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“Agradecemos o Papa Francisco, que quis abrir este ambulatório médico, dando mais um sinal concreto às pessoas sem moradia ou com dificuldades”, diz, em nota, Lucia Ercoli, diretora da associação ‘Medicina Solidária’, que com médicos e enfermeiros do Fundo de Assistência do Vaticano e da Clínica Universitária de Tor Vergata, organizou a iniciativa. “Todos aceitaram com grande paixão este novo desafio, que une o trabalho feito nos últimos anos nas periferias ao coração do cristianismo”, prossegue Lucia. A Associação já atua nos bairros romanos de Tor Bella Monaca, Tor Marancia, Montagnola e Regina Coeli. “Acolhemos o convite do Esmoleiro do Papa (Dom Konrad Krajewski, ndr) a atender o desejo do Papa e garantir consultas médicas e terapias para quem não poderia enfrentar seus custos”. Segundo a Dra. Ercoli, “há ainda muito trabalho a se fazer, principalmente nos bairros suburbanos, mas este novo posto, na Praça São Pedro, é um sinal de grande esperança”.
Fonte: Rádio Vaticano
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29 de fevereiro de 2016
Praça São Pedro: posto de saúde para pobres
MESTRADO: CEMITÉRIOS, EXTRAÇÃO DE AREIA E AGROTÓXICOS SÃO TEMA DE PESQUISAS
As dissertações produzidas pelo corpo discente do mestrado em Direito Ambiental da Dom Helder Câmara têm se destacado por abordar temas atuais, relevantes, e por vezes, inéditos. É o caso do trabalho produzido pelo mestrando Antenor Ferreira de Sousa Filho, que discute a sustentabilidade dos cemitérios.
“Sofremos com a falta de bibliografia sobre o tema. Este trabalho pioneiro será de grande valor para outros pesquisadores, principalmente da área do Direito”, afirmou Beatriz Costa, pró-reitora de pesquisa da Escola e orientadora do mestrando.
Para desenvolver a dissertação, Antenor abordou diferentes aspectos, como o surgimento e a história dos cemitérios, a possibilidade de contaminação das águas e a degradação ambiental, a tutela jurídica e a legislação atual, entre outros. O resultado é um texto multidisciplinar, que traz importantes contribuições.
“As políticas públicas oferecidas ao segmento mostraram-se incipientes, principalmente com relação aos cemitérios públicos datados antes das legislações federais em vigor”, analisou.
De acordo com a professora Marcelina das Graças Almeida, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), o mestrando foi extremamente corajoso ao abordar o tema, visto como ‘maldito’ por setores da academia. “Acham que é mórbido, sem atrativos. Por outro lado, há o pioneirismo. Certamente seremos lembrados pelos próximos”, apontou.
A defesa, realizada na terça-feira (23), contou ainda com a participação do professor Sebastien Kiwonghi, que integrou a banca examinadora ao lado de Marcelina e Beatriz.
Extração de areia
A mestranda Neide Duarte Rolim, por sua vez, analisou a extração de areia em cursos de água em Minas Gerais. “No Brasil, 70% de toda a areia produzida advém dos rios. A atividade contribui para o esgotamento de recursos que são essenciais para o ser humano, como a água, e causa impactos irreversíveis”, explicou.
Por outro lado, a pesquisadora apontou a importância do material para desenvolvimento econômico do país. “É um dos insumos mais utilizados – está nos celulares, placas de energia eólica, asfalto, pontes, hospitais”, completou.
Dessa forma, defendeu Neide, é necessário repensar a continuidade da extração de areia em cursos hídricos, principalmente porque os avanços tecnológicos apontam para alternativas, como a areia artificial. “Vários países como Espanha e Suécia já abandonaram há muito a extração da areia natural. Precisamos realizar esse debate”.
O trabalho foi avaliado pelos professores Maraluce Custódio (orientadora), Romeu Thomé e Jorge Tadeu de Ramos, que participaram da defesa na última semana.
Embalagens de agrotóxicos
Outro importante tema foi levantado pela mestranda Eunice França de Oliveira: a disposição final de embalagens vazias de agrotóxicos.
“Atualmente o Brasil consome cerca de 700 mil toneladas por ano de agrotóxico, destacando-se como maior consumidor mundial. A busca por maior produtividade e lucro por parte dos agricultores fez com que a utilização aumentasse cada vez mais, dando origem à devolução das embalagens”, afirmou.
Para desenvolver a dissertação, Eunice empreendeu ampla revisão bibliográfica e analisou a legislação sobre o tema, como a Lei 7802/89 e o Decreto 4074/2002. “Foram referenciais importantes”, apontou. A mestranda realizou ainda pesquisa de campo, na qual entrevistou 29 produtores rurais de São Joaquim das Bicas e Mário Campos.
“É uma ótima pesquisa, que levanta muitos dados. Merece elogios pelo esforço e pelos desafios certamente encontrados. No Brasil, o próprio Ministério da Agricultura utiliza os levantamentos realizados pelas empresas produtoras de agrotóxicos, ou seja, é muito difícil encontrar dados reais”, opinou o professor José Cláudio Junqueira, que integrou a banca examinadora. Também participaram os professores Élcio Nacur (orientador) e Rodolpho Barreto Sampaio.
“Sofremos com a falta de bibliografia sobre o tema. Este trabalho pioneiro será de grande valor para outros pesquisadores, principalmente da área do Direito”, afirmou Beatriz Costa, pró-reitora de pesquisa da Escola e orientadora do mestrando.
Para desenvolver a dissertação, Antenor abordou diferentes aspectos, como o surgimento e a história dos cemitérios, a possibilidade de contaminação das águas e a degradação ambiental, a tutela jurídica e a legislação atual, entre outros. O resultado é um texto multidisciplinar, que traz importantes contribuições.
“As políticas públicas oferecidas ao segmento mostraram-se incipientes, principalmente com relação aos cemitérios públicos datados antes das legislações federais em vigor”, analisou.
De acordo com a professora Marcelina das Graças Almeida, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), o mestrando foi extremamente corajoso ao abordar o tema, visto como ‘maldito’ por setores da academia. “Acham que é mórbido, sem atrativos. Por outro lado, há o pioneirismo. Certamente seremos lembrados pelos próximos”, apontou.
A defesa, realizada na terça-feira (23), contou ainda com a participação do professor Sebastien Kiwonghi, que integrou a banca examinadora ao lado de Marcelina e Beatriz.
Extração de areia
A mestranda Neide Duarte Rolim, por sua vez, analisou a extração de areia em cursos de água em Minas Gerais. “No Brasil, 70% de toda a areia produzida advém dos rios. A atividade contribui para o esgotamento de recursos que são essenciais para o ser humano, como a água, e causa impactos irreversíveis”, explicou.
Por outro lado, a pesquisadora apontou a importância do material para desenvolvimento econômico do país. “É um dos insumos mais utilizados – está nos celulares, placas de energia eólica, asfalto, pontes, hospitais”, completou.
Dessa forma, defendeu Neide, é necessário repensar a continuidade da extração de areia em cursos hídricos, principalmente porque os avanços tecnológicos apontam para alternativas, como a areia artificial. “Vários países como Espanha e Suécia já abandonaram há muito a extração da areia natural. Precisamos realizar esse debate”.
O trabalho foi avaliado pelos professores Maraluce Custódio (orientadora), Romeu Thomé e Jorge Tadeu de Ramos, que participaram da defesa na última semana.
Embalagens de agrotóxicos
Outro importante tema foi levantado pela mestranda Eunice França de Oliveira: a disposição final de embalagens vazias de agrotóxicos.
“Atualmente o Brasil consome cerca de 700 mil toneladas por ano de agrotóxico, destacando-se como maior consumidor mundial. A busca por maior produtividade e lucro por parte dos agricultores fez com que a utilização aumentasse cada vez mais, dando origem à devolução das embalagens”, afirmou.
Para desenvolver a dissertação, Eunice empreendeu ampla revisão bibliográfica e analisou a legislação sobre o tema, como a Lei 7802/89 e o Decreto 4074/2002. “Foram referenciais importantes”, apontou. A mestranda realizou ainda pesquisa de campo, na qual entrevistou 29 produtores rurais de São Joaquim das Bicas e Mário Campos.
“É uma ótima pesquisa, que levanta muitos dados. Merece elogios pelo esforço e pelos desafios certamente encontrados. No Brasil, o próprio Ministério da Agricultura utiliza os levantamentos realizados pelas empresas produtoras de agrotóxicos, ou seja, é muito difícil encontrar dados reais”, opinou o professor José Cláudio Junqueira, que integrou a banca examinadora. Também participaram os professores Élcio Nacur (orientador) e Rodolpho Barreto Sampaio.
Redação Dom Total
ALÍVIO NA CONTA DE LUZ NÃO DEVE IMPEDIR ESTOURO DA META DA INFLAÇÃO EM 2016
A redução de 6% a 6,5% estimada pelo governo para a conta de luz em abril, quando deixará de vigorar a cobrança extra na tarifa de energia elétrica, deverá trazer alívio à inflação oficial no mês, segundo analistas consultados pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, que estão refazendo suas estimativas para a inflação de abril. No entanto, para 2016, as previsões de IPCA continuam acima do teto da meta, de 6,5%.
Para o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, a atual projeção de inflação do governo, de 7,1%, pode ser reduzida. "O ministro de Minas e Energia colocou um dado importante, que é a expectativa de mudança da bandeira tarifária com redução de preços a partir de abril", disse Barbosa, durante o primeiro dia do encontro financeiro das 20 maiores economias do mundo, o G-20.
Com o fim da cobrança, o sistema tarifário terá cor verde a partir do dia 1º de abril. O fim da cobrança extra na conta de luz será possível porque o governo decidiu desligar mais 15 usinas térmicas no início de março. Sem esses empreendimentos, será possível poupar cerca de R$ 8 bilhões por ano.
A LCA Consultores reduziu a estimativa para o IPCA de abril em 0 10 ponto porcentual, de 0,78% para 0,68%, após a decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). "Nosso cenário previa bandeira verde apenas em junho", disse o economista Fábio Romão. "Houve apenas um deslocamento do impacto negativo sobre a inflação, uma antecipação de junho para abril", ponderou. Para 2016, a projeção permanece em 7,4%.
O economista Leonardo França Costa, da Rosenberg Associados, esperava a mudança na cor da bandeira somente em maio. Com isso, a consultoria alterou a expectativa para o IPCA de abril de 0 79% para 0,69%, mas a previsão para o mês de maio segue em 0 58%. O mesmo acontece com a projeção para o IPCA de 2016, que continua em 8%. "Por enquanto não muda. Só houve uma antecipação. Apenas mudou o mês", ressaltou França Costa.
Já a Votorantim Corretora calcula uma contribuição negativa de 0 20 ponto porcentual no IPCA no mês de abril, com a previsão saindo de alta de 0,75% para 0,55%. A projeção para o índice de maio caiu para cerca de 0,50%, ante previsão anterior em torno de 0,70%. Como a mudança já era esperada em algum momento do ano a expectativa de IPCA em 7% no fim de 2016 não foi alterada. "É um alívio que desaparece rápido", disse o economista Carlos Lopes.
A Tendências Consultoria não contava com a adoção da bandeira verde em nenhum momento de 2016. "Deve dar alívio importante, na faixa de 0,16 ponto porcentual", estimou o economista Marcio Milan, sobre o resultado de abril
Agência Estado
ÁUSTRIA ACUSA GRÉCIA DE 'AGÊNCIA DE VIAGENS'
País encaminha os requerentes de asilo para outros destinos europeus, em vez de acolhê-los.
O chanceler da Áustria, Werner Fayman, acusou neste domingo (28) a Grécia de se comportar "como uma agência de viagens", por encaminhar os requerentes de asilo para outros destinos europeus, em vez de acolhê-los no país.
"Eu não compreendo a política dos gregos. É inaceitável que a Grécia atue como uma agência de viagens", que encaminha os refugiados para outros destinos europeus, criticou Werner Faymann ao jornal diário Österreich. O chanceler acrescentou que a Grécia recebeu no ano passado 11 mil requerentes de asilo e a Áustria, 90 mil.
O desentendimento entre Viena e Atenas intensificou-se depois de a Áustria ter definido, há cerca de uma semana, cotas para imigrantes que pretendam entrar em seu território, imitando os seus vizinhos nos Balcãs, o que criou um gargalo na Grécia.
A Áustria, que tem 8,5 milhões de habitantes, enquanto a Grécia tem aproximadamente 11 milhões, afirma que é um dos países da União Europeia que acolheram mais migrantes por habitante no ano passado, depois da Suécia.
O país aceitou receber cerca de 37,5 mil refugiados suplementares este ano. Algo que, se fosse aplicado em toda a União Europeia, permitiria acolher 2 milhões de migrantes, segundo Werner Faymann.
Em 2015 alcançaram as costas gregas a partir da Turquia cerca de 851 mil migrantes e refugiados, com 103 mil salvos pela guarda costeira. A maioria era proveniente da Síria (57%), do Afeganistão (24%) e do Iraque (9%).
Atenas argumenta ter gasto mais de 350 milhões de euros apenas em operações de resgate, transporte, acolhimento e realojamento dos refugiados. Dos 446 milhões de euros de financiamento prometidos por Bruxelas - com um quarto desse valor a ser pago pelos contribuintes gregos -, foram disponibilizados apenas 33 milhões de euros para dar resposta à crise migratória.
Agência Brasil
LIÇÕES DE TOLSTÓI
Em ‘Guerra e paz’ o escritor nos ensina como a humanidade vai deixando para trás o seu pior
Por Mario Vargas Llosa*
Li Guerra e Paz pela primeira vez há meio século, em um volume único da Pléiade, durante as minhas primeiras férias remuneradas pela Agência France Presse, em Perros-Guirec. Estava escrevendo naquele período o meu primeiro romance, e vivia obcecado com a ideia de que, diferentemente do que ocorre com outros gêneros literários, a quantidade, no romance, era um ingrediente essencial da qualidade; de que os grandes romances costumavam ser também romances grandes –longos— porque abrangiam tantos aspectos da realidade que davam a sensação de expressar a totalidade da experiência humana.
O romance de Tolstói parecia confirmar milimetricamente essa teoria. A partir de um começo frívolo e mundano naqueles salões elegantes de São Petersburgo e de Moscou, com aqueles nobres que falavam mais em francês do que em russo, a história ia descendo e se espraiando por toda a complexa sociedade russa, expondo-a com toda a sua ilimitada gama de classes e tipos sociais, dos príncipes e generais aos servos e camponeses, passando pelos comerciantes e as senhoritas em idade de casar, os libertinos e os maçons, os religiosos e os aproveitadores, os soldados, os artistas, os arrivistas, os místicos, até envolver o leitor na vertigem de ter sob os seus olhos uma história na qual atuavam todas as variações possíveis daquilo que é humano.
Em minha lembrança, o que mais se destacava nesse romance eram as batalhas, a odisseia extraordinária do velho general Kutúzov, que, de derrota em derrota, vai aos poucos desgastando as tropas napoleônicas invasoras até que, com a ajuda do inverno brutal, da neve e da fome, consegue acabar com elas. Na minha cabeça, firmava-se a falsa ideia de que, se fosse preciso resumir Guerra e Paz em uma só frase, daria para dizer que se tratava de um grande mural épico sobre como o povo russo rechaçou as empreitadas imperialistas de Napoleão Bonaparte, “o inimigo da humanidade”, e defendeu a sua soberania; ou seja: um grande romance nacionalista e militar, de exaltação à guerra, à tradição e às supostas virtudes castrenses do povo russo.
Constato agora, nesta segunda leitura, que eu estava enganado. Longe de apresentar a guerra como uma experiência virtuosa na qual se forjam o moral, a personalidade e a grandeza de um país, o romance a expõe com todo o seu horror, mostrando em cada batalha –especialmente na alucinante descrição da vitória de Napoleão em Austerlitz— a monstruosa carnificina que ela provoca, a penúria e as injustiças que atingem os homens comuns, que constituem a maioria de suas vítimas; assim como a estupidez macabra e criminosa daqueles que detonam essas tragédias falando em honra, em patriotismo, em valores cívicos e militares, palavras cujo vazio e cuja pequenez se mostram evidentes aos primeiros disparos dos canhões. O romance de Tolstói tem muito mais a ver com a paz do que com a guerra. O amor à história e à cultura russa que indiscutivelmente o impregna não exalta em nada o som e a fúria das matanças, mas sim aquela vida interior intensa, cheia de reflexão, de dúvidas, a busca da verdade e o esforço em fazer o bem aos outros, tudo isso encarnado no bondoso e pacífico Pierre Bezúkhov, o herói do romance.
Longe de apresentar a guerra como uma virtuosa experiência, a novela a expõe em todo seu horror
Embora a tradução de Guerra e Paz para o espanhol que estou lendo não seja excelente, a genialidade de Tolstói se faz presente a cada passagem, em tudo o que ele relata, e mais no que oculta do que no que explicita. Seus silêncios são sempre eloquentes, comunicam algo, estimulam a curiosidade do leitor, que fica preso ao texto, ansioso para saber se o príncipe Andrei finalmente declarará o seu amor a Natasha, se o casamento combinado realmente acontecerá, ou se o excêntrico príncipe Nikolai Andreiévitch conseguirá impedi-lo. Não há quase nenhum episódio no romance que não deixe algo no ar, que não se interrompa deixando de revelar ao leitor algum elemento ou informação decisivos, de modo a fazer com que sua atenção não diminua, se mantenha sempre ávida e alerta.
É realmente extraordinário como em um romance tão amplo, tão diversificado, com tantos personagens, a trama é sempre conduzida com tanta perfeição por um narrador onisciente que nunca perde o controle, que delimita com absoluta maestria o tempo dedicado a cada um, que vai avançando sem descuidar nem preterir de nenhum deles, dando a todos o tempo e o espaço apropriados para fazer com que tudo avance conforme avança a própria vida, por vezes muito vagarosamente, por vezes em saltos frenéticos, com suas doses diárias de alegrias, tragédias, sonhos, amores e fantasias.
Nesta releitura de Guerra e Paz, percebo algo que não tinha entendido na primeira vez: a dimensão espiritual da história é muito mais relevante do que aquilo que se passa nos salões ou no campo de batalha. A filosofia, a religião, a procura de uma verdade que torne possível distinguir claramente o bem e o mal e agir a partir disso são preocupações centrais dos principais personagens, inclusive dos chefes militares, como o general Kutúzov, personagem deslumbrante, que, apesar de ter passado a vida inteira em combate –ainda se nota a cicatriz deixada por uma bala atirada pelos turcos e que lhe atravessou o rosto–, é um homem eminentemente ético, desprovido de ódio, de quem se poderia dizer que faz a guerra porque não há alternativa e alguém tem de fazê-la, mas que preferiria dedicar seu tempo a tarefas mais intelectuais e espirituais.
Embora, “falando friamente”, as coisas que acontecem em Guerra e Paz sejam terríveis, duvido que alguém saia de sua leitura entristecido ou pessimista. Ao contrário, o romance nos transmite a sensação de que, apesar de todo o mal que há na vida, da fartura existente em matéria de canalhices e pessoas vis que querem sempre levar a melhor, no fim das contas os bons são em número maior do que os maus, os momentos de prazer e de tranquilidade são maiores do que os de amargura e ódio, e que, mesmo que isso nem sempre seja evidente, a humanidade vai aos poucos deixando para trás aquilo que ela ainda carrega consigo de pior, ou seja, de uma forma frequentemente invisível, vai melhorando e se redimindo.
O maior feito de Tolstói, como o de Cervantes ao escrever Dom Quixote, o de Balzac com a sua Comédia Humana, o de Dickens com Oliver Twist, o de Victor Hugo com Os Miseráveis, ou ainda o de Faulkner com sua saga sulina, foi, provavelmente, este: mesmo nos fazendo mergulhar nos esgotos da vida humana, seus romances injetam dentro de nós a convicção de que, apesar de tudo, a aventura humana é infinitamente mais rica e apaixonante do que as misérias e as baixezas que também existem nela; que, vista em seu conjunto, de uma perspectiva mais serena, ela merece ser vivida, nem que seja apenas porque, neste mundo, podemos viver não apenas das verdades, mas também, graças aos grandes romances, das mentiras.
Não poderia encerrar esta coluna sem fazer em público uma pergunta que está martelando dentro de minha cabeça desde que eu soube do fato: como foi possível que o primeiro prêmio Nobel de Literatura tenha sido dado a Sully Prudhomme e não a Tolstói, que também concorria a ele? Será que não estava tão claro na época, como está agora, que Guerra e Paz é um desses raros milagres que só acontecem no universo da literatura a cada cem anos?
*Mario Vargas Llosa é escritor e cronista. Este texto foi publicado originalmente no El País.
CONSUMISMO VORAZ
O planeta não suporta mais o padrão de consumo avassalador de 20% da população mundial.
Por Marcus Eduardo de Oliveira*
Com um padrão de consumo avassalador, alimentado pela voracidade consumista de 20% da população mundial (1,4 bilhão de pessoas) residente nas sociedades mais abastadas, o Planeta Terra apresenta sinais de completo esgotamento, não suportando os atuais níveis de produção e consumo expansivos.
Não por acaso, 10% da terra fértil do planeta já se transformou em deserto. Por ano, são perdidos 7 milhões de hectares. Simplesmente, 60% dos principais serviços ecossistêmicos estão deteriorados.
Nos últimos 50 anos houve uma perda de 35% dos manguezais, 40% das florestas, 50% das áreas alagadas. Atualmente, os estoques de peixes estão 80% menores e a área cultivada de todo o Planeta cobriu 25% da superfície da Terra.
Para reverter esse quadro é urgentemente necessário (re)organizar a sociedade produtiva conciliando o desenvolvimento econômico com a promoção do desenvolvimento social e o equilíbrio ecológico, respeitando, acima de tudo, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, ou seja, a base e o suporte da atividade econômica.
A noção central em relação a isso é a de compatibilizar as dimensões econômica, social e ambiental. Esse é o ponto-chave para tentar superar o dilema dicotômico entre a política de crescimento econômico e a necessidade de se preservar o equilíbrio ecológico.
Por isso o posicionamento ecológico deve estar acima do pensamento econômico tradicional
Busca-se com isso cumprir três princípios básicos que estão referenciados no conhecido Relatório Brundtland, do já longínquo ano de 1987: 1) desenvolvimento econômico (aspiração imanente da humanidade); 2) proteção ambiental (cuidado para com a Casa Comum); e, 3) equidade social (inclusão dos excluídos).
Para superar essa dicotomia, tem-se um evidente questionamento do ecologismo sobre a racionalidade econômica, tendo em conta que essa última, pelas lentes do pensamento neoclássico (tradicional), pouca importância tem conferido às consequências ambientais advindas do intenso e frenético estímulo ao crescimento econômico.
Por sinal, alcançar de forma invasiva o crescimento da economia a qualquer “custo” se transformou, de tempos para cá, numa espécie de obsessão da macroeconomia convencional, ignorando que tal fato ocasiona graves distúrbios na biosfera, pondo em risco a base de sustentação da vida.
É exatamente por esse tipo de “invasão econômica” provocada pelo crescimento que os recursos naturais são dilapidados, expondo de igual maneira os principais ecossistemas.
Continuar estimulando a aceleração do crescimento produtivo na prática apenas aumenta de forma substancial a perda de diversidade biológica e ecossistêmica. É importante não perder de vista que aumentar a produção econômica, dentre tantos outros estragos ambientais, também é sinônimo de poluir mais ainda a atmosfera.
Nos dias atuais, mais de dois milhões de pessoas morrem a cada ano no mundo em decorrência da poluição, alojando nos pulmões pequenas partículas (PM 10) geradas pela queima de combustíveis fósseis, além da poluição de ozônio (O3).
Somente na América Latina e no Caribe, a cada ano, morrem aproximadamente 35 mil pessoas devido à contaminação do ar; na Europa, são mais de 150 mil e, no leste da Ásia, mais de 1 milhão de vidas são ceifadas pelo mesmo motivo.
Por isso o posicionamento ecológico deve estar acima do pensamento econômico tradicional, ferindo assim, para desespero dos economistas tradicionais, o dogma atinente ao crescimento econômico, visto e defendido erroneamente como fator preponderante para consolidar a prosperidade de uma sociedade.
A insanidade do Black Friday. Veja o vídeo:
*Marcus Eduardo de Oliveira, professor de economia no Unifeo em artigo publicado por Envolverde.
RUMO A UMA ERA DIGITAL OBSCURA
Boa parte da informação gerada nesta era será inacessível para as gerações futuras
Por Miguel Ángel Criado*
Nas poucas décadas que a humanidade leva imersa na era digital ela criou dados suficientes para encher a memória de tantos iPads que, empilhados, quase chegariam à lua. O ritmo de criação de informação é tal que, segundo um estudo da corporação EMC e a consultora IDC, dobra a cada dois anos. Antes que a década acabe, existirão 44 zetabytes de dados (um ZB é igual a um trilhão de gigabytes) e a montanha de tablets terá ido e voltado ao satélite mais de três vezes. O paradoxal é que boa parte dessa informação se perderá para as gerações futuras.
O vice-presidente da Google e um dos pais da internet, Vinton Cerf, alertou em uma conferência da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência dias atrás sobre o perigo de que o criado por esta geração quase não deixe vestígios. Na crença de sua eternidade, o homo digitalis já não imprime fotos, as guarda em formato digital, não escreve cartas, mas as envia por e-mail, não armazena discos, arquiva as canções em nuvem. Uma parte cada vez maior de sua vida se desenvolve na rede: joga online, publica selfies no Facebook e compartilha suas paixões no Twitter. Mas o digital não é tão eterno.
A deterioração dos suportes nos quais a informação é armazenada, o desaparecimento dos programas para interpretá-la ou as limitações impostas pelo copyright a deixará inacessível para os humanos do futuro. De fato, não será necessário sequer esperar que os arqueólogos do futuro descubram que, como disse Cerf ao Financial Times, o começo do século XXI é “um buraco negro de informação”. Os primeiros efeitos dos que os anglo-saxões chamam de era digital obscura já estão sendo notados.
O caso dos disquetes exemplifica o problema colocado pelo vice-presidente da Google em toda sua complexidade. Foram o sistema de armazenamento básico nos anos oitenta. Neles cabiam tanto as fotos familiares como o trabalho escolar ou os documentos do trabalho. A maior parte dessa informação já se perdeu. E se ainda resta algum disquete, é quando os problemas começam de verdade: será necessário encontrar um drive que o leia, rezar para que os dados não tenham sido danificados com o passar do tempo para, provavelmente, descobrir que o programa para abrir o arquivo não existe há anos.
Os disquetes dos anos 80 exemplificam a complexidade e os riscos reais da perda da informação
“Guardo disquetes velhos de 3,5 polegadas que alojam arquivos de texto escritos com um programa que já não existe e que funcionava com um Macintosh de 1986”, diz o consultor tecnológico Terry Kuny. Esse arquivista digital canadense foi o primeiro a falar deste tempo como uma possível era digital obscura há quase 20 anos. “Que opções eu, ou qualquer um, tem para acessar esses dados hoje? Mesmo se eu conseguir um drive velho, conseguir o sistema operacional e os programas não seria nada fácil. E se não existir alguém para dizer a quem tentar o que está dentro desses discos e em qual formato, o problema seria enorme”, acrescenta.
Em 1997, quando a atual era digital estava apenas começando, quando os computadores pessoais só estavam ao alcance dos mais abastados e a internet era para uma casta, quando ainda não existia o Google e muito menos o Facebook ou o Twitter, e a Microsoft dominava o mundo com seu Windows 95, Kuny, então assessor da Biblioteca Nacional do Canadá deu uma palestra para a Federação Internacional de Associações de Bibliotecas. Seu título era premonitório: Uma era digital obscura? Desafios para a conservação da informação eletrônica. A visão de Kuny, como a atual de Cerf, estão mais em voga do que nunca.
“Não acredito que exista um risco de que a informação de nosso tempo fique inacessível, acredito que é uma certeza. Já está acontecendo, a cada dia, em todo tipo de organização, para todas as classes de dados”, afirma Kuny. De fato, ele acredita que tudo o relacionado com a conservação digital vai de mal a pior. “Existe muito mais informação nascida digital do que antes e existem apenas poucas instituições pública ou privadas que estejam ativamente implicadas em lidar com esse problema”.
Inimigos da memória digital
O primeiro desafio tem a ver com a física. Qualquer um com idade para ter visto fitas VHS com a gravação de seu casamento sabe da deterioração dos suportes nos quais os dados são armazenados. A gravação magnética da informação foi a dominante nas primeiras décadas da era digital. Ainda hoje, os discos rígidos guardam os dados utilizando a polaridade das partículas e, por conta do magnetismo, os dados acabam se perdendo.
Se aconteceu com a NASA, por que não aconteceria com o vídeo do casamento? A agência espacial norte-americana viu como boa parte das imagens feitas pelas sondas da Missão Viking enviadas à Marte nos anos setenta eram irrecuperáveis. Ainda que a NASA tenha transferido os dados das fitas magnéticas originais a suportes óticos, até 20% do material não pôde ser recuperado.
Em 2014, a indústria fechou os servidores de 65 jogos online
O caso das sondas Viking ilustra outro dos perigos de que esse tempo se transforme em uma idade digital obscura. Foi possível salvar 80% da informação enviada de Marte, mas foi guardada em um formato e com programas que já não existem. Só recentemente uma empresa canadense voltou a extrair as imagens. Existem formatos que parecem que vão durar a vida inteira e depois dela. É o caso das imagens guardadas no formato JPEG ou música em mp3. Mas e se aparecer um novo formato melhor e os anteriores caírem em desuso?
E confiar a preservação dos dados à boa fé das empresas que os criam tem seus perigos. Como a Fundação Fronteiras Eletrônicas (EFF, na sigla em inglês) denunciou mês passado, gigantes dos jogos como a Eletronic Arts fecham os servidores para jogar online em apenas um ano e meio se o jogo não tiver o sucesso esperado. Só em 2014, a indústria abandonou 65 jogos. Mas, ao mesmo tempo, as leis de copyright impedem que os jogadores mantenham seus próprios servidores.
Mas o maior risco de que a informação deste tempo desapareça no futuro está na Internet. Como mostra o estudo da IDC sobre o universo digital de 2014, a maior parte dos dados são alocados na rede. Dos milhões de selfies até cada minuto de vídeo carregado no YouTube, passando pelos comentários no Facebook, cada vez mais, a maior parte da vida de uma pessoa se encontra em algum servidor de alguma empresa e não em seu álbum familiar de fotografias.
20% das mensagens no Twitter já desapareceram
Supomos que a Google ou o Facebook não vão acabar amanhã. Até mesmo quando encerram algum serviço, como fez o buscador com o Wave, dão um tempo razoável para que seus usuários descarreguem tudo o que tinham ali. A Google, por exemplo, conta com o Takeout, um sistema simples para fazer uma cópia de todos os dados criados e alocados em seus serviços. Mas nem sempre é assim.
No começo da década passada, existia uma rede social muito mais importante e conhecida do que o Facebook. Ela se chamava Friendster e em seu auge chegou a ter 100 milhões de usuários. Erros próprios e a popularidade de outras alternativas, entretanto, fizeram o Friendster afundar e, com ele, todas as histórias, conversas, amores e momentos compartilhados por seus usuários. Hoje, a empresa sobrevive como plataforma de jogos no sudeste asiático.
“Tivemos muita sorte da Internet Archive reagir a tempo e obter uma cópia de toda a informação pública no Friendster poucos antes dele ser desativado”, comenta o especialista em redes sociais da Escola Técnica Federal de Zurique (ETH), o espanhol David García. A relevância que as redes sociais têm na vida de hoje as transformou para os cientistas sociais em ferramentas fundamentais para estudar as sociedades humanas. Essa cópia, por exemplo, serviu para que García e outros pesquisadores estudassem fenômenos sociais que afetam a privacidade.
Um desses pesquisadores sociais é Alan Mislove, da Universidade Northeastern (EUA). Mislove estudou o Twitter a fundo. Em um artigo publicado ano passado, comprovou que quase 20% dos tweets publicados nesta rede social desapareceram. “É difícil projetar o que acontecerá futuramente com os tweets perdidos”, esclarece. Para Mislove, “os dados de sites como o Twitter e o Facebook oferecem aos pesquisadores uma capacidade sem precedentes para estudar a sociedade a uma escala e detalhamento que eram simplesmente impossíveis antes”.
Luzes contra a idade digital obscura
Se existem tantos riscos, o que está sendo feito para enfrentá-los? As soluções são tanto tecnológicas como organizacionais e até legislativas. O mais urgente parece ser o problema da longevidade dos dados, como conservá-los para os que vierem depois.
As tecnologias de armazenamento não variaram muito em todo esse tempo. A informação é gravada em suportes magnéticos ou, com a ajuda do laser, em discos óticos. Mesmo que o DVD ou o Blu-ray pareçam as melhores alternativas, o futuro continuará sendo magnético.
“No ano passado, a IBM e a FUJIFILM conseguiram uma densidade de armazenamento sobre fita de 85,9 gigabytes por polegada quadrada, o que permitiu uma capacidade de 154 terabytes [um terabyte são 1.000 gigabytes] em um cartucho que cabe na palma da mão. Isto é o texto de 154 milhões de livros”, lembra o responsável em tecnologias avançadas de fita da IBM Research, Mark Lantz.
Talvez pela IBM ser a única empresa de tecnologia com mais de um século de vida, sabe da importância da preservação dos dados. Para Lantz, a fita magnética não está morta, longe disso. “Em nosso laboratório em Zurique estamos trabalhando em uma tecnologia de fita para a preservação dos dados a longo prazo”, afirma. Com a manutenção e conservação adequadas, a gravação em suportes magnéticos mantém a informação intacta durante décadas.
Outra questão é a de poder reproduzi-las como passar do tempo. Esse é o maior temor expressado por Vinton Cerf em sua palestra. Sem as ferramentas adequadas para contextualizar os dados, eles seriam ilegíveis mesmo estando conservados. Cerf mencionou como solução um projeto no qual a IBM também participa. O gigante da informática, junto com a universidade Carnegie Mellon criaram o projeto Olive. Seu objetivo é criar uma espécie de imagem que inclua tudo, os dados do arquivo, o programa com o qual foi criado e até o código. Por meio de máquinas virtuais, o conteúdo poderá ser executado em qualquer sistema que aparecer no futuro.
Iniciativas como essa podem ser ajudadas pelo que a EFF está pedindo às autoridades dos EUA: que na legislação sobre copyright seja incluída uma exceção que obrigue as empresas que criaram um programa ou um jogo a liberar seu código quando o abandonarem ou, pelo menos, permitir sua obtenção mediante engenharia reversa.
"Todos nós devemos nos tornar nossos próprios bibliotecários”, diz o arquivista digital Terry Kuny
Mas o maior desafio é conservar toda a informação acumulada em algo tão grande e dinâmico como é a rede. A Internet Archive é a maior tentativa que existe para conservar a memória da rede. Os robôs dessa organização rastreiam periodicamente a rede fazendo cópias das páginas que encontra e as guardando. Assim, se alguma página desaparece, sempre existirá a possibilidade de relembrar como era.
Na Espanha, há anos a Biblioteca Nacional vem fazendo o mesmo com a ajuda da Internet Archive. Mas o ano passado foi o primeiro em que, com seu próprio robô, começaram a escanear a rede espanhola. Já copiaram 140 terabytes entre recursos, páginas da rede, blogs... A BNE, entretanto, está à espera da aprovação de um regulamento sobre o depósito legal de publicações eletrônicas que a permita conservar tudo o que a tecnologia permitir da Internet em espanhol.
Mas evitar que esta seja uma idade digital obscura é função de cada um. “Todos nós devemos nos transformar em nossos próprios bibliotecários. Cada um deve ser o responsável por sua vida digital. Não podemos salvá-la inteira e as coisas que decidirmos salvar, deveremos fazê-lo com cuidado”, alerta Terry Kuny, que já o faz há 20 anos, bem antes de Vinton Cerf.
* Miguel Ángel Criado escreve para o El País, onde esta reportagem foi publicada
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