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Penosa escrita

Fim de semana em dolorosa predição diante do número exponencial de infectados candidatos a covas rasas
tristes dias
tristes dias (Mila Young / Unsplash)

Eleonora Santa Rosa*
“cena marcante da semana que permaneceu forte na memória: saída do metrô da carioca, manhã de sexta, sol lindo, ventinho de outono amigo. ao sair da estação, deparo-me com uma senhora de jeito humilde, magra, muito magra mesmo, estatura mediana para pequena, de óculos, parada no passeio, de lado, cabelos pretos já com muitos fios brancos, pescoço adornado por um crucifixo barato de cor laranja, chorando, não alto, mas fundo, com soluços não compulsivos, mas sofridos, perceptíveis.
olhar perdido, com o pensamento longe. não consegui passar direto, algo nela, na situação, me comoveu muito. em segundos, parei e perguntei: minha senhora, o que aconteceu, precisa de algo?
olhou-me lateralmente, timidamente, e balbuciou algo como "estou cansada, é só estafa". não ouvi direito, mas entendi bem. quis lhe dar um abraço bem apertado, acariciar sua face e lhe dizer: "aguenta a barra, vai passar!" infelizmente, não dei conta, pensei no meu próprio cansaço, meus olhos marejaram e não consegui manifestar uma palavra de consolo. pensei na minha própria angústia, na minha própria exaustão com toda a situação pessoal e do país, e sem consolo segui adiante.”
escrevi esse registro há exatamente um ano, como me lembra o facebook. penso nessa senhora, em como estará frente aos acontecimentos atuais. hoje, nem mesmo o abraço imaginado seria possível ou permitido.
acompanhando as notícias em tempo real e refletindo sobre a estupidez que nos cerca, e o que acontecerá a partir da liberação prematura do isolamento social como quer o governo federal, o terrível presságio de manadas de inocentes a caminho do ‘matadouro’.
fim de semana em dolorosa predição diante do número exponencial de infectados candidatos a covas rasas.
tristes dias.

*Eleonora Santa Rosa é jornalista, ex-secretária de estado de Cultura de Minas Gerais e ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio (MAR

Para especialistas, novas gerações reescrevem o sentido da troca de cartas

Para especialista a escrita, embora tenha destinatário, também é um processo pessoal


“Sempre que se traz para o presente uma coisa típica de determinada época é porque, no presente, isso está fazendo sentido”, aponta Lilian Torres
“Sempre que se traz para o presente uma coisa típica de determinada época é porque, no presente, isso está fazendo sentido”, aponta Lilian Torres (Pixabay)
Com a chegada de meios de comunicação mais eficientes, a troca de correspondência ganhou novos significados ao longo das décadas. Escrever cartas se tornou um hobby, um trabalho manual ou até uma forma de experimentação social - especialmente entre as gerações que adotam a prática pela primeira vez.
“Sempre que se traz para o presente uma coisa típica de determinada época é porque, no presente, isso está fazendo sentido”, aponta Lilian Torres, professora de Antropologia da Faap. “Não é uma sobrevivência do passado pura e simplesmente. É algo que informa, comunica um estilo de vida, um valor, crenças, e faz sentido neste momento para essas pessoas. Não é meramente sobrevivência do passado, tem uma função no agora.”
A especialista comenta que a carta tem algumas características antagônicas aos meios de comunicação tecnológicos (como telefone e-mail e afins), por não ser instantânea e precisar ser postada. “Demanda mais tempo, relação com muitos intermediários. A carta tem essa relação muito física, fazendo escolhas de papel de caneta, de envelope, de adesivos, de cores.” Outro aspecto ressaltado pela professora é que a escrita, embora tenha destinatário, também é um processo pessoal. “Envolve um contato mais íntimo com o seu gosto, interesse, é um tempo que a pessoa vai mergulhar em si, naquilo que vai compor a mensagem, que é um dado de intimidade, mais personalizado, individualizado.”
“A carta se contrapõe à instantaneidade do online, que tem respostas curtas. Se demoram a responder, causa uma frustração”, comenta ela. “Na carta, com os trabalhos manuais, a pessoa tem ali um sinal de personalização, se distingue naquele trabalho, é uma forma de distinção da pessoa.”
Professor de Sociologia da Universidade Mackenzie, Rogério Baptistini comenta também sobre diferenças entre os meios de comunicação. “A comunicação instantânea é mais fugaz, a leitura menos ansiosa e detalhada”, compara. “Se escreve sobre assuntos banais do cotidiano, a reflexão se perde no decorrer do dia.”
“A comunicação hoje por WhatsApp e aplicativos instantâneos aparentemente nos aproxima, mas mais parece uma ordem comercial de um departamento para outro e fica esquecida no turbilhão de mensagens que preenchem o dia a dia”, completa o professor.
Sociabilidade
Para ele, o interesse de gerações mais jovens por cartas segue uma tendência de parte dessa população, que está “virando as costas para o uso indiscriminado das redes sociais, com a busca de normais mais verdadeiras de sociabilidade”. “É um fenômeno de busca de interação de uma forma mais autêntica.”

Agência Estado
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