28 de abril de 2022

Igreja sinodal e servidora

Pe. Geovane Saraiva*

O processo de uma Igreja sinodal, segundo o desejo do Papa Francisco, é o do encontro, da escuta, da comunhão, da participação; Igreja da unidade na diversidade, sempre em estado de missão, que quer o ardor de todos na missão, para que caminhem juntos, em comunidade, na vivência dos sacramentos, em atitude de escuta da Palavra de Deus, colocando o irmão no centro, vendo-o na sua dignidade de filho de Deus. Assim sendo, somos, portanto, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, na qual a pedra angular é o elemento essencial da nossa razão de ser e de existir, o fundamento sólido e seguro da construção.

A Igreja sinodal é essencialmente servidora, uma comunidade que caminha, alimentando-se da fé verdadeira, por isso mesmo ela é constituída de pessoas voluntárias e disponíveis, exigindo delas renúncia, doação, generosidade; e elas estão voltadas exclusivamente para Jesus, que é caminho, verdade e vida. Ele soube dizer sim aos apelos do Pai e revelou sua face terna e amiga, sendo essa Igreja mistério de amor, sinal e presença do Reino de Deus.

Não se pode prescindir, numa Igreja sinodal, de que somos chamados de pedras vivas, e Cristo conta conosco como protagonistas indispensáveis nesta construção espiritual, que é a Igreja. Nela, todos são importantes; ninguém é descartável ou inútil. Pensar na Igreja como algo belo e maravilhoso, tendo Cristo como pedra angular de seus discípulos e seguidores, que são pedras vivas neste edifício espiritual, numa forte simbologia indicativa da utilidade das pessoas na Igreja de Cristo.

Numa Igreja sinodal, quer-se a compreensão e o esforço dos cristãos, ao solicitar dos seus filhos, no âmbito da liberdade de todos e de cada um, nossas obrigações e vínculos, a concretude de pedras vivas. Ao mesmo tempo em que estamos desejosos de mais clareza e convicção, conscientes de que, com Cristo, formamos o referido edifício espiritual, participamos do seu sacerdócio santo, para com ele reinarmos associados à sua vida divina, a fim de oferecermos sacrifícios espirituais agradáveis a Deus Pai (cf. Pd 2, 5).

Na acolhida dos frutos colhidos e partilhados, pela vivência da fraternidade e do amor-comunhão, a partir do Sol da justiça e da paz, que o sonho de esperança do Papa Francisco possa ser realizado, ao ver na terra uma Igreja renovada, pacificada e reconciliada. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

21 de abril de 2022

O caminho de Emaús

Pe. Geovane Saraiva*

Somos convidados, neste tempo de Páscoa, a reconhecer e seguir o Senhor ressuscitado, desejosos de um convívio fraterno, com solidária partilha. Ele quer ser presença no nosso meio e quer caminhar com a humanidade, quer revelar o sentido misterioso de sua vida, morto e ressuscitado, de modo especial nas situações exigentes e difíceis. Numa comparação com os discípulos de Emaús, muitas vezes ficamos desiludidos e perplexos, tristes e desanimados, como se a vida não tivesse mais sentido. Cristo, um anônimo e estranho companheiro, se torna amigo de caminhada. Sua presença causou no coração deles algo diferente, tão forte, a ponto de provocar neles uma mudança radical de vida!

A ressurreição é a grande verdade que deve mexer com a nossa vida, assim como aconteceu com as comunidades no início do cristianismo. É uma mística que invade toda a nossa existência, ao mesmo tempo em que se renova a nossa esperança, trazendo para nós um novo sentido. Estejamos certos de que, pela graça do Ressuscitado, experimentamos a certeza da plenitude em Deus, dom maior da vida humana. O Evangelho dos discípulos de Emaús tem a sua parte central na explicação das Escrituras e no anúncio da ressurreição, pelo próprio Jesus, que se tornou nosso irmão, ao revelar seu projeto para a criatura humana. 

Ao ficar conosco, Jesus é aquele que comunica e partilha a vida. Constantemente, está do nosso lado, nas alegrias, nas tristezas e nos desafios da vida, amando cada pessoa, com amor eterno, na sua missão redentora. O Filho de Deus desceu do céu e veio morar entre nós, ao revelar a vontade do Pai, estabelecendo-se no meio da humanidade, e não quer só conversar conosco, mas demonstrar toda a força de seu amor infinito, oferecendo-nos sua amizade e dando-nos sua vida pela nossa realização plena: a salvação.

Os dois discípulos sentiram a necessidade de retornar para junto dos outros e contar a maravilhosa novidade: “O Senhor está vivo! Nós o vimos! Ele nos falou das Escrituras e comeu o pão conosco. Nosso coração ardia pelo caminho” (cf. Lc 24,13-35). O coração deles ardia, consumia-se em chamas e inflamava-se de amor, porque ele é eterno e nele está o sentido da vida, causando neles profundas motivações. Jesus ressuscitou, e os discípulos reconheceram quando ele partiu o pão. Hoje, o Ressuscitado quer ficar conosco, abrir nossos olhos, ficar no nosso meio e caminhar com o seu povo.

Emaús hoje é a nossa comunidade, é o nosso dia a dia. Embora, muitas vezes não reconhecemos Jesus nos caminhos da nossa vida e não acreditamos que está ao nosso lado; também não acreditamos que ressuscitou de verdade. É indispensável um profundo desejo de encontrá-lo, num contexto de desânimo, semelhante ao percurso dos mesmos discípulos de Emaús: falar com o Senhor ressuscitado, ouvi-lo, é maravilhoso!

Que possamos pronunciar esta palavra sagrada: “Verdadeiramente o Senhor ressuscitou!”. Ele quer ser consolo para nossas vidas, força nas nossas dificuldades, luz a iluminar nossos caminhos e, sobretudo, abrir nossos olhos e fazer arder nossos corações. Também é nosso o ardente desejo do encontro com o Senhor ressuscitado, não nos cansando de dizer: “Fica conosco, Senhor!”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

20 de abril de 2022

As reflexões quaresmais não param

Por Alvim Aran*

Iniciamos nossa quaresma com um desejo de lutar por uma conversão de nossos corações. A conversão é um processo lento que nos leva a refletir sobre todas nossas mazelas como seres humanos. O tempo da quaresma é um tempo propício para essa reflexão que nos leva, num sentido mais profundo, a buscar e meditar sobre as dores de Nosso Senhor Jesus Cristo machucado pelos nossos pecados.

É pela cruz que o homem encontra a redenção dos pecados; é pela cruz que os seres humanos são salvos. Com efeito, Jesus diz que quem quer segui-lo deve renunciar a si mesmo e tomar a cruz sobre si. Mas o que são essas cruzes? São os nossos problemas cotidianos, sejam individuais ou coletivos. Jesus quer, de certo modo, que não desistamos de nós, que não desistamos da humanidade, pois Deus não desiste. A história do antigo testamento é a história de um Deus sempre fiel com um povo infiel.

A nossa infidelidade como cristãos nos torna menos humanos, ou seja, quando nos afastamos das ideias de Jesus deixamos nosso ego falar mais alto e perdemos nossa humanidade, esfriamos nossos corações e não permitimos que as dores dos outros nos comovam. Não damos atenção para nossos irmãos e irmãs que precisam de nossa ajuda, não conseguimos ver a misericórdia de Deus e assim não conseguimos ser misericordiosos. 

Essa misericórdia de Deus é expressamente manifestada neste tempo quaresmal, na cruz de Cristo, e durante esses quarenta dias passados foi-nos possível observar bem o Jesus que fica no deserto depois de ser batizado no Rio Jordão, e depois na semana santa: lava pés, sexta feira da paixão e domingo da ressureição. 

Esses dias são para nós um tempo propício para oração e reflexão pessoal no qual meditamos os fatos da vida de Jesus que nos remete a causa do Reino, isto é, a construção de um mundo melhor para todas e todos, em suma, uma sociedade onde corre leite e mel, a terra prometida, a nova Jerusalém. 

Mas para isso acontecer é preciso nos espelhar em Cristo, ser outro Cristo, aprender com o professor por excelência. De forma muito didática, Jesus, pelo tempo no deserto, nos mostra a importância da oração e contato com Deus, pois é Ele que nos dá a força necessária para continuar a caminhar sem desistir. É no lava pés que Jesus vem nos ensinar o sentido do ser cristão, abaixando e lavando os pés uns dos outros, isto é, servindo uns aos outros mutuamente para melhor harmonia no Reino. E é na cruz o ápice de todo o serviço, onde Jesus ensina que “não existe amor maior que dá a vida pelo irmão”. (Jo 15, 13)

A partir dessas reflexões Jesus nos ensina também que Deus não se afasta de nós, somos nós que nos afastamos dele. E “ele está sempre buscando estar perto de nós, falando conosco no Cristo, vivendo conosco por Ele” (Oração Eucarística V). E “amando o seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1), esse amor que deve guiar a vida do cristão, pois foi por amor que Jesus se deixou ser crucificado para nos ensinar a sermos capazes de viver a radicalidade da cruz na construção do reino de Deus. 

E é em cristo crucificado, na radicalidade da cruz, que encontramos novamente nossa humanidade que perdemos conforme vamos nos afastando de Deus. É olhando para o Cristo chagado que podemos refletir sobre nossas ações que o levaram àquele estado triste, como nos lembra o profeta: “não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar. Era desprezado e abandonado pelos homens, homem sujeito a dor, familiarizado com o sofrimento, como pessoa de quem todos escondem o rosto; desprezado, não fazíamos caso nenhum dele. E no entanto era nossos sofrimentos que ele levava sobre si, nossas dores que ele carregava” (Is 53, 2 - 4)

Esse sofrimento que Jesus passou mostrou para nós um novo sentido de reinado, não de forma ditatorial como foram e são as sociedades de sistema político monárquico. Mas o reinado de Cristo consiste no amor doador capaz de transformar pessoas, e assim mudaremos as sociedades para melhor.

Um amor que quebra preconceitos e nos ensina que todos nós estamos sujeitos a errar, o músico diz que “errar não é o fim, diz para mim quem não erra, Jesus foi o único perfeito na terra” (Dexter e Ao Cubo). Isso mesmo, errar não é o fim, todo mundo erra, mas reconhecer que erramos é sabedoria, por isso Deus é fiel e didático, isto é, está sempre mostrando que Ele quer a conversão de nossos corações nos tratando como o pai trata o filho pródigo, a ovelha perdida ou então como a mulher feliz por ter encontrado a moeda desaparecida. 

A nossa conversão é essencial, nosso arrependimento nos leva ao Cristo que, pelo seu sangue, é capaz de selar novamente a aliança, agora nova e eterna. Será que estamos dispostos a seguir essa aliança como indivíduos e enquanto sociedade? Se nossa resposta for sim, precisamos observar algumas atitudes que nos levam a romper essa aliança.

Primeiro nossas atitudes dentro de nossas casas. Nesse tempo de pandemia observamos como somos fracos diante da natureza e do mundo, um vírus microscópico foi capaz de parar o mundo. Mas serviu para refletirmos como está nossa igreja doméstica, isto é, nossa casa cristã. Como nós temos sido igreja anunciadora da palavra de Deus no nosso dia a dia com nossas irmãs e irmãos. 

No papel de cristãos devemos mostrar as pessoas, em nosso conviver diário, o Cristo que buscamos na igreja. Se pregamos um Cristo amoroso, compassivo e misericordioso, temos que ser esse cristo no nosso dia a dia. Como? Tratando melhor nossas irmãs e irmãos e, enquanto sociedade, lutar por uma qualidade de vida melhor para todas e todos. Reflitamos, pois, sobre tudo que possa nos torna menos humanos. Que não promove a vida e, em contrapartida, tudo aquilo que é promovido por uma necro-política, isto é, uma política que exclui alguns para o privilégio de poucos. 

Esse mundo de injustiças que vivemos, embora tenha passado dois mil anos desde que Jesus passou a catequese para nós, é o mesmo que o Mestre de Nazaré lutou contra para estabelecer o Reino de Deus, “onde o rico fica cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre” (Banda “As Meninas”). Nessa pandemia tivemos muitos novos milionários, enquanto os pobres se perdiam em meio a miséria. 

Essa miséria que nossa sociedade passa mostra-nos como o povo de Deus se mantém firme na caminhada rumo a terra santa. Diante de tantos problemas ainda conseguimos encontrar pessoas nos rincões da sociedade que rezam e estão em consonância com Jesus e o Reino. Ainda mantêm viva as virtudes teologais: rezando por um futuro melhor (Fé), esperando esse dia chegar de forma ativa na comunidade (esperança) e ajudando uns aos outros (caridade).

Esses três pontos sobre as virtudes teologais nos mostram que o povo quer mudança e que Deus quer nos ajudar, e com isso a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil trouxe um tema muito caro para todas e todos que é “Fala com sabedoria e ensina com amor”, sobre nossa educação e, principalmente, sobre nossa formação cristã que tem impacto em toda sociedade.

Por sermos uma sociedade de onde a religião dominante é o cristianismo deveríamos ter um senso cristão ao falar de educação, pois “iluminada pela Palavra de Deus, a Educação torna-se mais capaz de oferecer um caminho educativo integral que humaniza, promove a vida e estabelece relações de proximidade, justiça e paz” (Dom Walter Jorge Pinto) 

Quatro pontos para trabalharmos a partir do texto de Dom Walter: 

1. Promoção da Vida
2. Relações de proximidade 
3. Justiça 
4. Paz

Quando se fala em promoção da vida deve-se ter em mente que isso é lutar contra toda forma de leis injustas que impedem o desenvolvimento humano. Políticas que barram o homem de se desenvolver, pois como diz o cantor: “Deus criou o universo para vida ser sempre mais”. (PJ e Raiz) E se a vida deve ser sempre mais, é nossa função trabalhar para isso a luz do Evangelho de Jesus. 

E assim entramos nas relações de proximidades, pois “não se pode pensar na vida de cada um sem pensar na vida de todos e de todo planeta, com a qual está profundamente interligada” (Dom Walter Jorge Pinto). À luz da palavra de Deus, toda indiferença deve acabar entre nós, pois rezamos dizendo “Pai nosso”, e se é nosso, não é individual, é coletivo, e isso nos torna irmãos que devem cuidar uns dos outros e de toda terra como nos ensina o Papa Francisco na encíclica “Louvado Sejas”.

E se somos irmãos e deve existir coletividade entre irmãos, falemos, pois, da degradação da terra e divisão desigual, entrando, assim, na justiça. Quantas irmãs e irmãos não tem casa, não tem terra, não tem trabalho, aqueles três “t’s” que Papa Francisco diz (Teto, trabalho e terra), e acrescentaria ainda um outro “T”, a tecnologia. Pois muitas famílias foram prejudicadas por causa da pandemia e não tiveram acesso aos auxílios por falta de tecnologia, sem falar que muitos não conseguiram estudar por falta de internet e recursos. 

Após ser colocado tudo isso, pensamos que é quase impossível falar de paz, no entanto Jesus diz “eu vos dou a paz, eu vos deixo a minha paz”, e nós rezamos na Santa Missa pedindo que o Mestre “não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima vossa igreja” (Missal Romano, Rito da Comunhão). Ou seja, por mais que existem coisas que cooperam para a degradação do mundo, não podemos abaixar a cabeça, devemos lutar sempre, pois a Cruz de Cristo nessa quaresma nos mostrou que, quando pensamos estar no fim, Jesus reaparece triunfante sobre a morte. 

Mas para Ele aparecer triunfante foi preciso abaixar e se render aos poderes dessa terra que acabam com vida, que nos tornam seres individuais, que anula a justiça e acaba com a paz. Para vermos isso tudo é só olhar para o Cristo crucificado, pois é na Via Sacra que é lavado todos os pecados do mundo. E é na mesma via que podemos meditar sobre nossa vida humana. 

Essa meditação, de forma mais intensa na quaresma, não pode parar nesse tempo e deve se estender até final de nossas vidas. Pois temos irmãs e irmãos que ainda são crucificados nos dias atuais pelas políticas de morte imposta pelos ricos e poderosos. E nós, cristãos, devemos meditar essas coisas à luz de Cristo e seu evangelho libertador, falando com sabedoria e ensinando com amor (CF 2022) para buscar a libertação do mundo pela cruz de Jesus. 

*Aluno de 3º ano de Filosofia, Diocese de Guanhães, Seminário Maior de Diamantina-MG 

16 de abril de 2022

Mistério deslumbrante e fascinante

Pe. Geovane Saraiva*

Ó Deus, pela maravilha deslumbrante e fascinante da nossa salvação, inaugurada na Páscoa, cabe-nos assimilar sempre mais a largueza da vossa indulgente compaixão! Que o mundo inteiro veja e reconheça o reerguimento do que estava caído, no que era velho e caduco, na restauração e renovação de tudo, no mistério do Filho ressuscitado, início e fim da existência do mundo na sua totalidade (cf. Hb 13, 8). Na mais profunda gratidão daquilo que se irrompe como eclosão da Páscoa, que cresça o fervor do povo de Deus, no mesmo mistério, com a consciência de que só se conseguirá dar passos e avançar no caminho das virtudes, quando se convence do auxílio da graça que brota do mistério pascal.  

Que a Páscoa do Senhor nos ajude a pensar, numa prece pelos dois anos de pandemia, nas pessoas que morrem no abandono, sozinhas ou, como queira, na solidão, sem o menor cuidado e sem ninguém, na mais completa indiferença, sem nenhum choro ou lágrima derramada. Que a nossa páscoa, na Páscoa do Senhor, seja consequente, a partir do que acontece hoje, por causa da guerra e da violência, pois sabemos que cumprir o preceito de se despedir de seu ente querido é pela distância, e mentalmente, repetindo-se também a prece ou oração que brota do interior das pessoas, pelos mesmos irmãos queridos e demais pessoas que chegaram ao fim da jornada terrena e ao ocaso.

Como importa a todos nós o espírito de esperança pascal a nos desafiar, colocando, na mente e no coração, a proposta da vida divina, afastados da ilusão de uma esperança passageira, no abraço do triunfo da Páscoa eterna. A Páscoa do Senhor, a partir da Vigília Pascal, no dizer de Santo Agostinho, é a “mãe de todas as celebrações”, que, com seus ritos antigos, toda a sua beleza, sua profundidade poética, e ao mesmo tempo profética, devem nos estimular a ir além do rito.

Que Deus nos dê a mesma graça, a de Jesus ressuscitado, para que possamos, nesta Páscoa de 2022, demonstrar solidariedade, ficando perto e ao lado dos enfermos moribundos, sem esquecer dos que sofrem por causa do isolamento. Na dor humana percebe-se, com clareza, um enorme número de irmãos e irmãs que carregam sua pesada cruz. Superar a indiferença é o nosso desafio, ao vivenciarmos a proposta pascal, restando-nos, pois, fé e esperança no Senhor da vida, o verdadeiro sol, aquele que é eterno e que nunca irá se extinguir. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

14 de abril de 2022

Geovane Saraiva: Veneza em Fortaleza!

                                                  Bacana, mas sem gôndolas italianas: Veneza em Fortaleza! 
Av. Raul Barbosa com Ten. João Albano, Aerolândia, bem no caminho do Aeroporto Internacional. 
Fotos: Pe. Geovane Saraiva,11de abril/22.



9 de abril de 2022

Fortaleza: Terra da Luz

 Pe. Geovane Saraiva*

Fortaleza é a capital do estado do Ceará, que fica no Nordeste brasileiro. Ela é uma cidade conhecida por suas praias, construções verticalmente arrojadas e requintadas, na área nobre, completando 296 anos neste 13 de abril de 2022. Metrópole batizada como Terra da Luz, ou Loira Desposada do Sol, com quase três milhões de habitantes, é a cidade natal de ilustres e renomados brasileiros, entre os quais Dom Helder Câmara e José de Alencar.

A assertiva do professor e historiador Airton de Farias é pertinente: “É uma cidade de muitos ângulos, lados e formas. Há uma cidade do lado 'Leste', 'bonita', com avenidas largas, prédios elegantes, refinados centros comerciais e espaços de consumo. É a cidade que aparece nas imagens das propagandas oficiais e das empresas de propaganda. Há o Centro, ponto em torno do qual a cidade foi se formando ao longo dos séculos, a partir da antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Uma área charmosa, que traz as cicatrizes e as paixões da História e, que nas últimas décadas, sofre com o abandono por parte dos poderes públicos e grandes grupos econômicos, embora ainda pulse, com as multidões atraídas pelo comércio popular ali existente. Existe a Fortaleza 'Oeste', cheia de contradições sociais e de infraestrutura urbana problemática. É a cidade dos bairros populares, da gente trabalhadora, não raro, de pele escura, que batalha e sonha, todo dia, por melhores condições de vida. É a Fortaleza que lembra as contradições de nosso processo histórico, do ontem e do hoje”.

Uma cidade litorânea gloriosa, com lindas atrações turísticas, praças vitalizadas, Shopping Centers atraentes, sofisticados e esmerados, sendo encantadora sua orla marítima! Mas a partir das contradições do seu processo histórico, do ontem e do hoje, esperamos por resposta aos anseios dos que sofrem, sobretudo diante da sensação que temos: de que áreas de riscos não são levadas em conta; elas são, sim, explícitas e escancaradas, começando com a principal via de Fortaleza, a do Aeroporto Internacional.

Como seria maravilhoso, no aniversário de Fortaleza, contar com um pacto do poder público municipal com os moradores desta capital! Seria tão bom colocá-los no centro de todo e qualquer planejamento de melhoria social, econômica, política e cultural! Um governo municipal também incide no estadual e no federal, mas voltado para o futuro de nossa cidade, como um sinal de esperança, quando somos estimulados a interpretar os sinais de Deus, à luz de sua própria palavra, que nos indica uma nova história, um novo futuro para a humanidade.

Que se ponha fim ao domínio dos que pensam numa civilização distante de Deus, com a presença de explorados e exploradores, no desfecho de um povo que se retrai em ser livre e independente. Deus quer superar, dentro do contexto da esperança cristã, aqueles que buscam toldar e obscurecer mentes e corações dos moradores de Fortaleza, numa transigente clemência por uma cidade verdadeiramente reconciliada, perante grandes transformações, longe de todo e qualquer preconceito e intolerância. Parabéns, Fortaleza!

 *Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

7 de abril de 2022

Acolher o irmão, importuno e inadequado

Padre Geovane Saraiva*

O Filho de Deus, antes de subir ao Pai, falou com veemência sobre o sacramento da Eucaristia, com a seguinte afirmação: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém come deste pão, viverá eternamente (cf. Jo 6, 51-71). Temos consciência de que sempre, e por toda parte, a refeição foi símbolo de união. Para nós, cristãos, a refeição salutar por excelência é a Eucaristia, com caráter de sacrifício e de ação de graças, como repetição do sacrifício de Cristo no mistério pascal. No comer e beber da carne e do sangue de Cristo, já experimentamos, pela nossa fé, a eternidade, unidos na recíproca permanência, conforme as palavras do Mestre, que nos leva, não só a compreender seu gesto maior, ao lavar os pés dos discípulos, mas na tarefa desafiadora de procurar fazer o que ele fez, na acolhida ao irmão, quando parece um lapso importuno e inadequado, mesmo no tocar de uma campainha.

São Jerônimo, num comentário sobre o Salmo 102, dizia: “Sou como um pelicano do deserto, aquele pássaro bom que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos”. Ele é o símbolo do sacrifício e da doação de si mesmo. E a Eucaristia é Jesus Cristo mesmo, como pão da vida, do céu e da paz, porque nele está a redenção da humanidade. A principal característica do pelicano é carregar consigo uma bolsa membranosa, prendendo nela o bico, sendo duas ou três vezes maior que seu estômago, com a finalidade de armazenar alimento por um determinado período de tempo. Assim, como a maioria das aves aquáticas, possui os dedos unidos por membranas. Eles são encontrados em todos os continentes, com exceção da Antártida, medindo até três metros de uma asa a outra e pesando até 13 quilos. Os machos são normalmente maiores e possuem bicos mais longos que as fêmeas e alimentam-se de peixes.

Na Europa medieval eram considerados animais especialmente zelosos e alimentavam os filhotes com o alimento tirado da sua própria bolsa e, se chegasse a faltar alimento, eles, num modo de proceder, alimentavam seus filhos com o próprio sangue, gesto este que, por analogia, nos faz pensar no próprio Filho de Deus. Daí o pelicano nos representar, nós que abraçamos a fé, nessa profunda simbologia da Paixão de Cristo, da Eucaristia e da autoimolação do Cordeiro Pascal. Esse tipo de ave costumava sofrer de uma doença, que a deixava com uma marca vermelha no peito. Outra versão é que esse tipo de animal tinha o hábito de matar os seus filhotes; depois disso, ressuscitava-os com seu sangue, o que seria análogo ao sofrimento de Jesus, ao memorial de sua morte e ressurreição.

Jesus Cristo é o pássaro bom e imprescindível, para que nossa Igreja seja verdadeiramente pascal. É por isso que suplicamos: “Ó pássaro bom! Ó pelicano bom, Senhor Jesus!”. Temos consciência de que a Eucaristia é a renovação da aliança do Senhor com a humanidade e que, através dela, se realiza, de um modo contínuo, a obra da redenção. Temos convicção de que a Eucaristia é o sinal da unidade e do vínculo da caridade que, por meio dela, tende toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte de onde emana toda a sua força (cf. SC. 522, 537, 537 e 600). Que o pássaro bom nos ensine a amar mais a Eucaristia, sacramento no qual Jesus se acha presente, com seu corpo, sangue, alma e divindade. Ele é o banquete sagrado, “o pelicano bom a nos inundar com vosso sangue, pelo qual de uma só gota quis salvar o mundo inteiro” (Santo Tomás de Aquino).

Que a nossa fé na Eucaristia possa, não só nos empolgar e nos fascinar em determinados momentos da vida, mas que nos produza um forte desejo de aprender sempre, e cada vez mais, na certeza de vivermos animados na esperança, como bons pelicanos, na renúncia, na doação e na generosidade, como tão bem assertivou Dom Helder: “Que eu aprenda afinal, no mistério pascal, a cobrir de véus o acidental e efêmero, deixando em primeiro plano, apenas, apenas, apenas o mistério da redenção”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


5 de abril de 2022

Dar conta da esperança

Pe. Geovane Saraiva*

O Papa Francisco, no primeiro dia de sua viagem a Malta (36ª), de 1º a 3 de abril de 2022, no coração do Mediterrâneo, destacou a importância das portas abertas para a paz, para acolher quem foge da guerra e da miséria. Francisco, com suas alocuções para todas as pessoas de boa vontade, perante uma sociedade que parece contrariar o projeto de Deus, proclamado há dois mil anos por Jesus de Nazaré, rezou para que todos tenham “a graça de um bom coração, que palpite de amor pelos irmãos”.

Como se dar conta da esperança com olhos ao inesperado? A guerra que parecia ser distante da humanidade, tida como “guerra fria”, atingiu em cheio, e diretamente, o mundo. A oração proclamada por Francisco, naquele local do Mediterrâneo, recorda o naufrágio sofrido pelo Apóstolo dos Gentios na Ilha de Malta, no esforço de perceber sinais de um mundo reconciliado: “Ajudai-nos a reconhecer de longe as necessidades daqueles que lutam por entre as ondas do mar, atirados contra as rochas duma costa desconhecida”. Jesus, filho de Maria de Nazaré e do carpinteiro José, quer, neste final de quaresma, na inspiração do Papa, desmanchar a montanha da falta de esperança no mundo.

As ondas do valente mar, na vida das pessoas, mesmo com o seu mais digno argumento da sonhada esperança, por vezes esvaziada, quando, no mundo, na sociedade e na própria Igreja, se percebe esvaziar ou aproximar o distanciamento da vida com a esperança, como dom e graça, no abalo de sua deletéria degradação, quando se transparecem longínquos e remotos o referencial e a meta do monte sagrado, a glória futura. Eis o apelo de Deus para todos: de escutar, na convocação do Papa Francisco, seu clamor solidário, como na assertiva de Dom Helder: “No amor para dar, difundir e semear”.

No mundo, com o estigma da insensatez e da ausência de corações generosos e solidários, mas amparado pelo manto da justiça e da paz, que sejamos impulsionados, à luz da concretude do Evangelho, a mudar nosso estilo de vida. São as guerras nossas de cada dia: no abismo enorme, pelo número incontável de irmãos empobrecidos, na diversidade do mundo, na exclusão social, na dependência química, na autossuficiência e na carência de toda natureza.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

1 de abril de 2022

No Mundo de Fortaleza

Airton de Farias*

Fortaleza, com quase três milhões de habitantes, é uma cidade de muitos ângulos, lados e formas. Há uma cidade do lado “leste”, “bonita”, com avenidas largas, prédios elegantes, refinados centros comerciais e espaços de consumo. É a cidade que aparece nas imagens das propagandas oficiais e das empresas de propaganda.

Há o centro, ponto em torno do qual a cidade foi se formando ao longo dos séculos, a partir da antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Uma área charmosa, que traz as cicatrizes e as paixões da História e, que nas últimas décadas, sofre com o abandono por parte dos poderes públicos e grandes grupos econômicos, embora ainda pulse, com as multidões atraídas pelo comércio popular ali existente.

Existe a Fortaleza “oeste”, cheia de contradições sociais e de infraestrutura urbana problemática. É a cidade dos bairros populares, da gente trabalhadora, não raro, de pele escura, que batalha e sonha, todo dia, por melhores condições de vida. É a Fortaleza que lembra as contradições de nosso processo histórico, do ontem e do hoje.

Uma Fortaleza de muita fé e de não poucos templos. Entre tantos, não há como deixar de notar a majestosa "Igreja Redonda", ali nas margens da Avenida Jovita Feitosa. Mais que um templo, é uma referência de arquitetura e memória da cidade. Mais que um edifício e local sagrado, é também conhecida pelas prédicas de seu pároco, Geovane Saraiva. Um religioso que pratica uma religião viva, dinâmica, engajada. Padre Geovane aborda e nos traz mensagens revigorantes de Cristo, que se encontra, não acima de ninguém, mas entre as pessoas, entre nós todos. Um Cristo que venceu a morte e se faz presente na solidariedade, no amor ao próximo e na justiça social. Um Cristo distante da fé enclausurada e burocrática destes tempos de falsos mitos, que, por esquecerem o humanismo, acabam turvando os corações das pessoas com palavras vazias.

É com essa sensibilidade, de uma fé redentora e do legado arquitetônico da "Igreja Redonda", que Padre Geovane nos traz mais esta obra. O religioso é um pródigo escritor, com várias obras produzidas abordando questões variadas. Aqui, nestas páginas, nosso autor está em plena forma. A sensibilidade do religioso e sua sagacidade transbordam, ao compreender os muitos espaços de Fortaleza. É uma obra de forte impacto visual, quase um álbum para as futuras gerações, sobre a capital cearense neste começo de século XXI. Com fotos e sínteses inteligentes, Padre Geovane nos apresenta uma Fortaleza em diversas perspectivas, quase como uma metáfora da Igreja em que atua – não ficar no lugar, girar para entender. Uma obra para ser lida e vista com tato, verdadeira materialização do ser e do sentir de um dos mais importantes religiosos desta cidade.

*Professor e Historiador. Mestrado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense e Pós-doutor pela Universidade Federal do Ceará (UFC).