31 de agosto de 2020

Roger Mello é o único brasileiro em campanha do International Board on Books for Young People

Ilustrador é vice-presidente do Instituto de Leitura Quindim

Roger Mello é o único brasileiro em campanha do International Board on Books for Young People Instituto de Leitura Quindim/Divulgação
Mello participa com trabalho feito para a obra "Javaés"Foto: Instituto de Leitura Quindim / Divulgação
O International Board on Books for Young People (IBBY) é uma importante organização mundial que promove o acesso ao livro infantil e defende os diretos da criança. Para tentar driblar as dificuldades financeiras geradas pela crise do coronavírus, a instituição criou uma campanha bem linda. Eles convidaram 10 dos maiores ilustradores de livros infantis do mundo, ganhadores do Prêmio Hans Christian Andersen (considerado o Nobel da literatura para crianças) para doarem uma obra que depois foi estampada em lenços de seda (50cm x180cm). As peças serão comercializadas para arrecadar fundos para a instituição. A coleção inédita conta apenas com 50 exemplares de cada arte.
Neste seleto grupo está Roger Mello, vice-presidente do caxiense Instituto de Leitura Quindim. Ele é o único brasileiro a participar da campanha e escolheu a estampa da obra Javaés, homenagem ao povo indígena que vive na Ilha de Bananal, no Tocantins. Dá para ver a belíssima arte aí na foto.
Os lenços vão custar US$ 200 dólares cada e a venda inicia-se nesta quarta-feira (2), por meio do site https://www.ibby.org/.
Via Pioneiro

Caminhos entre o jornalismo e a literatura pautam o Órbita Literária desta segunda

Jornalista e escritor Ronaldo Bueno será o painelista

Caminhos entre o jornalismo e a literatura pautam o Órbita Literária desta segunda Arquivo pessoal/
Live está marcada para as 20hFoto: Arquivo pessoal
Os livros-reportagem vão povoar o papo do Órbita Literária desta segunda (31). A live, marcada para as 20h, terá o jornalista e escritor Ronaldo Bueno como painelista. Bueno vai falar sobre os caminhos que aproximam o jornalismo e a literatura, analisando formas de narrativa que conferem uma construção detalhada de pessoas, cenários, contextos históricos, etc. Na lista de obras que conseguem mesclar esses universos com maestria estão Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha; e A Sangue Frio (1967), de Truman Capote.
O Órbita Literária pode ser conferido via facebook.com/davelha. A mediação será de J. C. Fantin.
Via Pioneiro

30 de agosto de 2020

Livro “O Mundo de Flora”, de Angela Gutiérrez, completa 30 anos

Publicada, pela primeira vez, em 30 de agosto de 1990, obra assinada pela presidente da Academia Cearense de Letras segue encantando gerações

Logo no primeiro capítulo, quando uma das protagonistas de “O Mundo de Flora” se pergunta sobre o alcance do texto de sua autoria – “Para quem escrevo? Para mim mesma? Alguém lerá estas páginas?” – decerto não imaginava o quanto aquelas palavras ressoariam, com singular força, por entre uma multidão de leitores Ceará e mundo afora. 
Fato é que nem a própria autora, Angela Gutiérrez, planejava trazer o romance à tona. “Não pensava em publicá-lo; porém, depois que, alertada por meu sobrinho Augusto César sobre a qualidade e originalidade da obra – pois me ouvira ler páginas do texto escrito à mão – e dando ouvido a seu conselho de que deveria mostrá-lo a alguns grandes escritores, professores da Universidade Federal do Ceará (UFC), tive a suprema coragem de mandar datilografá-lo e copiá-lo em alguns exemplares”.
Legenda: Capa da primeira edição de "O Mundo de Flora", publicada em 1990
Foto: Divulgação
O manuscrito original foi parar nas mãos de nomes como o poeta e ensaísta Artur Eduardo Benevides (1923-2014), o pesquisador Sânzio de Azevedo, o contista Moreira Campos (1914-1944) e o ficcionista Horácio Dídimo (1935-2018), além do próprio marido da escritora, o médico Oswaldo Gutiérrez.
“A generosa e entusiasmada receptividade que obtive após a leitura deram-me confiança para mostrá-lo a meu pai e mais sábio leitor que já conheci, Luciano Cavalcante Mota, e minha mãe, Ângela Laís Pompeu. Com a emocionada aprovação do casal, comecei a acreditar que meu romance era uma obra que não me causaria vergonha ao ser publicada”. 
E assim, em 30 agosto de 1990, ocorreu o lançamento no Ideal Clube, com apresentação de Moreira Campos e fala do ex-reitor da UFC, Antônio Martins Filho, além de discurso da própria autora, jovem professora universitária. 
Três décadas após esse momento, o Verso conversa com Angela para saber por que a obra segue encantando gerações. E, claro, de que forma o aniversário de publicação do romance de estreia da presidente da Academia Cearense de Letras (ACL), vencedor do Prêmio Estado do Ceará de Literatura, será celebrado. 

Desde junho, Angela tem sido convidada para dar depoimentos virtuais sobre a efeméride. Brevemente, ainda participará de momentos promovidos pela Universidade Estadual do Ceará - Campus de Limoeiro do Norte e pelo Instituto Federal do Ceará - Campus de Tabuleiro do Norte
Legenda: Capa da segunda edição do romance, publicado em 2007; à época, foi uma das leituras obrigatórias para o vestibular da Universidade Federal do Ceará
Foto: Divulgação
A ideia para marcar a data era a publicação da coletânea “Viagem ao mundo de Flora”, organizada por Cleudene Aragão, Eleuda de Carvalho, Maria Inês Pinheiro Cardoso e Vania Vasconcelos, com prefácio da professora Vera Lúcia Albuquerque de Moraes. O material reunirá artigos publicados em jornais, revistas e livros sobre o romance, e outros ainda inéditos; discurso da autora durante o lançamento da obra, além de iconografia e cartas sobre o livro. 
“Infelizmente, com os problemas trazidos pela pandemia, e por culpa de minha vida ter muito o que fazer, não pude entregar a parte que se referia a meus textos sobre o romance aniversariante e a coletânea ainda precisa ser complementada”, explica Angela. 

Polifonias 

Oportuno enlace entre ficção e memória, “O Mundo de Flora” – ora narrado em primeira, ora em terceira pessoa – transita entre casarões antigos, costumes de outras épocas e confissões pessoais sob a perspectiva de diferentes personagens. O objetivo é contar várias histórias, unidas por detalhes fragmentados na narrativa. Esse aspecto, inclusive, é o que faz o romance ser reverenciado até hoje, dadas as inúmeras intertextualidades e polifonias. Ganhou ainda mais leitores quando entrou na lista de obras obrigatórias para o vestibular da UFC, em 2007. 
“Não foi um romance planejado, roteirizado, fincado em pesquisas antes de determinado momento. Numa noite epifânica, senti tão forte premência de narrar o mundo ficcional que me estava ocupando a mente que resolvi levantar-me. Ali, escrevi grande parte do material”, relata Angela. “Quando lembro disso, sorrio pensando que, no meu livro de estreia, agi como alguns jovens poetas românticos que se sentiam iluminados antes de escreverem seus poemas, o que acontecia, quase sempre, à noite”. 
Portanto, o rascunho não foi desenvolvido com disciplina profissional, mas com impulsos de paixão. Por sua vez, durante a montagem dos fragmentos que compõem a obra, houve o trabalho de certo distanciamento da narrativa, alternando os trechos de forma a temperar o trágico com o cômico ou gracioso. 
“As histórias contadas por personagens com os acontecimentos da trama são vistas pelo olhar de um narrador que se confunde com a memória da família e da cidade, utilizando-se de outros artifícios narrativos, como cartas, diálogos e brincadeiras infantis verbais. E o fio condutor narrativo escrito por Flora, em primeira pessoa”, explica a autora. 
Legenda: Além de "O Mundo de Flora", seu romance mais celebrado, Angela também escreveu várias outras obras, no campo da ficção e da não-ficção
Foto: Helene Santos
Fortaleza, então, é vastamente homenageada, especialmente porque retratada nos primórdios, descrita em hábitos passados que a narrativa faz questão de registrar – brincadeiras, tratamentos escolares, perspectivas sobre a cidade. Além disso, traz importante reflexão sobre a morte, temática que circunda toda a atmosfera do romance. 
Tais atributos fazem com que a escritora dimensione o porquê de “O mundo de Flora” continuar tão querido pelo público. Segundo ela, já na época do lançamento, foi possível perceber que a obra agradava, por diferentes motivos, a leitores e leitoras de distintas idades.
Enquanto os mais jovens se afeiçoavam às travessuras de Flor e às histórias contadas pelo avô e pela mãe da menina, os de maior idade se identificavam com a parte narrativa de costumes e modos de vida de épocas passadas, tendo em vista que a linha do tempo do romance abrange um período muito anterior ao do nascimento de Flora. Retorna à vida de seu trisavô, desde a primeira metade do século XIX, e continua até os anos 80 do século XX.
“Muitas pessoas me relatavam o prazer de enfrentar o desafio da montagem da trama, por exemplo. Acredito que por esse modo de ser desafiante da obra, e outros detalhes assinalados, ‘O Mundo de Flora’ continua a interessar o leitor do século XXI. Apesar dos grandes avanços tecnológicos da época atual, continuamos a lidar com problemas não resolvidos ou retornados”, situa Angela. 
Um caráter de permanência que acompanha outras empreitadas da autora. No campo da ficção, escreveu ainda “Canção da menina” (1997), “Avis Rara” (2011) e “O silêncio da penteadeira” (2016), entre outras obras, todas com positivo retorno de crítica e público, e deve seguir com os projetos literários adiante. Angela tem livros iniciados, embora interrompidos pela movimentada agenda cultural da literata. “Pretendo dedicar-me futuramente a dar-lhes continuidade”.

Academia

Até o fim deste ano, porém, Angela cumpre outro desafio importante em sua trajetória, a presidência da Academia Cearense de Letras. Devido à pandemia do novo coronavírus, as atividades presenciais da casa ainda estão suspensas, mas momentos virtuais são realizados em continuidade às celebrações dos 126 anos da ACL. 
Legenda: Angela Gutiérrez afirma que, quando entregar a presidência da Academia Cearense de Letras no fim deste ano, continuará com o mesmo amor e dedicação à instituição
Foto: Helene Santos
Sobre sua gestão, Angela reflete: “Assumi com honra a presidência da Academia e, apesar das dificuldades financeiras, foi possível resolver graves problemas de infraestrutura, o que impediu maior amplitude do programa cultural. Quando entregar a presidência, continuarei com o mesmo amor e dedicação à instituição e estarei sempre pronta a prestar-lhe meu apoio”. Informa ainda que deve otimizar neste ano a realização de um projeto, aprovado pela Secretaria da Cultura do Ceará em 2019, relativo a publicações e à infraestrutura do Palácio da Luz. 
Assim, entre tantos passos dados no terreno da literatura, com o foco primordial de torná-la cada vez mais acessível, forte e atuante, Angela Gutiérrez parece sempre retornar às palavras que imortalizaram “O Mundo de Flora”: aquelas que residem no mais profundo das vivências e costumes para bradar sabedoria, conhecimento e afetos. 

>> Confira algumas citações sobre “O Mundo de Flora”
- “Li, encantado, O Mundo de Flora, romance de qualidades excepcionais. Não sei o que mais admirar: se a técnica segura e original da construção literária; a reconstituição do passado de um século, acompanhando várias gerações de uma família que nós, da terra, podemos identificar como uma das mais notáveis na vida intelectual e política do Ceará; a descrição da vida na pequena Fortaleza que eu ainda conheci, tão diferente da megalópole de hoje; a linguagem fluente, com os modismos da época. Só uma cultura geral acima do comum poderia suprir, como supriu, a pouca idade da autora, ainda tão jovem.”
Carta de José Bonifácio Câmara. Rio de Janeiro, 1 de outubro de 1990
- Cada episódio, cada caso, cada narrativa, nos conduz ao mundo miraculoso da criação. Nos leva a pensamentear como diria Mário de Andrade. Porque, com efeito, há substancial diferença entre pensar – que é sério, carrancudo, solene – e pensamentear que é vago, fluido, inconseqüente. Feliz do artista, principalmente do romancista, que leva quem o lê ao milagre de criar. Não seremos nós os eternos vacilantes entre a realidade e o sonho?”
Carta de João Clímaco Bezerra. Rio de Janeiro, 2 de outubro de 1990
“Poesia, lirismo, conto, narrativa autobiográfica, sátira social e política, mundo épico e picaresco são fios genealógicos que se entretecem artisticamente, num texto literário vivo, aparentemente despojado, mas enriquecido por uma multiplicidade de registos e recursos estilísticos, aliando o popular e o erudito, o regional, o nacional e o universal. É com o ingrediente da simplicidade aparente que se constrói uma obra-prima.”
Trecho de artigo para a coletânea “Viagem ao mundo de Flora”, ainda não publicada, escrito pelo Prof. Dr. António Manuel de Andrade Moniz, da Universidade Nova de Lisboa
“Este ano ficará marcando, para a literatura cearense, uma das estréias mais significativas: Angela Gutiérrez aparece-nos com um romance que nasce sem a maioria dos traços encontrados geralmente nos livros dos que se iniciam. Na verdade, O Mundo de Flora nos revela uma escritora em pleno domínio de seu ofício, sabendo trabalhar a matéria ficcional com segurança e arte.” 
Trecho de artigo de Sânzio de Azevedo, Prof. Dr. pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, crítico e historiador literário, para as orelhas da primeira edição do livro
“Ler O Mundo de Flora é adentrar um outro mundo, misto de realidade e ficção, alegrias e tristezas, vidas e mortes, sonhos e desesperanças, encontros e desencontros, de tudo um pouco, de que a mão de Angela se plenifica para recriá-los e nos presentear, escoimado do lugar-comum. Aí, então, tudo se renova, tudo renasce com as cores da infância, vivas, naturais, como num conto de fadas.”
Trecho de artigo de Giselda Medeiros, acadêmica da Academia Cearense de Letras, para a coletânea “Viagem ao mundo de Flora” e publicado na Revista da ACL
Diário do Nordeste

A sedução de Deus

Padre Geovane Saraiva*

Pe. Geovane SaraivaNossa sede de Deus encontra sua razão de ser e se realiza no seguimento de Jesus de Nazaré, aquele que mora no céu e na terra, ao submeter e provocar no ser humano um grande gosto pela vida, dom que é seu e que é maravilhoso, evidentemente no cumprimento da vontade divina, como no exemplo dos profetas de outrora e dos de hoje. Temos Dom Helder, um dos profetas dos nossos dias, que assim repetia: “Quem se arranca de si mesmo e parte como peregrino da justiça, da paz e da esperança prepare-se para enfrentar desertos. O bom caminheiro preocupa-se com os companheiros nos desertos da vida, desencorajados, desanimados e sem esperança”.

Outro exemplo a nos encorajar no nosso deserto, num clamor ou num não às vantagens do mundo, é o profeta Jeremias, que passou uma barra pesadíssima, vivenciada com grande intensidade, na rejeição e na perseguição, num contexto ou situação inigualável, sendo ele comparado com os demais profetas. Chamado a falar de Deus e em nome de Deus, numa época marcada pelo negativismo, às vésperas da ruína do reino de Judá (século VI a.C.), ele foi perseguido por seus algozes, preso, maltratado, porque sua missão consistiu em plantar a esperança, extirpar a maldade, ao “arrancar e destruir, exterminar e demolir, construir e plantar”, numa forte mensagem destruidora e devastadora, compreendida pela célebre expressão: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir” (cf. Jr 20, 7ss).

Como é esplendorosa a ação divina em Jeremias! Que ele, como criatura dividida e frágil, mas acima de tudo referencial e exemplo, nos ajude na mesma esperança, ao avistarmos crianças e adolescentes presentes no mundo, e numa consciência grandemente alargada de que aqui há uma responsabilidade nos adultos, em especial dos de dentro da Igreja de Cristo. Que seja a mesma esperançosa sedução de Deus, nos irmãos amigos supramencionados, em criaturas de Deus que pedem mais do que palavras; pedem e esperam uma vida exemplar dos que vivem a proposta de Jesus de Nazaré, dentro da Igreja, sendo sinal no mundo, atingindo em cheio seu interior, com marcas indeléveis, de afáveis ternuras. 

Dom Helder, o grande mensageiro, ou profeta da paz, amava todas as crianças do mundo, a ponto de dizer: “Se eu pudesse lhes daria um globo terrestre ou um globo todo luminoso!”. Elas querem abraços, sorrisos e respeito, sim, mas num encanto,  consequentemente, não só no sentido de serem tocadas pela bondade de Deus, mas que lhes venha a certeza da presença do mesmo Deus, num amor, de tal modo duradouro e verdadeiro, no convencimento de se viver tempos esperançosos e novos, preciosos e indispensáveis, perseguindo a construção do próprio futuro: em Deus e com Deus. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integrante da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF).

29 de agosto de 2020

Podcast: A sedução de Deus (Jr 20,7)




Por Pe. Geovane Saraiva

Livro «Colocar-se em jogo. Pensamentos sobre o desporto» do Papa Francisco

Cidade do Vaticano, 29 ago 2020 (Ecclesia) – O livro ‘Colocar-se em jogo’, publicado pela ‘Libreria Editrice Vaticana’, com reflexões do Papa Francisco, de discursos a atletas, vai ser apresentado às 11h30 (menos uma hora em Lisboa), de 7 de setembro, no estádio ‘Nando Martellini’, em Roma.
O sítio online ‘Vatican News’ que a nova publicação reúne pensamentos do Papa Francisco dos seus discursos “mais significativos” a atletas e as citações selecionadas por Lucio Coco “são a base para um treino espiritual e uma verdadeira bússola para todos os que querem se orientar na busca das motivações mais autênticas de sua própria paixão”.
O prefácio de ‘Colocar-se em jogo. Pensamentos sobre o desporto’ é da autoria do futebolista italiano Francesco Totti, que jogou no A.S. Roma e na seleção italiana, da campeã de maratona queniana Tegla Loroupe, responsável pela equipa de refugiados do Comité Olímpico Internacional, e o campeão paraolímpico italiano Alex Zanardi, que enviou antes do seu grave acidente a 19 de junho.
Na apresentação do novo livro , com os atletas, vão estar o presidente do Comité Olímpico Nacional Italiano, Giovanni Malagò, o presidente do Comité Paraolímpico Italiano, Luca Pancalli, e o subsecretário do Conselho Pontifício da Cultura, monsenhor Melchor Sánchez de Toca, que foi o chefe da delegação da Santa Sé aos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang, na Coreia do Sul, em 2018, que se realizaram na Coreia do Sul, entre outros protagonistas do desporto.
O encontro que vai ser moderado pelo vice-diretor editorial do Dicastério para a Comunicação, Alessandro Gisotti, começa às 11h30 (menos uma hora em Lisboa) de 7 de setembro, às 11h30, no estádio ‘Nando Martellini’, em Roma, entre a das Termas de Caracalla e a da sede da FAO, informa o ‘Vatican News’.
O Vaticano publicou o documento inédito ‘Dar o melhor de si’ sobre o desporto, numa reflexão que alerta para questões como a corrupção, doping, apostas e a falta de respeito pelos limites físicos dos atletas, no dia 1 de junho de 2018.
Da responsabilidade do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé), ao longo de cinco capítulos abordam-se a evolução do desporto na história, a relação da Igreja Católica com esta realidade ou uma análise “antropológica” do fenómeno.
CB

28 de agosto de 2020

Portuguesa Lídia Jorge ganha no México prêmio FIL de Literatura

A escritora portuguesa Lídia Jorge, uma das mais destacadas autoras contemporâneas da sua língua "pela sua imensa humanidade", venceu a Feira Internacional do Livro de Literatura em Línguas Românicas 2020, anunciaram os organizadores esta sexta-feira.
O prêmio, o maior concedido pela feira literária mais importante do mundo hispânico, é de 150 mil dólares e será entregue no dia 28 de novembro durante a inauguração da FIL na cidade mexicana de Guadalajara (Jalisco, oeste), informou a organização.
Lídia Jorge "sempre convida seus leitores a irem a algum lugar com ela e ela o faz com uma sutileza estética que não pode e não deve passar despercebida", disse o júri durante apresentação via streaming.
Jorge foi descrita pelo júri como "uma das principais autoras/autores de língua portuguesa por uma obra não só novelística mas também poética, ensaística e teatral".
Lídia Jorge nasceu em Boliqueime em 1946. Licenciada pela Universidade de Lisboa, recebeu vários reconhecimentos internacionais, mas o seu romance "A costa dos murmúrios", que reflete a experiência colonial passada na África, destacou-a no panorama literário. Português.
A FIL de Guadalajara celebrará este ano a sua XXXIV edição de 28 de novembro a 6 de dezembro, em dois locais oficiais devido à nova pandemia de coronavírus.

Fonte: Estado de Minas

Como a literatura 'previu' o cenário pandemônico do Brasil atual

(Foto: Capa Cândido: ilustrações Mário de Alencar)
“Distopia à Brasileira” é o título da reportagem da nova edição do Cândido, jornal editado pela Biblioteca Pública do Paraná, que investiga como a literatura antecipou, retrata e reage à situação crítica em que o país se encontra — devido a fatores como a instabilidade política, a ameaça à democracia e as consequências da pandemia da Covid-19.
Assinado pela jornalista Yasmin Taketani, o conteúdo traz depoimentos de escritores e acadêmicos (como Ignácio de Loyola Brandão, Heloisa Starling, Bernardo Carvalho) pontuados por trechos de livros que, de alguma forma, previram ou comentam o momento atual.
O especial do mês ainda conta com uma entrevista com Cristovão Tezza, autor do recém-lançado romance A Tensão Superficial do Tempo, cujo pano de fundo é justamente o cenário político-social brasileiro.
Outros destaques do Cândido 109: dicas de Cíntia Moscovich no espaço “De Escritor para Escritor”, quadrinhos de Key Imaguire Junior, artigo de Adriana Baggio na coluna Pensata, entrevista com Noemi Jaffe (concedida ao repórter Rodrigo Casarin), fotos de Izadora Padilha na seção Cliques em Curitiba e um poema inédito de Cidinha da Silva.
Todas as ilustrações são de Mário de Alencar.
Em razão do fechamento temporário da Biblioteca Pública do Paraná, a distribuição de exemplares impressos do Cândido está suspensa até o retorno das atividades da instituição. O jornal pode ser lido em seu novo site: http://www.candido.bpp.pr.gov.br/
Por - AN-PR

Mahatma Gandhi

A violência física, moral, intelectual, cultural, ética, em todos os seus aspectos, tem se constituído no principal problema da humanidade. "Ahimsa" (não violência) é um termo sânscrito, língua clássica da Índia, onde se busca a verdade ("Satyagraha").
O principal ensinamento de Mahatma Gandhi baseia-se num ativismo pacífico. Não confundir com passividade. Para ele e seus seguidores, o uso da violência poderia conduzir a uma pseudoverdade. Dessa forma, a filosofia gandhiana, além de rejeitar a violência, evidencia respeito total à vida.
Gandhi lutou para combater o mal com o bem, chegando a amar aqueles que o odiavam. Por outro lado, lamentavelmente, muitas vezes, as sociedades organizadas não abrem mão dos seus direitos, motivando o egoísmo e, em consequência, gerando a violência. 
Cícero, jurista, filósofo, político e grande orador salientou: "Summum jus- summa injuria" (o supremo direito é a suprema injustiça). Aquele que reclama todos os seus direitos pessoais pode ser considerado um egoísta, um violento; porém aquele que busca a justiça atua em nome do amor, da solidariedade, da não ambição e, consequentemente, de Deus. Aliás, toda religião necessita de pioneiros e de pessoas que sintetizem a fé, unindo princípios e consolidando uma doutrina coerente.
Procuremos ter o Sermão da Montanha como ponto fundamental da harmonia espiritual, pois dá ênfase ao primeiro mandamento (o amor a Deus), mediante a fé, e ao segundo (o amor ao próximo), através da ética. Conforme Gandhi, "Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade, e só se salvasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido".
Por fim, admitindo-se ser o direito de natureza violenta e a justiça de caráter não violento, somos levados a imaginar e debater um novo modelo político: ao invés do Estado Democrático de Direito, o Estado Democrático de Justiça.
Gonzaga Mota
Professor aposentado da UFC

27 de agosto de 2020

Dia Internacional da Igualdade Feminina: conquistas de brasileiras e o retrocesso que se avizinha

Apesar dos importantes avanços, a classe feminina no Brasil enfrenta desafios que vão desde a crise sanitária até o governo vigente

Mulheres participando da primeira Marcha das Margaridas, movimento que reivindicava direitos das trabalhadoras rurais, em frente ao Congresso Nacional (Foto: Brasil De Fato/ Claudia Ferreira)
Mulheres participando da primeira Marcha das Margaridas, movimento que reivindicava direitos das trabalhadoras rurais, em frente ao Congresso Nacional (Foto: Brasil De Fato/ Claudia Ferreira)
Comemorado nesta quarta-feira, 26, o Dia Internacional da Igualdade Feminina celebra conquistas de uma classe que precisou lutar para alcançar direitos fundamentais, como a liberdade. No Brasil, mulheres conquistaram importantes avanços mas, de acordo com especialistas, têm agora a luta pela equidade ameaçada de retrocesso por fatores como a crise sanitária e o governo vigente.
A data comemorativa foi estipulada pelo Congresso dos Estados Unidos da América (EUA) em 1973, fazendo alusão a uma emenda constitucional que permitiu o voto feminino no pais, mais de cinco décadas antes. Nesse contexto, o dia foi celebrado para marcar, internacionalmente, um dos passos mais importantes que as norte-americanas deram na luta por direitos iguais.
Para as brasileiras, no entanto, essa vitória só foi alcançada em 1932, quando o Código Eleitoral da época determinou que mulheres autorizadas por seus maridos, ou com renda própria, poderiam votar. Apenas 14 anos depois é que a determinação foi ampliada e as restrições tiveram fim.
O Povo

Livro analisa as transformações do direito econômico a partir da Constituição de 1988

Com lançamento virtual nesta quinta-feira, obra busca fomentar o debate sobre o tema
Direitos sociais e ambientais têm sido dilapidados por interesses econômicos
Direitos sociais e ambientais têm sido dilapidados por interesses econômicos (Wilson Dias/ABr)

Pablo Pires Fernandes
Cada sociedade ou nação é regida por modelos econômicos distintos que, em maior ou menor medida, são determinados por suas Constituições. No caso brasileiro, a Constituição de 1988 estabelece princípios de ordem econômica bastante amplas, com garantias sociais, trabalhistas, ambientais e diretrizes próprias. No entanto, os postulados constitucionais, a respeito da economia – assim como tantos outros - poucas vezes são colocados em prática.
A discussão sobre a efetividade das leis da Carta magna de 1988 na realidade socioeconômica do Brasil é o tema do livro Constituição econômica bloqueada - impasses e alternativas, dos professores e pesquisadores Giovani Clark, Leonardo Corrêa e Samuel Nascimento. O trabalho reúne quatro ensaios que revisam as muitas questões que envolvem o direito econômico sob a luz do mestre mineiro Washington Albino Peluso de Souza (1917-2011), introdutor da discussão sobre o direito econômico no país.
A obra, publicada pela Editora da Universidade Federal do Piauí (Edufpi), será lançada nesta quinta-feira (28), às 19h30, virtualmente, com um debate com os três autores no canal do YouTube da Fundação Brasileira de Direito Econômico (FBDE).
Um dos grandes defensores do legado de Washington Albino e coautor do livro, o professor de direito da UFMG e da PUC Minas Giovani Clark explica que o livro pretende fomentar discussões e reflexões a respeito do direito econômico, enfatizando “os porquês de a ordem econômica e financeira constitucionais não se refletirem na realidade socioeconômica do Brasil”.
“Esse é um debate importante e fundamental para o direito econômico, já que todo o direito econômico parte da ordem econômica e financeira. Quando você não debate a efetividade da constituição econômica, logicamente o direito econômico fica à mercê de interpretações ao gosto dos poderosos”, pontua Clark.
O capítulo inicial aborda as diversas modalidades de concepção sobre o capitalismo, inclusive a abertura prevista na Carta brasileira de 1988, que não exclui outros modos de produção, mas garante uma democracia econômica. Faz revisão teórica e histórica de conceitos e aponta para a redução dos limites previstos em lei, diante do avanço das políticas neoliberais, inclusive nas questões legais.
A ideologia constitucional, que não se confunde com ideologias políticas, é o tema do segundo capítulo de Constituição econômica bloqueada. Como explica o professor a “ideologia constitucional é um mescla de ditames constitucionais das visões políticas distintas das forças existentes nas constituintes”. Assim, os autores se dedicam a revisar os conceitos e os contextos históricos nos quais o direito econômico foi sedimentado na história do Brasil.
Os trâmites legais e políticos para se tornar efetivas as premissas constitucionais do direito econômicos são o foco do terceiro artigo da obra, que analisa, com visão histórica, os bloqueios e as forças políticas que atuam sobre os direitos constitucionais e suas alterações ao longo do tempo.
No quarto capítulo, os autores resgatam o trabalho de Washington Albino e trazem uma questão absolutamente atual: o desenvolvimentismo versus o neoliberalismo. O embate histórico, no qual, segundo os autores, a perspectiva neoliberal tem ganhado terreno, privilegia as questões jurídicas, embora se dedique a esmiuçar os contextos histórico-políticos. E é extremamente saudável e oportuno o momento em que a questão vem à tona, já que o atual governo passa por um dilema entre a visão neoliberal do Ministério da Economia e outros setores do governo, mais ligados ao desenvolvimentismo nacional.
Os preceitos teóricos do professor Washington Albino, que norteiam a obra, constituída mormente na década de1970, ainda merecem leitura e respaldo de maior grandeza. Para Clark, o autor mineiro “construiu toda uma doutrina, uma série de categorias jurídicas, bem como influenciou a jurisprudência brasileira”. Acrescenta, ainda, que a obra de Albino é à frente do seu tempo e se mantém atual. O livro, portanto, busca suprir uma importante lacuna a respeito do direito econômico e suas relações com a Constituição de 1988.
ENTREVISTA COM GIOVANI CLARK:
Como podemos definir o direito econômico escrito na Constituição de 1988?
A Constituição Econômica de 1988, sobretudo os seus comandos centrais, dos artigos 170 a 192, estabeleceu parâmetros do modelo produtivo que, no nosso caso, é plural e admitiu vários sistemas de produção, como capitalista, o cooperado e outros. Infelizmente, o texto constitucional vem sendo bloqueado e mutilado. Bloqueado por forças econômicas e políticas, que atuam na realidade socioeconômica e ambiental brasileira. E mutilado, por uma série de emendas constitucionais que descaracterizam o texto originário. O texto constitucional de 1988, apesar do modelo produtivo plural, admite o sistema capitalista, com uma série de limitações e imposições. Na realidade, no primeiro capítulo, por exemplo, nós trabalhamos a questão de qual tipo de capitalismo que o texto condicional de 1988 admite pra nós.
Como vê a visão do governo atual a respeito da questão?
Antes da pandemia, no neoliberalismo de austeridade, as políticas econômicas vinham centradas, basicamente em favor do mercado e do sistema financeiro em detrimento dos direitos sociais e da efetividade da constituição econômica. Nós estamos num momento excepcional, que é um momento da pandemia, e já temos indicativas que, quando saírmos desse momento de pandemia, haverá um retorno, até com mais dureza de medidas político-econômicas, do neoliberalismo de austeridade.
E quais são as consequências dessa política?
Especificamente dentro do direito econômico, o que nós percebemos claramente é que essas medidas de política econômica, algumas delas através de emenda constitucional - como a emenda constitucional 95/2016 - elas descaracterizam e bloqueiam o texto constitucional de 1988. O que bloqueia na realidade? É a efetivação dos direitos sociais, dos direitos individuais, da dignidade humana e até mesmo inviabiliza o pequeno, o microprodutor na nossa realidade social.

CONSTITUIÇÃO ECONÔMICA BLOQUEADA - IMPASSES E ALTERNATIVAS
De Giovani Clark, Leonardo Corrêa e Samuel Nascimento
Editora da Universidade Federal do Piauí (Edufpi)
98 páginas
LANÇAMENTO COM OS AUTORES:Quinta-feira (27), às 19h30
Canal do YouTube da Fundação Brasileira de Direito Econômico (FBDE).
Acesso gratuito aqui.

Dom Total

Projeto ensina professores a lidar com crianças com autismo

O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo é celebrado todo dia 2 de abril
Assim como muitos educadores, a pesquisadora e professora da rede municipal de São Carlos (SP), Viviane Macedo, sentia dificuldade em ensinar repertórios comportamentais e acadêmicos aos alunos com autismo. Pesquisas científicas mostram que essa é a realidade de muitos professores da Educação Básica, que se sentem frustrados quando precisam lidar com crianças com autismo. Mesmo os profissionais formados em Educação Especial encontram dificuldades na hora de trabalhar com elas.
Pensando nesses desafios, Viviane Macedo, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), produziu, em dissertação do mestrado, três vídeos que ensinam algumas técnicas baseadas na Análise do Comportamento Aplicada para quem ainda não conhece a maneira correta de ensinar crianças com autismo,. O objetivo é alcançar maior número de profissionais que trabalham com crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
“A proposta da pesquisa foi desenvolver vídeos animados autoinstrucionais - que possibilitam o aprendizado autônomo - para ensinar professores a identificarem preferências de crianças com TEA. Explico no trabalho a fundamental importância da utilização desses itens preferidos como ferramenta “motivacional” para as crianças permanecerem sentadas durante o ensino, responderem adequadamente às demandas propostas, além de diminuir a ocorrência de comportamentos inadequados. A falta de motivação pode, assim, constituir-se em barreira na programação de ensino”, explica Viviane.
Nos tutorais, os professores poderão aprender a aplicar uma das avaliações de preferência de escolha que existem na literatura científica. A educadora, que também se especializou no Instituto LAHMIEI Autismo, da UFSCar, explica que identificar os itens reforçadores de uma criança é uma das ferramentas fundamentais para instalar e fortalecer novos comportamentos.
“Os vídeos apresentam estratégias sobre como preparar o ambiente e manejar os objetos para aplicar uma avaliação de preferência e, consequentemente, como elaborar uma lista de maior e menor preferência da criança, uma estratégia importantíssima principalmente se ela não apresentar fala”, diz a professora.
Na opinião de Viviane, diversas questões ainda dificultam a inclusão adequada das crianças com TEA nas escolas. “A superlotação das salas de aula e a dificuldade dos professores em lidar com elas são barreiras comumente encontradas no sistema público de ensino, e que inviabilizam a inclusão de qualidade dessas crianças”.
A pesquisadora espera que os educadores possam entender como analisar o comportamento das crianças com autismo, para que seja mais fácil saber quais tarefas ensinar e como ensinar.
A dissertação de mestrado de Viviane, que deu origem aos vídeos, será defendida no fim de setembro, e os tutoriais serão divulgados após a defesa. 
Agência Brasil

26 de agosto de 2020

Anatomia do beijo

O gesto é o novo grande tabu do nosso tempo, por causa da pandemia. Explicamos como ele funciona por dentro.

Anatomia do beijo
Quando eu era jovem, os beijos na boca eram proibidos pela religião, e agora que estou mais velho foram proibidos pela ciência. Antes, o castigo era o inferno. Agora, a pneumonia atípica.
Quem disse que religião e ciência são incompatíveis?
Bill Bryson, autor de O corpo: Um guia para usuários, conta que a boca é um lugar perigoso. E acrescenta: “Morremos engasgados mais facilmente que qualquer outro mamífero. Na verdade, fomos desenhados para engasgar, o que sem dúvida parece ser um atributo estranho”.
Beijei na boca pela primeira vez aos 15 anos. Poucos dias depois, a garota me informou que sua menstruação não vinha. Eu lhe disse que não era possível, pois não nos tínhamos deitado juntos, ao que ela respondeu que a saliva tinha propriedades “semânticas”. Certamente quis dizer “seminais”, porque havia pesquisado numa enciclopédia católica para me transmitir a notícia com rigor, mas a entendi de todos os modos e acreditei com convicção durante muito tempo na capacidade fecundativa de qualquer fluido corporal, sem importar de onde procedesse. A garota e eu pagamos em quantidades extraordinárias de angústia e pânico por aquele encontro exaustivo de nossas línguas na escuridão de um cinema de sessão contínua.
Um dia, já maiores, nos encontramos no ônibus e calhou que estava grávida. Durante uns segundos de terror pensei que fosse daquele beijo remoto. Nunca mais nos voltamos a ver, mas às vezes penso nessa criança que não conheço, e que terá agora 30 ou 40 anos, como se fosse minha.
Diz também Bryson que temos lá dentro, na boca, estrategicamente distribuídas, 12 glândulas salivares com as quais excretamos em torno de um litro e meio de saliva por dia, por isso engolimos tanta coisa (não só em sentido metafórico): 30.000 litros, literais, ao longo de uma vida média. A saliva, acrescenta, “é composta fundamentalmente de água e de pequenas quantidades de enzimas que começam a decompor os açúcares quando ainda se encontram na boca, já que aí se inicia a digestão dos alimentos”. E a digestão do amante ou da amante, acrescento eu.
Da língua, por sua vez, observa Bryson que é um músculo singular e exageradamente sensível, graças às 10.000 papilas gustativas localizadas em suas protuberâncias (me dá água na boca só de escrever “papilas gustativas”).
Há beijos de cinema e beijos de romance ou de telenovela, e beijos de canções em geral e de boleros em particular, e beijos de Judas. Há beijos castos e beijos voluptuosos, e beijos satânicos e beijos pedófilos, e beijos maternais ou paternais e fraternos. E aí estão também o beijo do capítulo sete de O jogo da amarelinha e O beijo da mulher-aranha, e o beijo grego, conhecido também como anilingus, e o beijo da morte, sei lá eu, que além disso vem do francês. Há tantos beijos pertencentes ao âmbito pessoal e ao histórico que seria insensato tentar resumir ou descrever um a um. Viemos de uma cadeia de beijos: os que se deram por ordem cronológica nossos antepassados desde o começo dos tempos, como quem passa um bastão, e os que nós demos em nossos descendentes, e os que eles já andam distribuindo pelo mundo.
Quanto aos lugares beijáveis, segundo a velha enciclopédia Espasa, destacam-se a testa, as bochechas, os lábios, as mãos, os pés, os vestidos, os cabelos, as relíquias, os retratos e as estátuas dos deuses, além da pedra da Caaba, em Meca. Como vemos, a enciclopédia Espasa, apesar dos seus mais de 100 tomos, ficava devendo ao menos no assunto que nos ocupa: esquecia-se da bunda, por exemplo.
***
Anatomia do beijo
Encontro-me com o paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga no terraço de um bar, onde, após soltarmos as máscaras e pedirmos umas cervejas, lhe pergunto se o beijo tem alguma explicação a partir da antropologia.
— E da anatomia — me responde. — Porque somos uma espécie de mamífero com lábios grossos, pelo avesso, desenhados precisamente para o beijo.
— Somos os únicos?
— Nós e as vacas da Disney, às quais os desenhistas põem beiços para humanizá-las.
— Sei.
— A história natural do lábio é apaixonante. Nós temos o lábio superior contínuo, enquanto os cães e os gatos, por exemplo, têm dois lábios superiores divididos por um septo. Podemos passar a língua de um lado ao outro da própria gengiva ou da gengiva do amante — acrescenta, enquanto faz em si mesmo o gesto que descreve.
— O chimpanzé e o gorila não têm septo?
— Não, mas tampouco têm os lábios pelo avesso e o nariz projetado.
— Mas o nariz projetado é um estorvo para o beijo.
— Não acredite nisso. O beijo tem um componente olfativo muito importante.
— Os chimpanzés não se dão beijinhos?
— Um pouco. Mas o beijo na boca e com língua é exclusivamente humano e certamente é o resultado de uma ritualização.
— O que significa isso?
— Que começa como um ato em que se transfere a comida já mastigada à criança depois do desmame, e depois se transforma em um gesto de amantes. E como se trata de um gesto transcendental, a anatomia se adapta ao gesto.
— Daí os lábios grossos e pelo avesso?
— Exato. O processo é o seguinte: a mãe passa a comida, já meio digerida, da sua boca para a da criança. Digamos que se trata de uma papinha natural. Mais tarde, a namorada e o namorado brincam de passar coisas um para o outro. Depois nem sequer passam nada, mas fazem o gesto de se passarem. Esse comportamento ritualizado afeta o órgão: o lábio engrossa.
— E desaparece o septo do lábio superior.
— Não, o septo já tinha desaparecido. O lábio engrossa porque desapareceu o beijo ligado da alimentação e começa a se manifestar como base do cortejo amoroso.
— Vem-me à memória uma canção que dizia: “Me dê a fumaça da sua boca, que assim eu fico louca”.
Fumando espero, de Sara Montiel — confirma Arsuaga. — Os amantes brincam de passar a fumaça do cigarro de uma boca para a outra.
—Outros brincam de passar uma bala ou um cubinho de gelo.
— Ou um chiclete. É isso aí.
—O estranho é que esse lugar tão beijado, a boca, seja um dos extremos do tubo digestivo.
— E relacionado, portanto, com a alimentação.
— É mais curiosa então a prática do beijo grego, que deve ser como fechar o círculo, como fazer uma viagem ao redor da digestão.
— Claro, o natural é chupar tudo. Além do mais, o traseiro está cheio de terminações nervosas.
— E quando dizemos a um bebê que queremos engoli-lo de tanto beijo, há aí uma reminiscência canibal?
— Há muito de alimentação, sim, tudo é alimentação.
Arsuaga tira da sua mochila um livro intitulado Amor y odio, de Irenäus Eibl-Eibesfeldt, onde aparecem ilustrações de um pigmeu adulto, sentado sobre um elefante recém-caçado, que distribui com a boca tiras de gordura entre as bocas abertas (e famintas) de seus companheiros.
—Vou te emprestar este livro — diz — que é muito interessante. Não deixe de ler o capítulo intitulado Ritos vinculadores.
— Ritos vinculadores?
— Se você for à praia neste verão, note como os namorados se espanam.
— Os namorados não se espanam, tocam-se os cabelos.
— Sim, mas o gesto é o de espanar. Esse é um exemplo clássico de gesto que perdeu sua antiga função para se ritualizar. Nos ritos do amor há muito do comportamento materno-infantil. No comportamento humano, como na evolução dos órgãos, há muito de bricolagem. Com frequência, um comportamento que tinha uma função é aproveitado para outra.
— Dê um exemplo de bricolagem orgânica.
— O martelo e a bigorna originalmente, nos répteis, eram parte da articulação da mandíbula, e hoje nós os usamos para ouvir. Na evolução, se aproveita o que há.
— Certo. Voltemos aos lábios.
— Segundo Desmond Morris, autor de O macaco nu, nossos antepassados copulavam por trás pela simples razão de que a vulva, nos mamíferos quadrúpedes, encontrava-se na parte posterior. Quando passamos à cópula frontal por causa da postura bípede, a orientação da pélvis mudou, e a vulva se orientou ventral-frontalmente. Não totalmente dorsal nem totalmente ventral, mas se deslocou, e o sexo se tornou cara a cara. Então muda tudo, porque você tem uma relação mais pessoal, vê a expressão do outro e seus lábios ficam ao alcance dos seus. De certo modo, os lábios da vulva passam a ser os lábios do rosto. Os lábios da mulher e do homem, os lábios pelo avesso e redondos, são uma réplica dos lábios da vulva, do sorriso vertical, como se costuma dizer. Os do rosto são uma vulva horizontal, por isso se incham. Pense: em que zona do rosto os cirurgiões plásticos mais se divertem?
— Compreendo.
***
Anatomia do beijo
Conto a Diego Figuera, que é psiquiatra e psicanalista, que eu beijava muito os meus filhos quando os tirava do banho.
— Mas certamente — acrescento — não se lembram, do mesmo modo que eu não recordo os beijos da minha mãe.
— Antes dos quatro anos — responde — nossa memória consciente não recorda nada, ou muito pouco, mas nosso corpo, sim. O tato, para o bem ou para o mal, é fundamental na primeira etapa do ser humano, e o beijo é uma parte do tato, quase uma continuação da carícia. A pele nos transmite uma informação muito complexa a respeito de como nos amaram. Isto já foi muito estudado pela teoria do apego.
— O beijo do carinho e do sexo são diferentes?
— Há uma parte do sinal que é coincidente, mas as crianças são capazes de distinguir um pai ou uma mãe carinhosos de progenitores perversos. Vi na minha prática clínica pessoas que, quando adultas, se bloqueavam ao beijar e não sabiam de onde vinha esse bloqueio. Mas vem de lá.
— Como distinguir o beijo de Judas de um beijo de amor?
— Quem é beijado os distingue em algum nível da sua consciência.
— Antes você se referia ao “apego”. O que é?
— É a necessidade inata dos seres humanos de nos vincularmos a figuras de referência afetiva e de cuidados para seguirmos adiante desde o começo da vida. Nascemos com a necessidade vital de nos apegarmos às pessoas encarregadas de nos proteger e de nos ensinar como regular nossas emoções.
— De onde sai esta teoria?
— Foi formulada por John Bowlby a partir dos anos sessenta, e agora é uma evidência científica. Sei bastante a respeito, atualmente sou o presidente da seção espanhola da Internacional do Apego e escrevemos sobre o assunto. Estamos desenhados para nos apegar a alguém, assim como um filhote de pato por sua mãe. Precisamos que alguém nos alimente, mas que nos proteja emocionalmente também. Nosso sistema de proteção emocional é ensinado: ensinam-nos a beijar as mães, os pais, os tios…
Diego Figuera e eu nos encontramos também no terraço de um bar, nos comunicando através das máscaras até que nos trazem nossos pedidos. Quando deixa seu rosto descoberto, observo a grossura de seus lábios. Desde a minha conversa com Arsuaga, interessam-me todas as bocas, justamente agora que costumam andar tampadas.
— Então — observo — poderíamos dizer que o beijo tem duas vertentes, uma de caráter físico, e outra de caráter psicológico, que talvez se misturem. O que acontece, de um ponto de vista e do outro, quando duas pessoas se beijam?
—Não é fácil estabelecer uma fronteira entre o físico e o psicológico, porque temos uma maneira mais holística de entender, à luz da teoria da complexidade. Você dá um beijo e ocorre uma tempestade de oxitocinas e endorfinas que têm seu correlato emocional. Quando você beija ou é beijado, o corpo percebe e reage com grande tensão em décimos de segundo, tanto frente ao beijo do inimigo como do amigo. O beijo tem tanto significado em nossa cultura que é aquilo sobre o que mais informação prévia desejamos ter. Por isso é tão diferente o beijo de uma mãe, o de Judas, o amoroso, o do ficante de uma noite, o que busca uma reconciliação…
— Claro, os que são dados sob uma aparência de amor e são na verdade de corrupção. O beijo do padre pedófilo no seminário, por exemplo, se ressignifica quando você tem 15 ou 16 anos. Então você compreende que seu conteúdo era muito diferente da sua aparência.
— O beijo evoca em alguma medida a etapa da amamentação?
— A sucção do peito em uma relação de criação agradável favorece a erotização e o aumento de conexões nos lábios. De fato, uma prática erótica comum, tanto se você for heterossexual como homossexual, consiste em chupar os mamilos do amante ou da amante.
— Além disso, ao beijar na boca, como ao mamar, você recebe os fluidos do outro.
— Sim, e é importante que gostemos do cheiro e do sabor dessa saliva.
— É curioso também que o beijo se pratique com um dos extremos do aparelho digestivo.
— Claro, porque existe uma relação entre beijar e comer.
— O cinema, a literatura e as canções estão cheios de beijos.
— Mas as marcas que esses beijos deixam são mais culturais. As verdadeiramente duras são as que vêm da experiência direta. Por isso, beijar os filhos é, além de um ato de amor, um ato de responsabilidade. Sou contra campanhas como uma recente da Ralph Lauren, em que um homem dá um beijo na boca do seu filho de uns três anos.
— É muito ambíguo, não?
— Normalmente você não beija uma criança na boca.
— Há famílias em que essa prática acontece até determinada idade.
— E depois podem vir os problemas. Quando essas crianças chegam à adolescência, ressignificam o beijo na boca. Muitas vezes acontece por um afã de modernidade, de esnobismo, sem levar em conta as consequências que podem ter mais adiante.
— E agora, com a pandemia da covid-19, como engolimos que o mesmo beijo que nos dava a vida seja o que nos faça adoecer?
— Com dificuldade. Nisso nós, os médicos, somos mais rigorosos, porque vimos o horror nos hospitais. Outro dia comemorei meu aniversário com os amigos e quando entravam em casa o primeiro impulso era de nos beijarmos. Reprimíamo-nos, claro, mas depois do primeiro vinho as pessoas relaxam, porque temos essa necessidade inata de beijar.
— É mais forte a necessidade que a proibição?
— Mais forte, sim. Só conseguiremos não nos beijar na base do medo ou da responsabilidade.
— Se a proibição se prolongar, o beijo chegaria a ser mitificado?
— Poderá adquirir um significado novo. Quem neste tempo se atrever a beijar viverá isso como algo de muito amor pelo outro. Eu te beijo e assumo que você pode me contagiar.
— Eu te beijo e assumo que você pode me matar.
— É um modo mais trágico de dizê-lo. Com a pandemia, o beijo vai adquirir uma conotação muito potente de lealdade, de amor, de adesão, algo também como o beijo dos mafiosos.
— O que acontece agora quando um médico se vê obrigado a fazer uma respiração boca a boca? O que pode mais, a responsabilidade ou o medo?
— Pois mais de um pensaria duas vezes, porque o medo é livre, e os médicos têm passado muito medo durante os piores dias da pandemia. Nós nos sentimos vulneráveis, pensamos que podíamos nos contagiar entre nós. Houve uma guerra terrível sobre quem se atrevia a se meter com esse assunto sem uma boa proteção, sabendo o risco que corríamos. Houve gente com coragem que beijava os doentes ou pegavam na mão deles para acompanhá-los nos momentos mais difíceis. Os médicos, neste sentido, temos sido mais preconceituosos que o pessoal de enfermaria.
— Como se explica?
— Acredito que a pessoa que se dedica à enfermaria seja mais próxima que o médico, porque pensa que seu profissionalismo passa também pelo contato afetivo. Nós somos mais técnicos. Se agirmos certo tecnicamente, já fizemos a nossa parte.
— Os enfermeiros e as enfermeiras beijam. É um bom título.
— Beijam e tocam…
Depois de nos despedirmos sem nos tocar, pego o metrô de volta para casa e, enquanto me observo no reflexo escuro da janela do vagão, penso que também o olhar adquiriu um novo significado com o complemento da máscara: entre os viajantes, nos olhamos como se, a ponto de nos afogarmos, a água já chegasse à beirada dos olhos.
El País