Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens

Cristãos e cristãs, comam (a) história!

 Precisamos encontrar os desígnios salvíficos de Deus Deus na história


Comer do livro diz respeito à vocação profética

Comer do livro diz respeito à vocação profética (Unsplash/Ryan Riggins)

Felipe Magalhães Francisco*

"Eu fui até o anjo e pedi que me entregasse o livrinho. Ele me falou: 'Pega e devora. Será amargo no estômago, mas na tua boca será doce como mel'. Peguei da mão do anjo o livrinho e o devorei [...]. Então me foi dito: 'Deves profetizar ainda contra muitos povos e nações, línguas e reis'" (Ap 10,9-11). A ordem celeste dada a João, o vidente do Apocalipse, é bastante inspiradora para nos ajudar a pensar a atuação cristã no mundo, no momento atual em que nos encontramos. Como em todo o livro do Apocalipse, o comer o livro é um símbolo muito importante, pois está ligado à missão profética, tal como nos inspira o Livro do Profeta Ezequiel (cf. 2,8).

Antes, porém, de nos dedicarmos a refletir sobre o gesto simbólico de comer o livro, faz-se necessário que nos atenhamos ao símbolo mesmo que representa o livro no Apocalipse. O capítulo 5 introduz o tema do livro: o vidente vê, na mão direita de quem estava sentado no trono – o próprio Deus – um livro, que é descrito como que sendo um rolo, escrito por dentro e por fora. Esse livro estava lacrado com sete selos. Sete, aqui, tem um valor qualitativo – portanto, simbólico: esse livro estava plenamente lacrado, inacessível, o que leva um anjo, de voz forte, a proclamar uma importante questão sobre quem é digno de romper os sete selos. A narrativa diz que João, o vidente, chorava, porque ninguém havia sido mostrado digno de romper os selos. Um ancião, porém, disse a João: "Não chores! Vê, o leão da tribo de Judá, o rebento de Davi saiu vencedor. Ele pode romper os selos e abrir o livro" (Ap 5,5).

Certamente, o ancião se referia a Jesus, o que em seguida fica claro, quando se fala do Cordeiro. A imagem do Cordeiro traz um paradoxo interessante: esse personagem é apresentado estando de pé, "como que imolado" (5,6). Os cristãos e cristãs são chamados, tão logo, a reconhecer: o Cordeiro é o crucificado-ressuscitado. Ele é, pois, o único digno de romper os lacres do livro, afinal ele é o vitorioso. Além disso, e sobretudo, ele é o "Alfa e o Ômega" (Ap 1,8), isto é, aquele que é o princípio e o fim, portanto o pleno conhecedor da história. Aqui, pois, desvela-se para nós o significado do símbolo do livro no Apocalipse: significa a História. Não é sem motivos que, a cada selo rompido, revelações e suas respectivas interpretações (apocalipse) são feitas.

Abrir o livro, na literatura apocalíptica, significa, pois, revelar os segredos da história, os mistérios da origem e do destino do mundo. O que mais especificamente faz a literatura apocalíptica é uma teologia da história, pois é na história que precisamos encontrar os desígnios salvíficos de Deus, bem como apontar toda a ação do anti-Deus, que atua para impedir a salvação. Quando o autor do Apocalipse de João mostra que o Cordeiro é digno de romper os selos, ele ajuda os cristãos e cristãs a compreenderem que, a partir de sua fé, o mistério da vida do crucificado-ressuscitado é o que ilumina a verdadeira leitura e o entendimento da história.

Há muito o que podemos aprender com tudo isso. Um elemento, nisso tudo, merece destaque: quando cristãos e cristãs perdem sua capacidade de ler, criticamente à luz da fé, a história, sempre recaem nas armadilhas feitas pelo anti-Deus, isto é, pelo maléfico sedutor. Ao olharmos para a história do cristianismo no mundo, perceberemos que, muitas vezes, cristãos e cristãs se aliaram ao poder do anti-Deus, pensando que lutavam contra o mal. Saber ler a história é critério fundamental para o comprometimento verdadeiro com o Evangelho do Reino de Deus.

Em nossa atualidade brasileira, temos visto como cristãos e cristãs se aliaram ao perverso, em nome daquilo que julgam como que sendo bons valores. Na verdade, o grito perverso contra a diferença, contra a pluralidade, contra o diálogo é sinal de que deixamos de saber ler a história. Se não sabemos ler a história, não sabemos atuar verdadeiramente como profetas. A ordem dada a João, para que comesse do livro, é uma exortação forte, que precisa ecoar entre os cristãos e cristãs de hoje: devemos saber ler a história; devemos fazer com que essa história entranhe em nós. É preciso que não nos atenhamos ao doce que fica na boca: é preciso ir além, deixando que o amargo desse livro alcance nossas entranhas.

Como dissemos, comer do livro diz respeito à vocação profética. E, no caso dos cristãos e cristãs, batizados e, por isso mesmo, comprometidos com a missão do próprio Cristo, o Cordeiro imolado-vitorioso, precisamos assumir uma postura profética no mundo. E isso só bem o faremos, se nos permitirmos redescobrir a importância e a prática de ler a história. O livro já nos foi aberto, isto é, revelado: tal como João, que recebeu o livro aberto, também nós precisamos ter o Evangelho como luz que nos ajuda a compreender a história, para fazermos a opção pelo Deus da Vida, o Senhor absoluto, e não nos deixarmos seduzir por falsos messias que nos arrastam para a morte e são empecilho para a instauração do mundo novo que há de vir. Comamos, pois, a história!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

Os doentes não-Covid face à urgência da Covid-19

 



Um dos principais problemas do nosso sistema de saúde, ao longo do ano de 2020, durante a urgência dos doentes-Covid, foi o atraso no atendimento aos restantes doentes.

Com efeito, os serviços hospitalares realizaram, a nível nacional, entre janeiro e final de junho de 2020, 896.000 consultas a menos, comparando com doze milhões de consultas anuais em 2019. Por sua vez, os Cuidados de saúde primários realizaram menos 1,1 milhões de consultas, no mesmo período, comparando com trinta e um milhões de consultas realizadas em 2019 [iii].

O número de cirurgias programadas não realizadas, a nível nacional,  não é menos impactante: de 58.829 realizadas em Março de 2019, caiu-se para 31.216 em Março de 2020 [iv].

No Distrito de Bragança,  no mesmo período, a crise Covid-19 «levou à suspensão da atividade assistencial programada e ao cancelamento de 7.687 consultas e 584 cirurgias» nas unidades hospitalares da Unidade Local de Saúde [v], 50% das quais remarcadas até ao final de Agosto.

Estes atraso, suspensão e cancelamento, nos diferentes espaços territoriais, dever-se-ão essencialmente a duas razões: 1) menor procura social dos serviços de saúde, sobretudo por pessoas acima dos 70 anos, presumivelmente por receio de contaminação; e 2) problemas derivados da reorganização dos serviços de saúde, quer dos cuidados primários quer dos cuidados hospitalares segundo circuitos diferenciados para doentes-Covid e doentes não-Covid, com realocação e readaptação de recursos humanos.

A informação disponível sobre o número de mortos a mais, em 2020, a nível nacional e até ao final de Agosto (6.312), relativamente ao período homólogo do último quinquénio (2015-2019) [vi], permite-nos agora hipotetizar a profundidade e extensão do abandono a que os doentes não-covid foram submetidos, não se conhecendo devidamente as causas da sua morte, o que poderá aumentar as mortes por Covid-19.

De qualquer modo, o atraso nas consultas e nas cirurgias é um indicador poderoso, mesmo se atenuado pelo recurso à telemedicina, que a inevitável desatualização dos sistemas TIC, por parte dos serviços de saúde, e da infoexclusão, por parte das pessoas acima dos 50 anos, não permitiram tornar totalmente eficaz ainda que muito contribuindo para o não maior aumento de consultas não realizadas [vii].

É verdade que o sistema de saúde e os seus profissionais viveram – e ainda viverão – um período de ambiente e tecnologia incertos face ao SARS-CoV-2, mas, adquiridos procedimentos contra o contágio, será tempo de criar eficácia no sistema, mesmo nas situações que exigem tecnologia intensiva [viii] como são as intervenções cirúrgicas e o tratamento de doentes-Covid-19, que impõem a abordagem multidisciplinar.

É da mais elementar justiça, com vista a um convívio social pacífico e saudável, que os portugueses sintam confiança no seu sistema de saúde. Os tempos de caos são excelentes para a reengenharia e para a reinvenção da excelência organizacional [ix] tanto mais que a pandemia veio manifestar, mais uma vez, a grande qualidade humana e técnico-científica dos nossos profissionais e do nosso sistema de saúde, sobretudo do subsistema hospitalar.

Elisabete Pinelo, Médica internista com diferenciação em imunologia e diretora do internato médico na Unidade Local de Saúde do Nordeste. Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz – Bragança/Miranda

Henrique da Costa Ferreira, Professor Coordenador Aposentado do Instituto Politécnico de Bragança, área de Ciências da Educação – Sociologia das Organizações Educativas e Administração da Educação. Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz – Bragança/Miranda

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt

Autor: Elisabete Pinelo e Henrique Ferreira, Diocese de Bragança-Miranda 

Papa Francisco: O Crucifixo é o grande livro do amor de Deus

(ACI).- O Papa Francisco destacou hoje, 14 de setembro, dia em que a Igreja celebra a Exaltação da Cruz, que o Crucifixo "é o grande livro do amor de Deus".

Assim indicou o Santo Padre em uma mensagem escrita em sua conta oficial no Twitter @Pontifiex_pt na qual enfatizou que "a revelação do amor de Deus por nós parece uma loucura", mas acrescentou que "cada vez que olhamos para o Crucifixo, encontramos esse amor. O Crucifixo é o grande livro do amor de Deus".

Nesta linha, o Papa Francisco exortou na Audiência Geral da quarta-feira da última Semana Santa a "abrir todo o coração na oração" com o Crucifixo e o Evangelho.

“Deixemos que ele fixe seu olhar em nós” para entender que “não estamos sozinhos, mas somos amados, porque o Senhor não nos abandona e nunca se esquece de nós, nunca!”, disse o Papa em 8 de abril de 2020.

Além disso, o Santo Padre convidou no Ângelus de 12 de março de 2017 a contemplar “com devoção a imagem do Crucifixo” porque “é o símbolo da fé cristã, é o emblema de Jesus, morto e ressuscitado por nós”.

Nesse sentido, o Papa explicou que a cruz "é o sinal mais desconcertante" porque "é realmente uma revelação de Deus de cabeça para baixo", pois "precisamente por meio da cruz, Jesus chegará à gloriosa ressurreição" e que será definitiva.

“Jesus transfigurado no Monte Tabor quis mostrar aos seus discípulos a sua glória, não para evitar a eles que passassem pela cruz, mas para indicar aonde leva a cruz. O que morre com Cristo, com Cristo ressuscitará. E a cruz é a porta da ressurreição. Quem luta junto a Ele, com Ele triunfará”, afirmou.

Por último, o Santo Padre advertiu naquela ocasião que “a cruz cristã não é uma mobília da casa ou um ornamento a ser usado, mas a cruz cristã é uma recordação do amor com o qual Jesus se sacrificou para salvar a humanidade do mal e do pecado”.

Você atrai aquilo que...

 Terrores cotidianos que nos perseguem

Alguma força estranha faz com que a gente atraia justamente aquilo que não suporta
Alguma força estranha faz com que a gente atraia justamente aquilo que não suporta (Unsplash/Dan-Cristian Padure?)

Fernando Fabbrini*

Volta e meia alguém comenta a chamada "lei da atração", teoria interessante que afirma que a gente atrai exatamente aquilo em que crê. Ou seja: se você acredita em Papai Noel, o bom velhinho descerá pela chaminé e botará um presente junto à sua lareira. (Desde que você providencie chaminé e lareira no calorão do próximo dezembro). Entretanto, ando bastante interessado no inverso. Acredito que alguma força estranha faz com que a gente atraia justamente aquilo que não suporta ?" para nos testar ou só de sacanagem.

Um amigo tem neura de fios de cabelos, resíduos suspeitos e objetos não identificados na sua refeição. Claro que ninguém gosta desses condimentos no prato. Porém, o caso dele é de exagero, um pavor exacerbado, uma fobia digna de psicanalista. Imaginemos, então, que esse indivíduo esteja num jantar chiquérrimo no Palácio de Buckingham, 100 convidados. Lá na cabeceira, a rainha sente uma coceirinha na nuca, esfrega o local e continua sua conversa com Boris Johnson. Por conta do gesto, um fiapo de cabelo real prateado sairá voando e pousará... adivinha onde, pessoal? No prato do meu amigo! Lei da atração! E, se entre os ingredientes utilizados no preparo da feijoada anual que ele frequenta existir uma única e minúscula pedrinha, esta terá 99,9% de possibilidades de cair no prato dele ?" que a morderá, destruindo a resina novinha do molar.  

Outra amiga me revelou que em dias de caos doméstico é assombrada pela Whitney Houston esgoelando Gratest love of all, ?" música que odeia. Síndico reclamando no telefone; banheiro entupido; filho atrasado no dever de casa; faxineira faltou; pneu furado do carro: se ela ligar o rádio, lá estará a canção odiada. Um inferno.

Também sou vítima recorrente da atração. Com frequência cada vez mais alarmante, perseguem-me duas coisas que abomino: pessoas que fazem barulho no cinema e o odor do perfume feminino Lou Lou. Já me conformei. Ambos compõem meu carma, a lista de pecados que devo pagar e superar nesta existência.

Por conta da atração, a adocicada, penetrante, inconfundível e nauseante fragrância Lou Lou aborda-me propositadamente em locais fechados, de modo a impedir minha fuga. Elevadores velhos e lentos são áreas habituais. Embarco no térreo rumo ao 20º andar e, na sobreloja, adentra uma senhora envolta em névoa pesada de Lou Lou, postando-se exatamente diante de minhas narinas. De duas, uma: ou pratico apneia tentando bater o recorde olímpico ou aperto o botão de emergência e saio correndo. A prova de fogo nessa modalidade teve lugar numa viagem internacional pavorosa. Foram nada menos de 12 horas confinado entre a janelinha e uma socialite que se banhara em Lou Lou. E eu ali, sonhando com uma providencial despressurização da aeronave que faria máscaras de oxigênio caírem automaticamente dos compartimentos acima de nossas poltronas.

Atrações assim são mesmo imprevistas e perigosas. Se você também tem as suas, nem me conte. Isso pega.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

“Voltar sempre ao primeiro encontro”

O povo que ouviu Jesus ao longo do dia, e depois obteve a graça da multiplicação  dos pães e viu o poder de Jesus, queria fazê-lo rei. Foram primeiro ter com Jesus para ouvir a palavra e também para pedir a cura dos doentes. Ficaram o dia inteiro a ouvir Jesus sem se aborrecer, sem se cansar: estavam lá, felizes. Então, quando viram que Jesus lhes dava de comer, o que não esperavam, pensaram: “Mas Ele seria um bom governante para nós e certamente poderá libertar-nos do poder dos romanos e levar o país em frente”. E, entusiasmados, queriam fazê-lo rei. A sua intenção mudou, porque viram e pensaram: “Bem… uma pessoa que realiza este milagre, que alimenta o povo, pode ser um bom governante” (cf. Jo 6, 1-15). Mas naquele momento tinham esquecido o entusiasmo que a palavra de Jesus suscitara nos seus corações.
Jesus afastou-se para rezar (cf. v. 15). Aquelas pessoas ficaram lá e no dia seguinte estavam à procura de Jesus, “Ele deve estar aqui”, disseram, pois viram que não tinha embarcado com os outros. E lá havia um barco… (cf. Jo 6, 22-24). Mas não sabiam que Jesus tinha ido ao encontro dos outros caminhando sobre as águas (cf. vv. 16-21). Então decidiram ir para o outro lado do Mar de Tiberíades à procura de Jesus e, quando o viram, a primeira palavra que lhe disseram foi: «Rabi, quando chegaste aqui?» (v. 25), como se dissessem: “Não entendemos, isto parece estranho”.
E Jesus fá-los voltar ao primeiro sentimento, ao que tinham antes da multiplicação dos pães, quando ouviram a palavra de Deus: «Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes – como no princípio, os sinais da palavra, que os entusiasmavam, os sinais da cura – mas porque comestes dos pães e ficastes saciados» (v. 26). Jesus revela a intenção deles e diz: “Mas é assim, mudastes de atitude”. E eles, em vez de se justificar: “Não, Senhor, não…”, foram humildes. Jesus continua: «Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque nela Deus Pai imprimiu o seu sinal» (Jo 6, 27). E aquelas pessoas boas disseram: «Que faremos para praticar as obras de Deus?» (v. 28). «A obra de Deus é esta: que acrediteis n’Aquele que Ele enviou» (v. 29). Este é um caso em que Jesus corrige a atitude das pessoas, da multidão, porque a meio do caminho se desviou um pouco do primeiro momento, da primeira consolação espiritual, e empreendeu um caminho que não era certo, uma via mais mundana do que evangélica.
Isto faz-nos pensar que muitas vezes na vida começamos a seguir Jesus, a ir atrás de Jesus, com os valores do Evangelho, e no meio do caminho mudamos de ideia, vemos alguns sinais, afastamo-nos e conformamo-nos com algo mais temporal, mais material, mais mundano – talvez – e perdemos a memória daquele primeiro entusiasmo que tivemos quando ouvimos Jesus falar. O Senhor faz-nos regressar sempre ao primeiro encontro, ao primeiro momento em que Ele olhou para nós, em que nos falou e fez nascer em nós o desejo de o seguir. É uma graça a pedir ao Senhor, porque nós, na vida, teremos sempre esta tentação de nos afastar porque vemos outra coisa: “Isto vai correr bem, essa ideia é boa…”. Assim afastamo-nos. A graça de voltar sempre à primeira chamada, ao primeiro momento: não esqueçamos, não  esqueçamos a nossa história, quando Jesus olhou para nós com amor e disse: “Este é o teu caminho”; quando Jesus, através de tantas pessoas, me fez entender qual é o caminho do Evangelho e não outros caminhos um pouco mundanos, com outros valores. Voltemos ao primeiro encontro.
Impressionou-me sempre – daquilo que Jesus diz na manhã da Ressurreição – a sua afirmação: «Ide dizer aos meus irmãos que vão à Galileia, pois é lá que me verão» (cf. Mt 28, 10); a Galileia foi o lugar do primeiro encontro. Lá eles tinham encontrado Jesus. Cada um de nós tem dentro si a sua “Galileia”, o momento em que Jesus se aproximou de cada um de nós e disse: “Segue-me”. Na vida acontece o que ocorreu àquelas pessoas – boas, porque depois lhe dizem: “Mas o que devemos fazer?” e obedecem imediatamente – acontece que nos afastamos e procuramos outros valores, outras hermenêuticas, outras coisas e perdemos o frescor da primeira chamada. Também o autor da Carta aos Hebreus nos remete para isto: «Lembrai-vos dos primeiros dias» (cf. Hb 10, 32). A memória, a memória do primeiro encontro, a memória da “minha Galileia”, quando o Senhor olhou para mim com amor e me disse: “Segue-me”!
CELEBRAÇÃO MATUTINA TRANSMITIDA AO VIVO
DA CAPELA DA CASA SANTA MARTA
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
 “Voltar sempre ao primeiro encontro”

O otimismo há de voltar

Anotações do avô, já não existente, despertaram algo que estava adormecido
Ricardo Soares
Ricardo Soares
Minha tia, a única que restou viva, me deu um presente tardio. Chegou aqui em casa o baú antigo do avô, muitos anos depois dele ter morrido. Aí eu soube, por mera intuição, que o otimismo haveria de voltar. Não tinha achado ainda o velho disco de Carmen Costa onde ela cantava "vê, estão voltando as flores", mas já sabia que o otimismo haveria de voltar porque assim, no último dia do ano, não convinha ficar de olhos baixos encarando os rodapés e praguejando contra o mundo. Fui educado para ser resignado e para achar que sempre há esperança mesmo aonde não se enxerga nada além de sombras.
Nas ruas o buzinaço já começava muito antes da hora e alguns gritos turbinados por álcool e euforias nostálgicas davam conta que os ponteiros corriam depressa contra o velho relógio do avô que funcionava - mas como? - dentro do velho baú de laca.
Entre cadernos finamente encapados achei velhos diários e calendários antigos de anos em que eu sequer tinha vindo ao mundo. Anotações impessoais na letra miúda do avô davam conta de que o velho - antes de ser velho - gostava de anotar até a quantidade de pertences que tencionava comprar nos dias de feijoada e sempre comentava a qualidade do bacalhau que comia às sextas-feiras. Anotações pueris que não deixavam pistas sobre de que tipo de fibra era feito aquele avô que agora já não existia.
O avô era metódico, quase burocrático, mas vivia de fazer planos para os anos novos que chegavam. Planos organizados, quase burocráticos, mas ainda assim, planos. Eu tentava copiar o avô instintivamente e fazia planos também. Só que nada burocráticos, nada metódicos. Planos estratosféricos, megalômanos, arrojados, conjugados com planos prosaicos. Conhecer Jerusalém, andar sobre as muralhas da China, comer escargots, aprender a nadar, comprar uma bicicleta, jogar mais na mega-sena, comprar um belo escapulário para dar de presente, visitar mais a tal tia solitária que me deu o baú, passar as férias na praia, não falar mal do próximo e ser menos crítico e autocrítico. Dessa vez esperava mesmo que as resoluções de ano novo fossem adiante da primeira semana de janeiro.
Quando janeiro chegasse com seu calor e suas chuvas, suas enchentes e suas correntezas mortais, com tanta gente padecendo pelos erros do Estado, eu haveria de ter forças para lembrar do que prometi a mim mesmo no dia 31 de dezembro. E haveria de ter forças para tentar desvendar, afinal, qual é o significado da única anotação num velho diário do avô que, para ele, era digna de nota. O ano do diário marcado na capa de couro era 1979. O título do escrito era: "31 de dezembro: mas não faz mal, foi só o tempo que passou".
Pois foi então esse tempo que passou tão lento e tão rápido nesse pandêmico 2020 que eu por fim tenho vontade de enfiar de vez no velho baú do meu avô. Aquele mesmo, que muito novo viu e viveu a outra peste pátria que foi a gripe espanhola de 1918. Assim, navegando no mar português das recordações ao redor do meu avô, eu penso em rabanadas e bacalhoadas que ele fazia um dia. E nessa receita, só nessa agora, encontro motivos para crer que o otimismo há de voltar...

Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros. O mais recente “Devo a eles um romance” disponível para compra no site da editorapenalux.com.br

Santos do pau oco

O tempo dirá se uma árvore é boa ou má, à medida que formos conhecendo seus frutos
A deputada federal Flordelis (PSD) fala sobre a morte de seu marido, o pastor Anderson do Carmo, em 25 de junho de 2019
A deputada federal Flordelis (PSD) fala sobre a morte de seu marido, o pastor Anderson do Carmo, em 25 de junho de 2019 (Fernando Frazão Ag.Brasil)

Tânia da Silva Mayer*
"Santo do pau oco", essa expressão é conhecida e utilizada por nós desde tempos longínquos. Utilizada, habitualmente, para designar pessoas dissimuladas ou fingidas, ela quer indicar um descompasso existente entre o que é aparente numa pessoas e o que ela realmente é em seu interior, em suas intenções. Conforme retoma a canção brasileira, "as aparências enganam".
No auge do ciclo do ouro, no Brasil do século 18, para fugir da taxação do ouro e de outras pedras preciosas, o que as pesquisas históricas indicam, parece ter havido a prática de contrabando desses artigos entre os senhores e até mesmo entre as pessoas escravizadas. E para que o ouro extraído não fosse taxado e sobre ele não fosse paga a quantia de um quinto, ele era colocado, ainda em pó, no interior de imagens dos santos de devoção católica, religião predominante na época.
Com relação a essa prática, faltam registros históricos que confirmem sua veracidade. No entanto, ainda se pode apreciar em alguns museus do país as imagens dos santos ocos, que devem ter sido esculpidos para a devoção de quem, desde a colonização, vem dando um jeitinho (luso) brasileiro para praticar a corrupção. É importante ressaltar que antes do transporte do ouro no interior dos santos, as imagens devem ter sido utilizadas para transporte de dinheiro falso de Lisboa para o Brasil.
Mas em Portugal é conhecida outra expressão que pode conferir significado semelhante a essa que nós utilizamos hoje e que pode sugerir que houve apenas uma adaptação linguística na colônia. "Santo de pau carunchoso" ou "santo carcomido por caruncho" são expressões que indicam justamente um aspecto de corrupção, de podridão. A princípio, a podridão de uma imagem de madeira, mas logo a de alguém que é em si mesmo uma degradação, embora possa não parecer.
No Brasil do século 21 nós ficamos estarrecidos com a quantidade de "santos do pau oco", que se utilizam da religião como uma nuvem para encobrirem crimes horrendos. Fora ou dentro do cristianismo, essas pessoas se apresentam detentoras de uma moral ilibada, mas que esconde desde abusos sexuais, passando por desvios de dinheiro da fé, chegando até a assassinatos. Essas pessoas podem figurar desde os altos escalões das igrejas, por ocuparem posto como os de bispos, padres, pastores e pastoras, até as camadas mais básicas nas quais estão os fiéis mais piedosos e bem intencionados, de modo que não é preciso citar nomes porque, uma vez descobertos, viralizam como notícia que desabona a fé cristã, tornando-a não digna de credibilidade.
Por isso, é preciso retomar sempre e uma vez mais, de maneira incansável, os ensinamentos de Jesus. E conforme ele nos ensina, é preciso deixar joio e trigo crescerem, para então arrancar o primeiro e jogá-lo ao fogo. O tempo dirá se uma árvore é boa ou má, à medida que formos conhecendo seus frutos. E para não cairmos na corrupção moral, é preciso abraçar a radicalidade evangélica que apresenta o amor e a renúncia a qualquer status como a possibilidade única da nossa conformação a Jesus e ao Reino de Deus, maneira humanizadora do ser santo ou santa nas igrejas, na sociedade e no mundo.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

O poder de um símbolo

O poder de um símbolo corre o mundo, atravessa civilizações, perpassa por gerações e, muitas vezes, sequer indagamos sobre sua origem.
Sabe-se que a rosa vermelha é o símbolo da paixão. Mas nem todos sabem que sua origem está na história de Afrodite e Adônis, na mitologia grega.
Afrodite, a deusa da beleza e do amor, se apaixonou perdidamente pelo jovem e belo Adônis. Isso era algo incomum, pois era Afrodite quem geralmente lançava feitiços de amor àqueles a quem desejava, com seu cinturão mágico (kestos himas).

Certa feita, ao caçar um javali, Adônis fora mortalmente ferido pelo animal.

Segundo uma das versões do mito, o javali seria o próprio Ares metamorfoseado, pois era amante de Afrodite e estava tomado de ciúmes ao se ver preterido por Adônis.
Ao ver o amado caído e ferido, Afrodite correu e tentou socorrê-lo. No trajeto, a deusa pisou em uma flor branca e o espinho furou seu pé, tingindo a flor de sangue. Quando Afrodite alcançou Adônis, era tarde demais. Assim, a rosa vermelha passou a ser o símbolo da paixão.

Grecianny Cordeiro
Escritora

A vida é dom e graça de Deus

A vida é dom e graça de Deus. Que saibamos valorizá-la, colocando-a na mente e no coração como o tesouro ou a pérola do Evangelho. Algo muito verdadeiro, incontestável e irrefutável é a vida como mistério. Com Santo Afonso vamos nos aproximar do Reino de Deus anunciado por Jesus de Nazaré. Amém!


Meu livro de cabeceira

O prédio era da CBV, do empresário Sebastião Paes de Almeida, então um dos homens mais ricos do Brasil

'Meandros do Poder' reúne memórias do repórter político Jadir Barroso
'Meandros do Poder' reúne memórias do repórter político Jadir Barroso (Reprodução)

Afonso Barroso*

Quero falar de um livro que é minha leitura diária. Releio capítulos, aleatoriamente. Tem por título Meandros do poder e foi escrito pelo meu irmão, Jadir Barroso. O Jadir foi, a meu juízo, o melhor repórter político do jornalismo brasileiro. Não falo por ser meu irmão, mas por não ter conhecimento de nenhum outro do setor com o profissionalismo, a absoluta fidelidade aos fatos e a capacidade de descrevê-los com clareza e elegância. Se alguém souber de outro com o mesmo talento, me informe, por favor, que passarei a admirá-lo como admiro o Jadir.

Não há ficção em Meandros do poder. É tudo verdade registrada em mais de quatrocentas páginas com fatos, análises, opinião e fotos. Daí que os títulos dos capítulos são extensos, até porque o Jadir não tinha por hábito e estilo usar muito a concisão. O livro tem nove partes e um apêndice. A primeira parte, com 21 capítulos, tem por título um enunciado do dogma jornalístico: "Onde, como, quando e porque a corrupção tomou conta do país nos últimos anos".

De escândalo em escândalo, narrados e comentados sem meias palavras, a história passa por vários governos, sem ordem cronológica. Vai de Lula ao golpe de 1964, chega a FHC, compara governos e governantes e, principalmente, opina sobre as diversas administrações em reportagens e crônicas que escreveu ao longo dos anos. O governo Bolsonaro não entra, porque Jadir já não estava entre nós quando o capitão foi eleito.

Ele conta como garimpava notícias para escrever matérias que, não raro, mexiam com os meandros da política.

Um dos capítulos mais interessantes tem por título "O apartamento secreto construído pelo empresário Paes de Almeida para Juscelino no centro de BH". Jadir, que era assessor de imprensa do prefeito Maurício Campos, conta que, uma vez viabilizados os recursos para início da implantação do metrô de superfície em BH, a Prefeitura começou a desapropriação de imóveis por onde passaria a linha férrea. Um dos imóveis que seriam derrubados era um prédio comercial de quatro andares, situado na Avenida do Contorno, do outro lado do Arrudas, em frente à Mesbla, hoje o shopping Tupinambás. Era a sede mineira da CBV – Companhia Brasileira de Vidros, do empresário Sebastião Paes de Almeida, um dos homens mais ricos do Brasil na ocasião.

Abro aspas para o Jadir: "Acertados os valores da indenização e definida a data para demolição do prédio, o prefeito, esse escriba, o superintendente da Sudecap, Venites de Barros, e alguns técnicos fomos fazer a vistoria do imóvel. Mas, qual não foi a nossa surpresa quando o diretor da CBV nos levou para conhecer um apartamento encravado naquele prédio eminentemente comercial. Havia uma entrada discreta e estratégica para uma garagem privativa, que ia diretamente a um elevador também privativo, ligando a garagem ao 3º andar.

Pegamos o elevador, e quando a porta se abriu, deparamos com um bem montado apartamento, com uma decoração de extremo bom gosto. Aí, então, veio a revelação surpreendente. O diretor da CBV nos disse que aquele apartamento era destinado exclusivamente ao uso pessoal do presidente Juscelino Kubitschek, desde quando era governador do estado. (...) Para que serviria um apartamento situado numa área central, mas estratégica, da capital mineira? E, ainda por cima, para Juscelino?

Quem pensou em encontros furtivos, acertou. O diretor da CBV não explicou como as acompanhantes do presidente chegavam ao apartamento, o que só sabiam os assessores especiais de JK. Dizia-se que ele tinha uma amante no Rio de Janeiro, que todo mundo conhecia por ser a mulher mais bonita da high society carioca e casada com um deputado federal da antiga UDN, e que ela vinha com JK no avião. Não se sabe como ocorriam o embarque e desembarque. Era segredo de Estado".

E Jadir conclui: "O prédio foi demolido, e com ele sepultados os segredos de alcova de Juscelino, junto com as boas recordações dos dias felizes que passou ali".

Este é um dos segredos que o repórter revela em Meandros do poder. O livro teve tiragem limitada e foi distribuído pela revista Mercado Comum, onde Jadir trabalhou muitos anos como cronista e editor, e pela esposa Marolina, a Maroca querida. Destinou-se, basicamente, aos amigos que o repórter, vindo de São José do Jacuri, cultivou às centenas durante sua vida profissional e pessoal. 

Não hei de perder a oportunidade de divulgar, nas minhas crônicas, outros capítulos interessantes de Meandros do poder, obra do meu grande irmão e amigo Jadir Barroso.  


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/GuYloPXyzPk0X1WODbGtZU

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

Carta a um amigo que partiu

Fui lembrado pelas redes sociais que há quatro anos eu perdia meu cachorro

De uns anos para cá as redes sociais, e especialmente o Facebook, têm me lembrado “o aniversário” das coisas. Ontem recebi a notificação de que uma foto que postei em um contexto bastante emotivo completou quatro anos. Era a imagem que postei no dia em que o Rousseau, não o filósofo, mas meu primeiro cachorro, morreu.

A lembrança me pegou desprevenido, pois, talvez pelo trauma que representou a perda do meu amigo, somado à minha rotina de adestrar um filhote, tenho sentido extrema dificuldade em lembrar dos momentos que passei com Rousseau, que viveu comigo entre 2000 e 2016, quase a metade da minha vida até então. E a imagem no Facebook trouxe uma enxurrada de lembranças. 

Lembrei-me com surpreendente riqueza de detalhes quando o conheci, na casa da minha primeira namorada, que me deu ele de presente. Eu tinha 18 anos; o Rousseau, três meses. Quando cheguei na casa dela, e o vi pequeninho, quase uma bola branca de pelo, balançando o rabo e demonstrando que queria descer para me receber, mas tinha medo de enfrentar os degraus. Foi amor à primeira vista.  

No dia seguinte o levei para casa no banco do passageiro do meu antigo Renault 19. Lembro da angústia que senti, conforme dirigia à noite pela Radial Leste. Não era o simples fato de gostar dele, o que, por si, desperta vulnerabilidade. Mas porque sabia que agora era responsável por outra vida. 

Dias depois, quando minha ex-namorada veio nos visitar, ele se escondeu embaixo da minha cama, como que dizendo: “Não deixa ela me levar daqui”. Então ficou claro que você Rousseau tinha me elegido como dono. 

Aqueles primeiros anos, em que eu estava na faculdade, foram nada menos do que cômicos. Ele latia, mordia tudo, brincava com qualquer coisa. Corria de um lado para o outro do apartamento e dava cavalos-de-pau no corredor. Subia na cama, subia no sofá. Me acordava com latidos, e às vezes com lambidas. Era uma fonte inesgotável de energia. 

Para tanto, tinha que comer. Como comia. Não podia vacilar com um prato em cima da mesa, um bolo recém-saído do forno sobre o balcão, um saco de pão em cima da geladeira (sim, tinha uma impulsão descomunal), Rousseau dava um jeito de pegar. Vieram a  primeira vacina, o primeiro passeio. O ensinei a usar o jornal e depois o vi você erguendo a patinha contra o poste. Senti orgulho. 

No final daquele ano, estávamos em Franca, no interior de São Paulo, para passar o Natal na casa da minha avó. Algum parente deixou o portão aberto e, quando percebi, Rousseau havia desaparecido. Saí correndo freneticamente, com o coração na boca, já esperando pelo pior. 

Quando o encontrei, quatro quadras para baixo, havia umas crianças jogando futebol na rua. E ele se enfiando no meio, tentando pegar a bola. Quando me viu, com a língua para fora, balançou o rabo e correu em minha direção como se não nos víssemos há meses. Não consegui nem ficar bravo com ele por ter fugido.

Nem todo mundo percebe isso, mas cachorros riem. O Rousseau, por exemplo, tinha um jeito de olhar para mim com a língua jogada para o canto da boca, pelo qual eu sabia que estava muito feliz. E isso era bem frequente, especialmente quando eu o levava para passear, todo dia à noite e de manhã. 

Já quando eu saía de casa, ele sempre parava diante da porta e virava a cabecinha de lado com uma cara tristonha. Quem não tem cachorro não entende, mas existem códigos muito sutis com os quais as duas espécies conseguem se comunicar. Olhares, rugidos, latidos, tons de voz. Certa vez, em um momento bem difícil, chorei na sua frente dele, que prontamente lambeu as minhas lágrimas (e pelo que lhe serei sempre grato). Também nos estranhamos, viramos a cara um para o outro, nos deixamos falando (ou latindo) sozinhos.

Existem diferentes formas de dar, receber e pedir carinho. Quando queria chamar a minha atenção, ele passava se esfregando sob a minha perna, apoiava a cabeça no meu pé, enfiava o focinho entre o meu braço ou simplesmente se aproximava abanando o rabo. Lembro de uma vez em que estávamos, novamente, no carro, e um caminhão ao lado pegou um buraco e a caçamba fez um estrondo. Em um impulso, ele se jogou no meu colo, talvez por ser onde se sentisse seguro.

Outra coisa que subestimam é o efeito que uma espécie provoca sobre a outra. Um cachorro vê o mundo com muito mais alegria. Experiencia as mesmas coisas, dia após dia, com o mesmo entusiasmo. A emoção do reencontro, um banho de Sol, o vento contra o rosto, o contato com outros cães. E isso é contagiante.

Anos mais tarde,  estávamos na Praia Grande de Farol de Santa Marta (SC). Um horizonte claro e interminável de areia e mar. E Rousseau correndo em disparada, esticando as patas lá na frente, enquanto corria de um lado para o outro, tentando acompanhar os pássaros que voavam e voltando para me encontrar. O joguei na água, ele nadou e, na volta, se chacoalhou para tirar o excesso de areia.

Conviver com um cachorro é ter contato diário com a sua própria natureza. Se identificar com o afeto comum entre todos os mamíferos, incluindo nós.  

Viajamos bastante ao longo desse tempo. Rousseau conheceu São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Me acompanhou na maioria das viagens que fiz. Ainda assim fica uma ponta de remorso por não ter o levado mais ao parque, por não ter feito mais passeios, por tê-lo criado em um apartamento, sem um espaço muito amplo. 

Antes de adotar o meu filhote atual, fiz questão de antes me mudar para uma casa. Tenho muito mais traquejo para lidar com ele e para adestrá-lo, assim como mais maturidade para demonstrar afeto. Embora eu tenha feito o melhor que eu sabia quando ele estava vivo, agora sinto pontadas de remorso por estar conseguindo ser um dono ainda melhor do que fui de Rousseau. Assim como acredito que os pais se saiam melhor no trato com o segundo do que com o primeiro filho.

Me consola o fato de eu ter feito o melhor que eu pude, dentro das minhas capacidades e limitações, e espero que ele tenha sentido isso. Pois ter cachorro dá trabalho, como dá. Assim como tudo que vale a pena na vida.

Durante aqueles 16 anos, vieram e foram empregos, namoradas, apartamentos, e ele se manteve ali, companheiro, um pilar de constância na minha vida. Eu não teria como retribuir o conforto que isso significou. O que me resta é agradecê-lo por tudo, pois valeu cada segundo. E reconhecer que ele ainda faz muita falta.

Eu não poderia ter pedido um cachorro melhor. 


Aleteia

O retorno da Peste Negra: mais um fantasma para assombrar 2020?

O consumo da carne de um roedor na Mongólia seria a causa de duas suspeitas de contaminação recém-identificadas naquele país

A pavorosa peste negra do século XIV se tornou quase mítica ao longo dos séculos por ter sido uma das mais devastadoras epidemias já registradas pela História em todos os tempos: o surto de peste bubônica matou, segundo estimativas, um mínimo de 75 milhões e um máximo de 200 milhões de pessoas na Europa, Ásia e norte da África, atingindo o pico no continente europeu entre os anos de 1346 e 1353. A peste negra dizimou de 30% a 60% dos europeus, fazendo com que o continente demorasse em torno de 200 anos para recuperar o nível populacional anterior à epidemia. Embora o seu pior surto tenha sido o do século XIV, a mesma peste retornou várias vezes em surtos menores até o início do século XX.

Características e disseminação histórica

peste bubônica provoca hemorragia em diversos órgãos, além de bulbos e manchas negras na pele. No grande surto do século XIV, a enfermidade matava a maioria dos infectados em poucos dias, disseminando o pânico por todas as regiões em que surgiu.
Wikipédia / Domínio Público
A doença não é causada por um vírus, como a covid-19, mas sim pela bactéria Yersinia pestis, que pode ser transmitida pela mordida ou pelo consumo da carne de roedores infectados, como ratos, esquilos, marmotas, coelhos e cães-da-pradaria.
origem da peste negra foi, possivelmente, a Ásia Oriental ou Central. Ao longo da Rota da Seda, chegou por volta de 1343 à Crimeia (região anexada pela Rússia em 2014 e até então pertencente ao território da atual Ucrânia). Daquela península no Mar Negro, a doença teria sido transportada até a bacia do Mar Mediterrâneo nas pulgas de ratos que viajavam em navios mercantes genoveses. A partir da península italiana, continuou avançando Europa adentro até contaminar a maior parte do continente. Esta é, pelo menos, a teoria predominante entre os pesquisadores.
No tocante ao extraordinário alcance daquela epidemia, porém, estudos e simulações recentes com modelos matemáticos realizados por pesquisadores das universidades de Oslo (Noruega) e Ferrara (Itália) apontaram que a rápida disseminação da doença entre a população europeia se deveu a pulgas e piolhos presentes nos próprios humanos. Embora não seja possível a comprovação real dessa teoria, os cientistas a consideram a explicação mais plausível para a proliferação continental da epidemia, porque, segundo eles, tamanha disseminação teria sido pouco provável se dependesse apenas das pulgas de ratos.
Como quer que seja, é fato que a peste negra só pôde transformar-se num desastre gigantesco por causa dos baixíssimos padrões de higiene tanto das pessoas quanto das casas e ruas. A importância das políticas de higiene pública só foi reconhecida com maior amplitude pelos governos a partir do século XIX, e bastante gradualmente: até então, mesmo na Europa, as ruas no geral eram imundas, com circulação habitual de animais vivos de todo tipo e, consequentemente, abundância de parasitas que facilitavam a transmissão de doenças mortíferas. A peste foi apenas mais uma delas. O cenário, possivelmente, não era muito diverso do que se vê em alguns mercados de animais vivos da China atual, onde tiveram origem várias das recentes epidemias de coronavírus, inclusive a presente pandemia de covid-19. Medidas fundamentais de higiene eram, são e serão essenciais para conter esse tipo de praga evitável.
Hospital Notre Dame a la Rose, Lessines, Bélgica / Wikipédia – CC
Tornou-se emblemática da peste negra a figura do assim chamado “médico da peste“: por desconhecimento científico, achava-se que a transmissão acontecia mediante contato com os miasmas, ou seja, exalações pútridas e fétidas provocadas pela doença. A fim de dificultar que os médicos entrassem em contato com esses supostos meios de transmissão da peste, foi desenvolvida na França uma longa vestimenta fechada dos pés à cabeça e que incluía uma sinistra máscara em formato de bico de pássaro, dentro da qual colocavam-se misturas de ervas que supostamente neutralizariam a inalação dos miasmas. Esse aparato era ineficaz: o que veio a combater a doença com efetividade foram os antibióticos, já no século XX. A associação da perturbadora “máscara de pássaro” com a Idade Média também é errônea, pois o aparato surgiu na Idade Moderna, durante surtos bastante posteriores à grande epidemia do século XIV.

Novos casos detectados na Mongólia e na China

Em pleno 2020, e no meio da monumental pandemia de covid-19 que já infectou mais de 10 milhões de pessoas, matou mais de 500.000 e obrigou ao confinamento de mais de um bilhão de pessoas em dezenas de países desde a explosão do surto na China em dezembro de 2019, eis que o fantasma da peste negra assustou o mundo neste fim de semana com a notícia de que dois casos suspeitos de peste bubônica foram identificados na província de Khovd, na Mongólia.
Segundo a imprensa local, os doentes são dois irmãos, de 27 e 17 anos. Eles teriam consumido carne de marmota, um grande roedor com aparência semelhante à dos esquilos, mas de tamanho notavelmente maior, que vive em regiões montanhosas do hemisfério norte.
Wikipédia / CC
Os dois irmãos infectados estão sendo tratados em hospitais diferentes. O Centro Nacional de Doenças Zoonóticas da Mongólia identificou 146 pessoas que tiveram contato direto com eles, além de outras 504 que tiveram contato secundário. Amostras dessas pessoas foram coletadas para análise. As autoridades isolaram a região, próxima da fronteira com a China e com a Rússia. A circulação de veículos foi suspensa e a de pessoas drasticamente reduzida.
Autoridades chinesas também aumentaram as medidas de segurança após a confirmação de um caso neste mesmo fim de semana. O paciente é um camponês da cidade de Bayannur, situada na Mongólia Interior (apesar do nome, que se deve a razões territoriais históricas, trata-se de uma região autônoma pertencente hoje à própria China e não à vizinha Mongólia). O enfermo chinês foi colocado em quarentena e apresenta condições estáveis. O governo local decretou alerta de nível 3: ficam proibidos a caça e o consumo de animais que poderiam estar infectados e as pessoas devem reportar qualquer caso suspeito às autoridades sanitárias.
Em 2019, a Mongólia já tinha confirmado casos de peste bubônica: em novembro, um homem de 55 anos contraiu a doença depois de comer carne de coelho; antes, em maio, um casal havia morrido após comer carne de marmota. A Associação Internacional de Assistência Médica para Viajantes informa que o risco de peste está presente em todo o país e que a transmissão pode acontecer em qualquer época do ano.

É motivo para preocupação?

É motivo para as autoridades das regiões afetadas ficarem atentas e tomarem precauções, mas não para alarmismos e muito menos para pânico. Atualmente, a peste bubônica é tratável com antibióticos, que são bastante eficientes. É improvável que a peste bubônica gere uma nova epidemia nos dias de hoje.
Casos pontuais são identificados de tempos em tempos, atingindo grupos relativamente pequenos de pessoas, como nos casos da Mongólia e da China. O surto de maior abrangência registrado em anos recentes ocorreu em 2017 na ilha de Madagascar, com cerca de 300 casos. A medicina atual, muito diferente do que acontecia no século XIV, tem uma compreensão bastante sólida de como essa doença é transmitida e de como os pacientes infectados devem ser tratados.
De todos os modos, a peste bubônica é, certamente, uma doença grave com a qual não se pode brincar. O mais eficaz é prevenir. Para isto são fundamentais as medidas de boa higiene, em particular no controle de infestações de ratos e pulgas, bem como os hábitos saudáveis de alimentação, dado que a bactéria dessa doença é transmitida em muitos casos pela carne de roedores que ainda são consumidos com relativa normalidade em algumas áreas do mundo. Esses hábitos têm caráter cultural até certo ponto, mas decorrem principalmente da pobreza. Logo, são passíveis de mudança com políticas de governo e iniciativas educacionais que promovam a conscientização e, é claro, proporcionem os meios necessários para que a população não precise recorrer a fontes de alimentação com tamanho grau de risco para a saúde.

Aleteia

O “desconfinamento” ou a responsabilidade de agir e a responsabilidade de proteger!

Podia começar este artigo com um “Era uma vez…”, já que era o tema que nos inspirava parte do ano. Um ano de Acampamento Regional, com cerca de 2500 jovens inscritos, sonhando já com grandes aventuras!
Era noite de 10 de março, estávamos em reunião de Executivo da Junta Regional, tudo normal, não fosse um tema diferente em “cima da mesa”: um VÍRUS! Ainda tivemos tempo de brincar com isso, distribuindo abraços, entre chalaças…
A questão era a “suspensão de atividades”, o que fazer e o que recomendar aos agrupamentos, face às notícias. Prontamente, deliberamos encerrar, adiar, cancelar. Soava a estranho, mas a prudente.
Quando tudo era novo, o CNE, emitindo orientações, não se hesitou por um minuto, dando um belíssimo exemplo de responsabilidade social! Afinal, ninguém sabia “andar nisto”.
Era hora de “ficar em casa”, mas também de AGIR!
Havia que contactar os dirigentes, pedir recato, mas Alerta máximo, manter a chama acesa, continuar a fazer Escutismo e, sobretudo, não suspender a Promessa de Escuteiro.
E como fez tanto sentido a divisa “Sempre Alerta para Servir”?!
Alinhando-nos com a Diocese e com os Chefes de Agrupamento, não quisemos defraudar. Há um papel que é nosso na Igreja de Setúbal!
Transformámos a sede regional num quase “hospital de campanha”, fizemos serviço e, pelo exemplo, promovemos que outros o fizessem.
No meio do caos decisório, soam pistas, das vozes dos mais próximos, que nos ficam nas horas mais difíceis. É Jesus a fazer-se presente nas horas de caos!
Registo alguns ecos que foram determinantes: Desde logo, do meu antecessor, que lembra que “a Promessa Escutista não está suspensa”, ou do meu adjunto que se impele com um “vamos lá e que a necessidade não seja maior que a caridade”, ou da provocação do nosso Bispo, com um “É preciso sair do sofá e trazer o lenço bem gasto ao pescoço!”. É Setúbal a ser Setúbal!
Mas o tempo passou e a esperança de que fosse rápido esvaiu-se.
A possibilidade de manutenção do Acareg, que tinha ficado em aberto, foi a “facada” do ano – “CANCELADO!” – talvez tenha sido a decisão mais difícil, mas era preciso sossegar os dirigentes, as famílias, tirar pressão.
Fomos vivendo um Escutismo diferente e, chegados a junho, apareceu o “desconfinamento”. Depois de algumas medidas de alívio, vem o CNE levantar a suspensão, com um “Plano de Desconfinamento”, preparado cuidadosamente, com emissão de orientações para os agrupamentos e com muita vontade de AGIR. É a necessidade de aprender a fazer “Escutismo com Covid”, já que podemos ajudar a educar para ações coordenadas, acompanhadas e mais conscientes, mas é também deixar nas mãos das nossas Direções e Juntas Regionais e de Núcleo a reflexão séria das condições para a prática do Escutismo nestes tempos.
E aqui mudamos de registo.
Quando é chegada a hora de AGIR, devemos lembrar o aumento da responsabilidade de PROTEGER! Até aqui, foi fácil, com “todos” em casa. Mas, agora, queremo-los em ação e, aí sim, temos a grande obrigação de os proteger, sobretudo, deles mesmos!
Os impulsos, as saudades, as esplanadas, a necessidade de campo, tudo potenciará baixar a guarda!
É verdade que, em ambiente Escutista, é possível controlar, mas existe também a responsabilidade institucional de proteger o CNE e a Igreja de excessos de confiança.
É tempo de perder o tempo que for necessário, preparar o que aí vem, preparar o arranque de ano, com extremo cuidado, sabendo que vamos viver com isto.
É preciso, antes de mais, sentar os adultos em volta das orientações, que podem mudar consoante a evolução da pandemia, preparar as sedes, ouvir os pais, ouvir os guias, trabalhar com os Assistentes e, só depois, abrir “as portas”, ainda que sejam para as atividades de exterior.
Queremos muito! Não queremos parar! Nem podemos imaginar-nos de novo em casa!
Mas, é preciso trabalhar já, de forma prudente, lúcida e responsável. É preciso passar a traço fino o Sistema de Patrulhas e aplicar, com rigor, o Método Projeto.
É preciso rigor! O CNE sabe fazer isto como ninguém, apenas tem de fazer o que é certo, com tempo, para poder cumprir a sua Missão em pleno e poder orgulhar-se disso!
Da responsabilidade de AGIR, temos hoje a responsabilidade acrescida de PROTEGER…, porque, quando deixa de estar “regulado”, está nas nossas mãos!
Passamos a “estado de Alerta” e agora é connosco! Nem é novidade! Em “Alerta” estamos sempre!
Tomemos consciência que isto não é uma “coisa” só nossa. Trata-se do cuidado com a comunidade. O cuidado com o outro, que tanto nos é querido!
É para sair, viver com todas as cautelas, para não nos sujeitarmos a ter de voltar a sobreviver, como até aqui, porque assim não sabe a nada!

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt
Autor: Ana Margarida Chagas
Chefe Regional de Setúbal do CNE

Escritora descobre em uma carta de João Paulo II o que significa ser mulher

São João Paulo II. Créditos: Vatican News
(ACI).- No dia 29 de junho, a “Carta para as mulheres”, escrita por São João Paulo II, completou 25 anos. Esta reflete sobre a verdadeira feminilidade e o importante papel da mulher na sociedade e na Igreja.
Em uma coluna do National Catholic Register, a escritora católica Emily Stimpson Chapman afirmou que a reflexão do santo polonês a ajudou a encontrar "o que significa ser mulher" e o "gênio feminino", no momento em que experimentava muitas inseguranças sobre seu próprio corpo e personalidade.
Stimpson assinalou que São João Paulo II como Papa e filósofo tem uma abordagem singular na qual “afirma a dignidade dada por Deus a cada pessoa” e reconhece que, por trás de cada conflito, há um fracasso em reconhecer a dignidade humana e um desejo de destruí-la.
Por exemplo, a escritora indicou que, graças à defesa gentil mas concreta de São João Paulo II em uma conferência das Nações Unidas sobre o controle populacional em 1994, foi possível frustrar os esforços das feministas para definir o aborto como um direito humano universal.
No entanto, um ano depois, agendou-se outra conferência da ONU, desta vez sobre as mulheres, em Pequim. Os próprios defensores dos direitos ao aborto estariam lá, promovendo a mesma agenda", acrescentou.
Stimpson destacou que foi então que o Santo Padre decidiu tomar a ofensiva declarando 1995 como "o ano da mulher" e começou a "falar e escrever constantemente sobre as lutas que as mulheres enfrentam" e sua dignidade.
A autora assinalou que o texto mais importante foi a "Carta às Mulheres", publicada em 29 de junho de 1995, na qual o santo "apresentou uma compreensão diferente à dada pelo mundo sobre a mulher e o feminismo".
Stimpson indicou que São João Paulo II quis "falar diretamente com cada mulher, refletir com ela sobre os problemas e as perspectivas do que significa ser mulher em nosso tempo".
O Papa indicou que homem e mulher foram criados à imagem de Deus "diferentes, mas iguais", sendo complementares entre si e lamentou o "fracasso do mundo (e, às vezes, o da Igreja) em reconhecer a dignidade das mulheres”, e a persistência de reduzir a visão da mulher ao seu corpo.
"Isso impediu as mulheres de serem verdadeiramente elas mesmas e resultou no empobrecimento espiritual da humanidade", ressaltou o Santo Padre em sua carta.
A busca pela identidade feminina
Em 1995, quando estava no segundo ano da universidade, Stimpson se perguntou pela primeira vez o que significava ser mulher e que diferença havia com o homem, além da anatomia.
"Toda a minha vida, tudo o que me disseram foi que homens e mulheres eram iguais e que podia fazer qualquer coisa que um homem pudesse fazer", assinalou. "No entanto, aos 19 anos, não estava tão certa disso", acrescentou.
Stimpson assinalou que, ao analisar as mulheres da universidade e em seu entorno, nas revistas e na televisão, a resposta que conseguiu é que a “feminilidade, parecia dizer a cultura, estava ligada aos desejos sexuais”.  
Em vez disso, na Igreja Protestante que frequentava, percebeu que "as mulheres deveriam ser caladas, mansas e suaves".
"Cheguei à conclusão de que eu não era uma boa mulher para os padrões de ninguém: igreja ou cultura", assinalou. “Em cada parâmetro da feminilidade, parecia que eu estava aquém. Exceto um", acrescentou.
Stimpson indicou que, querendo ser magra, começou a passar por um estágio inicial de transtornos alimentares e decidiu enganar as pessoas fingindo ser tranquila e gentil, ocultando sua inteligência e suas próprias opiniões "por trás de uma estrutura delicada e frágil".
"Passei os cinco anos seguintes tentando me adaptar, da única maneira que sabia, ao que pensava que significava ser mulher", disse.
Stimpson retornou em dezembro de 2000 à Igreja Católica, onde encontrou sua resposta na carta de São João Paulo II.
“Quando li essas palavras, cinco anos após a publicação, encontrei a paz e o começo da cura. Eu era mais do que um número em uma escala", disse. "Eu também não era menos feminina por causa da minha inteligência, opiniões ou força", acrescentou.
A autora destacou que, nas palavras de São João Paulo II, descobriu que seus dons eram "dons de Deus, destinados a servir os outros: minha família, sim, mas também à Igreja e ao mundo".
Graças à "Carta às Mulheres", Stimpson entendeu que, em Cristo, "toda mulher tem um lugar, independentemente de ser casada ou solteira, fértil ou infértil, uma mulher que trabalha em casa ou uma mulher que trabalha no mundo".
O Santo Padre indicou que uma mulher é chamada para ser mãe "às vezes no corpo, sempre na alma", disse a autora.
Nesse papel de mãe, as mulheres são chamadas a ver em cada pessoa a imagem de Deus, buscando alimentar, incentivar, curar, afirmar, ensinar, acolher e prestar atenção a cada pessoa que o Senhor lhes envia.
"Também é desafiar as pessoas, ajudando-as a se tornarem o que Deus quer que sejam, mas fazendo-o gentilmente, controlando nossa força, nunca colocando o dedo nas feridas", acrescentou.
"Devemos fazer tudo com o olhar posto no céu, confiando na graça de Deus para trabalhar com todos os nossos esforços, a fim de guiar as pessoas à vida eterna", enfatizou.
Stimpson assinalou que as mulheres são pessoas que amam os outros para a santidade, "priorizam a pessoa sobre todos os outros bens e veem a grandeza de cada alma individual".
"Esse é o nosso 'gênio feminino'. Essa é a visão da mulher que João Paulo II deu ao mundo há 25 anos. E é uma visão que muitos ainda precisam aprender", acrescentou.
Publicado originalmente em ACI Prensa. Traduzido e adaptado por Nathália Queiroz.
📩 📸 🌐 ▶️