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A queimar cartas de amor

Ele nunca soube o motivo de ser a inspiração de cartas de amor, já que não era tão intenso e passional quanto as cartas que recebia
Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas.
Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas. (Liam Truong / Unsplash)
Ricardo Soares*
A primeira mulher que lhe escreveu cartas de amor o fez com letras miúdas e intenções graúdas espalhadas em parágrafos longos e intensos, cheios de exclamações, suspiros e até espasmos. O coração dela batia ao ritmo das frases e elas eram tão sinceras e derramadas que podiam se ouvir ao fundo dos adjetivos o ruído de sinos remotos que tocavam.
Ele nunca soube o motivo de ser o inspirador de cartas de amor das mulheres, visto que não se achava tão intenso e passional quanto as cartas que inspirava. Era até um sujeito metódico, que dormia sempre na mesma posição e deixava o creme sobre o pincel na véspera de fazer a barba.
Assim sendo não surpreende que a segunda mulher que lhe escreveu cartas de amor tenha tentado se cortar nos finos braços alvos manchando de sangue o papel acobreado onde confessava sua lascívia e seu desespero. Sua letra rotunda revelava uma paixão cheia de afluentes e ele não deu conta de tanto transbordamento.
Ele sempre relutou em ler sob a luz dos abajures e a olhar direto nos olhos das amadas, temendo ver além ou através delas, temendo se ver diante da revelação de uma paixão encontrada - que é aquela que floresce quando identificamos que, atrás da maquiagem e acima das olheiras, há muito mais a desvendar.
Assim sendo não surpreende que a terceira mulher a lhe escrever cartas de amor tenha sido uma míope de olhos intensos e espremidos, mulher que mordia os lábios quando sofria e que assoprava seus próprios calores com um comedimento incompatível com o fogaréu dos seus escritos.
Assim sendo ele foi indo. Sendo destinatário de tantas e tantas cartas de amores que no juntar dos anos já não mais sabia delas e quantas eram elas. Ao fim, por mais intensas que fossem, acabou por achar que todas aquelas cartas eram banais, fugidias, filhas apenas do arroubo do momento. E assim sendo, rasgou todas elas, debruçou-se sobre a pilha e ateou fogo. Ao queimar todas elas tornaram-se, enfim, fiador do seu próprio esquecimento...
*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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