27 de maio de 2021

Deus não é solidão

“Ide e fazei discípulos meus todos os povos” (Mt 28,19)

Dom Jeová Elias*

Neste domingo, celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, que é a festa da comunidade, festa de um Deus que é comunhão e não solidão. De um Deus que é diversidade na unidade: que é Pai, é Filho e é Espírito Santo. Possui uma natureza apenas, a divina, mas em três pessoas distintas. Trata-se de um mistério importante da nossa fé cristã, revelado por Jesus Cristo. Mistério que pode ser acessado pela nossa razão, mas não pode ser captado totalmente pela mente humana, pois a Trindade é, essencialmente, infinita e eterna.

Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), mas de um Deus comunhão, um Deus que é relação e não isolamento, porque é amor, e o amor não pode se isolar, não pode ser contido, deve ser comunicado. 

O Evangelho desta Solenidade é a conclusão de São Mateus. Localiza a cena num monte, na Galileia, região onde Jesus iniciara seu ministério; lugar de gente sofrida e marginalizada. Para lá se dirigem os onze discípulos de Jesus e dele recebem o mandato imperativo: ide! É uma ordem para saírem, para fazerem discípulos, para se relacionarem e se descobrirem como pessoas nas relações com os outros. Eles devem ensinar, mas também aprender no contato com os outros.

Francisco, nosso querido Papa, tem pedido reiteradamente para sermos uma Igreja em saída, para irmos, como ordenou Jesus, e estarmos em contato com as pessoas nas periferias geográficas e existenciais, tocando o rosto de quem sofre e nos misturando com os outros, pois faz bem sair de si. O pedido do Papa é para que não fiquemos em compasso de espera nos nossos templos, nem nos restrinjamos a uma pastoral de sacristia.

A outra ordem dada por Jesus é batizar (v. 19b). O Batismo é o sacramento que nos insere no mistério da Santíssima Trindade, na vida da comunidade, na saída do eu para o nós. Pelo Batismo, somos mergulhados no mistério de um Deus comunhão.

A festa da Santíssima Trindade nos ensina algumas lições: ensina a romper com a solidão, a romper com o egoísmo, a sair de si e ir ao encontro dos outros, a se relacionar. A nossa cultura liberal pós-moderna é marcada profundamente pelo individualismo, pela defesa da ideia de que é cada um por si e Deus por todos. Uma música que viralizou em 2008, na internet, repetia o refrão: “Ado, aado, cada um no seu quadrado”, em parte, manifesta essa tentação. Mas a Santíssima Trindade nos ensina que não é assim: é todos juntos, cada um saindo do seu quadrado e se preocupando com a outra pessoa. Ou vivemos juntos, dando-nos as mãos numa ajuda mútua, ou afundaremos juntos. É necessário viver em comunidade e valorizar a vida na comunidade. 

Apesar da desvalorização atual e da desconfiança nas instituições comunitárias - sindicatos, ONGs, religiões, partidos políticos - devemos, como cristãos, valorizar a comunidade. A pandemia que nos assola, mostra que somos interdependentes, que devemos ter o cuidado com a saúde individual, mas também respeitar as medidas sanitárias preventivas, visando a saúde coletiva. Somos corresponsáveis uns pelos outros.

A finalidade da nossa existência é ser feliz, já na terra e se plenificando na eternidade. Mas é ilusório querer ser feliz sozinho. A música Momento Novo, cantada alegremente nas nossas comunidades, afirma: “Deus chama a gente pra um momento novo, de caminhar junto com seu povo; é hora de transformar o que não dá mais, sozinho, isolado, ninguém é capaz”. Não é possível ser feliz sozinho! Somente é possível ser feliz com os outros. Como ser feliz enquanto outros sofrem e são infelizes? Sendo a Santíssima Trindade uma comunidade de amor, esse amor que recebemos de Deus é o que nos torna capazes de querer a felicidade dos outros também. 

É desafiador viver em comunidade, onde as pessoas são ímpares, carregam suas particularidades, seus valores e também suas debilidades. É arriscado empenhar-se em favor da vida digna para todas as pessoas, sobretudo as mais fragilizadas. O Evangelho constata a dúvida de alguns dos discípulos, como expressão do medo do risco de se comprometer, mais do que da falta de fé.  

Outra dificuldade é viver a unidade em um mundo plural: de muitas ideias, de muitas crenças, de muitas etnias, de muitos interesses díspares. A Trindade também é uma escola que ensina a viver a unidade na diversidade. As três pessoas são distintas, contudo, a distinção não provoca divisão e competição, mas colaboração. Nenhuma das três pessoas da Santíssima Trindade é mais importante, mais santa, ou mais poderosa do que as outras. O diferente não deve ser visto como uma ameaça para mim, mas como uma possibilidade de enriquecimento. O diferente deve me complementar e ajudar a crescer.

Mesmo que seja uma tarefa árdua superar o individualismo, viver em comunidade e valorizar a diversidade, não é impossível, pois Jesus garante caminhar conosco todos os dias, até ao fim do mundo.  Ele assegura a sua presença constante que nos encoraja e nos fortalece para viver a vida em comunidade. 

Valorizemos a vida em comunidade. Contribuamos na construção de comunidades que lutem pela justiça, que sejam fraternas e solidárias. Amemos as nossas famílias e amemos as nossas comunidades de fé.

*Bispo Diocesano de Goiás


26 de maio de 2021

Santíssima Trindade, mistério de amor

Santíssima Trindade, mistério de amor                     

Pe. Geovane Saraiva*

No mistério hipostático[1], pela mais íntima e imaginável união, constituída entre o Criador e a criatura, igualmente que se possa dizer: “Nada mais profundo e mais sublime do que o mistério da Santíssima Trindade, na vida intratrinitária, no que diz respeito à obra criadora de Deus”[2]. Ela exerce a precedência de lugar do mistério de Cristo, ao dominar a história humana, ocupando seu lugar precípuo por direito natural e por direito adquirido do Filho, que carrega consigo a condição humana, visível no amor ao Pai pela sua entrega na cruz, ao instituir a comunidade de fé, contendo sua essência missionária no Espírito Santo.

A tarefa humana, no seu significado mais elevado e insubstituível, no bom desempenho de bem corresponder ao seu sagrado desígnio redentor, encanta infinitamente a criatura humana, que é devedora a Deus, no seu mistério inefável, voltado à humanidade, numa atenção amorosa e na solicitude paternal. Em Francisco de Assis vemos a docilidade do nosso Deus, uno e trino: “Torne-se luminoso em nós, Senhor, teu conhecimento, a fim de que possamos compreender a amplitude de teus benefícios, a extensão de tuas promessas, a sublimidade de tua majestade e a profundidade dos teus juízos”[3].

Na fonte de todo dom e todo bem, a Igreja estende e eleva seu olhar ao mistério primordial do cristianismo, a Trindade Santa, mas no renovado convite aos fiéis, de cantar os louvores de Deus: “Glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo, ao Deus que é, que era e que vem”. Na beleza do mistério da vida humana, que se possa contemplar a relação intrínseca e afeiçoada, em Deus, no mistério da Santíssima Trindade, na nossa condição existencial e contingente, porque Deus o quis, na sua imperscrutável providência. Eis o desafio: mergulhar na sua verdadeira sabedoria, que é dom de Deus, pela qual o homem fica predisposto e suscetível diante da vontade de agir, segundo o plano salvífico de Deus.

Jesus confia a seus discípulos a excelsa missão de fazer todos os povos conhecedores do seu santo nome, pelo batismo e pelo ensinamento do Evangelho, na sua ordem categórica de batizar: “Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”[4]. E assim foi feito desde o início da Igreja. De fato, se entendeu; essa fórmula faz parte da forma essencial do sacramento, sem a qual ele não ocorre validamente, precisando que se administre na autoridade de Jesus.

Batizar em “nome de Jesus de Nazaré” quer expressar, sem deixar dúvida na sua definição, a consagração e marcar pelo referido sacramento naquele, cujo nome é pronunciado com persuasão, transparência e esmero. As três pessoas são nomeadas, evidentemente, no batismo como pessoas divinas, porque o batismo é uma consagração a Deus, que ao Filho e ao Espírito Santo é atribuída, na mesma dignidade do Pai, que sem dúvida alguma é Deus. 

A despeito da Trindade Santa, os padres da Igreja concluíram o direito que o Filho e o Espírito Santo carregam consigo, que é a mesma essência do Pai, sendo, portanto, os três absolutamente iguais. Dúvidas constataram-se com frequência no decorrer da nossa civilização cristã, a partir da definição teológica acima, depois do Concílio de Niceia[5]. A partir da posição, ou crença, ou mesmo circunstância, essa definição teria sido inserida no Evangelho de São Mateus. Certamente ela é arcaica ou anacrônica e não corresponde ao que é autêntico e verdadeiro, sendo que os antigos manuscritos e traduções atestam o contrário, de um modo inequívoco.

Assim, convém que se diga: suas relações uns com os outros são consideradas como um todo, coiguais, coeternos e consubstanciais. Agora, “cada um é Deus, completo e inteiro”, sendo que toda a obra da criação e da graça é vista como uma única operação comum de todas as três pessoas divinas, que cada uma delas manifesta o que lhe é próprio na Trindade, de modo que todas as coisas são “a partir do Pai”, “através do Filho” e “no Espírito Santo”. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).



[1] Denzinger – Hünerman. O Deus trino. Pág. 1252.

[2] Lorcheider, Aloísio Dom. Diante de Deus. Pág. 45.

[3] Cantalamessa, Raniero. Subindo ao Monte Sinai. Pág. 35.

[4] Cf. Mt 28, 19.

[5] Concílio de Niceia, 325.

22 de maio de 2021

“Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo.”


Pe. Paulo Sérgio Silva*

Tal qual a ventania mencionada na Primeira Leitura, a presença do Espírito Santo preenche a conclusão do Tempo Pascal com a solenidade de Pentecostes. O Espírito Santo já se fez presente na paixão, morte e ressurreição quando Jesus entregou na cruz o Espírito e, no mesmo Espírito, foi ressuscitado pelo Pai. Agora, derrama-o soprando como Dom de Deus a todos os fiéis para edificar, transformar, renovar a Igreja/Comunidade e fazer surgir a humanidade nova para o Reino de Deus.

Na Primeira Leitura (At 2,1-11), o Espírito Santo é apresentado como Aquele que orienta a caminhada em direção ao Reino. Como aconteceu no início dos tempos, Ele cria a nova comunidade do Povo de Deus, superando as suas diferenças socioculturais e une numa mesma comunidade de amor povos de todas as raças e culturas. O Espírito é apresentado através de dois símbolos: o vento e o fogo. Eles simbolizam a força irresistível de Deus que vem ao encontro, comunica-se e dando o seu Espírito constitui a comunidade de Deus (cf. Ex. 19,16.18; Dt. 4,36). Sua ação demonstra que o Espírito não está restrito à Igreja. Ele enche, impregna e renova o universo e toda a humanidade. Onde menos esperamos, podemos encontrar a ação do Espírito do Senhor que vai “cristificando” toda a humanidade e toda a criação.

Na Segunda Leitura (1Cor 12,3b-7.12-13), Paulo avisa aos coríntios que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede a inumerável diversidade de dons que enriquecem, produzem e mantém a unidade eclesial. Sendo assim, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos a serviço de todos. É então preciso que os membros da comunidade tenham consciência de que apesar da diversidade de dons espirituais e funções é o mesmo Deus que age em todos.

No Evangelho (Jo 20.19-23), João apresenta-nos a comunidade cristã reunida em torno de Jesus ressuscitado. Para ele, à medida que Cristo comunica o Espírito Santo a comunidade é recriada como viva e rejuvenescida. O gesto de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de Deus ao comunicar a vida ao homem de argila em Gêneses (2,7). É o Espírito que permite a eles superar o fechamento do coração provocado pelo medo e dar testemunho do amor que Jesus viveu até a doação da própria vida. Vivificados pelo Espírito, recebem sua missão: a eliminação do pecado. É preciso ser claro e falar à humanidade aquilo que é de Deus e aquilo que é fruto do pecado. Quem aceita as condições do Reino torna-se membro da comunidade de Jesus. Quem não aceita, continua a percorrer caminhos de egoísmo, de corrupção e de morte, isto é, de pecado. A comunidade dos discípulos, animada pelo Espírito, não será dona da salvação, mas a mediadora desta oferta de salvação.

Na Semana de Oração pela Unidade Cristã cabe interrogar-nos: o que é que nos une? Em que se baseia a nossa unidade? Como estamos usando os dons e o mesmo Espírito que nos foi dado no Batismo e confirmado na Crisma? Temos colocados os dons a serviço da comunidade ou nos fechados em atitudes de egoísmo e individualismo?

Encerremos com a oração feita pelo Papa Francisco na festa de Pentecostes de 2020: “Irmãos e irmãs, peçamo-lo: Espírito Santo, memória de Deus, reavivai em nós a lembrança do dom recebido. Libertai-nos das paralisias do egoísmo e acendei em nós o desejo de servir, de fazer bem. Porque pior do que esta crise só o drama de a desperdiçar fechando-nos em nós mesmos. Vinde, Espírito Santo! Vós que sois harmonia, tornai-nos construtores de unidade; Vós que sempre Vos doais, dai-nos a coragem de sair de nós mesmos, de nos amar e ajudar, para nos tornarmos uma única família. Amém.

*Professor de Teologia e Pároco de Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito

21 de maio de 2021

Podcast: Pentecostes: o sopro da vida!

 



Por Pe. Geovane Saraiva



A beleza de um abraço

Dom Jeová Elias*
No dia 22 de maio, pesquisei na internet, é celebrado o dia do abraço. Vi também que teve origem em 2004, por ocasião do retorno de um australiano chamado Juan Mann, depois de um tempo sofrido em Londres, mas que não encontra quem o receba em Sydney, sua cidade natal. Ele escreveu num cartaz: “Free hugs”, abraço grátis, e o expôs consigo num dos locais mais movimentados da cidade. Após alguns olhares desconfiados, algumas pessoas acolheram a oferta do seu abraço.

São inúmeros os benefícios do abraço destacados por alguns especialistas. Dizem que ele estimula a produção do hormônio oxitocina, que produz a sensação de bem-estar. Ele diminui o estresse, melhora a comunicação, aumenta a autoestima, reduz a pressão arterial, diminui a sensação de dor, reduz os medos, melhora o humor. Contudo, o mais importante é que ele nos ajuda a ser mais humanos. Também possibilita manifestar o amor divino, pois “o corpo é a língua materna de Deus” (José Tolentino, A mística do Instante, p. 12).

Quanta falta faz o abraço caloroso, amoroso, cheio de ternura, neste tempo sofrido e esperançoso de pandemia. Faz falta acalentar o sofrimento e a dor com um abraço. Faz falta a despedida com um abraço. Faz falta o cumprimento efusivo e alegre com um abraço. Quantos abraços estamos devendo e de quantos abraços somos credores!

O cardeal português José Tolentino, numa meditação apresentada aos bispos brasileiros, em novembro de 2020, sobre este tempo de pandemia, intitulada “Que parábolas para o nosso tempo”, apresentava o abraço como uma escola de humanidade. Dizia: “O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade para entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e desculpas. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível; são plenitude consentida ao afeto que reconcilia e revitaliza. Num abraço, tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração”. Ressaltava que a pandemia nos acorda “para reconhecermos o valor de dimensões da vida e da humanidade e, nesse sentido, nos reconduz ao essencial”.

Na meditação referida, o cardeal Tolentino busca parábolas no nosso tempo que manifestem os valores do Reino de Deus. Ele destaca uma notícia de um jornal sobre um lar de idosos na Itália que criou a sala dos abraços para favorecer a troca de afeto entre os idosos e seus amigos e parentes, com a proteção de uma cortina de plástico. As pessoas podiam trocar os afetos sem transgredir os protocolos sanitários. A propósito, a foto do dinamarquês Mad Niessen mostrando um abraço entre uma cuidadora e uma senhora idosa, em Ribeirão Pires, na grande São Paulo, com a proteção de uma capa plástica, foi eleita como a foto do ano 2020 pela organização World Press Photo. Ela ressalta a emoção do abraço entre as duas mulheres, o primeiro recebido pela idosa de 85 anos em 5 meses após o início da pandemia.

A Bíblia apresenta alguns abraços que marcaram a história da salvação como gestos de acolhida misericordiosa e alegre, mas também contendo as lágrimas de despedida. Destaca o abraço do Pai misericordioso acolhendo o filho que retorna ao lar (Cf. Lc 15, 20), imortalizado no belíssimo quadro pintado por Rembrandt. Apresenta a demonstração de afeto de Jesus tocando as pessoas, mesmo aquelas que a Lei do puro e do impuro impedia: os leprosos, os enfermos em geral, os falecidos... Jesus abraçava as crianças e as acolhia com amor (Cf. Mc 10, 13-16). Registra ainda o doloroso abraço na despedida de Paulo, sem a perspectiva de reencontro com os seus amigos anciãos de Éfeso (Cf. At 20, 37).

Outro abraço importante foi o de Francisco de Assis num homem leproso: um momento inesquecível na sua vocação. São Francisco manifestava a misericórdia divina que toca a miséria humana, superando a tentação de manter-se distante das chagas do Senhor. Como diz o Papa Francisco: “O amor às pessoas é uma força espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus” (Evangelii Gaudium n. 272).

Neste tempo de pandemia, grande parte dos contatos humanos foram deslocados para os meios digitais: os encontros, as celebrações, os debates, as canções. Todavia, “nenhum meio digital pode satisfazer o desejo da alma humana de ter contato direto com seus entes queridos, com a realidade; nada pode substituir a interação direta com a complexidade que as experiências dos outros oferecem. A comunicação é muito mais do que uma conexão, é muito mais fecunda quando há vínculos de confiança: comunhão, fraternidade, presença física” (Papa Francisco, Vamos sonhar Juntos, p. 30). O Papa reconhece a necessidade do distanciamento social como um dos meios preventivos contra a pandemia, mas afirma que será insustentável por longo tempo sem corroer a nossa humanidade. Existimos para os contatos físicos e não somente para as conexões.

Enquanto persistir a pandemia, cultivemos os contatos pelos meios digitais que dispomos. É melhor do que nada: um telefonema, uma mensagem, uma declaração de amor, o envio de um abraço com palavras ternas. Sonhemos com o retorno de relações mais humanas pós-pandemia. Não sejamos mesquinhos na nossa manifestação de afeto. Não economizemos carinho como um avarento acumula dinheiro. Que os abraços, que não pudemos dar e receber, sejam multiplicados com generosidade.

Deixo aqui um abraço do tamanho do mundo a você que lê este artigo.

*Bispo Diocesano de Goiás

20 de maio de 2021

Pentecostes: o sopro de vida

Pé. Geovane Saraiva*
O dom da supremacia de Cristo, que, tendo morrido e ressuscitado pela redenção dos homens, encontra sua prova indizível e inexprimível, do ponto de vista da fé, na sua descida sobre os apóstolos, na tarde do domingo da Ressurreição. A subida do filho de Deus aos céus, com a promessa de estar contíguo ao Pai, tem um olhar imorredouro para a humanidade, enquanto esta se dispõe a caminhar, na esperança, rumo à eternidade, mas sem hesitar nem se atenuar em complacências. Eis, pois, o grande desafio, o da presença de Deus, numa íntima mística sem medida, ou excessiva, a ponto de confundi-la com a própria intimidade divina, afastando qualquer dúvida: “Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria” (Jo 16, 20).

Essa intimidade é o alento, ou sopro, oriundo do Espírito Santo de Deus, considerando seu impulso vital e fecundo, enquanto temível e misterioso, ao expressar o braço de Deus, como nos assegura o Livro Sagrado (cf. Is 40, 15). Fenômeno inusitado e deslumbrante, sim, seja no envolvimento da criatura humana, seja no envolvimento do mundo e da natureza, nas manifestações ao longo dos tempos, com especial poder, atribuído ao sopro do Espírito Santo, que quer nos ensinar que fomos criados para Deus e que nossa vocação ou destino é o céu, na meritória frase de Santo Agostinho: “Criaste-nos para vós e o nosso coração está inquieto até que repouse em vós”.

O mistério pascal tem seu cume, convenhamos, na ressurreição e na ascensão do Senhor, mas também em pentecostes, como ato convincente e irrefutavelmente conclusivo ao inefável mistério de amor. Quem é aquele que sobe? É o mesmo que desceu e desce. Ele desce, cumprindo a vontade divina, para curar o homem, na sua clemente complacência e inteira indulgência; subiu, para exaltar sublimemente e dignificar a criatura humana. Se ele tivesse sido elevado por si próprio, teria caído em ruínas, mas, como foi o próprio Deus que o elevou no seu mistério incontroverso e inatacável, permanece seguro, imutável e inalterável. Na sua ressurreição, de modo consistente, temos a nossa esperança; já na sua ascensão, estando Jesus à direita do Pai, temos nossa segurança definitiva e duradoura, refúgio da humanidade em todos os tempos (cf. S, Agostinho).

Depois da morte de Jesus de Nazaré, o Espírito Santo desceu sobre a comunidade de Jerusalém, visível em línguas de fogo; todos ficaram cheios daquele mesmo Espírito, que veio do alto e que pelo Pai foi derramado como dom sobrenatural, que, em circunstâncias esplêndidas, quer intervir para realizar milagres no mundo das pessoas. É o Espírito de Deus, com seu sopro de vida, que tudo realiza e deixa sua marca, com rastros de bondade, sendo tudo voltado para o bem, porque o Espírito de Deus é bom. Não devemos esquecer de que as pessoas são chamadas por Deus de uma maneira diferente, numa ação livre, com resposta amorosa e afavelmente terna; do contrário, a vida perde seu verdadeiro sentido. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

Fotos: Pe. Geovane Saraiva/sertão de Canindé-CE.
(CE 065 – Serra do Baturité). Fotografias na ladeira de Canindé/Aratuba-CE.

Espírito Santo: sopro que move a nossa vida

 "Soprou sobre eles e disse: recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 22)

Dom Jeová Elias*

HOMENAGEM À DOM JEOVÁ ELIAS - YouTube

Neste domingo concluímos o ciclo litúrgico da Páscoa com a Solenidade de Pentecostes, ou o envio do Espírito Santo sobre a Igreja nascente. A palavra pentecostes, de origem grega, significa quinquagésimo. Faz referência a cinquenta dias. Esta Solenidade que hoje celebramos tem raízes antigas. Inicialmente era ligada à vida do povo camponês, como uma festa da colheita (Ex 23, 16; Nm 28, 26; Lv 23, 16ss). Celebravam a alegria por colherem as primeiras espigas do trigo e manifestavam gratidão a Deus, oferecendo as primícias dos frutos colhidos. Mais tarde, Pentecostes passou a celebrar um fato marcante na história de Israel: o aniversário da aliança firmada com Deus cinquenta dias depois da Páscoa (Ex 19, 1-15), da saída da escravidão no Egito para a liberdade dos filhos e filhas de Deus. Agora eles recordam a Lei recebida, que deverá defender a dignidade da vida para todos.

Nós cristãos, seguindo a ensinamento de Lucas na primeira leitura desta Solenidade (cf. At 2, 1-11), celebramos o coroamento da Páscoa com o envio do Espírito Santo sobre os apóstolos, cinquenta dias depois da ressurreição de Jesus Cristo. Contudo, para São João, o envio do Espírito Santo ocorre no mesmo dia da ressurreição. Pentecostes é a festa da unidade na diversidade do amor; a festa da efusão do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, o qual, durante muito tempo, ficou relegado a segundo plano, porque não tinha uma representação humana. Era retratado como fogo, como brisa, como pomba, a imagem mais popular, e como ar, conforme apresenta João: Jesus soprou sobre os apóstolos e disse: "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 22).

A palavra Espírito, em hebraico, é Ruah, que significa sopro, vento. Em grego é Pneuma, que também significa ar. Em latim é Spiritus, como a força vital de Deus. É impossível viver sem o ar. A vida somente é possível através da ação do Espírito Santo. Ele é a alma da Igreja. A representação do Espírito como ar manifesta a impossibilidade da vida sem Ele. É impossível viver sem respirar! A pandemia que nos assola confirma isto. Passamos alguns dias sem comer e sem beber, mas não conseguimos resistir alguns minutos sem respirar. O elemento mais imprescindível para a vida é o ar. O Espírito é o ar que move a nossa vida: sem Ele não podemos acreditar, não podemos viver, não podemos amar, não podemos fazer o bem.

O sopro que Jesus insufla sobre os Apóstolos também recorda e resgata a criação divina, o vento que soprava sobre as águas, fecundando a obra da criação (Gn 1, 2). Recorda ainda o sopro divino de vida no relato da criação do homem, tornando-o um ser vivente (Gn 2, 7). Na nova criação, o Espírito age fazendo com que Maria conceba Jesus Cristo, o Filho de Deus. Agora Ele gera a Igreja, renova a vida, renova a obra da criação divina. O Espírito Santo é força encorajadora para missão. Jesus hoje diz: "como o Pai me enviou, também eu vos envio" (Jo 20, 21), e sopra o Espírito. Esse sopro divino enche os Apóstolos de audácia para viverem e anunciarem o Evangelho. Eles, que estavam trancados, assustados e medrosos, agora, pela ação do Espírito Santo, rompem as barreiras e se dirigem para o mundo.

Desejamos que este sopro encorajador do Espírito nos ajude a ser uma Igreja em saída, como pede o querido Papa Francisco: indo às periferias existenciais e geográficas, ajudando a renovar a esperança dos pobres e renovando também o nosso compromisso com eles. Já somos habitados pelo Espírito Santo, mas para a vida relacional, a vida em comunidade, não simplesmente para deleite pessoal. Do Espírito Santo recebemos a riqueza dos dons para viver em comunidade, para servir, não simplesmente para o capricho, para a vaidade de quem quer que seja. Acolhamos com alegria o sopro do Espírito enviado por Jesus. Agradeçamos a Jesus pelo ar divino que respiramos e supliquemos que o Espírito Santo inflame a nossa vida para estabelecermos novas relações marcadas pelo amor, nos ajudando a construir um mundo melhor. Abramos o coração para que o Espírito habite nele e nos ajude a transformar a face da terra.

Formulo os votos de que o Espírito Santo seja sopro de vida na sua história, renove a sua esperança, fortaleça sua caminhada e lhe ajude a assumir o seu lugar de serviço na comunidade, colocando os dons que Deus lhe concedeu, e certamente são muitos, a serviço de todos, especialmente dos mais fragilizados. Concluo esta reflexão com a oração do papa Francisco finalizando a pregação sobre a Solenidade de Pentecostes no ano de 2018, na basílica de São Pedro: "Espírito Santo, rajada de vento de Deus, soprai sobre nós. Soprai nos nossos corações e fazei-nos respirar a ternura do Pai. Soprai sobre a Igreja e impeli-a até aos últimos confins, para que, levada por Vós, nada mais leve senão Vós. Soprai sobre o mundo o suave calor da paz e a fresca restauração da esperança. Vinde, Espírito Santo, mudai-nos por dentro e renovai a face da terra". Amém!

*Bispo do Goiás-GO


NOVO COMEÇO


Dr. Júnior Bonfim, Amlef, advogado

Autor: Lucarocas


 Que bom seja seu começo

Com benção de um querubim

Que tenha em seu endereço

O som de um belo clarim

Pra poder comemorar

Um tempo de despertar

Do grande Junior Bomfim.


O começo de esperança

De um novo caminhar

Para um tempo de mudança

Para a alma burilar

E na voz do coração

Sempre cantar a canção

Que nos ensina a amar.

 

E assim recomeçando

Nesse novo breviário

Que o Bomfim vá tomando

O melhor itinerário

Para que sua trajetória

Se registre na história

Sempre um novo aniversário.

 

E assim com alegria

Deixamos o nosso apreço

Da AMLEF Academia

Numa amizade sem preço

Para que junto com os seus

Bomfim tenha com seu Deus

Sempre um novo recomeço.


Fortaleza, 20 de maio de 2021

10:05 horas

Lucarocas a Arte de Ser

(85) 98897-4497

lucarocasescritor@gmail.com

13 de maio de 2021

Charles de Foucauld e o deserto da vida

Padre Geovane Saraiva*
É do conhecimento de muitos, na civilização cristã, que Jesus de Nazaré confidenciou a São Bernardo que sua maior dor, desconhecida em parte pela criatura humana, é a chaga decorrente do peso de sua cruz salvadora, na seguinte manifestação: “Eu tinha uma chaga profundíssima no ombro, sobre o qual carreguei minha pesada cruz. Era ela a chaga mais dolorosa de todas, a qual as pessoas ainda hoje não a conhecem”. Fica, pois, o convite para que, por essa chaga, seja Deus honrado e louvado. Confiemos na sua segura resolução e retribuição, de tudo fazer por meio de suas feridas ocultas, na certeza de que nelas se encontram as dores da humanidade.

Em Charles de Foucauld, com seus propósitos concretos de vida no imenso deserto do Saara, temos o encontro e a descoberta progressiva e sempre maior do absoluto de Deus. Neste tempo que precede sua canonização, somos desafiados a percebermos um Deus verdadeiramente amigo, irmão e companheiro. Temos que ter como fundamento sua espiritualidade, do mais profundo do coração, envolvido e mergulhado no mistério de Deus. Nos seus ensinamentos do Evangelho, o da Cruz do Senhor, o deserto quer ser a água miraculosa e redentora para aqueles momentos difíceis, sequiosos e de grande aridez. A solidão, ou aridez, no exemplo do Irmão D’Foucauld, permite-nos continuar a jornada do dia a dia, como sendo algo precioso e raro, uma dadivosa manifestação da bondade afável e terna de Deus: mérito, dom e graça..

Que o Evangelho da Cruz de Charles de Foucauld, aos olhos da fé, ajude o nosso deserto, despojando-nos de tudo o que nos impede de vivermos a proposta do Reino como um tempo de graças especiais. Deus quer se manifestar, abrindo caminhos, animando-nos com o alimento e com a água verdadeira, que, no seu próprio exemplo, fez sair água das pedras ou do rochedo, matando a fome e a sede de sua esposa sedenta: o povo de Israel. Na travessia do primeiro deserto, nota-se que se sucedeu o mesmo na vida das pessoas, mas com sua presença no meio do seu povo, na alegoria de Israel representado como se fosse sua esposa, que nem sempre soube corresponder ao amor de Javé.

Naqueles 40 anos no deserto, com limitações e vacilos pelos caminhos áridos, estéreis e enfadonhos, com Deus abominando a deslealdade e a infidelidade de seu povo, ele não deixou de lançar um didático convite, com o pedido clamoroso de não endurecer seu coração (cf. Sl 95, 8). Sua promessa, concedendo generosos benefícios, Deus quis contar com a adesão e a aquiescência da esposa: a de andar pelos bons caminhos e observar sua Lei, falando ao coração de sua gente, convocando para a conversão. Que o bem-aventurado Charles de Foucauld interceda a Deus por nós, acompanhando-nos e abençoando-nos em nossos desertos da vida. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).
Fotos: Pe. Geovane Saraiva/sertão de Canindé-CE.
(CE 065 - Serra do Baturité). Fotografias na ladeira de Canindé/Aratuba-CE.


12 de maio de 2021

Anunciar o Evangelho a toda criatura

 “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15).

Dom Jeová Elias*
HOMENAGEM À DOM JEOVÁ ELIAS - YouTubeCelebramos neste domingo a Solenidade da Ascensão do Senhor, isto é, o retorno de Jesus ao seio do Pai. Ele que um dia desceu e entrou na nossa história, assumindo a nossa condição humana, agora retorna, de um modo novo, levando consigo e dignificando a nossa humanidade. “Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus, não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade” (Prefácio da Ascensão do Senhor, I). Ele vai não para nos abandonar, pois permanece presente na Igreja, povo de Deus, nos seus discípulos missionários, continuadores da sua missão. Neles manifestando a sua misericórdia de modo perene.
O Evangelho desta Solenidade é a conclusão de Marcos. Segundo muitos estudiosos da Bíblia, o texto não pertencia originalmente ao evangelista. A conclusão acolhida por São Marcos apresenta a manifestação de Jesus aos onze discípulos com o pedido imperativo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”! (Mc 16,15).
O ide, ordenado por Jesus, é exigente: impele a sair de si, a encontrar-se com os outros, a romper as cascas do nosso egoísmo, a deixar de dar volta em torno de si mesmo, pois o mundo é muito maior, como lembrava Dom Hélder Câmara ao falar sobre missão. Não é simplesmente percorrer longos espaços geográficos, mas manifestar o amor ilimitado de Deus a todos os seres.
Qual é a mensagem que Jesus ordena a levar? Ele manda os discípulos anunciarem o Evangelho, palavra de origem grega que significa feliz notícia. Mas essa feliz mensagem não consiste em letras mortas: é a própria pessoa de Jesus Cristo. É Ele que devemos comunicar, não simplesmente com palavras, mas com a nossa vida. Jesus é a melhor notícia que Deus mandou para a humanidade!
O Papa Francisco diz que “todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de anunciá-lo, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível” (Evangelii Gaudium n. 14). Ninguém deve ser excluído da alegria trazida por Jesus (Cf. Evangelii Gaudium n. 3). Diz ainda, citando o Documento de Aparecida, que “não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos, sendo necessário passar de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária” (Evangelii Gaudiumn. 15). Sermos uma Igreja em saída é a grande insistência que faz o Papa Francisco. Ele exorta a ir ao encontro das pessoas, a misturar-se e afirmaque isso faz bem. Esse pedido fica comprometido neste tempo de pandemia. Como nos faz falta o contato humano afetivo e caloroso. Mas temos esperança de cumprir essa missão.
A Igreja também celebra neste domingo o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Quero destacar aqui algumas ideias da mensagem do Papa Francisco para este dia, com o título: “‘Vem e verás’ (Jo 1, 46). Comunicar, encontrando as pessoas onde e como são”.
A mensagem do Papa, mesmo usando textos de João, está em sintonia com o Evangelho deste domingo. Ele parte do convite dirigido por Filipe a Natanael para ir ao encontro de Jesus. Francisco dirige esse apelo a todos os meios de comunicação: a ir e ver. A sua preocupação é com os meios que nivelam a informação produzida em estúdio, diante dos computadores, sem o contato com a realidade sofrida das pessoas.
Destaca ainda que Jesus também convidou os primeiros discípulos a irem e verem (Jo 1, 39). Eles foram, viram, encantaram-se com Jesus e mudaram suas vidas para sempre. O jornalismo requer disposição em ir ao encontro da realidade, aonde ninguém vai. O Papa agradece aos profissionais que correm riscos pela coragem em denunciar a precariedade de vida das minorias perseguidas em diversas regiões do mundo.
O Papa aponta, na sua mensagem, o valor da rapidez da comunicação nas redes sociais, mas ressalta o risco de uma comunicação social não verificável, manipulada, falsa. Ele nos convida a ter discernimento ao receber e difundir uma informação. “Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar”. A difusão do Evangelho ocorre em vista do encontro pessoa a pessoa, coração a coração.
Concluo a reflexão de hoje com a oração do Papa para este Dia Mundial da Comunicação Social: “Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos, e partir à procura da verdade. Ensinai-nos a ir e ver; ensinai-nos a ouvir, a não cultivar preconceitos, a não tirar conclusões precipitadas. Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém, a reservar tempo para compreender, a prestar atenção ao essencial, a não nos distrairmos com o supérfluo, a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade. Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo e a honestidade de contar o que vimos”.
Deixo o meu abraço com o desejo de que, em meio a tantas notícias sofridas, possamos também ouvir algumas notícias esperançosas.
*Bispo do Goiás-GO

11 de maio de 2021

A melhor parte: livro do Pe. Geovane Saraiva

 “A melhor parte”, com prefácio de Dom Zanoni, Arcebispo de Feira de Santana-BA.

"(...). Há mais de 20 anos o autor, compreendendo a humanidade de Jesus, considerada como a verdadeira manifestação do divino, tem nos oferecido uma palavra de esperança, de paz e de justiça, tendo presente a concretude da vida das pessoas, ajudando-nos a integrar em nossa existência duas dimensões fundamentais da nossa espiritualidade – a ação e a contemplação – de sermos como Marta e Maria na gestação de um novo mundo, sinal do Reino definitivo". Capa: Jânio Lopes





8 de maio de 2021

Jamais se esquecer das mães

Na inesgotável bondade de Deus com a humanidade; no contexto eminentemente terno e afável, que jamais nos esqueçamos de nossas queridas mães.

Por Geovane Saraiva*

No mês dedicado às mães, que nossas preces subam fervorosas aos céus, na intenção de nossas queridas mães. Preces essas associadas, evidentemente, à nossa mãe Maria, uma mãe comum de todos os seres humanos.

Que a seu exemplo, cresçamos na disposição de acolher o projeto amoroso de Deus. De Maria, e com ela, aprendamos a ouvir, no silêncio, a voz de Deus, sempre querendo falar, lá no mais profundo do nosso coração, e ao mesmo tempo agradecidos a Ele pelo dom da vida como um todo, voltando-nos, neste mês de maio, para nossas queridas mães: as vivas e as falecidas.

Maria, mulher que soube recorrer a quem podia socorrer diante da aflição, quando o vinho veio a faltar, indicou-nos, já naquela ocasião, a aflição e o caminho da cruz, inseparáveis da vida de nossas queridas mães. Como é maravilhoso ver o vigor e a força de uma mulher-mãe! “Maria, toda bela, toda pura, toda santa, a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra de seu povo, a nossa honra, garantindo o pleno êxito da redenção pela sua íntima participação na obra redentora de seu Filho". Na inesgotável bondade de Deus com a humanidade; no contexto eminentemente terno e afável, que jamais nos esqueçamos de nossas queridas mães.

Que a confiante súplica elevada ao Senhor Deus, neste Dia das Mães, seja na intenção de animar e de melhor compreender nossas mães, tendo, no coração, a serenidade, a disponibilidade, o silêncio e a alegria de Maria. A grande verdade, de acordo com o projeto indizível de Deus, é de que a Santa Mãe de Deus, inegável glória do gênero humano, se encontra junto a Ele. E, na comemoração do Dia das Mães, que venha sempre, e cada vez mais, a firme convicção de acolher o convite de dar continuidade à vontade do Pai, inaugurado por Jesus de Nazaré.

Contemplamos o Senhor ressuscitado, lá no céu ao lado do Pai, mas com o nosso olhar voltado para a humanidade, direcionado para nossas queridas mães! Que elas participem de um convívio harmonioso, não só neste mês de maio, mas sempre, ofertando ao mundo muitos e bons frutos! Mães, parabéns!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

7 de maio de 2021

Live de Lançamento: "Fora do Meio" do autor Jards Nobre


Só Deus sabe o tamanho do sacrifício que é ser mãe

MOM,BABY,SLEEP / Stocksy

Hozana - publicado em 07/05/21

Mãe é um ser que transcende a própria vida. É capaz de esvaziar-se, esquecer suas fraquezas e necessidades, e lutar contra tudo que ameaçar a sua maior razão de viver: seus filhos

Uma palavra tão pequena e comum que enche de poesia a alma humana… Sempre agradável aos ouvidos e ao coração. Tal o ser que nomina. A mãe povoa, embeleza, enaltece as composições literárias, musicais, teatrais, e tudo que é obra de arte. De sublime doçura, motivação que inspira sentimento singular. Ela encarna o verdadeiro amor. É como diz a canção:

“Mãe é uma só que a gente tem no mundo.

Mãe é o amor mais puro e mais profundo“.

MÃE é colo, é alegria, é segurança, é paz, é certeza, é plenitude… Presença tão forte que, mesmo ausente, é capaz de preencher o vazio com lembranças tão doces que produz uma saudade alegre, diferente de qualquer outra.

Ser mãe é vocação

Uma vocação divina. Um ser que transcende a própria vida. Capaz de esvaziar-se. De esquecer suas fraquezas e necessidades, e lutar contra tudo que ameaçar a sua maior razão de viver, aquele, aquela que gestou, que amamentou, e cujo crescimento acompanhou vigilante. Muitas vezes em condições mínimas, mas com gozo supremo. Resumindo (nos versos do escritor maranhense Coelho Neto): 

“Ser mãe é andar chorando num sorriso!

Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!

Ser mãe é padecer num paraíso!“

Ser mãe é levar uma vida de esforços sobre-humanos, só Deus sabe o tamanho do sacrifício… Feliz por ver o filho crescer, inserir-se… Mas chega, mais cedo ou mais tarde, a hora já sabida, intimamente não desejada: vê-lo voar em busca de outro colo, de outros temperos, construir o próprio ninho… “Deus te abençoe, meu filho! Que seja feliz!” Ah, que o Senhor não permita ser-lhe tirada de vez sua filha querida… sua melhor confidente… Mas, afinal, conhece por experiência, e intuição – este sentido que é lhe característico –, o pensamento do grande filósofo libanês Khalil Gibran:

“Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.“

A dor de ser mãe

Mãe é dor, é sofrimento… E para muitas dessas sublimes criaturas, o paraíso está longe, muito longe, pelo menos neste mundo insano e desigual. Quantas delas, com a alma dilacerada, veem-se forçadas a entregar a outra (feliz) família o seu próprio rebento! Quantas, outrora tão fortes, tão úteis, hoje acumulando anos, abandono e cansaço, aguardam, dias, meses… Quantos suspiros, o tempo se arrastando… Enfim chega o dia. Arrumam-se, penteiam-se, ansiosas… Qual o quê?! A mesma pressa e frieza. Esperanças frustradas mais uma vez. Mas desculpam sempre, sem revolta: “Ela tem muito o que fazer! Coitadinho… é muito trabalho… 

Há as de menor sorte. O sonho de rever seu garoto, sua princesa, pelo menos uma vez antes de partir desta, vai-se desfazendo como as nuvens (que antes contemplava brancas e brincalhonas). Como estará, meu Deus? Por que não aparece? Uma notícia sequer… Pra este caco de mãe ir em paz… É o sonho, felicidade superada apenas pelo momento em que viu nascer o fruto de seu amor, grande, ou não, mas a coisa mais linda e mais querida deste mundo…

O exemplo de Gianna Beretta Molla

Para a mãe, os filhos têm sempre a primazia, seja o primeiro, o segundo, o terceiro, ou o último de uma ‘escadinha’ de muitos degraus…. Que belo o exemplo de Gianna Beretta Molla, a santa italiana que viveu no século XX, devotando-se entre o matrimônio, a maternidade e a profissão (médica). Na gestação do quinto filho, foi detectado um fibroma no seu útero. Fez a cirurgia com sucesso, mas tendo advertido ao médico que preservasse a vida de seu filho. E antes do parto continuou com sua serena determinação: “Se deveis decidir entre mim e o filho, nenhuma hesitação: escolhei – e isto o exijo – a criança. Salvai-a.” Efetivamente, Joana Manuela nasceu, e continua viva. Poucos dias depois, a mãe não resistiu, e em meio a grande sofrimento, repetindo a jaculatória “Jesus, eu te amo, eu te amo”, falece, aos 39 anos. Era o ano de 1962, 23 de abril. Este é, pois, o dia da festa de Santa Gianna. 

Para celebrar todas as mães, a rede social Hozana e a Comunidade Shalom propõem 9 dias de oração com Santa Gianna Beretta Molla pelas mães do mundo inteiro, sejam elas biológicas ou espirituais. Serão 9 dias para conhecermos melhor a história de Santa Gianna e pedirmos a sua intercessão rezando por todas as mães (clique aqui para participar).

Ser mãe: a virtude maior do ser humano

Ser mãe é a virtude maior do ser humano. O próprio Deus quis ter uma mãe, aqui entre nós. E, na sua bondade infinita, também a deu para toda as criaturas humanas. Dela vem a transcendência de todas as mães, ao mostrarem, em certas circunstâncias sabedoria e atitude supra-humanas. Ela, a senhora da Piedade, A Pietá (obra-prima de Michelangelo), que acolheu nos braços, seu filho Jesus, no sofrimento extremo da cruz.

Ah, que felizes somos, mais do que saudosos, por termos tido essa santa companhia… Muito mais felizes os que ainda gozam de sua ternura, seu olhar, seus cuidados! Afora, outras senhoras que, de tão bondosas, atraem o nosso bem-querer, e as tratamos como mães. A todas entoemos louvores. Ai, que bela a minha mãe! É a história que sempre se repete: Eu deveria ter tido muito mais cuidado, muito paciência contigo! Ter-te abraçado e ter-te beijado muito mais. Faltou-me dizer-te infinitas vezes aquele eu te amo! vindo do coração. Mas eu bem sei que já me perdoaste, pela bondade que recebeste dos Céus, de onde velas por mim. E, lembrando-me das tantas ‘modinhas’ que cantavas, segue, para ti, e para todas, esta pérola do nosso rico cancioneiro popular:

“Andei por todos os jardins

Procurando uma flor pra te ofertar

Em lugar algum eu encontrei

A flor… perfeita pra te dar.

Ninguém sabia onde estava

Essa flor mimosa perfeição

Ela se chama flor mamãe

E só nasce no jardim do coração.“

Não, não é fácil definir este tema inesgotável… Contudo, não tenho dúvida em afirmar: Ser mãe é ser cocriadora da vida. Tal virtude confere-lhe um patamar superior entre os mortais seres humanos.

Bem, este trabalho, mais sentimento que literatura, e nada de ciência, está a anos-luz de prestar a merecida homenagem. Haja inspiração e talento para quem pretender consegui-lo. Mas, se minha mãezinha ainda estivesse aqui acharia uma perfeição… “Que coisa linda, meu filho!”, diria, com um sorriso de orelha a orelha.  MÃE… É MÃE!

Olímpio Araújo, do Hozana

6 de maio de 2021

Amar como Jesus amou

 Mensagem de Dom Jeová Elias

“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei” (Jo 15,12).

Dom Jeová Elias*

O texto do Evangelho deste VI domingo da Páscoa está inserido no contexto da última ceia, quando Jesus se despede dos seus Apóstolos. É como se fosse o seu testamento espiritual. Ele dirige palavras marcantes para vida dos Apóstolos e para a nossa vida. Sua preocupação é com o amor: amor que vem do Pai e se dirige ao Filho, do Filho se dirige aos seus discípulos, e estes devem viver o amor entre si. Um amor com as características do amor que Ele teve pelos seus: gratuito, capaz de dar a vida e mesmo de abranger até os inimigos (Cf. Mt 5,44; Lc 6,27).
O amor foi o distintivo dos primeiros cristãos. Deles diziam impressionados os que não acreditavam em Jesus: “Vejam como eles se amam” (Tertuliano, Apologia, 39). O amor era o que marcava a relação na comunidade primitiva.
O sentido da nossa existência está em amar. Somos frutos do amor de Deus e devemos ter como objetivo de vida o amor. Amor que não é simplesmente um sentimento abstrato no nosso coração. O pedido de Jesus é para que o nosso amor se traduza em gestos concretos. Amemo-nos uns aos outros como Ele nos amou. Ele nos amou com uma sensibilidade inconfundível: sentia compaixão pelas pessoas que sofriam, aliviava suas dores e enxugava-lhes as lágrimas; sempre estava disponível para fazer o bem e ajudar a todos aqueles que necessitavam, com gestos de carinho. Ele abraçava as crianças, tocava com ternura os leprosos, curava os enfermos... assim como Jesus fez, também somos convidados a fazer. “Quem ama como Jesus, aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão” (Pagola, O Caminho Aberto por Jesus – João, p. 225).
O amor deve ser o distintivo da nossa religião! Aí esta o cerne da nossa fé e o grande desafio em vivê-la. Há pessoas que buscam uma religião não para desenvolver a capacidade de amar com mais intensidade, mas para tirar proveito particular. Há outras que querem uma religião das nuvens, ou como um conjunto rígido de doutrinas e não como caminho

de seguimento de uma pessoa tão especial: a pessoa de Jesus Cristo, que tinha um grande coração e que só desejou o amor como imperativo. A religião que agrada a Deus vai além dos rituais: é aquela que ajuda as pessoas a amarem. A nossa fé deve ser demonstrada não apenas pelos preciosos símbolos da nossa religião que podemos portar, ou pelas orações que recitamos, mas pela nossa capacidade de amar.
Não é fácil viver o amor, sobretudo numa sociedade pluralista, de muitas ideias, muitas religiões, muitas concepções filosóficas, diversas posições político-partidárias. O diferente tem sido visto por muitas pessoas como inimigo a ser combatido e até abatido. Contudo, o diferente também é meu irmão, é um ser humano que deve ser acolhido e amado. Quanta energia algumas pessoas desperdiçam alimentando o sentimento de ódio, sendo intolerantes. É lamentável que muitos ajam assim em nome da própria fé, da pureza da religião, numa espécie de caça às bruxas. É abominável incluir o nome de Jesus em frases que defendem torturadores! Por que desperdiçar tanta energia fazendo o mal?
O filósofo francês Jean Guitton, falecido em 1999, com 97 anos, no seu romance “Meu Testamento Filosófico”, narra os seus últimos dias, a sua morte e o seu julgamento no tribunal celeste. Inclui no enredo testemunhas de acusação e testemunhas de defesa, contendo filósofos e santos. A primeira indagação dirigida pelo juiz a ele é profundamente questionadora: Jean Guitton, tu amaste? Tal pergunta o interroga se sua vida foi marcada pelo amor; se o seu amor foi desinteressado ou utilitarista; se visava realmente o bem do outro ou o seu próprio. Foi muito difícil para ele responder à pergunta. Certamente será também a pergunta que ouviremos. Espero que a nossa resposta possa ser ao menos: Senhor, eu me empenhei em amar! Senhor, eu quis amar!
Neste segundo domingo de maio comemoramos o Dia das Mães. Felicito você, querida mãe, por este dia tão especial. Minha gratidão a todas as mães que abraçaram com generosidade e responsabilidade essa sublime vocação. Você, mãe, foi chamada por Deus para colaborar com Ele na transmissão da vida e no desabrochar de toda a sua potencialidade. Você é um grande símbolo do amor que Jesus

recomenda. No seu colo, nas suas palavras, nas suas carícias maternais, no seu exemplo de vida sacrificada, os filhos aprendem o que é amar. Ninguém nasce sabendo a amar. A mãe é a primeira educadora para o amor, é a primeira catequista dos filhos. As orações singelas que ela ensina nunca serão esquecidas por eles: ficarão gravadas em seus corações para a eternidade. Formem os seus filhos para serem tolerantes com o diferente, capazes de dialogar e de não verem no outro ser humano distinto um inimigo a ser combatido, mas um irmão a ser amado.
Querido amigo, querida amiga, desejo que esta semana seja marcada pelo profundo amor de Jesus Cristo por você e por sua família. Que o amor recebido seja também compartilhado. Que as suas energias e toda a sua disposição sejam canalizadas para amar: começando no seio da sua família e amigos, mas se estendendo a todos e todas, especialmente às pessoas mais carentes e fragilizadas.

*Bispo de Goiás-GO

4 de maio de 2021

Jesus de Nazaré, o filho do carpinteiro

Padre Geovane Saraiva*

Jesus de Nazaré, o homem histórico, que cito de propósito nas reflexões pastorais, nasceu em Belém, cresceu e viveu neste mundo bastante concreto, sendo obediente às leis de seu tempo. De uma família de gente e pessoas humanas, participou de conflitos e clamores de sua sociedade e partilhou também da esperança e realidade de seu povo como qualquer outra pessoa. No seu tempo, a partir do contexto histórico do seu nascimento, não existia o costume de usar sobrenome ou nome para falar de pessoas. Era hábito natural falar da cidade e lugar onde a pessoa tivesse nascido ou vivido, ou quem eram seus pais. Escutamos, nos Evangelhos, Jesus sendo chamado com os seguintes nomes: Jesus de Nazaré; Jesus, o Nazareno; o filho do carpinteiro. “Ele foi habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2, 23).

O fim último do homem, em meio a tudo o que é obscuro, no que diz respeito às suas origens, é o de debruçar-se ou ocupar-se de sua sabedoria, na sua condição humana, à luz da fé, que o futuro lhe reserva, a partir de Jesus de Nazaré, revelação do que de mais humano existe em Deus e o que de mais divino existe na criatura humana. Em Jesus de Nazaré reside o poder de realizar milagres, identificado e tendo à sua disposição, de modo soberano, o poder do Pai. Na sua palavra, que é eterna, Jesus de Nazaré é maior do que o rei Salomão, é maior do que o templo, Ele que conhece o Pai, numa convivência de laços estreitados e íntimos, a ponto de afirmar: “Eu e o Pai somos um”, com sua têmpora, conduta, índole e natureza elevadamente divina, mas de uma vida comum e harmônica das duas pessoas, se assim posso afirmar.

Sendo real e histórico, e de condição humana, sem querer entrar naquele Jesus de Nazaré, o da fé, mas, sim, no filho do carpinteiro que viveu a mesma vida dos seres humanos sobre a terra, sua contribuição maior foi presentear Deus à humanidade. Como filho de Deus, tornou Deus visível, mas no sentido autêntico e verdadeiro, como na assertiva do teólogo Joseph Ratzinger: “Ele quer rasgar a cortina; ele quer saber o que acontecerá para escapar do mal e para ir ao encontro da salvação”. E enfatiza mais, a respeito das religiões: “Não estão apenas ordenadas para o futuro; as religiões procuram, de certo modo, levantar o véu do futuro. Elas são importantes precisamente porque sabem mediar sobre o que há de vir e podem, assim, indicar ao homem o caminho que deve tomar para não fracassar. Por isso é que praticamente todas as religiões desenvolveram formas de visão do futuro”1.

Jesus de Nazaré falou em alto e bom tom no sentido da vida, da liberdade dos filhos de Deus, e pelo anúncio do amor como bem maior e supremo, num não aos sinais de morte e num sim à vida, ao clamar por justiça, fraternidade e paz, indo até as últimas consequências. A bondade ilimitada de Jesus de Nazaré comprova os Evangelhos, na característica determinante de seu coração, sensibilizado e compungido nas dores da humanidade, como nos assegura o apóstolo Pedro: “Ele passou por toda parte fazendo o bem a todos (At 10, 38); curou os doentes e se compadeceu dos pecadores” (Mt 8, 16-17). Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

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1 Joseph Ratzinger, Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 21