Deus veio ao mundo para conviver conosco e nos revelar sua verdadeira face; ele, riquíssimo que é, “fez-se pobre para nos enriquecer em abundância com sua pobreza”. Maria, criatura toda especial e também simples, humilde e pobre, quer nos acompanhar em 2022, o qual está se iniciando. Convém a todos assimilar o mistério da Mãe de Deus e também o mistério do Natal, como disse São Paulo VI: “O coração do Todo-Poderoso se abre! Por trás da cena do Presépio está a infinita ternura do Criador que ama. Em uma palavra: há infinita bondade. Deus, nos amando, quer tecer uma conversa com os homens, estabelecer relações de familiaridade conosco”.
A Mãe Santíssima quer revelar aquele exemplo inaudito dos reis magos, que, conduzidos pela estrela e iluminados pelo Espírito de Deus, peregrinaram até encontrar o Menino Jesus. É claro que o Deus Menino caminha conosco, não nos permitindo hesitar diante do cansaço da longa e incerta viagem da vida, mas esperançosa, por bondade e graça divina. A manifestação da glória de Deus, como luz das mulheres e dos homens de boa vontade, constata-se no plano salvífico, quando se percorre, na diversidade, o caminho da unidade, na busca da justiça e da paz.
Jamais devemos perder de vista a pequena cidade, aquela do verdadeiro pão, Belém, mas que dela saiu aquele que entrou para a História da humanidade, querendo uma única coisa: a sua restauração. É a graça de Deus a se manifestar como luz aos que se abrem e aceitam acolher o poder redentor de Deus, no reconhecimento de sua glória, no desejo de conquistar um mundo melhor, solidário e de irmãos. Com grande amor pela vida, digamos “sim” ao bom Deus, aguerridos, denodados e com disposição interior, no começo de mais um ano novo! O Ano Novo, na compreensão de que nossa vida consiste num passado, num presente — marcado pelos mesmos riscos e vulnerabilidade da família de Nazaré — e de um futuro (cf. Hb 13, 8).
Que se possa perceber o rosto da humanidade querendo dialogar, contendo nos olhos a fé e a esperança para ver o irmão, mesmo vendo sua face desfigurada, no imperativo de que a vacina agora possa chegar às crianças. Que chegue, sim, sem nenhum obstáculo a contrariar a ordem das coisas! Com os irmãos menores vacinados, sintamo-nos como filhos de Deus e irmãos uns dos outros, mais amparados, mais seguros e mais amados por Deus.
Que o Filho de Deus, que viveu a nossa mesma condição — de gente e criatura humana, dando aqueles mesmos passos, próprios da vida humana, na espera do tempo apropriado à missão —, nos ensine o bom desempenho dessa nossa vida, de acordo com Dom Helder: “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo (...)”. Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).
Faça do seu coração uma manjedoura capaz de acolher esse Menino-Deus que quer nascer em nós
Que bom, o Natal! É uma festa animada, a cidade se enche de luz… Pernil de porco, peru (ou chester). As famílias se reúnem, troca de presentes… Podem até vir amigos, mas não abrimos mão, é festa da família!
Tem sido mais ou menos assim, em muitos lares, em muitas, muitas cidades do planeta. Nas praças e casas, decorações e festas, muitas vezes pomposas. Presépios os mais variados…
Não deveria ser assim… As canções falam claramente, mas, parece, não se reflete, ao ouvi-las. Como nesta, letra simples e direta:
“Então é Natal, e o que você fez?
O ano termina e nasce outra vez
Então é Natal, a festa Cristã
Do velho e do novo
Do amor como um todo
Então bom Natal
E um Ano Novo também
Que seja feliz quem
Souber o que é o bem
Então é Natal, pro enfermo e pro são
Pro rico e pro pobre, num só coração
Então bom Natal, pro branco e pro negro
Amarelo e vermelho, pra paz afinal
Então bom Natal
E um Ano Novo também
Que seja feliz quem
Souber o que é o bem“
Onde está Jesus?
Será que Jesus Cristo, motivo central da festa, não estaria a nos lembrar com veemência: Olha, vocês continuam dando atenção exagerada aos insinuantes apelos comerciais… Shoppings, poderes e repartições públicas, e casas, disputam as mais luminosas, as mais delirantes decorações.
Mas não há lugar para os desvalidos e para os marginalizados… Ne mesmo em considerável parte das igrejas cristãs…
Não é que sejamos contra a alegria. E Deus também não é. Pelo contrário: “Eu vim para que todos tenham via, e vida plena” (jo 10:10). E alegria é vida…Mas vida plena quer dizer também vida de todos; e não de uma minoria. Como posso alegrar-me, eu e minha família, e meus amigos, sabendo que muitos passam fome? Depois da missa, do culto religioso e da ceia farta, das comemorações, repousar sobre macio travesseiro, enquanto muitos tentam dormir ao relento? Desconhecer que milhões de Irmãos e irmãs perambulam, vegetam, invisíveis, na indigência, na miséria?
Não penso num Deus irado, mas desapontado, com a sua mais perfeita obra… É Ele que grita: “Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?” (Marcos 9:19). Até quando olvidarão os meus preferidos, os pequeninos? Deixem as máscaras apenas na boca e nariz; tirem a venda dos olhos, amoleçam esses corações de pedra! E, assim, poderão contemplar ‘a obra nova’, que está surgindo para os justos e misericordiosos (Ap 21:5). Por que não conseguem enxergar?… Depois de tantos sinais…
O Senhor da História
Claro, o mundo e a humanidade se tornaram complexos, e a economia os rege… Mas não podemos esquecer o Senhor da História, “o alfa e o ômega”. Ele pôs toda a criação sob a autoridade, sob a administração dos homens, conforme os seus talentos. Talentos que estão sendo enterrados, com atitudes e cenas desagradáveis aos olhos do Senhor. , substituindo-o pelo ‘papai noel’… De onde surgiu essa bizarra figura? Se viesse de Deus, as crianças mais pobres seriam as primeiras contempladas… Não acham?
Que não percamos, porém, a esperança, façamos nossa parte. Na vivência do Natal, nas nossas comemorações, nos encontros familiares e sociais, vivamos o amor e a Paz do Senhor. Como deve ser o dia a dia dos cristãos. Afinal Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). E continua a se nos oferecer, como Pai amoroso: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. (Mt 11:29-30). E sua promessa é clara: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (Mt 28,20).
Fé e caridade
É certo que temos dificuldade em seguir esse caminho, essa verdade, a verdadeira vida… e sermos manos e humildes de coração… Somos frágeis; contudo, lutemos! Com fé, esperança e caridade (esta, especialmente). Afinal diz São Tiago: a fé sem obras é morta (Tg 2: 26). Demo-nos as mãos, e cuidemos uns dos outros, especialmente, os desvalidos, os pequeninos de Jesus. “… o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. (Mt 25:40).
Nisto se resumiu a vida de grandes santos, como Teresa de Calcutá e Dulce dos Pobres (o anjo bom da Bahia), e tantos e tantas, imitadores de Cristo e do “pobrezinho de Assis. É o que nos orienta o nosso Papa (o Francisco do século XXI), em diversas exortações, inclusive na que fez em relação à Vicência do Advento de 2022: empregos, distribuição de renda mais justa, vacinas para os países mais pobres, acolhimento aos migrantes… E que busquemos enxergar e apoiar todos excluídos e os sem-nada.
Assim poderemos entoar belos hinos nas nossas piedosas celebrações de Natal (Nasceu em Belém, a Casa do Pão):
“As nossas mãos se abrem
Mesmo na luta e na dor
E trazem pão e vinho
Para esperar o Senhor
Deus ama os pobres
E se fez pobre também
Desceu à terra
E fez pousada em Belém
As nossas mãos se elevam
Para, num gesto de amor
Retribuir a vida
Que vem das mãos do Senhor
(…)
As nossas mãos sofridas
Nem sempre têm o que dar
Mas vale a própria vida
De quem prossegue a lutar.“
Natal: fazer do coração uma manjedoura
Convido você a fazer do seu coração uma manjedoura capaz de acolher esse Menino-Deus que quer nascer em nós, mas que também se manifesta todos os dias em rostos invisibilizados. A rede social de oração Hozana oferece, nesse período, uma novena que ajudará você a preparar o seu coração para o verdadeiro Natal: Novena “Que no Natal o meu coração seja Manjedoura”. E, ao rezarmos esta novena, o nosso coração se prepare para o nascimento de Jesus. Clique aqui para rezar.
Enfim, vivamos o Natal de Jesus, o Salvador, com coração e alma abertos, como coroação do Advento, este riquíssimo tempo litúrgico. E mais: vivamo-lo, no decorrer de todo o ano, e de toda a vida, dádiva de Deus.
Olímpio Araújo, membro da AMLEF e ACLP, pelo Hozana
Estas multaj maltrankvilaj kaj senpaciencaj homoj, kun la buŝo plena da akvo, pensante pri la bongustaj manĝaĵoj de la kristnaska vespermanĝo. Aliflanke, estas multaj kripoj en la placoj, kaj ankoraŭ aliaj kun viaduktoj kiel tegmento, kie ni vidas malsatajn infanojn kaj malpurajn homojn. Al la senhomaj fratoj ĉirkaŭ nia preĝejo, en Parquelândia, ni ne neas refreŝigan banon, aŭ akvon por kvietigi soifon.
Iam, antaŭ jaroj, mi aŭdis la malriĉulojn plendi kaj priplori, ke "ilia" bona episkopo forlasos la diocezon, en sia 75-a naskiĝtago: "Kiu zorgos pri ni nun?". Kredante je la florado de justeco, garantiante al ni pacon abunde, mi esperas vidi kaj aŭdi, en la nuna tempo, solidarecajn gestojn de niaj episkopoj, “pastroj kaj patroj”, ĉiuj en la sama preĝo kaj samtempe en la sama puto, aŭ fonto, neelĉerpebla kaj senfina, sed bazita sur la maksimo: “Venu, Sinjoro Jesuo!”.
Maria volas instrui nin: Ŝi volas malfermi niajn okulojn, en la aŭdaca senco de la veneno de la serpento, dezirante iri multe preter nia homa kondiĉo, trudante limojn al la sava projekto de Dio, videbla en homa malfideleco; tamen Dio ne rezignas kredi en Siaj kreitaĵoj, kreitaj de Li, kiel en la propono de feliĉo, enkarniĝinta en la plej granda donaco de la ĉielo: Lia Filo, kaj de Maria.
Urĝas, ke ni diri "ne" al fermo kaj spirita blindeco, kiuj fontas el nia manko de solidareco kaj nesentemo al homa doloro, en tiu tiel diversa mondo, kontraŭe al la Dia volo, en la lumeco de kredado, el la neelĉerpebla fonto de Maria. Ŝi volas instrui al ni, ke la vera feliĉo konsistas el kaj superas "doni", plenumiĝante en "atendado", lasante la konduton de ĉio en la manoj de Dio, kiel en la leciono de sia Sankta Patrino, en kohera kaj neriproĉa serĉo, en la okuloj de la fido al la vera vivo.
En kristnaska tempo, ni sendas salutojn kaj preparas donacojn: la bondezirojn estu do pensitaj kaj faritaj kun vera amo, kaj donacoj, kohere, estu faritaj sen atendi esti reciprokataj. Tio ankaŭ helpus al ni vivi Kristnaskon kun ĝojo, ĉar doni alportas pli da ĝojo ol ricevi (kp. Agoj 20,35). Tiel estu!
*Pastro de Santo Afonso, bloganto, ĵurnalisto, verkisto, poeto kaj membro de la Metropola Akademio de Leteroj de Fortalezo (AMLEF)
Tem muita gente ansiosa e irrequieta, com água na boca e com o pensamento nas iguarias da ceia de Natal. Por outro lado, são muitos os presépios das praças, também muitos deles encontrando-se amparados pelas sombras dos viadutos, lá embaixo, com crianças aos molambos, ou esfarrapadas, pessoas sujas ou aos trapos. Aos irmãos aqui da Praça da Igreja, na Parquelândia, não lhes negamos um banho nas dependências da paróquia, e nem baldes de água, igualmente eles todos sedentos.
Em uma ocasião, há anos, escutei os empobrecidos se queixando e lamentando por que o “seu” bom bispo ia deixar a diocese, ao completar 75 anos: “O que vai ser de nós?”. Na sólida confiança de que a justiça florirá, com paz em abundância (cf. Sl 71), quero ver e ouvir, hoje, gestos de solidariedade da parte dos bispos, “pastores e pais”, todos na mesma oração e no mesmo poço, ou fonte, inexaurível e interminável, mas a partir da máxima: “Vem, Senhor Jesus!”.
Maria quer nos ensinar, quer abrir nossos olhos, no ousado sentido do veneno da serpente, desejando ir muito além da nossa condição humana, impondo limites ao projeto salvífico de Deus, visível na infidelidade humana, mas que Deus não desiste de acreditar em suas criaturas, por ele criadas, como na proposta de felicidade, encarnada na maior dádiva do céu: seu Filho, na anuência de Maria.
Urge dizer um não ao fechamento e à cegueira espiritual, que têm como origem nossa falta de solidariedade e insensibilidade à dor humana, num mundo tão diverso, contrariando-se diante da vontade de Deus, na luminosidade do acreditar, a partir da nascente cabeceira, ou manancial, inesgotável de Maria. Ela quer nos ensinar que a verdadeira felicidade consiste, além da doação, em esperar, deixando a condução para Deus, como na lição de sua Santa Mãe, na busca coerente e irrepreensível, aos olhos da fé na verdadeira vida.
Neste tempo de Natal, enviamos saudações ou preparamos presentes: os melhores desejos devem ser pensados e feitos com amor verdadeiro, e os presentes devem ser feitos sem esperar que sejam retribuídos. Isso também nos ajudaria a viver o Natal com alegria, porque há mais alegria em dar do que em receber (cf. At 20, 35). Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).
Em transe vago por minha imaginação. Começo a ver imagens embaralhadas do NATAL.
Logo identifico o NATAL COMERCIAL.
Nas casas dos privilegiados, luzes de todas as cores fazem a noite clara como o dia. Dentro, os convivas banqueteiam-se e jogam as sobras no lixo. Rios de espumantes correm a céu aberto. Na Árvore de Natal os presentes, e, a um comando, todos são abertos e os risos correm solto. Roupas, objetos e brinquedos antigos vão para o fundo de armários e nunca mais são usados. É a ostentação do consumismo.
Próximo dali, numa casa de taipa, uma única luz brilha como um pirilampo. Me aproximo e vejo uma vela.Adultos e crianças famintas mostram os ossos sob a pele. Todos, maltrapilhos. Crianças brincam com ossos, simbolizando os bovinos e equinos, que sonham ter algum dia. Todos olham para os céus pelas frestas do telhado, buscando o Papai Noel. Ele nunca passa ali.
Lembro do desperdício dos abastados. Quantas famílias não teriam a fome saciada, somente com o que foi jogado no lixo. As roupas estocadas no fundo dos armários, esquentariam os que têm frio e agasalhariam os maltrapilhos. Brinquedos jogados e quebrados, realizariam sonhos de muitas crianças. Como somos egoístas!
Uma lagrima solitária desce pelo meu rosto e espatifa-se no chão. É meu protesto.
Não gosto desse NATAL COMERCIAL.
Divagando volto ao passado e vejo o NATAL CRISTÃO.
Nas casas, os presépios, terços puxados pelas matriarcas. A família reunida e a Missa do Galo. Todos homenageavam o recém-nascido, JESUS.
Hoje a instituição FAMÍLIA está desmoronando.
As escolas deixaram de ensinar e querem educar nossos filhos.
O resultado são os analfabetos funcionais, que saem do ensino médio, é a morte do RESPEITO, pois a professora não é mais a MESTRA, é a TIA. Um a um, os valores familiares vão caindo por terra e com eles está morrendo a religiosidade e o patriotismo.
A educação é patrimônio dos pais, que geram meninos e meninas. A eles falam sobre sexualidade na hora certa e respeitam em nome do amor as opções dos filhos.
Os pais plasmam o caráter e formam cidadãos, para servirem a Pátria, horarem a família e fazerem o BEM à humanidade.
Desperto, com o sentimento de querer minorar a dor daqueles sofredores e com saudades daquele NATAL CRISTÃO.
Minha conclusão é: JESUS é o caminho.
Com a alma genuflexa, peço a ELE LUZ, para iluminar minhas andanças e a dos que me rodeiam.
Peço FÉ, para tocar os corações e despertar em todos, o AMOR.
Peço ESERANÇA, para conquistarmos a FELICIDADE plena.
Meu Menino Jesus, se minhas preces forem atendidas, durmo tranquilo, pois fiz o BEM, aos necessitados e com certeza, despertarei num amanhã sem FOME e sem DOR. FELIZ NATAL.
Professor Aposentado da USP e UFC, Membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF) e da ABROL-CE
Que venha um novel novelo de doze avos! Que venha um novíssimo feixe de doze meses, um bloco extasiado de 365 dias! Que se esparrame, clara e gema espalhadas, o Ano que estala, estrelado, espraiado, estrepitoso, radioso!
Estou pensando como ando, após escalar a trilha íngreme e florida do platô existencial! Resolvi fechar as pálpebras para melhor enxergar os passes e impasses destes mais de vinte mil dias batismais sob os sóis e os sais elementares. A primeira, porque foi a que me gestou, a descoberta mais importante: o que vale, o que abre vala, o melhor da vida é o amor! O amor, cuja principal tradução é a magia da doação, foi o que levou o casal Jesomar e Rosária a uma copulação extasiante. Fui gerado sob as labaredas de um romance proibido, em uma cama de areia fria, à sombra de uma frondosa oiticica do riacho do Mondubim. (Depois vim a saber que o amor extrapola as fronteiras da afeição de um casal e encontra a foz da plenitude no mar da doação a todos os seres.) Na sequência, dois raios, duas rosas, a pala e a opala, a ciosa e a preciosa, a verdade e a bondade: a poesia e a espiritualidade.
Pensando como ando, recordo que, ao redor do quinto maio da minha andança vital, saboreie precocemente o sacramento da eucaristia inicial e, vestido em uma roupa branca como a flor do algodão, recitei em cima de uma mesa a primeira poesia. Desde então, a afeição ao movimento do desconhecido, a ciência e a reverência à transcendência, o culto ao império do mistério e a força que põe de pé o estandarte da fé se incorporaram ao leito da minha alma e me indicaram o itinerário da calma.
Pensando como ando, silenciosamente seguro a pá e com ela recolho o produto da lavra: a palavra! Esta escritura, a primeira para o novo ano, é espumada, como se as suas letras fossem as encantadas minúsculas bolhas fermentadas que se espalham pela superfície. Espumas brancas, eis o que brota desta crônica de inauguração anual; aliás, à Castro Alves, são espumas flutuantes! – como as palavras e os números: consoantes cardinais, vogais romanas, números!...
Pensando como ando, confesso que vez por outra me submeto à escravidão de uma profissão. (Na verdade não queria outra ocupação senão aquela da messe da alegria: a ocupação da melodia!) Queria que todos se afeiçoassem àquela que tudo cria: a usina da poesia!
Se eu tivesse que recorrer a uma miragem, um pontal, uma baía, um morro, uma reminiscência geográfica, um cortejo latitudinal, uma paisagem expressiva desse momento que estamos a iniciar, certamente haveria de transmudar para o platô referencial do meu Mondubim inicial.
Quando perambulava, com a tocha do deslumbre, à sombra das oiticicas da infância, as almas que mais me fascinavam eram as dos adivinhadores. Eles eram transfronteiriços, transversais e transcendentais! Simplesmente, voavam! Desconheciam limites entre céus e terra e revelavam o comportamento futuro da natureza, o advento do inverno, o humor dos bovinos, as ensinanças da noite, os mistérios da madrugada e aos mungidos da aurora. Não raro se sentavam na calçada alta do amplo alpendre do casarão do meu avô para compartilhar a heráldica invisível do sertão. Foi aí que nasceu a minha predileção especial pelos adivinhos. Descobri que o sacro ofício de adivinhar era trazer o divino para o nosso íntimo altar. Ou melhor: adivinhar era revelar a dimensão divina da arte de voar.
Minha fortuna começou quando me tornei sócio do amanhecer, parceiro dos córregos, perscrutador das raízes e admirador das germinações! Amanhã estarei viajando. Com este pé, latejando de fé, vou caminhando. Pensando como ando. E, invariavelmente, amando!
*Dr. Júnior Bonfim, da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (Amlef), advogado, poeta, escritor.
Diante da escuridão dos corações humanos, armados, querendo rechaçar a luz ou mesmo dominá-la, que resplandeça a esperança no Sol da justiça, a partir do apóstolo Paulo, ao se encontrar com a luz do Senhor, que se apoderou dele no luminoso caminho para Damasco (cf. At 9, 3). Pela fé, todos os crentes podem perceber em seus corações a luz a fluir e emanar de Cristo. Paulo compara essa iluminação à do primeiro dia da criação, mas em Jesus de Nazaré, filho de Maria e do carpinteiro José, cogitando, evidentemente, desmanchar a montanha da falta de esperança, do orgulho, do egoísmo que está dentro de nós, contrapondo os dois reinos, o da luz e o das trevas, com suas respectivas armas e ações, para recomendar sempre a permanência da luz genuína e verdadeira (cf. Rm 13, 11).
A bela imagem de Cristo Salvador, apresentada como o cumprimento das prometidas profecias como luz do Senhor ao mundo, realiza-se na profecia de Isaías (cf. Mt 4, 16), e também em Zacarias, imagem essa anunciada como o Sol que do alto ilumina (cf. Lc 1, 78). Só mesmo no amparo de tão visível simbologia, de paz, justiça e da afável ternura, indo ao interior do coração das pessoas, querendo entrar na frágil existência humana. Ele, o Sol nascente, quer que plantemos boas sementes no mundo, aquelas compreendidas em profundidade por Dom Helder Câmara.
Os olhos dos homens estão obscurecidos pelo egoísmo violento do ódio, pelo pecado, pelos estímulos mundanos que os envolvem. Cristo veio para aclarar e acrisolar o horizonte do homem e abrir-lhe o caminho da salvação, por isso sua ação é um confronto com as trevas que cercam o homem e o mundo (cf. Jo 12, 46). Devemos plantar boas sementes neste Natal, mas quais sementes? Sementes de paz, amor e compreensão, do não ao egoísmo, de um ambiente leve, com bons e construtivos olhares, e de um coração fértil, grande e largo. Numa palavra: sementes de esperança.
São João, no seu Evangelho, apresenta Cristo como a luz que ilumina todos os homens (cf. Jo 1, 9). Ele coloca na própria boca de Cristo as palavras: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas" (cf. Jo 8, 12). Neste tempo de Advento e Natal, inspirados na profecia do nosso Isaías, ou Zacarias, brasileiro, Dom Helder Câmara, que possamos aprender com nossa boa gente da Parquelândia, sem esquecer das crianças da Infância e Adolescência Missionária e do Projeto Dom Helder, Arte e Missão de nossa Paróquia de Santo Afonso, "meninos e adolescentes maluquinhos da Auristela", saindo das cinzas neste tempo de pandemia.
Que o bom Deus, que faz arder e brilhar os corações da nossa gente, na condição de pessoas de fé como filhos da luz (cf. Lc 16, 8), nos inspire a olhar para a árvore de Natal, indo além do razoável, no desejo de se chegar ao essencial, ao menino pobre da manjedoura, no mesmo questionamento: "Quais sementes desejo espalhar pela terra? Sementes de paz, amor, compreensão e esperança. Há tanto desespero, desengano, decepção, frustração e desesperança! Sementes de esperança, sem dúvida, chegariam em boa hora". Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).
Inicia-se, com Maria, o duelo entre a descendência da mulher e a da serpente, entre o bem e o mal. Depois da maldição daquela que carrega consigo tudo o que é ruim – a perversa e enganadora serpente –, Deus proclamou bem alto: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua posteridade e a dela”.
A luta e o duelo são um claro sinal, desde a origem da Santa Virgem Maria, de que Deus se preocupa com seu povo. Maria foi concebida sem nenhuma mancha ou pecado, na total integridade à vontade de Deus, em oposição completa às ciladas e solicitações do demônio, para que elevemos nossos pensamentos ao Filho de Deus, no seu triunfo e vitória, sendo ele da estirpe de Maria, com sua morte a nocautear os frutos do pecado.
Maria quer nos ensinar, quer abrir nossos olhos, no ousado sentido do veneno da serpente, desejando ir muito além da nossa condição humana, impondo limites ao projeto salvífico de Deus, visível na infidelidade humana, mas que Deus não desiste de acreditar em suas criaturas, por ele criadas, como na proposta de felicidade, encarnada na maior dádiva do céu: seu Filho, e de Maria.
Urge dizer um não ao fechamento e à cegueira espiritual, tendo como origem nossa falta de solidariedade e insensibilidade à dor humana, num mundo tão diverso, contrariando-se diante da vontade de Deus, na luminosidade do acreditar de Maria. Ela quer nos ensinar que a verdadeira felicidade consiste em esperar, deixando-nos conduzir por Deus, como na lição de sua Santa Mãe, na busca coerente e irrepreensível, aos olhos da fé na verdadeira vida.
A festa de Nossa Senhora da Conceição, bem dentro do espírito do Advento, enquanto nos preparamos para a vinda do Salvador da humanidade, ajusta nosso pensar e agir, a partir daquela que foi contemplada, no dom e graça de não carregar consigo pecado algum, porque devia ser a mãe de Deus e mãe da humanidade.
Não esqueçamos o Cardeal Aloísio Lorscheider, ao honrar a mais elevada de todas as criaturas: “Ela é a toda bela, toda pura, toda santa, a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra do seu povo, a nossa honra, garantindo o pleno êxito da redenção pela sua íntima participação na obra redentora do seu Filho”. Amém!
*Pároco de Santo Afonso, Blogueiro, Escritor e integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza
Dom Helder, no contexto dos Direitos Humanos, nos ensina o valor da oração, na sua humilde e simples súplica aos céus, ao apontar para um infinito de liberdade, no sonho da criatura humana integralmente livre, no compromisso por uma habitação harmoniosamente na presença de um Deus afável e amoroso. Da parte das pessoas, nada de se extasiar, quando se deparam com aparências, na maioria das vezes superficiais, enganosas e ilusórias. Viver, sim, mas acreditando no bem como condição elevada e suprema, a partir do mistério do grão ou da semente que nasce e cresce, mas que necessita da luminosidade incalculável, da luz aquecedora, germinadora do Sol, que, alegoricamente, resume-se na esperança, com seu fundamento em Deus. “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. Tirou das turbulências, das lamas do pântano, de todo tipo de obscurantismo, e pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos” (cf. Sl 40).
Pe. Geovane Saraiva com Dom Helder, na Catedral de Brasília, 30/06/1980, esperando São João Paulo II.
O Dia Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro, nos faz voltar para Dom Helder Câmara: “Quem estiver sofrendo no corpo e na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado terá lugar especial no coração do bispo”. O Brasil e o mundo conheceram um Dom Helder sendo porta-voz dos injustiçados e dos empobrecidos, nas suas posições em favor de um mundo mais de acordo com a vontade de Deus, fraterno e solidário, numa Igreja encarnada, pobre e servidora. Conhecemos um Dom Helder na sua bravura e audácia, no respeito pelas pessoas e cheio de amor para com os sofredores, totalmente identificado com os Direitos Humanos.
A ninguém pode ser negada a liberdade fundamental, oriunda de Deus, apropriando-se de Dom Helder, pastor da paz e da ternura, que se sentia honrado quando, com inveja do seu protagonismo, o acusavam de utópico e sonhador, porque ele se aproximava do “cavaleiro andante”; e dizia-lhes com muita habilidade, segurança e convicção: “Comparar-me a Dom Quixote está longe de ser uma nota depreciativa”. E acrescentava-lhes: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”. Dom Helder, no Dia dos Direitos Humanos, nos convence do poder de Deus, eliminando todo tipo de sujeição, como no episódio da viúva de Naim: “Ao chegar perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a ser sepultado, filho único de uma viúva; acompanhava-a muita gente da cidade. Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: 'Não chores!'” (cf. Lc 7, 11-13).
Como é maravilhoso, no Dia Universal dos Direitos Humanos, indignados num sentimento, não de choro, mas numa promissora esperança, recordar o Patrono dos Direitos Humanos! Aqui alguns dos seus sapientes pensamentos: “Mesmo que a maior angústia te visite e te acompanhe, não te deixes que ela reflita em teu rosto”; “O mundo agitado e triste precisa que leves contigo tua paz e tua alegria”; “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”; “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”; “Tenho pena, Senhor, dos sem abrigo, e mais pena ainda dos instalados, dos enraizados, que fizeram da terra morada permanente”. Recordá-lo, sim, como um referencial, arquétipo e irmão exemplar, no compromisso pela vida, dom e graça de Deus.
*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).
O nascimento de uma criança,
sobretudo de um filho homem, era para os israelitas um motivo de júbilo e
alegria. O Primogênito ou Unigênito do Pai quer nascer, num clima auspicioso e
promissor, em cada criatura humana, revestido da força do alto, convidando-nos
neste tempo do Advento a nos voltarmos para o mistério de Deus, o mais elevado,
que nos fala através de sua palavra salvífica, a qual quer revelar os caminhos
divinos, exortando-nos a uma permanente vigilância.
O Natal é a grande festa da
solidariedade de Deus para com a humanidade, já que vem um Salvador, no desejo
de nos livrar do pecado e da morte. A Igreja também fala neste tempo concreto
da história sobre a importância do serviço humanitário e solidário, vivamente
presente entre os fiéis, seguidores de Jesus de Nazaré, sendo sua razão de ser
no dom maior, unidos ao Papa Francisco: “No mundo atual, onde milhões de
crianças e famílias vivem em condições desumanas, o dinheiro gasto e as
fortunas obtidas no fabrico, manutenção e venda de armas, cada vez mais
destrutivas, são um atentado contínuo que brada ao céu”.
Que na nossa preparação para o
Natal do Senhor, ocasião para bem interiorizarmos a encarnação da salvação no
mundo, em que estamos inseridos, deixemo-nos guiar pela luz do Salvador, que,
segundo Santo Afonso Maria de Ligório, desceu das estrelas. Aquela criança,
como as demais, depois de nascer na humilde manjedoura, foi envolvida em faixas
(cf. Lc 2, 7). Oxalá, saibamos ouvir a voz de Deus, de não fechar o nosso
coração, para que, no exemplo do mistério maior neste Advento, no nosso diálogo
ou no encontro do céu com a terra, mas abismado, no desejo de que seja sempre
mais reentrante e estreitado.
Caminhamos, na penumbra da fé, ao
encontro da procedente “troca de dons entre o céu e a terra”, dentro de um
ambiente nem sempre favorável, mas compreendido, no aviso divino, sempre
renovado por mim, mas que nosso propósito didático chegue aos bons
assimiladores, no recado de Dom Helder Câmara: “Quando houver contraste entre a
tua alegria e um céu cinzento, ou entre a tua tristeza e um céu em festa,
bendiz o desencontro, que é um aviso divino de que o mundo não começa e nem
acaba em ti”.
Pasmados pelo mistério do Natal
do Senhor, que nossas estradas sejam iluminadas, tendo, diante dos olhos e do
coração, na mais cristalina compreensão, aquela máxima do profeta Isaías:
“Acontecerá, nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará
estabelecido no ponto mais elevado das montanhas e reinará nas colinas” (Is 2,
2). Assim seja!
*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).