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17 de abril de 2016

ARACNE

Grecianny Carvalho Cordeiro*

De acordo com a mitologia grega, Aracne era uma excelente tecelã e fiandeira, a qual fazia questão de dizer que o seu talento era nato, e que não o recebera da deusa Atená, como muito assim acreditavam.

Indignada com a ausência de modéstia de Aracne, a deusa Atená se disfarçou de velha e foi até a tecelã para recomendar mais humildade, sob pena de criar animosidades com a deusa. Mas Aracne não ouviu tal conselho e ficou a insultar a deusa, deixando claro que aprendera seu ofício sozinha, sem ajuda de ninguém e sem qualquer intervenção divina.
Diante disso, a deusa Atená chamou a arrogante Aracne para um desafio. Na competição de tecelagem entre as duas, a deusa Atená teceu a imagem dos deuses do Olimpo e de todas as suas vitórias sobre os mortais. Aracne, por sua vez, teceu os amores dos deuses, contudo, escolheu histórias em que suas deidades eram menosprezadas.
A deusa Atená constatou que Aracne era tão boa quanto ela e, furiosa, rasgou seu trabalho. A deusa amaldiçoou Aracne a nunca mais ter suas tapeçarias admiradas por nenhum ser humano. Aracne ficou descontente e resolveu se suicidar, sendo impedida pela deusa que, transformou-a numa aranha, de modo a que pudesse fiar e tecer por todo o sempre.
Por certo, todos nós temos algum talento, algum dom, algo que nos diferencia de outrem. Para pintar, para compor, para escrever, para palestrar, para jogar futebol, para dançar, para fazer trabalhos manuais dos mais variados, enfim, cada ser humano tem algum talento, uns mais, outros menos.
No Brasil, essa questão do talento é bem mais complexa. Acompanhamos muitos talentosos fazendo sucesso, outros nem tanto. No entanto, a distorção de valores do mundo atual nos mostra que talento não é tudo, aliás, é quase nada. A superficialidade de muitas pessoas de sucesso é patente, mas a construção midiática em torno dessas pessoas consegue dissimular todas as fragilidades, erigindo-as à condição de ídolos, muitos dos quais não duram mais que uma estação.
Ao assistirmos televisão, ao lermos jornais, quem faz sucesso? Quais são os tipos que invadem nossas casas sem que sequer questionemos ou pensemos? Que tal darmos uma passeada pela música, pela literatura, pelos programas televisivos. Quem são os ídolos de hoje? As pessoas se dispõem a qualquer coisa por três minutos de fama. Fazem o que for preciso para aparecer.
Como diz um poeta. O que é sucesso? É deitar à noite, colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.
*Promotora de Justiça, escritora e presidente da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza

A ilusão

Histótia (Foto: Arquivo Google)
Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras.
Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.
Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.
— Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.
— A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.
— Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas...
— As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?
— Eu queria falar com a senhora sobre o Brasil de 2016.
— Brasil, Brasil...
— PT. Lula. Impeachment.
— Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo...
— O que significou tudo aquilo?
— Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.
— Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?
— Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo.
Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivo e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.
Eu não queria ouvir a resposta. 
Luis Fernando Veríssimo
Luis Fernando VeríssimoÉ escritor