30 de dezembro de 2022

Sol da Parquelândia

  Padre Geovane Saraiva*

Com o final de cada noite e o despontar da aurora no nosso querido bairro, Parquelândia, Fortaleza/CE, deparamo-nos quase sempre com aquilo que há de mais belo, edificante e sublime: o nascimento do Sol. Além de externar a providencial bondade de Deus, entra em cheio – e com toda a sua luminosidade –, na nossa Igreja de Santo Afonso, sendo possível experimentá-lo, de um modo mais evidente, em clima de oração pela manhã, atualmente por ocasião deste final de ano e início de 2023.

O sol bendito não é uma alegoria, e sim real, convidando-nos como um dom para o despertar de cada manhã. Tenha a certeza, caríssimo irmão, caríssima irmã, sempre e cada vez mais, de que esse despertar é um revelador – ou claro precursor –, a partir deste templo sagrado, do que Deus tem algo a lhe dizer, no sentido de acolher o Sol da verdade, da justiça, da paz e da solidariedade: o Filho de Deus. Ele não carrega consigo a aurora, não nasce e muito menos se põe. Ele consiste em ser um amor inesgotável, a eternidade, que nunca é demais!

Aurora quer significar momento esplêndido, ou hora preciosa, fecunda e cheia de graça, ou encanto, nos sinais de esperança, e destaque ou prenúncio de felicidade. Bacana mesmo é comemorar o dia mais fantástico da vida, da aurora verdadeira, dia em que chega para nós a inigualável esperança em Jesus, que veio habitar entre nós, fez-se pequeno por nós e escolheu viver aqui ao nosso lado!

Num basta ao indiferentismo, ou ao neutralismo, na busca do verdadeiro sol, jamais desperdiçar a oportunidade, a nós concedida, vendo-a como dom e graça, como desafio de transformar o mundo e todas as coisas, sendo o mesmo mundo, com sua realidade contrastante, patrimônio para todos. Fica sempre conosco, Senhor, permanece em nossos corações, no coração de cada irmão e de cada irmã, no coração do mundo. Só assim, o planeta, no seu todo, pode ser fecundo e cheio de graças, voltando a florescer!

Daqui da Parquelândia, na contemplação do eterno Sol, que Deus nos dê a graça de dizer um não à nossa pouca sensibilidade diante da fé, sem jamais perder de vista sua aurora eterna. Supliquemos, pois, à luz da tolerância, do respeito e da valorização das pessoas, e também na compreensão das diferenças, no vasto campo do mundo, no qual estamos inseridos: Ó Senhor, dai-nos a graça do crescimento na sua terna e afável compaixão, no esforço de sermos mais indulgentes, clementes e pacientes. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

23 de dezembro de 2022

Quinze anos sem Dom Aloísio

 Padre Geovane Saraiva*

Neste dia 23 de dezembro, recordamos a partida para a casa do Pai, há quinze anos, de Dom Aloísio Cardeal Lorscheider. Ele, um franciscano, que descobriu a verdadeira face de Deus, imprescindível ao traçado de seus passos, a partir dessa realidade misteriosa, quando o afirma numa tônica poética quanto profética, com enorme sabedoria: “Sempre fiquei muito impressionado e atraído pelo amor quente e apaixonado que São Francisco dedica a Deus. Parece que no beijo do leproso ele entendeu, como Saulo no caminho de Damasco, a doação total de Deus a nós em seu Filho Jesus Cristo. Custou a Francisco não só descer do cavalo fogoso que no momento montava, mas muito mais do cavalo do orgulho e da vaidade com que ele queria conquistar o título de grande e nobre”.

Dom Aloísio, ao se tornar Arcebispo de Fortaleza (1973-1995), dentro do seu ideal franciscano, tinha bem claro as resoluções do Concílio Vaticano II, dizendo logo de início: “A comunidade eclesial não é feudo do bispo, mas ele é o servidor de uma Igreja que se entende a si mesma como sacramento do Reino, isto é, da presença da verdade e do amor infinito de Deus para com cada criatura humana”.  Daí ele não compreender como algo natural e normal ter que conviver com a miséria e o acentuado empobrecimento do povo, que tinha como consequência o êxodo, o flagelo e a morte de muitos irmãos.

O povo de Deus no Brasil e, de modo particular, no Ceará (Arquidiocese de Fortaleza), passou a contar com o dom da profecia do Cardeal Lorscheider, para dizer que não era vontade de Deus a realidade aqui encontrada e, ao mesmo tempo, usou de todos os meios, com uma enorme vontade de transformar essa mesma realidade de pecado, marcando profundamente a caminhada da Igreja na Arquidiocese de Fortaleza. No dizer do Desembargador Fernando Ximenes: “Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso”.

Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a seguinte pergunta: o que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”. Jamais podemos esquecer a chama luminosa de um coração amável e cheio de bondade, de uma pessoa humana, dotada de grandes virtudes e qualidades, de um “bispo completo”, segundo o grande teólogo Alberto Antoniazzi e nas palavras do Senador Tasso Jereissati: “do homem mais ilustre da nossa geração, no Ceará, com a sua vida de dedicação à causa dos excluídos”, do maior benfeitor e patrimônio do povo cearense, que partiu há oito anos, deixando-nos tristes e com enorme saudade.

Agradecidos pelo dom de sua vida, somos conscientes da sua importância na história recente da Igreja, de modo especial pelo seu compromisso com o Reino de Deus, sensibilidade pastoral, clareza diante dos desafios, sem jamais faltar-lhe a ternura do Bom Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Que a paz, a alegria e a esperança possam chegar a todos e a todas, conforme a vontade de Deus, anunciada pelo anjo aos pastores: “Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor”!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

20 de dezembro de 2022

A verdadeira luz

Pe. Geovane Saraiva*

Fomos criados, pela proposta do nosso bom Deus, para imitar Jesus de Nazaré, tendo seu início no mistério luminoso da verdadeira luz. A criatura humana nem sempre é tão boa, mas pode docilmente acolher, neste Natal, a declaração inusitadamente maior: o amor de Deus pela humanidade.

Ó Senhor, abençoe a todos os que percebem vossa divindade e se sensibilizam, num olhar terno e afável, diante da manjedoura! Ela é sagrada e nos recorda, não só o humilde e vulnerável nascimento da criança de Belém, mas nos faz elevar aos céus nossos pensamentos, solidários, para multidões enormes de seres humanos que nascem e vivem nas mesmas condições. Nossa esperança está no Emanuel, Deus Conosco, Senhor e Salvador de todos, que vive e reina para todo o sempre!

A vida requer coragem, diante do mistério de crer em Deus, no sonho de uma esperança inabalável, no compromisso por mais vida, e vida inclusiva, fraterna e solidária, com dignidade, mas na realidade de uma frágil criança, nascida há mais de dois mil anos e nela um número incontável de crianças vivendo as mesmas suscetíveis inseguranças.

Eis, pois, a realidade contrastante e contraditória: o mistério inefável do Natal! Que neste Natal de 2022 não se desperdice a mensagem oriunda da estrebaria de Belém, no mais elevado espírito de fé e de esperança. Não se esquecer também de que a saída, e não há outra, encontra-se na criança que desce do céu, pois nela temos a realização dos desígnios de Deus, no que diz respeito à humanidade e ao mundo. 

Convém, neste tempo do Natal, olhar para Maria, cheia de graça, encantada e extasiada, pela a manifestação de Deus. Em sintonia com seus desígnios, surpreendida e perplexa, com a saudação do anjo Gabriel, responde: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 37).  Amém!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


17 de dezembro de 2022

Resgatar a esperança

 Pe. Geovane Saraiva*

Ânimo com a vida, mesmo tendo que errar, porque vale mais, em muitas circunstâncias, arrebentar-se do que se poupar numa vida sem sentido. É evidente que a vida consta de um preço, e é demonstrado quando se procura viver intensamente, numa maneira impávida, também impetuosa e destemida. Que seja essa vida, numa recordação, digna de fé, o que nela foi dor, angústia e sofrimento, alegria, satisfação e contentamento, num coração que pulsa com excessivo exagero.

Um ânimo, mas que não se esquece do compromisso com a vida, que é consequente na busca por um mundo melhor, com pessoas inteiramente livres, obstinadas, no sentido do sonho da fraterna solidariedade e da reconciliação humana, sem se ausentar, no convencimento de que o que importa mesmo é a vida das pessoas, na assertiva do teólogo e humanista Leonardo Boff, no “Casamento entre o céu e a terra”. É a fantástica e utópica aspiração de se progredir no melhor, mais elevado e exigente padrão, muito acima dos limites convencionais.

No contexto da vida humana, o que se espera? Qual é o sentido final de tudo? O que é que nos anima, na coragem, para viver e para morrer. Aprendemos que a teologia, acompanhada da fé, tem respostas para os nossos questionamentos. O teólogo acima referido assegura que o céu é a absoluta realização humana, vendo-o como pátria, como banquete, como visão beatífica, como vida eterna, como vitória e como plena reconciliação. Já o inferno, vendo-o sem ser ser aquele dos  diabinhos com chifres,  como absoluta frustração humana, como a existência do absurdo, como fogo inextinguível, choro e ranger de dentes, como trevas exteriores, como cárcere e ainda como um verme que não morre.

Como estimular, através da teimosia de se viver, o resgate da esperança? A transformação do coração da criatura humana e do próprio mundo, só pelo ânimo corajoso do bom procedimento humano, que seja um milagroso impulso, sempre maior; que seja a razão e a essência da existência e de tudo: na verdadeira esperança, no verdadeiro amor.

Fico com uma oração por aqueles que se distanciam da esperança, suplicando e pedindo: Por favor, retornem ao seio de Deus! Na criança da manjedoura, eis a teimosia de se viver, acreditando na paz, na esperança e no amor. Creia em um Deus lá em cima, sim, mas que do firmamento ou das estrelas ele “desce”, é real, é a realidade última no coração das pessoas e das coisas. Amém!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

14 de dezembro de 2022

LULA BIKE

                                                                 
Lula-Bike - Era Lula!
Um grande e belo presente do amigo Vilmar Ferreira, da Aço Cearense!
Só alegria e satisfação!







11 de dezembro de 2022

Coragem!

Pe. Geovane Saraiva*

Coragem, pois o convite que Deus nos faz neste tempo que precede o Natal é o de “participar da divindade daquele que uniu a Deus nossa humanidade, manifestando-se como luz a iluminar todos os povos no caminho da salvação”, na inefável troca de dons entre o Céu e a Terra. Veja-se, pois, envolvido com a vida, num exuberante e alegre contentamento, na clareza de consciência de si mesmo, não sobrando espaço algum para duvidar do único clamor, o da vida, o de se convencer de mais vida e vida intensamente bem vivida! Como é maravilhoso, quando as pessoas querem mais encanto com a vida, mais amor, mais dignidade e mais sabedoria, numa determinação de rejeitar a vida inútil, insípida e sem sentido!

Tenha mais gosto e entusiasmo, vendo a vida com sentido, a partir de um Deus indulgente e clemente, que seja o mais aguçado possível, mas a partir da realidade do Brasil e do mundo, mesmo diante das provações, dores, sofrimentos e angústias desafiadoras, antevendo, no mundo compreendido por contrastes e diversidades, uma nova civilização, no mais alargado e expandido sonho, na busca de uma vida fecunda e cheia de graça. A vida, além de carecer de ânimo e coragem, quer que respondamos aos apelos de Deus, não se apegando aos bens ilusórios e passageiros do mundo, nem parado de braços cruzados e acomodados.

De maneira segura e inequívoca, somos convidados a olhar, pela ótica de Deus, uma consistente esperança e um espírito de perseverança, inspirados pelo sonho de um mundo novo, no compromisso de promover uma realidade melhor e mais durável, sem fome, mais digna e menos egoísta, livrando-nos do pecado da indiferença para com a vida, dom e graça. Cabe a nós contemplarmos, associados ao mistério dos anjos, que povoaram os céus naquela noite feliz e memorável, na linguagem por demais conhecida: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”. Ele aponta para nós o caminho da salvação; que seja de todos o esforço pela proposta solidária e fraterna, fundamentada na prática da justiça, firmada na paz duradoura.

A chegada de Jesus de Nazaré ao mundo nos afasta do desânimo e estabelece e robustece passos do nosso caminhar, por chão sólido e seguro. Manifesta-se, assim, a clara consciência de que o Messias esperado leva a história à sua consumação. Em Jesus o tempo histórico chegou ao ápice, razão da nossa mais elevada contemplação, acolhendo-o, mas na certeza de que nele se encontra o destino definitivo da humanidade; nele está a consolidação da eternidade dos povos, na participação da promessa salvífica: “Do novo céu e da nova terra, nos quais habitará a justiça”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

6 de dezembro de 2022

Natal cristão

Pe. Geovane Saraiva*

O Natal cristão de verdade, sim, no Menino Jesus que vamos encontrar na manjedoura, na mensagem que percorre o mundo, aquele que o infinito se manifestou em Jesus de Nazaré, que desceu do céu, que, segundo Afonso Maria de Ligório, “desceu das estrelas”. Ele quer de nós a sua centralidade, num visível e favorável ambiente, com as marcas da simplicidade, da modéstia e do comedimento, no amor ao próximo, começando com o mais próximo.

Que o Natal, verdadeiramente cristão, encontre eco em nós, não deixando espaço para aquela profética palavra de João Batista na sua pregação: “raça de víboras” (cf. Mt 3, 7ss). Lugar, sim, para que o anúncio, incômodo e provocador de João Batista, deixe clara a necessidade de contrariar a realidade contraditória vivenciada por ele, na acolhida do seu clamor, naquilo que causa enorme prejuízo à íntegra mensagem por ele proclamada, dizendo não à indiferença.

Notória é a necessidade de um cristianismo longe da indiferença, que tanto mal fez e continua fazendo, mas um cristianismo com Cristo; repetindo: ele no centro, porque a “vida eterna que estava no Pai se manifestou” na comunidade dos batizados, na disposição de preparar o caminho do Senhor. Nosso tempo, mais do que nunca, requer dos corações encascalhados, pelas ilusórias vantagens do mundo, que se neutralizem a insensibilidade e a indiferença, na confiança de um “Deus que é luz e nele não há vestígio de trevas” (1 Jo 1, 1-5). 

No mistério da encarnação, temos resposta infinitamente maior e superior a qualquer indagação que se possa ser sugerida pelas criaturas humanas. Deus mesmo, pelo Filho, mergulha na nossa vida finita, passageira e relativa; mergulha na nossa miséria. Pensemos, pois, no Deus que, sendo infinito e absoluto, sofre junto conosco e com toda a humanidade, num amor ilimitado. É a redenção em nosso meio, como diz São João: “De tal modo Deus amou o mundo, que, por ele, entregou seu Filho único” (Jo 3, 16).

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

30 de novembro de 2022

Rezando a oração do abandono

Por Alvim Aran*

“Meu Pai, a vós me abandono”, é assim que se inicia uma das mais belas e profundas orações escrita por um homem após Jesus, nosso irmão mais velho, nos ensinar a chamar Deus de Pai, ou melhor, de abbá, isto é, paizinho querido. E só através desse entendimento de Deus como paizinho querido, aquele que nos ampara, é que seremos capazes de dizer tão bela frase.

Uma frase dita por Irmão Carlos de Foucauld, que compõe a oração do abandono. A segunda frase diz que Deus pode fazer de nós o que Ele quiser, ou então na primeira pessoa do singular: “Fazei de mim o que quiserdes”, e só um filho que conhece o Pai consegue dizer isso de forma verdadeira. Como Jesus, ao dizer: “Pai, afasta de mim esse cálice, contudo não seja feita a minha vontade, mas a tua”. Poderia continuar com as palavras de Irmão Carlos: “O que de mim de mim fizerdes eu vos agradeço”.

Em qual nível de santidade devemos estar para repetir tais palavras? Não sabemos, e não procuraremos atos ou palavras para tentar expressar tal ideia. Se tentarmos fracassaremos. Mas ilustraremos de tal forma que o leitor desse texto fará sua própria reflexão: imaginem alguma pessoa próxima que convivemos bastante e temos confiança. Somos capazes de deixar essas pessoas entrarem em nossas casas, em nossas vidas, participar conosco dos momentos alegres ou tristes, e costumamos falar quando nos visitam: “Entre, fique à vontade, a casa é sua”.

A pessoa fica alegre e volta várias vezes, mas antes disso teve um caminho percorrido, uma relação construída. Com Deus é a mesma coisa, só teremos uma forte intimidade com Ele através de um caminho feito ao longo de nossa história. Com altos e baixos, com acertos e desacertos, e tudo isso é humano. E precisamos desenvolver essa história com Deus para podermos dizer: “Estou pronto para tudo, aceito tudo contanto que a vossa vontade se faça em mim e em todas as vossas criaturas”.

“Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”, quantas vezes durante nossas orações repetimos isso, mas não nos damos conta da força que essas palavras trazem. Será que queremos que a vontade de Deus se realize em tudo e em todos? Isto é, um mundo mais humano, fraterno, solidário, amoroso, compassivo, bondoso e alegre. Para isso é preciso aceitar a vontade de Deus, que nem sempre é a nossa. Aí a conversa muda, somos íntimos de Deus mesmo? Ou Deus é aquele amigo nosso que temos por perto enquanto seguem o que nos agrada, mas no tempo que não concorda com o que se fala vira as costas.

Virar as costas para Deus é muito fácil, ocorre sempre que não agimos como Jesus agiu. Quer saber como Jesus agiu? Leia a história de Irmão Carlos, Irmão Francisco, Irmã Dulce, Irmão Helder e Irmã Dorothy. A resposta está na vida deles e tantos outros santos. Uma vida doada aos irmãos, uma vida entregue a Deus. E só quando entendermos isso seremos capazes de continuar: “Entrego minha vida em vossas mãos, eu vo-la dou meu Deus, com todo o amor do meu coração”.

Percebe, caro leitor, que isso é um caminho construído por nós e Deus, Ele que nos chama e nós que respondemos ao chamado. Ele nos convida a uma amizade sincera e verdadeira, onde podemos e devemos compartilhar com Ele tudo que fazemos em nossa vida, igual quando contamos as coisas para nossos amigos que confiamos. Precisamos confiar em Deus, mostrar a Ele nosso lado bom e ruim. Se fiz algo bom, vou à missa e ofereço. Se fiz algum ruim, vou à missa e ofereço também, mas pedindo a Deus a graça da mudança para melhor.

Não porque Deus é juiz, que vai condenar, julgar os vivos e os mortos, mas porque Ele é abbá, porque o amamos e ele nos ama, e quem ama cuida. Assim podemos rezar como Carlos: “porque eu vos amo e porque é para mim uma necessidade de amor dar-me, entregar-me em vossas mãos sem medida, com infinita confiança”.

Confiança é uma palavra forte, pode significar vulnerabilidade, isto é, se desarmar, se livrar dos mecanismos de defesa diante de algo ou alguém. Que seja diante de Deus, aceitar o plano dele em nossa vida, não abaixar a cabeça e seguir em frente. Mas não uma confiança cega, mas sim uma que nos leve a questionar Deus e se deixar ser educado por Ele. Pode parecer estranho o termo “questionar Deus”, mas se existe uma relação de amizade reciproca entre Pai e Filho, isso não é estranho, é normal, pois há diálogo.

Onde não há dialogo existe desconfiança, uma palavra que não deve existir em nossa vida religiosa, pois Deus é nosso Pai. Assim Irmão Carlos termina a oração do abandono. Que possamos, por interseção de Irmão Carlos, nos abandonar em Deus. Aceitar ser amado por Ele, para que possamos amar nossos irmãos e irmãs pelo mundo, e juntos, de mãos estendidas ofertar o que de graça recebemos, ou seja, amar sem medidas, pois o amor de Deus é gratuito.

*Aluno do 3º ano de Filosofia, Diocese de Guanhães, Seminário Maior de Diamantina-MG.

A plenitude dos tempos

Pe. Geovane Saraiva*

No Advento, quanta esperança nos verbos “anunciado”, “chegado”, “completado” e “realizado”, na promessa da vida nova de outrora, no cordeiro que desce dos céus trazendo a salvação, na alegria do Salvador em nossos dias, sendo, para a humanidade, a plenitude dos tempos! Neste tempo abençoado do Advento, que todos se unam, confiem e acreditem no amor ardente e compassivo do Pai do céu, presente para as pessoas e para o mundo, amor este sempre redentor, ao impulsionar seu Filho Jesus em seu projeto de amor, na expectativa de que tudo aconteça e tenha sua favorável e auspiciosa concretude em nós, criaturas humanas.

Jesus, com sua encarnação, o que mais deseja e pede de nós é que realizemos a vontade do Pai, levando a bom termo a obra que lhe foi confiada pelo bom Deus, na vida que requer ânimo e coragem. Deus pede convicção naquilo em que se acredita, que seja este um ardente e impactante desejo de nossa parte, obtendo uma autêntica e sincera reflexão sobre a Lei do Senhor, ao mesmo tempo em que se manifestem indicadores precisos de que haveremos, sim, de nos envolvermos, confiantes no indizível mistério, mas numa disposição energicamente restauradora e salutar.

Somos desafiados, desse modo, a acolher e tratar a largueza misteriosa da benfazeja eternidade de Deus, na nossa caminhada para o Natal do Senhor, no mais elevado respeito aos sacramentos, também pela Palavra de Deus e demais sinais deste Advento, no esforço e preocupação de que, como pessoas voltadas ao mistério, o nosso modo de viver se aproxime da fé por nós abraçada no batismo. Os sinais concretos deste Advento de 2022 querem provocar e inquietar as pessoas de boa vontade, contribuindo muito, no sentido de que se possa pensar, mas sempre interpelando sua própria liberdade de escolha, sem nunca querer forçar, diante da ação de Deus em Jesus de Nazaré, Rei da paz na humilde estribaria de Belém (cf. Alfredo Läpple, Interpretação atualizada e catequese, p. 250).

Devemos combater o pessimismo, numa caminhada de confiança, convicção de que nossa vida está nas mãos de Deus, mas num sereno entusiasmo, habilitados e instruídos de respeitar o dom maravilhoso da vida e da dignidade humana, ao fugir do rancor, do ódio e da violência. Os milagres revelam, didaticamente, o aspecto escatológico, no sonho da “nova criação”, na qual todos aqueles que são atingidos pela escassez e insuficiência do corpo e do espírito saberão que “cegos recuperam a vista, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem e mortos ressuscitam (Mt 11, 5).

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


23 de novembro de 2022

Sem fé a vida perde o encanto

Pe. Geovane Saraiva*

A afirmação de Santo Agostinho “Meu coração está inquieto, Senhor, enquanto não repousar em ti” requer uma fé causadora de entusiasmo, energia, agrado, serenidade, tranquilidade e paz. Agora, com o início do Advento, que se convença pelo olhar de Maria, ela como primogênita da Cruz redentora, a primeira que de todo o coração, com todo o seu ser, abraçou a Cruz de seu Filho, do modo mais completo e elevado, aprendendo, evidentemente, com ela: “Maria, nossa mãe, ajude-nos a conhecer sempre melhor a voz de Jesus e a segui-la, para andar no caminho da vida!” (Papa Francisco).

A fé, no seu sentido mais profundo e mais rico, é o abandono total das pessoas em Deus, na entrega do seu destino, no misterioso destino de Deus. Maria é presença singular neste Advento, na sua ação salvífica e reconciliadora, em quem Deus encontrou abrigo e se expandiu, na sua sublime e esplendorosa liberdade, num não a todo e qualquer obstáculo. Ela, Maria de Nazaré, é distanciada das imperfeições, sem nenhum equívoco, lacuna ou falha, como na sua profética palavra: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (cf. Lc 1, 38). Antevemos o reinado de Cristo pelo amor, sendo Ele a nossa verdadeira e duradoura paz.

Como Maria, que se possa dizer com ânimo e força: “Feliz o homem que encontrou a sabedoria e encarnou o entendimento, porque a sabedoria vale mais do que a prata e dá mais lucro do que o ouro” (Sab 3, 1). Essa sabedoria é capaz de se afastar do pecado original. A doutrina cristã pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal através da queda da criatura humana, no pecado de Adão. Que não nos esqueçamos jamais da nossa humana peregrinação terrestre, a de que de Deus viemos, para Deus existimos e também para Deus devemos voltar.

Cabe aos seres humanos se voltarem para o pecado original, na incapacidade de, com as próprias forças, manifestar sinais do amor, ao perceber seu próprio fechamento, aquele das pessoas sobre si mesmas, na impossibilidade, sobretudo, de se constatar um relacionamento adequadamente com os três grandes eixos, sobre os quais incide e recai a existência humana: convívio com o mundo, com o outro e com Deus. Em Maria, porém, o ontem e o amanhã são o eterno hoje, em previsão da obra redentora de Jesus Cristo (cf. Leonardo Boff, O Rosto Materno de Deus, p. 141).

Pelo mesmo olhar de Maria, que se compreenda que todos nascem, envolvidos pelo pecado do mundo, sendo humanamente trágico seu destino. Mas a peregrinação humana pela fé quer nos assegurar: “Quem crê em mim, jamais terá sede; quem crê em mim, jamais terá fome; quem crê em mim, passou da morte para a vida”. A fé é o maior tesouro para a criatura humana, como na palavra de Jesus à samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus...(Jo 4, 10s). Convença-se de não prevalecer seu “não” à vida, convicto de que sem fé a vida humana perde seu encanto.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

16 de novembro de 2022

Luz que faz a diferença

Pe. Geovane Saraiva*

A oração é essencial, na sua preciosidade de valor, para o seguidor de Jesus de Nazaré, comparando-se ao respirar das pessoas e da própria vida. A oração deve ser em vista das atividades e do dia a dia, recordando-se de todos e levando em conta suas necessidades, no caso dos irmãos, dos amigos e até dos que não gostam de você. Uma oração radicalmente solidária deve sempre estar presente na nossa vida, sem jamais prescindir da realidade contraditória das coisas, da vida e do mundo.

Na busca do eterno Sol, é sempre muito importante ver a oração, mas que seja cristalinamente reveladora, pelo nosso direcionamento e evocação a Deus, evocação esta no sentido de se compreender o clamor da felicidade sem fim, não apegado e muito menos afeiçoado excessivamente aos bens materiais, que nas suas vantagens, segundo a lógica do mundo, não passam de ilusões. Favor perceber o filho mais novo da parábola do Evangelho (Lc 15, 11-32), que, longe do aconchego do pai, terno e afável, passou por uma angústia tenebrosa e desalentadora, numa vida quase sem nenhum sentido.

No retorno, o pai, saindo com pressa, acolhe o filho desgarrado, no mais magnífico grau de contentamento, revelando que, mesmo rompido e no empinado desespero das pessoas, encontra-se o amor, infinito e inesgotável, favorecendo-nos, mesmo na mais insignificante circunstância. Faltando-nos a esperança, na frívola lacuna das criaturas, o pai “corre” para inundar e preencher a existência humana.

Aqui um pouco do vivenciado por mim, no Cristo / Sol eterno, ao abrir, na manhã (12/11/2022), portas e janelas da Casa Paroquial de Santo Afonso, na Parquelândia, Fortaleza/CE, vi que a claridade do Sol passou a entrar. Logo, pensei que, quanto mais tudo for aberto, mais a luz e o calor farão aquela benfazeja e salutar diferença. Assim também na oração: quanto mais se fizer a vontade de Deus, mais se permitirá que seu indizível amor chegue e transforme a vida das pessoas de boa vontade.

Lembre-se de que o amor insondável e incalculável de Deus, mesmo ele não precisando de nós, é fecundidade e gratuidade, dom e graça, no que nos assegura a liturgia da Igreja: “Ainda que nossos louvores não vos sejam necessários, vós nos concedeis o dom de louvar. Eles nada acrescentam ao que sois, mas nos aproximam de vós”, num alegre viver: pasmado, na sabedoria da sua eterna realeza / na qual luz se fez fascínio de beleza / luz a deslumbrar pela sua correnteza / premiado, mas no encanto de sua riqueza.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


11 de novembro de 2022

Mais que a luz e mais que o dia

Pe. Geovane Saraiva*

Quem está acima do Sol com todo o seu esplêndido clarão, mais que a luz e mais que o dia, ao alvejar o coração humano? É aquele que é a essência de tudo o que se queira ou se possa dizer a seu respeito. Ele veio antes de tudo o que existe e está acima de qualquer coisa. Ele é aquele que é encontrado na Igreja, recordando sua sublime realização na véspera de sua paixão, naquela memorável Ceia Pascal.

A restauração humana na nova aliança, pelo sangue de Cristo, realmente é nova no Senhor Jesus, não pelos sacrifícios antigos, mas no consistente e definitivo sacrifício do próprio Deus, na total obediência e entrega do Filho.

Ele é aquele que ensina, na ação e na oração, a criatura humana, que encontra razões para viver, ensinando a necessidade da ação, que esta requer, e justifica a oração, sendo que dessa importância não se pode prescindir do procedimento das pessoas, ficando patente que a oração sem a ação desestabiliza a vida, que a ação sem a oração se torna inócua e improdutiva.

Santo Agostinho, como referencial nas Confissões, nos ajuda a compreender o mistério de amor acima citado: “Contempla-me nelas, para que não me louves mais do que sou. Julga-me, não pelo que os outros dizem de mim, mas pelo que eu digo nelas. Contempla-me nelas e vê o que fui, na realidade, quando estive abandonado a mim mesmo (…)”.

“Fazei isto em memória de mim” é a sonhada esperança dos filhos de Deus, na reunião em forma de refeição, mas de ação de graças, como ápice de toda celebração, desde o início até o fim. Eis a oração incessante ao Pai, com espaço para súplica: pela Igreja, pelas necessidades dos presentes e ausentes, dos vivos e falecidos.

A propósito da esperança na refeição, que não se esqueça de que a Arquidiocese de Olinda e Recife está em festa e divulga a programação do 18º Congresso Eucarístico Nacional, que será celebrado de 11 a 15 de novembro de 2022, com o tema “Pão em todas as mesas” e o lema “Repartiam o pão com alegria e não havia necessitados entre eles”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

9 de novembro de 2022

Tenho sede

Pe. Geovane Saraiva*

É possível que a mensagem de Jesus de Nazaré não tenha penetrado, na sua plenitude, no coração da humanidade, na caminhada do povo de Deus. A verdade é que nem sempre se sabe tudo a respeito da vida do próximo, vendo-a como mistério, seja pelas coisas boas ou nas ações não construtivas ou pouco edificantes. Não é fácil, por causa da nossa contingência e do pecado, contemplar aquele Jesus do cárcere e do tribunal, ele sendo levado à morte, a qual se consumou no lugar das execuções, próximo à cidade, num pequeno monte, chamado Gólgota.

A morte desumana, com sua origem no Oriente, foi colocada em prática no Império Romano como a mais brutal e cruel de todas, sobretudo a de escravos, voltando-se e tendo sua convergência no “Filho do Homem”, em toda a sua concretude. Todas as pessoas que atestaram, e deram testemunho da história da salvação em Jesus de Nazaré, deram e dão importância ao cumprimento das palavras do Livro Sagrado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Salva-me, ó Deus, porque as águas vão me submergir” (Sl 22; 69). Percebe-se que a salvação prometida por Deus, no Filho, vai até os pormenores da frieza e indiferença: o oferecimento de vinagre, a divisão das vestes, os espectadores zombando e balançando a cabeça.

Convém considerar a expressão do Nosso Senhor Jesus Cristo, “Tenho sede”, no sentido da mais elevada abrangência, que nos ajuda a pensar no Gólgota humano, como aquele lugar do crânio ou caveira, de muita angústia, tristeza, desolação e desespero, lugar esse visível e perceptível, dia após dia, da existência de muita gente, mesmo em companheiros de caminhada. É Jesus de Nazaré, o mesmo da fé por nós professada, que quer penetrar no mais profundo do nosso ser, na mesma atmosfera ou contexto, o qual foi submetido de modo extranatural ou admiravelmente insondável, com a cortina rasgada de cima a baixo, ao responder ao desejo e aspiração do nosso Cristo e Senhor, radicalmente humano, no “Tenho sede”.

Que possamos perceber a dor, o desolamento e a angústia do irmão, nos nossos dias, com menos sede e mais fome, encontrando os seguidores de Jesus de Nazaré, seu ápice nos seus passos, Mestre e Senhor da história e da vida, indo muito além do véu rasgado do templo. Rasgar o véu e matar a sede, sim, de cima a baixo, o véu malévolo, imprestável, improfícuo da fome e sede de justiça, no esforço persistente de não nos desviarmos da promessa da feliz e afável esperança, longe da angústia, da desolação e do desespero.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


6 de novembro de 2022

Dia mundial dos pobres

  “Somos o fracasso, pois se formos o sucesso, significa que nos aderimos ao sistema” Padre Júlio Lancellotti

Por Alvim Aran*

Se aproxima o VI dia mundial dos pobres e, ao contrário do que muitos pensam, quando Papa Francisco propõe esta reflexão, não é para enaltecer a pobreza e a condição de quem é pobre, mas é para nos fazer refletir sobre a causa e a situação de nossos irmãos e irmãs que são atormentados pela miséria a luz do evangelho anunciado por Jesus. Esta flexão é muito importante para todos nós, ainda mais nesse ano, pois o mundo passou e passa por uma situação difícil. Estamos caminhando para o fim da pandemia, além da guerra entre Rússia e Ucrânia.  

Quantas vidas ceifadas injustamente por descaso de governos que só pensam em si próprios e em suas economias sob o domínio de um neoliberalismo que exclui as camadas mais pobres da sociedade. O papa inicia a carta fazendo uma alusão a São Paulo quando diz que “Jesus se fez pobre por nós” (2 Cor 8, 9), para nos ensinar a abaixar e servir, com intuito de nos mostrar e denunciar os sistemas de exclusão que existia em seu tempo, e que se faz presente no nosso. E o papa faz um questionamento que vale para todas e todos, diante dessas situações que cooperam para o luto do mundo: “Como dar uma resposta adequada que leve alívio e paz a tantas pessoas, deixadas à mercê da incerteza e da precariedade?”

A resposta dele é o que todos os cristãos e cristãs esperariam, e que acreditam, isto é, “manter o olhar fixo em Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). Mas o papa não quer que fiquemos somente olhando Jesus sem fazer nada, isso não é cristianismo, ele quer que sejamos ativos em nossa comunidade de fé. Pois a fé em Jesus nos leva a ação, não a passividade, ao conforto e conformismo. Essas são palavras que deveriam ser excluídas da vida do cristão, e acrescentada “militância”, “ativismo” e “política”.

Não queremos pregar ideologias com essas palavras, mas dizer que o cristão e a cristã devem ser ativos no mundo. Exemplo que o papa cita na carta é São Justino (Primeira Apologia, LXVII, 1-6), que reforça a ideia de Atos dos Apóstolos (At 2,44), e afirma que os cristãos devem estar disponíveis para ajudar a todos e todas, colocando seus bens em comum uns com outros para construir uma sociedade melhor. E o papa reforçou que em nosso meio atualmente isso é possível, pois quando estourou a guerra, famílias fugiam e encontravam refúgio com outras famílias que, em meio as dificuldades, abriam suas portas com generosidade e solidariedade. 

Como afirma o papa: “a solidariedade é precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra”, achamos isso de uma profundidade evangélica enorme, pois somos chamados a partilhar o que temos, não o que nos sobra. Jesus já nos alertava, quando ensinou que devemos convidar para uma festa aqueles que não podem nos retribuir (Lc 14, 12-14). E esquecemos disso, e o papa que nos relembrar que isso é o Evangelho e não podemos perder isso de vista, esse compromisso com os mais desfavorecidos. 

Quer nos lembrar, lembra o papa, não quer nos forçar. Precisa ser uma disposição pessoal nossa, por isso é importante estar intimamente em contato com Jesus e suas palavras libertadoras. Fazemos memória a Dom Pedro Casaldaliga, quando esse diz que na “maternidade de Maria, Deus se fez homem. E na paternidade de José, Deus se fez classe”. Por isso Pedro e Paulo, de um lado um operário, pobre, de outro um homem bem de vida a serviço da elite, e quando se encontram profundamente com Jesus se tornam classe, se tornam massa, se tornam fermento, se preocupam com os pobres, pois conhecem a pobreza. 

E conhecereis a pobreza e ela vos libertará, pois existe uma pobreza que liberta e outra aprisiona. A segunda é, como diz o papa: “a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspectivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar”. E existe a pobreza que liberta: “é aquela que se nos apresenta como uma opção responsável para alijar da estiva quanto há de supérfluo e apostar no essencial”.

O nosso essencial é Cristo, e Ele deve ser o nosso foco, pois através dele olharemos o mundo e seremos capazes de entender que essas situações de miséria nunca foram a vontade de Deus. A pobreza de Jesus que nos torna rico, como enfatiza o papa, é o amor. Esse amor que vai ser capaz de nos transformar, e nós transformarmos o mundo num lugar melhor para as futuras gerações. Por isso o papa diz: “No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém”, a teoria é linda, e existem várias, mas é preciso ação, isto é, mostrar ao mundo o que é ser cristão, trabalhar para construção de uma sociedade justa e fraterna.

E por falar em “fraterna”, o papa cita um grande homem, Irmão Carlos de Foucauld, esse encontrou Jesus nos pobres oprimidos. A radicalidade de Carlos foi encontrar Jesus escondido em Nazaré e não a vista de todos e todas, mas na simplicidade evangélica. E conseguiu, foi canonizado pelo papa, e tem muito a nos ensinar sobre ser pobre com os pobres, a sermos fermento na massa. 

Mas para isso precisamos sair de nós mesmos, assim como Jesus saiu do Pai e veio morar numa favela para nos ensinar. Não é fácil, mas podemos seguir o exemplo de Irmão Carlos e deixar tudo que temos para seguir Jesus, a mesma resposta que Ele, Jesus, deu ao jovem rico, dará a nós: “Vende tudo que tu tens e dá aos pobres” (Mc 10, 17-30). Serve para um mundo onde o dinheiro se tornou um deus, o Mestre de Nazaré já alertava: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Não é servir a Deus e ao diabo, mas ao dinheiro. Jesus sabia o que estava acontecendo naquele tempo, as pessoas colocavam o lucro acima da humanidade, e isso acontece hoje. 

Não podemos nos conformar com as injustiças e com este sistema capitalista aos moldes de Charles Darwin, isto é, a sobrevivência dos mais ricos (capitalismo darwiniano), enquanto os pobres morrem de fome. O dia mundial dos pobres vem para denunciar esses sistemas de miséria e morte, e que a exemplo de Irmão Carlos possamos lutar contra tudo que coopera para o luto do mundo e construir o Reino de Deus, uma sociedade onde impera o amor e a paz. Urge o momento em que precisaremos enfrentar o dragão do ódio, como nos recordou o bispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes. Lutemos, sem jamais desanimar, virá o tempo da alegria, e os humilhados serão exaltados. 

São Carlos de Foucauld, nosso irmão universal, rogai por nós.

*Aluno de 3º ano de Filosofia, Diocese de Guanhães, Seminário Maior de Diamantina-MG.

4 de novembro de 2022

Redentoristas: 290 anos

Pe. Geovane Saraiva*

No dia 9 de novembro de 2022, a Congregação do Santíssimo Redentor, os redentoristas, completa 290 anos de fundação. Ela teve início em 1732, em Nápoles, na Itália, quando Santo Afonso Maria de Ligório começou a congregar um grupo de padres, inspirado pela passagem do Evangelho, que diz: "Enviou-me para evangelizar os pobres" (Lc 4, 18). A ideia feliz de fundar uma congregação nasceu no momento em que o grande homem de Deus, Santo Afonso, se encontrava em meio aos cabreiros.

Impressionado até demais com seu abandono, e vendo que não havia quem lhes anunciasse a Palavra de Deus, Afonso decidiu reunir padres que aceitassem ser missionários dos mais abandonados e destituídos de recursos. Tendo seu berço em Scala, a congregação recebeu a aprovação pontifícia de Bento XIV, em 1747, depois de vencidos não poucos obstáculos.

A nova congregação cresceu, cresceu, e quem a levou para além dos Alpes foi o sacerdote austríaco São Clemente Maria Ofbauer. Os redentoristas começam se fixando em Varsóvia, passando depois para a Alemanha, a Suíça, a Áustria e, enfim, para o resto da Europa.

Em 1894, ao término de uma longa viagem de navio, um grupo de redentoristas, padres e irmãos, sem conhecer outro idioma, senão o alemão e o latim, aportou no Rio de Janeiro. Algum tempo mais tarde, aos 24 de outubro do mesmo ano, chegou a Aparecida do Norte-SP. Alguns se fixaram ali, outros seguiram adiante, até alcançarem a região onde atualmente se localiza a cidade de Goiânia.

A chegada dos primeiros redentoristas irlandeses em solo brasileiro pela primeira vez aconteceu em 7 de maio de 1960, quando o navio atracou no porto do Rio de Janeiro. Eram quatro os missionários redentoristas: Padres João Myers, Tiago McGrath, Jaime Collins e Miguel Kirwan, que logo se embrenharam nas matas do estado de Goiás. Enfrentaram o desafio de iniciar uma nova missão: aprender uma língua nova, compreender uma cultura nova, traduzir respostas velhas para uma realidade sócio-eclesiástica totalmente diferente e desconhecida.

Vieram com muita coragem, criatividade, energia e esperança. Vieram também com sangue quente. Dessa semente, nasceu, dois anos depois, em 1962, uma nova Vice-Província Redentorista: a de Fortaleza. Aqui coloco os nomes de grandes e generosos missionários, que não seja em detrimento dos demais: Pe. Brendan Coleman Mc Donald, Pe. Brendan Coleman (Brandão), Pe. Brian Holmes (Bernardo), Pe. Leonardo Martins e Pe. José Carlos Linhares Pontes Júnior, membros da fundação irlandesa de Santo Afonso, pelos estados de Ceará, Piauí e Maranhão (cf. Pe. Gilberto Paiva, Vice-Província Redentorista de Fortaleza, p. 11).

Vale dizer que a Congregação tem como suporte da atividade apostólica a vida em comunidade, ocupando-se preferencialmente pela pregação da Palavra de Deus às classes populares, indo ao encontro dos mais abandonados. Lembrando, entretanto, que também fazem parte do carisma redentorista o estudo e o ensino da teologia moral, filhos que são do padroeiro dos moralistas, que é Santo Afonso. Aliás, diversos moralistas, de ontem e hoje, são bem conhecidos, entre os quais o personagem do mais elevado destaque: Bernard Haering. Deus seja louvado por suas santas criaturas!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

1 de novembro de 2022

O infra-humano no humno

Pe. Geovane Saraiva*

Deus, nós que imploramos por vossa complacente benevolência, favorecer propício, o trajeto ou peregrinação do vosso bom povo, Igreja de Cristo, que jamais quer se afastar do sonho da eterna reconciliação. Tudo no elevado e acendrado espírito de coragem profética, animado pela mais viva esperança, mesmo depois de mais de dois mil anos do nascimento de Jesus de Nazaré, contemplando boa parte da criatura humana e da criação em condições precárias. É o humano das pessoas num contexto infra-humano ou mergulhado naquilo que vai, radicalmente, contra a vontade de Deus.

A palavra de Deus nos convida ao amor verdadeiro, com todas as nossas forças, conscientes de que fomos criados para a eternidade e que na operante chama da esperança nada de desânimo nem decepção venha até nós. Que estejamos convictos da realidade da morte como nossa amiga, irmã e companheira inseparável, na esperança de contemplar o Deus da vida, face a face no céu, e saborear sua afável e terna misericórdia, na certeza de que nossa prece suba aos céus pelos nossos irmãos falecidos.

É a aurora da esperança que quer se eternizar sempre mais, num sim à vida dos irmãos e irmãs. Como é maravilhoso aprender com Santo Agostinho, ao contrariar o ocaso da vida! Na beleza de sua obra, “A cidade de Deus”, ele nos coloca diante da vida humana como um mistério de amor, segundo o projeto de Deus: “Dois amores estabeleceram duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena; e o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial”. Mesmo sendo enormes a saudade e a dor pela partida dos nossos entes queridos, que nossa humilde e confiante oração seja a de jamais perder de vista a esperança, na certeza da promessa da imortalidade, conforto e consolo garantido.

Com Dom Helder Câmara, na transitoriedade das criaturas, nenhuma circunstância se perde de vista: “Se eu pudesse, na caminhada de quem enfrentasse estrada sem fim, sem luz, sem companhia, faria surgir vagalumes alumiando o caminho e colocaria nem que fosse cigarra para quebrar sua solidão”. Encurtar a estrada da sombria e nefasta segregação, no isolamento obscuro que nos parece sem fim, só mesmo eliminando tudo que é odioso e arrepiante, consequência da falta de amor.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


27 de outubro de 2022

A fé dos pais aos filhos

Pe. Geovane Saraiva*

Jamais pensar numa catequese apócrifa, na evidente aparência de “coisa escondida ou oculta”. Nada de uma catequese duvidosa ou falsa, nas diversas novidades do mundo, até mesmo nos falsos ou apócrifos padres, como foi veiculado recentemente, e por meio deles se deveria falar tudo, a bem verdade. Catequese, sim, mas a partir de Jesus de Nazaré, uma catequese muito verdadeira e autenticamente abrangente, na vida concreta das pessoas, no alargado e grande sonho: catequese para os nossos tempos, atualizada, fecunda, na promessa de muitos e bons frutos.

A fé dos povos católicos passa, em grande parte, dos pais para os filhos, no modo como se chega ao primeiro anúncio e no encanto das crianças por Deus e por sua Santa Mãe, a Virgem Maria. O exemplo da mãe, ao reverenciar o crucifixo e o apontar com a mão, nos ajuda a pensar na catequese como missão da Igreja e riqueza para o mundo. Que se possa reafirmar a importância da catequese nos generosos e conscientes catequistas, sabedores de suas tarefas temporais, mas sem prescindir do serviço à Igreja, comunidade de fé e sacramento de salvação, fazendo-a florescer, numa Igreja inclusiva e solidária.

Como é maravilhoso considerar o processo catequético! A atenção que se dá, nas diversas circunstâncias, com a mão do pai ao fazer o sinal da cruz, sem esquecer de outros sinais, que se dão em família, através de inúmeras palavras e gestos, em que as crianças percebem e escutam aquilo que representa e diz respeito ao fundamento da fé, mas no mais amplo compromisso dos catequistas, em toda a caminhada evangelizadora, convencidos de que são criaturas dignas, na esperança de todos tomarem seu lugar em torno do mesmo alimento sagrado, com o “pão em todas as mesas”.

Pensar mesmo que o exemplo arrasta multidões, como no caso de os bebês se criarem sem o contato com os adultos, crescendo neles pouca “humanidade”, e os pais, ao comunicarem aos filhos o que eles carregam de melhor consigo aqui na face da terra, tendo como presente o futuro civilizatório, na cultura, convicção e costume de um povo, quando se escuta de crianças o que não se deve fazer, começando por maltratar plantas floríferas animais, passarinhos.

Como é magnífico o esforço dos pais! Ao viverem e testemunharem sua fé, no contexto familiar, os filhos os acompanham numa generosa e espontânea pedagogia, reconhecida depois como herança ou espólio de gratidão, mistério imorredouro que lhes foi comunicado, numa riqueza incomparável, com uma fé que é capaz de mover montanhas.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

19 de outubro de 2022

Concílio Vaticano II: 60 anos

Pe. Geovane saraiva*

O Concílio Vaticano II quis ser um essencialmente remédio, para a Igreja Católica no mundo moderno, desde o seu advento, em todo seu processo de ação evangelizadora, respondendo aos anseios e clamores do mundo moderno. Pensou João XXIII na criatura humana como um todo, restaurada e renovada, pela viagem de si mesma rumo ao incondicional e ao absoluto, percebendo o homem com um ser social, na sua íntima natureza, não sendo possível o mesmo viver sem desenvolver suas atividades, sem se relacionar com os demais seres humanos (cf. GS 12).

Como é indispensável pensar na imensa importância dos pequenos gestos e das pequenas iniciativas, que contribuem para a vida do mundo ser mais digna e melhor, mais agradável, respirável e bela, vida dos seres viventes, das pessoas e de todo o planeta! Que a humanidade possa se comprometer, através dos bons propósitos, com a constante busca e procura da vida, evidentemente associada à vontade divina.

O nosso Deus se manifestou, há 60 anos, através do Concílio Vaticano II (1962-1965), maior bênção, graça e dom oferecidos pelo Senhor Deus à Igreja no século XX, no projeto grande e planetário de São João XXIII, o Papa da “bondade”, através da ação e inspiração do Espírito Santo de Deus.

Pode até surgir a pergunta: Para onde foram as graças e os sinais de esperança com a reforma da Igreja?

Convém pensar na Igreja restaurada e reconciliada com o mundo, na promessa de uma nova primavera, em meio a guerras, destruição de florestas e outros tantos males, no comprometimento da vida no seu todo, nas visíveis manifestações contra a agressão ao meio ambiente. O mundo quer sinais generosos dos seguidores de Jesus de Nazaré, mas na direção do espírito do Concílio Vaticano II, ao não se distanciar do sonho esperançoso de João XXIII, o do mundo de hoje, renovado e reconciliado em Cristo, nos gestos e atitudes dos seres humanas.

No Concílio Vaticano II, Espirito Santo abriu um vasto caminho, que conduz a Deus e ao irmão. Resta para o seguidor de Jesus de Nazaré o esforço, e que seja gigantesco, no sentido se viver e conviver em paz, além de amar e servir o próximo, no justo pleito da Assembleia convocado por João XXIII, de comunidades fraternas, solidárias e inclusivas, fermentadas pelo Evangelho.

É obvio que o espírito do Concílio prossegue, mas quando a criatura humana, voltando-se para si mesma, desejosa de encontrar, na complacência e na clemência divina, seu esmerado nirvana, no empenho generoso e sincero, na factual concretização da maturidade humana, na relevante verdade divina em questão.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

14 de outubro de 2022

Livro: Gentileza do Papa Francisco, “No mundo de Fortaleza”.

 Augusto Pontífice agradece, 

ao invocar sobre Pe. Geovane Saraiva, seus familiares e fiéis da Paróquia Santo Afonso, Parquelândia, na Arquidiocese de Fortaleza, graças divinas e a Bênção Apostólica.



12 de outubro de 2022

Feliz retorno

Pe. Geovane Saraiva*

Na abertura ao infinito, ao mistério do eterno, a criatura humana é cheia de vontade, na qualidade de ser que deseja caminhar na direção do definitivo. Ultrapassa a si mesma, embora seja, por si mesma, reduzida e irrelevante, pela condição humana, no dizer de Dom Helder: "Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante, não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo". No pacto ou postulado da graça e pela vida, naquele em quem tudo consiste, por ser bondade deslumbrante, na luminosidade do ser infinito, está o nosso verdadeiro querer, no desígnio da plenitude divina, da criatura humana, ao adentar abismado na realidade do mundo, mesmo insuficiente na cordialidade complacente.

Tudo, evidentemente, a partir de Jesus de Nazaré, que é a “palavra”, o “verbo”, pessoa que, dele e por ele, se vê fundir numa só coisa: o mistério da sua obra redentora, da qual não pode se separar. Nele, razão da existência de todas as criaturas, de tudo o que existe (cf. o prólogo do Evangelho de João), se consuma, portanto, a vontade daquele que o enviou, com fiel consideração e desvelo, desde sempre e para sempre, verdade incontroversa, na qual tudo se estabelece e se instaura, na esperança da plena reconciliação.

Deus criou tudo por amor e, constantemente, somos convidados a participar da sua graciosa e perfeita obra criadora e vivificadora. Deus não se retira e jamais se afasta de sua operosa ação, no Universo que lhe pertence, ao estender sua mão onipotente, pacificadora e restauradora. Aquilo que Deus mesmo contemplou: “Tudo está muito bom” vai crescendo e evoluindo nas suas mãos,  na acolhedora concepção da criatura humana.

Na mais radical, irrefutável e incontestável dependência divina, o ser humano não imagina um Deus semelhante ao carpinteiro, escultor e pintor, que, depois de todo o procedimento, na condição de artesão e artífices, no acabamento de seus projetos, estes vão-se embora e se retiram do mundo, mesmo tendo contribuído para que o mundo fique mais formoso e atraente. A humanidade está agarrada e presa pelos laços do Espírito de Deus, que, além de sua existência, pode contar com sua subsistência, sendo luz e dia, luminosidade infinita que se irradia.

Discordância há e haverá, mas por causa do pecado, identificado com a liberdade humana, liberdade esta que, ao se desenvolver e evoluir, surge com ela o mal no seio do mundo, o qual, em maior ou menor grau, se traduz na plena capacidade de contrariar ou não a vontade divina. São as transgressões que caminha com a liberdade humana, através das inflações como fato inegável.

Pelo caminho paciente da cruz, que o espírito humano se volte para o Deus clemente, sempre indagando, no espírito comovido, na realidade maliciosa do mundo, própria da vida. Mas sem medo de dizer quando de verdade o pecado bate sua porta, no amor que sempre se renova: “Cometi grande pecado, com qual mal e descaso sou culpado sim, no aguardo do feliz retorno, isento de qualquer fardo!”. Amém!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

11 de outubro de 2022

Com Maria, nossa romaria!

 Pe. Geovane Saraiva*

Em nossa romaria com Maria, na teimosia e na persistência, nos resta a esperança! Tudo no compromisso resistente, no intenso vigor de jamais perecer. Eis o ensinamento vivamente presente: lutar sem nunca esmorecer!

Nossa missão aqui na terra é uma contumaz e obstinada romaria, como na canção: “Sou caipira, Pirapora / Nossa Senhora de Aparecida / Ilumina a mina escura e funda / O trem da minha vida”, mas na esperança da feliz e eterna romaria. Eis o nosso maior desafio: o de viver o Evangelho de Jesus. É mais que entendível e indiscutível o convite à conversão do nosso coração, na alegria de sempre mais redescobrir o amor verdadeiro, de nos inspirarmos no gesto da Mãe de Deus e de nos unirmos à Igreja, que nos convida a caminhar juntos, pelos dons do Espírito Santo, apropriando-nos da Solenidade de Maria, neste 12 de outubro, mês missionário.

Sabemos que cada pessoa, no exemplo acima mencionado, ao mergulhar na sabedoria divina, quer mais e mais exteriorizar, difundir e disseminar a ternura compassiva de Deus, carregando consigo, neste mundo, o segredo de seu mistério ou a razão de seu encargo ou dever de edificar o mundo e sua realidade contraditória. Embora se saiba que são muitos os que se encontram na aridez do deserto, também no seu calor escaldante e exaustivo procuram um poço de água, uma torrente miraculosa, no sentido de jorrar água redentora, a mesma de Maria no Rio Paraíba. É o amor transbordante de Deus que nos faz pensar, acima de qualquer metáfora ou alegoria, no mistério da Mãe de Deus.

Neste mês missionário de 2022 somos convidados a abraçar a proposta do Evangelho de Jesus, na compreensão generosa de que “A Igreja é missão”, “Sereis minhas testemunhas”, na ordem vital e irrecusável de Jesus: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Que Deus nos conceda a graça da consciência de que fomos criados para apreciar e valorizar seu Reino, em sua beleza, não num sentimento de tristeza, nos limites precários e na transitoriedade da vida, mas longe de ilusões e vantagens deste mundo, com um sentimento de viva esperança, anunciada no Magnificat: “O Poderoso fez em mim grandes coisas. Seu nome é santo e seu amor para sempre se estende sobre aqueles que o temem”.

Aventura magnífica, a partir de Michelangelo (1475-1564), pintor, escultor, poeta, arquiteto e gênio italiano, ao retratar, evidentemente através da arte, essa tese, de um modo indizível, mostra a Virgem Maria nas sete dores sofridas com o corpo de seu filho, Jesus, morto em seus braços, após a crucificação, com dores colossais e descomunais, que representam as dores da humanidade. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

6 de outubro de 2022

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e da capital federal

Olímpio Araújo*

Por que tão grande é o número de devotos de Nossa Senhora em todo este país imenso que é o Brasil? 

Pensar em Nossa Senhora, falar de Nossa Senhora, é-me inevitável a lembrança da letra de uma música de Roberto Carlos, intitulada Todas as Nossas Senhoras, especialmente o refrão: Minha mãe Nossa Senhora somos todos filhos seus / Todas as Nossas Senhoras são a mesma mãe de Deus.

Aí, o compositor expressa duas verdades que o católico deve ter sempre em mente: Maria é nossa mãe, este foi o último mandamento de Cristo, na sua vida terrena; e que Ela é venerada sob muitos títulos, ora relacionados às aparições (como em Fátima, e em Lourdes), ora a acontecimentos específicos, que é o casso de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.

Mas por que tão grande é o número de devotos em todo este país imenso, que é o Brasil? Pessoas que acompanham as missas, novenas, terços, e outros eventos, pela TV, pelo rádio e mídias sociais… E se deslocam em romarias, movimentos, pastorais e assembleias (nacionais ou do continente americano) — a lotar, muitas vezes, uma catedral que perde em tamanho apenas para a de São Pedro, no Vaticano? 

Busquemos, pois, a resposta a partir da História, a Mestra da vida (no dizer do orador romano Cícero).

A história de Nossa Senhora Aparecida 

Tudo começou em 1717. Os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, vão pescar nas claras águas (à época) do rio Paraíba do Sul, para prover o banquete com que a Vila de Guaratinguetá receberia o Conde de Assumar, Governador da Província de São Paulo e Minas, em passagem pela região, com destino à cidade mineira de Vila Rica (atual Ouro Preto). Muitas tentativas em vão. De repente “pescam” uma imagem sem cabeça; e, no lançamento seguinte, a cabeça, completando a imagem. Então, conseguem uma espantosa pesca, em volume descomunal. A imagem foi reconhecida como de Nossa Senhora da Conceição. E, os pescadores, devotos da Virgem Maria, viram no surgimento da imagem, junto com a pesca milagrosa, um sinal da Santa. 

As pessoas passam a visitar a imagem, com rezas e novenas. Nos primeiros anos, na casa de Felipe Pedroso. Com o número de devotos e visitantes sempre crescendo, construiu-se uma capela no Morro dos Coqueiros, em 1735. 

Os milagres 

E seguem os milagres atribuídos à Nossa Senhora Aparecida. Pomos, aqui, uma rápida síntese dos primeiros, citados pelo historiador de Aparecida Júlio J. Brustoloni (História de Nossa Senhora Aparecida: Sua Imagem e seu Santuário): 

Em noite sem vento, as velas do altar de Nossa Senhora apagam-se, para depois de algum tempo, voltarem a acender-se, sem a intervenção humana. 

O escravizado Zacarias, preso por grossas correntes, tem permissão do feitor para rezar no Santuário. E, ao rezar com fé, caem-lhe as correntes.

Um cavaleiro sem fé, querendo mostrar que toda aquela fé era bobagem tenta entrar no templo a cavalo; é impedido porque uma das patas do animal fica presa no piso da escadaria; e o cavaleiro, arrependido, torna-se devoto.

Uma menina cega de nascença, comenta, surpresa, com a mãe, diante da Basílica Velha: “Mãe, como é linda esta igreja!”.

Um garoto no rio (acompanhara o pai, numa pescaria); de repente é puxado pela correnteza. O pai, ao se sentir impotente para salvar o filho, suplica à Nossa Senhora Aparecida: logo a correnteza deixa de levar o garoto, que, parado, sobre as águas, é resgatado, vivo, pelo pai.

Um caçador, ao voltar de sua caçada já sem munição, vê-se encurralado por uma enorme onça. Ele suplica à Nossa Senhora Aparecida; a onça desiste de ataca-lo, e vai embora.

A devoção 

Aumentava, aos milhares, o número de milagres, de benefícios recebidos pelas mãos da Mãe Aparecida. E, assim, crescia, mais e mais, a veneração. E, consequentemente, os deslocamentos de romeiros à (por isso mesmo) progressiva cidade de Aparecida, antes modesto lugarejo encravado no Município de Guaratinguetá.

Foi necessária a construção de uma igreja mais ampla; a devoção passou a receber maior atenção das autoridades eclesiásticas. Assim, foi inaugurada, em 1888, a chamada Basílica Velha (hoje também conhecida como Basílica Histórica), que, depois, também foi insuficiente para comportar tanta gente. Então, edificou-se a majestosa e atual Basílica de Nossa Senhora Aparecida, que foi consagrada pelo papa João Paulo II em 1980. Era a coroação de um culto iniciado, espontaneamente, pelo povo simples, e reconhecido pela Igreja em 1743.

Uma imagem encontrada por humildes pescadores, na época em que se praticava no Brasil uma perversa escravidão de negros, comprados da África; enegrecida com o tempo, para ficar da cor dos cativos… Quebrada, a lembrar os maus tratos a estes seres humanos, tal como já se fizera com os indígenas, de quem foi tomada a terra… Um contexto ideal para que Maria chegasse e denunciasse a situação degradante; como quando, em silêncio, acompanhava o filho Jesus… 

Nossa Senhora presente 

E a injustiça social ainda persiste. Num mundo paradoxalmente tecnológico. E Nossa Senhora continua presente… No clamor de famintos e miseráveis de triste e curta vida, ao relento, misturados ao lixo; outros, trabalhadores (escravizados do século XXI), morando em barracos, buracos, favelas, de quando em vez eliminados por balas perdidas… Nos desesperados fugitivos de seus países, afundados em guerras civis e disputas pelo poder… 

Que, em mais uma edição das Festas de Nossa Senhora Aparecida, ressoe nos nossos ouvidos esses clamores, e o grito do Probrezinho de Assis: “O Amor não é amado!”.

Na certeza de que nossa generosa Intercessora jamais desiste dos que a invocam, e tem como filhos seus todos os filhos de Deus… 

Com confiança, recorramos à intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Ela conhece todas as nossas necessidades! Participe desta bela novena de Nossa Senhora Aparecida no Hozana (clique aqui para se inscrever).

Devotos, rezem!

Romeiros, clamem! Como em Romaria:

É de sonho e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

Sobre o meu cavalo

É de laço e de nó

De gibeira o jiló

Dessa vida cumprida a sol

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

O meu pai foi peão, minha mãe solidão

Meus irmãos perderam-se na vida

A custa de aventuras

Descasei, joguei, investi, desisti

Se há sorte eu não sei, nunca vi

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

Me disseram, porém, que eu viesse aqui

Pra pedir de romaria e prece

Paz nos desaventos

Como eu não sei rezar, só queria mostrar

Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora de Aparecida

 *Membro da AMLEF e ACLP. 

Pelo Hozana - publicado em 30/09/22