Romance 'Entre as Mãos' marca a estreia de Juliana Leite na literatura

Felipe Franco Munhoz  , Especial para o Estado

A vida e a rotina da protagonista Magdalena, pregressas ao acidente que ela sofrerá. Seu ofício cotidiano: costureira, confeccionando cortinas e tapetes; “usando as mãos para sobreviver”. Seu relacionamento com o narrador – anônimo, em primeira pessoa, e falso, elaborado como elemento metaficcional – da parte (são três) que abre o romance. O acidente: um atropelamento. As angústias do hospital, vozes. A vida e a rotina da protagonista, posterior ao atropelamento: mudanças, dores, adaptações.
Tempos que, alternando o aleatório das memórias e um presente progressivo, se emaranham na construção da grande tapeçaria pós-faulkneriana que é o romance Entre as Mãos (Record), estreia de Juliana Leite. Assim, com tonalidades violentas, a trama (narrativa, de fios invisíveis e de linhas compostas por letras e palavras – inclinando-se, em geral, para o coloquialismo) é tecida através de parágrafos quase autônomos, flutuantes entre espaços de respiro.
A escritora Juliana Leite, autora do romance
A escritora Juliana Leite, autora do romance 'Entre as Mãos' Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão
Cenas breves. Pausas.
Linha a linha, página a página, essa textura particular, pela forma – consciente eco do conteúdo –, vai sugerindo tanto uma simulação da máquina de costura em funcionamento, quanto uma representação gráfica do corpo dilacerado, e também suturado, no leito pós-cirúrgico: a trama (enfermidade) da personagem. E, linhas, páginas a frente, agulhas a frente, a nitidez tamanha da tapeçaria pode provocar a dúvida: seria o estilo que a nova autora imprimiu ao livro?, ou seria o estilo que o livro, específico, imprimiu à nova autora?
Agora, não há resposta.
 Simula a máquina de costura, representa graficamente o corpo de Magdalena; e a forma de Entre as Mãos – dentro do ritmo em fragmentos – encerra, de certo modo, em si, a dinâmica veloz e diminuta do século 21. Além de lembrar o ritmo saltitante, com suspensões e supressões, da linguagem desenvolvida pelo cineasta estadunidense Terrence Malick em seus filmes recentes; Cavaleiro de Copas (2015) e De Canção em Canção (2017), por exemplo.
Porém, se Malick – sobretudo – enquadra o macromundo, Juliana Leite – sobretudo – foca no interno e no pequeno. Cenários revelam-se, paisagens revelam-se; mas evitando geografias concretas. Enquanto o cineasta inscreve Cavaleiro de Copas em Los Angeles, e De Canção em Canção no sul dos Estados Unidos, o x do mapa de Entre as Mãos crava-se nas coordenadas da própria estrutura.
São três partes. 1. Trama (o narrador anônimo teria, na verdade, truque de ficção, sido escrito por Magdalena). 2. Avesso (quando Magdalena assume seu papel, mas descreve-se “você” – praticamente em observação externa). 3. Linhas soltas (um close no período da recuperação). De Trama para Avesso, desaparecem números de subcapítulos, desaparecem recuos de primeira linha; ao passo que aparecem chaves importantes de leitura.
Chaves e buracos de fechadura.
Magdalena, em Avesso, torna a ensinar seu ofício: “Com o tear erguido, você e violinista avaliam o aspecto geral. Viu como dá para refazer uma trama desfiando algumas linhas e inserindo outras?” – sutil metáfora autorreferente: processo criativo implícito no enredo. Chaves, buracos de fechaduras e jogos de espelhos. A urdidura dos tempos, enfim, ganha definitivas densidades.
Na obra-prima Sôbolos Rios Que Vão (2010), do escritor português António Lobo Antunes, eventos do presente – seu presente progressivo e seus detalhes, de imagens a ruídos – lançam anzóis para memórias do narrador; no caso, um enfermo em primeira pessoa: sob confusões de remédios. E memórias fisgam memórias diferentes. Contudo, os anzóis de Lobo Antunes dissolvem-se mais enigmáticos no texto (anzóis ou interrogações?); o texto grogue pede, inclusive, tal dissolução.
Parece-me que o narrador de Sôbolos Rios Que Vão tenta, obstinado, esconder-se na infância; tenta forjar a luz da inocência contra as sombras da morte iminente. Ao senhor Antunes, Antoninho, todo futuro apresenta-se Interditado. Magdalena, por sua vez, procura enfrentar os traumas do acidente e resolver – com linhas compostas por letras e palavras – dilemas íntimos, dilemas da família; para caminhar adiante, rumo ao desconhecido.
FELIPE FRANCO MUNHOZ É AUTOR DE ‘IDENTIDADES’ (NÓS)
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ENTRE AS MÃOS
Autora: Juliana Leite
Editora: Record (256 págs., R$ 42,90)
Cultura Estadão

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