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'Nove contos' revela a maestria de Salinger

Coletânea traz diálogos simples e potentes e imensa carga dramática de personagens sensíveis e deslocados perante a vida.
O escritor J.D. Salinger dá especial atenção a personagens jovens diante da sociedade de consumo.
O escritor J.D. Salinger dá especial atenção a personagens jovens diante da sociedade de consumo. (San Diego Historical Society)

Por Tadeu Sarmento*
Ao contrário do que à primeira vista possa parecer, não é pela aura de escritor recluso e obsessivo, nem por ter sido vinculado, a contragosto, aos célebres crimes cometidos por alguns de seus leitores, que J.D. Salinger vendeu milhões de exemplares de seus livros, garantindo sua inscrição no cânone literário ocidental. As causas de seu sucesso se resumem a três características, bem mais pertinentes e duradouras.
A primeira delas é a profunda habilidade que o autor norte-americano tem para criar diálogos supostamente corriqueiros, dos quais seus personagens emergem para ganhar força de vida, até a sua quase materialização em carne e osso. A segunda, é um lastro de inadaptação e sensibilidade que estes mesmos personagens carregam, como se fossem crianças que se recusaram a crescer para integrarem a sociedade de consumo e que, por conta disso, seguem esbarrando na louça por não perceberem o próprio tamanho.
A terceira e, não menos importante, característica, é a acentuada carga dramática que Salinger mantém rodando em segundo plano no texto, enquanto o desfile de fatos aparentemente banais se desenrola até o seu final, para onde o autor conduz seus leitores sem erguer a voz uma única vez, nem lançar mão de palavras grandiosas ou de muletas das frases de efeito.
Tais competências estão presentes em todas as Nove histórias que compõem a aclamada coletânea de contos do autor, relançada pela Editora Todavia com nova tradução de Caetano W. Galindo. Senão, vejamos. Em Um dia perfeito para peixes-bananas, a maestria de Salinger para compor diálogos não se limita apenas a nos distrair com subterfúgios, mas a desenhar, por fora, a narrativa da experiência de um trauma, conduzida em tom morno, sem horizonte de clímax à vista, até seu impactante final.
Com O tio Novelo em Connecticut a habilidade de tecer uma boa conversação prossegue, ao sugerir, na tensão do reencontro entre duas amigas da época da faculdade, um desenlace trágico, permutado de última hora pelo privilégio de desenterrar superficialmente um passado, cujo ensinamento é a noção vaga do preço que as pessoas estão dispostas a pagar para chegar onde querem.
Com Logo antes da guerra com os esquimós, a suposta mesquinhez da cobrança de uma corrida de táxi logo se transforma em um pequeno drama emocional sobre o ressentimento entre amigas que ocupam classes sociais distintas. Já O gargalhada, inscreve-se na tentativa do autor em dividir o mundo entre iluminados e corrompidos, identificando os jovens com os primeiros e reforçando a inadaptação como uma marca dessa identificação. Lá no bote mantém essa dicotomia, agora relacionada ao sonho persistente que toda criança já teve de fugir de casa um dia.
A ideia da fuga ligada à dificuldade de se adaptar, aliás, está presente em Salinger tanto em seu romance seminal (O apanhador no campo de centeio) quanto no conto seguinte, Para Esmé – com amor e sordidez, considerado a obra-prima do volume. Neste último, a fuga seria a tentativa que um soldado emprega para superar os traumas da guerra em sua vida: ler e escrever cartas para a garotinha que dá nome ao título, e que pede ao narrador que lhe escreva “uma história bem sórdida e comovente”.
A maturidade de Esmé é o símbolo ideal da importância dos personagens jovens na obra de Salinger, embora estes não se encontrem na narrativa seguinte, Linda a boca, e verde meus olhos, não por acaso, o único conto a destoar dos demais, ao tratar de um ciumento paranoico, com referências clichês à Madame Bovary, de Flaubert. Contudo, permanece no conto o esmero do escritor em compor diálogos tão naturais, que a impressão que fica é a de que estamos ouvindo as personagens falarem na mesa ao lado do restaurante.
O livro volta a ganhar força com O período azul de Daumier-Smith, no qual o deslocamento de um jovem pintor recém-chegado da França para viver nos Estados Unidos, expressa, na verdade, uma discussão sobre o lugar do artista em uma sociedade consumista, fechando com chave de ouro no conto Teddy, cujo tema orbita em torno daquilo que, tanto críticos quanto detratores, consideram a distinção principal dos livros de Salinger: sua aproximação com as filosofias orientais.
Última consideração: é ponto pacífico supor que, na essência, o sucesso de Salinger se deva a uma capacidade fora do comum de dar voz a todos que decidiram, depois de um longo processo de reflexão, apartar-se de um mundo onde o comodismo resulte de um embuste ideológico, criado para manter girando as rodas do consumo. O fato de essa voz ter ecoado nos jovens de várias gerações de forma tão profunda, a ponto de fazerem dela um credo confessional, é indício disto. Que a “salingermania” (para utilizar a expressão de seu principal biógrafo, Kenneth Slawenski) tenha criado laços de identificação capazes de fazer um jovem acreditar ser o Holden Caulfield dos tempos atuais, decidindo matar seu ídolo musical por crer que ele havia se vendido ao establishment, também o é.

NOVE HISTÓRIAS
De J.D. Salinger.
Todavia
208 páginas
R$ 54,90

*Tadeu Sarmento é escritor, autor de E se deus for um de nós? (Confraria do Vento), Associação Robert Walser para sósias anônimos (Cepe), entre outros.

O imperador no aquário

Hirohito amava o fundo do mar, onde os peixes são cegos e os caramujos morrem de timidez.
Paulo Leminski escreveu o conto
Paulo Leminski escreveu o conto "O imperador no aquário" em homenagem a Caetano Veloso.

Por Paulo Leminski*

Hirohito, Imperador do Japão, ama os peixes e os seres do fundo do mar.
Tem em seu palácio aquilo que é talvez o maior aquário do mundo.
Nele, centenas de enormes caixas de vidro encerram o peixes de água doce, as joias coruscantes dos sete mares, as singularidades do Amazonas, os siris, os caranguejos, as lulas, os polvos e as lâminas das piranhas e dos tubarões.
Na primavera passada, depois de longa espera, a televisão japonesa conseguiu uma entrevista com o Imperador.
Perguntaram:
- Qual a diferença entre um tubarão e um cação?
O Imperador olhou para o infinito, que é para onde um Imperador deve olhar, e respondeu:
- Tubarão é quando ele come a gente. Cação é quando a gente come ele.
O Japão inteiro levou um ano todo pensando na frase do Imperador, onde se sintetizava toda a sabedoria.
A paixão pelos peixes veio ao imperador depois da derrota na Guerra, quando, à sombra de dois cogumelos atômicos em Horoshima e Nagasaki, o Imperador mandou para a Rádio de Tókio um disco com um discurso de rendição. Como os imperadores e a família imperial só falam em japonês arcaico, o povo não entendeu muito direito o discurso de rendição: distinguiram apenas algumas palavras significando “guerra”, “morte”, destruição”, “ruínas”, “Japão”.
Desde a ocupação norte-americana, Hirohito entregou-se à sua paixão pelos peixes e outros seres das profundezas.
Todos os japoneses sabem que, nas tardes cinzentas de outono, seu Imperador está nos subterrâneos do palácio contemplando as incontáveis criaturas dos seus aquários.
Os que dão maior prazer ao Imperador são os peixes das profundidades abissais aonde a luz do Sol não chega, peixes cegos e luminosos que Hirohito trata como se fossem as joias da coroa, o Chauliodus, que acende e apaga como um trem na noite, o Ichtyococcus, uma nave espacial com a boca permanentemente aberta, o Lampedusys, que explode em luzes coloridas quando se aproxima da fêmea, o Pttyx, que risca na água sem parar uma linha hipnótica de fios de luz azuis e vermelhos.
Há os peixes que parecem outra coisa, peixes imóveis que lembram cáctus do deserto mexicano, um peixe que é idêntico às pedras onde mora, existe até mesmo um peixe que tem a cara do imperador.
Em um desses peixes, o Imperador acredita ver o antepassado mítico da família imperial, ininterruptamente reinante há mais de mil anos, descendente direto daquele peixe que a deusa do Sol, Amaterasum, cavalgou para escapar das forças do Caos, aquela outra mãe, mais antiga, sem nome, que a odiava e perseguia para devorá-la. 
Nas águas fundas do passado, nadam os ilustres ancestrais divinos, o Imperador Tennô, que separou a terra das águas, nos primórdios. O imperador Taika, seu bisneto, que deu as águas aos peixes e o céu aos passarinhos. A imperatriz Oku-ni, que deu de mamar à Lua durante um eclipse.
Mas já é tarde. 
O imperador se retira, apagando as luzes do aquário, dando boa noite a todos os peixes.
Recolhe-se ao quarto imperial onde deita e dorme, sonhando com peixes luminosos e cegos.

*Nos anos 1980, quando a Vogue Brasil era propriedade da família Carta, era tradição dedicar uma edição, anualmente, a um autor brasileiro de destaque. O escolhido de 1988 foi Caetano Veloso. Como redator-chefe da revista, sob o comando da editora Regina Guerreiro, no embalo da preparação daquele número especial, num fim de tarde aparece na redação, sem aviso prévio, uma figura envolta numa longa capa preta, que se anunciou como Paulo Leminski (1944-1989), trazendo alguns textos dedicados a Caetano, um dos quais gostaria de ver publicado na tal edição. Só o conhecia de nome, mas os textos eram brilhantes. Um deles foi publicado, os demais ficaram esquecidos entre os meus alfarrábios até bem pouco. Finalmente, tenho a honra de dar à luz este texto inédito, uma pérola do genial escritor curitibano (Marco Lacerda, escritor e Editor Especial do Dom Total).

Contos de Jarid Arraes expõem opressões cotidianas

Escritora cearense explora intimidade de personagens femininas marginalizadas com narrativas curtas, mas repletas de tensões e surpresas.
Escritora cearense explora intimidade de personagens femininas marginalizadas com narrativas curtas, mas repletas de tensões e surpresas.
Escritora cearense explora intimidade de personagens femininas marginalizadas com narrativas curtas, mas repletas de tensões e surpresas. (Cia das Letras)

Por Jacques Fux*
Em Cadernos do cárcere, o filósofo italiano Antonio Gramsci denominou “subalternos” aqueles pertencentes às classes oprimidas, substituindo o termo marxista, e comumente utilizado até então, “proletariado”. Novos e contemporâneos teóricos perceberam que as mais variadas formas de opressão vão além da classe e da condição econômica: há também a opressão em virtude da cultura, raça, religião, orientação e preferência sexuais e etnicidade.
Para a crítica literária Gayatri Spivak – autora do pioneiro e importante estudo, Pode o subalterno falar – o subalterno é aquele que não é e não pode/deve ser representado, inclusive na própria representação que se propõe dar a ele – porque, logicamente, no momento em que ele é representado, passa a ser inserido no discurso e perde o caráter de subalternidade. Esse seria um paradoxo acerca da hegemonia da escrita/lugar de fala, porém muito interessante e essencial para o estudo da pensadora indiana.
Em O que é lugar de fala?, Djamila Ribeiro expande as propostas e questões de Gramsci e Spivak e reflete sobre o feminismo negro. A filósofa paulista se utiliza de conceitos e teorias para combater a ideia de que existiria uma precedência de uma determinada forma de opressão. A autora argumenta que é preciso retratar/narrar acerca dos vários e distintos grupos sociais, em suas particularidades e individualidades, mostrando, posteriormente, que alguns desses grupos partilham experiências próximas.
Em Redemoinho em dia quente, Jarrid Arraes incorpora e amplia, por meio de seus contos de ficção, a teoria cunhada por Spivak, Gramsci e Djamila Ribeiro. A autora cria personagens – muitas delas lésbicas, religiosas drogadas, idosas, bissexuais, trans e negras – e as coloca no centro da discussão contemporânea. Nascida em Juazeiro do Norte, na Região do Cariri (CE), em 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora dos livros: Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. É atual curadora do selo literário Ferina, vive em São Paulo e tem mais de 70 títulos publicados em literatura de cordel que também exploram esse universo.
Nos 30 contos presentes no Redemoinho, Jarrid nos conduz por percursos e histórias que retratam o cotidiano e a intimidade de mulheres esquecidas ou desprezadas pela “narrativa hegemônica oficial” – algo que, felizmente, está/deve mudar. Oprimidas, contraditórias, profundas, crentes e rebeldes, suas personagens nos fazem sair do conforto da leitura e do nosso lugar social (privilegiado). Há sempre uma ação impactante, um evento tenso e surpreendente, que transforma/transtorna a linearidade e a expectativa do vulgar ao longo do texto. Nesses momentos, acontece, entretanto, uma ruptura abrupta da trama – e a linguagem, por vezes, se encontra dissociada e afastada do espaço narrativo criado pela autora. O texto não é comprometido, embora um certo estranhamento se manifeste.
Em A experiência-limite, o escritor e crítico francês Maurice Blanchot escreve sobre o lugar em que aparece a violência no martírio/angústia/crueldade imposta por um ser humano em relação a outro. Essa violência não pode ser encontrada somente nos tormentos psíquicos e físicos – como podemos comprovar nos contos de Jarrid – ela se dá no cotidiano, nos eventos banais e na vida de todas as pessoas. Blanchot, em seu diálogo com o escritor francês Georges Bataille, encontrado no livro L’expérience intérieur, diz que a questão da experiência é, de alguma forma, uma questão de autoridade.
À margem do discurso dominante-hegemônico, temos as experiências/autoridades dessas personagens elaboradas por Jarrid, que transitam entre espaços julgados anteriormente periféricos e que vivem as mais diversas “experiências-limite”. Em seus contos, percebe-se o dominante silêncio da opressão, agora metamorfoseado em palavras e histórias. Paradoxalmente, essa mesma palavra – intensa, dramática e também banal –, é capaz de expor, enaltecer e enobrecer o silêncio da marginalidade e da invisibilidade social (antiga, atual e acertadamente em mudança).

REDEMOINHO EM DIA QUENTE
De Jarid Arraes
Companhia das Letras
152 páginas
R$ 39,90 e R$ 27,90 (digital)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.
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