29 de dezembro de 2021

Esperança, sim!

Pe. Geovane Saraiva*

Deus veio ao mundo para conviver conosco e nos revelar sua verdadeira face; ele, riquíssimo que é, “fez-se pobre para nos enriquecer em abundância com sua pobreza”. Maria, criatura toda especial e também simples, humilde e pobre, quer nos acompanhar em 2022, o qual está se iniciando. Convém a todos assimilar o mistério da Mãe de Deus e também o mistério do Natal, como disse São Paulo VI: “O coração do Todo-Poderoso se abre! Por trás da cena do Presépio está a infinita ternura do Criador que ama. Em uma palavra: há infinita bondade. Deus, nos amando, quer tecer uma conversa com os homens, estabelecer relações de familiaridade conosco”.

A Mãe Santíssima quer revelar aquele exemplo inaudito dos reis magos, que, conduzidos pela estrela e iluminados pelo Espírito de Deus, peregrinaram até encontrar o Menino Jesus. É claro que o Deus Menino caminha conosco, não nos permitindo hesitar diante do cansaço da longa e incerta viagem da vida, mas esperançosa, por bondade e graça divina. A manifestação da glória de Deus, como luz das mulheres e dos homens de boa vontade, constata-se no plano salvífico, quando se percorre, na diversidade, o caminho da unidade, na busca da justiça e da paz.

Jamais devemos perder de vista a pequena cidade, aquela do verdadeiro pão, Belém, mas que dela saiu aquele que entrou para a História da humanidade, querendo uma única coisa: a sua restauração. É a graça de Deus a se manifestar como luz aos que se abrem e aceitam acolher o poder redentor de Deus, no reconhecimento de sua glória, no desejo de conquistar um mundo melhor, solidário e de irmãos. Com grande amor pela vida, digamos “sim” ao bom Deus, aguerridos, denodados e com disposição interior, no começo de mais um ano novo! O Ano Novo, na compreensão de que nossa vida consiste num passado, num presente — marcado pelos mesmos riscos e vulnerabilidade da família de Nazaré — e de um futuro (cf. Hb 13, 8).

Que se possa perceber o rosto da humanidade querendo dialogar, contendo nos olhos a fé e a esperança para ver o irmão, mesmo vendo sua face desfigurada, no imperativo de que a vacina agora possa chegar às crianças. Que chegue, sim, sem nenhum obstáculo a contrariar a ordem das coisas! Com os irmãos menores vacinados, sintamo-nos como filhos de Deus e irmãos uns dos outros, mais amparados, mais seguros e mais amados por Deus.

Que o Filho de Deus, que viveu a nossa mesma condição — de gente e criatura humana, dando aqueles mesmos passos, próprios da vida humana, na espera do tempo apropriado à missão —, nos ensine o bom desempenho dessa nossa vida, de acordo com Dom Helder: “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo (...)”. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

25 de dezembro de 2021

É Natal… E onde está Jesus?

 

É Natal… E onde está Jesus?

CHRISTMAS

Shutterstock | Yuganov Konstantin

Hozana - publicado em 24/12/21

Faça do seu coração uma manjedoura capaz de acolher esse Menino-Deus que quer nascer em nós

Que bom, o Natal! É uma festa animada, a cidade se enche de luz… Pernil de porco, peru (ou chester). As famílias se reúnem, troca de presentes… Podem até vir amigos, mas não abrimos mão, é festa da família!

Tem sido mais ou menos assim, em muitos lares, em muitas, muitas cidades do planeta. Nas praças e casas, decorações e festas, muitas vezes pomposas. Presépios os mais variados…

Não deveria ser assim… As canções falam claramente, mas, parece, não se reflete, ao ouvi-las. Como nesta, letra simples e direta:


“Então é Natal, e o que você fez?

O ano termina e nasce outra vez

Então é Natal, a festa Cristã

Do velho e do novo

Do amor como um todo


Então bom Natal

E um Ano Novo também

Que seja feliz quem

Souber o que é o bem


Então é Natal, pro enfermo e pro são

Pro rico e pro pobre, num só coração

Então bom Natal, pro branco e pro negro

Amarelo e vermelho, pra paz afinal


Então bom Natal

E um Ano Novo também

Que seja feliz quem

Souber o que é o bem“

Onde está Jesus?

Será que Jesus Cristo, motivo central da festa, não estaria a nos lembrar com veemência: Olha, vocês continuam dando atenção exagerada aos insinuantes apelos comerciais… Shoppings, poderes e repartições públicas, e casas, disputam as mais luminosas, as mais delirantes decorações. 

Mas não há lugar para os desvalidos e para os marginalizados… Ne mesmo em considerável parte das igrejas cristãs…

Não é que sejamos contra a alegria. E Deus também não é. Pelo contrário: “Eu vim para que todos tenham via, e vida plena” (jo 10:10). E alegria é vida…Mas vida plena quer dizer também vida de todos; e não de uma minoria. Como posso alegrar-me, eu e minha família, e meus amigos, sabendo que muitos passam fome? Depois da missa, do culto religioso e da ceia farta, das comemorações, repousar sobre macio travesseiro, enquanto muitos tentam dormir ao relento? Desconhecer que milhões de Irmãos e irmãs perambulam, vegetam, invisíveis, na indigência, na miséria?

Não penso num Deus irado, mas desapontado, com a sua mais perfeita obra… É Ele que grita: “Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?” (Marcos 9:19). Até quando olvidarão os meus preferidos, os pequeninos? Deixem as máscaras apenas na boca e nariz; tirem a venda dos olhos, amoleçam esses corações de pedra! E, assim, poderão contemplar ‘a obra nova’, que está surgindo para os justos e misericordiosos (Ap 21:5). Por que não conseguem enxergar?… Depois de tantos sinais…

O Senhor da História

Claro, o mundo e a humanidade se tornaram complexos, e a economia os rege… Mas não podemos esquecer o Senhor da História, “o alfa e o ômega”. Ele pôs toda a criação sob a autoridade, sob a administração dos homens, conforme os seus talentos. Talentos que estão sendo enterrados, com atitudes e cenas desagradáveis aos olhos do Senhor. , substituindo-o pelo ‘papai noel’… De onde surgiu essa bizarra figura? Se viesse de Deus, as crianças mais pobres seriam as primeiras contempladas… Não acham?

Que não percamos, porém, a esperança, façamos nossa parte. Na vivência do Natal, nas nossas comemorações, nos encontros familiares e sociais, vivamos o amor e a Paz do Senhor. Como deve ser o dia a dia dos cristãos. Afinal Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). E continua a se nos oferecer, como Pai amoroso: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. (Mt 11:29-30). E sua promessa é clara: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.” (Mt 28,20).

Fé e caridade

É certo que temos dificuldade em seguir esse caminho, essa verdade, a verdadeira vida… e sermos manos e humildes de coração… Somos frágeis; contudo, lutemos! Com fé, esperança e caridade (esta, especialmente). Afinal diz São Tiago: a fé sem obras é morta (Tg 2: 26). Demo-nos as mãos, e cuidemos uns dos outros, especialmente, os desvalidos, os pequeninos de Jesus. “… o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. (Mt 25:40).

Nisto se resumiu a vida de grandes santos, como Teresa de Calcutá e Dulce dos Pobres (o anjo bom da Bahia), e tantos e tantas, imitadores de Cristo e do “pobrezinho de Assis. É o que nos orienta o nosso Papa (o Francisco do século XXI), em diversas exortações, inclusive na que fez em relação à Vicência do Advento de 2022: empregos, distribuição de renda mais justa, vacinas para os países mais pobres, acolhimento aos migrantes… E que busquemos enxergar e apoiar todos excluídos e os sem-nada.

Assim poderemos entoar belos hinos nas nossas piedosas celebrações de Natal (Nasceu em Belém, a Casa do Pão):

“As nossas mãos se abrem

Mesmo na luta e na dor

E trazem pão e vinho

Para esperar o Senhor


Deus ama os pobres

E se fez pobre também

Desceu à terra

E fez pousada em Belém


As nossas mãos se elevam

Para, num gesto de amor

Retribuir a vida

Que vem das mãos do Senhor

(…)

As nossas mãos sofridas

Nem sempre têm o que dar

Mas vale a própria vida

De quem prossegue a lutar.“

Natal: fazer do coração uma manjedoura

Convido você a fazer do seu coração uma manjedoura capaz de acolher esse Menino-Deus que quer nascer em nós, mas que também se manifesta todos os dias em rostos invisibilizados. A rede social de oração Hozana oferece, nesse período, uma novena que ajudará você a preparar o seu coração para o verdadeiro Natal: Novena “Que no Natal o meu coração seja Manjedoura”. E, ao rezarmos esta novena, o nosso coração se prepare para o nascimento de Jesus. Clique aqui para rezar.

Enfim, vivamos o Natal de Jesus, o Salvador, com coração e alma abertos, como coroação do Advento, este riquíssimo tempo litúrgico. E mais: vivamo-lo, no decorrer de todo o ano, e de toda a vida, dádiva de Deus.

Olímpio Araújo, membro da AMLEF e ACLP, pelo Hozana

24 de dezembro de 2021

La Kristnaska Paradokso: Esperanto

Pe. Geovane Saraiva*

Estas multaj maltrankvilaj kaj senpaciencaj homoj, kun la buŝo plena da akvo, pensante pri la bongustaj manĝaĵoj de la kristnaska vespermanĝo. Aliflanke, estas multaj kripoj en la placoj, kaj ankoraŭ aliaj kun viaduktoj kiel tegmento, kie ni vidas malsatajn infanojn kaj malpurajn homojn. Al la senhomaj fratoj ĉirkaŭ nia preĝejo, en Parquelândia, ni ne neas refreŝigan banon, aŭ akvon por kvietigi soifon.

Iam, antaŭ jaroj, mi aŭdis la malriĉulojn plendi kaj priplori, ke "ilia" bona episkopo forlasos la diocezon, en sia 75-a naskiĝtago: "Kiu zorgos pri ni nun?". Kredante je la florado de justeco, garantiante al ni pacon abunde, mi esperas vidi kaj aŭdi, en la nuna tempo, solidarecajn gestojn de niaj episkopoj, “pastroj kaj patroj”, ĉiuj en la sama preĝo kaj samtempe en la sama puto, aŭ fonto, neelĉerpebla kaj senfina, sed bazita sur la maksimo: “Venu, Sinjoro Jesuo!”.

Maria volas instrui nin: Ŝi volas malfermi niajn okulojn, en la aŭdaca senco de la veneno de la serpento, dezirante iri multe preter nia homa kondiĉo, trudante limojn al la sava projekto de Dio, videbla en homa malfideleco; tamen Dio ne rezignas kredi en Siaj kreitaĵoj, kreitaj de Li, kiel en la propono de feliĉo, enkarniĝinta en la plej granda donaco de la ĉielo: Lia Filo, kaj de Maria.

Urĝas, ke ni diri "ne" al fermo kaj spirita blindeco, kiuj fontas el nia manko de solidareco kaj nesentemo al homa doloro, en tiu tiel diversa mondo, kontraŭe al la Dia volo, en la lumeco de kredado, el la neelĉerpebla fonto de Maria. Ŝi volas instrui al ni, ke la vera feliĉo konsistas el kaj superas "doni", plenumiĝante en "atendado", lasante la konduton de ĉio en la manoj de Dio, kiel en la leciono de sia Sankta Patrino, en kohera kaj neriproĉa serĉo, en la okuloj de la fido al la vera vivo.

En kristnaska tempo, ni sendas salutojn kaj preparas donacojn: la bondezirojn estu do pensitaj kaj faritaj kun vera amo, kaj donacoj, kohere, estu faritaj sen atendi esti reciprokataj. Tio ankaŭ helpus al ni vivi Kristnaskon kun ĝojo, ĉar doni alportas pli da ĝojo ol ricevi (kp. Agoj 20,35). Tiel estu!

*Pastro de Santo Afonso, bloganto, ĵurnalisto, verkisto, poeto kaj membro de la Metropola Akademio de Leteroj de Fortalezo (AMLEF)

*El la portugala tradukis esperanten:
Wandemberg Ribeiro Morais.



22 de dezembro de 2021

O paradoxo do Natal

Pe. Geovane Saraiva*

Tem muita gente ansiosa e irrequieta, com água na boca e com o pensamento nas iguarias da ceia de Natal. Por outro lado, são muitos os presépios das praças, também muitos deles encontrando-se amparados pelas sombras dos viadutos, lá embaixo, com crianças aos molambos, ou esfarrapadas, pessoas sujas ou aos trapos. Aos irmãos aqui da Praça da Igreja, na Parquelândia, não lhes negamos um banho nas dependências da paróquia, e nem baldes de água, igualmente eles todos sedentos.

Em uma ocasião, há anos, escutei os empobrecidos se queixando e lamentando por que o “seu” bom bispo ia deixar a diocese, ao completar 75 anos: “O que vai ser de nós?”. Na sólida confiança de que a justiça florirá, com paz em abundância (cf. Sl 71), quero ver e ouvir, hoje, gestos de solidariedade da parte dos bispos, “pastores e pais”, todos na mesma oração e no mesmo poço, ou fonte, inexaurível e interminável, mas a partir da máxima: “Vem, Senhor Jesus!”.

Maria quer nos ensinar, quer abrir nossos olhos, no ousado sentido do veneno da serpente, desejando ir muito além da nossa condição humana, impondo limites ao projeto salvífico de Deus, visível na infidelidade humana, mas que Deus não desiste de acreditar em suas criaturas, por ele criadas, como na proposta de felicidade, encarnada na maior dádiva do céu: seu Filho, na anuência de Maria.

Urge dizer um não ao fechamento e à cegueira espiritual, que têm como origem nossa falta de solidariedade e insensibilidade à dor humana, num mundo tão diverso, contrariando-se diante da vontade de Deus, na luminosidade do acreditar, a partir da nascente cabeceira, ou manancial, inesgotável de Maria. Ela quer nos ensinar que a verdadeira felicidade consiste, além da doação, em esperar, deixando a condução para Deus, como na lição de sua Santa Mãe, na busca coerente e irrepreensível, aos olhos da fé na verdadeira vida.

Neste tempo de Natal, enviamos saudações ou preparamos presentes: os melhores desejos devem ser pensados e feitos com amor verdadeiro, e os presentes devem ser feitos sem esperar que sejam retribuídos. Isso também nos ajudaria a viver o Natal com alegria, porque há mais alegria em dar do que em receber (cf. At 20, 35). Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

21 de dezembro de 2021

AGORA É NATAL

 Julio Lossio*

Em transe vago por minha imaginação. Começo a ver imagens embaralhadas do NATAL.

Logo identifico o NATAL COMERCIAL.

Nas casas dos privilegiados, luzes de todas as cores fazem a noite clara como o dia. Dentro, os convivas banqueteiam-se e jogam as sobras no lixo. Rios de espumantes correm a céu aberto. Na Árvore de Natal os presentes, e, a um comando, todos são abertos e os risos correm solto. Roupas, objetos e brinquedos antigos vão para o fundo de armários e nunca mais são usados. É a ostentação do consumismo.

Próximo dali, numa casa de taipa, uma única luz brilha como um pirilampo. Me aproximo e vejo uma vela.Adultos e crianças famintas mostram os ossos sob a pele. Todos, maltrapilhos. Crianças brincam com ossos, simbolizando os bovinos e equinos, que sonham ter algum dia. Todos olham para os céus pelas frestas do telhado, buscando o Papai Noel. Ele nunca passa ali.

Lembro do desperdício dos abastados. Quantas famílias não teriam a fome saciada, somente com o que foi jogado no lixo. As roupas estocadas no fundo dos armários, esquentariam os que têm frio e agasalhariam os maltrapilhos. Brinquedos jogados e quebrados, realizariam sonhos de muitas crianças. Como somos egoístas!

Uma lagrima solitária desce pelo meu rosto e espatifa-se no chão. É meu protesto.

Não gosto desse NATAL COMERCIAL.

Divagando volto ao passado e vejo o NATAL CRISTÃO. 

Nas casas, os presépios, terços puxados pelas matriarcas. A família reunida e a Missa do Galo. Todos homenageavam o recém-nascido, JESUS.

Hoje a instituição FAMÍLIA está desmoronando.

As escolas deixaram de ensinar e querem educar nossos filhos. 

O resultado são os analfabetos funcionais, que saem do ensino médio, é a morte do RESPEITO, pois a professora não é mais a MESTRA, é a TIA. Um a um, os valores familiares vão caindo por terra e com eles está morrendo a religiosidade e o patriotismo.

A educação é patrimônio dos pais, que geram meninos e meninas. A eles falam sobre sexualidade na hora certa e respeitam em nome do amor as opções dos filhos. 

Os pais plasmam o caráter e formam cidadãos, para servirem a Pátria, horarem a família e fazerem o BEM à humanidade.

Desperto, com o sentimento de querer minorar a dor daqueles sofredores e com saudades daquele NATAL CRISTÃO.

Minha conclusão é: JESUS é o caminho. 

Com a alma genuflexa, peço a ELE LUZ, para iluminar minhas andanças e a dos que me rodeiam. 

Peço FÉ, para tocar os corações e despertar em todos, o AMOR.

Peço ESERANÇA, para conquistarmos a FELICIDADE plena.

Meu Menino Jesus, se minhas preces forem atendidas, durmo tranquilo, pois fiz o BEM, aos necessitados e com certeza, despertarei num amanhã sem FOME e sem DOR. FELIZ NATAL.

Professor Aposentado da USP e UFC, Membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF) e da ABROL-CE

PENSANDO COMO ANDO!

Júnior Bonfim*

Que venha um novel novelo de doze avos! Que venha um novíssimo feixe de doze meses, um bloco extasiado de 365 dias! Que se esparrame, clara e gema espalhadas, o Ano que estala, estrelado, espraiado, estrepitoso, radioso!

Estou pensando como ando, após escalar a trilha íngreme e florida do platô existencial! Resolvi fechar as pálpebras para melhor enxergar os passes e impasses destes mais de vinte mil dias batismais sob os sóis e os sais elementares. A primeira, porque foi a que me gestou, a descoberta mais importante: o que vale, o que abre vala, o melhor da vida é o amor! O amor, cuja principal tradução é a magia da doação, foi o que levou o casal Jesomar e Rosária a uma copulação extasiante. Fui gerado sob as labaredas de um romance proibido, em uma cama de areia fria, à sombra de uma frondosa oiticica do riacho do Mondubim. (Depois vim a saber que o amor extrapola as fronteiras da afeição de um casal e encontra a foz da plenitude no mar da doação a todos os seres.) Na sequência, dois raios, duas rosas, a pala e a opala, a ciosa e a preciosa, a verdade e a bondade: a poesia e a espiritualidade.

Pensando como ando, recordo que, ao redor do quinto maio da minha andança vital, saboreie precocemente o sacramento da eucaristia inicial e, vestido em uma roupa branca como a flor do algodão, recitei em cima de uma mesa a primeira poesia. Desde então, a afeição ao movimento do desconhecido, a ciência e a reverência à transcendência, o culto ao império do mistério e a força que põe de pé o estandarte da fé se incorporaram ao leito da minha alma e me indicaram o itinerário da calma.

Pensando como ando, silenciosamente seguro a pá e com ela recolho o produto da lavra: a palavra! Esta escritura, a primeira para o novo ano, é espumada, como se as suas letras fossem as encantadas minúsculas bolhas fermentadas que se espalham pela superfície. Espumas brancas, eis o que brota desta crônica de inauguração anual; aliás, à Castro Alves, são espumas flutuantes! – como as palavras e os números: consoantes cardinais, vogais romanas, números!...

Pensando como ando, confesso que vez por outra me submeto à escravidão de uma profissão. (Na verdade não queria outra ocupação senão aquela da messe da alegria: a ocupação da melodia!) Queria que todos se afeiçoassem àquela que tudo cria: a usina da poesia!

Se eu tivesse que recorrer a uma miragem, um pontal, uma baía, um morro, uma reminiscência geográfica, um cortejo latitudinal, uma paisagem expressiva desse momento que estamos a iniciar, certamente haveria de transmudar para o platô referencial do meu Mondubim inicial.

Quando perambulava, com a tocha do deslumbre, à sombra das oiticicas da infância, as almas que mais me fascinavam eram as dos adivinhadores. Eles eram transfronteiriços, transversais e transcendentais! Simplesmente, voavam! Desconheciam limites entre céus e terra e revelavam o comportamento futuro da natureza, o advento do inverno, o humor dos bovinos, as ensinanças da noite, os mistérios da madrugada e aos mungidos da aurora. Não raro se sentavam na calçada alta do amplo alpendre do casarão do meu avô para compartilhar a heráldica invisível do sertão. Foi aí que nasceu a minha predileção especial pelos adivinhos. Descobri que o sacro ofício de adivinhar era trazer o divino para o nosso íntimo altar. Ou melhor: adivinhar era revelar a dimensão divina da arte de voar.

Minha fortuna começou quando me tornei sócio do amanhecer, parceiro dos córregos, perscrutador das raízes e admirador das germinações! Amanhã estarei viajando. Com este pé, latejando de fé, vou caminhando. Pensando como ando. E, invariavelmente, amando!

*Dr. Júnior Bonfim, da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (Amlef), advogado, poeta, escritor.

16 de dezembro de 2021

Esperança, ao sair das cinzas

 Pe. Geovane Saraiva*

Diante da escuridão dos corações humanos, armados, querendo rechaçar a luz ou mesmo dominá-la, que resplandeça a esperança no Sol da justiça, a partir do apóstolo Paulo, ao se encontrar com a luz do Senhor, que se apoderou dele no luminoso caminho para Damasco (cf. At 9, 3). Pela fé, todos os crentes podem perceber em seus corações a luz a fluir e emanar de Cristo. Paulo compara essa iluminação à do primeiro dia da criação, mas em Jesus de Nazaré, filho de Maria e do carpinteiro José, cogitando, evidentemente, desmanchar a montanha da falta de esperança, do orgulho, do egoísmo que está dentro de nós, contrapondo os dois reinos, o da luz e o das trevas, com suas respectivas armas e ações, para recomendar sempre a permanência da luz genuína e verdadeira (cf. Rm 13, 11).

A bela imagem de Cristo Salvador, apresentada como o cumprimento das prometidas profecias como luz do Senhor ao mundo, realiza-se na profecia de Isaías (cf. Mt 4, 16), e também em Zacarias, imagem essa anunciada como o Sol que do alto ilumina (cf. Lc 1, 78). Só mesmo no amparo de tão visível simbologia, de paz, justiça e da afável ternura, indo ao interior do coração das pessoas, querendo entrar na frágil existência humana. Ele, o Sol nascente, quer que plantemos boas sementes no mundo, aquelas compreendidas em profundidade por Dom Helder Câmara.

Os olhos dos homens estão obscurecidos pelo egoísmo violento do ódio, pelo pecado, pelos estímulos mundanos que os envolvem. Cristo veio para aclarar e acrisolar o horizonte do homem e abrir-lhe o caminho da salvação, por isso sua ação é um confronto com as trevas que cercam o homem e o mundo (cf. Jo 12, 46). Devemos plantar boas sementes neste Natal, mas quais sementes? Sementes de paz, amor e compreensão, do não ao egoísmo, de um ambiente leve, com bons e construtivos olhares, e de um coração fértil, grande e largo. Numa palavra: sementes de esperança.

São João, no seu Evangelho, apresenta Cristo como a luz que ilumina todos os homens (cf. Jo 1, 9). Ele coloca na própria boca de Cristo as palavras: "Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas" (cf. Jo 8, 12). Neste tempo de Advento e Natal, inspirados na profecia do nosso Isaías, ou Zacarias, brasileiro, Dom Helder Câmara, que possamos aprender com nossa boa gente da Parquelândia, sem esquecer das crianças da Infância e Adolescência Missionária e do Projeto Dom Helder, Arte e Missão de nossa Paróquia de Santo Afonso, "meninos e adolescentes maluquinhos da Auristela", saindo das cinzas neste tempo de pandemia.

Que o bom Deus, que faz arder e brilhar os corações da nossa gente, na condição de pessoas de fé como filhos da luz (cf. Lc 16, 8), nos inspire a olhar para a árvore de Natal, indo além do razoável, no desejo de se chegar ao essencial, ao menino pobre da manjedoura, no mesmo questionamento: "Quais sementes desejo espalhar pela terra? Sementes de paz, amor, compreensão e esperança. Há tanto desespero, desengano, decepção, frustração e desesperança! Sementes de esperança, sem dúvida, chegariam em boa hora". Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

8 de dezembro de 2021

Maria: pleno êxito da redenção

 Padre Geovane Saraiva*

Inicia-se, com Maria, o duelo entre a descendência da mulher e a da serpente, entre o bem e o mal. Depois da maldição daquela que carrega consigo tudo o que é ruim – a perversa e enganadora serpente –, Deus proclamou bem alto: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua posteridade e a dela”.

A luta e o duelo são um claro sinal, desde a origem da Santa Virgem Maria, de que Deus se preocupa com seu povo. Maria foi concebida sem nenhuma mancha ou pecado, na total integridade à vontade de Deus, em oposição completa às ciladas e solicitações do demônio, para que elevemos nossos pensamentos ao Filho de Deus, no seu triunfo e vitória, sendo ele da estirpe de Maria, com sua morte a nocautear os frutos do pecado.

Maria quer nos ensinar, quer abrir nossos olhos, no ousado sentido do veneno da serpente, desejando ir muito além da nossa condição humana, impondo limites ao projeto salvífico de Deus, visível na infidelidade humana, mas que Deus não desiste de acreditar em suas criaturas, por ele criadas, como na proposta de felicidade, encarnada na maior dádiva do céu: seu Filho, e de Maria.

Urge dizer um não ao fechamento e à cegueira espiritual, tendo como origem nossa falta de solidariedade e insensibilidade à dor humana, num mundo tão diverso, contrariando-se diante da vontade de Deus, na luminosidade do acreditar de Maria. Ela quer nos ensinar que a verdadeira felicidade consiste em esperar, deixando-nos conduzir por Deus, como na lição de sua Santa Mãe, na busca coerente e irrepreensível, aos olhos da fé na verdadeira vida.

A festa de Nossa Senhora da Conceição, bem dentro do espírito do Advento, enquanto nos preparamos para a vinda do Salvador da humanidade, ajusta nosso pensar e agir, a partir daquela que foi contemplada, no dom e graça de não carregar consigo pecado algum, porque devia ser a mãe de Deus e mãe da humanidade.

Não esqueçamos o Cardeal Aloísio Lorscheider, ao honrar a mais elevada de todas as criaturas: “Ela é a toda bela, toda pura, toda santa, a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra do seu povo, a nossa honra, garantindo o pleno êxito da redenção pela sua íntima participação na obra redentora do seu Filho”. Amém!

*Pároco de Santo Afonso, Blogueiro, Escritor e integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza


7 de dezembro de 2021

Dom Helder, no contexto dos Direitos Humanos

 Pe. Geovane Saraiva*

Dom Helder, no contexto dos Direitos Humanos, nos ensina o valor da oração, na sua humilde e simples súplica aos céus, ao apontar para um infinito de liberdade, no sonho da criatura humana integralmente livre, no compromisso por uma habitação harmoniosamente na presença de um Deus afável e amoroso. Da parte das pessoas, nada de se extasiar, quando se deparam com aparências, na maioria das vezes superficiais, enganosas e ilusórias. Viver, sim, mas acreditando no bem como condição elevada e suprema, a partir do mistério do grão ou da semente que nasce e cresce, mas que necessita da luminosidade incalculável, da luz aquecedora, germinadora do Sol, que, alegoricamente, resume-se na esperança, com seu fundamento em Deus. “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. Tirou das turbulências, das lamas do pântano, de todo tipo de obscurantismo, e pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos” (cf. Sl 40).

Pe. Geovane Saraiva com Dom Helder,
na Catedral de Brasília, 30/06/1980,
esperando São João Paulo II.
O Dia Universal dos Direitos Humanos, 10 de dezembro, nos faz voltar para Dom Helder Câmara: “Quem estiver sofrendo no corpo e na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado terá lugar especial no coração do bispo”. O Brasil e o mundo conheceram um Dom Helder sendo porta-voz dos injustiçados e dos empobrecidos, nas suas posições em favor de um mundo mais de acordo com a vontade de Deus, fraterno e solidário, numa Igreja encarnada, pobre e servidora. Conhecemos um Dom Helder na sua bravura e audácia, no respeito pelas pessoas e cheio de amor para com os sofredores, totalmente identificado com os Direitos Humanos.

A ninguém pode ser negada a liberdade fundamental, oriunda de Deus, apropriando-se de Dom Helder, pastor da paz e da ternura, que se sentia honrado quando, com inveja do seu protagonismo, o acusavam de utópico e sonhador, porque ele se aproximava do “cavaleiro andante”; e dizia-lhes com muita habilidade, segurança e convicção: “Comparar-me a Dom Quixote está longe de ser uma nota depreciativa”. E acrescentava-lhes: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”. Dom Helder, no Dia dos Direitos Humanos, nos convence do poder de Deus, eliminando todo tipo de sujeição, como no episódio da viúva de Naim: “Ao chegar perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a ser sepultado, filho único de uma viúva; acompanhava-a muita gente da cidade. Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: 'Não chores!'” (cf. Lc 7, 11-13). 

Como é maravilhoso, no Dia Universal dos Direitos Humanos, indignados num sentimento, não de choro, mas numa promissora esperança, recordar o Patrono dos Direitos Humanos! Aqui alguns dos seus sapientes pensamentos: “Mesmo que a maior angústia te visite e te acompanhe, não te deixes que ela reflita em teu rosto”; “O mundo agitado e triste precisa que leves contigo tua paz e tua alegria”; “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”; “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”; “Tenho pena, Senhor, dos sem abrigo, e mais pena ainda dos instalados, dos enraizados, que fizeram da terra morada permanente”. Recordá-lo, sim, como um referencial, arquétipo e irmão exemplar, no compromisso pela vida, dom e graça de Deus.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

2 de dezembro de 2021

O clamor de Deus no Advento

 Pe. Geovane saraiva*

Foto: Pe. Geovane Saraiva
Sítio Brejo-Aratuba -CE, 
 1º/12/2021.

O nascimento de uma criança, sobretudo de um filho homem, era para os israelitas um motivo de júbilo e alegria. O Primogênito ou Unigênito do Pai quer nascer, num clima auspicioso e promissor, em cada criatura humana, revestido da força do alto, convidando-nos neste tempo do Advento a nos voltarmos para o mistério de Deus, o mais elevado, que nos fala através de sua palavra salvífica, a qual quer revelar os caminhos divinos, exortando-nos a uma permanente vigilância.

O Natal é a grande festa da solidariedade de Deus para com a humanidade, já que vem um Salvador, no desejo de nos livrar do pecado e da morte. A Igreja também fala neste tempo concreto da história sobre a importância do serviço humanitário e solidário, vivamente presente entre os fiéis, seguidores de Jesus de Nazaré, sendo sua razão de ser no dom maior, unidos ao Papa Francisco: “No mundo atual, onde milhões de crianças e famílias vivem em condições desumanas, o dinheiro gasto e as fortunas obtidas no fabrico, manutenção e venda de armas, cada vez mais destrutivas, são um atentado contínuo que brada ao céu”.

Que na nossa preparação para o Natal do Senhor, ocasião para bem interiorizarmos a encarnação da salvação no mundo, em que estamos inseridos, deixemo-nos guiar pela luz do Salvador, que, segundo Santo Afonso Maria de Ligório, desceu das estrelas. Aquela criança, como as demais, depois de nascer na humilde manjedoura, foi envolvida em faixas (cf. Lc 2, 7). Oxalá, saibamos ouvir a voz de Deus, de não fechar o nosso coração, para que, no exemplo do mistério maior neste Advento, no nosso diálogo ou no encontro do céu com a terra, mas abismado, no desejo de que seja sempre mais reentrante e estreitado.

Caminhamos, na penumbra da fé, ao encontro da procedente “troca de dons entre o céu e a terra”, dentro de um ambiente nem sempre favorável, mas compreendido, no aviso divino, sempre renovado por mim, mas que nosso propósito didático chegue aos bons assimiladores, no recado de Dom Helder Câmara: “Quando houver contraste entre a tua alegria e um céu cinzento, ou entre a tua tristeza e um céu em festa, bendiz o desencontro, que é um aviso divino de que o mundo não começa e nem acaba em ti”.

Pasmados pelo mistério do Natal do Senhor, que nossas estradas sejam iluminadas, tendo, diante dos olhos e do coração, na mais cristalina compreensão, aquela máxima do profeta Isaías: “Acontecerá, nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará estabelecido no ponto mais elevado das montanhas e reinará nas colinas” (Is 2, 2). Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

24 de novembro de 2021

Teimosia: sinônimo de perseverança

 
A VERDADEIRA TEIMOSIA DEVE SER AQUELA REVESTIDA NA PERSEVERANÇA DO EVANGELHO* 

Jesus orientou os apóstolos para que estivessem preparados para os tempos difíceis. Ou seja, *Jesus despertava em seus seguidores a importância de ser constante (perseverante) no Evangelho quaisquer que fossem as origens das adversidades.*

Advertiu para a traição extrema: "Sereis entregues até mesmo por vossos próprios pais, irmãos, parentes e amigos."

Essa é a lição do Evangelho que devemos ter em mente. Pois, ninguém - nem pai, nem mãe, nem irmão, nem irmã, nem filho, nem filha, nem primo, nem prima, nem amigo e nem amiga - deve ser capaz de nos afastar do Caminho de Deus. 

Essas pessoas, como Jesus advertiu, estão em missão obscura quando traem o exercício cristão.

Respeitar Pai e Mãe significa obedecer aos guias terrenos que Deus nos concedeu, desde que cumpram com a condição imposta por ele: "Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor."

Fora disso não existe a figura do cristão como integrante da família e sim um simples ato de procriação como os demais animais.

Costumo dizer que para um homem descobrir se é perseverante deverá indagar de si próprio: Sou inconstante nas atitudes de minha vida? Em caso afirmativo ele saberá, reversamente, que a perseverança não habita em seu coração.

*Ser perseverante é não desistir!*

Ah, se todos os seres humanos teimassem, fizessem birra na defesa e exercício do Evangelho! 

Teimosia e birra são expressões sinônimas da perseverança.

Ah, se os pais aproveitassem esse potencial dos filhos teimosos (perseverantes) para direcioná-los no caminho da luz!

*Desejo ao mundo mais seres birrentos, teimosos, perseverantes na fé cristã!*

Fernando A T Távora

23 de novembro de 2021

Viagens: bênçãos e vantagens!

 Pe. Geovane Saraiva*

Serra do Baturité, estrada de
Mulungu -Aratuba-CE
Foto: Pe. Geovane Saraiva/arquivo

“Que toda a terra se prostre diante de vós, ó Deus, e cante louvores ao vosso nome, Deus altíssimo! (Sl 65). É a palavra de Deus que nos convida a realizar seu projeto de amor nas circunstâncias mais diversificadas, seja pelo trabalho, em tempo de férias ou em viagens. Confesso que meu limite, de não gostar de tirar férias, de não procurar visitar lugares novos, conhecer pessoas e realidades diferentes, de fazer coisas fora de minha rotina e do meu dia a dia. Também não gosto de viajar. Por outro lado, noto claramente como as pessoas ficam para cima e transfiguradas quando viajam, seja de automóvel ou de avião, quando vão de férias e se deparam com realidades novas. Como é maravilhoso! Em certa ocasião, há 11 anos, vindo de Cascavel-PR, encontrei em Cumbica, Aeroporto de Guarulhos-SP, Dr. Evilberto Freitas e Dra. Emair Borges, médicos e amigos, voltando de Paris, os quais, com enorme alegria e satisfação, falaram-me da belíssima viagem, usando a expressão: “Um verdadeiro banho de civilização!”.

Fortaleza-CE
Foto: Pe. Geovane Saraiva/arquivo

Mesmo sem gostar de avião e não ser de meu feitio viajar de férias, dos dias 21 a 24 do mês de janeiro do ano de 2014, nunca me esqueci de ter visitado a cidade de Ilhéus, no sul da Bahia. Confesso que foi para mim um verdadeiro banho de cultura, por que não dizer também de civilidade, olhando pelo lado histórico, cultural e religioso? E eu, na condição de sacerdote da Igreja Católica, escritor, colunista e blogueiro, tenho muito que aprender de uma cidade da altura de Ilhéus, nas suas profundas marcas históricas e raízes culturais, cantada em versos e prosas, no cenário nacional.

Ao chegar a Ilhéus, tive a preocupação de dar um profundo mergulho no contexto histórico na terra de Jorge Amado, alhures, parafraseando o poeta e escritor cearense Gonzaga Mota, “Além de gostar, sou um curioso”. Daí o cuidado de visitar com um olhar de curioso os pontos principais da cidade cacaueira, a saber: Vesúvio, Academia de Letras de Ilhéus, Casa Jorge Amado, Bataclan, Cartório Sá Barreto, Catedral São Sebastião, a Igreja de São Jorge dos Ilhéus e a Igreja do Colégio da Piedade, construção gótica belíssima (idos de 1920) das irmãs Ursulinas, sem me esquecer da cidade histórica de Olivença.

Na Academia de Letras de Ilhéus comprei um ótimo livro, “Minha Ilhéus”, de José Nazal Pacheco Soub, não somente pela sua dissertação, profundamente pedagógica, para aqueles que desejam melhor conhecer a história da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Correia, assinada em Évora, aos 26 de junho de 1534, mas também pelo seu conteúdo fotográfico, seu rigor técnico, obra que apresenta a realidade daquela cidade, sobretudo no século XX, época de grande influência literária, personificada no imortal dos imortais, Jorge Amado; ao mesmo tempo em que coincide com o apogeu da chamada “civilização do cacau”. Na página 123 encontra-se uma fotografia da visita de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao Porto de Ilhéus em construção, acompanhados de Jorge Amado e Zélia Gatai, aos 19 de agosto de 1960.

Um capítulo, das páginas 84 a 94, conta resumidamente a história da Igreja Católica, através da diocese centenária de Ilhéus. Aos 20 de outubro de 1913, o Papa Pio X erigiu a diocese de Ilhéus, com a bula Majus animarum bonum, isto é, para o bem maior das pessoas, por solicitação do então arcebispo metropolitano da Bahia, Dom Jerônimo Tomé da Silva, concomitante com as dioceses de Barra e Caetité, passando o estado da Bahia, por esse procedimento do Sumo Pontífice, a contar com quatro circunscrições eclesiásticas ou dioceses.

Ademais, mesmo sem esquecer-me das belíssimas praias da terra de Gabriela, Cravo e Canela, ainda me detive, superficialmente, sobre os nove bispos, os quais estiveram à frente daquela diocese centenária, voltando minha atenção para o 2º bispo, Dom Eduardo José Herberhold (1931-1939), um franciscano alemão, considerado um homem de Deus, concretamente nos gestos de profunda caridade pastoral, além de ser um verdadeiro pai para os padres. Outro franciscano, também alemão, marcou forte presença naquela Igreja do sul da Bahia, Dom Valfredo Bernard Tepe, o 8º bispo (1971-1995). Entre as muitas iniciativas, fundou a Escola de Teologia para os leigos, estimulou as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o Movimento Cursilho de Cristandade (MCC), o Encontro de Casais com Cristo (ECC), sem esquecer a fundação do Seminário Maior de Ilhéus, num marco histórico que foi para a diocese de São Jorge dos Ilhéus, a contar com um centro superior de formação para os seus sacerdotes e demais sacerdotes das dioceses do sul da Bahia.

Foram dias de graças e bênçãos! Que o bom Deus me dê sempre mais olhos para ver melhor dias de viagem como algo maravilhoso! De férias, ainda mais, inigualáveis! Conhecer novos lugares, novas realidades, culturas e pessoas é de verdade um banho de civilização. A partir do esforço da vivência da nossa fé cristã, num desejo de guardar no mais íntimo do íntimo a realidade bela de uns dias de férias, de acordo com o que nos assegura o Apóstolo Paulo: “Tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo!”.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

17 de novembro de 2021

Cristo é Rei, sim!

 Pe. Geovane Saraiva*

Pe. Geovane Saraiva, 1/11/2021
Mazagão, Capistrano-CE.
Em Jesus de Nazaré, temos a verdade do Reino de Deus, o filho de Maria e José, alfa e ômega. Nele, então, temos o Reino de Deus instaurado no meio da humanidade, no beneplácito desse mesmo Reino de amor, justiça e paz. Ao mesmo tempo em que Jesus postula, também conta com nossa acolhida, evidentemente criteriosa, nós que somos criaturas humanas, naquilo que é a essência do Reino, a partir das primeiras comunidades, que formaram a Igreja, em prelúdio ou no seu limiar, com a valorização da vida, florescendo em consonância com a vontade do Pai, pelos preceitos e crenças dos seus irrefutáveis valores.

Pe. Geovane Saraiva/Jardel Silveira,
Serra do Baturité/Mulungu-CE 31/9/2019
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Cristo Rei exige, dos seus seguidores, amor e solidariedade, diante da vida humana, desfigurada e estigmatizada pelo flagelo, que evidencia na ausência de dignidade: fome de toda sorte. Deus, que é Pai e amor, aspira e anseia por nossa afável ternura, no drama de milhares de seres humanos, sempre mais elevado e crescente, privados do que deveria ser básico e indeclinável para se sobreviver, sem esquecer sua bondade, mesmo num grande contingente de pessoas deslocadas: migrantes e refugiados.

Na solenidade de Cristo Rei, que seja uma palavra de ordem sonhar com uma Igreja constituída de comunidades, é claro, mas que carrega consigo o distintivo e emblema da fé e da esperança, no sonho do Papa Francisco, o de comunidades mais inclusivas, num não à apatia e à impassividade, no que diz respeito ao alimento da alma e do corpo. Nesse sentido, o anúncio é a salvação, e não a condenação. O Reino se edifica, pois, pelo homem que aceita Deus acima de todo e qualquer valor, não com palavras, mas na aceitação do Deus de Jesus de Nazaré, naquilo que ele é, resoluto, no destemor e na intrepidez: amor, justiça e verdade.

As comparações utilizadas por Cristo – como pesca, plantação, tesouro e fermento – revelam que o Reino de Deus se realiza aqui na terra, no dia a dia, por isso mesmo não cabe mais persistir num ambiente e clima desfavoráveis à sua mobilização. Cabe como dom e graça de Deus buscar o alcance de todos, tendo como compromisso neutralizar o flagelo das populações atingidas pela fome e pela miséria. Cristo é Rei, sim! Resta-nos convencermo-nos de seu bem supremo e absoluto e fazer com que Ele seja mais amado, percebendo-o na face de cada irmão.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

12 de novembro de 2021

Indulgência e gratidão

Pe. Geovane Saraiva*

Pe. Geovane Saraiva, 1/11/2021
Mazagão, Capistrano-CE.
O negacionismo, que desonra o propósito, no seu fundamentalismo torpe ou obtuso; tendo sido a causa fertilizadora do passado pouco edificado e nada profícuo da humanidade, continua, lastimavelmente, vivo e presente nos dias atuais. Resta-nos, num clamor por vida e dignidade, invocar a compaixão de Deus aos mentores e aos seus seguidores, tendo presente o afável convite a boas relações entre as pessoas, no que importa um amor persistente, mas a partir da misericórdia divina, que quer inspirar na criatura humana um sentimento de consternação para com seu semelhante, como na expressão bíblica: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (cf. Mt 6, 36), e também em: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (cf. Mt 9, 13). Temos também a conhecida parábola do “Bom samaritano” (cf. Lc 10, 30ss), na sua melhor compreensão, na sua maneira de se relacionar com o próximo.

Reconheçamos e sejamos agradecidos pela misericórdia divina e nela os comprazimentos recebidos, sem nunca nos esquecermos do dom da gratidão. O nosso Deus indulgente e clemente oferece e demonstra seu amor misericordioso para conosco, quando da nossa parte existe gratuidade. No dizer de São Bernardo de Claraval, Deus se retém em sua misericórdia, mas só quando por parte da pessoa humana se percebe falta de deferência, indulgência e gratidão.

Professor Airton de Farias com
Pe. Geovane Saraiva, 9/11/2021
No nosso mundo hodierno, constata-se excessiva ingratidão, aliada ao descompromisso com a lealdade. Num quadro de enfermidade, semelhante ou mais elevado do que aquele dos dez leprosos do Livro Sagrado (cf. Lc 17, 11-19), atingem-se e contaminam-se as estruturas, no que diz respeito à vida e ao convívio social, como se fosse um maldito padecimento. Que o espírito da Sabedoria divina, inflexível e imutável, renove tudo, fazendo-nos viver, sendo um reflexo da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus e imagem de sua Sabedoria ou misericórdia (cf. Sab 7, 26).

Particularmente, agradeço ao bom Deus pela visita honrosa do professor do IFCE, historiador e pós-doutor, Airton de Farias, no dia 9 de novembro de 2021, presenteando-me com seus livros; ele veio a mim como um humilde irmão; foi possível perceber o que disse dele o historiador Gustavo Brígido, entre outros: “Tornou-se embaixador do Ceará no mundo”, deixando-me edificado com suas publicações, livros mais que bons; ótimos! Unidos ao professor Airton de Farias e aos demais irmãos, que nossa oração suba aos céus, mas de maneira complacente, benevolente e tolerante, no sentido de que nossas atitudes e gestos possam percorrer a estrada do amor compassivo, na mais profunda gratidão.

Permita-me, pois, concluir com a oração do Rei Salomão: “Deus de nossos Pais, e Senhor de misericórdia, que todas as coisas que criastes pela vossa palavra, e que, por vossa sabedoria, formastes o homem para ser o senhor de todas as vossas criaturas, governar o mundo na santidade e na justiça, e proferir seu julgamento na retidão de sua alma, dai-me a Sabedoria que partilha do vosso trono e não me rejeiteis como indigno de ser um de vossos filhos, porque qualquer homem, mesmo perfeito entre os homens, não será nada se lhe falta a Sabedoria que vem de vós”. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

Processo de beatificação de brasileiro Dom Helder Câmara avança em Roma

Processo do bispo avança e muitos estão na expectativa para o anúncio da sua beatificação 

Processo do bispo brasileiro avança em Roma e muitos estão na expectativa para o anúncio da sua beatificação


Causa de beatificação de Dom Helder é avaliada pelo Vaticano desde 2019 (Celam)

Mirticeli Medeiros

Sínodo sobre a sinodalidade em andamento, e a pergunta: Dom Helder Câmara será beatificado no meio de uma das maiores consultas eclesiais públicas da história? Francisco pode elevar aos altares, em breve, o bispo brasileiro cuja trajetória ele mesmo disse admirar?

Conhecendo a forma como o pontífice atua, é provável. Lembram da Irmã Dulce? Ela foi canonizada na abertura do Sínodo da Amazônia, em outubro de 2019. E com esse reconhecimento, Francisco, na época, deu ênfase a um dos maiores lemas do seu pontificado: “uma igreja pobre para os pobres”. Deixou claro, com isso, em que direção deveria ser conduzida aquela assembleia especial.

Francisco não se comunica somente através de seus discursos improvisados e da forma peculiar com a qual se apresenta como pontífice romano. Ele tem uma capacidade única de ‘encarnar’ as próprias palavras. Acredita na força dos símbolos e do exemplo. E é certo que suas referências condizem não somente com seu estilo de governo, mas com o modelo de Igreja com o qual ele sonha.

É claro que o pontífice deverá seguir os protocolos próprios do órgão competente pelos processos de canonização. Ele não pretende dar ‘um jeitinho’ para que Dom Helder seja beatificado. Longe disso. Mas pode recorrer às leis canônicas que estão a seu favor.

Porém, como líder da Igreja Católica, ele pode, se considerar oportuno, declarar alguém “beato (ou santo) por aclamação”, que na linguagem técnica se chama beatificação/canonização equipolente. Nessa modalidade, quando se atesta que existe um culto consolidado à memória da pessoa, o santo padre pode dispensar o milagre atribuído à intercessão desse venerável. Por vias normais, segundo as regras da Santa Sé, a confirmação de uma cura inexplicável pela ciência é uma condição necessária para reconhecer a santidade de alguém. Francisco aplicou essa exceção algumas vezes. Só para citar alguns casos, ele fez isso com o jesuíta José de Anchieta, copatrono do Brasil, e o Papa João 23, em 2014.

Caso tudo seja feito em tempo hábil, sem declaração de equipolência, seria muito do agrado de Francisco (sem dúvida!) transformar em santo alguém que incorporou os ideais de uma igreja sinodal. Os escritos de Dom Helder estão aí para comprovar. Sua vida também. É por isso que a beatificação em si, principalmente pensando nesse sínodo que está em curso, é algo que pode ser cogitado sem medo.

E quem o difama é porque quer ofuscar sua importância para a Igreja do Brasil num período conturbado da história do país. Mais que combater a ditadura, ele foi porta-voz dos menos favorecidos. O ‘São Francisco de Assis da Terra de Santa Cruz’, com alguns fazem questão de chamá-lo. Generoso e de choro fácil, se emocionava até com as marchinhas de carnaval que eram entoadas pelas ruas de Recife. A imagem na qual ele aparece visivelmente emocionado, captada por uma tevê francesa, que circulou este ano pela internet, mostra alguém que entoa louvores a Deus ao som do frevo de bloco ‘Bom São Sebastião’. Bem Dom Helder. Aqueles poucos segundos de gravação o representam muito bem.

Dom Helder foi um dos grandes protagonistas do Concílio Vaticano II. E era muito respeitado por Paulo VI - que o nomeou bispo - e também por João Paulo II. Em sua visita ao Brasil, em 1980, o papa Wojtyla, ao cumprimentá-lo, o chamou de “irmão dos pobres e meu irmão”. E, ao contrário do que se pensa, os religiosos se admiravam mutuamente.

O bispo dos pobres, cuja luta em defesa dos direitos humanos foi interpretada como ‘comunismo’ pelos apoiadores do regime militar, não era mal visto por Roma, ao contrário do que se diz. Ele nunca recebeu nenhum tipo de advertência por parte da Santa Sé.

Desde 2019, está a cargo de Roma decidir sobre o futuro daquele que, para muitos, já é considerado um santo. Inclusive foi a Santa Sé a solicitar que todos os escritos, incluindo cartas privadas e programas de rádio que o prelado nordestino realizava, fossem encaminhados para a Congregação para a Causa dos Santo. Em agosto deste ano, o vice-postulador da causa, frei Jociel Gomes, confirmou que todo o material foi enviado por ‘malote diplomático’ através da Nunciatura Apostólica do Brasil.

Agora é aguardar. Se ele for beatificado, mais um motivo para que este sínodo entre para a lista de evento históricos. Será, verdadeiramente, uma assembleia com “cheiro de Concílio”. E ter Dom Helder como “seu patrono”, se assim o Papa o quiser, para muitos será muito bem-vindo..

Dom Total

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

5 de novembro de 2021

Berço amado e prezado

Pe. Geovane Saraiva*

Mesmo quando o dia é exaustivo e o cansaço físico parece dominar, resta-nos a oração a nos envolver ou incorporar por toda a vida humana, na sua completa extensão, tanto nos benefícios temporais quanto nos espirituais. A oração bem que nos desconserta, dando-nos mais do que um relaxamento, apontando-nos para o sentido da remissão dos pecados e da comunhão com Deus, sendo a mais pura e verdadeira esperança: a de experimentar a face de Deus, no mistério do prometido Monte Santo, da cidade de Sião ou da Jerusalém celeste. 

Pensemos, pois, na riqueza da oração, mas a partir da graça divina, no esforço por uma conduta coerente e exemplar, a ponto de pautar os rumos da nossa existência pelo conteúdo da oração, fundamento sólido, que não é passageiro nem terrestre. Deus quer que nos afastemos daquilo, por vezes comum, implorar a cura de doenças, o livramento de perigos mortais, calamidades e até castigo para os inimigos. A vida de oração consequente abre a mente e o coração humano, exige muito mais. 

Na oração, como é importante perceber e se levar em conta aquele contexto rítmico do povo de Deus! Com seus versos, ela deve ter um cunho poético, mas sem esquecer que deve vir do interior do coração, numa amplitude laboriosa, para os filhos da Igreja, orgulhosos, ao falar com Deus em prosa. A oração se distingue em súplica, penitência e ação de graças. É claro que a oração de penitência pode conter os mesmos elementos da oração de petição, mas a oração de gratidão consiste na invocação do santo nome de Deus, por seus favores, em Jesus de Nazaré, no mais elevado sentido, no sonho de todas as coisas reconciliadas no amor. 

Apropriei-me de um bom mergulho no dia 1º de novembro de 2021, num dia exaustivo, a partir daquilo que é absolutamente universal, tanto temporal como espiritual. É indescritível a gratidão a Deus, na nossa condição de humilde instrumento de seu amor e de sua paz, mesmo na realidade conturbada do mundo. Voltei para minha terra natal, Mazagão, Capistrano-CE, meu berço amado e prezado, indo bem nas origens, em nossa casa, a mesma que não existe mais. naquele lugar árido, mas querido por Deus, do notável e memorável Mazagão.

Foi um dia de bênçãos e de oração muito verdadeira. Emergi ou elevei-me, numa forte simbologia, com meus pés fincados no chão sagrado da minha terra, no lugar em que nasci e vivi minha infância, com meus pais, Agapito e Eliete, e quatro irmãos. Fui até fotografado diante da árvore lá existente, a qual nos aponta para a árvore da vida, a nos fecundar e encher de graça, como bem disse o Dr. Lúcio Alcântara, ao opinar sobre nosso comentário no Facebook: “É a volta de onde na verdade nunca saímos”. 

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).


30 de outubro de 2021

Oração Pe. Geovane Saraiva

 Pe. Geovane Saraiva*

Senhor, que Vossa bondade excelsa e suprema, na transitoriedade da vida, nos permita colocar em vossas mãos nosso LOUVOR E SÚPLICA DE ESPERANÇA! São preces de agradecimento e louvores por Vossa Sagrada Família, numa intenção rogativa e de clamor, recordando o profeta Eliseu, antes do profeta Elias de ser arrebatado por um carro de fogo, ao se voltar para o mesmo, seu predecessor sagaz e homem de Deus: “Peço-te que me dês uma porção dobrada do teu poder profético” (2 Rs 2, 9).

Pedimos-vos, por Vossa benevolência e graça, favorecer ao povo de Deus, Igreja de Cristo, o espírito de coragem profética, animado pela esperança, mesmo depois de mais de dois mil anos do nascimento de Jesus de Nazaré, contemplando boa parte da criatura humana e da criação em condições precárias. É o humano das pessoas num contexto infra-humano ou mergulhado naquilo que vai, radicalmente, contra a vontade de Deus.

A palavra de Deus nos convida ao amor verdadeiro, com todas as nossas forças, conscientes de que fomos criados para a eternidade e que na acesa chama da esperança nada de desânimo nem decepção venha até nós. Que estejamos convictos da realidade da morte como nossa amiga, irmã e companheira inseparável, na esperança de contemplar o Deus da vida, face a face no céu, e saborear sua afável e terna misericórdia, na certeza de que nossa prece suba aos céus pelos nossos irmãos falecidos.

Como é maravilhoso aprender com Santo Agostinho! Na beleza de sua obra, “A cidade de Deus”, ele nos coloca diante da vida humana como um mistério de amor, segundo o projeto de Deus: “Dois amores estabeleceram duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena; e o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial”. Mesmo sendo enormes a saudade e a dor pela partida dos nossos entes queridos, que nossa humilde e confiante oração seja a de jamais perder de vista a esperança, na certeza da promessa da imortalidade, conforto e consolo garantido.

Com Dom Helder Câmara, na transitoriedade das criaturas, nenhuma circunstância se perde de vista: “Se eu pudesse, na caminhada de quem enfrentasse estrada sem fim, sem luz, sem companhia, faria surgir vagalumes alumiando o caminho e colocaria nem que fosse cigarra para quebrar sua solidão”. Encurtar a estrada da sombria e nefasta segregação, no isolamento que nos parece sem fim, só mesmo eliminando tudo que é odioso e arrepiante, consequência da falta de amor.

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

23 de outubro de 2021

Igreja, povo de Deus

Pe. Geovane Saraiva*

Levar em conta a memória daqueles que não estão mais conosco, que partiram, que foram atingidos pela pandemia exprime, revela e representa aquele horizonte sonhado e esperançoso, dentro do mais profundo sentido da vida, segundo a vontade salvífica de Deus. Jamais esquecer de todas as pessoas, no anúncio luminoso da vida sem ocaso, lembrando aqui das vítimas da pandemia, homenageando-as, dentro do ângulo, ou enfoque, dos que passam pela dor da perda, não sendo possível ceder em paragens, ou em interrupções, tendo como garantia a esperança. Não é fácil o anúncio da esperança para uma realidade eclesial que não quer marcar presença no mundo do trabalho, da ciência e da cultura, com sua atenção um tanto quanto voltada para tudo que é moderno, mas no medo do aggiornamento (Igreja renovada ou rejuvenescida) de São João XXIII, também na pouca identificação com a Igreja, povo de Deus a caminho, do Concílio Vaticano II (1962-1965).

Tudo por Deus e por seu santo nome, “ontem, hoje e por toda a eternidade”, ele que só pode ser amor, incontroverso e irrefutável. Daí os valores do Evangelho, imprescindíveis à realidade atual do mundo tão diverso, no arcabouço estrutural com seu conteúdo inconteste aos sinais dos tempos, a provocar em nós e nas futuras gerações, em meio ao assistencialismo exacerbado, aquela utopia pacifista e libertadora, tão cristalinamente proclamada por Dom Helder Câmara (1909-1999), pedindo licença para o denominar, no seu pacto proclamado pela reconciliação humana, de “pequeno grande”, aluno brilhante que foi do Seminário da Prainha, em Fortaleza-CE.

Dom Helder bem que ajuda, quando se concebe uma Igreja parada, estática ou intimista, de cristãos batizados, dos que mais gostam da oração, da adoração, e não dispensam os sacramentos, com pouca incidência na vida concreta do mundo da sociedade. Também ao se imaginar, no saudosismo nostálgico, numa Igreja mais inclinada ao sagrado de outrora, longe de todo e qualquer compromisso social e transformador, estando ela de mãos dadas com as autoridades. Uma Igreja que percebe o demônio e dele quer se distanciar, quer ver facilmente seus filhos convertidos, sim, separada por quilômetros e quilômetros, no compromisso com as estruturas reais do mundo.

Como Dom Helder Câmara honra e engrandece nosso bravo povo brasileiro! Como referencial, que nos ajude, no sentido de antever o que nos é reservado, sem jamais perder de vista a ansiada e almejada esperança futura, desígnio e intento das mulheres e dos homens de boa vontade. Que a Igreja seja sensível e inclusiva, na opção pelos menos afortunados e empobrecidos, aquela mesma que não quer fugir do mundo, mesmo com traços burocráticos e estruturais, sendo uma comunidade de fé viva e lúcida, no renovado ardor missionário. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, jornalista, escritor, poeta e integrante da academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

22 de outubro de 2021

A MELHOR PARTE

Grecianny Carvalho Cordeiro* 

Nos últimos tempos, creio ser pertinente falar acerca das boas coisas da vida: das boas leituras, dos bons exemplos, das boas ideias... da melhor parte, porque a pior, nos já vemos e ouvimos diuturnamente, em especial, nos meios de comunicação, onde parece não haver espaço para o que há de bom nessa vida.

“A Melhor Parte” é o mais recente livro lançado pelo padre Geovane Saraiva, pároco de Santo Afonso, na Parquelândia, sob o selo da Sol Literário, editora jovem no mercado, mas que vem se destacando pelo trabalho sério e pelo primor de suas edições, a encargo da editora e, também escritora, Angélica Sampaio.

“A Melhor Parte” é um conjunto de artigos da lavra do padre Geovane, um homem dedicado ao sacerdócio e às letras, pois já possui diversos livros escritos, mantém um blog com milhares de acessos, além de participar de academias literárias, a exemplo da ALMECE – Academia de Letras dos Municípios do Ceará e da AMLEF – Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza.

O versátil padre, sobretudo, é um homem de bem, reconhecido em sua atuação pelo cuidado que devota aos mais humildes, aos integrantes da Paróquia de Santo Afonso e aos direitos humanos.

Em tempos de tantas dificuldades, de várias matizes, muitas delas provocadas pela pandemia, palavras de esperança e de fé sempre caem bem, mudanças para conosco e para com o mundo em nossa volta são necessárias porque “Deus quer entrar e pedir a colaboração de seus amigos, clamando um novo modo de pensar e agir” (p. 21).

O amor se faz cada vez mais necessário e “Deus quer dizer-nos que é necessário mais e mais convencermo-nos de que, quanto mais se ama, mais se aproxima de seus sinais salvíficos, no grande milagre do amor verdadeiro, daquele sem medida, em que não temeu coisa alguma” (p. 26). Diante de tanta intolerância, é preciso crer no amor “que vai ao encontro do essencial, mas simultâneo, no amor de Deus e no amor ao próximo, no pleno cumprimento da lei de Deus” (p. 192).

Deus é amor e misericórdia, é perdão e compaixão, e “manifesta sua desaprovação pela lógica perversa e discriminatória do mundo, de outrora e de hoje, querendo deixar claro, longe de qualquer dúvida, que a exegese nos parece boa, que todas as pessoas devem ser respeitadas, que são chamadas a uma vida com liberdade, como filhos de Deus,” (p. 162).

“A Melhor Parte” é um livro para refletir sobre nós, sobre a vida, sobre a humanidade. Que possamos sempre encontrar a nossa melhor parte. Assim seja!

*Promotora de Justiça, escritora, da Academia Cearense de Letras, do Instituo do Ceará, da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza.


21 de outubro de 2021

“A melhor parte”: Papa Francisco agradece

     Novo livro do Pe. Geovane Saraiva,

correspondência rara e singular do Santo Padre,

causando-me exultação graciosa ao acolhê-la!