30 de dezembro de 2019

2020: Por um Brasil mais justo e menos desigual

Mais um ano findando. Um novo ano se aproxima e, com ele, renovam-se as esperanças, de um mundo melhor, de um Brasil mais justo e menos desigual, com redução dos índices de violência, com mais prosperidade, harmonia e paz; e se esticar um pouquinho mais, quem sabe acertar os números da megasena da virada do ano.
Observando os jornais televisivos e as retrospectivas feitas, uma constatação fica bem clara: só notícia ruim.
O desastre de Brumadinho. Os protestos ocorridos no Chile, em Hong Kong, a greve na França, o aumento dos índices de feminicídio, o poderio do crime organizado e suas chacinas, a mancha de óleo despejada por um navio misterioso que poluiu o litoral nordestino, a interminável ‘lenga lenga’ entre os ardorosos defensores de Lula e de Bolsonaro nas redes sociais, os desatinos de Donald Trump e de Bolsonaro e suas eternas rixas com a imprensa, as decisões vergonhosas do STF, a reforma da Previdência – a menina dos olhos da imprensa e dos banqueiros e investidores internacionais -, enfim, o rol é extenso e não caberia neste artigo.
Vasculhando a internet em busca de notícias boas, foram destaque a canonização da irmã Dulce – em especial, para os católicos - e as gloriosas vitórias do Flamengo que, via de regra, só interessam aos flamenguistas.
A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livreComo não mudou muita coisa, volto a desejar para 2020 o mesmo que desejei anos atrás:
Que os impostos pagos pelos brasileiros sejam bem aplicados e utilizados com responsabilidade para a melhoria da educação, da saúde, da segurança pública, das estradas, rodovias e ferrovias...
Que as obras públicas licitadas sejam concluídas sem que haja fraude nas licitações e que as obras não sejam abandonadas no meio do caminho.
Que a União, Estados e Municípios não gastem desmedidamente e que seus gestores comecem a ter responsabilidade com a coisa pública, dando bons exemplos aos seus eleitores, enxugando a máquina não com a redução dos serviços públicos, mas com os luxos e mordomias.
Que o Congresso Nacional seja capaz de cumprir com seu papel constitucional e deixe de nos envergonhar pela nojeira de suas negociatas, trocas de favores, jogos de interesses, e passe a legislar em favor do povo brasileiro.
Que haja uma legislação capaz de punir exemplarmente os políticos corruptos e que nenhum deles que responda a processo possa ser detentor de um mandato, até porque, ninguém contraria um bandido para trabalhar em sua residência ou empresa, quanto mais para administrar o dinheiro do povo e os destinos de uma nação.
Sonhar nunca é demais.
Grecianny Carvalho Cordeiro
Promotora de Justiça

O futuro que nos rodeia

Há coisas que estão aí, no dia a dia, mas que, mais cedo ou mais tarde, serão engolidas pelo futuro
Estariam os táxis em extinção?
Estariam os táxis em extinção? (Unsplash/ Lexi Ruskell)

Afonso Barroso*
Falo em tomar um táxi para ir a um endereço em bairro distante, mas o neto Felipe, do alto dos seus 16 anos, me faz um alerta:
— Que isso, vô? Táxi é coisa do passado.
Como coisa do passado, penso eu, se os táxis estão aí aos milhares pelas ruas com suas placas vermelhas à disposição de passageiros apressados? Enquanto penso, ele já vai completando:
— Hoje tem Uber, vô. Táxi já era. Vá de Uber – e aponta as vantagens da nova modalidade de transporte nos chamados carros de praça. A principal delas é ser mais barata. De fato, pegar um Uber custa bem menos.
E de repente me vejo pensando nas constantes mudanças deste mundo louco. Dou-me conta de coisas que ainda estão aí, no dia a dia, mas têm presença transitória. Mais cedo ou mais tarde serão engolidas pelo futuro. Exemplo muito próximo está bem aqui do lado. É o gabinete volumoso do computador que me serve neste momento. Olho pra ele quase com um ar de despedida. Sei que daqui a pouco será coisa do passado. Já está sendo substituído pelos tablets, pelos computadores compactos. Assim como os táxis, vivem os momentos de se entregar aos novos tempos.
E lembro das muitas mortes que vi e vivi de máquinas e aparelhos diversos. Vi perecerem as máquinas fotográficas e as filmadoras, que perderam a vez, a utilidade e o foco. Vi o adeus às câmaras escuras, aos reveladores e fixadores, aos filmes ou películas, aos fotogramas. As polaroides, essas surgiram do nada e se foram sem se despedir. E o mais triste: vi o adeus aos lambe-lambes.
Assisti à morte súbita das máquinas de escrever, nas quais a gente aprendia a datilografar no tempo em que saber datilografia facilitava a obtenção de emprego. Máquinas datilográficas eram indispensáveis nos escritórios, onde faziam parte do ambiente como protagonistas, responsáveis que eram pelos memorandos, avisos e correspondências. Nos jornais, as Remingtons ou Olivettis enchiam as redações com um barulho ensurdecedor. Mas era um barulho bom. Daquele toc-toc generalizado nasciam as notícias que repórteres buscavam nas fontes e transpunham datilografadas para o papel. Vi quando elas de repente cederam lugar ao silêncio dos computadores. Nas oficinas dos jornais, desapareceram os linotipos.
Também vi quando se despediram do mundo os discos de vinil, e com eles as radiolas e as agulhas que os faziam emitir sons. Querem ressuscitá-los, mas o mundo da música não parece disposto a acolhê-los.
Presenciei a despedida das fitas VHS, dos disquetes, dos videocassetes, dos videogames, do walkman, do telefone de mesa com disco, da televisão em preto e branco. Os orelhões estão em estado terminal.
Também viraram coisas do passado no mapa caseiro os álbuns de fotografias e o coador de pano.
Mas há uma coisa que teima em não mudar e muito menos desaparecer. São as baterias, acumuladoras de carga elétrica. Um século atrás eram as mesmas de hoje, e parece que não apenas na aparência. A tecnologia não conseguiu reduzi-las desde o tempo em que serviam para acionar não apenas automóveis, mas os mais diversos aparelhos. Tínhamos em nossa casa de São José do Jacuri um enorme rádio Philips de válvulas, movido a bateria. Era a mesma dos automóveis antigos e é a mesma dos atuais. Talvez acumulasse menos energia, mas ocupava o mesmo espaço, e o formato era exatamente o mesmo. Não sei por que a tecnologia, que avança tanto, ainda não conseguiu acumular energia numa bateria menor. Só se conseguiu para algumas horas de funcionamento nos telefones celulares, e olhe lá.
É, meu caro amigo e minha amantíssima amiga. Ao longo desta minha vida que caminha para o nada (felizmente ainda em passos lentos), vi muita coisa que de repente trocou o presente pelo passado. Até políticos honestos eu vi. Juro que vi. Mas esses, se ainda existem, estão em extinção, assim como os táxis.
*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

Com novo visual, Museu das Invenções terá visitas guiadas em janeiro

Museu também terá brincadeiras e programação infantil

Depois de uma reforma em setembro, o Museu das Invenções, em São Paulo, vai promover uma programação especial nas férias de janeiro, com atividades lúdicas, brincadeiras e visitas guiadas.
Também conhecido como Inventolândia, o Museu das Invenções foi criado em 1996 e é o único do gênero na América Latina, segundo a diretora, Daniela Mazzei.
Com um acervo composto de mais de 300 invenções, o museu abriga objetos que derivaram de ideias inusitadas e inovadoras de brasileiros, tais como a boia espaguete (ou macarrão, utilizado em praias e piscinas) e a calculadora científica, que são conhecidos e utilizados no mundo todo.
 Museu das Invenções
Boia espaguete é uma das invenções brasileiras expostas no Museu das Invenções - Elaine Cruz/Agência Brasil
“Temos aqui cases de sucesso como a boia espaguete, que está no dia a dia de todo mundo; a maca para animais que pensa na acessibilidade e na deficiência de cachorros que estão com a pata machucada ou que têm alguma doença; e uma leitora que segura o livro para você”, citou Marina Santino, educadora do museu, em entrevista à Agência Brasil.
Além de apresentar alguns objetos inusitados e extremamente criativos do Brasil e do mundo, uma das grandes diversões do museu está no fato de que, diferentemente da maioria dos demais, nele os visitantes podem tocar e mexer nos objetos. Há guias no museu que descrevem e apresentam ao visitante a forma de uso de cada um deles. 
“O Museu das Invenções é um espaço de troca de ideias e que mostra a capacidade, principalmente para as crianças, de poder mudar não só a sociedade, mas também as tecnologias do dia a dia”, destacou Marina Santino.

Novidades

 Museu das Invenções
Microfone com alto falante embutido e sem fio permite ao usuário reduzir ruídos e regular o volume - Elaine Cruz/Agência Brasil
Com a reforma realizada em setembro, o museu ficou mais moderno. Uma das novidades é que os visitantes vão poder conhecer os mais importantes inventores da história - tais como Thomas Edison, Albert Einstein, Alexander Graham Bell e Steve Jobs – por meio de displays.
O museu também passou a abrigar novos objetos. Um deles é um microfone com alto falante embutido e sem fio, que possui conexão bluetooth e que permite ao usuário reduzir ruídos e regular o volume. O produto, segundo a Associação Nacional dos Inventores (ANI), que comanda o museu, permite conectar o celular em função karaokê, gravar músicas e também possui caixa amplificadora e bateria recarregável, embutidos diretamente no microfone. 
Há também um guarda-chuva invertido, que promete facilitar a vida do consumidor na hora do uso. Ao abrir ou fechar o produto, o formato diferenciado evita que a água escorra ou respingue no usuário. A invenção facilita a vida do cidadão que precisa entrar e sair do carro em dias de chuva. 
Outras novidades preparadas para o público são o ferro de passar roupa que funciona por indução, uma churrasqueira portátil totalmente dobrável que já vem com kit churrasco, um boné para tirar cisco do olho, um pente para pessoas carecas e óculos com retrovisor. Dois hamsters de pelúcia, que repetem tudo o que você está dizendo, também estão expostos no museu. 
 Museu das Invenções
Guarda-chuva invertido promete facilitar a vida do consumidor na hora do uso e está exposto no Museu das Invenções - Elaine Cruz/Agência Brasil
A partir do ano que vem, o museu vai começar a receber empresas, palestras e grupos de investidores que queiram conhecer os projetos, destacou a diretora do local.
O museu funciona de segunda a sexta-feira e estará fechado para as festas de final de ano. O retorno da programação está marcado para o dia 2 de janeiro.

Inventores

 Museu das Invenções
Hamsters de pelúcia repetem tudo o que o visitante disser  Elaine Cruz/Agência Brasil
Brasileiros que queiram criar novos inventos podem procurar a Associação Nacional dos Inventores (ANI) para apresentar suas ideias.
“A criatividade do brasileiro é ímpar. Grandes inventores brasileiros ficaram marcados na história pela criação de soluções e produtos importantes. É o caso do câmbio automático veicular”, disse Carlos Mazzei, presidente da ANI. Ele acrescenta que a maioria dessas invenções nasceu em garagens. “Todas as ideias surgem de uma necessidade”, completou.
“O que seria de nós sem os inventores? Se pararmos para pensar, tudo à nossa volta foi inventado ou pensado por alguém. Nosso trabalho é apoiar e orientar pessoas com ideias, principalmente os inventores brasileiros que não têm um caminho ou uma orientação ou não sabem o que fazer quando têm um projeto”, disse Daniela Mazzei, diretora do museu.
“O museu é umas das vertentes do trabalho amplo e complexo que é realizado hoje pela associação”, explicou Daniela. “Hoje, ela [a associação] atua desde a fase inicial de análise da ideia e da pesquisa para entender a viabilidade, até a parte de formatação e registro da patente. E, depois disso, em como viabilizar e fazer um trabalho de divulgação para buscar um parceiro, empresa ou investidor que o auxilie para levar o projeto adiante para que ele se torne um produto de sucesso no mercado”, explicou Daniela.
Para ser um inventor, segundo a educadora do museu Marina, não é preciso ter muito dinheiro, mas colocar em prática o poder de observação. "Quando você observa que tem um problema ou que alguma coisa tem uma limitação, você pode usar a sua criatividade, sua expertise e as coisas que já existem, que também são invenções, para criar uma coisa nova”, disse Marina. As invenções também não precisam ser tecnológicas. “Não precisa fazer um aplicativo, criar uma startup. Quem visitar a maca para animais [no museu] verá que ela foi feita com cano PVC”, destacou.
Mais informações sobre o museu podem ser consultadas pela internet.
Agência Brasil

28 de dezembro de 2019

Avanço do tempo

A caminhada do tempo é inexorável. Ele chega e vai logo em frente. Não há pausa. O tempo corre nos trilhos, num certeiro avanço sempre com destino ao progresso da existência de todos nós. No decorrer dos anos, vem sendo assim. Aproxima-se o fim de ano, e os acenos de festas já surgem exuberantes, nos quatro cantos do mundo. 
Festa nova num colorido estilizado. É o novo que chega impoluto. Exemplo maior está na numerologia que marca o ano na sua dimensão correta. Sai-se de 2019 e vislumbra-se 2020. Matemática correta na soma dos dias. Está decretado mais um ano bissexto. Muita gente “aproveita” para gritar “é o ano do meu aniversário!”. Conquista, de imediato, uma juventude de quatro anos...

Homens e mulheres correndo para alcançar um novo tempo. Orgulho de ser mais jovens, pelo menos hipoteticamente. Temática gostosa para as redações de jornais com muita gente querendo escrever sobre o novíssimo ano. O 2020 aí está tocando as trombetas para o despertar na sistemática de encantar pela forma ousada da diferença.
Avanço no tempo de forma natural e espontânea. É a técnica elementar da contagem do calendário de um modo geral. Ponto a favor da humanidade. Assomo da tão desejada percepção de que somos “um por todos e todos por um”. Fraternidade com direito à “trégua entre os beligerantes...”

Esperamos um 2020 compatível com a própria singeleza do título milenar que avança no tempo e convida a todos para a grande festa da fraternidade. Pode-se dizer que é possível viver em paz. 
Resta repetir o chavão sempre novíssimo: Feliz Ano Novo!
Por Paulo Eduardo Mendes - Jornalista

27 de dezembro de 2019

PODCAST: A esperança na Criança de Belém



Por Pe. Geovane Saraiva

Crianças de 3 a 5 anos confeccionam livro

Prefeitura de Votuporanga/DivulgaçãoProjeto literário envolveu crianças ainda em fase de alfabetização
Projeto literário envolveu crianças ainda em fase de alfabetização
A literatura é um poderoso instrumento de conscientização e educação. Além disso, o hábito da leitura é parte importante do desenvolvimento infantil e pode trazer uma série de benefícios, como deixar a memória afiada, instigar a empatia e desenvolver uma percepção apurada.
Com o objetivo de promover estes benefícios e ainda estimular a imaginação, aguçar a curiosidade e ajudar no desenvolvimento da linguagem, tanto escrita quanto oral, professores do Centro de Educação Municipal de Ensino Infantil (Cemei) "Professora Maria Aparecida Barbosa Terruel", em Votuporanga, lançaram um projeto de leitura em que as crianças produziram livros.
Cerca de 140 alunos, entre três a cinco anos, criaram livros, cujas histórias foram contadas por meio de desenhos feitos pelas próprias crianças. Uma noite de autógrafos, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), foi promovida pela escola.
O projeto começou a partir do segundo semestre e, ao longo dos meses, com auxílio dos professores, as crianças conseguiram passar para o papel toda a criatividade e desenvolver uma história coerente. "Trabalhamos em conjunto uma história dentro da sala de aula e incentivamos a criatividade individual de cada aluno para o desenvolvimento das ilustrações", afirma a professora Taysa Naiara Delarica.
Diário da Região

O menino dorme em paz

A imagem pode conter: mesa e área interna

Padre Geovane Saraiva*

Na noite do dia 24 de dezembro de 2019, o Menino Jesus, tendo nascido pobre no coração dos seres humanos, foi dormir em paz, de acordo com célebre canção natalina. Já no dia 25, me dispus a encontrar o recém-nascido, que ainda dormia na manjedoura da nossa Igreja de Santo Afonso. Ele dormia de verdade, revelando-nos uma profunda serenidade, ternura e grande paz! Mesmo assim, voltei-me para a estribaria, no sentido de despertá-lo, sem perder a oportunidade de fazer-lhe um pedido: que eu mesmo possa acordar e ajudar a abrir os olhos de muitos irmãos que gostam de dormir.

Ó Senhor, abençoe a todos os que percebem vossa divindade e se sensibilizam, num olhar terno e afável, diante da manjedoura! Ela é sagrada e nos recorda, não só o humilde e vulnerável nascimento da criança de Belém, mas faz-nos elevar aos céus nossos pensamentos, solidários, para multidões enormes de seres humanos que nascem e vivem nas mesmas condições. Nossa esperança está no Emanuel, Deus Conosco, Senhor e Salvador de todos, que vive e reina para todo o sempre!

Fomos criados, pela proposta do nosso bom Deus, para imitar Jesus de Nazaré, tendo seu início no mistério luminoso da verdadeira luz. Acolhamos o anúncio do Anjo do Senhor, na real e radical simplicidade, humildade e ternura da manjedoura. Agradecidos, diante de Deus Menino, coloquemos a nossa vida de mãos elevadas, porque, com Jesus, nascemos para Deus. A esperança e a consolação chegaram para a humanidade, as quais pedem respostas, na nossa acolhida generosa e sensível atenção ao dom maravilhoso da vida, associados ao sim da Mãe de Deus.

Que neste ano de 2020, que se inicia, tenhamos um espírito de abertura, convidados que fomos a refletir e a pensar na nossa vida, que é dom e graça, a partir da criança de Belém, sem esquecer sua e nossa querida mãe. Enormemente, ela está, de uma maneira muita discreta, em toda parte, na ação salvífica de seu filho redentor, a qual jamais podemos rejeitá-la. Assim seja!

*Pároco de Santo Afonso, Blogueiro, Escritor e integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza

Foto: Padre Geovane Saraiva, vista da estrada na Serra de Baturité -  de Aratuba a Mulungu Ceará

26 de dezembro de 2019

Após ser empurrado no altar, Padre Marcelo Rossi lançará livro com capítulo sobre o perdão

* Com inforrmações da Folhapress
A força do perdão será um dos capítulos do livro que o Padre Marcelo Rossi pretende lançar em 14 de julho de 2020. Na obra, o sacerdote abordará a experiência vivida no dia 14 de julho de 2019, em que foi empurrado do altar, caindo de uma altura de dois metros.
Para Rossi, a ocorrência serviu como um "chacoalhão" para ele valorizar mais a própria vida e seguir com sua missão. Conforme o Padre, desde o episódio, ele ganhou estímulo, que se reflete em novos projetos, a exemplo do lançamento do EP "Maria Passa à Frente."
Foi a maior dor que eu já senti em 52 anos da minha vida".
Essa é uma das lembranças mais fortes que padre Marcelo Rossi tem do episódio, quando uma mulher invadiu o altar no qual ele celebrava uma missa em Cachoeira Paulista (a 212 km de São Paulo) e o empurrou do palco.
No início de dezembro, cinco meses depois do ocorrido, Rossi retornou ao local da queda e afirma ter vivido um milagre. “Não tem explicação, era para, no mínimo, eu ter me estourado todo ou estar tetraplégico ou não estar aqui (...) Não tenho dúvida nenhuma que foi um milagre", revela em entrevista à Folhapress.
Apesar da dor "que só de imaginar arrepia", ele conta que também teve uma força muito grande para voltar ao altar e continuar a rezar a missa. "Tinha dor? Tinha. Mas dentro do coração eu tive uma força, primeiro de perdão. Eles falavam em B.O., mas eu sou padre, a minha delegacia é a capela, o meu B.O. é Bíblia e oração."
O Padre ressalta que, em nenhum momento, sentiu raiva da mulher que o empurrou, porque está muito agradecido a "Deus pela vida". "Não é humano, não é possível alguém jogar com uma força tão grande... Depois eu vi o tamanho da pessoa, que tem a metade do meu tamanho, e fiquei mais impressionado ainda", afirma.
O sacerdote está convicto de que o fato de ter perdoado a responsável pelo empurrão foi fundamental para que ele não tivesse nenhuma sequela. "Se tinha alguma coisa quebrada no meu corpo, tenho certeza que lá eu fui curado [ao continuar a missa]."
Ele só foi ao hospital dois dias depois do acidente e, após uma bateria de exames, a única recomendação médica foi arnica para cicatrizar o ralado na perna, gerado ao cair na grade de ferro que estava no local.
Marcelo Rossi não chegou a se encontrar com a mulher que o empurrou, mas diz que não teria problemas em conversar com ela. Detida pela polícia, a mulher (que teve o seu nome preservado) declarou que sofre de transtorno bipolar e está em tratamento psiquiátrico.
Programa de rádio
Além do lançamento do livro, o sacerdote comanda o programa de rádio "No Colo de Jesus e Maria", de segunda a sábado, das 8h às 9h, transmitido, em Fortaleza, pela Rádio Verdes Mares.

A ovelha e a moeda perdida

“Cada alma humana valeu (e vale) nada menos do que o próprio sangue redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo”

Ocontexto no qual o Senhor Jesus conta essas parábolas (da ovelha e da moeda) é interessante: os fariseus, que se achavam puros, julgam o Senhor porque Ele recebe os pecadores e faz suas refeições com eles (cf. Lc 15,2). Ora, ante o legalismo farisaico, Cristo propõe a infinita misericórdia que alcança a cada ser humano realmente arrependido e o leva a superar os seus pecados com a graça divina.
  1. A ovelha desgarrada: Notemos que as duas parábolas são muito semelhantes, embora uma (a da ovelha) ocorra no campo e a outra (a da moeda) se dê na cidade.
Vejamos a primeira: um homem tem cem ovelhas e perde uma. Deixa as noventa e nove para buscar a que se perdeu e se alegra, com os amigos, por tê-la encontrado, assim como o Pai celeste se regozija por um só pecador que se converte. Alguns detalhes são, aí, importantes: a) cem ovelhas era um rebanho grande (quase incomum) na Palestina de então. Esse “exagero” da parábola reforça o interesse pela ovelha perdida (100/1); b) é o próprio dono quem cuida do rebanho e não um empregado. Esse dono é Jesus, o Bom Pastor; c) ter animais perdidos não era algo espantoso naquela região. Em Lc 14,5 já se fala no boi e no asno caído em uma fossa, daí também a procura do animal perdido ser uma atividade corriqueira, de modo que o Senhor Jesus indaga: qual dos seus ouvintes não deixaria a quase totalidade das ovelhas (99) para se colocar em busca daquela (1) transviada (cf. Lc 15,4)? É o amor de Deus. Cada uma dessas ovelhas tem o mesmo valor; d) no encontro da ovelha perdida é que se dá o gesto misericordioso, segundo Dom Estêvão Bettencourt, OSB: “Ao encontrar o animal desgarrado, o pastor não a pune nem censura, nem a obriga a caminhar, mas coloca-a sobre os ombros e leva-a para casa. Este traço é paralelo ao do pai do filho pródigo, que se atira ao pescoço do jovem e o abraça” (Parábolas e páginas difíceis do Evangelho, Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1991, p. 106); e) os amigos são chamados para a festa após o encontro, embora isso não fosse comum (sempre se perdiam animais), mas o Evangelho, por meio dessa parábola, usa do pastor e da ovelha para demonstrar o grande amor na alegria do reencontro entre Deus e os seus filhos; f) o Senhor ama a todos os seus filhos indistintamente: os próximos do pastor e aquele que se desgarra (a mãe cuida mais do filho doente que dos sadios e muito se alegra quando o enfermo sara); g) o pecador não é um ser estranho a Deus, mas tão somente um filho que se afasta do Pai e dos irmãos, mas sempre tem a chance de se converter. Ao fazê-lo merece festa e h) o pecado não tira o direito de alguém de ser filho de Deus, apenas o afasta momentaneamente do rebanho ou do caminho traçado pelo pastor. O Bom Pastor (Deus) sempre espera de braços abertos o retorno desse(a) filho(a).
  1. A moeda perdida: trata-se da história de uma mulher que tinha, em sua casa, dez moedas e perdeu uma, que poderia estar enrolada em um pano dentro de um vaso, como era costume na época. A casa, como várias daquele tempo na Palestina, devia ser baixa com uma simples janela que dava para uma ruazinha escura e estreita. Daí a necessidade, embora sendo dia, de que a dona da moeda acendesse a lâmpada e varresse a casa para encontrar o dinheiro perdido. Encontrou-o e, de alegria, chamou as amigas e vizinhas para comemorarem o importante fato.
É um caso semelhante ao da parábola anterior, desejosa de destacar a grande felicidade do encontro (há imensa alegria no céu pelo reencontro do que estava perdido, cf. Lc 15,10). A conversão de um pecador que volta aos caminhos do Senhor é sempre causa de festa no céu. Quer incutir a ideia de que todos têm valor único, por isso Deus não ama apenas de modo genérico, mas se alegra com o retorno de cada pessoa a Ele, como dá a entender o grande Apóstolo Paulo: “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20 – destaques nossos). Tudo isso, longe de demonstrar individualismo, mostra que Deus é nosso Pai (cf. Mt 6,9), porém ama a cada filho(a) de um modo todo especial ou individual. Cada alma humana valeu (e vale) nada menos do que o próprio sangue redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo e isso é motivo de grande reflexão: que faço eu ao tomar conhecimento de tão grande herança divina: ser filho no Filho (cf. Gl 4,5)?
Aleteia

Literatura dos bilionários: cinco dicas de leitura de Bill Gates

Bill Gates, fundador da Microsoft e homem mais rico do mundo, dá cinco dicas de livros para 2020 — e duas das obras possuem tradução para o português

24 de dezembro de 2019

Crônica: Reflexão dos símbolos natalinos

Jesus foi criado sem usar internet, rádio ou televisão. Nunca se vacinou e chegou aos 33 anos sem fazer biometria, sem usar cartão de crédito e sem viajar à Disney

Os principais símbolos natalinos vêm marcados pelo número três. Começa que pode ser comemorado, de forma triádica, pela manhã, à tarde ou à noite, por homem, mulher e criança, com fé, esperança e caridade. Uma boa oração nessa ocasião faz bem, e pode ser feita de joelhos, sentado ou em pé. Não se deve esquecer do nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Tudo, no entanto, deve se iniciar com a Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Ao festejar o nascimento da divina criança, convidar os três reis magos, que, segundo Mateus, eram: o persa Melquior, o indiano Gaspar e o árabe Baltazar que presentearam ao recém-nascido, ouro, incenso e mirra.
Deles, surgiu a tradição de bem presentear. De referência a três pessoas: um familiar, um amigo e um estranho necessitado. A tradição diz que em busca do presépio vieram três pastores. Eram judeus que no campo viram um anjo que lhes indicou o rumo de Belém onde uma criança muito poderosa acabava de nascer. Chegando lá encontraram a Sagrada Família, os reis magos e três plantas: uma oliveira, uma tamareira e um pinheiro. O pinheiro verificou que só ele não produzia frutos. Apelou para o Criador que lhe enviou uma estrela, uma lua amarela e um sol nascente.
Jesus foi criado sem usar internet, rádio ou televisão. Nunca se vacinou e chegou aos 33 anos sem fazer biometria, sem usar cartão de crédito e sem viajar à Disney. Não precisou ir ao cinema, não andou de roda-gigante, nem tirou carteira de identidade. Viveu com Maria e José e mais ninguém de babá. Brincava com seu primo João, brincadeiras de criança sem usar tablet, smartfone nem computador.
Falava o aramaico, lá a fala deles, e não precisou estudar inglês, nem francês nem mandarim. Foi criança, adolescente e rapaz sem torcer por time algum, sem pertencer à facção nem à torcida organizada.
Aos 30 anos, nas bodas de Canaã, fez seu primeiro grande milagre, multiplicando pães e transformando água em vinho e reanimou a festa. Aos 33, começou sua via sacra. Foi vendido por 30 dinheiros, viu Pedro lhe negar três vezes, às três da madrugada, e foi crucificado ao lado de dois ladrões, ficando as três cruzes perfiladas no alto do Calvário.
Às três da tarde, deu-se a agonia do corpo. No terceiro dia ressuscitou e depois transfigurou-se ao lado de Elias e Moisés formando um trio no monte Tabor, espargindo luz incandescente. Interessante é que o nascimento ficou no fim do ano, e a morte no começo para provar que a morte é apenas o começo de uma passagem para uma vida maior.
Natal é cognato de nascer. Nascer e renascer é algo que pode acontecer em qualquer dia. Foi-lhe, no entanto, dada uma data fixa. E há uma fraternidade que se manifesta maior nesse dia. Cristo nasceu para ser Rei, Sacerdote e Profeta. Todo ano consegue o milagre de transformar as pessoas por algumas horas. Vamos, no entanto, alongar esse Natal anual em mensal, em diário. Vamos presentear sorrisos, apertos de mão e abraços. Que os sinos toquem hoje, amanhã e depois.
Com tantos anos de sobrevivência dessa tradição natalina, que o momento seja de renovação. É preciso refletir para se saber qual a melhor forma de se renovar. Renovar costumes e práticas dentro da ética, da moral e da devoção. Refletir antes de escolher o caminho a trilhar. É preciso fazer com que o Natal perdure pelo ano inteiro nesse clima de fraternidade. É preciso fazer com que todo dia seja dia de nascimento de novas formas de viver. Que a grande árvore da vida seja enfeitada pelas virtudes e que o exemplo do Cristo Jesus permaneça em vigor no gênero humano per omnia saecula saeculorum, amém.

Feliz Natal da AMLEF


Então é Natal. É mesmo?

Das singelas noites felizes do passado aos cybernatais de agora


Na mochila, Milito trazia mais um adorno que encontrou no lixo da cidade para compor seu presépio na favela
Na mochila, Milito trazia mais um adorno que encontrou no lixo da cidade para compor seu presépio na favela
Marco Lacerda*
Numa dessas tardes escuras com jeito de chuva, quando o coração da gente se enche de cinzas, aí pelas seis da tarde saio para um passeio pelas redondezas da minha casa. Como sempre, tudo me parece estranho até que avisto à distância o garoto Milito, as duas mãos segurando firmes no braço direito da mãe, Flora, que criou o filho sozinha, desde que ficara viúva, levada pela certeza de que só se pode ensinar uma criança a amar, amando-a.
Voltavam para casa - ele da escola, ela da labuta diária como empregada doméstica num bairro distante. Mais passeavam que andavam rumo ao casebre de três cômodos que habitam numa favela da região, mobiliado apenas com o essencial, tudo muito simples mas gracioso e aconchegante. Não é pobre quem se contenta com o que possui.
Na mochila, Milito trazia mais um adorno que encontrara no lixo das ruas para compor seu presépio de Natal. O presépio, já quase pronto, é um prodígio da imaginação infantil de Milito. O menino Jesus é maior que o boi, as casinhas espetadas nas colinas cobertas de algodão são maiores que a virgem, tem uma réplica da Torre Eiffel de alumínio e um trenzinho-de-corda e um fiscal de trânsito, representado por um soldadinho de chumbo capenga, ordenhando a passagem de um rebanho de cordeiros numa esquina de Jerusalém, para evitar conflitos com os palestinos. Acima de tudo, uma estrela de papel-alumínio dourado indica aos Reis Magos o caminho da salvação.
É feínho, mas parece conosco. Parece conosco nos tempos em que ainda acreditávamos que os presentes de Natal eram trazidos, não pelos Reis Magos, mas pelo menino Deus e íamos dormir mais cedo para que os presentes chegassem depressa. Foi por essa época que uma tia solteirona resolveu contar a verdade sobre a procedência daqueles presentes. Minha infância acabou um pouco naquele dia, não só porque acreditava que era o Menino Jesus quem os trazia, mas porque queria continuar acreditando.
Jogadas de marketing sucessivas acabaram por destronar o Menino, substituindo-o por um tal Papai Noel, também conhecido como Santa Claus, ambos com narizes de bebuns, que descem dos céus sob uma tempestade de neve apocalíptica, nunca vista na tropical Noite Feliz da América Latina.
Com o tempo, as renas e os trenós também foram sendo trocados e este ano – dizem – o mundo presenciará o mais revolucionário Natal de todos os tempos, com uma Ferrari puxada por uma matilha de pitbulls voadores, trazendo a bordo o que existe de mais exótico no mercado: a nova linha de acessórios de Hannibal Lecter, extintores de flatulência, kits para piromaníacos e outras utilidades domésticas.
Por estas e por outras, não surpreende que esse engodo cultural tenha levado milhões de crianças pelo mundo afora a acreditar piamente que a gruta de Belém fica na Trump Tower e que o menino Jesus nasceu em Nova York
*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total

Os melhores livros do século XXI

"Fazer listas", escreve Alberto Manguel em seu O Diário de Leituras, "dá origem a certa arbitrariedade mágica, como se a simples associação pudesse criar sentido". Pois bem, que sentido se pode encontrar em uma lista que tenta fazer um balanço das duas primeiras décadas do século XXI? Vamos começar pelo princípio. Naquela terça-feira de 11 de setembro de 2001 dois aviões de passageiros sequestrados por terroristas suicidas derrubaram as Torres Gêmeas de Nova York, mataram quase 3.000 pessoas e mudaram o mundo para sempre. De passagem, mandaram para o quarto de despejo a hipótese hegeliana do fim da história reciclada por Francis Fukuyama depois da queda do muro de Berlim e resolveram a discussão sobre se o século XXI começava no ano de 2000 ou em 2001. A guerra das galáxias ficou no choque de civilizações. O computador passou no teste de efeito 2000, mas seu usuário –a nova grande palavra– entrou na era do medo, da insegurança, da precariedade, da intimidade (pública) e da realidade (virtual).
O futuro tinha chegado tão cedo em forma de estilhaços que os cinemas ficaram repletos de remakes; as livrarias, de cânones, coletâneas e resumos e listas do melhor melhor e dos mais mais (que se deveria ver, ler e escutar... antes de morrer). Também de escritos com um fundo de história universal e livros de não-ficção ou autoficção que dão tanto valor ao enredo como a seu making-of. Incapaz de imitar uma realidade presente que parecia de romance, a literatura se voltou para o passado, a memória (histórica apenas), a investigação jornalística, em primeira pessoa e na própria literatura, que se tornou metatudo.
Daí o triunfo absoluto de 2666, um livro total composto por cinco partes e publicado no segundo semestre de 2004, no ano seguinte à morte de seu autor. Desde Borges –meticulosamente retratado por Adolfo Bioy Casares em um diário já inevitável -, nenhum escritor influenciou tanto as novas gerações como Roberto Bolaño. O fato de seus livros começarem a ser publicados na Espanha pela Anagrama e atualmente pela Alfaguara –as duas editoras espanholas mais presentes na lista da Babelia– é outro sintoma do peso de alguns selos na criação do gosto contemporâneo.

O escritor chileno Roberto Bolaño, em 1997.
O escritor chileno Roberto Bolaño, em 1997.MANOLO S. URBANO

Talvez por uma mera questão geracional, a literatura canônica das duas primeiras décadas do século XXI se ocupou de cutucar as feridas do século XX. As guerras mundiais, a guerra civil espanhola, o período pós-guerra, a descolonização, as migrações, o apartheid, as ditaduras latino-americanas, a queda do império soviético, os feminicídios em Ciudad Juárez ou as turbulências no Oriente Médio podem ser rastreados na obra do próprio Bolaño e de Ian McEwan, WG Sebald, Javier Marías, Javier Cercas, Tony Judt, Mario Vargas Llosa, J.M. Coetzee, Zadie Smith, Svetlana Aleksiévich, Emmanuel Carrère, Marjane Satrapi e Edmund de Waal.
Se esses autores começam a ser canônicos, não é apenas por causa dos tópicos que abordam, mas também pela maneira como o fazem: misturando realidade e ficção, narração e reflexão, dinamizando os gêneros tradicionais ou deixando que sua intimidade sem filtros discutia com a história. Universal. Esse eu com vontade de nós é o que produziu, além do mais, títulos como os de Joan Didion, Lucia Berlin, Anne Carson e Raúl Zurita –que deu à sua obra magna o próprio sobrenome–, e sobretudo os seis volumes de Karl Ove Knausgård.
A grande história e a intimidade bruta também estão presentes em títulos de sucesso do século XXI, como O Código Da VinciO Menino do Pijama Listrado ou Cinquenta Tons de Cinza. Por que não estão nesta lista? Talvez porque não se encaixem na definição que o crítico Northrop Frye cunhou para "grande literatura": aquela que é "dona de uma visão sempre mais vasta do que a de seus melhores leitores". O poeta Wystan Hugh Auden fez a seguinte ponderação: “Existem livros que foram injustamente esquecidos; ninguém é lembrado injustamente”.
crise econômica de 2008 acrescentou a indignação à insegurança e deu razão a um romance premonitório publicado na Espanha um ano antes: Crematorio, de Rafael Chirbes. Por tabela, empoderou –o verbo do século– um gênero e uma geração. O feminismo e o ambientalismo são, por ora, a resposta mais contundente a uma tendência insustentável que está a caminho de transformar em realismo puro um romance de, digamos, ficção científica como A Estrada, de Cormac McCarthy. Protagonizado por dois homens sozinhos –pai e filho– que vagam por um planeta devastado, a distopia do autor norte-americano inclui em suas páginas algo que se assemelha a uma definição da literatura de hoje: “Deus não existe e nós somos os seus profetas”.



1. '2666', Roberto Bolaño

“2666 é o melhor de uma produção literária prematuramente interrompida", escreveu Ana María Moix em Babelia em 2004, "Amalfitano, um dos protagonistas da segunda das cinco partes ou romances que compõem 2666, obra póstuma de Roberto Bolaño (1953- 2003), originalmente publicada na Espanha pela Anagrama e atualmente disponível na Alfaguara, rememora do México uma conversa mantida anos antes em Barcelona com um jovem farmacêutico que passava suas noites de serviço lendo. O jovem gostava de ler romances curtos como A Metamorfose de Kafka. Bartleby, o Escrevente, de Melville; Um Coração Simples, de Flaubert, ou Um Conto de Natal, de Dickens, títulos que escolhia, em vez de O ProcessoMoby DickBouvard e Pécuchet ou As Aventuras do sr. Pickwick, longos romances dos autores citados. "Que triste paradoxo, pensou Amalfitano", escreve Bolaño. "Nem mesmo os farmacêuticos esclarecidos se atrevem mais às grandes obras imperfeitas e torrenciais que abrem caminhos no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres (...) '. E, de fato, isso é 2666: uma grande obra torrencial, que abre caminhos no desconhecido." Moix ressalta que as cinco partes dessa grande obra podem ser lidas separadamente, mas se perderia a grandeza que elas alcançam juntas. Editora: Companhia das Letras


10. 'O ano do pensamento mágico', Joan Didion

“A obra de não ficção de Joan Didion (1934) exemplifica bem o gênero conhecido como ensaio pessoal, uma forma de escrita cujo objetivo é submeter as circunstâncias históricas ou sociológicas a um exame de uma perspectiva radicalmente subjetiva", escreveu Eduardo Lago em 2005 nestas páginas. Este livro de luto é, nas palavras do escritor, "o mais pessoal, pela temática íntima e dolorosa": a morte de seu marido. Editora Nova Fronteira.

2. 'Austerlitz', W. G. Sebald

O romance do alemão W. G. Sebald (1944-2001) narra a odisseia vital de um homem sem história chamado Jacques Austerlitz em busca desse tecido perdido no tempo que são os seus pais. O protagonista caminha sobre os restos de uma devastação insuportável após duas guerras. “Austerlitz é uma representação formidável do destino do homem moderno levado a um extremo: o do desenraizamento extremo; e da capacidade de sobrevivência do ser humano”, escreveu nestas páginas José María Guelbenzu em 2002. Editora Companhia das Letras


3. 'La belleza del marido', Anne Carson

Anne Carson (1950) abordou em The Beauty of the Husband o conflito desencadeado por sua separação. “Há neste poemário”, escreveu o crítico Ángel Rupérez em 2003, “uma tensão entre a idealização inicial do marido (…) e o colapso desse ídolo que consegue exceder em muito o anedotário mais estritamente autobiográfico e confessional, constantemente transformado em matéria poética contaminada por uma respiração lírica contínua e subterrânea –não explícita– feita de elegia contida e crença incondicional na beleza”.


4. 'A Festa do Bode', Mario Vargas Llosa

A Festa do Bode é uma história sobre o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo Molina e, ao mesmo tempo, um impressionante retrato da corrupção destrutiva das ditaduras. Em sua crítica de 2000, o argentino Tomás Eloy Martínez definiu o livro do Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa (Arequipa, 1936) como "um retrato implacável do poder absoluto em um romance que se lê do começo ao fim sem pausa para respirar". Editora Alfaguara.

5. 'Reparação', Ian McEwan

Com rigor e um talento infinito, o britânico Ian McEwan (Aldershot, 1948) vem construindo uma obra tão variada como imprevisível. Reparação é um de seus romances mais célebres, muito antes de ser levado ao cinema. Em sua crítica, Andrés Ibáñez descreveu o romance em 2002 como "uma história de ambição e um alcance pouco frequentes". "É, acima de tudo", prosseguiu, "um triunfo da imaginação criativa, uma obra que justifica em si a existência da arte do romance". Editora Companhia das Letras.


6. 'Limónov', Emmanuel Carrère

Emmanuel Carrère (Paris, 1957) construiu seu próprio gênero, no qual mistura autobiografia com o retrato de personagens insólitos. Foi assim que o autor definiu seu protagonista em 2013: “Ele era um pilantra na Ucrânia, um ídolo do underground soviético, um mendigo e depois um mordomo de um milionário em Manhattan; escritor em Paris, soldado nos Bálcãs e, agora, no imenso bordel do pós-comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele se vê como um herói, mas também pode ser considerado um descarado: não me atrevo a julgá-lo”. Editora Alfaguara.


7. 'Seu Rosto Amanhã', Javier Marías

Javier Marías encerrou sua trilogia Seu Rosto Amanhã em 2007 com Veneno e Sombra e Adeus (Volume 3), em que reflete sobre o egoísmo, a verdade e a culpa. José-Carlos Mainer qualificou a obra como exemplo do gênero de autoficção: “Marías alcançou a construção mais sustentada, complexa e importante que essa vontade (de estilo e gênero) produziu nas novas letras espanholas”. Mainer descreve a obsessão pela "natureza da verdade" e acredita que "o ponto de partida da existência é o egoísmo". Editora Companhia das Letras.

8. 'Borges', Adolfo Bioy Casares

“Das 20.000 páginas de cadernos íntimos que Bioy (1914-1999) escreveu ao longo de sua vida, seu relacionamento com Borges ocupa 1.700", explicou Javier Rodríguez Marcos em um texto de 2006. São as que ele preparou para este volume antes de morrer: “Embora o livro se estenda entre 1931 e 1989, Bioy resume os primeiros 15 anos em uma dezena de páginas. Claro, brilhantes. Os diários borgianos de Bioy estão cheios de literatura”. Borges disse que a relação entre eles era de uma profunda amizade "sem intimidade", cuja pedra angular eram os livros.


9. 'Verão', J. M. Coetzee

Verão, a terceira parte das memórias do sul-africano J.M. Coetzee (1940), "revela uma audácia literária que embora consequente com a última parte de sua obra não deixa de ser um desafio original", escreveu José María Guelbenzu em 2010. Neste livro, cinco entrevistados criam com seu testemunho um Coetzee pessoal e íntimo, em um documento que expressa a vivacidade do espírito do escritor e seu compromisso irredutível com a verdade literária. Editora Companhia das Letras.


11. 'Minha Luta', Karl Ove Knausgård

O norueguês Karl Ove Knausgård (1968) narra sua vida em seis volumes, sob o título de Minha Luta, como autobiografia de Hitler. "Um despejar documental que precisa existir para que surja, de vez em quando, um prodígio que por si só pareceria puramente retórico, mas que, nascido do esmagador acúmulo de detalhes, se torna uma epifania", opinou Alberto Manguel em 2014. Editora Companhia das Letras.