Dança não ficou de fora das polêmicas que marcaram 2017

Diante da crise econômica, do avanço dos discursos conservadores e das ameaçadoras mudanças nas políticas culturais, 2018 se enuncia como um ano de dificuldades para a dança.
Dentre os trabalhos artísticos, destacaram-se o Gira, do Grupo Corpo, uma mistura de tradições capaz de deslocar os sentidos.
Dentre os trabalhos artísticos, destacaram-se o Gira, do Grupo Corpo, uma mistura de tradições capaz de deslocar os sentidos. (Luiz Paulo Pederneiras/Divulgação)

A dança não é exceção, em um 2017 marcado por turbulências políticas. Uma das mais graves foi a condenação pública no tribunal das redes sociais, seguida da instauração de um inquérito policial e o envolvimento de um artista em uma CPI. Wagner Schwartz foi acusado de pedofilia pela apresentação, no MAM de São Paulo, do seu solo La Bête, que existe desde 2006. O que, até então, seria impensável, aconteceu e instalou a arte em uma zona de risco.
No mesmo campo de regresso à violência institucionalizada, a então recém-empossada Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo lançou um edital de Fomento à Dança que ignorava os avanços realizados nas políticas públicas para a arte, que haviam requalificado os entendimentos sobre a contrapartida social e a divisão em categorias fixas, por exemplo. Parte dos artistas da cidade, mobilizados contra as ações desta gestão, organizou um abaixo-assinado no Avaaz.org, pedindo a demissão da assessora municipal de dança, Lara Pinheiro. A ação, no entanto, não alcançou o objetivo esperado.
Apesar desse panorama, bons ares também sopraram em 2017. Sintonizadas com as urgências do "aqui e agora", as discussões sobre racismo se expandiram e se fortaleceram. Eventos como o II Encontro de Mulheres Negras na Dança, que foi realizado no Centro de Referência da Dança, em julho, confirmaram o quanto são indispensáveis. Tratar da questão do racismo em um país com a história do nosso é uma obrigação política de todas as manifestações artísticas, e na dança começa a tomar a proporção devida.
Em novembro, o Festival Contemporâneo de Dança (FCD), vivendo o momento econômico mais crítico de sua história, conseguiu uma proeza: construir uma programação coerente quase sem recursos. A consistência da sua curadoria dilui a crença de que excesso produz qualidade e leva a repensar as programações inchadas, com pouca possibilidade de estimular a reflexão. Vale citar, em sua programação, como metáfora da impotência dos nossos tempos, A Emparedada da Rua Nova, de Eliana de Santana, uma mistura sutil de violência e negligência.
Dentre os trabalhos artísticos, destacaram-se o Gira, do Grupo Corpo, uma mistura de tradições capaz de deslocar os sentidos; Corredeira, de Kanzelumuka, que compõe um fluxo de movimento que redimensiona o antes e o depois, fora de linearidades; Riso, da Key e Zetta Cia de Dança, que faz com que o riso, em variações que contagiam e constrangem, seja a crítica ao próprio ato de rir; ARA MAINO'i, de Daniel Fagundes, que, em um tropicalismo degradado, propõe uma inversão: o espaço público ocupa o trabalho artístico, ao invés do recorrente contrário; #É na batida, com direção de Rodrigo Vieira, que coloca o Passinho no âmbito das danças urbanas em dois princípios de compartilhamento: a negritude e a violência dos contextos em que essas danças são/foram produzidas; e por fim, Libélulas de Vidro de Luis Ferron, um ritual profano que mostra, diante de todas as restrições, que os corpos são capazes de um suspiro de liberdade, produzindo, assim, o oxigênio necessário à vida.
Vale relembrar o precoce falecimento do B-Boy e militante do movimento Hip-Hop, Banks Back Spin, Ericson Carlos Silva (1974 - 2017). Banks era membro da Back Spin Crew, grupo que, em seus mais de 30 anos de existência, atua nas periferias da cidade, principalmente junto à juventude. A dança perdeu um artista e a cultura, uma liderança política.
A dança celebrou Ruth Rachou, uma das pioneiras da dança moderna no Brasil, com o projeto Ruth Rachou 90 anos; relembrou os 40 anos de Kuarup ou a questão do índio, obra que marcou o percurso do Ballet Stagium, que completou 46 anos; e também os 40 anos de crítica de dança de Helena Katz, em uma trajetória que inaugurou um fazer crítico comprometido, sobretudo, com a educação através da expansão da informação. Na medida em que esses profissionais cruzam os limites do tempo e abrem caminhos, relembram que a história segue sendo escrita, felizmente, e a memória é o marco da gratidão indispensável para a continuidade.
Diante da crise econômica, do avanço dos discursos conservadores e das ameaçadoras mudanças nas políticas culturais, 2018 se enuncia como um ano de dificuldades para a dança, e os desafios aparentemente serão mais duros dos que os já vividos em um passado recente.

Agência Estado

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