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Choram porque amam

Padre Geovane Saraiva* Como é bom rezar e colocar em primeiro lugar o mistério da redenção! Nem sempre, porém, sabemos rezar e nem d...

28 de junho de 2019

VAMOS ENFRAQUECER O MINISTÉRIO PÚBLICO

O Ministério Público (MP) é uma das instituições mais perigosas que pode haver em nossa História republicana, e somos nós, os legisladores, os culpados. De mero fiscal da lei, se agigantou e se tornou um monstro capaz de nos engolir.
O MP não pode mais protagonizar investigações que tem levado políticos e agentes públicos corruptos à prisão, por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, etc, reduzindo-os à condição de larápios da coisa pública.
O MP não pode ficar falando sobre os casos em que atuam, dando entrevistas, deturpando nossa imagem perante nossos familiares, amigos e eleitores.
O MP deve responder judicialmente sempre que ousar ingressar com investigação ou processo contra nós, políticos e agentes públicos, suspeitos de cometer atos de corrupção ou de improbidade.
O MP não pode ficar xeretando a vida dos políticos e dos agentes públicos sem que nada lhe aconteça. Por isso, deve pensar duas a dez vezes antes de agir, antes de nos investigar e nos processar. Deve ficar vulnerável e ciente de que pode sofrer sérias punições caso mexa com quem não deve.
Vamos aprovar aquele projeto de iniciativa popular das “Dez Medidas contra a Corrupção”. Não daquele jeito, claro, mas alterado a nosso gosto!
Vamos tornar crime eleitoral o Caixa 2 e tornar hediondo o crime de corrupção. Nada mais justo, afinal, quem vai ter coragem de nos investigar se sabe que vai responder a processo, podendo ser preso e vir a perder o cargo? E se forem provocados e não agirem, serão também punidos.
Um golpe de mestre.
Eis o resumo da ópera que envolve a aprovação do Projeto de Lei no 27/2017, pelo Senado Federal.
O PL 27/2017 tem um destinatário certo: os membros do MP e os magistrados da Lava Jato.
Mas o MP não é somente a Lava Jato.
Tampouco a magistratura.
O MP é muito mais.
É o MP que atua nas questões relacionadas aos indígenas, ao meio ambiente, à infância e à adolescência, aos portadores de necessidades especiais, ao direito do consumidor.
É o MP que ingressa com ações civis públicas relativas aos desvios de merenda escolar, contra a precariedade do transporte escolar, contra a indevida cobrança de taxas e impostos, para garantir o pagamento de salários dos funcionários cujo município atrasa, para garantir que o estado pague por medicamentos caros àqueles que não podem pagar.
O MP é a instituição a quem o cidadão recorre para fazer valer seu direito, porque acredita em sua atuação.
O MP não é a instituição a quem o malfeitor ou o corrupto simpatiza ou deseja ter em seu encalço.
Enfraquecendo o MP, enfraquecida ficará a sociedade.

GRECIANNY CORDEIRO
PROMOTORA DE JUSTIÇA

Rapper confirmado na Flip transita entre poesia e horror em trama sobre o genocídio na Ruanda


Publicado pela Editora Rádio Londres, “Meu pequeno país” é a estreia literária de Gaël Faye


Mais conhecido no cenário musical, Gaël Faye faz marcante estreia literária
Crédito: Nyirimihigo
A voz que ouvimos marcar o papel é de uma criança. Perdida, confessa: “Não sei bem ao certo como esta história começou”. Agarra-se, assim, ao pai para elucidar fatos que, à tenra idade, pouco há para compreender, acerca das diferenças entre as etnias hutu e tútsi. Da maneira mais singular, pueril e absoluta possível, ele responde: “Tudo depende do nariz e da altura das pessoas’. 
“Este talvez seja um dos motivos que tornam imperdível a leitura do livro”, explica Maria de Fátima Oliva do Coutto. Ela é tradutora de “Meu pequeno país”, estreia literária do romancista e rapper africano radicado na França Gaël Faye, 14ª presença confirmada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano. A obra surge como o lançamento de junho da Editora Rádio Londres, detentora de respeitado catálogo de contemporâneos e talentosos nomes da literatura mundial – caso do colombiano Andrés Caicedo, do holandês Arnon Grunberg, da francesa Maylis de Kerangal, entre outros.
Em breves linhas, a trama assinada por Faye tenta explicar as origens do genocídio ocorrido na Ruanda nos anos 1990 a partir do crescendo de violência instaurado no local. Para isso, utiliza-se do olhar do pequeno Gabriel, residente em um bairro nobre de Bujumbura, no Burundi, que vivencia o choque dos conflitos étnicos e políticos e a consequente perda da inocência. 
Ainda que ficcional, a narrativa espelha algo maior: é baseada nas próprias experiências da vida do escritor. Feito Gabriel, Gaël também sentiu o impacto da conflagração no país natal, responsável por liquidar mais de 800 mil pessoas – capítulo dos mais sangrentos da história daquela nação. Igualmente, passou a se descobrir como mestiço, tutsi e, posteriormente, francês.
“O autor nos apresenta um tema muito específico, mas com apelo universal, a partir da questão da perda da infância, do paraíso perdido. Essa primeira fase da vida deixa em todos marcas indeléveis, que Gaël nos faz reviver com a história do pequeno Gabriel, sua família, amigos e de seu pequeno país, por meio de uma escrita delicada e que prima em recriar sensações desaparecidas no tempo. Ele usa as palavras como um mágico”, sublinha Fátima, em entrevista ao Verso.
Expressões
Odores, luzes e sons traçam o rastro das origens do escritor no papel. Desta feita, a música, enquanto um desses elementos, está bastante presente na obra. Em determinado trecho da narrativa, por exemplo, ficamos sabendo que, no Burundi, era tradição tocarem música clássica na rádio quando havia um golpe de Estado. 
Daí, rememoramos diversos deles por meio da Sonata para piano nº 21, de Schubert; pela Sinfonia nº 7, de Beethoven, entre outras. Segundo a tradutora, “acabei contagiada pelo som – a rumba, o chá-chá-chá, o soukouss –, e fui apresentada a cantores como Papa Wemba e à orquestra Grand Kallé”.
Fátima ainda sublinha aspectos importantes referentes ao processo de transposição do livro do francês para o português. De maneira geral, ela elucida que, no ofício, é sempre necessário estar muito atento ao modo como o autor narra a história, à época em que se passa e à carga emocional embutida no material. Com “Meu Pequeno País” não foi diferente. 
“O livro é quase todo narrado por uma criança e, portanto, o linguajar é infantil, sobretudo durante a narrativa da infância despreocupada dos primeiros tempos. Neste ponto, é interessante observar que quase todas as frases seguem a mesma construção – forma direta: sujeito, verbo e predicado –, não há construções na voz passiva e o texto é recheado de comparações. Tudo sem jamais perder a enorme carga de dramaticidade e lirismo”.
Urgências
Talvez uma das habilidades mais preciosas de Gaël enquanto artesão do verbo escrito é possuir uma perspectiva poética e estilo suave para dizer coisas muito duras com palavras doces, o que confere nova atmosfera ao relato. Fala das brincadeiras da turma, mas também dos massacres e carnificina; enfoca em detalhes íntimos, sem deixar de dramatizar a terrível nostalgia de ter perdido não apenas a inocência na infância, como o próprio mundo para a guerra.
Conforme destaca Fátima, “faltam demarcações entre o bom e o mal, a sanidade e a insanidade, a pureza e a corrupção. Não há juízo de valor, ele vai capturando o impacto da desintegração social, a morte da inocência. Tem uma visão de mundo poética, embora política”.
Nesse movimento, enquanto se discute tanto sobre imigração hoje, a leitura do livro chega como convite para compreendermos melhor o sofrimento dos que são obrigados a deixar para trás as próprias raízes. E mostrar o quão difícil é a assimilação, os preconceitos enfrentados.
A obra, não à toa, também trata da aceitação do diferente, outra temática bastante discutida na contemporaneidade. Como o narrador diz, já adulto e na França: “Vivo numa cidade nova como uma vida sem passado”, enfatizando que, sempre ao conhecer uma possível parceira, surge a pergunta sobre sua origem, como uma passagem quase obrigatória para aprofundar a relação. “Sua pele ‘cor de caramelo’ é, com frequência, intimada a enunciar seu pedigree”, arremata a tradutora.
Ao vir para o Brasil, Gaël Faye deve, portanto, alimentar a curiosidade do público por obras que fujam do eixo convencional, além de demarcar uma realidade animadora para o setor editorial: o número de autores africanos traduzidos no País, estatística que tem crescido (apesar de ainda carecer de maiores olhares).
Delicado, intenso e vigoroso, “Meu pequeno país” reflete tal relevância: já transbordou, virou pátria maior. Ganhou cinco prêmios literários na França, tradução em mais de 30 idiomas e está em fase de adaptação cinematográfica. Uma pequena obra-prima.
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Meu pequeno país 
Gaël Faye 
Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto 
Rádio Londres 
2019, 189 páginas 
R$ 59, 50

> Saiba Mais: Novidades no front da Rádio Londres
Nas redes sociais, a Editora Rádio Londres, à frente da publicação de “Meu pequeno país” no Brasil, já divulgou os próximos lançamentos para este ano. Em julho, sai “Canto da Planície”, do americano Kent Haruf; em agosto, “O Desvio”, do holandês Gerbrand Bakker; em setembro, “No final da tarde”, de Kent Haruf; nos dois últimos meses de 2019, “Em busca do Barão Corvo”, de A. J. A Symons, e “O Imitador de Homens”, de Walter Tevis, respectivamente.

Diário do Nordeste

Não às drogas

Por Gonzaga Mota - Professor aposentado da UFC

A produção e a venda de drogas, bem como a lavagem do dinheiro do tráfico, constituem, sem dúvida, um dos principais elementos de complicação dos entendimentos políticos, econômicos e sociais do século XXI no mundo. Vale ressaltar que a atividade criminosa vem sendo estimulada, em muitos pontos, pelo processo de globalização, baseado num relacionamento perverso do tipo centro-periferia, pelos problemas éticos e morais de determinadas autoridades públicas, bem como pela certeza de impunidade, principalmente no que diz respeito aos crimes do “colarinho branco”. Sem dúvida, é lamentável, o narcotráfico tornou-se em importante atividade econômica para alguns países. Passando dos aspectos macros, para aqueles relacionados intrinsecamente com as famílias e as pessoas, percebemos com mais nitidez o mal causado pelas drogas. A desarticulação familiar, filhos matando pais e vice-versa e irmão destruindo literalmente a vida de irmãos, leva-nos a prever dias de angústias, de desesperança e de mais violência. Estamos perplexos e com medo. Sem deixar de reconhecermos a importância da repressão, acreditamos na eficácia da prevenção, mediante investimentos na área social, criação de empregos, melhoria na distribuição de renda, redução da pobreza, enfim, no desenvolvimento integrado e sustentável. A droga deixou apenas de ser um negócio escuso para se tornar, contra a vontade da grande maioria das nações, num problema cultural. Devemos aproveitar a globalização para combater o narcotráfico e não, como já foi mencionado, para facilitar. Precisamos ter consciência de que o sentido da vida é ser útil e feliz. Não apenas por palavras, mas também mediante atitudes simbólicas, pode-se externar bom comportamento. Pensar e agir com lucidez constituem o caminho para a solução dos problemas. Nunca é tarde e impossível para ser feliz. Procurar a morte é covardia. Não às drogas.

Podcast: Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (28/06/19)