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Rapper confirmado na Flip transita entre poesia e horror em trama sobre o genocídio na Ruanda


Publicado pela Editora Rádio Londres, “Meu pequeno país” é a estreia literária de Gaël Faye


Mais conhecido no cenário musical, Gaël Faye faz marcante estreia literária
Crédito: Nyirimihigo
A voz que ouvimos marcar o papel é de uma criança. Perdida, confessa: “Não sei bem ao certo como esta história começou”. Agarra-se, assim, ao pai para elucidar fatos que, à tenra idade, pouco há para compreender, acerca das diferenças entre as etnias hutu e tútsi. Da maneira mais singular, pueril e absoluta possível, ele responde: “Tudo depende do nariz e da altura das pessoas’. 
“Este talvez seja um dos motivos que tornam imperdível a leitura do livro”, explica Maria de Fátima Oliva do Coutto. Ela é tradutora de “Meu pequeno país”, estreia literária do romancista e rapper africano radicado na França Gaël Faye, 14ª presença confirmada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano. A obra surge como o lançamento de junho da Editora Rádio Londres, detentora de respeitado catálogo de contemporâneos e talentosos nomes da literatura mundial – caso do colombiano Andrés Caicedo, do holandês Arnon Grunberg, da francesa Maylis de Kerangal, entre outros.
Em breves linhas, a trama assinada por Faye tenta explicar as origens do genocídio ocorrido na Ruanda nos anos 1990 a partir do crescendo de violência instaurado no local. Para isso, utiliza-se do olhar do pequeno Gabriel, residente em um bairro nobre de Bujumbura, no Burundi, que vivencia o choque dos conflitos étnicos e políticos e a consequente perda da inocência. 
Ainda que ficcional, a narrativa espelha algo maior: é baseada nas próprias experiências da vida do escritor. Feito Gabriel, Gaël também sentiu o impacto da conflagração no país natal, responsável por liquidar mais de 800 mil pessoas – capítulo dos mais sangrentos da história daquela nação. Igualmente, passou a se descobrir como mestiço, tutsi e, posteriormente, francês.
“O autor nos apresenta um tema muito específico, mas com apelo universal, a partir da questão da perda da infância, do paraíso perdido. Essa primeira fase da vida deixa em todos marcas indeléveis, que Gaël nos faz reviver com a história do pequeno Gabriel, sua família, amigos e de seu pequeno país, por meio de uma escrita delicada e que prima em recriar sensações desaparecidas no tempo. Ele usa as palavras como um mágico”, sublinha Fátima, em entrevista ao Verso.
Expressões
Odores, luzes e sons traçam o rastro das origens do escritor no papel. Desta feita, a música, enquanto um desses elementos, está bastante presente na obra. Em determinado trecho da narrativa, por exemplo, ficamos sabendo que, no Burundi, era tradição tocarem música clássica na rádio quando havia um golpe de Estado. 
Daí, rememoramos diversos deles por meio da Sonata para piano nº 21, de Schubert; pela Sinfonia nº 7, de Beethoven, entre outras. Segundo a tradutora, “acabei contagiada pelo som – a rumba, o chá-chá-chá, o soukouss –, e fui apresentada a cantores como Papa Wemba e à orquestra Grand Kallé”.
Fátima ainda sublinha aspectos importantes referentes ao processo de transposição do livro do francês para o português. De maneira geral, ela elucida que, no ofício, é sempre necessário estar muito atento ao modo como o autor narra a história, à época em que se passa e à carga emocional embutida no material. Com “Meu Pequeno País” não foi diferente. 
“O livro é quase todo narrado por uma criança e, portanto, o linguajar é infantil, sobretudo durante a narrativa da infância despreocupada dos primeiros tempos. Neste ponto, é interessante observar que quase todas as frases seguem a mesma construção – forma direta: sujeito, verbo e predicado –, não há construções na voz passiva e o texto é recheado de comparações. Tudo sem jamais perder a enorme carga de dramaticidade e lirismo”.
Urgências
Talvez uma das habilidades mais preciosas de Gaël enquanto artesão do verbo escrito é possuir uma perspectiva poética e estilo suave para dizer coisas muito duras com palavras doces, o que confere nova atmosfera ao relato. Fala das brincadeiras da turma, mas também dos massacres e carnificina; enfoca em detalhes íntimos, sem deixar de dramatizar a terrível nostalgia de ter perdido não apenas a inocência na infância, como o próprio mundo para a guerra.
Conforme destaca Fátima, “faltam demarcações entre o bom e o mal, a sanidade e a insanidade, a pureza e a corrupção. Não há juízo de valor, ele vai capturando o impacto da desintegração social, a morte da inocência. Tem uma visão de mundo poética, embora política”.
Nesse movimento, enquanto se discute tanto sobre imigração hoje, a leitura do livro chega como convite para compreendermos melhor o sofrimento dos que são obrigados a deixar para trás as próprias raízes. E mostrar o quão difícil é a assimilação, os preconceitos enfrentados.
A obra, não à toa, também trata da aceitação do diferente, outra temática bastante discutida na contemporaneidade. Como o narrador diz, já adulto e na França: “Vivo numa cidade nova como uma vida sem passado”, enfatizando que, sempre ao conhecer uma possível parceira, surge a pergunta sobre sua origem, como uma passagem quase obrigatória para aprofundar a relação. “Sua pele ‘cor de caramelo’ é, com frequência, intimada a enunciar seu pedigree”, arremata a tradutora.
Ao vir para o Brasil, Gaël Faye deve, portanto, alimentar a curiosidade do público por obras que fujam do eixo convencional, além de demarcar uma realidade animadora para o setor editorial: o número de autores africanos traduzidos no País, estatística que tem crescido (apesar de ainda carecer de maiores olhares).
Delicado, intenso e vigoroso, “Meu pequeno país” reflete tal relevância: já transbordou, virou pátria maior. Ganhou cinco prêmios literários na França, tradução em mais de 30 idiomas e está em fase de adaptação cinematográfica. Uma pequena obra-prima.
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Meu pequeno país 
Gaël Faye 
Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto 
Rádio Londres 
2019, 189 páginas 
R$ 59, 50

> Saiba Mais: Novidades no front da Rádio Londres
Nas redes sociais, a Editora Rádio Londres, à frente da publicação de “Meu pequeno país” no Brasil, já divulgou os próximos lançamentos para este ano. Em julho, sai “Canto da Planície”, do americano Kent Haruf; em agosto, “O Desvio”, do holandês Gerbrand Bakker; em setembro, “No final da tarde”, de Kent Haruf; nos dois últimos meses de 2019, “Em busca do Barão Corvo”, de A. J. A Symons, e “O Imitador de Homens”, de Walter Tevis, respectivamente.

Diário do Nordeste

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