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Poeta cria definições em busca do sentido fugidio

'Dicionário de imprecisões', de Ana Elisa Ribeiro, transforma em poesia e confere afeto aos significados das palavras
A poeta mineira Ana Elisa Ribeiro apresenta mais uma obra lúdica em que e afetiva sobre o cotidiano e a memória.
A poeta mineira Ana Elisa Ribeiro apresenta mais uma obra lúdica em que e afetiva sobre o cotidiano e a memória. (Eduardo Ribeiro Rocha)
“Amor
Substantivo masculino mas de todos os gêneros, singular
_________________________________________________________________
Acalmar os ânimos. Arrefecer.
Velocidade de cruzeiro.
Sujeito a derivações, desvirtuações, vícios e fim.
Ver paixão.”

Por Adriane Garcia*
Já dizia Mario Quintana que “todos os poemas são de amor”, mesmo se um poeta falar de um gato. Foi esse o verso que me veio à memória enquanto ainda estava nas primeiras páginas do Dicionário de imprecisões, de Ana Elisa Ribeiro. O decorrer da leitura confirmou a declaração do querido poeta gaúcho, que certamente teria gostado do humor e da ironia fina no livro da autora, coisas que lhe eram tão afeitas em poesia.
Partindo de verbetes, a poeta escreve seu dicionário afetivo. Escolhe as palavras que irão compô-lo e constrói poemas com um ritmo peculiar, e isto é muito interessante: que grande parte do livro faz o poema dançar ao som do que sabemos ser leitura de dicionário; porém quem acompanha a poesia de Ana Elisa Ribeiro sabe que sua voz poética vem nos mostrando uma habilidade de falar sério e brincar, no mesmo poema, ao mesmo tempo, com tema e forma. Falando em habilidade, neste dicionário, os fechamentos dos poemas são como fagulhas acendendo o pensamento, ora para confirmá-lo, ora para traí-lo: poesia repleta de inusitado.
Também é de se notar que em Dicionário de imprecisões a poeta traz seus conhecimentos da área de linguística para a poesia, assim como estabelece o contrário. É brincando com a organização que ela desorganiza, seu campo de estudos é invadido e invade, valida e invalida, define e indefine. O resultado é um livro delicioso, que alcançará várias camadas de sensibilidade, efeito da poesia que sabe se aproveitar de todos os meandros de uma palavra.
Se a poeta fala de amor, também fala de política (“a América do Sul padece/ da síndrome de Estocolmo?”), da experiência de ser uma mulher, sobretudo uma mulher que escreve – fala de feminicídio; fala da maternidade, da própria página em branco, antes do poema; do objeto livro, do sentimento medo; sobre as definições e indefinições dos gêneros quanto à sexualidade, afinal, “nos dicionários isso é mais simples do que na vida”. Os poemas chegam a abranger o grande problema nacional da leitura (“No país, vamos precisando de óculos/ que ajudem a interpretar”), assim como em um deles, Ouro Preto, retoma a fotografia, tema de seu livro anterior, Álbum. Curioso e bonito: Saudade ganha um lugar especial no dicionário.
O livro, com projeto gráfico muito bonito de Elza Silveira, conta com ilustrações de Wallison Gontijo e traz, ao final, um índice curioso, em que o leitor, só após a leitura dos poemas, dá-se conta de que leu um dicionário incompleto em que algumas letras iniciais não são contempladas. Esse é um ponto interessante, pois a poeta, quando definia um de seus verbetes, Dicionário, já havia nos avisado que nenhum dicionário é capaz de abarcar toda a experiência de um sujeito e, por isso, um dicionário “deve ser lido com intensa fé”. Lemos o dicionário de Ana Elisa Ribeiro com fé, e até vermos o índice, acreditamos que tudo está ali – então que nos deparamos com a falta de que a poesia cuida.
Voltando ao primeiro parágrafo e ao verso de Mario Quintana, Dicionário de imprecisões é um livro sobre o amor. Por isso dedica uma página para definir “Agora”. Pois o amor é urgente. Já a palavra “urgente” não entra em seu dicionário, porque os bons livros são aqueles que deixam alguma coisa para o leitor escrever.
Escadas
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Substantivo feminino aqui no plural
Escalera é vocábulo do espanhol para nossa escada.
Escadas são para escalar, por supuesto,
e me atraem as coisas mais literais.
No entanto, escadas podem servir para sentar e descansar ou
sentar e chorar, como fiz quando entreguei meu filho ao pai
pela primeira vez.
As escadas laterais do edifício em que trabalho servem para
amantes telefonarem para suas e seus amores,
além de abrigarem casais fazendo sexo,
às vezes, arriscando, amorosamente, suas reputações.
Nunca ouvi dizer que tenham se arrependido.
Filho
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Substantivo, aqui masculino e sujeito a plural
1. Diz-se daquele que nasce das entranhas de alguém.
2. Diz-se daquele que se forma a partir da matriz biológica
de seus pais e nasce das entranhas da mulher.
3. Diz-se daquele que pode ser adotado por pessoas
dispostas ao amor.
4. Diz-se daquele que provê céus e infernos a outrem.
5. É extremamente comum que tenha como mãe uma puta.
6. É também comum que não sejam mesmo putas suas mães.
7. Os pais escapam a essas acusações.
8. Os dicionários não podem definir essas relações
satisfatoriamente.
***
DICIONÁRIO DE IMPRECISÕES
De Ana Elisa Ribeiro
Ilustrações Wallison Gontijo
Edições de Minas
134 páginas
R$ 35
* Adriane Garcia (BH/MG) é poeta, historiadora e arte-educadora.

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