do escritor quer utilizar os fundos que serviam para sustentá-lo na construção de um centro de escrita e pesquisa em um terreno contíguo à mansão vitoriana onde nasceu. Em alguns meses será lançada uma campanha de doações para financiar o local, que terá uma sala de exposições e uma livraria. Seu custo, 1,3 milhão de dólares (4 milhões de reais).

Escola pública de Maracanaú é referência nacional por trabalho de inclusão de pessoas com deficiências

Uma escola municipal de Maracanaú se tornou exemplo no país por implantar medidas de inclusão de alunos com deficiências. Dos 450 estudantes matriculados na Escola de Ensino Fundamental José Dantas Sobrinho, 17 apresentam algum tipo de deficiência neste ano letivo. A unidade atende estudantes de 6 a 14 anos.
De acordo com a diretora da instituição, Silvana Rodrigues, os alunos contam com uma sala multidisciplinar em que tem atendimentos personalizados conforme suas limitações.
“Nessa sala multidisciplinar, há um profissional que trabalha com as crianças e adolescentes com ferramentas apropriadas para cada limitação”, explica Rodrigues.
Os atendimentos especializados acontecem no contra turno dua vezes por semana para não coincidir com as atividades regulares. “Na escola, não temos grupos de alunos com deficiências. Estes estudantes estão junto com os outros em pé de igualdade”, destaca.
Além da sala multidisciplinar, a instituição conta com o apoio de outros profissionais que auxiliam os professores nas didáticas dentro de sala de aula. Ao todo, são três cuidadores que estão à disposição de alunos com limitações de locomoção ou com alguma deficiência que implique no seu desempenho dentro de sala de aula, necessitando de um apoio externo.
“No momento, temos três cuidadores. Só há a contratação se houver a necessidade de um profissional. Um deficiente auditivo, por exemplo, precisa de um intérprete. Um estudante de cadeira de rodas precisa de uns cuidados específicos”, explica Silvana.
A escola pública é referência nacional em inclusão escolar de estudantes com deficiência (FOTO: Divulgação)
Segundo ela, a presença dos pais foi e é essencial para o desenvolvimento de medidas inclusivas desses estudantes. Com eles, a escola tem a oportunidade de conhecê-los melhor e compreender as limitações e necessidades. “Os pais foram os que mais ensinaram para a gente porque cada aluno é um novo aprendizado”, afirma.
O trabalho, desenvolvido desde 2011, trouxe resultados positivos para a unidade de ensino. No ano passado, por exemplo, a escola José Dantas Sobrinho ficou em 1º lugar no Prêmio Nacional Desenvolvimento Educacional Inclusivo pelo Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI). Com a premiação, a diretora recebeu vários representantes de outros estados brasileiros para trocas de experiências e para mostrar o trabalho de inclusão na escola.
“O município de Maracanaú dá o suporte para as escolas. Nós temos um projeto institucional para que todas as unidades trabalhem a inclusão”, conclui.
Segundo a Secretaria de Educação do município de Maracanaú, 1.500 alunos com deficiência estão matriculados na rede pública de ensino em 82 escolas municipais. Para atender essa demanda, a Prefeitura conta com 116 cuidadores e 63 profissionais para o Atendimento Educacional Especializado.
Tribuna do Ceará

Sesc traz Leonardo Boff para ciclo de palestras sobre ética no Interior do Ceará

por 

Escritor Leonardo Boff
Com a temática “Ética e sustentabilidade no contexto da educação contemporânea”, o Serviço Social do Comércio (Sesc), braço social do Sistema Fecomércio, traz o professor e escritor Leonardo Boff ao Ceará. As palestras do grande nome da teologia e da ética no Brasil são realizadas pelo projeto Formação Contínua de Educadores do Sesc e acontecem nas Unidades do Sesc em Iguatu (24/10) e no Crato (25/10).
Promovendo reflexões sobre o papel individual e coletivo da população na formação de concepções e práticas éticas e sustentáveis, a palestra é voltada para professores, gestores de instituições públicas e privadas, acadêmicos de cursos de licenciatura, educadores populares e líderes comunitários. A palestra promove uma ampliação no repertório científico-cultural dos participantes, que tem contato com posturas que visam práticas para um mundo mais humano. No dia do evento livros do autor estarão disponíveis para venda.
Sobre o palestrante
Leonardo Boff, natural da cidade de Concórdia, Santa Catarina, doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha e foi professor de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior. Leonardo Boff é ainda doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim (Itália) e em Teologia pela universidade de Lund (Suécia), tendo sido agraciado com vários prêmios no Brasil e no exterior. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística.
SERVIÇO
Local: Unidade Iguatu do Sesc (Rua Treze de Maio, 1130)
Data: 24/10
Horário: 18h (Credenciamento e apresentação cultural) / 18h30 (Palestra)
Informações: (88) 3581.1130
Inscrições: http://bit.ly/2y41stl

Diário do Nordeste

David Linhares : política e poética na Bienal de Dança do Ceará

David Linhares
David Linhares foi bailarino e acrobata. Mas a Bienal Internacional de Dança do Ceará é sua grande obra. Diretor-geral do festival, ele faz há duas décadas as vezes de captador, produtor, curador, articulador do circuito local.
Ajuda assim a dar corpo ao que em 1997 era desejo de bailarinos e coreógrafos de Fortaleza. Fez parte da cena que forjou o Colégio de Dança, o curso técnico, diversas companhias na Capital e no Interior, escolas independentes, a graduação em dança na UFC.
Na entrevista que se segue, ele fala sobre sua trajetória pessoal atravessada pela dança contemporânea. David, que viveu a efervescência cultura de Brasília no final da década de 1970 e a inquietante Paris nos anos 1980, também comenta a censura que mais uma vez ameça as artes no Brasil.
O POVO - Uma obra da artista cearense Simone Barreto acaba de ser censurada na Unifor Plástica. Antes dela, a exposição Queermuseum, em Porto Alegre, foi encerrada antes do prazo previsto e gerou grande polêmica a performance “La bête”, no Mam de São Paulo. Como a Bienal Internacional de Dança contribui contra esse debate conservador?
DAVID LINHARES - Nós temos uma ação que eu acho super importante que é uma oficina com crianças autistas (e profissionais da área artística, da educação e da saúde). A Anamaria Fernandes realizou um filme lindo (Un pas de Côté / Um passo de lado) que trata da relação entre o autismo e a dança. Como tratar com crianças autistas, crianças que se batem num vidro, num espelho, que fazem movimentos repetitivos, que podem se chocar com alguma coisa.. Ela propõe algo que não vai pré-determinar esse movimento. Ela acompanha o movimento dessa criança autista. Movimenta-se junto. Passa por cima do corpo dela. Dialoga com o fluxo dessa criança. De repente, você vê um espetáculo de dança. É uma coisa emocionante, que me tocou muito! Em dois dias de oficina as crianças estão experimentando, vivendo uma nova relação. E o que é mais incrível ainda: o testemunho do corpo médico. Eles falam do quanto é transformador o que eles encontram ali, o quanto era reprimida a relação entre eles e estas crianças. Porque o toque é proibido dentro das instituições de saúde. O que eu queria frisar é a importância da gente criar outros mecanismos, outras relações e não voltar... é um retrocesso. Paris acaba de abrir uma exposição (no prestigiado Museu D’Orsay) que tem como tema “Tragam seus filhos para ver gente nua”. Uma coisa bandeirosa! E aqui no Brasil? Estamos censurando (Cândido) Portinari! Você fica sem palavras. É um absurdo.
O POVO - Eu te perguntei sobre a onda conservadora e você me responde apontando outras questões políticas que está interessado em explorar, afirmar, discutir. Fico pensando o quanto a dança é política. A Bienal é pensada com intenção política?
DAVID - Sempre. Sempre. Sempre. Somos a mira desse conservadorismo. Sobretudo a questão do corpo. Wagner Schwartz (o artista da performance no MAM) estava deitado no chão. A mãe estava ao lado da filha. Havia uma placa sinalizando a interdição de entrada de menores de 18 anos. Nós trazemos um espetáculo pra Bienal da Lia Rodrigues - que é a embaixadora da dança do Brasil no mundo - que vai trabalhar exclusivamente com nu. Não existe um trabalho da Lia Rodrigues que não seja com o corpo nu. Nós vamos proibir a entrada dos menores de 18 anos. Não por causa do nu, isso não me faz medo. O que me preocupa mais é quando o espetáculo exige uma força muito grande, uma violência. Eu não vejo porque uma criança estar presente (neste caso). Mas as pessoas se preocupam é com a nudez. Mães tão conservadoras que vão seminuas à praia. Na praia pode? Durante os dias de Carnaval também? A rede Globo exibe uma mulher nua fazendo propaganda do Carnaval e isso nunca foi discutido. Isso vai acontecer agora em fevereiro e não vai ser questionado. Eles vêm pra cima da arte! Nesses símbolos do Brasil – a nudez, o hedonismo, o culto ao corpo –ninguém vai mexer porque eles mantêm uma estrutura milionária de turismo. Eles mexem numa exposição que tem 40 pessoas assistindo.
O POVO - Você se referiu ao espetáculo da Lia Rodrigues “Aquilo de que somos feitos” que será apresentado na próxima sexta-feira, 27. É um espetáculo que estreou em 2000, já foi apresentado em todas as regiões do País, circulou no exterior, foi premiado. E fico pensando que nesse tempo o Brasil mudou e voltamos a discutir o que já parecia superado.
DAVID - Pedi a Lia que apresentasse mais uma vez este espetáculo como uma resposta para esse momento que estamos vivendo. É uma pena que o público seja restrito, são 150 pessoas. Mas me tocou muito que ela aceitasse essa ousadia.
O POVO - Você falava da força do mercado nesse debate sobre a moral, ditando os limites desse conservadorismo. E a Bienal é mantida por patrocínios. É possível transgredir quando se depende financeiramente de governos e grandes empresas?
DAVID - Há 12 anos fazemos parte de programa da Petrobras. E nunca me questionaram nada. Eu nunca sofri uma imposição. Contar com esse recurso nos dá uma segurança mínima. Vivemos um momento seríssimo. Como é que se pode criar na repressão? Pra onde é que a gente caminha? Então fico sem palavras de pensar que isso possa se agravar ainda mais. Eu já saí uma vez do Brasil pra ir pra França pra fugir disso. Eu fazia dança em Brasília. Tinha 18 anos e trabalha com Hugo Rodas (um uruguaio radicado no Brasil; ator, figurinista e coreógrafo). Estava com pessoas que já começavam a indicar essa possibilidade da dança contemporânea, dessa não dança, dessa dança despida de roupas, de figurino e tudo isso. Saí daqui num momento de repressão. Aí eu volto depois dos 1990 e parecia que tudo tinha se transformado. Um país lindo. Essa coisa do Brasil não ter memória é uma coisa que também pode ser boa, para esquecer as coisas terríveis que passamos. O povo se reinventa.
O POVO - Queria que você revisitasse os momentos mais marcantes da Bienal.
DAVID - Acho que a primeira Bienal de Par em Par. Foi um grande momento. Um marco. A gente vai falar de transversalidade. A gente se abre para o diálogo com outras artes – vídeo, cinema, música. Hoje, a música é muito presente na Bienal. Temos as Fringes (programação musical). O que nós vivemos, o que nós crescemos... construímos juntos. Os músicos, a Vila das Artes, o Alpendre - o Ceará chegou a ser o maior produtor de videodança do País. É sempre importante ser instigante. É importante essa coisa de causar estranhamento. Acho que o papel da Bienal está aí. No início, a gente estava ali pra dizer ‘apostamos no contemporâneo’. Mas, de repente, percebi que os grandes balés não circulavam mais. Quando a gente trouxe o Balé Guaíra (de Curitiba) com “A Sagração da Primavera” pro Theatro José de Alencar (em 2012), abrindo a Bienal, as pessoas me perguntavam: ‘ você vai trazer o Balé Guaíra?!” Vou. Porque eles não têm mais espaço. Os formatos eram todos de duos, trios, quatuors e nunca grandes companhias. Optamos por isso. Os grandes balés são as grandes escolas brasileiras. É dali que surgem os grandes coreógrafos brasileiros como Jorge Garcia. Rachid Ouramdane (franco-argelino) está coreografando por Balé de Lion! São coreógrafos ‘marginalizados’ por essa dita dança contemporânea. Lembro que quando começamos as pessoas sempre se perguntavam, na saída dos espetáculos, ‘mas isso é dança?’ O interessante é que não saiam dali sem ser tocadas. Muita gente chegava pra me dizer que sempre via nessas apresentações uma relação com sua própria vida. As pessoas me relatavam isso e esse é um sentimento que eu também tenho, daí minha paixão pela dança contemporânea. Naquele escuro, quando a luz apaga, na penumbra, começo a entrar numa atmosfera...
O POVO - Não tem uma narrativa que te conduz.
DAVID - Exatamente. A dança contemporânea traz pra gente não só essa coisa estética do movimento, da beleza da dança. Ela traz essa coisa do pensamento, de resgatar emoções, sensações que estavam ali talvez adormecidas há muito tempo. Por exemplo, um trabalho do (francês) Alain Buffard, Les Inconsolés, tem uma atmosfera que me leva ao guarda-roupa que nós, meninos, entrávamos, o cheiro dos vestidos da minha mãe, dos paletós do meu pai...

OPOVO - Você já foi bailarino. Como descobriu a dança?
DAVID - Eu estava com 16 anos. Fugindo da repressão no Ceará, meu pai (o educador Edgar Linhares) recebeu um convite do Ministério da Educação em Brasília e morávamos todos lá. Eu vi no jornal uma chamada pública para uma escola de teatro e dança da Graciela Figueroa (uruguaia e uma das pioneiras da dança contemporânea no Brasil) com Ademar Dorneles. Ele era um coreógrafo que havia saído do Ballet Stagium, da Marika Gidali e do Décio Otero, e tinha decidido utilizar as formas, as construções, a arquitetura de Brasília pra criar uma companhia que se chamava Asas e Eixos. Fui ver e passei nessa audição. Minha mãe me proibia e meu pai ficou enlouquecido comigo. Era um grande momento. Foi aí que nasceu também em Brasília o Concerto Cabeças (apresentações idealizadas pelo ator Neio Lúcio que no final da década de 1970 uniam teatro, dança, poesia, música e artes visuais). E tinha a presença de um uruguaio louco, Hugo Rodas, que trabalhava muito com a nudez. Lembro da gente invadindo o Teatro Nacional em Brasília, ocupando esse espaço que é lindo e que está abandonado. Fizemos um espetáculo. A Marika e o Décio vieram ver e me convidaram para uma audição no Stagium, em São Paulo. Eu nunca tinha nem calçado uma sapatilha e estava no meio de profissionais, gente que queria ganhar dinheiro com a dança, que brigava pra estar ali. Soube que antes chegaram a colocar gilete dentro da sapatilha de um bailarino pra tirá-lo. Coisas absurdas. Era a única companhia que fazia boom no Brasil. Na minha frente, entrou um argentino que de tão excitado, querendo aparecer diante daquela banca, pulou e desceu num grand écart, se machucando. Ele saiu de ambulância. Aquilo ali me assustou. Comecei a entender que talvez eu tivesse feito uma má escolha.
O POVO - Por que você desistiu de ser bailarino?
DAVID - Esse corpo que eu imaginava que podia dançar, fluir de emoções não existia. Voltei pra Brasília e entrei para um grupo de acrobacia, de teatro, do Ary Pára Raios que nessa época trabalhava com o (poeta Paulo) Leminski. Fomos pra Curitiba e lá a gente fazia uma guerrilha de sorrisos fazendo acrobacias nas grandes marechais (o cruzamento das avenidas Marechal Deodoro e Marechal Floriano Peixoto, no Centro da capital paranaense). Enquanto os sinais estavam fechados subíamos nos ônibus, fazíamos mil acrobacias... Até que eu caí de cima de quatro pessoas. Fui parar no hospital como indigente e fiquei quase um mês sem poder sair de Curitiba. Volto pra Brasília e sou convidado pelo Hugo Rodas com quem eu sonhava muito trabalhar. Mas o ensaio era uma coisa bem burguesa, no Lago Sul. Eu estava me sentindo cada vez mais mal, não achava meu lugar, não me achava. Ele chegou pra mim e disse: ‘”Quando a gente não quer ser melhor que nosso coreógrafo, a gente está no lugar errado”. Eu fui embora. Estava quase com 18 anos e saía muito, bebia muito. Num desespero, meu pai me dá uma passagem para ir a França. Era o refúgio da minha geração.
O POVO - Você cita seu pai Edgar Linhares, que militou por um ensino mais livre, de mais respeito com o limite da aprendizagem de cada um. De que forma ele influencia sua formação?
DAVID - Em tudo.
O POVO - Mesmo ele não te apoiando na dança?
DAVID - Meu pai não era contra. Era uma forma dele nos defender. Ele achava que podia ousar, mas como pai ele tinha que nos proteger. Foi mais um momento de desespero dele de ver que eu não tinha mais perspectiva e não tinha mais condições de ficar em Brasília, que nesse momento aumentava a cada dia a repressão. Um dia eu estava com a minha mãe dentro do carro e a polícia nos parou. Colocaram, ao lado da quadra onde a gente morava, minha mãe encostada num carro como um bandido. Ele chega e nos encontra naquela situação. Foi quando ele me perguntou pra onde eu queria ir.
O POVO - Queria que você descrevesse a Paris que encontrou.
DAVID - Eu cheguei para cuidar de umas crianças e me sentia super bem nessa relação. Foram 3 crianças que eu cuidei durante 4 anos e meio. Antes, no Brasil, eu havia passado um momento complicado, o contexto, a cirurgia no meu braço, a falta de comunicação com minha família em Curitiba.... Aí chego em Paris, um lugar livre, Miterran (o socialista François Mitterrand eleito presidente em 1981), as flores, a dança contemporânea. Eu ia ao teatro e aquelas novas possibilidades meu enlouqueciam. Senti muita coragem, muita vontade de fazer algo pela dança no Brasil. E embora eu tivesse saído do Ceará há muito tempo, eu não pensava em Brasília. Meu retorno era pra cá. Então eu volto pro Ceará e entro na Aliança Francesa. Encontrei no Brasil uma grande festa, um momento que me abraçou e eu não quis mais ir embora.
O POVO - A Bienal já trouxe companhias de países africanos, da América do Sul. Mas tem, sobretudo, um forte sotaque francês. Li recentemente uma entrevista sua e achei interessante você afirmar que essa relação com grupos de fora nunca foi colonialista, que o convite sempre foi de troca. Como isso é estimulado?
DAVID - Pra mim esse é o grande papel de um festival. Sobretudo, o encontro. E a Bienal difere de tudo que eu vejo. O momento do espetáculo não é o mais importante. É o bate-papo depois, são as Fringes, as paixões... Sempre que eu contratei uma companhia fiz o convite de que estabelecermos vínculos, trabalharmos juntos. Nós atingimos um público que é inédito no Brasil. Entre 30 e 40 mil pessoas por edição. Eu não conheço nenhum festival que atinja o número de cidades do interior como nós. Não é levantando a minha bola de jeito nenhum, longe daí - mas veja o que acontece hoje no Vale do Curu, Trairi, Itapipoca, o trabalho com os quilombos do Gerson (Moreno, da Cia Balé Baião), o Flávio Sampaio se reencontrando com a vida dele, com as referências dele. Aquele monte de menino dirigindo companhias, cuidando da Paracuru Cia. De Dança. Me emociona reunir 3 mil pessoas na praça de Paracuru pra ver dança.
O POVO - Qual era a cena da dança em Fortaleza em 1997, quando a Bienal surgiu?
DAVID - O festival foi construído por muitos, pelo Ernesto Gadelha, pela Cláudia Pires, pelo Flávio Sampaio... O Colégio de Dança surge ali, naquele momento. Foi criado também o primeiro Fórum de Dança com a Janne Ruth, a Goretti Quintela, a Mônica Luiza, com as academias. Gosto muito dessas pessoas e tenho o maior respeito pelo trabalho delas. A Madiana (Romcy), a Dora (Andrade), Anália Timbó. Batalhei para que construíssemos isso tudo juntos. Juntos, começamos a pensar o formato do Colégio de Dança que já nasceu moderníssimo, contemporâneo. Era vinda do Flávio, a Andrea Bardawil e o Andanças. A companha montou Capitães de Areia e nós trouxemos o Jorge Amado, ele assistiu a estréia. A Bienal surge de um desejo muito forte, que eu acho que é lindo. E era o desejo de muitos.
O POVO - Hoje 40% das companhias que se apresentam na Bienal são do Ceará. Há pólos de dança no interior do Estado. Temos uma graduação em dança. O curso atraiu nomes nacionais que pensam a dança a partir daqui. Há um curso técnico. É um cenário diferente do de 20 anos atrás. Qual o papel que a Bienal assume nesse novo contexto?
DAVID - Seria importante que os governos fomentassem a criação e a formação, mantendo essas escolas. A Bienal ainda tem que assumir em parte esse papel.
PROGRAMAÇÃO
EM CURSO. A 11ª EDIÇÃO DA BIENAL INTERNACIONAL DE DANÇA DO CEARÁ TEVE INÍCIO NA ÚLTIMA SEXTA-FEIRA, 20, E SEGUE ATÉ O PRÓXIMO DIA 29 DE OUTUBRO.
EMOÇÃO
MAIS ESCOLAS. DAVID SE EMOCIONOU AO FALAR DA IMPORTÂNCIA DO ENSINO PÚBLICO DA DANÇA E LEMBRAR DA MILITÂNCIA DE SEU PAI PELA EDUCAÇÃO
INTERIOR
PROGRAMAÇÃO. ESTE ANO, A BIENAL ACONTECE EM FORTALEZA E OUTRAS SEIS CIDADES CEARENSES - SOBRAL, PARACURU, TRAIRI, AQUIRAZ, JUAZEIRO DO NORTE E ITAPIPOCA.
PERFIL
David Bessa Linhares nasceu em Fortaleza e tem 56 anos. É filho do educador Edgar Linhares, falecido em 2015, e Maria Ivolete Bessa. Morando em Brasília, na adolescência, foi bailarino e acrobata. Também morou em Paris, onde se formou em Linguística, pela Sorbonne Paris VIII, e fez mestrado em Fonética Experimental. De volta ao Ceará, na década de 1990, trabalhou como produtor cultural da Aliança Francesa. Organizou e dirigiu a primeira edição da Bienal de Dança do Ceará em 1997. O evento acontece há 20 anos de forma ininterrupta.
PERGUNTA DA LEITORA
Wilemara Barros, bailarina da Cia. Dita
Wilemara - A Bienal foi um divisor de águas pra dança no Ceará. Sendo assim, como você pensa que ela será no futuro, daqui a 20 anos?
David - Eu imagino que nós estaremos mais estruturados. Espero! Que a gente possa contar com patrocínios mais antecipados pra trabalhar com segurança. Espero que a gente consiga trazer companhias da África, da América do Sul, da América Central para mostrar outras vertentes, outras possibilidades de dança, que não trazemos muitas vezes por falta de apoio. Temos que estreitar mais estas relações.

SILVIA BESSA
O Povo

Os últimos dias de uma cidade de 10.000 anos

Ponte Hasankeyf que cruza o rio Tigre, no distrito  Hasankeyf, em Batman
Ponte Hasankeyf que cruza o rio Tigre, no distrito Hasankeyf, em Batman (AFP)
O Tigre serpenteia entre as ruínas e minaretes de Hasankeyf, a cidade turca pela qual passaram romanos, bizantinos e tribos túrquicas. Mas esta cidadela de ao menos 10.000 anos de antiguidade será engolida pelas águas.
Quando terminarem as obras da gigantesca usina hidroelétrica de Ilisu, o rio sairá de seu curso, apagando Hasankeyf e suas pontes de pedra da paisagem.
O governo lançou um projeto que fornecerá a energia e a irrigação necessárias para o desenvolvimento do sudeste da Turquia, uma zona populada sobretudo por curdos, que durante muito tempo foi deixada de lado pelo governo central.
Os monumento históricos ficarão a salvo em um lugar seguro, após uma mudança faraônica que lembra as que foram realizadas nos anos 1960 no Alto Egito por Gamal Abdel Nasser durante a construção da represa de Assuã no Nilo.
Mas para muitos moradores de Hasankeyf, é uma calamidade.
"Vamos tentar lutar o quanto pudermos para impedir a devastação da beleza e da história desta cidade", de 6.000 habitantes, afirma Mehmet Emin Aydin, um comerciante local.
Como as obras estão quase concluídas, "não há possibilidade de voltar atrás", lamenta Arif Ayhan, da associação do comércio e do turismo em Hasankeyf. "Em vez de ignorar os habitantes, tinham que ter escutado eles. As pessoas daqui têm a impressão de que o Estado as deixou de lado".
- 'Perigo' -
O processo de contenção da água, que dará lugar a um lago artificial que em alguns meses engolirá Hasankeyf, começará em 31 de dezembro. Por isso a mudança dos monumentos já começou.
Em uma operação espetacular, as autoridades deslocaram, em maio, o mausoléu de Zeynel Bey, construído no século XV em homenagem a uma das personalidades da tribo Ak Koyunlu, que na época controlava a Anatólia Oriental.
O comboio precisou de cinco horas para percorrer os dois quilômetros que separam Hasankeyf da nova localização da construção medieval, uma tumba cilíndrica coberta por uma cúpula.
As autoridades esperam que este "parque arqueológico" situado à beira do futuro lago artificial se transforme em uma atração turística. Mas alguns criticam que se dê continuidade ao projeto sem se preocupar em salvaguardar a herança histórica.
A federação europeia do patrimônio cultural Europa Nostra denuncia que o projeto foi feito "sem consultar suficientemente as comunidades locais nem os especialistas" e que, nestas condições, os outros monumentos correm "um grande perigo".
"A inundação esperada de Hasankeyf destruirá os vestígios de um dos assentamentos humanos mais antigos já descobertos", acrescenta a ONG.
- 'Grande benefício' -
A publicação nas redes sociais, em agosto, de vídeos em que os habitantes e ativistas mostravam o que era, segundo eles, engenheiros dinamitando a escarpa de Hasankeyf geraram polêmica. Como protesto, o deputado opositor Mehmet Ali Aslan se acorrentou a uma pedra do penhasco.
Apesar destes vídeos, o governador da província de Batman negou o uso de explosivos.
A primeira pedra da usina de Ilisu, na província vizinha de Mardin, foi colocada em 2006, quando o atual presidente, Recep Tayyip Erdogan, era primeiro-ministro. Ele prometeu que este colosso traria "um grande benefício" aos habitantes.
Ilisu faz parte do Projeto do Sudeste da Anatólia, que quase caiu por terra por uma série de incidentes.
Em 2009, vários investidores suíços, austríacos e alemães se retiraram dele, estimando que carecia de garantias em termos de proteção do meio ambiente e do patrimônio. O governo turco reagiu dizendo que seria financiado com a ajuda de bancos turcos.
O governo se comprometeu a realojar os habitantes de Hasankeyf, e foram construídas mais de 700 casas na parte alta do povoado.
"Não quero nada do Estado, só quero que não toque em Hasankeyf", protesta com tristeza Ayvaz Tunç.
"A única coisa que peço é que Hasankeyf fique como está, com todo seu esplendor", acrescenta. "Quero morar aqui. Não quero que a cidade desapareça sob as águas".

AFP

Livro aborda entrevistas que o Papa concede à imprensa

Da Redação, com Rádio Vaticano 
Papa durante entrevista à TV 2000 e InBlu Radio, emissoras italianas, em novembro de 2016 / Foto: Arquivo – Reprodução TV 2000
“As entrevistas, para mim, têm sempre um valor pastoral”, “se não tivesse esta confiança, não concederia entrevistas”. É o que enfatiza o Papa Francisco no prefácio do livro “Adesso Fate le vostre domande” (“Agora façam as vossas perguntas”), do padre Antônio Spadaro. A obra foi apresentada no final da tarde do último sábado na sede da revista jesuíta “Civiltà Cattolica”.
Francisco recorda que, quando era arcebispo em Buenos Aires, “tinha um pouco de medo dos jornalistas” e por esta razão não concedia entrevistas. Como Pontífice, porém, convenceu-se de que as entrevistas são “uma maneira de comunicação” de seu ministério. Ele une estas conversações nas entrevistas com a forma cotidiana das homilias na Santa Marta, que é – digamos assim – sua “paróquia”. 
O Santo Padre sublinha que nas entrevistas, assim como nas coletivas com os jornalistas no avião, lhe agrada olhar as pessoas nos olhos e responder às perguntas com sinceridade. 
“Sei que isto pode me tornar vulnerável, mas – acrescenta – é um risco que quero correr”.
“Para mim – prossegue – as entrevistas são um diálogo, não uma lição”, eis porque “não me preparo”.

O livro do padre Spadaro traz também duas conversas com os Superiores Gerais. “Conversar – escreve o Papa – sempre me pareceu o melhor modo para encontrar-nos realmente”. Existem também conversas com os jesuítas, nas quais o Papa diz que se sente em família e fala a linguagem de família, sem temer incompreensões. 
O Papa conclui o prefácio do livro reiterando o desejo de uma “Igreja que saiba inserir-se nas conversas dos homens, que saiba dialogar”. “É a Igreja de Emaús – observa Francisco – em que o Senhor entrevista os discípulos que caminham desencorajados. Para mim, a entrevista é parte desta conversação da Igreja com os homens de hoje”.

Palavra do autor

Sobre o significado das entrevistas para o Papa Francisco, a Rádio Vaticano entrevistou o padre Spadaro, responsável pela obra.”Papa Francisco ama as entrevistas porque assim escuta as perguntas das pessoas. Às vezes, os jornalistas fazem o papel de mediadores das perguntas que são importantes para as pessoas, mesmo as pessoas comuns. Por isto o Papa aceitou conceder entrevistas e responder aos jornalistas, porque assim pode falar diretamente às pessoas”.
O sacerdote destaca que o Papa, sobretudo, escuta as perguntas e gosta de recebê-las não tanto para dar uma resposta precisa, mas para escutar o que as pessoas têm a dizer. “E depois, a sua resposta, é muito atenta à própria pergunta, isto é, o Papa não responde àquelas dúvidas falsas ou àquelas perguntas que na realidade não comunicam uma inquietação; responde à inquietação, aquela verdadeira”.
Padre Spadaro já entrevistou o Papa Francisco e pôde testemunhar algumas de suas conversações. Para ele, o mais tocante são a tempestividade e a capacidade de escuta. “Ou seja, a capacidade de receber as perguntas e o fato que ele não está interessado em fazer grandes discursos e tanto menos de escutá-los, mas sim abrir um diálogo que seja expressão de um encontro verdadeiro”.

Semana de Ciência e Tecnologia discute importância da matemática no cotidiano

Jonas Valente - Repórter da Agência Brasil
Começa hoje (23) a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). Até domingo (29) governos, escolas, universidades, centros de pesquisa, empresas e organizações da sociedade civil vão promover eventos em todo o país com a finalidade de chamar a atenção dos brasileiros para a importância da produção científica em várias áreas, da educação à economia.
A expectativa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) é de que haja 100 mil atividades, de cerca de 2 mil instituições e mais de mil cidades. Até o momento, 23 estados e o Distrito Federal já informaram que vão participar da semana. Apenas o Acre, Alagoas e o Piauí não devem promover eventos. Os estados com o maior número de atividades cadastradas são Minas Gerais, o Rio de Janeiro, São Paulo e Roraima. A programação está disponível no site oficial do evento.
Segundo Sonia Costa, coordenadora da semana e diretora do MCTIC, o objetivo da iniciativa é aproximar a produção científica e tecnológica dos estudantes. “A semana contribui para cultivar a prática interativa de nossos acadêmicos e cientistas com a educação básica. Não existe a cultura dos nossos cientistas de divulgar o conhecimento. Trabalhos acadêmicos são finalizados e nós leigos não conseguimos ter a compreensão da importância daquilo”, avalia Costa.
Matemática
Esse esforço de popularização vai ter como foco um assunto considerado difícil por muitos estudantes. O tema da edição deste ano é “A matemática está em tudo”. Na avaliação educacional internacional Pisa, o desempenho de estudantes na disciplina foi o pior entre as habilidades analisadas (também são medidos o conhecimento em ciências e a capacidade de leitura). Na última edição, em 2015, a nota do país em matemática foi 377, menor do que na edição anterior, em 2012, quando chegou a 389. No ranking mundial dessa disciplina a partir da Pisa 2015, o Brasil ficou em 66º lugar.
O intuito da SNCT é mostrar como a matemática faz parte do cotidiano das pessoas. Na economia, diversas operações financeiras dependem de modelos e equações. Quando uma pessoa pede um empréstimo, boa parte das instituições financeiras usa cálculos sofisticados para a chamada análise de risco. O mesmo vale para a compra de ações por instituições financeiras ou fundos de investimento.
Outro exemplo é o setor petrolífero. Companhias como a Petrobras furam poços em grande profundidade. Essa atividade envolve uma série de riscos, desde a fixação dos instrumentos que fazem o poço até o ato de extrair o petróleo de modo a evitar vazamentos e acidentes ambientais. “Em todas essas etapas a matemática está envolvida. Isso exige a resolução de equações muito complicadas. Matemáticos desenvolvem maneiras de simular essas ações no computador”, explica Roberto Imbuzeiro, professor e pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).
Os cálculos e equações são a base para os computadores e todas as atividades feitas de maneira informatizada. A coleta e o processamento de dados em larga escala, chamados de “Big Data”, e o uso de algoritmos e de inteligência artificial também envolvem modelos matemáticos complexos que definem as informações que serão consideradas e a correlação entre elas. Esses recursos vão além apenas da área de tecnologias da informação e estão se espalhando cada vez mais por setores da economia. Segundo relatório da consultoria Frost e Sullivan divulgado neste ano, o mercado do chamado "Big Data" movimentou em 2016 R$ 3,5 bilhões no Brasil.
Fernando Senna, estudante, 17 anos, medalha de ouro na Olimpíada Latino Americana de Astronomia e Astronáutica, ocorrida no Chile neste ano, conta que a matemática o faz perceber como o mundo funciona. “O nosso universo depende de leis que são expressas matematicamente e eu acho incrível como podemos conhecer coisas que estão a anos luz de distância e ver como tudo isso funciona”, afirma.
Mudanças na educação
Na avaliação de Jhames Matos Sampaio, matemático e professor do Instituto de Ciências Exatas da Universidade de Brasília, a alta carga de conteúdos contribui para alimentar a resistência de muitos alunos em relação à matemática. Para mudar esse quadro, seria preciso investir em um tratamento mais lúdico dos assuntos. “As pessoas enxergam a matemática como uma punição, ou algo muito difícil. O aluno de ensino médio poderia ver menos conceitos para poder trabalhar mais a prática”, defende Sampaio.

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