29 de dezembro de 2020

Estrelas, sim!

Padre Geovane Saraiva*

O Menino Jesus, que desceu das estrelas, dorme em paz na nossa Igreja de Santo Afonso. Também é importante, não só se pensar, mas se alargar a mente e o coração, no sentido de se chegar às manjedouras dos corações humanos, sem se esquecer dos que dormem nas praças, nos areópagos da vida e nas portas das igrejas, por toda a extensão do mundo.

Reconhecer no menino da manjedoura o Messias, como luz a iluminar os povos, em contraste ou antítese com a lógica humana, destina-se aos sábios e iluminados, amigos fiéis ou leais a Deus, que não fogem dos desafios da vida. Eles são como estrelas, que querem ajudar a encontrar o caminho; também contribuem para que os corações pulsem, numa vida com as marcas da esperança!

Contamos com a mão dos amigos, sim, na busca da concórdia e da paz, sendo eles força, ânimo e coragem, mesmo quando tudo, em meio às dificuldades, se apresenta sombrio, escuro ou sem rumo, conduzindo-nos, evidentemente, ao bom caminho, no dom da amorosa gratuidade, dádiva de Deus!

Tudo porque fomos criados, pela proposta do nosso bom Deus, para imitar Jesus de Nazaré, tendo seu início no mistério luminoso da verdadeira luz. Acolhamos, pois, o anúncio do Anjo do Senhor, a partir da manjedoura, na real e radical simplicidade, humildade e eterna luminosidade.

Lá da origem de Deus, ele veio com seu registro bem definido na história, de dentro da intimidade do Pai, em seu ministério inaudito e indizível, não sendo mito nem muito menos qualquer figura ou adereço. Ele é, sim, uma realidade misteriosa a envolver o mundo, a nos envolver como seus leais amigos. Segundo o apóstolo dos gentios, Deus agora nos fala por meio do seu Filho.

A partir das manjedouras do sofrido e dolorido coração humano, no sentido mais alegórico possível, peçamos a graça de sermos estrelas a iluminar o caminho dos nossos semelhantes no ano de 2021. Feliz Ano Novo!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

23 de dezembro de 2020

Nosso destino em Deus

Padre Geovane Saraiva*

Quero homenagear Dom Aloísio, Cardeal Lorscheider, que partiu na véspera do Natal, há 13 anos. Sua vida, bem como a vida da humanidade, é um mistério de amor, a partir de Deus, que, por sua vontade soberana, quis que a criatura humana existisse. Por isso nada mais está envolvido em contingências do que a existência humana, mas no gesto sublime da inclinação de Deus Pai, no dia da criação: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7). No mistério da vida humana, a dominar as demais vidas, o Senhor Deus vem ao nosso encontro e, ao se encarnar, assumiu a condição humana das pessoas, como nas palavras de Maria: “O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor”. Temos, assim, uma condição humilde concretamente visível no descarte e abandono da manjedoura, antagônico despropósito, mas querendo dignificar e exaltar os que vivem em condições infra-humanas, os humilhados e aniquilados do mundo.

Não nos esqueçamos, neste Natal de 2020, de Dom Aloísio Lorscheider, na sua gentileza e doçura em pessoa, ele que tinha um espírito vivamente presente entre nós cearenses. Que aprendamos – nós, que vivemos em Deus, nos movemos por ele e somos nele – sempre mais a caminhar com Deus, pelo dom misterioso de sua dupla chegada, sem decepcioná-lo, na convicção mais absoluta de colocar o nosso destino no destino de Deus, pelos sinais de esperança, presentes na barca da vida humana, no nosso peregrinar em meio às ondas, nos fluxos e refluxos da história. Quanta riqueza, com o nascimento do Deus menino, dom e graça para o mundo pelas mãos e o ventre de Maria! Como nosso Deus é diferente! Ele nasce durante a noite, na escuridão, mas na condição de luz do mundo, luz no meio das trevas.

Dom Aloísio, ao partir há 13 anos, dentro do contexto do Natal do Senhor (23/12/2007), ensinou o projeto salvífico de Deus, presente e cada vez mais aclarado no mistério da criança de Belém, visível aos nossos olhos, no convite que nos é feito, de perscrutar ou auscultar sua luminosa revelação. Ele vem como rei pacífico, conselheiro admirável, Deus forte, pai dos tempos futuros, príncipe da paz (Is 9, 5). Que possamos voltar, no sentido mais elevado, para a casa do pão: Belém! Lá vamos encontrar a “novidade” por excelência, o menino humilde e frágil vivendo nas piores condições humanas, pobre no meio dos pobres, num ambiente literalmente paradoxal.

Quanta paz e quanta ternura daquele que nasceu da Virgem! Na periferia de Belém, ele, que, segundo Santo Afonso Maria de Ligório, nasceu misteriosamente das estrelas como verdadeiro e autêntico benfeitor do mundo e do gênero humano, a nos pasmar e a nos exaltar com amor infinito, mistério a dominar o mundo. Feliz Natal! 

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

17 de dezembro de 2020

Deus viu que tudo era bom

 Padre Geovane Saraiva*

Pensemos no contexto bíblico da criação, com o paraíso, o pecado original (serpente), Caim e Abel, e muitos outros assuntos, no início do Livro do Gênesis, que tem sua plausível sustentação no bom Deus, ao tomar a decisão de descer do céu, encarnar-se na história humana e, de um modo pedagógico, instaurar seu reino de justiça e paz. O Livro Sagrado nos revela a grandeza de um Deus que, além de criar tudo por amor, é imensamente rico, maravilhoso, belo e vastíssimo no seu amoroso mistério. No Livro do Gênesis, constata-se o sentido alegórico e poético da vida como um todo, ao louvar a preciosidade da natureza, como bondade de Deus, na contemplação dos céus, na sua amplitude e sublime dimensão, numa simbologia à luz divina com seu esplendor.

Temos a terra e nela os minerais, as águas, as numerosas plantações, as incontáveis variedades e modos de se perceber a beleza da vida. Também não se pode esquecer a narrativa do abismo e nele as forças do mal, na constante tentativa da ameaça de arrastar o homem e a criação, sendo todos conduzidos ao caos (cf. Gn 1, 1ss). Já no Livro dos Provérbios e no da Sabedoria, percebe-se a elevação e exaltação da sabedoria, não deixando dúvidas de que nela se vê o próprio Deus, presente e vista nos acontecimentos; evidentemente, são obras de suas mãos maravilhosas.

Somos convidados, com o rigor da razão e muito mais ainda com o rigor da fé, a contemplar a origem de tudo que existe: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”, obra esta que encontra nos seres humanos, criaturas de Deus, seu pleno acabamento, quando na manjedoura somos convidados a perscrutar e admirar aquilo que nos foi prometido, com a promessa de restaurar todas as coisas consigo. Urge da nossa parte, criaturas de Deus, colocar o projeto de vida realizado acima dos nossos interesses ou projetos pessoais. O ideal seria uma reação, com a retomada de um grande mutirão de solidariedade, dando entonação e relevância ao dom mais precioso: a vida.

Dentro do espírito escatológico do Natal e nele o sonho do acabamento do mundo, o que resta à humanidade é uma única coisa: radicalizar, distanciando-se da “serpente” como mal maior. Ignorar o espírito do “negacionismo, obscurantismo e anticientificismo”, que seja mais do que um sonho, sem esquecer-se da ideia deletéria de se estabelecer uma pauta em que se estimule sempre mais o uso das armas, contrariando a paz e a aurora afável e terna da criança da estribaria, tendo como drástica consequência o espanto assombroso, quanto ao abismo da odiosa violência. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

11 de dezembro de 2020

Maria no mistério do Natal

Padre Geovane saraiva*

As pessoas precisam de uma fé consequente, de que jamais possam hesitar, ao se contar com a promessa de Deus, do mundo pleno e totalmente realizado no fim dos tempos, no mais elevado sentimento de atenção ao seu mistério de amor a nos envolver. Eva, a primeira mulher, foi vencida pela serpente, que a enganou no pecado e na desobediência a Deus no paraíso. Maria, ao contrário, deu-nos o doce e melhor fruto: o da salvação. Quão paradoxais e antagônicos são os feitos e as intervenções da serpente e os da Santa Mãe de Deus, a Virgem Maria! Vemos em Eva só oposição e adversa maldade, ao distanciar e isolar a criatura humana de Deus. Em Maria, encontra-se o indiscutível e incontestável mistério: o da redenção do mundo em Jesus de Nazaré, que, ao ser crucificado, presenteou-nos: “Eis aí a tua Mãe”.

A importância de Maria na história da salvação – como mediadora, que nela, segundo a nossa fé católica, a humanidade foi e é contemplada pelo favorecimento do seu “sim” – é mistério da presença de Deus entre os homens, aqui, na mais digna afirmação do apóstolo Paulo: “Em Cristo, ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob seu olhar no amor” (Ef 1, 4). Assim, os que confiam e acreditam na força do Salvador acolhem como compromisso e missão uma única coisa: segui-lo, cheios de esperança, no dia a dia. Maria mesmo é quem se digna a colaborar, manifestando ao mundo a história da salvação, através de seu filho Jesus, em quem a humanidade será plenamente restaurada e pacificada pelo amor.

A vida cristã se confunde com a espiritualidade mariana, neste tempo do Advento, na busca de um aprofundamento sempre e cada vez mais continuado, pela consagração de toda a vida dos que professam a fé, na ternura do Deus Menino. Deus dá o exemplo, ao descer do céu e se encarnar e penetrar no abismo da vida humana, mas ao mesmo tempo nos desafia, pedindo de nós disposição em abraçar seu projeto de amor, alimentando-nos pelo dom e graça de sua Boa-Nova, no esforço de vivenciá-la.

No mundo, os cristãos necessitam de uma fé cristã vigorosa e lúcida, igualmente à de Maria, de pessoas que se empolguem e sejam fiéis a Jesus de Nazaré, que se alimentem de sua obediência ao Pai, aquele da morte, e morte de cruz. Maria não hesitou, mas, ao contrário, manteve-se fiel a Deus, trazendo para nós o clarão luminoso do mistério do Natal. Na mesma disposição, incessante, pensemos, pois, na luz de Belém, no convite que Deus nos faz, respondendo-lhe, generosamente, através de ações e gestos de amor. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


3 de dezembro de 2020

Emanuel: justo, pacífico e solidário

Padre Geovane Saraiva*
Muitos foram os séculos, em que a criatura humana passou a gemer seu pecado, sem nenhum raio de sol e se queixando na sua própria sombra e abismo. Deus, no entanto, promete um salvador, numa didática a ensinar a todos os homens que só se pode superar os empecilhos, no sentido mais pleno, quando se consegue destruir o pecado e tudo que lhe é contrário, favorecido pelo dom da compaixão e da graça divina. É a promessa feita pelo nosso Deus, que renova, perpassando a história, não limitada somente ao povo de Israel, mas que se volta à humanidade inteira. Pensemos no pecado e na queda do primeiro homem, Adão. Nele o plano divino: nossos primeiros pais, criados à imagem e semelhança de Deus, em estado de graça e santidade, sendo presenteados com dignidade de filhos de Deus.

A sabedoria de Deus é pelo reino da paz, da justiça e da verdade que se estabelece e se manifesta ao mundo, indo ao encontro das criaturas humanas, neste tempo do Advento, tempo este que precede o Natal do Senhor. Da nossa parte, como criaturas de Deus, cabe acolher, como dom e graça, o esplendor e a plenitude da paz, aquela paz encantadora, proclamada numa inaudita melodia pela multidão dos anjos da coorte celestial: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14). Na insignificância e na fragilidade do mistério da criança da estribaria, comporta a exultação na mais extrema alegria, com a presença de um Deus no meio da humanidade, no engrandecimento e na exaltação da dignidade humana.

No Senhor, em quem – com toda disposição – confiamos e nele se encontra nossa única esperança, na certeza de que todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas, também as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados ficarão nivelados (cf. Is 40, 3-4). Deus se manifesta a todos os povos da terra, em meio aos vales de preconceitos e racismo, facções, chacinas e guerras das montanhas acidentadas da vida humana, sem esquecer das passagens e dos caminhos tortuosos a serem percorridos pelos migrantes e refugiados.

No Cristo, que é nossa paz, que se volte o nosso olhar dócil e afável para a realidade das festividades de final de ano, nas quais estamos inseridos, na convicção em Deus de que não seja só “festividade ilusória”, mas, sim, em Deus uma “nova festividade”, mesmo com o desafio da pandemia e suas consequências, nas cruzes a carregar. Que no Emanuel, a nos visitar neste tempo abençoado, como rei justo, solidário e pacífico, longe do ódio, da inveja e de todo mal, aplainem-se as elevadas e acidentadas montanhas do nosso coração, dando-nos a esperança que não ilude. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

28 de novembro de 2020

A canonização de Charles de Foucauld

 Padre Geovane Saraiva*

Na alegria da aprovação e reconhecimento da santidade do Padre Charles de Foucauld, quando, aos 27 de maio de 2020, nos chegou a alvissareira e surpreendente notícia, a de que o Papa Francisco aprovou o milagre, exposto pela Congregação para a Causa dos Santos. Esse milagre contou com a intervenção, ou interferência, do Bem-aventurado Charles de Foucauld, indicando-nos que sua canonização virá. É Deus que está presente na história humana, no convite, para que as pessoas de boa vontade permaneçam firmes e apoiadas naquilo que é seguro, sólido e consistente, mesmo diante de angústias, fracassos e conflitos. Como exemplo maior, temos em Charles de Foucauld aquele que nasceu na França (1858-1916), submetendo-se à vontade de Deus, aos 30 de outubro de 1886. Em Paris, encontrando-se com o Padre Huvelin, vigário da Igreja de Santo Agostinho, em uma conversa entre eles, confidenciou-lhe: “Padre, não tenho fé, peço-te que me instrua”. O padre foi ríspido: “Te ajoelha e confessa teus pecados! Então, crerá!”. Obediente, experimentou uma alegria indizível: a alegria do filho pródigo. 

Com Charles de Foucauld, na ânsia pela data de sua canonização, não nos afastemos do eixo de seu caminho espiritual: a conversão permanente, a Eucaristia como centro, a oração do abandono, a busca do último lugar, sem esquecer-nos do Evangelho da Cruz. Deus falou-lhe na sua incredulidade, indiferença e egoísmo, caindo nas mãos divinas, sendo arrebatado e seduzido por Jesus de Nazaré, que se tornou o único e maior tesouro de sua vida. A última palavra, evidentemente, de ânimo levantado e para cima cabe sua exclusividade e deve ser reservada a Deus, no anúncio do cântico do Cordeiro: “Grandes e admiráveis são tuas obras, Senhor Deus, todo-poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó rei das nações! Quem não temeria, Senhor, e não glorificaria o teu nome?” (Ap 15, 3-4).

Que toda a família de Charles de Foucauld possa sempre, e cada vez mais, render graças a Deus, a partir da Mesa Sagrada, pelo dom de sua canonização, no inesgotável legado de sua espiritualidade, em sua célebre frase: “Gritar o Evangelho com a própria vida”. Enquanto vivermos neste mundo, com as marcas da dor e do sofrimento, que nosso olhar se volte para o “Senhor e Pai da humanidade, que criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade” (Papa Francisco, “Oração ao Criador”), que nunca nos separemos da aparente loucura da cruz, com nossa alma conformando-se com a vontade de Deus, que seu desígnio de amor quer que nos agigantemos, no sentido de produzir, na esperança, muitos e bons frutos, através de gestos e obras de caridade, mas numa intensa atividade, fruto do verdadeiro e puro amor.

Francisco fecha sua Carta Encíclica, "Fratelli Tutti", referindo-se ao Padre Charles de Foucauld, assassinado em 1º de dezembro de 1916: “O seu ideal de uma entrega total a Deus encaminhou-o para uma identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano. Naquele contexto, afloravam os seus desejos de sentir todo ser humano como um irmão, e pedia a um amigo: 'Peça a Deus que eu seja realmente o irmão de todos'. Enfim, queria ser o irmão universal. Mas somente identificando-se com os últimos é que chegou a ser irmão de todos. Que Deus inspire este ideal a cada um de nós". Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

19 de novembro de 2020

A presença de Deus

 Padre Geovane Saraiva*

À medida que se aproximam as festividades do Natal, no contexto da troca de presentes, num mundo consumista e materialista como o nosso, que se leve em conta uns questionamentos: Qual é a melhor proposta de presente, neste Natal e neste Ano Novo? O que posso oferecer para edificar o mundo, num gesto de expressão da grandeza de alma e coração? É mister imaginar o que seja indispensável, numa consciência daquilo que é melhor e mais precioso, como presente a ser colocado nas mãos das pessoas de boa vontade, amigos e amigas com os quais convivemos, estimando-os e amando-os.

É importante considerar, neste tempo de pandemia, que as pessoas vivem no isolamento, ou reclusas, mas com a certeza de que elas pedem para ser escutadas, querendo nossa presença, além de um pouco do nosso tempo e da nossa própria vida. Precisamos nos convencer de que a presença de nossa vida vale mais do que prata e ouro, traduzindo-se em serenidade, harmonia, bem-estar e paz, num bem inigualável, o qual ninguém irá excluí-lo e jamais se extinguirá. Que isso se manifeste numa sincera, terna e afável afeição, demonstração de benquerença, sinal vivo da verdadeira esperança cristã.

Todos os seguidores de Jesus de Nazaré, revestidos da força do alto, como imagem e semelhança de Deus, são continuamente convidados à comunhão divina, concreta, numa multidão de anônimos, silenciados no nosso mundo, mas que na nossa indiferença se ouve um clamor por uma vida de esperança, ânimo e coragem. Pensemos naquele anônimo que caminhou para Emaús e, a partir dele, surgiu o mais elevado e qualificado diálogo com nossos semelhantes. Urge, pois, com a presença de Jesus entre nós aprender, sempre cada vez mais, a exercitar um olhar de compreensão e de misericórdia, diante do enorme abismo em que se encontra o mundo, sem a presença de Deus.

Que no olhar compadecido de Deus jamais cesse a luta em favor da humanidade, para que ela possa descansar em paz, pela derrota de todos os males que contrariam seu projeto salvífico. Motivados, evidentemente, por aquele que misteriosamente entrou em cheio em nossa existência, querendo uma única coisa, que saibamos perceber, com a largueza do nosso ser, que ele carrega consigo uma profunda e indelével impressão: a natureza divina — do Verbo de Deus, que entrou na vida humana e quer se estabelecer entre nós. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

13 de novembro de 2020

Florestas da vida

 Padre Geovane Saraiva*

Os cristãos são convidados a pensarem o mundo como se ele fosse uma grande floresta ou uma vasta selva: escura e áspera. Também devem pensar que estão colocados numa enorme avenida, muitas vezes assustadora e difícil de andar e trafegar, por ser engarrafada, com obstáculos e declives. Na fé e na esperança, em meio aos oceanos, fartos de riscos por suas incontáveis ondas, defronta-se a vida dos seres humanos, mas sem fugir da imagem de um clima árido, sem esquecer quão espinhosos e pedregosos são os seus trajetos. A prática solidária do amor, nas avenidas e florestas da vida, nos ajuda a romper barreiras: “Tudo aquilo que fizestes a um só destes meus irmãos pequeninos, a mim o fizestes”. Sejamos sensibilizados, evidentemente, pelas palavras do Evangelho, no que diz São João da Cruz: “No entardecer da vida seremos julgados pelo amor”.

O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua essência, quer colocar no coração das pessoas, por toda a extensão do mundo, o compromisso da missão, “quebrando a crosta do egoísmo”, sem se desviar da índole e alma da Igreja, num estreitamento sempre muito claro, no paradoxo ou jeito luminoso, pela ação e pela contemplação, naquela estrada delineada por Santa Teresa d’Ávila, ela que nos falou sobre a nova maneira de viver dos seguidores de Jesus de Nazaré, no seu modo mais completo e entrelaçado: caminho de perfeição. O desejo de viver a partir do que nos ensina o Cristo é o desafio maior, mas não à margem do mundo e de sua história, e sim tendo por eixo o curso da própria história humana. Precisa-se, desse modo, priorizar, no seu sentido mais amplo, o que a Igreja anuncia, mas numa fé lúcida, viva, franca e despretensiosa, acompanhada de uma mística sólida e consequente.

Bem-aventurados os que abraçam a fé e que contam com a força misteriosa da graça de Deus. Bem-aventurados os que buscam a superação de tudo aquilo que parece obscuro e arriscado, nas contingências e condições humanas, mas querendo ser a manifestação da presença de Deus, ao estender sua mão redentora, dom maior para o mundo. Agora que se aproxima o Natal do Senhor, abramos nosso espírito, no sincero compromisso, o do discernimento, distanciando-nos das armas do ódio, do rancor e da violência, e que esse espírito seja muito verdadeiro, na busca da tolerância, da paz e da concórdia entre os povos. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

8 de novembro de 2020

Que cresça a esperança

 Padre Geovane Saraiva*

Natal solidário, sim, mas diante de crianças e adultos que passam por sofrimentos, dores e privações. A fome não saciada – e suas consequências – avança com força em nossos dias. Que nasça a esperança nos neurônios – atrofiados, desiludidos e desenganados – dessas crianças, adultos e idosos! Que nasça a esperança, dom maior, naquele espírito caritativo e transformador de Dom Helder, de que “um mundo melhor é possível”! Um Natal com consolação e fecundidade nos corações de homens e mulheres de boa vontade, cada dia com alimento partilhado em todas as mesas, num basta à desnutrição. Que nos agarremos ao absoluto de Deus, ao seu amor terno e afável, querendo sensibilizar corações!

Quanto mais ativa e dinâmica parecer a caminhada da Igreja, mais e mais contemplativa deveria se revelar ao mundo, favorecendo, evidentemente, a vida humana em seu todo, sobretudo na precariedade dos vulneráveis, dos que vivem em situação de rua e dos que passam por angústias de toda sorte e natureza, como no compromisso tão evidente de Dom Helder Câmara: o de um mundo melhor e mais inclusivo. 

Este mundo benevolente e humanitário quer consistir mesmo na mais acentuada expressão, de tal modo concreto, que possa se manifestar e revelar, indispensavelmente, na luta contra o maior, mais ardiloso e astuto de todos os males e escândalos de nossa sociedade e mesmo da Igreja nos nossos tempos hodiernos: a abismal e antagônica ruptura que tende a persistir entre os empobrecidos e os que vivem na opulência.

Jamais  prescindir da bondade de Deus. Ele mesmo quer que sejamos compassivos e voltados à contemplação do mistério da realidade da vida, ao nos revelar algo concreto, o qual nos desafia, na esperança, a palmilhar o verdadeiro caminho: o de conduzir os homens a Deus, mas na combinação harmônica do mesmo Deus que quer sempre mais se estabelecer entre os homens. Eis o desafio do Natal!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

5 de novembro de 2020

Morreu Irmã Carmelita Rita Maria

 Padre Geovane Saraiva*

Irmã Rita Maria, ex-madre, deixou o convívio de suas irmãs carmelitas no dia 03/11/2020, aos 93 anos de idade e 71 à sombra do Carmelo de Fortaleza. Que Deus acolha a querida Irmã Rita no seu seio! Ela, por uma vida longa, viveu, não para si, e sim para Deus, voltada à contemplação do absoluto de Deus e agora o vendo face a face. Que fique óbvio, explícito e notório: nossa oração, amizade e solidariedade neste momento de dor, como conforto e consolo espiritual, quer se estender ao Carmelo Santa Teresinha de Fortaleza e a todos os que sofrem com sua partida, sem esquecer de seus familiares, em especial sua irmã e amiga, Maria José, e seus sobrinhos Adriano e Helena. Irmã Rita era a religiosa mais idosa da comunidade do Carmelo, sendo originária da cidade de Ubajara-CE; muito jovem deixou sua terra, no sonho maior e inquestionável: o da busca do “Castelo Interior”, segundo a bela alegoria de Santa Teresa de Jesus.

Agora ela se apresentou diante do Deus de bondade, de alma restaurada e totalmente transfigurada, naquilo que assegura o Evangelho: “Muito bem, servo bom e fiel; porque foste fiel no pouco, irei te constituir no muito: entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25, 23). Ela, depois de ter percorrido o luminoso caminho do Evangelho, no sonho das eternas bem-aventuranças, evidentemente, confiante no mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor, foi favorecida pelo visível ambiente de sua casa, o Carmelo Santa Teresinha, o qual lhe revelou o caminho interior na busca da morada eterna.

Irmã Rita Maria soube ouvir a voz de Deus, chamando-a à vida religiosa, na condição de carmelita, que na clausura do convento de sua comunidade, aliada à oração silenciosa, apropriou-se tão somente do essencial, percebendo em tudo o verdadeiro amor. É assim que compreendo a vida da Irmã Rita, na sua mais íntima e estreita relação com Deus, nos meus 32 anos de ministério sacerdotal, sempre presente no Carmelo Santa Teresinha de Fortaleza. Dê-lhe, Senhor, o repouso eterno!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

31 de outubro de 2020

CIDADE FUTURA

 Geovane Saraiva*

Bem-aventuradas e felizes são as comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré, pelo espírito aberto e por aceitarem a proposta salvífica de Deus Pai, no feliz anúncio, naquela visão beatífica, que é a eterna felicidade. À semelhança de Deus fomos originados e colocados no mundo, permeando nosso coração com aquele desejo mais elevado: o de buscar a perfeição, a santidade. Sem meia-volta, é Deus que quer nos convencer de nossa missão, que é a da nossa periferia existencial, ou ambiental, como se fosse um bonito jardim, com o desafio de cuidar, excluindo aquela lógica ou espírito da serpente, afastando-nos do mal, do egoísmo e do orgulho, numa sociedade consumista e conflitiva, longínqua da não violência da justiça divina, com marcas visíveis da vida desigual e desleal, mesmo no seio da Igreja. Que sejamos convencidos, pela graça de Deus, de que a vida exige coragem de nos levantarmos de vez, e não de nos depararmos com o fracasso.

Não me canso de repetir o que alhures já disse: É maravilhoso aprender com Santo Agostinho, na beleza de sua obra “A Cidade de Deus”, colocando-nos diante da vida humana como um mistério de amor, segundo o projeto divino, quando “dois amores estabeleceram duas cidades, a saber: o amor-próprio, levado ao desprezo a Deus: a terrena; e o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio: a celestial”. Mesmo sendo enormes a saudade e a dor pela partida de nossos entes queridos, que nossa humilde e confiante oração seja a de jamais perdermos de vista a esperança, na certeza da promessa da imortalidade, antevendo conforto e consolo incontestáveis, segundo as letras sagradas: “Não temos aqui na terra cidade permanente, mas estamos à procura da cidade que há de vir” (cf. Hb 13, 14).

É indispensável, nesse contexto, pensar na caridade fraterna e no amor, para o qual somos destinados, que é o de amar como Deus amou, amando-o em primeiro lugar e reservando-lhe momentos de oração e intimidade, com louvor, súplica e agradecimento pelo dom maravilhoso da vida. É a palavra de Deus, plena e fecunda de graças, que nos convida ao amor franco e genuíno, com todas as nossas forças, sendo nós conscientes de que fomos criados para a eternidade, e que na acesa chama da esperança nada de desânimo nem de decepção. Só nos resta convencermo-nos da realidade da morte como nossa amiga, irmã e companheira inseparável, na esperança de contemplar Deus face a face no céu e saborear sua afável e terna misericórdia, e na certeza de que nossa prece suba aos céus pelos nossos irmãos falecidos. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

23 de outubro de 2020

Nossa civilização cristã

 Padre Geovane Saraiva

Nossa civilização cristã, no seu perfil ou configuração, composta pelos seguidores de Jesus de Nazaré, tendo como amparo e sustento a égide da esperança. Num decisivo e heroico compromisso, é o ideal mais sublime, otimista e profético, pela mais elevada e digna causa da existência humana, no sonho de ver “novas todas as coisas” (Ap 21, 5). Daí nossa atenção aos sinais do Espírito de Deus, evidenciado no conjunto dos primeiros séculos de nossa “era cristã”, num esforço, de tal modo solidário, a ponto de se ficar clara a luta pela extinção da fome, no sentido mais amplo: material, cultural, na dignidade, na educação. Passado o quarto século, constata-se a fé consolidada, a partir do Concílio de Niceia, no ano de 325. É o povo de Deus a encontrar seu caminho por muitos séculos, tendo por fundamento a fé em Jesus Cristo, que nela se agarra; e do Filho de Deus não se afasta.

O registro da História atesta que a humanidade é generosa, através de pessoas superdotadas, homens e mulheres, com todos os dotes e talentos de sua inteligência, e está enfocada nas coisas divinas sobrenaturais, exteriorizando, por este imenso e desmedido mundo, a arte, a pintura, a arquitetura, a escultura e a literatura, com a consciência de sua força e poder influenciador, no caminho do bem; no caminho de Deus. Percebe-se, no entanto, a fé como sendo sólida e consistente em Cristo Jesus, e não há por que se duvidar da “idade da crença”, mas que aos poucos, fruto dos dons da sabedoria humana, cede lugar aos dogmas, no que diz respeito ao mesmo Senhor Jesus Cristo.

Já na Idade Contemporânea, ou hodierna, na qual estamos inseridos, nos diversos sinais, gestos e atitudes da humanidade, urge uma compreensão da amplitude do mundo. O Espírito de Deus, além de inspirar, constantemente, quer nos desafiar e provocar, na causa existencial, a mais digna possível, numa vida sensata, baseada em fundamentos sólidos. Os traços da verdadeira esperança, no cuidado de não separar fé e razão, é algo vital e revelador, na diversidade dos dons do Espírito Santo de Deus. Antevemos com humildade o futuro, o destino da vida e do mundo, mas sob o amparo da esperança como aliado, numa metáfora de contemplar o céu estrelado e luminoso. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

21 de outubro de 2020

Barreiras tem novo bispo

PAPA NOMEIA DOM MOACIR ARANTES COMO BISPO PARA A VACANTE DIOCESE DE BARREIRAS (BA) Dom Moacir O papa Francisco nomeou nesta quarta-feira, 21 de outubro, dom Moacir Silva Arantes, 51 anos, atual bispo auxiliar na arquidiocese de Goiânia (GO), como o terceiro bispo da diocese de Barreiras (BA). A diocese estava vacante desde a nomeação de dom Josafá Menezes da Silva como arcebispo de Vitória da Conquista (BA), em 9 outubro de 2019. Trajetória eclesial Mineiro de Itapecerica, dom Moacir nasceu em 3 de junho de 1969, filho de Bento Alves Arantes e Irene Pinto de Araújo, dom Moacir Silva Arantes, sendo o 13º de 15 irmãos. Formou-se em filosofia e teologia em Belo Horizonte (MG) e foi ordenado padre em 14 de agosto de 1999. Já foi pároco e administrador paroquial em seis municípios da diocese de Divinópolis (MG), bem como reitor dos seminários diocesanos, membro do conselho presbiteral e coordenador da Pastoral das Vocações e ministérios da diocese. No Regional Leste 2 (Espírito Santo e Minas Gerais) foi assessor eclesiástico da Pastoral Familiar e por último assessor nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dom Moacir foi nomeado bispo auxiliar de Goiânia pelo papa Francisco, no dia 11 de maio de 2016, e ordenado na igreja matriz de São Bento, em sua terra natal, Itapecerica (MG), no dia 13 de agosto do mesmo ano, sob a imposição das mãos do bispo emérito de Divinópolis (MG), dom José Belvino do Nascimento, e dos bispos co-ordenantes, dom José Carlos de Souza Campos (diocesano de Divinópolis) e dom Washington Cruz, arcebispo de Goiânia. Tomou posse no dia 26 de agosto de 2016, na catedral Nossa Senhora Auxiliadora, em Goiânia. Seu lema episcopal é In Simplicitate Cordis (Com simplicidade de coração). O bispo integra a atual presidência do Regional Centro-Oeste da CNBB, com mandato até 2023, onde exerce a função de secretário.

18 de outubro de 2020

Padre Lima: Centenário de sua ordenação sacerdotal

Padre Francisco Lima Freitas, vigário de Aracoiaba-CE, de fevereiro de 1925 a janeiro de 1932. Era tio da minha mãe, Maria Eliete Saraiva, foi ordenado sacerdote (26/09/1920), por Dom Manoel da Silva Gomes, 3º bispo do Ceará e 1º arcebispo de Fortaleza (1912-1941). Pe. Lima, como era conhecido, no centenário de sua ordenação presbiteral, do céu, interceda por nós! Que o tenhamos em conta na nossa história familiar, ele na condição de “sacerdos in aeternum”, irmão do nosso avô materno. Sílvia Guedes, obrigado pelo presente das fotos do Pe. Lima! (Fotos: Museu de Aracoiaba-CE). 

17 de outubro de 2020

Herança dos Santos

Padre Geovane Saraiva*
O sonho por renovação espiritual, consagrado no estreitamento da fé com a vida, conduz-nos pelo bom caminho, mas numa vida devotada e lançada nas mãos de Deus. O legado e a herança dos santos nos inspiram e nos encorajam no caminho divino, o mesmo percorrido sabiamente e com rigor contemplativo por aqueles que nos precederam na estrada da santidade. Deus nos quer proporcionar bons corações, insistentes e confiantes na oração. Ele sabe o que mais nos convém, do que mais necessita a criatura humana, espalhada por toda a extensão da terra. Diante da realidade do mistério da vida, Deus propõe para nós uma única coisa: a esperança, a mesma que afugenta da terra a desconfiança, que embaça os olhares mais claros e torna turvos os horizontes mais límpidos, segundo Dom Helder. Viver na turbulência das ondas, na instabilidade do barco da vida, parecendo, muitas vezes, que vai naufragar, é um grande milagre do Deus encantador, a nos deslumbrar com seu dom e sua graça, obras da ação do Espírito Santo em nós. 

 Numa densa e consistente sinopse, voltemo-nos para Santa Teresa de Jesus (1515-1582), uma criatura humana exemplar, descomunal e desmedida no amor, um bem que pode ressoar, hoje, na vida dos cristãos como um verdadeiro milagre do inefável mistério de amor. Não tenho nenhuma dúvida de tratar-se de uma mulher fortemente movida pelo Espírito de Deus. Entre seus escritos, engrandeceu nossa civilização cristã: “Castelo Interior” e “Caminho de Perfeição”, ao agraciar obsequiosamente o mundo com sua própria experiência de vida de oração e contemplação, presente na sua lavra literária, externando seu lado místico duradouro e indelével. Ela soube colocar, diante dos olhos, na mente e no coração, o Deus grande, glorioso e esplêndido, sendo a razão de seu viver, indicando-nos, assim, o caminho da santidade e da benevolência divina. 

Que o Espírito Santo de Deus nos ensine o caminho reto, fortalecendo-nos cada vez mais na graça da convivência humana, da proximidade e do afeto pelo nosso semelhante, que encontra sua real concretude, quando procuramos compreendê-lo e dele nos aproximar, ouvindo seus clamores e suas angústias, estendendo-lhe a mão amiga, através de gestos edificantes, fraternos e acolhedores. Só mesmo na vida transformada em oração, na busca da perfeição, se compreende o convite de Deus para o encontro das “eternas alegrias”, no exemplo de Santa Teresa D’Ávila, chamando-nos para participar de sua festa, mas contando com o melhor alimento, dos melhores manjares, insólitos e excepcionais, regados à base de vinhos raríssimos e inusitados. Assim seja! 

 *Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

9 de outubro de 2020

Eterna Romaria

Padre Geovane Saraiva*
Nossa missão aqui na terra é uma constante e persistente romaria, como na canção: “Sou caipira, Pirapora / Nossa Senhora de Aparecida / Ilumina a mina escura e funda / O trem da minha vida”, mas na esperança da feliz e eterna romaria. Eis o nosso maior desafio: o de viver o Evangelho de Jesus. Fica patente o convite à conversão do nosso coração, na alegria de sempre mais redescobrir o amor verdadeiro, de nos inspirarmos no gesto da Mãe de Deus e de nos unirmos à Igreja em estado permanente de missão, pelos dons do Espírito Santo em Maria, neste outubro missionário. Sabemos que cada pessoa, no exemplo acima mencionado, ao mergulhar na sabedoria divina, quer mais e mais exteriorizar, difundir e disseminar a ternura compassiva de Deus, carregando consigo, neste mundo, o segredo de seu mistério ou a razão de seu encargo ou dever de edificar o mundo e sua realidade contraditória. Embora se saiba que são muitos os que se encontram na aridez do deserto, também no seu calor escaldante e exaustivo procuram um poço de água, uma torrente miraculosa, no sentido de jorrar água redentora, a mesma de Maria no Rio Paraíba. É o amor transbordante de Deus que nos faz pensar, acima de qualquer metáfora ou alegoria, no mistério da Mãe de Deus. Neste mês missionário de 2020 somos convidados a abraçar a proposta do Evangelho de Jesus, na compreensão generosa de que “a vida é missão, dom e compromisso”, na ordem vital e irrecusável de Jesus: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Deus nos conceda a graça da consciência de que fomos criados para apreciar e valorizar seu Reino, em sua beleza, não num sentimento de tristeza, nos limites precários e na transitoriedade da vida, mas longe de ilusões e vantagens deste mundo, com um sentimento de viva esperança, anunciada no Magnificat: “O Poderoso fez em mim grandes coisas. Seu nome é santo e seu amor para sempre se estende sobre aqueles que o temem”. Aventura magnífica, a partir de Michelangelo (1475-1564), pintor, escultor, poeta, arquiteto e gênio italiano, ao retratar, evidentemente através da arte, essa tese, de um modo indizível, mostra a Virgem Maria nas sete dores sofridas com o corpo de seu filho Jesus, morto em seus braços, após a crucificação, com dores colossais e descomunais, que representam as dores da humanidade. Assim seja! *Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

7 de outubro de 2020

Valor à Educação

Carlos Delano Rebouças* Há uma máxima que diz que, para evitar polêmicas, não se deve discutir política, futebol e religião. Mas será que educação pode ser incluído nessa lista? O máximo que pode acontecer é ficarmos como protagonistas únicos de um monólogo sem plateia (desculpem a redundância), cujo enredo não atrai expectadores. E quando aparecem alguns, logo dizem: "Vamos mudar de assunto?". Outras vezes se calam, na pura confirmação de que não interessa, aliás, aborrece, visto que já rotulam seus defensores com os mais depreciativos adjetivos, que prefiro nem exemplificá-los. Há quem diga que estamos soterrados na cova da ignorância. Acredito eu que muito por culpa nossa, já que a vida é feita de escolhas. Se temos a chance de seguir determinados caminhos, se encontramos no percurso pessoas que querem nos ajudar ante a crença de que a educação é o norte, por que não aceitar? Pena que essa aceitação é para poucos. Ainda que discordem, ante o aumento circunstancial de membros da nossa sociedade com diploma de nível superior, isso não é reflexo de valorização quando não tem efeitos no exercício profissional e no desenvolvimento humano. São apenas números indicativos de investidores em um diploma para um salto na carreira profissional que, se não contar com estudo e dedicação, não acontece. *Professor de Língua Portuguesa e redação, conteudista, palestrante e facilitador de cursos e treinamentos, especialista em educação inclusiva e revisor de textos.

2 de outubro de 2020

Missão: dom e compromisso

Padre Geovane Saraiva*
Auristela Leite é uma mulher da Paróquia de Santo Afonso que tem preocupação e carinho para com os vulneráveis, os moradores de rua, em sua costumeira presença, à noite, nas praças da nossa querida Fortaleza, levando alimento e, por vezes, lençóis e agasalho a seus habitantes, além do conforto e alento espiritual. Pode acreditar! Tenho a certeza de que ela não quer louvores e muito menos vênias. Ela já chegou a me confidenciar certa vez: “Pe. Geovane, não gosto muito de elogios e tenho até nojo daquele linguajar jurídico e acadêmico, que parece lembrar a imagem do ‘santo do pau oco’, chegando próximo da hipocrisia”. Um dia ela me disse, dentro do contexto da missão universal da Igreja – e estamos vivendo o Mês Missionário 2020: “Gosto muito de Dom Helder, em sua apaixonante afirmação: ‘Missão é partir, é não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: a humanidade é maior. Missão é partir, mas não devorar quilômetros. É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E se, para encontrá-los e amá-los, é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então Missão é partir até os confins do mundo’”. Auristela, mulher afável, terna e carinhosa, tendo na mente e no coração os desprotegidos deste mundo, tão marcados pela dor, no sofrimento de toda natureza, disse-me também: “O Papa Francisco é minha inspiração no meu humilde compromisso por um mundo inclusivo e solidário, por uma Igreja em saída, mas nunca posso esquecer aquele papa da bondade, São João XXIII (1958-1962), no seu especial carinho para com as crianças, às quais, mesmo em tempo de pandemia, gosto de chamar de ‘maluquinhos’”. Nossa paroquiana tem larga clareza de que São João XXIII percebeu os sinais dos tempos, na sua urgência por renovação ou rejuvenescimento, o “aggiornamento”, mas dentro de uma nova pedagogia: a de que se pode contar com o remédio, o perdão, a misericórdia e a brandura, e não com a severidade. Assim, São João XXIII, com um carinho de que lhe era peculiar, chegou a dizer aos padres conciliares: “Quando vocês voltarem para casa encontrarão crianças. Deem a elas um carinho e digam: Este é o carinho do Papa”. Ó Deus e Pai de bondade, ajude-nos a compreender que a vida é missão, é dom e compromisso, como na voz do profeta Isaías: “Eis-me aqui! Envia-me!”. Assim seja! *Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

30 de setembro de 2020

Morre Quino, criador da personagem de quadrinhos Mafalda

 

Cartunista argentino faleceu aos 88 anos de idade

Legenda: Nos comentários da publicação sobre a morte de Quino, fãs lamentaram e agradeceram pela criação de Mafalda
Foto: AFP/Alejandro Pagni




cartunista argentino Quino, conhecido pelos quadrinhos da personagem Mafalda, faleceu aos 88 anos nesta quarta-feira (30). A informação foi confirmada pelo editor do desenhista, Daniel Divinsky, em publicação no Twitter. Até o momento, a causa da morte não foi informada. 

Joaquín Salvador Lavado Tejón, nome completo de Quino, nasceu em 1932, na cidade de Mendoza, na Argentina, local para o qual retornou em 2017 logo após a morte da mulher, Alicia Colombo. 

Quino foi o criador de histórias em quadrinhos mais traduzido da língua espanhola. Na página oficial de Mafalda, o comunicado sobre a morte do desenhista também foi publicado.

 Diário do Nordeste

 


29 de setembro de 2020

Cristãos e cristãs, comam (a) história!

 Precisamos encontrar os desígnios salvíficos de Deus Deus na história


Comer do livro diz respeito à vocação profética

Comer do livro diz respeito à vocação profética (Unsplash/Ryan Riggins)

Felipe Magalhães Francisco*

"Eu fui até o anjo e pedi que me entregasse o livrinho. Ele me falou: 'Pega e devora. Será amargo no estômago, mas na tua boca será doce como mel'. Peguei da mão do anjo o livrinho e o devorei [...]. Então me foi dito: 'Deves profetizar ainda contra muitos povos e nações, línguas e reis'" (Ap 10,9-11). A ordem celeste dada a João, o vidente do Apocalipse, é bastante inspiradora para nos ajudar a pensar a atuação cristã no mundo, no momento atual em que nos encontramos. Como em todo o livro do Apocalipse, o comer o livro é um símbolo muito importante, pois está ligado à missão profética, tal como nos inspira o Livro do Profeta Ezequiel (cf. 2,8).

Antes, porém, de nos dedicarmos a refletir sobre o gesto simbólico de comer o livro, faz-se necessário que nos atenhamos ao símbolo mesmo que representa o livro no Apocalipse. O capítulo 5 introduz o tema do livro: o vidente vê, na mão direita de quem estava sentado no trono – o próprio Deus – um livro, que é descrito como que sendo um rolo, escrito por dentro e por fora. Esse livro estava lacrado com sete selos. Sete, aqui, tem um valor qualitativo – portanto, simbólico: esse livro estava plenamente lacrado, inacessível, o que leva um anjo, de voz forte, a proclamar uma importante questão sobre quem é digno de romper os sete selos. A narrativa diz que João, o vidente, chorava, porque ninguém havia sido mostrado digno de romper os selos. Um ancião, porém, disse a João: "Não chores! Vê, o leão da tribo de Judá, o rebento de Davi saiu vencedor. Ele pode romper os selos e abrir o livro" (Ap 5,5).

Certamente, o ancião se referia a Jesus, o que em seguida fica claro, quando se fala do Cordeiro. A imagem do Cordeiro traz um paradoxo interessante: esse personagem é apresentado estando de pé, "como que imolado" (5,6). Os cristãos e cristãs são chamados, tão logo, a reconhecer: o Cordeiro é o crucificado-ressuscitado. Ele é, pois, o único digno de romper os lacres do livro, afinal ele é o vitorioso. Além disso, e sobretudo, ele é o "Alfa e o Ômega" (Ap 1,8), isto é, aquele que é o princípio e o fim, portanto o pleno conhecedor da história. Aqui, pois, desvela-se para nós o significado do símbolo do livro no Apocalipse: significa a História. Não é sem motivos que, a cada selo rompido, revelações e suas respectivas interpretações (apocalipse) são feitas.

Abrir o livro, na literatura apocalíptica, significa, pois, revelar os segredos da história, os mistérios da origem e do destino do mundo. O que mais especificamente faz a literatura apocalíptica é uma teologia da história, pois é na história que precisamos encontrar os desígnios salvíficos de Deus, bem como apontar toda a ação do anti-Deus, que atua para impedir a salvação. Quando o autor do Apocalipse de João mostra que o Cordeiro é digno de romper os selos, ele ajuda os cristãos e cristãs a compreenderem que, a partir de sua fé, o mistério da vida do crucificado-ressuscitado é o que ilumina a verdadeira leitura e o entendimento da história.

Há muito o que podemos aprender com tudo isso. Um elemento, nisso tudo, merece destaque: quando cristãos e cristãs perdem sua capacidade de ler, criticamente à luz da fé, a história, sempre recaem nas armadilhas feitas pelo anti-Deus, isto é, pelo maléfico sedutor. Ao olharmos para a história do cristianismo no mundo, perceberemos que, muitas vezes, cristãos e cristãs se aliaram ao poder do anti-Deus, pensando que lutavam contra o mal. Saber ler a história é critério fundamental para o comprometimento verdadeiro com o Evangelho do Reino de Deus.

Em nossa atualidade brasileira, temos visto como cristãos e cristãs se aliaram ao perverso, em nome daquilo que julgam como que sendo bons valores. Na verdade, o grito perverso contra a diferença, contra a pluralidade, contra o diálogo é sinal de que deixamos de saber ler a história. Se não sabemos ler a história, não sabemos atuar verdadeiramente como profetas. A ordem dada a João, para que comesse do livro, é uma exortação forte, que precisa ecoar entre os cristãos e cristãs de hoje: devemos saber ler a história; devemos fazer com que essa história entranhe em nós. É preciso que não nos atenhamos ao doce que fica na boca: é preciso ir além, deixando que o amargo desse livro alcance nossas entranhas.

Como dissemos, comer do livro diz respeito à vocação profética. E, no caso dos cristãos e cristãs, batizados e, por isso mesmo, comprometidos com a missão do próprio Cristo, o Cordeiro imolado-vitorioso, precisamos assumir uma postura profética no mundo. E isso só bem o faremos, se nos permitirmos redescobrir a importância e a prática de ler a história. O livro já nos foi aberto, isto é, revelado: tal como João, que recebeu o livro aberto, também nós precisamos ter o Evangelho como luz que nos ajuda a compreender a história, para fazermos a opção pelo Deus da Vida, o Senhor absoluto, e não nos deixarmos seduzir por falsos messias que nos arrastam para a morte e são empecilho para a instauração do mundo novo que há de vir. Comamos, pois, a história!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

28 de setembro de 2020

Os doentes não-Covid face à urgência da Covid-19

 



Um dos principais problemas do nosso sistema de saúde, ao longo do ano de 2020, durante a urgência dos doentes-Covid, foi o atraso no atendimento aos restantes doentes.

Com efeito, os serviços hospitalares realizaram, a nível nacional, entre janeiro e final de junho de 2020, 896.000 consultas a menos, comparando com doze milhões de consultas anuais em 2019. Por sua vez, os Cuidados de saúde primários realizaram menos 1,1 milhões de consultas, no mesmo período, comparando com trinta e um milhões de consultas realizadas em 2019 [iii].

O número de cirurgias programadas não realizadas, a nível nacional,  não é menos impactante: de 58.829 realizadas em Março de 2019, caiu-se para 31.216 em Março de 2020 [iv].

No Distrito de Bragança,  no mesmo período, a crise Covid-19 «levou à suspensão da atividade assistencial programada e ao cancelamento de 7.687 consultas e 584 cirurgias» nas unidades hospitalares da Unidade Local de Saúde [v], 50% das quais remarcadas até ao final de Agosto.

Estes atraso, suspensão e cancelamento, nos diferentes espaços territoriais, dever-se-ão essencialmente a duas razões: 1) menor procura social dos serviços de saúde, sobretudo por pessoas acima dos 70 anos, presumivelmente por receio de contaminação; e 2) problemas derivados da reorganização dos serviços de saúde, quer dos cuidados primários quer dos cuidados hospitalares segundo circuitos diferenciados para doentes-Covid e doentes não-Covid, com realocação e readaptação de recursos humanos.

A informação disponível sobre o número de mortos a mais, em 2020, a nível nacional e até ao final de Agosto (6.312), relativamente ao período homólogo do último quinquénio (2015-2019) [vi], permite-nos agora hipotetizar a profundidade e extensão do abandono a que os doentes não-covid foram submetidos, não se conhecendo devidamente as causas da sua morte, o que poderá aumentar as mortes por Covid-19.

De qualquer modo, o atraso nas consultas e nas cirurgias é um indicador poderoso, mesmo se atenuado pelo recurso à telemedicina, que a inevitável desatualização dos sistemas TIC, por parte dos serviços de saúde, e da infoexclusão, por parte das pessoas acima dos 50 anos, não permitiram tornar totalmente eficaz ainda que muito contribuindo para o não maior aumento de consultas não realizadas [vii].

É verdade que o sistema de saúde e os seus profissionais viveram – e ainda viverão – um período de ambiente e tecnologia incertos face ao SARS-CoV-2, mas, adquiridos procedimentos contra o contágio, será tempo de criar eficácia no sistema, mesmo nas situações que exigem tecnologia intensiva [viii] como são as intervenções cirúrgicas e o tratamento de doentes-Covid-19, que impõem a abordagem multidisciplinar.

É da mais elementar justiça, com vista a um convívio social pacífico e saudável, que os portugueses sintam confiança no seu sistema de saúde. Os tempos de caos são excelentes para a reengenharia e para a reinvenção da excelência organizacional [ix] tanto mais que a pandemia veio manifestar, mais uma vez, a grande qualidade humana e técnico-científica dos nossos profissionais e do nosso sistema de saúde, sobretudo do subsistema hospitalar.

Elisabete Pinelo, Médica internista com diferenciação em imunologia e diretora do internato médico na Unidade Local de Saúde do Nordeste. Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz – Bragança/Miranda

Henrique da Costa Ferreira, Professor Coordenador Aposentado do Instituto Politécnico de Bragança, área de Ciências da Educação – Sociologia das Organizações Educativas e Administração da Educação. Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz – Bragança/Miranda

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt

Autor: Elisabete Pinelo e Henrique Ferreira, Diocese de Bragança-Miranda 

A presença da morte em meio à vida

Publicado pela José Olympio, livro inspirou autores como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa

O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo (José Olympio, 176 pp, R$ 39,90 – Trad.: Eric Nepomuceno), livro de Juan Rulfo que inaugura o gênero e serviu de fonte onde beberam o colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa. A partir da combinação de dois elementos essenciais ao sucesso da literatura latino-americana – o realismo fantástico e o regionalismo -, Juan Rulfo se destaca pela sua habilidade em contar uma história reunindo relatos e lembranças. De enredo conciso e preciso, o único romance do escritor trata da promessa feita por Juan Preciado à mãe moribunda. O rapaz sai em busca do pai, Pedro Páramo, um lendário assassino. No caminho, encontra personagens repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável de seu pai. Em sua estrutura não há linha temporal exata, tampouco um narrador fixo. Juan Rulfo leva o leitor a mergulhar e a se dissolver no turbilhão dos sentimentos de todo um povoado, em torno desse grande homem.

Via PUBLISHNEWS