Lançada nesta sexta-feira (25) pela editora Rocco, obra integra comemorações do centenário da escritora, ajudando a compreender o itinerário literário e o universo íntimo de Clarice
Reunindo quase 300 correspondências inéditas escritas por Clarice Lispector ao longo da vida, o livro "Todas as Cartas" ganha lançamento nesta sexta-feira (25). A iniciativa faz parte da comemoração do centenário da autora, celebrado em 10 de dezembro deste ano.
Publicada pela editora Rocco, a obra ajuda a compreender o itinerário literário de Clarice e seu universo. O conjunto de correspondências inéditas endereçadas aos amigos escritores tem entre os destinatários João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Lêdo Ivo, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Natércia Freire e Mário de Andrade.
As correspondências foram organizadas por décadas – dos anos 1940 a 1970 – e contam com 510 notas da biógrafa Teresa Montero, que contextualizam o material no tempo, no espaço e nas inúmeras citações a personalidades e referências culturais. O editor da obra de Lispector na Rocco, Pedro Karp Vasquez, assina o posfácio da edição.
Com grande material inédito, o volume resultou de longa pesquisa realizada pela jornalista Larissa Vaz, sob orientação de biógrafos e da família, para trazer uma visão integral de Clarice. A publicação da correspondência de grandes escritores constitui-se, assim, um importante acontecimento literário, pois a escritora não perde a inspiração, o lirismo e o humor ao escrever cartas, que chegam a ser tão fascinantes e criativas quanto seus próprios livros.
Seleção
Para o livro, foram selecionadas cartas relevantes, com interesse literário ou biográfico, sendo excluídos missivas comerciais, bilhetes e recados de caráter efêmero. A editora manterá as futuras edições abertas à inclusão de textos que possam surgir a partir da publicação desta obra.
Clarice viveu quase duas décadas no exterior e escreveu sempre neste período, para cultivar o afeto da família e dos amigos e para tratar da publicação dos seus livros. Apesar de afirmar que “não sabia escrever cartas”, suas correspondências são tão interessantes quanto seus romances, contos e crônicas.
Em alguns dos textos enviados aos amigos, a escritora – que passou parte da vida no Nordeste – também revela que se inspirou em um dos retornos a Pernambuco para escrever um novo livro. Ricas minúcias recuperadas na obra.
Todas as Cartas - Clarice Lispector
Prefácio e notas: Teresa Montero
Posfácio: Pedro Karp Vasquez
Pesquisa textual e transcrição das cartas: Larissa Vaz
Organizado por pesquisadores ligados à Universidade Federal do Ceará, "Visões de Clarice Lispector - Ensaios, Entrevistas, Leituras" está disponível gratuitamente para download
O que mais é possível conhecer sobre Clarice Lispector (1920-1977)? De tão comentada – com obras onipresentes em estantes, nos círculos de leitura e publicações nas redes sociais – parece ser uma escritora da qual sabemos quase tudo. Leda ilusão, porém.
“É correto considerar engano o fato de se pensar que, de tão celebrado e esmiuçado pela crítica, já se disse tudo sobre o texto de Clarice. Na realidade, a literatura tem um sentido de perenidade, pois os assuntos de que trata ultrapassam o momento do surgimento dos livros. Cada leitor e cada época vão imprimindo novas vertentes de apreciação para o texto literário”, considera Fernanda Coutinho, professora do curso de graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação na mesma área da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Unida a Sávio Alencar, mestre em Letras também pela instituição, ela organizou o livro “Visões de Clarice Lispector - Ensaios, Entrevistas, Leituras”, publicado pela Imprensa Universitária da UFC e disponível gratuitamente no Repositório Institucional da universidade.
A obra chega a público integrando o calendário de comemorações pelo centenário da escritora – ucraniana naturalizada brasileira e incontornável nome da literatura nacional – com esta particularidade: é um dos primeiros títulos a serem lançados no Brasil para celebrar a efeméride, em 10 de dezembro.
Segundo Sávio, é uma alegria que o livro parta do Nordeste – onde Clarice, ainda muito pequena, primeiro chegou com a família, especificamente a Maceió e Recife – e da universidade pública, o que assinala a importância da entidade na difusão de um saber renovado em torno das Humanidades e da Literatura.
“A recepção já está se mostrando muito positiva. No repositório da UFC, o livro registra cifras bastante animadoras, muitos downloads já ocorreram. As redes sociais, esse outro termômetro, também têm o difundido bastante – as dezenas de compartilhamentos comprovam isso. O livro existe também na versão impressa, mas ainda não chegou até nós em função das atuais circunstâncias”, situa.
Particularidades
Tanto movimento em torno do material é justificado. Além do amplo alcance do nome da homenageada, o livro tem textos assinados por um robusto time, composto por 24 estudiosos da autora, tanto do Ceará quanto de outros estados. É organizado em três eixos, como o subtítulo assinala: ensaios, entrevistas e leituras.
No primeiro, os pesquisadores participantes se aproximam da obra clariciana de maneira mais crítica e teórica. Já nas entrevistas, responsáveis por conferir a dimensão da recepção da escritora no estrangeiro, suas tradutoras comentam o processo tradutório dos textos dela para línguas diversas.
Legenda: “Visões de Clarice Lispector” chega a fim de contribuir para o edifício interpretativo da obra da escritora
Foto: Divulgação
Por fim, numa dicção mais íntima e livre, as leituras flagram vários leitores de Clarice no momento em que se põem a sós com ela. Algo como se lê em “Felicidade clandestina”, em que o ato da leitura é, ao mesmo tempo, descoberta e desejo.
Para Sávio Alencar, Lispector é alguém que reúne e aproxima o público e, por isso mesmo, a vontade de trazer o título à tona. “Nesse encontro, eu e Fernanda – que já havia organizado ‘Clarices: uma homenagem’ (Imprensa Universitária, 2012), com a professora Vera Moraes – resolvemos devolver a alegria dessa leitura em forma de livro, numa data especial que é o centenário da autora”.
Fernanda Coutinho alarga a relevância da obra ao enfatizar que “Visões de Clarice Lispector” chega a fim de contribuir para o edifício interpretativo da obra da escritora, apresentando ensaios de teor diferenciado, com a marca de nossa contemporaneidade. “Muitos críticos que já fazem parte do cânone crítico da autora, aqui se reinterpretam, o que traz frescor às páginas da obra”, diz.
Nessa dinâmica, um dos pontos que ela ressalta no livro é a entrevista com Elvia Bezerra que, até pouquíssimo tempo, estava à frente do setor de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, entidade que abriga parte valiosa do acervo de Clarice. E, claro, não deixa de sublinhar a pluralidade do exemplar ao trazer tantas vozes, de Maria Elenice Costa Lima a Arnaldo Franco Júnior, passando por Yuri Brunello, Amanda Moura, Jacques Fux, Noemi Jaffe, dentre tantos outros.
“Como se pode perceber, o livro acredita na diversidade de leituras: as mais isentas, com olhar mais agudo face à construção textual, e outras em que o ‘eu’ dos leitores deixa transparecer o efeito de comoção que as palavras de Clarice lhe causa. Uma leitura, portanto, regida, antes de tudo, pela sensibilidade”.
Celebrações
Por conta doano completamente atípico devido à pandemia do novo coronavírus, não há certeza de que muitos dos projetos que já estavam programados pela Universidade Federal do Ceará e por outras instituições para celebrar o centenário de Clarice ocorrerão de fato.
Apesar disso, Fernanda Coutinho e Sávio Alencar organizarão um evento virtual para contemplar a data, a partir da parceria do Departamento de Literatura, do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Colégio de Altos Estudos da UFC.
Legenda: Fernanda Coutinho e Sávio Alencar organizarão um evento virtual para contemplar o centenário da escritora, em dezembro
Foto: Divulgação
No que diz respeito ao mercado editorial, também estão previstas a reedição da obra completa da escritora pela Rocco – editora detentora dos direitos sobre os textos da literata – e a nova edição de “Eu sou uma pergunta” e da correspondência de Clarice, feitas pela já consagrada estudiosa Teresa Montero.
Tendo tantas vezes relido, em particular, a novela/romance “A hora da estrela” – por ser ‘Macabéa essa personagem que nos agarra e não solta mais” – Sávio Alencar iniciou na obra de Clarice com “A descoberta do mundo”, livro a que sentimentalmente está mais relacionado. Não à toa, quando mergulha nessas memórias dos primeiros e mais íntimos contatos com a autora, o estudioso denota a relevância dela no contexto das letras.
“Clarice era devota de sua profissão; escrever, se era uma maldição (como chegou a dizer), também era uma missão. Há uma crônica famosa em que ela afirma ter nascido para escrever e para cuidar dos filhos. Essa inflexão, de quem aposta na palavra, certamente fez da sua obra o que ela é”, comenta.
“Seus diferenciais são muitos, a lista é longa. Mas eu ficaria, para situar apenas, com sua estreia na literatura, em 1943, com ‘Perto do coração selvagem’, que redefiniu os caminhos de nossa prosa moderna e deixou indelével o fator Clarice no nosso sistema literário”.
Da parte de Fernanda Coutinho – que descobriu Lispector pelos contos, experimentando uma sensação de aturdimento, “no sentido de pensar como a escritora encontrava inusitadas chaves de compreensão do ser humano, em cujo centro pairava, gloriosa, a noção de dúvida” – o diferencial da autora é a aposta na ousadia.
“Ousadia nas construções inusitadas, como se, para ela, as palavras tivessem uma força de imantação tal que todos os vocábulos e frases poderiam acabar se aninhando num abraço, cheio de aconchego – embora, em princípio, pudessem parecer distantes. Ousadia, ainda, na forma de tratar as experiências do viver humano. Em outras palavras, ela coloca a questão ‘O que é viver?’ para mulheres, crianças, que têm, acho, um ponto de vista bem original a respeito”.
Reviver cada meandro desse e explorar outros que, de tão importantes, nunca perdem o fôlego, é aposta certeira num desbravamento de nós mesmos, do outro e do mundo. Do indefectível universo de Clarice.
Visões de Clarice Lispector - Ensaios, Entrevistas, Leituras
Realizado pelo Instituto Estação das Letras, evento tenta resgatar de forma virtual o projeto Rodas de Leitura que realiza leituras em grupo e trabalha texto, livros e falas de um autor específico
O Instituto Estação das Letras (IEL) realiza nesta quinta (11), às 18h, o encontro Janelas Literárias sobre Clarice Lispector, que será conduzido pelo escritor José Castello e a psicanalista Maria Hena Lemgruber. O Janelas Literárias tenta resgatar, de forma virtual, o projeto Rodas de Leitura, criado e desenvolvido pelo IEL nos anos 1990. São leituras feitas em grupo, nas quais um mediador lê um texto em tela e comenta com a plateia para uma reflexão, uma conversa simples e lúdica. O objetivo do evento, que passa a ser realizado mensalmente pelo IEL, é despertar o gosto pela leitura da literatura nacional ou estrangeira. Nesta edição, o Janelas Literárias trabalhará textos, livros, falas e entrevistas de Clarice, no ano de seu centenário. O investimento é de R$ 50 e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail iel@estacaodasletras.com.br. O encontro virtual é ainda um tira gosto para o Extremos - Círculo de Leitura de Ficções Radicais, no qual Castello e Hena trabalharão A Peste, romance de Albert Camus. A oficina será realizada de 17 de junho a 26 de agosto, sempre às quartas-feiras, das 19h às 21h.
A Tradição, que em 2021 volta ao grupo especial do Rio, vai homenagear a escritora cujo centenário de nascimento é lembrado em dezembro
A escritora Clarice Lispector será tema de escola de samba no Rio em 2021. Quem decidiu homenagear a autora, cujo centenário de nascimento é celebrado este ano, foi a Tradição, que volta ao grupo especial do carnaval do Rio do próximo ano. De autoria do carnavalesco e artista plástico Leandro Valente, o enredo ganhou o nome de Clarice. Ao Estadão, Valente disse que a ideia de homenagear a autora era antiga e que como a escola voltou para a série A, decidiram que era o momento certo. “Estamos num momento de incertezas, tempos difíceis. Achamos que a nossa forma de contribuir com dias e meses melhores é com arte. E resolvemos lançar o enredo Clarice. Está sendo lindo ver nossas baianas, passistas e velha guarda pulsando emoção”, contou. A ideia da escola é narrar a vida de Clarice e falar sobre sua obra. Como já adiantou, o desfile será dividido em quatro setores, com 20 alas, quatro alegorias e 1.800 componentes. A última alegoria, A hora é das estrelas, deverá contar com a participação de diversos escritores.
Rocco publica nova edição de ‘A maçã no escuro’ como parte da comemoração do centenário do nascimento de Clarice Lispector
Seriam os atos do homem, às vezes os mais cruéis, necessários para elevá-lo à condição de imagem e razão? Em A maçã no escuro (Rocco, 246 pp, R$ 54,90), Clarice Lispector faz crer que sim, transformando o atordoado Martim em um novo homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime, Martim acaba descobrindo-se como homem, desprezando os antigos valores estabelecidos em sua vida. Na corrida por uma nova existência, ele se revela numa outra condição. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à criação do homem, de um novo ser surgido do nada. A narrativa, próxima da criação bíblica, em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes, faz deles aprendizes do mundo, onde cada etapa funciona como uma gênese de um ser recém-criado. Os três capítulos que formam A maçã no escuro, escrito de 1951 a 1961, quando foi publicado, mostram de forma gradativa o pecado, ato impensado, e a redenção, o surgimento de um outro, como elementos primordiais de evolução do ser. A análise que Clarice impõe nada mais é que o exercício do pensamento: o diferencial do homem, que mata, morre e ressuscita, ressurgido a cada momento.