29 de junho de 2021

Dinâmica da vida humana

Pe. Geovane Saraiva*

Como é ótimo ver as pessoas edificarem aqui na terra suas moradas, mas levando em conta a habitação celestial, encontrando motivações e força no Espírito Santo de Deus, que sempre quer iluminar a todos, através das palavras e da ação de Jesus de Nazaré, contidas no Livro Sagrado, não se esquecendo de que a vida é um pêndulo, entre o respirar e o suspirar, oscilando de um lado a outro, uns mais e outros menos, entre a dor e o tédio, a alegria e a tristeza ou a angústia! É a dinâmica da vida humana, a pedir vista, na ótica da fé, com o mesmo olhar do Filho de Deus, ao estabelecer seus alicerces, há 20 séculos entre nós, no encantamento e no fascínio de uma multidão incontável de criaturas humanas. Por outro lado, na mais estreita união da Igreja com toda a família humana, constata-se, ainda hoje, um mundo profundamente desassossegado, no alvoroço de marcas e sinais de morte, frenesi impetuoso e brutal de toda natureza.

No caminho da justiça e da verdade, na compreensão de que “as criaturas do mundo são saudáveis, nelas não há nenhum veneno de morte, nem é a morte que reina sobre a terra, pois a justiça é imortal”[1]. Partindo do princípio da justiça imortal, fomos levados a corredores contrários, por veredas obscuras, na ausência da verdade de justiça, ao mesmo tempo amparados pela jurisprudência da nefasta parcialidade. Eis o grande manto a nos amparar, a demoníaca serpente, a qual tem nomes.

O Concílio Vaticano II vai na direção desse pêndulo, na Constituição Pastoral – Gaudium et Spes, ao afirmar: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração”[2].

A assertiva dos últimos dias nas redes sociais – “Perdeu, playboy: STF declara Moro suspeito em todos os processos contra Lula” – levou-me a pensar no trunfo ético e moral, com o qual a sociedade brasileira passou a contar nos últimos anos. Pensou-se até no novo João Batista, naquele prenúncio de tempos novos e messiânicos, mas o que há de se notar mesmo, como lucro maior para o povo brasileiro, é uma abissal frustração, acompanhada da embusteira, falsa e ilusória esperança.

Pela expressão tão repetida na nossa civilização cristã “Quem viver verá”, notam-se, no imaginário religioso das pessoas de boa vontade, ilusões e incoerências plantadas no coração do nosso povo, tão desejoso do “novo”, na busca da verdade e da justiça, além da crença no Deus único e verdadeiro, como um acordar inflamado e coerentemente justo, na direção do absoluto ou da imortalidade.

A despeito do assunto acima, “nada de diversão”, aliás, acho inoportuno comparar o justiceiro Sérgio Moro a um playboy, porque os playboys, oriundos da burguesia ou do baronato, eram pessoas de uma época e cultura que curtiam a vida a seu modo, não sendo de natureza tão malévola, mas, certamente, alimentavam sonhos, embora passageiros. Lembre-se de que a vida é um pêndulo, entre o respirar e o suspirar. Quem viver verá.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

 


[1] Cf. Sab 1, 14.

[2] Cf. Gaudium et Spes. Igreja no mundo contemporâneo, n, 1.

24 de junho de 2021

Os profetas da morte zombam da dor (Mc 5, 21-43)

“Não tenhas medo, basta ter fé” (Mc 5, 36)
Dom Jeová Elias*

 

O Evangelho segundo São Marcos continua perguntando: quem é Jesus? A cada domingo somos convidados a encontrar um pedaço da resposta para, ao final do ano litúrgico, termos o mosaico com a figura de Jesus Cristo.

No texto deste XIII domingo do Tempo comum, Marcos apresenta o terceiro episódio de cura, com a manifestação da misericórdia de Jesus a favor de duas mulheres, vencendo dois poderosos inimigos: uma enfermidade incurável daquela com hemorragia, e a morte da adolescente. Assim, o evangelista apresenta Jesus como aquele que se preocupa com a vida das pessoas, restituindo a saúde da enferma, e como vencedor da morte, aparentemente irreversível, devolvendo a vida da jovem.
Jesus é apresentado em movimento: atravessa o lago de barca, encontra-se no meio de uma multidão na praia, caminha rumo à casa de Jairo, chefe da sinagoga, que implora em favor da vida de sua filha moribunda: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” (Mc 5, 23). Jairo, aflito com a doença da filha, suplica a Jesus pela recuperação da saúde e pela vida da menina.
Marcos inseriu a cena da mulher com hemorragia no caminho de Jesus, rumo à casa de Jairo, criando um suspense e aumentando a expectativa em relação ao desfecho da grave doença da menina. No caminho, Jesus é encontrado e tocado pela mulher. Ali também Ele manifesta sua misericórdia e devolve a saúde dela. Uma multidão o segue pelo caminho, mas somente três apóstolos são autorizados, além dos pais da menina, a adentrar no caminho mais sofrido, no quarto onde jaz a criança.
Ainda no caminho, aparecem os portadores de péssimas notícias, os profetas da morte, que desestimulam a luta pela vida e semeiam a desesperança: “Tua filha morreu. Por que incomodar o mestre?” (v. 35b). São insensíveis diante do sofrimento daquele pai, das lágrimas da mãe e dos gritos das pessoas desesperadas com a morte. Para eles, Jesus não deve ser incomodado com a dor dos outros. Não há mais jeito. Ignoram que para Deus nada é impossível (Cf. Lc 1, 37).
As cenas mostradas pelo Evangelho contêm algumas correspondências: duas mulheres que sofrem; doze anos de enfermidade de uma, e outra que morre aos doze anos; a infração da lei do puro e do impuro com o toque: a mulher com fluxo de sangue que toca Jesus, e Jesus que toca a menina morta (Cf. Lv 15, 25-31; Nm 19, 11); a palavra “imediatamente”, que se repete nas duas cenas: ao cessar a hemorragia da mulher após tocar a túnica de Jesus e após a ordem de Jesus: “Menina, levanta-te! (Mc 5, 30.32).
Há também alguns contrastes nos relatos das duas cenas: entre a multidão em torno de Jesus e o pequeno grupo na casa de Jairo; entre a ação da mulher e a inatividade da menina; entre o dinheiro gasto com os médicos pela mulher e a gratuidade de Jesus; entre o contato direto de Jairo com Jesus e o contato disfarçado da mulher; entre o choro desesperado das pessoas na casa de Jairo, que não acreditam no poder de Jesus, e a fé da mulher de que ao menos tocando a roupa dele ficaria curada.
As duas mulheres agraciadas pela ação de Jesus pertenciam aos grupos marcados pelo preconceito e desrespeito de uma sociedade machista. A que tinha hemorragia, além do sofrimento da enfermidade, carregava a dor de ser considerada ritualmente impura e sofria as prescrições impostas pela lei. Poderia ser equiparada a uma pessoa portadora de uma enfermidade altamente contagiosa, que não pode tocar em nada. Tornava-se fonte de contaminação para os outros. Estivera privada da intimidade conjugal e do dom da maternidade ao longo dos doze anos. A menina, morta antes da possibilidade de contrair matrimônio, também tornara-se impura pela precoce morte. Mas Jesus rompe os preconceitos, deixa-se tocar pela hemorroíssa e toca a falecida. O contato dele faz recuperar a esperança, devolve a vida.
Neste tempo doloroso de pandemia, são tantos os sofridos Jairos que acorrem a Jesus na esperança de obter o restabelecimento da saúde de um filho, de um pai, mãe, irmão, amigo... que imploram, confiantes, como Jairo: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” (Mc 5, 23). Um pequeno grupo adentra o ambiente dos leitos de dor, solidário nos cuidados e empenhando-se na busca de cura, na luta pela vida.
Mas há também os profetas da morte, que não querem incomodar o deus mercado, tampouco ser incomodados. Que não somente são indiferentes às lágrimas dos familiares e amigos dos mais de quinhentos mil mortos no nosso maltratado país, mas até zombam da sua dor, como os que zombaram de Jesus ao afirmar que a vida não perecera (Cf. Mc 5, 40). A vida de cada pessoa é preciosa aos olhos de Deus e da Igreja. Ignorar o sofrimento humano é ignorar a presença de Jesus Cristo entre nós.
Diante da notícia da morte de sua filha, Jairo é convidado por Jesus a não ter medo, a ter fé (v. 36). Como aquele pai aflito, também não devemos ser movidos pelo desespero, mas pela fé e pela esperança. Como diz o Papa Francisco: “Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!” (Evangelii Gaudium n. 3).
*Bispo Diocesano de Goiás

23 de junho de 2021

Deus magnífico, gracioso e encantador

 Pe. Geovane Saraiva*

Antes de mais nada, nossa homenagem ao Pe. Giovanni Saboia de Castro (1926-2020), ordenado sacerdote em 6 de dezembro de 1953. Por ele fui batizado aos 25 de novembro de 1956, na Matriz de Capistrano-CE. Partiu o grande e sempre muito lembrado e amado vigário do bairro Montese em 30 de maio de 2020. Na certeza de que ele se encontra no contexto beatífico, no todo ou no infinito, quando o homem, ao ultrapassar a si mesmo, encontra-se no absolutamente ilimitado, como ser humano verdadeiramente humano no infinito! Quando eu estava para me ordenar sacerdote, depois da ordenação diaconal, em 10 de janeiro de 1988, ele me propôs ajudar nas despesas que eu iria ter pela frente, referentes ao sacramento da ordem. Nunca esqueci seu gesto gracioso, vindo do seu bom coração! Dizia, orgulhoso, ser eu seu afilhado. Também gostava, por meu nome, Geovane, ter sido em sua homenagem. Nele, quero incluir todos os padres falecidos ultimamente.

Não hesitar diante da graça de Deus que nos santifica, que será sempre um benefício divino, de um Deus inteiramente livre, sendo sempre dadivoso, além e acima da natureza criada, podendo ser concebível ou criável, como um dom que de algum modo, ou de alguma maneira, é preciso ser conquistado[1]. Deus é magnífico, imenso e encantador, na sua divina bondade, e é bondade sem limites na simplicidade e na humildade, bondade mesmo de Jesus, pobre e de uma compreensibilidade e candura inequívocas.

Só quem é capaz de assimilar a grandeza de Deus, naquela compreensão do que é imprescindível num coração de pobre, que quer se fazer com Jesus despojado, que esteja apto a acolher essa grandeza divina, na pequenez da existência humana. Urge, portanto, manter a chama da vida interior, na contemplação silenciosa, no desejo de Jesus de Nazaré, de ser fermento na massa, fermento esse que precisa ser olhado, de tal modo que possa, sim, com sua ação generosa crescer e, misteriosamente, fermente toda a massa.

Como é maravilhoso quando as pessoas, e aqui o Pe. Giovanni Saboia de Castro em meio às situações de relativismo do mundo, com propostas ilusórias de métodos fáceis, descobrem nos místicos ou nos santos a importância da presença de Deus, de se encontrar e de se encantar com o Senhor, num entendimento consciente e cristalino, manifestado no paradoxo do cansaço, no que é passageiro! São aqueles que, de verdade, estão dispostos a se aventurarem ou querem andar na estrada do espírito, de no itinerário da vida interior caminhar pelos seus corredores, como no exemplo de tantos santos e santas que nos precederam, e que encontraram com seu apanágio no único necessário e absoluto: Deus.

Não escolhemos viver, mas vivemos e existimos. Que se convença sempre mais de que viver é pura gratuidade de Deus, mesmo em meio às precariedades da vida, constantemente ameaçada, mas sem perder a esperança na eternidade, na realidade terrestre, de no céu vermos Deus com a face descoberta (cf. 2 Cor 3, 18). Livrar dos desafios de tudo posto como empecilho ou limites, além de ferir, dividir e amarrar, como na seguinte afirmação: “Com as mãos cheias, com o gesto de prazeroso regozijo e ao mesmo tempo generoso, num imperturbável contentamento”[2].

A despeito do definitivo e da glória futura, no sonho da mais absoluta realização, como na assertiva de Leonardo Boff: “Concedei, Senhor, aos que estão morrendo e decidindo por vós, a graça de um rápido amadurecimento humano e divino, para que, num acendrado acrisolamento, possam desabrochar totalmente em vós”[[3]. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).



[1] Kloppenburg, Frei Boaventura. Colheita da vetustez, p. 12.

[2] Boff, Leonardo. A vida para além da morte, p. 73.

[3] Boff, Leonardo. A vida para além da morte, p. 66.

17 de junho de 2021

As tempestades descortinam as nossas falsas seguranças

“Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4, 40)

Dom Jeová Elias*

Após as parábolas anteriores que faziam referência ao Reino, diante da crise da comunidade primitiva, seguem quatro milagres que comprovam a sua chegada nas ações realizadas por Jesus. O sinal realizado neste Evangelho é o primeiro da série. Se o Reino foi retratado como uma semente com sua força imperceptível, agora a comunidade é testada na sua fé, ante os conflitos que enfrenta. O texto de Marcos é um convite para que a comunidade, ameaçada pela perseguição e pela hostilidade de então, confie em Jesus Cristo.

Imaginemos o impressionante cenário descrito pelo Evangelho: a barca estava em alto mar; a noite está escura; surge uma forte tempestade; ondas de água são arremessadas contra a barca, que começa a encher. Justifica-se a angústia dos discípulos e a inquietação diante da aparente indiferença de Jesus, que dorme na popa da barca.

A região geográfica do cenário apresentado pelo nosso texto continha uma grande depressão: 213m abaixo do nível do mar. Aconteciam por lá, em certos períodos do ano, tempestades que acarretavam fortes riscos para as pequenas embarcações da época. Contudo, Marcos não quer descrever esses fenômenos, mas referir-se à crise de fé em meio aos conflitos que a comunidade enfrentava. Na barca, açoitada pela tempestade, está toda a comunidade de ontem e de hoje.

É necessário passar à outra margem. O Evangelho, semente do Reino, deve chegar a outros povos, mas a travessia é penosa, exige disposição para navegar. O mar é uma síntese de toda força hostil ao projeto do Reino inaugurado e proposto por Jesus Cristo. No entanto, na barca se encontra Jesus Cristo, a comunidade não navega sozinha. Deus não permite que afundemos, mas devemos remar juntos, com Jesus ao nosso lado, para vencer as tempestades. 

O Evangelho deste domingo iluminou a bênção que o Papa Francisco dirigiu ao mundo, no dia 27 de março de 2020, no pátio da Basílica de São Pedro, em Roma, suplicando a Deus ânimo diante do início da pandemia que assolava a humanidade. Com certeza, lembramos os gestos do Papa no vazio chuvoso e silencioso da praça, seus passos lentos e sofridos, mas não guardamos as suas palavras. Foram palavras proféticas e alentadoras, que nos animam neste tempo de pandemia e em qualquer tempo de tempestade. Aqui, retomo algumas ideias que poderão nos fortalecer em períodos de águas impetuosas.

O Papa inicia a sua homilia situando a cena no tempo: ao entardecer. Ele constata que a humanidade experimenta a sobrevinda inesperada de uma noite escura e duradoura; que foi surpreendida por tempestades furiosas e se deu conta de que todos nos encontramos no mesmo barco e devemos remar juntos, na mesma direção; que não é possível cada um remar por conta própria, mas somando forças rumo ao mesmo objetivo.

O Papa menciona a dificuldade dos discípulos, apavorados com a possibilidade de naufragar, diante da suposta indiferença de Jesus: Ele dorme tranquilamente na proa. É a única vez que vemos Jesus dormindo nos Evangelhos. Eles o despertam e são advertidos, após a imposição do silêncio ao vento e ao mar: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4, 40). Para o Papa, não se trata de descrença em Jesus, pois eles recorrem a Ele, mas da Sua aparente indiferença. Dói a indiferença de quem amamos diante do nosso sofrimento! Mas ninguém se preocupa mais conosco do que Ele. Com a sua presença, a barca jamais afundará. Eles não perecerão. O vento desapareceu e tudo ficou calmo.

O Papa Francisco, inúmeras vezes, nos adverte quanto a outro vírus mais perigoso que o Coronavírus: o da indiferença, posto em evidência neste tempo de pandemia, em que parece melhor não ver o que passa ao nosso redor. Não devemos nos acostumar com a indiferença. “Deus nunca é indiferente. A essência de Deus é a misericórdia, que não consiste apenas em ver e comover-se, mas em responder com ação. Deus sabe, sente e vem cuidar de nós” (Vamos sonhar Juntos, p. 26). 

A tempestade, diz o Papa naquela pregação, descortina as nossas falsas seguranças, expõe nossos limites e mostra a necessidade que temos de viver em comunidade, como irmãos, de mãos dadas. “O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a essas horas em que tudo parece naufragar”.

Ao questionar por que Jesus não se importa diante do iminente perigo que enfrentam, os discípulos são interpelados por Ele, depois de fazer o vento cessar e vir a calmaria: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (v. 40). São repreendidos por terem medo e pela falta de fé. Há um medo sadio, como um mecanismo natural de defesa diante de certos perigos, mas há um medo sem motivo aparente. No caso da tempestade, não há motivos para temer porque o Senhor navega com eles. Esse medo sem motivo causa dano, dificulta a caminhada, impede conquistas importantes. O medo de navegar impossibilita chegar à outra margem.

Na Exortação Apostólica Evagelii Gaudium, o Papa Francisco menciona sete vezes a palavra medo, geralmente nos exortando a superá-lo. Somos convidados a não ter medo de anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões (n. 23); a não temer ir às encruzilhadas do caminho para encontrar os excluídos (n. 24); a não ter medo de rever os costumes que não estão ligados ao núcleo do Evangelho e que já não respondem aos novos desafios (n. 43). O único medo sadio proposto pelo Papa é o de nos fecharmos na falsa proteção das estruturas, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, diante do sofrimento de uma multidão faminta (n. 49). 

Continuamos a viver uma longa noite tenebrosa neste tempo de pandemia, mas não estamos sozinhos no barco: Jesus navega conosco e também muitos irmãos e irmãs, que somam forças e nos encorajam. 

Concluo esta reflexão suplicando ao Senhor que cuide de todas as pessoas sofridas; que não deixe naufragar as que são tentadas a perder a fé e a esperança; que nos faça fortes e corajosos diante da tempestade que nos assola, para que possamos também ajudar e consolar tantos irmãos e irmãs que sofrem. Que semeie o senso de justiça e de responsabilidade no coração das autoridades públicas, para que não fiquem indiferentes diante de tanto sofrimento do nosso povo.

*Bispo Diocesano de Goiás

16 de junho de 2021

Alegoria e fábula, sim!

 Pe. Geovane Saraiva*

No encontro de Jesus com a samaritana na beira do poço, no capítulo quarto do Evangelho de São João, o evangelista dos símbolos narra em torno de duas coisas: dupla sede e água. Vemos que se inicia na sede e clamor por água, mas que, no decorrer do diálogo, quem pede é quem dá água. A alegoria maior cai em quem tem as condições de tirar água do fundo do cacimbão e acaba manifestando sua sede maior, sede das sedes, indicando que ninguém é só água e muito menos só sede.

Todos nós somos constituídos, numa simbiose interativa, além de sede e água, de ar e chuva, de fauna e flora, inseparáveis. Inclusive eu disse alhures: “No mistério do Universo, que os seguidores de Jesus de Nazaré, a partir de seu olhar terno e afável, jamais duvidem de Deus encarnado e revelado no Filho, que quer nosso compromisso, ao dizer não à poluição e à destruição ambiental, protegendo e conservando a vida, no que existe de mais belo e precioso”.

Nesse sentido, o encontro da água com a sede, no exemplo acima, torna-se possível no processo evangelizador, um verdadeiro milagre. O desafio maior é a bravura destemida de revelar a própria sede. Temos um belo exemplo de Jesus em duas ocasiões: diante da mulher, na sua busca por água, e lá no lenho da cruz: “Tenho sede”.

A riqueza dos gêneros literários encontrados na Bíblia só corrobora o conhecimento do tesouro da nossa fé, qual seja o texto sagrado indispensável pela sua importância, acrescentando, aos eficazes meios, o estudo das Sagradas Letras, na esperança messiânica e apocalíptica, na alegoria do cedro majestoso e magnífico, num Deus que diz e faz, promessa que se realiza em Jesus de Nazaré. 

No mundo amplo e vasto da literatura sagrada, em seus gêneros literários, nem tudo é possível ver ou perceber, mesmo sendo permeado pelas relações socialmente humanas, as quais estão presentes de muitas maneiras na vida das pessoas, lá onde elas se encontram, com suas atividades, chegando até o ponto da exaustão, notando-se sempre deficiências, fragilidades e limitações, no que diz respeito à simbologia ou ao gênero alegórico, e mesmo ao enredo das fábulas, naquele envolvimento mais abrangente e universal a respeito do Livro Sagrado.    

Na maior de todas as obras literárias, a meu ver, o Livro Sagrado tem diversos estilos de gêneros literários, seja pelo lado poético, pelo lado profético, pelo lado apocalíptico, pelo lado sapiencial, dentre outros. Os Evangelhos são considerados um gênero literário, não prescindindo do contexto biográfico histórico da vida de Jesus de Nazaré, tão evidente no final do Evangelho de São João: “Muitas outras coisas fez Jesus, as quais se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever” (cf. Jo 21, 25).

Aventura maior e fabulosa aparece na narrativa dos feitos de um herói nacional, como, por exemplo, Abraão, Gedeão e Davi. No gênero épico aparecem as narrativas de pessoas com façanhas militares. Lembramos a vida dos israelitas no deserto e a conquista de Canaã. Estão também a tragédia e a história da decadência de um indivíduo, da fama e honradez, desastre e miséria (Sansão, Saul e Salomão); também estão no romance, ao descrever a vida amorosa entre um homem e uma mulher, tão cristalino no gênero literário dos livros de Rute e Cântico dos Cânticos.

Os Evangelhos contêm todo um aparato biográfico sobre Cristo, que as comunidades transmitiam oralmente e depois os evangelistas escreveram. Na verdade, na boa-nova de Jesus, encontramos sua pregação e a atividade da comunidade primitiva: parábolas, narrativas de milagres, cânticos, provérbios, sentenças do Antigo Testamento encaixadas no texto, genealogias, histórias da infância de Jesus. Se pudesse afirmar, falaria de fábulas.

Para concluir, mais que factível, temos em Esopo uma constituição de histórias, nas quais os animais eram os personagens. Por meio de diálogos entre os bichos e das circunstâncias que os envolviam, eles procuravam transmitir sabedoria, mas atingiam a índole e o espírito moral da criatura humana. Assim, os animais, nas fábulas, tornam-se exemplos para o ser humano, pelos personagens, entre outros: a tartaruga e a lebre; o lobo e o cordeiro; o asno e a carga de sal; o lobo e as ovelhas; o cervo e o leão; o cão e a sombra; o lobo e o cão.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

Nome de Deus: amor e esperança

 Pe. Geovane Saraiva*

Pelo projeto redentor e salvífico do Reino, que a Deus pertence e que é confiado aos seres humanos, somos chamados a oferecer nossa generosa resposta. Agora, sabemos que por trás de cada pessoa manifesta-se uma complexa história, evidentemente com seus traços ou sinais peculiares, ação da bondade de Deus. Dom Helder Câmara se enamorou pelo mesmo Deus e, ao nos deixar há 21 anos, em 27 de agosto de 1999, foi uma dessas pessoas que perceberam o mistério do Cristo redentor, desfigurado nos irmãos e nas irmãs, como na seguinte assertiva: “Nos rostos gastos pela fome e esmagados pelas humilhações vi o rosto do Cristo Ressuscitado”.  

Dom Helder Câmara, consciente da bondade de Deus, afirmava: “Teu nome é e só podia ser amor”. A nossa súplica para com o nosso bom Deus é no sentido de que Deus possa ser sempre mais amado, concretamente, nas suas criaturas e, aqui, através do Servo de Deus, instrumento de vosso amor e vossa paz, nas suas contundentes profecias em tempos de crises: “Quando houver ver contraste entre tua alegria e um céu cinzento, ou entre tua tristeza e um céu em festa, bendiz o desencontro, no aviso divino de que o mundo não começa nem acaba em ti”.

A força de seu vigor e de seus sonhos, numa vida marcada por uma trajetória excessivamente fecunda e pelo seu inquestionável legado à humanidade, o credenciou a ser patrimônio do povo brasileiro, cidadão planetário, fazendo-nos lembrar do apóstolo Paulo, em seus sonhos, ações apostólicas e viagens missionárias. Anunciou o Reino por uma Igreja simples, voltada para os empobrecidos, vulneráveis, proclamando em alto e bom tom a não violência.

Sua incisiva atuação de Profeta da Paz também o qualificou para diversos prêmios nacionais e internacionais, sendo o brasileiro por quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz. A Lei n.º 13.581, de 26 de dezembro de 2017, declarou Dom Helder Câmara como Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos, pela Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, e também Patrono dos Direitos Humanos de Pernambuco, honraria da Assembleia Legislativa, Lei n.º 17.006, do referido estado, aos 11 de agosto de 2020.

Dom Helder Câmara nos ensina o sentido da verdadeira e autêntica fraternidade, permitindo, no segredo do nosso interior, auxiliados pelo que é relativo, se preciso for, chegarmos ao essencial, no menino misterioso e pobre da manjedoura, mas numa ansiosa vontade de galgarmos a esperança, como nas próprias palavras: “Quais sementes desejo espalhar pela terra? Sementes de paz, amor, compreensão e esperança. Há tanto desespero, desengano, decepção, frustração e desesperança! Sementes de esperança, sem dúvida, chegariam em boa hora”. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


15 de junho de 2021

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Seguem títulos e gêneros:
- Os olhos não veem, o coração sente (romance);
- Olhos para Mariella (romance);
- Iraguacy, Índia do sertão (romance);
- O Cajueiro (conto infantil);
- Amigos de Verdade (conto infantil);
- Poema-Luz (poema);
- Um amor, um café e uma crônica, por favor! (crônica);
- Contos Escolhidos (conto). 



11 de junho de 2021

Santo Antônio: folclore e sabedoria

Pe. Geovane Saraiva*

Santo Antônio foi uma grande figura humana de coração, exemplo e referencial para os cristãos. Brilhante foi sua inteligência e exímio conhecedor do Livro Sagrado, destacando-se, igualmente, pela profecia, sem esquecer sua caridade com os pobres e necessitados. O ideal cristão do referido santo consistiu em colocar sua vida e sua segurança nos valores eternos, convencendo-se de que eles jamais passarão. Tornou-se universalmente conhecido e venerado pelo povo cristão, em toda a extensão da terra.

Que saibamos olhar para Santo Antônio como pai e protetor, amigo do menino Jesus e filho querido de Maria Imaculada, que, ao anunciar o Evangelho de Jesus, procurou duas coisas: a glória de Deus e o bem da criatura humana. Ao oferecer pão aos necessitados, suplicava para que nunca faltasse o pão de cada dia, pelo honesto trabalho, dando prioridade à busca do pão vivo, descido céu, que é o próprio Jesus Cristo encarnado na história da humanidade, alimento para a vida do mundo. A partir da vida de Deus na eucaristia, aqueles que ao amigo do Menino Jesus recorram e implorem sua proteção, que jamais deixem de ser escutados.

O legado de Santo Antônio é por demais abrangente, na implacável defesa da família, ajudando-a a se encontrar com Deus, no sentido de melhor cumprir sua missão, resistindo aos perigos e ciladas do inimigo, num mundo tão diverso e contraditório. Na oração dos namorados, na preciosa e pulsante fase da existência das pessoas, vemos Santo Antônio constantemente invocado como protetor, no sentido de que as coisas fiquem sempre claras. 

Que as pessoas que alimentam o sonho da vida conjugal, pelos méritos de Santo Antônio, saibam aproveitar e sorver do precioso tempo que precede o matrimônio. Pela luz divina, cheguem ao conhecimento um do outro, segundo o projeto do nosso bom Deus.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).



10 de junho de 2021

O Reino é o mundo impregnado pelo amor de Deus (Mc 4, 26-34)

“O reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra” (Mc 4, 26)

Dom Jeová Elias*

O Evangelho deste XI domingo do Tempo Comum apresenta duas parábolas para falar do Reino de Deus. Contém a ideia comum da força intrínseca e misteriosa presente na natureza e duas perspectivas: do homem que lança a semente e da própria semente, que na sua pequenez contém uma força invisível. 

O 4º capítulo do Evangelho segundo São Marcos contém 3 parábolas, duas das quais apresentadas hoje. A outra, contida nos versículos anteriores, é a do semeador. Essas parábolas visam ajudar a superar a crise vivida pelos primeiros cristãos, após o entusiasmo inicial. Havia forte rejeição ao projeto de Deus proposto por Jesus Cristo. Alguns não perseveravam na caminhada em vista disto. Não entendiam o porquê da rejeição a Jesus Cristo, se Ele era o Messias, o Filho de Deus. Para Marcos, é necessário começar de novo (cf. Mc 4, 1; 1, 1; 8, 31).

As parábolas são narrativas construídas por Jesus, partindo da vida do povo simples, daquilo que é conhecido e familiar, para aproximar as pessoas dos valores do Reino de Deus. Diferente dos rabinos da época, que partiam da explicação dos textos bíblicos, para depois fazer comparações. Estes se movem no horizonte da lei; Jesus parte da vida para manifestar o Reino de Deus que irrompe na história. Os três primeiros Evangelhos contêm cerca de 41 parábolas (cf. Jeremias, J., Teologia do Novo Testamento, p. 52). 

Jesus não utiliza fábulas no seu ensinamento nem alegorias. Sua linguagem é simples e cativante, toca o coração e os ouvidos do povo simples, que se sente envolvido pelos valores do Reino. O Reino é o mundo impregnado pelo amor de Deus com seu valor transformador. É o mundo impregnado pela justiça, pela fraternidade, pela paz... por todas as coisas boas.

O Reino de Deus é como um homem, diz o Evangelho, diferente da tradução do Lecionário que diz alguém, que lança a semente na terra. Isto é, o Reino de Deus precisa da colaboração humana, que é muito importante, mesmo que ela seja incapaz de resolver tudo. A pessoa tem que lançar a semente! Fazê-la germinar e frutificar não depende de si, mas de tantos outros fatores. Contudo se não lançarmos a semente, ela não produzirá. A Igreja tem a missão, recebida de Jesus, de anunciar o Reino de Deus, de estabelecê-lo e de ser seu sinal na terra, enquanto anseia a sua consumação plena na glória (cf. Lumen Gentium n. 6).

Como a semente traz um potencial invisível, algumas vezes também não percebemos os valores do Reino que se desenvolvem entre nós. Aparentemente, os valores do Reino de Deus podem ser imperceptíveis e insignificantes diante do destaque dado aos contravalores. Mas isso é um sinal de que o ordinário da vida ainda são os valores. 

O Reino de Deus possui uma força vital que irrompe na nossa história, mas requer nossa participação humana. A semente do Reino já foi lançada por Jesus Cristo e nós continuamos a sua semeadura. Ele manifestou o Reino aos homens com sua palavra, suas obras e sua presença e o comprovou com os sinais que realizava (cf. Lc 11, 20; Mt 12, 28).  

No Evangelho de hoje aprendemos a superar a visão espetaculosa da vida. O fundamental não é o tamanho, mas a enorme força transformadora, com a fecundidade presente na semente, nas coisas pequenas. Somos convidados a superar essa visão dentro da nossa fé cristã: uma religião de multidões, do barulho, do show! De uma Igreja autorreferencial, como insistentemente nos tem advertido o querido Papa Francisco. Ir aos pequenos, valorizar as coisas pequenas, ir às periferias, símbolo da presença dos pequenos. A força do Evangelho não reside no espetáculo. 

A parábola do pequeno grão de mostarda que se transforma numa árvore frondosa e serve de abrigo para os pássaros, ilustra o contraste entre o início da pregação de Jesus na Galileia e o seu resultado depois da ressurreição, tornando-se proposta universal: as aves do céu são as nações que acolhem o projeto semeado por Jesus, vivem os seus valores e usufruem dos seus benefícios. 

Como os primeiros cristãos foram incentivados pelas duas parábolas deste Evangelho a superar a crise diante da rejeição do projeto de Jesus, também o Papa Francisco, no segundo capítulo da Evangelii Gaudium, constata a crise atual do compromisso comunitário e nos convida a agir, dentro do que o Senhor espera de nós, mas sabendo esperar, não querendo dominar o ritmo da vida. “A ânsia hodierna de chegar a resultados imediatos faz com que os agentes de pastorais não tolerem facilmente o que signifique alguma contradição, um aparente fracasso, uma crítica, uma cruz” (n. 82).

Desejo que a alegria pela presença do Reino de Deus entre nós inunde a sua vida e a vida da sua família e nos ajude a ter forças para construirmos o mundo conforme o projeto de Jesus.

*Bispo do Goiás-GO

9 de junho de 2021

A vontade de Deus na vontade humana

Pe. Geovane Saraiva*

Jamais devemos hesitar em meio a ocasos e cruzes da vida, nós, criaturas humanas, em nossos deslocamentos, no modo de pensar e de agir e nas contradições, com nossa realidade física e existencial, em prantos, lamentos e lágrimas: é o peregrinar humano rumo àquele êxodo final. Que nossa mística e nossa força motivadora estejam em Jesus – eucarístico, pão da vida, pão descido do céu –, evidentemente numa atenta dinâmica e enérgica retidão, no sentido de se dar uma resposta à gratuidade de Deus. Volto-me mais uma vez ao espírito de Santo Agostinho, que foi levado pelo amor à eternidade e à verdade, cada dia e passo a passo, externando sempre o sentimento amoroso, do âmago do coração, aspirado na acentuada avidez de se conquistar e usufruir daquela divina e celestial cidade[1], cuja suprema autoridade é Jesus de Nazaré.

O desafio é viver em conformidade com a vontade de Deus, que, segundo o apóstolo Paulo, é a celebração da Ceia do Senhor, a proclamação do mistério da morte de Cristo, na qual esse mistério se torna eficaz e satisfatoriamente compreensível aos que procuram haurir dessa fonte, usando de todos os meios, inseridos verdadeiramente na celebração do banquete do Senhor[2]. Ao participarem do referido banquete, entram os fiéis em comunhão com o corpo e sangue de Cristo, fazendo com que a comunidade, totalmente envolvida pelo mesmo mistério, se transforme em partícipe do sacrifício, tendo um só corpo e uma só alma como resultado para consigo mesmo.

Que fique claro que a Ceia do Senhor é o elemento a causar o maior júbilo, essencialmente escatológico e imorredouro, claramente presente, longe de qualquer dúvida, desde a origem como princípio da vida cristã da humanidade. Usa-se o termo “banquete messiânico” em alusão a uma grande, lúcida e viva experiência de Deus, tendo como centro a palavra do Senhor, que é vida. A Ceia se confunde com a Páscoa do Senhor, vida nova a mover a humanidade, o Espírito Santo que nos anima, numa comunhão íntima da criatura humana com Deus: criador, salvador e santificador. A eucaristia e os demais sacramentos, ou mistérios, vividos na liturgia da Igreja, de um modo contemplativo, querem, pela vontade de Deus, penetrar, progressivamente, na realidade da vida humana e no mundo.

O Filho quer fazer de nós verdadeiros adoradores do Pai (cf. Jo 4, 24), filhos de Deus participantes de sua filiação única (cf. 2Pd 1, 4). O Espírito que Jesus enviou do Pai para sua Igreja inspira, estimula, sustenta todo esse projeto de vida. É preciso mudar o nosso conceito de oração, e em primeiro lugar escutar o que Deus tem a nos dizer[3]; colocar o nosso querer no querer de Deus; também nossa vontade na vontade de Deus; e ainda nossa liberdade na liberdade de Deus. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).



[1] RAMOS, Manfredo. A Ideia de Estado na Doutrina Ético-política de S. Agostinho. Ep. 155, n. 1, pp. 296 e 311.

[2] VIER, Frederico. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 1977, p. 260.

[3] LORSCHEIDER, Aloísio. Cf. Variações sobre a Oração Cristã, Franciscanos do RS, p. 89.

 

 

4 de junho de 2021

Podcast: O apanágio dos amigos de Jesus de Nazaré

 



Por Pe. Geovane Saraiva

O mundo precisa de loucos como Jesus

HOMENAGEM À DOM JEOVÁ ELIAS - YouTube

Estamos retomando a liturgia do Tempo Comum, após a celebração da Páscoa, cujo coroamento ocorreu na solenidade de Pentecostes. Voltamos a meditar, a cada domingo, os textos do Evangelho de Marcos. A preocupação central desse evangelista é responder à pergunta: quem é Jesus Cristo? Na busca de resposta a esta interrogação, também vamos descobrindo quem somos em relação a Jesus.

 O mundo precisa de loucos como Jesus (Mc 3, 20-35)

“Os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que ele estava fora de si” (Mc 3, 21)

Dom Jeová Elias*

O texto deste domingo mostra a contradição da humanidade em relação à compreensão da pessoa de Jesus e sua missão. Já por ocasião da apresentação de Jesus no templo, recém-nascido, o velho Simeão o tomou em seus braços e profetizou que ele seria um ponto de contradição para a humanidade (cf. Lc 2, 34).

Três grupos se destacam no Evangelho: um grupo que se encontra dentro da casa, que acolhe Jesus e o escuta, que faz a sua vontade, que está com Ele; outro grupo, composto pelos parentes de Jesus, que está preocupado e inquieto com a postura dele, muito diferente para a época: desgarrado da família, um andarilho da vida, um profeta itinerante, sem mulher, sem filhos, sem um trabalho fixo, cercado por pessoas indesejáveis, sem liberdade, sem privacidade para comer, visto como um subversivo. Parecia loucura! “Só pode estar pirado”, pensavam; e o terceiro grupo, que vai para investigá-lo, mesmo que reconheça o seu poder libertador, o bem que Jesus faz, o acusa de fazê-lo com o poder do mal, com a força de Belzebu, literalmente senhor do esterco, ou senhor das moscas ou das alturas, segundo outros exegetas; argumento facilmente desmontado por Jesus Cristo. Neste último grupo estão os escribas, estudiosos da Lei, que descem de Jerusalém para acusá-lo.

Há ainda outro grupo, composto por sua mãe e seus parentes, pois irmãos aqui significam familiares próximos, que procuram Jesus. Estes são diferentes dos parentes acima, que vão para agarrá-lo, acusando-o de louco. Para Jesus, o parentesco mais importante consiste em fazer a vontade de Deus. Sem dúvida, Maria, sua mãe, foi uma fiel cumpridora da vontade de Deus. Ao anúncio do Anjo, imediatamente ela se colocou como serva do Senhor, disposta a fazer a vontade do Pai (cf. Lc 11, 38). A maternidade divina de Maria, além de dom, é consequência do cumprimento da vontade de Deus.

A vida, a palavra e os gestos de Jesus incomodam: só pode ser coisa de louco! De alguém possuído pelo “senhor das moscas” – Belzebu. Os mestres da Lei não reconhecem a obra de Deus nos sinais realizados por Ele, não reconhecem a ação do Espírito Santo, e até mesmo invertem o olhar, atribuindo o bem realizado por Jesus Cristo ao demônio. É um pecado realmente imperdoável, pecado muitas vezes cometido por pessoas que se julgam religiosas e de igreja, mas ignoram o bem feito aos mais sofridos como obra boa, quando provém de alguém visto como inimigo.

Os santos são meio loucos, nadam contra a corrente, muitas vezes são incompreendidos no seu tempo, mas são reabilitados pela história. Muitos são os exemplos: São Francisco, quando se despoja dos seus bens, ao se desligar da sua família e abraçar a pobreza; quando saía pelas ruas, algumas vezes era até apedrejado como se fosse um louco, considerado pelos sãos merecedor da sua agressão. Charles de Foucauld, da aristocracia francesa, abriu mão de tudo e foi viver no deserto com os mais pobres; e tantos outros santos e santas.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual, diz que todos nós somos chamados à santidade. Ela deve ser compromisso de todo povo de Deus; os santos e santas podem estar ao nosso redor, na nossa vizinhança, porta-a-porta conosco, como pessoas comuns, que são como um reflexo da presença de Deus.

Para viver a santidade, o Papa propõe um roteiro que são as bem-aventuranças: proposta de nadar contra a corrente; ele destaca, de modo muito especial, a opção pelos pobres. Diz que é impossível viver a santidade à margem dessa opção, prescindindo do reconhecimento da dignidade de todo ser humano (Gaudete et Exsultate n. 98). Claro que essa opção provoca acusações: de ser comunista, de ser populista, de ser movido por ideologia, ou por outros interesses. Muitos já sofreram essa acusação. O próprio Jesus, além de considerado louco, foi acusado de ser subversivo.

O Papa apresenta na Exortação cinco características da santidade, dentre as quais destaco a ousadia e ardor, isto é, a coragem de abraçar o amor de Deus, de deixar-se guiar pelo seu Espírito; não temer ser rotulado de louco. Isso é possível graças à presença de Jesus Cristo, que nos exortou a não ter medo (cf. Mc 6, 50) e que prometeu a sua presença perene conosco até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20).

O mundo precisa de loucos como Jesus: que defendam a dignidade dos pobres, que rompam o pensamento hegemônico do mercado globalizado, que acreditem na possibilidade de um mundo diferente do que está aí; que sejam taxados de comunistas, de populistas, de possuídos pelo “Demo”. Somos convidados a abraçar a loucura do amor de Deus!

Estejamos dentro da casa com esse grupo especial que escuta Jesus, que partilha as suas ideias, que se compromete com seu projeto. Sejamos a família de Jesus, pessoas que buscam fazer a vontade do Pai. Vivamos a loucura do amor de Deus!

*Bispo do Goiás-GO

2 de junho de 2021

Apanágio dos amigos de Jesus

Pe. Geovane Saraiva*

A missão salvífica de Jesus, na sua intimidade e comunhão com o Pai, tão evidente na sua oração sacerdotal, revela seu verdadeiro rosto ou identidade. Jesus contava com uma única alegria e satisfação: fazer a vontade do Pai e levar a bom termo a sua obra. É este seu alimento e júbilo, não necessitando de mais nada (cf. Jo 4, 34). Só em Jesus é possível perceber o fundamento da oração dos seguidores de Jesus de Nazaré, apoiados e enraizados na sua relação com o absoluto. Esse fundamento compreende sua paixão pelo Pai, como nas palavras do apóstolo Paulo: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo em nome de Jesus, para a glória de Deus Pai” (cf. 1 Cor 10, 31; Cl 3, 17).

Pensemos, pois, num Deus que ama em profundidade o mundo, e nele a criatura humana. A oração dos cristãos, sendo o apanágio progressivo da verdade na caridade, rumo à eternidade[1], deve iluminar a criatura humana, no sentido de que se faça a vontade do Pai, aqui na terra, mas que seja realizada lá no céu. A vida cristã, animada pela oração, corresponde, numa atitude espiritual de confiança ilimitada, à entrega espontânea, num estreitamento filial e ininterrupto, refugiando-se em Deus, em todas as necessidades. É esse o espírito de oração contínua de Jesus, podendo prevalecer o mesmo espírito que Jesus quis imprimir na mente e no coração dos discípulos.

Os Evangelhos nos apresentam uma imagem de Jesus, no desmedido e colossal exemplo de sua entrega como um hino de louvor ao Pai. Jesus reza com muita frequência: faz orações comuns, como a bênção antes das refeições, reza antes de atos e decisões importantes, nos milagres, no convívio com os apóstolos, na solidão noturna e na presença dos discípulos, também quando seu espírito se encontra alegre, sem esquecer da agonia no Getsêmani!

“Entremos e, prostrados, o adoremos, de joelhos ante o Deus que nos criou” (Sl 94). Que seja uma oração universalmente ecumênica, como nas palavras do poeta e místico alemão, protestante, em pleno século do iluminismo ou das luzes, ao erguer sua voz para lembrar aos homens, mas num compromisso de súplica: “Deus aqui está presente, adoremos! Com santa reverência, entremos na sua presença. Deus está aqui no meio: tudo se cale em nós e o íntimo de nosso peito prostre-se em sua presença. Quem quer, o conheça, quem pronuncie seu nome, baixe os olhos à terra e para ele dirija o coração”[2].

Prescindir do valor da oração seria como que se indispor contra aquele que tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho único (cf. Jo 3, 16), também querendo realizar inteiramente a vontade do Pai, fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8). A oração deve ser consequente, que leva à mesma atitude da Santa Mãe de Deus, Maria, fonte de alegria, ao aflorar nos seus lábios, naquela magnífica e sublime visita à sua prima Isabel, ao pousar Deus seu olhar, na sua insignificância, mas que nela se realizam maravilhas, na exaltação dos empobrecidos e humildes, os favoritos de Deus. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).



[1] AGOSTINHO, Santo. ó eterna verdade, verdadeira caridade e cara eternidade. Ep. 155, n.1.

[2] CANTALAMESSA, Raniero. “Subindo ao Monte Sinai”, p. 180.

Fotos: Pe. Geovane Saraiva/sertão de Canindé/Aratuba-CE.