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7 de janeiro de 2019

Romance 'Entre as Mãos' marca a estreia de Juliana Leite na literatura

Felipe Franco Munhoz  , Especial para o Estado

A vida e a rotina da protagonista Magdalena, pregressas ao acidente que ela sofrerá. Seu ofício cotidiano: costureira, confeccionando cortinas e tapetes; “usando as mãos para sobreviver”. Seu relacionamento com o narrador – anônimo, em primeira pessoa, e falso, elaborado como elemento metaficcional – da parte (são três) que abre o romance. O acidente: um atropelamento. As angústias do hospital, vozes. A vida e a rotina da protagonista, posterior ao atropelamento: mudanças, dores, adaptações.
Tempos que, alternando o aleatório das memórias e um presente progressivo, se emaranham na construção da grande tapeçaria pós-faulkneriana que é o romance Entre as Mãos (Record), estreia de Juliana Leite. Assim, com tonalidades violentas, a trama (narrativa, de fios invisíveis e de linhas compostas por letras e palavras – inclinando-se, em geral, para o coloquialismo) é tecida através de parágrafos quase autônomos, flutuantes entre espaços de respiro.
A escritora Juliana Leite, autora do romance
A escritora Juliana Leite, autora do romance 'Entre as Mãos' Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão
Cenas breves. Pausas.
Linha a linha, página a página, essa textura particular, pela forma – consciente eco do conteúdo –, vai sugerindo tanto uma simulação da máquina de costura em funcionamento, quanto uma representação gráfica do corpo dilacerado, e também suturado, no leito pós-cirúrgico: a trama (enfermidade) da personagem. E, linhas, páginas a frente, agulhas a frente, a nitidez tamanha da tapeçaria pode provocar a dúvida: seria o estilo que a nova autora imprimiu ao livro?, ou seria o estilo que o livro, específico, imprimiu à nova autora?
Agora, não há resposta.
 Simula a máquina de costura, representa graficamente o corpo de Magdalena; e a forma de Entre as Mãos – dentro do ritmo em fragmentos – encerra, de certo modo, em si, a dinâmica veloz e diminuta do século 21. Além de lembrar o ritmo saltitante, com suspensões e supressões, da linguagem desenvolvida pelo cineasta estadunidense Terrence Malick em seus filmes recentes; Cavaleiro de Copas (2015) e De Canção em Canção (2017), por exemplo.
Porém, se Malick – sobretudo – enquadra o macromundo, Juliana Leite – sobretudo – foca no interno e no pequeno. Cenários revelam-se, paisagens revelam-se; mas evitando geografias concretas. Enquanto o cineasta inscreve Cavaleiro de Copas em Los Angeles, e De Canção em Canção no sul dos Estados Unidos, o x do mapa de Entre as Mãos crava-se nas coordenadas da própria estrutura.
São três partes. 1. Trama (o narrador anônimo teria, na verdade, truque de ficção, sido escrito por Magdalena). 2. Avesso (quando Magdalena assume seu papel, mas descreve-se “você” – praticamente em observação externa). 3. Linhas soltas (um close no período da recuperação). De Trama para Avesso, desaparecem números de subcapítulos, desaparecem recuos de primeira linha; ao passo que aparecem chaves importantes de leitura.
Chaves e buracos de fechadura.
Magdalena, em Avesso, torna a ensinar seu ofício: “Com o tear erguido, você e violinista avaliam o aspecto geral. Viu como dá para refazer uma trama desfiando algumas linhas e inserindo outras?” – sutil metáfora autorreferente: processo criativo implícito no enredo. Chaves, buracos de fechaduras e jogos de espelhos. A urdidura dos tempos, enfim, ganha definitivas densidades.
Na obra-prima Sôbolos Rios Que Vão (2010), do escritor português António Lobo Antunes, eventos do presente – seu presente progressivo e seus detalhes, de imagens a ruídos – lançam anzóis para memórias do narrador; no caso, um enfermo em primeira pessoa: sob confusões de remédios. E memórias fisgam memórias diferentes. Contudo, os anzóis de Lobo Antunes dissolvem-se mais enigmáticos no texto (anzóis ou interrogações?); o texto grogue pede, inclusive, tal dissolução.
Parece-me que o narrador de Sôbolos Rios Que Vão tenta, obstinado, esconder-se na infância; tenta forjar a luz da inocência contra as sombras da morte iminente. Ao senhor Antunes, Antoninho, todo futuro apresenta-se Interditado. Magdalena, por sua vez, procura enfrentar os traumas do acidente e resolver – com linhas compostas por letras e palavras – dilemas íntimos, dilemas da família; para caminhar adiante, rumo ao desconhecido.
FELIPE FRANCO MUNHOZ É AUTOR DE ‘IDENTIDADES’ (NÓS)
*
ENTRE AS MÃOS
Autora: Juliana Leite
Editora: Record (256 págs., R$ 42,90)
Cultura Estadão

Apesar da crise, livrarias de menor porte tem oportunidade de crescimento

Na contramão da crise das grandes redes e do mercado encolhido na região, livrarias e sebos enxergam oportunidade ao focar nos “amantes da literatura”


O epílogo do mercado das grandes redes de livrarias do Brasil em 2018 foi melancólico. A Livraria Cultura fechou unidades no Rio de Janeiro e Recife e todas as lojas da Fnac no Brasil também baixaram suas portas. Já a Saraiva fechou 19 livrarias em outubro. Na sequência, ambas entraram com pedido de recuperação judicial.
Um estudo da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), a partir de estatísticas do Ministério do Trabalho, aponta que o número de livrarias e papelarias no Brasil reduziu 29% em 10 anos. Na contramão deste diagnóstico negativo, no entanto, livreiros de menor porte da região veem oportunidade de crescimento e relatam já sentir melhorias nas vendas.
Jociele Victoriano, gerente da unidade da Livraria Nobel localizada no Tivoli Shopping, em Santa Bárbara d’Oeste, avalia que foi um ano bom para a unidade, mas também por influência de outros produtos disponíveis, da área de papelaria. “Se depender só livro, infelizmente não sobrevive”.
Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Sebo no Centro de Americana tem bom público e não sente a forte crise no setor, ao contrário das grandes livrarias
Ela atribui a crise editorial geral a uma mudança de perfil dos leitores. “Cada vez as pessoas estão lendo mais virtualmente. Essa geração nova está super digital. Mas, assim mesmo, o livro ainda não é substituído. Tem muita gente ainda que gosta do livro físico”, pondera.
A influência do conteúdo acessado na internet é tamanha, segundo ela, que um dos livros mais vendidos na loja ganhou repercussão por causa da indicação da youtuber Adriana Santana. “Está super vendido e é por conta da indicação. Chama ‘O Milagre do Amanhã’. Eu acho que rede social e a mídia têm sido fundamental. Eles influenciam bastante”, avalia. Em relação à crise, ela vê oportunidade. “Acho que nesse próximo ano talvez a gente consiga crescer um pouco mais porque as grandes livrarias entraram em crise”, acrescenta.
Em Americana, segundo a Acia (Associação Comercial e Industrial de Americana), não há comércio específico do gênero, mas somente estabelecimentos que agregam livros ao seu catálogo de produtos. Entre estes, está o Sebo Sapiente, que também vende instrumentos, musicais, CDs, entre outros artigos.
Proprietário da loja, Luiz Carlos Sanajotti segue o discurso de Jociele e aponta melhorias nas vendas de livros. “Acho que é em decorrência dessa retração das livrarias grandes. A gente acabou se beneficiando”, aponta. E lembra da ascensão da tecnologia móvel como um grande concorrente. “O mercado livreiro é um ramo muito difícil, não tem a sedução de lojas de produtos de moda. É celular pra tudo quanto é lugar, tem mil lugares disso aí, e tem uma livraria, duas livrarias. Estamos na contramão da história”, reflete.
Liberal.com

Morre o artesão pernambucano Severino Vitalino

Mestre Severino Vitalino aprendeu o ofício junto ao patriarca ainda criança, desde que foi morar no Alto do MouraCid Barbosa
A cultura nordestina perdeu, na madrugada desta segunda-feira (7), o artesão Severino Vitalino, aos 78 anos. Um dos quatro filhos do Mestre Vitalino (1909-63), o artista estava internado em um hospital de Caruaru desde outubro do ano passado, momento onde foi acometido de um infarto.
Segundo informações do G1 Caruaru, Vitalino foi submetido a cirurgia cardíaca e estava entubado e sedado na Unidade de Terapia Intensica (UTI) Coronariana. No mês de novembro, o artesão apresentou um quadro infeccioso e permaneceu internado no hospital que leva o nome do pai. O local e o horário do velório e sepultamento ainda não foram divulgados pela família.
Legado
Vitalino seguiu os passos do pai, com quem trabalhou confeccionando peças de barro durante boa parte da vida. "Não me imagino fazendo outra coisa. Trabalhei ao lado do meu pai até os 23 anos e sinto que tenho o dever de preservar a história e tudo o que ele deixou", afirmou em entrevista ao G1 Caruaru. Em 2017, o artesão foi habilitado no Prêmio Culturas Populares Gomes de Barros, oferecido pelo Ministério da Cultura. O projeto dele recebeu nota máxima e foi um dos 258 agraciados na região Nordeste. 
Pesar
Por meio de nota oficial, a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra, lamentou o falecimento do Mestre Severino Vitalino: "É com profunda tristeza que recebo a notícia do falecimento de Severino Pereira dos Santos, o Severino Vitalino. Filho do grande Mestre Vitalino, ainda criança se mudou com sua família para o Alto do Moura, em Caruaru, onde viveu até o final de sua vida. O povo brasileiro será sempre grato a Severino que, com o seu grande talento, deu continuidade à obra do seu pai e mentor e influenciou a comunidade de artesãos de Caruaru e de todo o país. Meus sinceros sentimentos aos familiares, amigos e admiradores. "

Diário do Nordeste

Em 25 anos, o Museu de Arte Religiosa Contemporânea não se esquivou dos riscos que supõe a arte religiosa

Exibições do MOCRA destacaram a arte sem se desvencilhar dos significados religiosos, e essa é uma lição aprendida pelos museus de hoje.

Michael Tracy,
Michael Tracy, "Tríptico: Décima Primeira, Décima Segunda e Décima Terceira Estação da Cruz para a América Latina - La Pasin", acrílico sobre lona encerado sobre madeira com vidro, cerâmica e mídia mista, com corona de estanho, 1981-1988. (Coleção MOCRA)

Por Menachem Wecker*
Ainda me lembro de estar na frente do enorme tríptico de Michael Tracy em uma visita de fevereiro de 2015 ao Museu de Arte Religiosa Contemporânea da Universidade de St. Louis.
De longe, a superfície corroída da poderosa obra poderia ser confundida com uma escultura de Anselm Kiefer, e a obra de Tracy corajosamente sustentada na enorme galeria, uma antiga capela com tetos altos de quase 10 metros. Tanto a sala quanto o tríptico lembram os espectadores de quão pequenos são, o que é uma coisa formidável na experiência da arte religiosa.
"Parece que a obra foi feita para o espaço", aponta o padre jesuíta Terrence Dempsey, historiador de arte e diretor do museu. "Suas dimensões se encaixam perfeitamente no espaço", disse em entrevista ao National Catholic Reporter.
Mas os ajustes perfeitos raramente são feitos com facilidade. Cinco pessoas tiveram que furar um buraco na parede para fazer a escultura de Tracy, que tem quase 10 metros de largura e um pouco mais de 7 metros de altura e pesa mais de uma tonelada, na galeria. Eles então tiveram que criar um novo muro para realizar o trabalho.
Felizmente, o artista posteriormente doou a obra. "É muito grande para mostrar em outros lugares", disse Dempsey.
O trabalho maciço continua olhando para o resto da galeria, mas agora é acolhida para a exposição "MOCRA: 25" (até 17 de fevereiro) por outro trabalho de Tracy. A exposição celebra o quarto de século do museu com as obras de 25 artistas. A cruz de Oscar Romero, feita por Tracy, foi exibida pela primeira vez na Bienal de Veneza em 1982 e desde então doada ao Museu de Arte Religiosa Contemporânea, acabou de sair de uma limpeza e restauração de sete meses. A escultura homenageia o santo bispo recém-canonizado, assassinado em 1980 em El Salvador.
Tracy viu uma foto em um tabloide do arcebispo assassinado enquanto visitava a Cidade do México em 1980 e ficou tão cativado com o que viu que estudou o contexto em torno do conflito que custou a vida a Romero. A cruz está em exibição pela primeira vez no Museu de Arte Religiosa Contemporânea, e é um dos muitos exemplos que atestam o compromisso de Dempsey em assumir riscos e pensar amplamente sobre o que a arte religiosa e espiritual pode ser.
Exposições anteriores examinaram o lado espiritual de Andy Warhol, a AIDS e o experimento da sífilis de Tuskegee. É claro que o museu, que Dempsey desenvolveu a partir de sua dissertação de pós-graduação da Theological Union, não é uma livraria religiosa ou uma loja de presentes da igreja que oferece lembranças espirituais.
Michael Tracy,
Michael Tracy, "Cruz do Bispo Oscar Romero, Mártir de El Salvador", acrílico sobre tecido de raiom sobre madeira, chifres, pontas de ferro, cabelo, tranças de tecido, tinta a óleo e hastes cobertas de seda, 1980-81. (Coleção MOCRA)

"Tentamos expandir a noção do que aborda e envolvem as dimensões religiosas", disse Dempsey. "Não é apenas a arte da loja de presentes que as pessoas, quando ouvem o nome" arte religiosa, pensam, reduzindo-a a estas pequenas estátuas e garrafas com santos nelas".
Quando Dempsey abriu o museu há 25 anos, um artista que convidou para apresentar suas obras disse: "É melhor você estar fazendo um bom trabalho lá, porque pode arruinar minha carreira e minha reputação".
Dempsey sabe que os artistas não querem ser rotulados de "religiosos" pelas razões erradas. "As pessoas vão pensar que você está fazendo cartões Hallmark ou aquelas coisas mais sentimentais", disse ele.
O teólogo e artista também realiza exposições na Universidade de St. Louis por convite da diretiva, por isso não é pego de surpresa. Mas ainda não recebeu o empurre que precisa, ele disse.
Outro artista da exposição é o falecido pintor cubano Juan González. Em dezembro de 1993, Dempsey viajou para Nova York para visitar seu amigo, que estava morrendo de AIDS. Demorou três tentativas para encontrar um dia em que González estivesse bem o suficiente para ter uma missa, e no terceiro dia, o moribundo surpreendeu Dempsey com sua energia repentina. González, que não conseguira sair da cama nos dias anteriores, moveu-se sozinho e estendeu a mão sobre um sofá para acender a luz.
Durante a missa e a subsequente unção, González tinha um sorriso radiante quando se sentou entre as duas filhas no melhor traje de domingo, que agora ficava muito grande para a sua estrutura encolhida. Quase uma dúzia de pessoas presentes chorou quando González abraçou cada um deles.
O artista cubano entrou em coma no dia seguinte e morreu três dias depois na véspera de Natal.
"Foi nesse ponto que pensei: isso é importante", disse Dempsey. "Existe uma conexão entre a dimensão religiosa e as pessoas que lidam com essa doença que ameaça a vida".
Dempsey incluiu o trabalho de González entre outros de cerca de 24 artistas na exposição de 1994 "Consagrações: O espiritual na arte no tempo da AIDS". A abertura, que incluiu Pilobolus e Alvin Ailey, foi a mais gloriosa dos 25 anos do museu, segundo o artista. "Havia muito amor e compaixão por lá", disse ele.
A mistura de inspiração artística de González, "Free Fall", que criou uma semana antes de sua morte, aparece na exibição atual e vem de sua série Diver. O trabalho, que faz referência a um afresco da Grécia antiga, retrata pessoas que caem no mar, parecidas com o personagem da mitologia Ícaro. "Os mergulhadores ou divers, como González os chama, neste trabalho final representam muitos amigos de Juan que morreram de complicações relacionadas à AIDS", observa a exposição.
Juan Gonzalez,
Juan Gonzalez, "Free Fall", 1993, da coleção de Teresa e Lawrence Katz. (Cortesia do MOCRA)

Três borboletas na superfície do oceano simbolizam a crença cristã na ressurreição, que González justapõe com uma referência clássica abaixo de uma antiga escultura de Eros adormecido. Esse sono está condenado a ser interrompido, no entanto. González cortou um triângulo do topo da moldura, criando um corte no meio do trabalho e sugerindo que "os efeitos da dor que sofremos persistem mesmo que possamos esperar que o espírito continue vivo", aponta também o museu nas mensagens da curadoria.
O espírito eterno é o que Dempsey estava buscando desde o começo. De fato, ele sentiu que algo estava acontecendo na década de 1980, então fez um arquivo de 800 artistas criando trabalhos religiosos e espirituais que conformariam seu doutorado.
Depois de concluir sua dissertação sobre "A Busca do Espírito: O Reaparecimento de Preocupações Espirituais e Religiosas na Arte Americana da década de 1980", foi para a Universidade de St. Louis. Lá, um jesuíta idoso, que na época dirigiu uma casa histórica no campus que exibia artes decorativas, recomendou que Dempsey pedisse uma nova capela que fazia parte de uma grande residência jesuíta construída em 1952. "Ela tem esse tipo de arta da escola de Bauhaus", disse Dempsey.
O número de jesuítas que estudam para o sacerdócio no local havia declinado de 250 em meados da década de 1950 para apenas 25 em 1989, de modo que os jesuítas venderam o prédio para a universidade e mudaram-se para os quartos mais confortáveis. Em 1990, o prédio era uma residência de estudantes leigos, mas ninguém sabia o que fazer com a capela. Dempsey propôs transformá-lo em um museu de arte inter-religiosa.
Algumas das fraternidades queriam transformá-lo em um salão de reuniões da fraternidade. "De repente, minha proposta chegou ao topo", disse Dempsey.
Ir. Helen David Brancato, Ir. Helen David Brancato, "Crucificação - Haiti", acrílico e colagem sobre madeira, 1999 (coleção MOCRA / Jeffrey Vaughn)

Desde a abertura do Museu de Arte Religiosa Contemporânea, Dempsey e o assistente de direção David Brinker já exibiram mais de 55 exposições de cerca de 230 artistas, a maioria americanos, mas também alguns vindos da Austrália, França e Alemanha. "Como em qualquer projeto, o que você acha que vai acontecer no começo de repente fica muito expansivo", disse Dempsey.
Tendo amado a companhia de dança Alvin Ailey desde seus tempos de pós-graduação, quando se apresentou como voluntário no Zellerbach Hall da Universidade da Califórnia em Berkeley e assistiu à dança de Ailey, Dempsey mostrou "Corpo e Alma: O Teatro de Dança Americano Alvin Ailey" em 1993.
"O que eu queria fazer com isso era mostrar que este pequeno museu em St. Louis poderia se conectar com uma das principais figuras da coreografia do mundo, Alvin Ailey", apontou Dempsey. "Tivemos cantores gospel aqui para isso. Foi realmente um ‘vamos ver como podemos expandi-lo’".
Ele assim o fez, expandiu sua obra, com o que acreditava que era o único museu inter-religioso de arte contemporânea em todo o mundo, e outros notaram isso. O Museu de Arte Religiosa Contemporânea foi uma das instituições que o Museu de Arte Bíblica de Nova York buscou para se inspirar, disse a ex-diretora Ena Heller, que atualmente dirige o Museu de Belas Artes Rollins College Cornell em Winter Park, Flórida (Agora o Museu de Arte Bíblica de Nova York desde que foi fechado o anterior).
Dempsey e o Museu de Arte Religiosa Contemporânea contribuíram para uma mudança no diálogo sobre o lugar da religião na arte, particularmente na arte contemporânea, de acordo com Heller.
"O MOCRA preencheu um vazio na paisagem dos museus quando abriu pela primeira vez e ofereceu um modelo - mostrando a arte religiosa na arte contemporânea – iniciativa que já foi adotada por outras instituições e pesquisadores", disse ela. "Suas exibições destacaram a arte sem se desvencilhar dos significados religiosos, e essa é uma lição aprendida para os museus de hoje".
 Dempsey, por sua vez, permanece humilde sobre suas realizações. "Até aí tudo bem", fala o artista. "Depois de um quarto de século, ainda não nos fecharam".

National Catholic Reporter - Tradução: Ramón Lara
*Menachem Wecker é repórter freelancer em Washington, D.C.

Exposição “Rio São Francisco: Ocupação e transposição” chega a Fortaleza

Exposição Rio São Francisco: Ocupação e transposição chega ao Espaço Cultural Correios em 10 de janeiro
Obra As Três Marias de Francisco Ivo
Um mergulho pictórico na região de um dos maiores patrimônios naturais brasileiros: é isso que a exposição Rio São Francisco: Ocupação e transposição ofertará ao público do Espaço Cultural Correios, a partir das 16h do dia 10 de janeiro (quinta-feira), quando será lançada. A mostra, que seguirá aberta para visitação gratuita até 1º de março, é assinada pelo artista plástico e geólogo cearense Francisco Ivo.
Com 33 obras em óleo sobre tela produzidas de 2016 a 2018, a exposição retrata o percurso histórico-social do rio em imagens que traduzem a exuberância da natureza e os processos de ocupação e exploração do São Francisco pelo homem, culminando no controverso projeto de transposição de suas águas.
Os quadros ajudam o visitante a compreender as transformações no Velho Chico ao longo dos 2.700 km de sua extensão, desde a nascente, em Minas Gerais, até a foz, entre Alagoas e Sergipe.
Obras
A beleza de cânions, cachoeiras e a diversidade da fauna e da flora da área são retratadas por Francisco Ivo, que também destacou os ciclos de desenvolvimento socioeconômico que se alternaram e acabaram cobrando um alto preço ao rio. Obras como “Máquina imperial”, “Pontes do Velho Chico”, “Luz para todos” e “Transposição” chamam a atenção para os efeitos do progresso sobre o equilíbrio ambiental da região.
A formação em Geologia do artista radicado em Niterói (RJ) confere um tom especializado às pinceladas vívidas e coloridas. Nas telas “Lajeados e Bromélias”, “Nascentes de Guaramiranga” e “A Corte”, por exemplo, Francisco Ivo explica que a diversidade observada na bacia hidrográfica só foi possível graças à complexidade dos relevos e aos múltiplos habitats gerados durante uma longa história geológica, climática e biológica.
A obra “Antropoceno – O grito de um rio”, por sua vez, reflete o momento geológico em que vivemos: o homem atuando como força capaz de modificar o meio ambiente e alterar o clima do planeta. O artista explica que, após sofrer agressões, o São Francisco chega à foz já debilitado e sem maior capacidade para enfrentar o mar, cujas águas avançam continente adentro, erodindo suas praias e salinizando as águas do rio.
Em “Solstício”, o visitante se depara com a luz intensa que pinta de dourado os cânions do Xingó, em Sergipe. Os solstícios estão relacionados ao esoterismo e, para muitas culturas, têm um simbolismo importante, representando a vitória da luz sobre a escuridão. Assim, a obra “Solstício” destaca a luz sobre o São Francisco, compreendida metaforicamente como a chegada de “novos tempos”, de recuperação e preservação
Evolução Temática
Parte das obras expostas no Espaço Cultural Correios a partir da próxima quinta-feira (10) foi destaque em uma exposição individual do artista no Memorial à República de Maceió, Alagoas, onde as águas do Rio São Francisco se encontram com o mar. Entre novembro e dezembro de 2016 foram expostas telas que abordavam processos de degradação ambiental provocados pelo homem.
Adotando o Rio São Francisco como estudo de caso, o projeto evoluiu para a exposição Quatro estações – Rio São Francisco, apresentada no Centro Cultural Câmara dos Deputados, em Brasília, no ano de 2017. “Quando chegou a tarefa de falar sobre transposição, me inspirei nos trabalhos da Comissão Científica de Exploração, vinda do Rio de Janeiro para o vale dos rios Salgados e Jaguaribe, no Ceará, de 1859 a 1861. Revisito, agora, os trabalhos de José dos Reis Carvalho, desenhista da comissão, na tela ‘As três Marias’, por exemplo”, conta Francisco Ivo.
O Artista
Membro da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro (ACCLARJ), Francisco Ivo estudou desenho de arquitetura e produziu suas primeiras pinturas nos anos 1980, tendo a Arte Naif como inspiração. Nesse período, consta sua participação, em 1982, em uma mostra de arte promovida pelo centro acadêmico da Universidade de Fortaleza. Na coletiva, expôs a tela “PASSEATA I”, que retratava o movimento grevista da universidade ocorrido no ano anterior.
Em 1987, concluiu o curso de Geologia e, em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro, fixando residência em Niterói. Nesse período, cursou aulas de pintura na Sociedade Brasileira de Belas Artes (SBBA), no Rio de Janeiro.
Em 2016, deu início a exposições individuais por seleção (veja lista abaixo), sendo Rio de Mares de Morros a primeira, no Instituto Cultural Germânico, em Niterói; e, em seguida, Quatro Estações – Antropoceno (Rio São Francisco), no Memorial à República em Maceió, na capital alagoana.
Como resultado de visitas a museus e galerias de várias partes do mundo, suas obras abordam inúmeras temáticas, sendo influenciadas pelo impressionismo, pós-impressionismo, cubismo e o expressionismo. Sente-se atraído pelas cores quentes e vívidas, e está sempre demonstrando inquietação na busca de seu próprio estilo.
Últimas exposições de Francisco Ivo
•Exposição Rio São Francisco: Ocupação e transposição – Festival Icozeiro 2018, Icó (CE) – dezembro/2018;
•Exposição Quatro estações – Rio São Francisco – XI Mostra de Arte Cidadã da Câmara dos Deputados, Brasília (DF) – dezembro/2017;
•Coletiva no IX Salão de Artes da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro (RJ) – novembro/2017;
•Individual na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, São Paulo (SP) – 2017;
•Coletiva no XIII Salão de Artes Plásticas da Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro (RJ) – 2017;
•Coletiva no Minimuseu Firmeza, Fortaleza (CE), no Salão de Abril Sequestrado – 2017;
•Individual Rio dos Mares de Morros, no Espaço Cultural Correios de Fortaleza – 2016/2017;
•Coletiva no Instituto Cultural Germânico, Niterói (RJ) – 2016;
•Individual no Memorial à República em Maceió (AL) pela Secretaria de Cultura do Estado – 2016.
Serviço
Lançamento da Exposição Rio São Francisco: Ocupação e transposição
Quando: 10 de janeiro, às 16h
Visitação: de 10 de janeiro a 1º de março, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h
Onde: Espaço Cultural Correios (Rua Senador Alencar, 38, Centro – Fortaleza)
Entrada gratuita

Boa Notícia