ANTES E DEPOIS DE PRÉDIOS HISTÓRICOS DE FORTALEZA

A história de uma cidade é feita de fatos que aconteceram durante sua criação e desenvolvimento. Partes da história de Fortaleza estão agregadas a prédios antigos e construções históricas que contribuíram de alguma forma com a construção da Capital cearense. As personalidades que se hospedaram nos hotéis Lord e Excelsior ou as decisões tomadas sobre a seca no Palacete Carvalho Mota, por exemplo, ajudaram a moldar de alguma forma a Fortaleza de hoje.
No entanto, nem todas essas construções receberam o devido respeito e cuidado ao longo dos anos. Mesmo tombados e protegidos, alguns imóveis, como a Casa do Português, padecem ao longo dos anos, sendo cada vez mais deteriorados pela ação do clima e do tempo, sem uma previsão de restauração. Outros tiveram destinos melhores, como a Antiga Cadeia Pública, o Banco Frota e Gentil e o Antigo Mercado Central, hoje Centro Cultural Banco do Nordeste. A reportagem do Diário do Nordeste foi conferir como esses locais estão hoje em comparação ao passado.

Casa do Português

 

Ponto de referência na Avenida João Pessoa, no bairro Damas, a Casa do Português foi um símbolo de ostentação na década de 1950, quando começou a ser construída por José Maria Cardoso, um rico comerciante português, dono de madeireira. O proprietário batizou o imóvel com seu nome e o de um santo: Vila Santo Antônio de José Maria Cardoso. Com três andares, a casa foi construída toda em concreto armado e tem ainda duas rampas laterais que davam aos automóveis acesso ao último andar.
NOS DOIS ANDARES SUPERIORES DA EDIFICAÇÃO, FUNCIONOU A BOATE PORTUGUESA
Como sua família não ocupava a totalidade do imóvel, o dono alugou o terceiro e o quarto andar para o empresário Paulo de Tarso, que fundou no local a Boate Portuguesa. Depois da boate, que ficou no imóvel de 1962 a 1968, o espaço ainda foi sede da Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (Ancar) e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) de 1965 a 1984. Foi ainda uma oficina, um estacionamento e um cortiço.
Inaugurada em 13 de junho de 1953, a Casa do Português foi tombada como patrimônio histórico municipal pela Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet) em 2012. Com isso, o imóvel está protegido de reforma que o desfigure. Segundo o livro "Cronologia Ilustrada de Fortaleza", do autor Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, foram gastos 29 mil sacas de cimento, 540 toneladas de ferro, 180 milhões de tijolos e 40 mil latas de cal para a construção do casarão.
Em 30 de junho de 1962, inaugura-se a Boate Portuguesa, na Vila Santo Antônio, conhecida como Casa do Português, na Avenida João Pessoa
FOTO: ARQUIVO NIREZ

Casa dos Távora

Construído para ser um pedacinho da Europa em Fortaleza, o célebre Solar dos Távora, localizado na esquina das ruas Conde d'Eu (antiga rua dos Mercadores) e Visconde Sabóia, não é mais o que um dia já foi. Quem entrava no imóvel, que foi local de acontecimentos memoráveis da política local e nacional, poderia se sentir em uma residência belga ou francesa do século XIX, devido às delicadas peças espalhadas pela casa, como quadros e estatuetas, além dos biscuits, pratarias, lustres e candelabros que compunham o interior do imóvel.
O ambiente "europeu", construído no romantismo de seus móveis e obras de arte, se perdeu no tempo. O imóvel, que fica exatamente na esquina oposta à escada da Praça dos Leões, hoje é uma loja de materiais de construção.

Palacete Carvalho Mota

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 19 de maio de 1983, o Palacete Carvalho Mota, no Centro, permanece fechado desde 2004 com a promessa de ser restaurado. A construção histórica funciona hoje como arquivo do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), mas já abrigou o Museu das Secas. Com uma área construída total de 1.344.20 m², o Palacete Carvalho Mota fica localizado na Rua Pedro Pereira, n° 683, esquina com a Rua General Sampaio, no Centro de Fortaleza.
FECHADO EM 2004 PARA RESTAURAÇÃO, O PALACETE CARVALHO MOTA NÃO TEM DATA PARA SER REABERTO AO PÚBLICO
Construído em 1907 para servir de residência para a família do coronel Antonio Frederico de Carvalho Motta, o imóvel foi alugado em 1909 inicialmente para Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), que comprou o solar em 1915. Em 1919, o órgão passa a se chamar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS). Por volta de 1930, é feita uma reforma e ampliação no imóvel, mantendo seus traços gerais de forma a não transparecer as alterações.
Em 28 de dezembro de 1945, pelo Decreto 8.486, passa a denominar-se Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), que desocupou o imóvel ao fim da década de 70 com a construção da nova sede da Diretoria Regional do Ceará. Em 1983, o imóvel foi restaurado com base em projeto elaborado pelo Iphan, tendo por objetivo a instalação do Museu das Secas, o qual abrigaria o acervo da instituição.
O incêndio no prédio em dezembro de 1912, apenas cinco anos depois de sua construção, destruiu centenas de projetos e documentos importantes do acervo do órgão. Considerado criminoso, vários funcionários e engenheiros foram presos na época.

Lord Hotel

AO LADO DO TEATRO JOSÉ DE ALENCAR, O LORD HOTEL HOSPEDOU ARTISTAS FAMOSOS E PERSONALIDADES BRASILEIRAS, NAS DÉCADAS DE 60 E 70
Com o auge do comércio empreendedor e a implantação de indústrias no Ceará na primeira década do século XX, diversos hotéis foram construídos na cidade, entre eles o Lord Hotel. Inaugurado em 1956, pela família Philomeno Gomes, lá se hospedavam, nesse período, caixeiros, visitantes e viajantes. Construído em concreto armado, o prédio de 8 andares e tem cerca de 120 apartamentos e logo entrou para lista dos melhores de Fortaleza. Arrendado para um casal de suíços até 1959, o Lord Hotel ainda hospedou artistas famosos e personalidades da cena brasileira, nas décadas de 60 e 70, e foi desativado em 1992, transformando-se em apart-hotel.
Tombado pela Fundação da Cultura e Turismo de Fortaleza (Funcet) em 2006, o Lord já havia sido condenado pelo Metrofor desde 2001, quando a gerência do sistema, apoiada pelo governo do Estado do Ceará, tentou demolir o imóvel com a justificava de que a estrutura do Lord não suportaria as obras da Estação da Lagoinha. Em 2011 o prédio ficou totalmente desocupado com a saída da última moradora.

Antiga Cadeia Pública

Construído entre 1850 e 1866, a antiga Cadeia Pública é um projeto do engenheiro Manuel Castro de Gouveia. Desativado após a construção do Instituto Penal Paulo Sarasate, em 1970, o prédio de linhas neo-clássicas foi reformado e passa a funcionar como o Centro de Turismo de Fortaleza, sede da Empresa Cearense de Turismo (Emcetur) desde 1973. Foi tombado pelo Estado em 17 de junho de 1982.
Além de receber turistas e fornecer informações locais para os viajantes, o Centro também abriga um comércio de artesanatos e produtos típicos. O primeiro andar da Emcetur também abriga o Museu de Arte Popular. Já as antigas celas foram transformadas em lojas de artesanato. O pavilhão central abriga tanto a Administração, que já foi enfermaria e o alojamento do carcereiro, como o Museu de Mineralogia e Arte Popular.

O espaço abriga, hoje, mais de 100 lojas, que vendem objetos de decoração, moda praia, renda de bilro e brinquedos de madeira, além de produtos típicos da gastronomia cearense, como castanhas de caju, licores, cachaças, doces e compotas.

Emcetur

Segunda a sábado: de 8h às 17h 
Domingo e feriados: de 8h às 12h

Excelsior Hotel

O HOTEL EXCELSIOR FOI CONSIDERADO O PRIMEIRO ARRANHA-CÉU DE FORTALEZA E EM SEU TERRAÇO FUNCIONAVA UM BAR, CENÁRIO DE RECEPÇÕES DE FESTAS DA SOCIEDADE
Inaugurado no último dia do ano de 1931, na Praça do Ferreira, o Excelsior foi construído no terreno do sobrado do Comendador Machado, mesmo espaço onde também funcionou o Hotel Central e o Café Riche. O comerciante Plácido Castelo comprou o prédio e mandou demolir em 1927 para iniciar as obras do que seria mais tarde considerado o primeiro arranha-céu de Fortaleza.
A decoração interna do Excelsior foi pensada pela italiana Pierina Rossi, esposa de Plácido, utilizando materiais importados da Europa. O hotel foi um dos principais da Capital, passou temporariamente por várias reformas, até que foi fechado definitivamente e encerrou suas atividades hoteleiras após 33 anos de funcionamento, no ano de 1964.
O Excelsior é o último representante da arquitetura eclética na cidade e foi pioneiro com seus sete andares e um terraço, onde funcionava o American Bar, cenário de recepções de festas da sociedade, por sua vista privilegiada. O prédio também tinha um salão de beleza e barbearia e apesar de ter recebido várias personalidades brasileiras enquanto funcionava, o empreendimento entrou em declínio quando a cidade iniciou sua expansão rumo ao leste.
 
Ao longo de sua "vida", o Hotel teve vários proprietários. O primeiro foi Plácido de Carvalho, seguido de sua esposa Pierina, que herdou o imóvel após sua morte. Pierina casa novamente e seu novo marido, o arquiteto húngaro Emilio Hinko, ganha o prédio quando fica viúvo. Hoje o prédio é do único herdeiro vivo do arquiteto no Brasil, seu sobrinho, Janos Fuzesi Junior, que também é o cônsul geral honorário da Hungria. Todos os anos o Excelsior recebe o "Natal de Luz", período em que o prédio serve de palco para o coral das crianças, durante o mês de dezembro.
O prédio é localizado na Praça do Ferreira, coração do centro da cidade
FOTO: SAULO ROBERTO
Ao contrário do que dizem, o Excelsior não é o maior prédio em alvenaria do mundo. Ele começou a ser construído como um prédio de alvenaria de tijolos de três pavimentos, mas quando Plácido quis aumentar o prédio para oito andares, houve alerta dos engenheiros sobre os perigos. Uma estrutura de concreto armado complementar finalizou o empreendimento.
Mesmo que que o prédio fosse totalmente em alvenaria, ele não seria o maior do mundo, nem mesmo naquela época, já que o edifício de alvenaria de tijolos mais alto do mundo é o Monadnock Block, na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, com 17 pavimentos, construído em 1891.

Banco Frota & Gentil

Fundada em 1893, a firma Frota & Gentil Sociedade Anônima, do sobralense José Gentil, funcionava em um prédio térreo no mesmo endereço do que seria o Banco Frota & Gentil, esquina das ruas Floriano Peixoto com Senador Alencar. Em 1917, a firma passou a ter seção bancária e em 7 de fevereiro de 1925 a Casa Bancária Frota & Gentil é inaugurada junto do novo prédio, o grande sobrado de esquina que está lá até hoje.
INAUGURADO EM 1925, O PRÉDIO É CONHECIDO POR ABRIGAR INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. O BANCO FROTA & GENTIL FOI UM DOS PRIMEIROS BANCOS DE FORTALEZA
Usando arquitetura eclética, em alta na capital cearense durante as três primeiras décadas do século XX, o prédio construído baseado no projeto do engenheiro cearense João Sabóia transformou-se no Banco Frota e Gentil Sociedade Anônima em 1931. O espaço funcionou até meados da década de 1950. No começo de 1956, a instituição financeira é incorporada ao Banco do Comércio e Indústria de Minas Gerais.
O novo proprietário fica com 70% das ações do Frota e Gentil, além da direção e administração dos seus ativos. Com a falência do banco mineiro, uma filial do Banco Mercantil de São Paulo (Comind) se instalou no prédio. Com a liquidação extrajudicial do Comind em 1985, uma agência do Banco Nacional do Norte (Banorte) ainda chegou a funcionar no imóvel. Tombado em 1995 pelo Estado, atualmente o prédio abriga uma agência do Banco Itaú.

Antigo Mercado Central

Inaugurado em 22 de setembro de 1932, no prédio hoje funciona o Centro Cultural Banco do Nordeste tinha como projeto inicial abrigar um polo de abastecimento de grande parte da Capital, o antigo Mercado Central de frutas e cereais de Fortaleza. Porém, em 1931, antes da finalização do imóvel, o comércio de carnes, frutas e verduras foi proibido dentro do prédio, e as instalações foram ocupadas por produtos utilitários e decorativos feitos artesanalmente, como roupas, artigos de cama e mesa, além de doces e bebidas típicas.
Ao longo dos anos várias reformas foram realizadas, mas em 1975 o mercado foi totalmente renovado e reinaugurado, ocupando um espaço de 1.200m². O local vendia todo tipo de artesanato produzido no Estado, em especial rendas de bilro, redes e cerâmicas. Na época, o turismo de Fortaleza tomou força e passou a se consolidar como importante destino do País. Com isso, o Mercado Central passou a ser visto como atração cultural.
Na década de 1990, após anos sem reformas, o prédio apresentava riscos devido à precariedade das suas instalações. Com aumento de visitantes e da demanda pelos produtos, um novo prédio foi erguido com mais de 9.600 m² de área construída na Av. Alberto Nepomuceno, em 1998, para abrigar o novo Mercado Central de Fortaleza.
Desocupado, o imóvel recebeu o Centro de Referência do Professor, que foi projetado tendo como foco central a restauração e reabilitação do edifício do antigo Mercado Central. Após acordo entre a Prefeitura e o Banco do Nordeste, em 2013, o prédio passou a sediar o Centro Cultural Banco do Nordeste. Apesar de histórico, o prédio não é tombado.

Diário do Nordeste

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