28 de fevereiro de 2014

Opressão - Totó

Gonzaga Mota*
Sempre é importante lembrar atos e fatos históricos, como forma de compreender o presente e desenvolver ideias sobre o futuro, vez que mostram o homem no tempo e no espaço, bem como evidenciam os processos e eventos ocorridos no passado. 

Dentro deste prisma de referência, desejamos registrar ocorrências cruéis reveladas pelo filme “Doze Anos de Escravidão”. Ficamos perplexos pelas maldades e barbaridades feitas a seres humanos iguais a nós. Realmente, é inacreditável o que aconteceu em meados do século XIX, com destaque na região sul dos EUA.  

Os negros das oligarquias produtoras, principalmente, de cana-de-açúcar e algodão, viviam sob forte opressão em todos os aspectos. É um capítulo muito triste da história do mencionado País. O Brasil, representado por sua elite econômica, também praticou atos de tirania contra imigrantes africanos, usando-os em trabalhos escravos. Tanto lá como aqui, a dívida moral para com os afrodescendentes é impagável. No Brasil os movimentos pela abolição da escravatura e o fim do comércio de escravos começaram com a Conjunção Baiana (1798), intensificaram-se com a Independência, adquiriram relevância popular em meados do século XIX e em 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. 

Dentre os vários abolicionistas, merece destaque Joaquim Nabuco: “O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade”. Que nós brasileiros olhemos para a abolição como um processo e não apenas como um ponto na história. A discriminação étnica é a forma mais repugnante de preconceito. Não ao racismo. 

*Integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, poeta, escritor, professor da UFC e ex-governador do Ceará

Padre José de Anchieta será canonizado em abril

Missa de canonização será
celebrada em Roma
Cerimônia será realizada no início do mês e será presidida pelo papa, diz presidente da CNBB.
Missa de canonização será celebrada em Roma O padre José de Anchieta, apóstolo do Brasil, será declarado santo pelo papa Francisco no início do  mês de abril. A informação foi dada, nesta quinta-feira (27), pelo arcebispo de Aparecida e Presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno, durante entrevista nos estúdios da Rádio Vaticano.

"José de Anchieta deixou marcas profundas no início da colonização do Brasil, como também na sua evangelização. Eu creio que ele merece ser cultuado por toda a Igreja", disse o cardeal.
Dom Raymundo se encontrou o papa Francisco recentemente para falar sobre o beato José de Anchieta. Segundo ele, a canonização será feita em uma cerimônia mais simples, menos solene e que consiste na assinatura de um decreto pelo próprio papa, em que ele declara santo o padre jesuíta Anchieta.

Sobre o porquê de não ser realizada uma grande cerimônia, na Praça São Pedro, para a canonização do beato, Dom Damasceno explica que foi uma decisão do próprio papa. “Ele quis uma cerimônia mais simples, discreta, mas tem o mesmo valor, evidentemente, que quando a canonização é feita de modo mais solene”, salientou.

A canonização será comemorada com uma missa celebrada pelo papa Francisco e com a presença de bispos e representantes do povo canadense e do Brasil. Isso porque, segundo Dom Damasceno, a canonização de padre Anchieta será feita junto com outros dois beatos canadenses importantes para a história da Igreja no Canadá ( Marie de l´Encarnação, conhecida como a Mãe da Igreja canadense, e François de Laval, primeiro bispo de Quebec).

“Depois, nós pretendemos também celebrar, de uma forma mais solene, agradecendo a Deus pelo dom desse santo para nós no Brasil, na Assembleia dos Bispos, em Aparecida (SP), quando vamos realizar a próxima assembleia geral, no fim de abril, começo de maio. Será uma celebração nacional, com a presença, portanto, de todo o episcopado e convidados especiais. Depois, cada estado fará também a sua celebração solene e com grande participação do povo, sobretudo aqueles Estados que têm muito a ver com a vida de Anchieta”, pontuou.

O Cardeal também informou que se pretende fazer uma celebração mais restrita no Colégio Pio Brasileiro, em Roma, mas ainda não há uma data estabelecida, porque depende da agenda do Papa. O Santo Padre já aceitou um convite para visitar o colégio, que vai comemorar 80 anos em 3 de abril. Segundo Dom Damasceno, os jesuítas estão deixando a direção do colégio, que será assumida pela 
CNBB.

História 

José de Anchieta (1534-1597) foi um padre jesuíta espanhol, beatificado pelo Papa João Paulo II em 1980. Com 14 anos de idade, estudou no Real Colégio das Artes em Coimbra. Ingressou na Companhia de Jesus em 1551 e dois anos depois embarcou com destino ao Brasil, na comitiva de Duarte da Costa - segundo Governador Geral - para catequizar os índios. 

Em 25 de janeiro de 1554 fundou, junto com o padre Manoel da Nóbrega, um colégio em Piratininga; aos poucos se formou um povoado ao redor da instituição de ensino, batizado por José de Anchieta, de São Paulo. Foi aclamado por portugueses e índios como "apóstolo do Brasil". 

Padre José de Anchieta também  foi professor dos noviços que entravam para a Companhia de Jesus no Brasil. Viveu em São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Em 1595, escreveu Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil, a primeira gramática do Tupi - Guarani. 

Escreveu diversas poesias, cartas e autos. A poesia de José Anchieta é marcada por conceitos morais, espirituais e pedagógicos. Compôs primeiro em sua língua materna, o castelhano, e em latim e posteriormente traduziu para o português e para o tupi. Faleceu em 9 de junho de 1597 no Espírito Santo.

Leia também:
Padre Anchieta, proclamado ´santo´ pela Igreja?
Papa Francisco confirma que José de Anchieta será canonizado
José de Anchieta, patrimônio do povo brasileiro
Rádio Vaticano/Canção Nova/ DomTotal



Artigo do Pe. Geovane Saraiva, Sobre o bem aventurado, "José de Anchieta, patrimônio do povo Brasileiro
Link:
http://fgsaraiva.blogspot.com.br/2013/10/jose-de-anchieta-patrimonio-do-pov

Odisseia de Chico - Totó

Gonzaga Mota*


Chico, homem bom e trabalhador, na roça lutava de sol a sol. Em casa, com a mulher e filhos, além de descansar e prosear, comia, com todos, farinha d’água com rapadura e bebia uma caneca de café. Voltava cabisbaixo a prosear, pensando em dias melhores para ele e sua família. 


Desejava abandonar a casa de taipa e procurar outro trabalho. O sertão não permitia que Maria, seus dois filhos, José e Ana, vivessem de forma justa. Resolveu partir para uma cidade grande. Maria e os filhos choraram. Foram consolados por ele, com a esperança de melhorarem de vida. Maria, além dos afazeres de casa, passou também a trabalhar na roça para sustentar José, com três anos e Ana, com apenas dois. 

Vida dura! Quanta saudade! Dizia Maria: com fé em São Francisco de Canindé e no Padim Ciço, Chico voltará para levar a gente. Maria pensava com o coração: a pior dor é a da saudade , longe da pessoa amada. A espera foi grande com final triste. Chico morreu trabalhando na construção de um prédio. Morreu com muita dignidade, porém vítima da injustiça dos homens. Lembrando os versos do poeta Patativa do Assaré e a voz sertaneja de Luiz Gonzaga, foi uma “Triste Partida”.  Pobre Chico, deixou a família desamparada e sem nenhuma perspectiva. 

A vida quase sempre é muito dolorosa. Maria e seus dois filhos fizeram as trouxas e se tornaram pedintes noutra cidade grande. Passaram fome, humilhação, por perseguição e poucos externavam o sentimento de solidariedade. Vida sem vida, cruel, desigual e sem esperança. Como disse o grande poeta nordestino Manuel Bandeira:  - Ah, como dói viver quando falta a esperança!

*Integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, poeta, escritor, professor da UFC e ex-governador do Ceará

25 de fevereiro de 2014

APELO PALACIANO



Foi no centro da cidade
Fazendo observação
O poder de autoridade
Descobriu a podridão
Num esgoto que se produz
Ver que o Palácio da Luz
Declina na escuridão.

O palácio sucumbindo
No escuro do abandono
No esquecimento caindo
Largado qual cão sem dono
Fica na praça humilhado
Tendo seu muro pichado
Enquanto dorme seu sono.



O palácio entristecido
Clama por mais atenção
Para não ser esquecido
Na história da nação
Proclama até pra Jesus
Para que a sua luz
Não caia na escuridão.

Assim forças reunidas
Para tudo transformar
Tomarão boas medidas
Para o palácio cuidar
E com a força e ação
Tirar da escuridão
Pra novamente brilhar.

E com isso sendo feito
O cenário mudaria
E o palácio satisfeito
Com certeza brilharia
E de modo agradecido
Faria mais acolhido
O povo da academia.


LUCAROCAS, sábado, 22 de fevereiro de 2014, na reunião da AMLEF, no momento da "prosa e poesia".

24 de fevereiro de 2014

O vergonhoso comércio de seres humanos

Pe. Geovane Saraiva*

O comércio de seres humanos é a violação da grandeza dos filhos de Deus, no cerceamento da liberdade e no ignóbil desprezo daquilo que é inexprimível e insondavelmente sagrado, à dignidade dos filhos de Deus. Que nossa súplica seja fervorosa pelos que passam pelo doloroso flagelo do tráfico humano, uma vez que os temos como irmãs e irmãos, todos, filhos do mesmo Pai que está no céu; ao mesmo tempo em que somos chamados a uma grande cruzada e compromisso, no sentido de superar esta chaga, que envergonha a comunidade dos filhos de Deus e toda a sociedade.

É em Nosso Senhor Jesus Cristo, nascido em condição humana, mas que carregou consigo a missão de renovar inteiramente a humanidade, já no início experimentou com seus pais, Maria e José, uma enorme aflição, na condição de refugiado, que vamos encontrar forças para perseguir este tema, Fraternidade e Tráfico Humano, proposto pela Igreja no querido Brasil neste ano de 2014. Ele passou pela dor da paixão, manifestou aos homens sua misericórdia e seu perdão infinito. No mistério pascal, ofereceu a vida eterna, quando gloriosamente partiu para o mais alto céu, abriu-nos a cancela da eterna felicidade.

É evidente que ele quer está conosco, num mundo profundamente caracterizado pelo avanço das novidades, no campo da ciência, da tecnologia, da comunicação e da medicina, sem esquecer a internet, com a força e a eficácia das redes sociais, as quais envolvem e agarram as pessoas no mundo hodierno; como nos tempos passados o foi no campo da arte, da pintura, da escultura, da navegação, da música (...). Neste contexto, nossa civilização jamais pode deixar de colocar o ser humano como personagem principal. Ademais, seria inadmissível a ausência de solidariedade, de não contemplar, ignorar e mesmo prescindir da pessoa humana como imagem e semelhança de Deus, protagonista de sua própria história (cf. Gn, 1, 26-28).

Daí o clamor e o grito por mudanças na direção da conversão. Nesta luta, louvamos e agradecemos ao bom Deus, porque contamos como o aliado número um, o Papa Francisco, dom e sinal visível de Deus, sensível a dor e ao sofrimento humano. Percebemos no dia a dia o quanto ele é precioso, quando se dirige às pessoas de boa vontade, através dos seus pronunciamentos, com frases emblemáticas, numa postura firme e altamente relevante, na sua missão de instaurar e edificar o Reino Deus: “Como gostaria de encontrar palavras para encorajar uma ação evangelizadora mais ardorosa, alegre, generosa, ousada, cheia de amor até ao fim e feita de vida contagiante” (EG, 261).

Nós cristãos e também cidadãos, somos convidados pelo nosso bom Deus a sair da inércia, indiferença e insensibilidade, diante da dor e do sofrimento de uma multidão de irmãos e irmãs que sofrem com tráfico humano. É por ocasião da Quaresma, tempo rico, precioso e favorável à conversão, no qual o próprio Deus quer agir em nós, através do exercício da caridade, no trinômio, renúncia, doação e generosidade, somos chamados buscar meios, no sentido de combater esta prática absurda, vergonhosa e criminosa do comércio de seres humanos.

Que Deus suscite sempre mais pessoas talentosas e de personalidade forte, nos anseios, desejos, inquietações e sonhos, alimentados pela fé em Jesus Cristo, traduzida em gestos e obras, neste tempo especial da Quaresma, com a Campanha da Fraternidade, a tratar deste assunto, o qual envolve toda sociedade. Que as palavras do Papa Francisco em Lampedusa, no dia oito de julho de 2013, nos favoreçam nesta inquietante empreitada, ao afirmar: “Peçamos ao senhor a graça de chorar nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que no anonimato, tomam decisões socioeconômicas que abrem a estrada a dramas como este”.

Fraternidade e Tráfico Humano, tema da Campanha da Fraternidade de 2014, quer deixar marcas profundas, quer ser um aprendizado e aqui vem à minha mente a grandeza de mestre da Renascença, Leonardo da Vinci, na seguinte assertiva: “Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”. Olhar com bons olhos para este tema desafiador é pouco e insuficiente. É imprescindível a conversão do coração, com a qual sejamos levados a um aprendizado, a partir da fé, tendo por base os valores do Evangelho, no dizer do Apóstolo Paulo: “É para a liberdade que Cristo dos libertou” (Gl 5, 1). Assim seja!

*Padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, colunista, blogueiro, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso -geovanesaraiva@gmail.com

23 de fevereiro de 2014

UMA NOVA CANAÃ





Há mais de vinte anos escrevi um texto com essa temática, que ainda hoje nos parece bastante atual, haja vista que pouca coisa mudou no cenário nordestino.

Senão vejamos, o Brasil é um país de dimensões continentais, dividido em cinco regiões bem distintas pelos seus traços físicos, humanos, econômicos e sociais, é natural que se observe um certo desequilíbrio entre as mesmas.

Ao longo do tempo esse desequilíbrio regional tem crescido de forma abismal, principalmente entre o Nordeste e o Sul-Sudeste. Com o primeiro ficando cada vez mais pobre e os últimos cada vez mais ricos e opulentos, pela ação discriminadora do Poder Central.

A situação do Nordeste chega a ser desesperadora. O analfabetismo, a fome, o desemprego, a violência, a mortalidade infantil, a corrupção, os fenômenos climáticos e a omissão dos Governos Estaduais e Federal são verdadeiros carrascos dessa região.

Como reverter esse quadro que nos parece crônico? É o que denominamos àquela época de: A Questão Nordestina.

Em primeiro lugar, o Nordeste, dada a sua dimensão territorial (18% do território brasileiro), e o contingente populacional que abriga (Mais de 28% da população brasileira), o problema do Nordeste é um problema do Brasil.

Não se pode conceber o País pretender entrar no clube fechado do primeiro mundo, tendo mais de um quarto da sua população vivendo abaixo da linha da pobreza, num verdadeiro submundo.

Ou o Brasil acorda para resolver o problema do Nordeste ou o Sul e o Sudeste estagnarão. É a mesma situação da mansão construída no meio da favela, ou seja, cercada de miséria por todos os lados.

Em segundo lugar, o problema do Nordeste é um problema dos próprios nordestinos, que precisam fazer o Nordeste ser reconhecido. Não como uma região de pedintes, mas exigindo o que lhe cabe por justiça na distribuição do bolo da renda nacional.

Para se combater o analfabetismo é preciso que se faça uma reforma séria no ensino público, que vá desde o aumento e o reaparelhamento das escolas à capacitação dos docentes e uma justa remuneração. De nada adianta melhorar a escola se o estudante não se profissionalizar e não tiver o que comer.

Para se combater a mortalidade infantil e adulta, é preciso que se melhorem as condições de habitação e higiene. É preciso rede de água e esgoto, energia e acesso fácil aos serviços de saúde.

Para se combater a violência urbana e rural é necessário que o homem tenha emprego e terra para cultivar, se faz necessário uma urgente e competente reforma agrária. Mas, não basta dar um pedaço de terra, é preciso crédito e assistência técnica.

Para se combater a corrupção e a omissão do Poder Central é preciso que se repense a nossa representação política.  Aqueles que deveriam ser nossos legítimos representantes, mais representam interesses de grupos econômicos que visam à manutenção de privilégios que o bem estar da população.

Em resumo: Não são programas de transferência de renda, tipo bolsa família ou fome zero que transformarão o Nordeste, é certo que amenizam, mas é preciso um vigoroso projeto de distribuição de renda, que tenha como foco a educação e a profissionalização da sua gente, programas de saneamento básico (coleta de lixo, esgoto e água tratada), indústria, agricultura irrigada e energia a preços acessíveis.

Tudo que se disse até aqui não se constitui nenhuma novidade. Muito se tem dito que a questão do Nordeste é política, mas como resolvê-la?

Nos últimos trinta anos tivemos nada menos que três Presidentes da República oriundos da Região Nordeste (Sarney, Collor e Lula), que governaram o País por cerca de 15 (quinze) anos e a situação em pouco ou quase nada se modificou.

A questão nova que se coloca é o papel que a sociedade precisa desempenhar na solução desse problema!

O povo nordestino é, em muito, semelhante ao povo Hebreu da antiguidade. Eles tiveram um Moisés que os tirou do cativeiro do Egito, com a promessa da Canaã, a terra prometida pelo Deus de Abraão e onde manava leite e mel.

Não se pode imaginar, no momento presente, uma individualidade que seja capaz de mobilizar as forças vivas da nossa gente. O novo Moisés que precisa surgir deve ser coletivo, e disseminado em todas as camadas sociais, urbanas e rurais, que seja capaz de agir como catalizador dos anseios da população.

Os Partidos Políticos, as Forças Armadas, os Sindicatos, as Associações de moradores, urbanos e rurais, as Universidades, as Igrejas, a maçonaria e os clubes de serviços, bem que poderiam desempenhar esse papel.

Os Partidos Políticos e as Forças Armadas já se mostraram incompetentes nesse mister. Os Sindicatos e Associações, suas lutas são, por natureza, corporativistas. As Igrejas não devem se desviar do seu importante papel de dar conforto espiritual ao homem e as Universidades isoladamente nada podem fazer.

A Maçonaria, que no passado já  teve uma participação política admirável,  hoje vive amodorrada. O seu lema: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que foi capaz de inspirar a Revolução Francesa, a Independência do Brasil, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, hoje parece esquecido.  Os Clubes de Serviço, Rotary’s e Lyon’s, tal como a Maçonaria, vivem envoltos apenas com a benemerência.

É preciso que essas instituições e a população, individual e coletivamente, reflitam na necessidade urgente e imperiosa de desenvolverem uma atuação política efetiva, pois de  politicagem já estamos fartos, que pressionem seus líderes a despertarem e resolverem agir como verdadeiros instrumentos catalizadores desse justo anseio popular, no sentido de promoverem a justiça social e a redenção da Região Nordestina.

Aí sim, o Nordeste poderá ser reconhecido!  E “essa terra tão seca, mas boa”, poderá se transformar numa verdadeira Canaã para os nossos filhos e netos.

Francisco Castro de Sousa – AMLEF - Cadeira 07.

22 de fevereiro de 2014

Dom Helder: Bilhete a sua sobrinha Nazinha, em 1984

Frase do santinho de sua ordenação sacerdotal :  Angelorum
 esca nutrivisti populum tuum,
 aos 15/08/1931
                                                          

21 de fevereiro de 2014

Violência - Totó

Gonzaga Mota*

Dentro das limitações do espaço destinado ao texto, como também do autor, procuramos realizar algumas reflexões sobre a crise universal da violência. Para efeito da reduzida análise, nos concentramos nos Estados Democráticos, vez que nas ditaduras e nas pseudo-democracias o problema é indiscutível e generalizado. Todavia, mesmo nos Estados ditos democráticos, infelizmente, a violência vem aumentando tanto no aspecto físico, como no psicológico.

Vários fatores contribuem para que isso ocorra, tais como: reduzida educação cognitiva e comportamental; manutenção de privilégios; ausência de lideranças expressivas entre políticos de situação e de oposição; não observância ao rigor da lei; predomínio do "marketing" político tendencioso sobre a discussão de projetos estratégicos; desarticulação dos três Poderes constituídos; corrupção financeira e de propostas; assim como, a não percepção de que os países precisam de reformas de Estado e não apenas de governo.

Os governos passam o Estado fica. Ademais, ética e governabilidade devem caminhar juntas, buscando uma organização socialmente justa. É claro que para reduzir a violência um País necessita de caminhos pavimentados pela crença e pela largueza de propósitos, observando-se os reais interesses da população. É chegada a hora de se colocar na agenda de debates a transformação de Estados democráticos de direito em Estados democráticos de justiça. Segundo Cícero: "Summum jus - summa injuria", isto é, o supremo direito é a suprema injustiça. O mundo carece de um novo Amós (Bíblia - Livro de Amós).

*Integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, poeta, escritor, professor da UFC e ex-governador do Ceará

18 de fevereiro de 2014

Um banho de história e cultura

Padre Geovane Saraiva*
Jesus é o Filho amado do Pai a conduzir os passos da humanidade. Confesso que me esforço para ser seu seguidor, tendo-o como Senhor de minha vida e de minha história, embora nem sempre corresponda bem dentro daquilo que diz o apóstolo dos gentios: "Não faço o bem que quero; mas o mal que não quero" (Rm 7, 19). Contudo, sempre e cada vez mais me convenço que a palavra de Deus é uma arma poderosíssima e gosto muito do Salmo 65, quando diz: “Que toda a terra se prostre diante de vós, ó Deus, e cante louvores ao vosso nome, Deus altíssimo!”.

É a palavra de Deus que nos convida a realizar seu projeto de amor nas circunstâncias mais diversificadas. Confesso também do meu limite, de não gostar de tirar férias, de não procurar visitar lugares novos, conhecer pessoas e realidades diferentes, de fazer coisas fora de minha rotina e do meu dia a dia.Também não gosto de viajar. Por outro lado, noto claramente como as pessoas ficam para cima e transfiguradas quando viajam, seja de automóveis ou de avião, quando vão de férias e se deparam com realidades novas. Como é maravilhoso! Certa ocasião, há quatro anos, vindo de Cascavel-PR, encontrei em Cumbica, aeroporto de Guarulhos-SP, Dr. Evilberto Freitas e Dra. Emair Borges, médicos e amigos, voltando de Paris, os quais, com enorme alegria e satisfação, falaram-me da belíssima viagem, usando a expressão: “um verdadeiro banho civilização!”.

Mesmo sem gostar de avião e não ser de meu feitio viajar de férias, dos dias 21 a 24 do mês de janeiro deste ano de 2014, estive na cidade de Ilhéus, no sul da Bahia. Confesso que foi para mim um verdadeiro banho de cultura, porque não dizer também de civilidade, olhando pelo lado histórico, cultural e religioso. E eu na qualidade de padre da Igreja Católica, escritor, colunista e blogueiro, tenho muito que aprender de uma cidade da altura de Ilhéus, nas suas profundas marcas históricas e raízes culturais, cantada em versos e prosas, no cenário nacional.

Ao chegar a Ilhéus, tive a preocupação de dar um profundo mergulho no contexto histórico na terra de Jorge Amado, alhures, parafraseando o poeta e escritor cearense Gonzaga Mota, “além de gostar, sou um curioso”. Daí o cuidado de visitar com um olhar de curioso os pontos principais da cidade cacaueira, a saber: Vesúvio, Academia de Letras de Ilhéus, Casa Jorge Amado, Bataclan, Cartório Sá Barreto, Catedral São Sebastião, a Igreja de São Jorge dos Ilhéus e a Igreja do colégio da Piedade - construção – belíssima (idos de 1920), das irmãs Ursulinas, em estilo gótico, a cidade histórica de Olivença. Link: http://fgsaraiva.blogspot.com.br/2014/02/pe-geovane-saraiva-em-iheus.html

Na Academia de Letras de Ilhéus comprei um ótimo livro, “Minha Ilhéus”, de José Nazal Pacheco Soub, não somente pela sua dissertação, profundamente pedagógica, para aqueles que desejam melhor conhecer a história da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Correia, assinada em Évora, aos 26 de junho de 1534, mas também pelo seu conteúdo fotográfico, seu rigor técnico, obra que apresenta a realidade daquela cidade, sobretudo, no século 20, época de grande influência literária, personificada no imortal dos imortais, Jorge Amado; ao mesmo tempo em que coincide com o apogeu da chamada, “civilização do cacau”. Na página 123 encontra-se uma fotografia da visita de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao Porto de Ilhéus em construção, acompanhados de Jorge Amado e Zélia Gatai, aos 19 de agosto de 1960.

Um capítulo, das páginas 84 a 94, conta resumidamente a história da Igreja Católica, através da diocese de centenário de Ilhéus. Aos 20 de outubro de 1913, o Papa Pio X erigiu a diocese de Ilhéus, com a bula Majus animarum bonum, isto é, para o bem maior das pessoas, por solicitação do então Arcebispo Metropolitano da Bahia, Dom Jerônimo Tomé da Silva, concomitante com as dioceses de Barra e Caetité, passando o Estado da Bahia, por esse procedimento do Sumo Pontífice, a contar com quatro circunscrições eclesiásticas ou dioceses.

Ademais, mesmo sem esquecer-me das belíssimas praias da terra de Gabriela, Cravo e Canela, ainda me detive superficialmente, sobre os nove bispos, os quais estiveram à frente daquela diocese centenária, voltando minha atenção para o 2º bispo, Dom Eduardo José Herberhold (1931-1939), um franciscano alemão, considerado um homem de Deus, concretamente nos gestos de profunda caridade pastoral, além de ser um verdadeiro pai para os padres. Outro Franciscano, também alemão, marcou forte presença naquela Igreja do sul da Bahia, Dom Valfredo Bernard Tepe, o 8º bispo (1971-1995). Entre as muitas iniciativas, fundou a Escola de Teologia para os Leigos, estimulou as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Movimento Cursilho de Cristandade (MCC), Encontro de Casais com Cristo (ECC), sem esquecer a fundação do Seminário Maior de Ilhéus, significando que na diocese de São Jorge dos Ilhéus existe a escola de formação para os sacerdotes e demais dioceses do sul da Bahia.

Foram dias de graças e bênçãos! Que o bom Deus me dê sempre mais olhos para ver melhor dias de viagem como algo maravilhoso! De férias, ainda mais, inigualáveis! Conhecer novos lugares, novas realidades, culturas e pessoas, é de verdade um banho de civilização. A partir do esforço da vivência da nossa fé cristã, num desejo de guardar no mais íntimo do íntimo a realidade bela de uns dias de férias, de acordo com o que nos assegura o Apóstolo Paulo: “Tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo!”.  Assim seja!

*Padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, articulista, blogueiro, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso - geovanesaraiva@gmail.com

14 de fevereiro de 2014

A verdade - Totó

Gonzaga Mota*
Gonzaga Mota com Pe. Geovane Saraiva, na Academia
Metropolitana de Letras de
Fortaleza, em 2013
Creio que as duas pessoas de maiores méritos, dentre várias, ao longo do século XX, foram Mahatma Gandhi e madre Teresa de Calcutá. Gandhi foi advogado, pacifista e defensor dos pobres. Madre Teresa foi freira, pacifista e defensora dos pobres. Desprezaram os valores materiais e se dedicaram a ajudar ao próximo, principalmente, os mais humildes, os injustiçados, as crianças, os idosos e os doentes. 

Não há dúvidas, foram iluminados por uma luz divina. Martin Luther King disse: "Gandhi era inevitável. Se a humanidade há de progredir, não poderá esquecê-lo". Ademais, Einstein ressaltou: "As gerações futuras dificilmente poderão acreditar que alguém assim, de carne e osso, já andou por este mundo". 

Por sua vez, a irmã das favelas, como era conhecida madre Teresa, dizia não ser nada, mas apenas um instrumento do Senhor e andava nas ruas de Calcutá sem dinheiro e sem companhia, porém com obstinação. Tinha por objetivo salvar e consolar miseráveis. Dizia: "é difícil para o pobre vir até nós, devemos ir até ele". Madre Teresa criou a Congregação Missionária da Caridade e, sendo católica, não fazia distinção entre hindus, muçulmanos, cristãos, etc., pois todos eram filhos de Deus.

No cartão de visitas de madre Teresa estavam impressas as seguintes frases: "O fruto do silêncio é a prece; o fruto da prece é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço; o fruto do serviço é a paz". Ela nunca pediu a ninguém para mudar de religião. "Satyagraha", que significa o caminho da verdade, foi o princípio básico das vidas exemplares de Gandhi e madre Teresa, hoje beata e breve santa.

*Integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, poeta, escritor, professor da UFC e ex-governador do Ceará

12 de fevereiro de 2014

Retorno - Totó


Gonzaga Mota*
Pe. Geovane Saraiva no
lançamento do último livro de
Poesia - "Sonhos" - 16/09/2013
Nunca sairás da minha lembrança,
teus olhos castanhos e lindos,
tua face alegre e macia,
tuas ideias puras e sinceras,
dão-me triste saudade.

É por isso que canto com esperança:
voltas para mim.
Não estou no último estágio da vida.
Tenho forças para encontrar a verdade,
não vou chorar, mas sorrindo,
te amar, margarida..

- Ah, como seria bom ter você,
ao meu lado, feliz.
Não sou cético, voltarás.
Será uma estória do bem,
nunca será do mal. De amor.

*Integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, poeta, escritor, professor da UFC e ex-governador do Ceará

Cinema - Título original: Tabu

Tabu

Uma idosa temperamental, uma empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o mesmo andar em um prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado.

País: Brasil / Portugal / Alemanha
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 14
Direção: Miguel Gomes
Elenco: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Henrique Espírito
Duração: 110 min


Em cartaz

Estados Unidos anunciam proibição do comércio de objetos de marfim

Washington - Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira que proibirão o comércio de marfim, em um novo esforço para ajudar os países africanos a lutar contra a caça ilegal de elefantes e rinocerontes. 

"Esta proibição é a melhor forma de garantir que o mercado dos Estados Unidos não contribua para a diminuição dos elefantes africanos que vivem em estado selvagem", destacou a presidência americana em um comunicado. 

O decreto da Casa Branca proíbe qualquer importação de marfim de elefante da África, em particular na forma de Antiguidades, e as exportações - com algumas exceções, entre as quais algumas antiguidades genuínas. 

Para ser considerado uma antiguidade, um objeto deve ter mais de 100 anos e cumprir com outros critérios estabelecidos pela lei americana de proteção de espécies em risco de extinção. 

O comércio ilegal de marfim é alimentado em grande parte pela demanda de Ásia e Oriente Médio, onde as presas de elefantes e os chifres dos rinocerontes são usados na medicina e na ornamentação. A caça ilegal tem aumentado nos últimos anos na África, ameaçando estas espécies. 

"Esta proibição é a melhor forma de ajudar a garantir que os mercados americanos não contribuam com um declínio ainda maior de elefantes africanos na natureza", declarou a Casa Branca em um comunicado.
AFP

Uma em cada 14 mulheres no mundo já foi vítima de abuso sexual

Uma em cada 14 mulheres já foi, pelo menos uma vez, vítima de abuso sexual por parte de alguém que não o seu parceiro, mostra estudo feito em 56 países e publicado hoje (12) na revista The Lancet.

De acordo com o levantamento, a situação varia muito de país para país. A taxa de mulheres vítimas de abusos chega a 20% na região central da África Subsaariana mas, em média, 7,2% das mulheres com 15 anos ou mais dizem ter sido atacadas sexualmente pelo menos uma vez na vida.

"Descobrimos que a violência sexual é uma experiência comum para as mulheres em todo o mundo, e em algumas regiões é endêmica, atingindo mais de 15% em quatro regiões. No entanto, as variações regionais precisam ser interpretadas com cautela devido às diferenças na disponibilidade de dados e nos níveis de denúncia", explicou Naeemah Abrahams, do Conselho de Investigação Médica da África do Sul, que coordenou o trabalho com colegas da Escola de Higiene e Medicina tropical de Londres e com a Organização Mundial da Saúde.

Após procurar estudos publicados ao longo de 13 anos (1998–2011), com dados sobre a prevalência global de violência sexual, os cientistas identificaram 77 trabalhos válidos, recolhendo dados sobre 412 estimativas em 56 países.

Os resultados mostram que as mais altas taxas de violência sexual estão no Centro da África Subsaariana (21% na República Democrática do Congo), no Sul da mesma região (17,4% na Namíbia, África do Sul e no Zimbabue), e na Oceania (16,4% na Nova Zelândia e Austrália).

Os países do Norte da África e Médio Oriente (4,5% na Turquia) e no Sul da Ásia (3,3% na Índia e em Bangladesh) registraram as taxas mais baixas.

Na Europa, os países do Leste (6,9% na Lituânia, Ucrânia e no Azerbaijão) têm percentual muito mais baixo do que os do Centro (10,7% na República Tcheca, Polônia, Sérvia, em Montenegro e Kosovo) e do que os do Ocidente (11,5% na Suíça, Espanha, Suécia, no Reino Unido, na Dinamarca, Finlândia e Alemanha).

Os autores do estudo lembram que os dados podem subestimar a verdadeira magnitude do problema por causa do estigma e da culpa associada à violência sexual, que leva as vítimas a não denunciar, prejudicando a qualidade dos números citados.
Agência Brasil

Para juristas, projeto de lei antiterrorismo coloca em risco estado de direito

Não especificar o que se enquadra como terrorismo abre possibilidade para criminalização política.

Por Ayrina Pelegrino e Luka Franca

O Congresso Nacional voltou a debater a tipificação do terrorismo em sua pauta nesta terça-feira (11/2) motivado pela morte do cinegrafista Santiago Andrade ocorrida no dia anterior. O cinegrafista foi alvo de rojão durante manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus no Rio de Janeiro na última quinta-feira (6). O falecimento levou alguns senadores a defenderem a aprovação do PLS 499/13 (Projeto de Lei do Senado), também conhecido como Lei Antiterrorismo, em regime de urgência pelo Senado.

O enunciado do artigo 2 do projeto define como terrorismo o ato de "provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade da pessoa". A pena seria de 15 a 30 anos de prisão e, em caso da ação resultar em morte, a punição mínima chegaria a 24 anos.

No sistema penal brasileiro, a legislação mais próxima da Lei Antiterrorismo foi criada ainda durante o regime civil-militar e conseguiu se manter válida durante o processo constituinte de 1988. Trata-se da Lei de Segurança Nacional que, em seu artigo 20, impõe pena de 3 a 10 anos de reclusão, aumentada até o triplo no caso de morte, para quem "devastar, saquear, extorquir, roubar, sequestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas".

Segundo a advogada e membro do Comitê Popular da Copa de São Paulo, Juliana Brito, o Código Penal já serviria para dar tratamento a possíveis entreveros durante o período de grandes eventos no Brasil. "Poderiam muito bem ser enquadrados como dano ao patrimônio, homicídio, tentativa de homicídio ou sequestro. Há outros crimes previstos na legislação que poderiam dar conta (de penalizar algum entrevero durante grandes eventos)", afirma.

Brito afirma também que o texto do PL não é explícito, ou seja, não designa exatamente o que seriam ações que possam espalhar o terror ou pânico generalizado. "(O projeto) é muito abstrato. Podemos compreender então que uma matéria distorcendo a realidade pode espalhar o terror ou o pânico, e aí a empresa responsável por essa matéria também seria processada?”, questiona.

O advogado Carlos Márcio Rissi Macedo, sócio do GMPR Advogados (Gonçalves, Macedo, Paiva & Rassi), acredita que é necessário que o Brasil tenha uma legislação que efetivamente criminalize e discipline meios de investigação e cooperação internacional contra o terrorismo. Porém, Macedo também aponta que o texto do PL não deixa explícito o que seria definido realmente como terrorismo. Segundo ele, até as manifestações que vem ocorrendo no Brasil poderiam acabar se enquadrando nesse conceito, o que é perigoso. "Tenho sérias dúvidas do que seria ‘provocar ou infundir terror ou pânico’. Este conceito é altamente abstrato, podendo dar margem a interpretações arbitrárias do texto lei, o que coloca em risco o estado de direito", afirma. 

Já para Julio Grostein, professor do Damásio Educacional, o projeto é bem fundamentado do ponto de vista das obrigações internacionais assumidas pelo Brasil no tocante à repressão do terrorismo. “Isso revela um certo cuidado com a harmonização da conceituação penal no direito interno à luz das definições internacionais”, diz. “Qualquer que seja o desfecho da proposta, só fato de haver uma abertura como esta demonstra que há espaço para um debate produtivo sobre a matéria.” 

“No entanto, é preciso ter cuidado quando o processo legislativo se acelera em demasia em função de situações excepcionais. Essa preocupação é especialmente relevante no âmbito da tipificação penal de condutas. Nem sempre uma lei aprovada às pressas produz a melhor normatização”, diz Grostein. 

Aumento da criminalização política

Para Juliana Brito, o fato do projeto ser genérico e poderia enquadrar diversas formas de intervenção política que movimentos sociais adotam. "O interesse (deste projeto) é muito claro. É o de criminalizar os movimentos sociais e recrudescer o estado penal no Brasil, aproveitando para isso um período de Copa do Mundo onde os direitos constitucionais estão em suspenso e aí fica valendo uma lei (em um momento que) a Copa vai passar, mas a lei vai ficar". Segundo ela, "no momento em que existe um momento de mobilizações e a reação frente a elas não é de diálogo, mas de enfrentamento policial para impedir as manifestações não dá para dizer que nós temos os direitos constitucionais garantidos” e a Lei Antiterrorismo só viria a reafirmar isso.

Porém, o tema sobre a regulamentação deste tipo penal não é algo pacífico junto à sociedade nem entre os congressistas. As discussões do PLS 499/13, agendadas inicialmente para esta terça (11/2), deve sair de pauta. O novo relator do projeto será Eunício de Oliveira (PMDB-CE), que deverá apresentar um substituitivo que consolide a matéria e leve em conta todos os projetos sobre o tema que tramitam na Casa antes de levar o projeto à votação.

Segundo o presidente Renan Calheiros, o assunto será tratado em reunião de líderes marcada para a próxima semana, em que serão apresentadas as prioridades de cada partido para elaboração de um calendário de votações compatível com o ano atípico, com eleições gerais em outubro. 

Opiniões divididas

Para o senador Paulo Paim (PT-RS), a linha com que o tema é debatido no Senado é sobre conseguir proibir que um cidadão entre com uma bomba dentro de um ônibus ou de um estádio. "Não existe legislação perfeita. Portanto, qualquer coisa ajuda (para melhorar a legislação). Pode-se ajustar a tipificação sobre crime hediondo, não há nada que proíba isso", concluiu o parlamentar. 

Já o senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-relator do projeto, a violência que resultou na morte do cinegrafista não se enquadraria em ato de terrorismo. "Não queremos tipificar no terrorismo qualquer tipo de movimento social, mesmo que haja agressões”, disse Jucá.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, mostrou resistências, afirmando em coletiva que "é preciso ter cuidado para não dar uma interpretação à lei como se dava durante a ditadura militar". Mas concordou com proposta do Conselho Federal da OAB que prevê punição ao anonimato às manifestações, com o objetivo de combater a ação de mascarados.
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