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Altar da Igreja de Santo Afonso


Luiz Piquera*
A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, close-upDr. Aurélio Simões amigo:
peço licença pra rascunhar algumas palavras sobre as fotos que você me enviou do altar da Igreja de Santo Afonso.

Logo de início o equilíbrio simétrico entre os nichos laterais e o centro (algo tão comum em quase todas as igrejas) chama atenção para além do óbvio, com as soluções criativas de painéis/biombos funcionais e, ao mesmo tempo, com ótima valorização das imagens dos santos, cada um com cuidadosa iluminação e com imenso "paspatur" sem moldura, o que abre para o interior da nave cujo teto dialoga com o piso do altar nas linhas retas que sugerem raios a partir de um centro de luz. E é justamente no centro deste altar que ocorre uma valiosa experiência estética com profundos desdobramentos simbólicos.

A imagem pode conter: mesa e área internaTudo parece estar em movimento. Tudo sugere vida! Não se trata apenas de uma mesa de altar.  Esta traz na base, no centro de seu corpo frontal, o peixe, símbolo precioso e aqui tratado em linhas leves, traços econômicos, despojados, dinâmicos.  Sua postura me leva a pensar num  peixe em movimento, num peixe vivo.

Avançando na perspectiva, deparei-me com uma cruz, e aí tudo se encanta e se revela ainda mais interessante. De partida, a coerência entre as linhas leves, econômicas, despojadas como no desenho do peixe. Mas o susto se deu ao perceber a curvatura da cruz, em total equilíbrio com as linhas do peixe e demais elementos do ambiente. Porém, há algo de inquietante.  É como se a cruz estivesse se desprendendo da parede ou do corpo que ela retém. E então o belíssimo trabalho de iluminação oferece uma experiência surpreendente. 

Confesso que nunca encontrei em nenhuma igreja e em nenhuma imagem da cruz uma proposta estética como esta, tão moderna, ousada e poética. Nesta cruz não há um corpo morto, em estado de sofrimento, mas sim um corpo de luz, brilhante. Porém, a poética mais densa  e mais linda deste seu trabalho está na posição em que vemos esta cruz.  Há uma inversão absoluta que, imagino, seja única entre as igrejas cristãs.  Estamos olhando a cruz por trás! Um vertiginoso deslocamento na visão do calvário.

E com este minucioso projeto de iluminação você cria a imagem estilizada de um corpo com a luz, e assim você oferece não apenas o verso (ou inverso) da cruz, mas o sentido simbólico mais precioso do cristianismo que é o Cristo num corpo luminoso, e, dessa forma, celebra o Cristo além da cruz, despojado da cruz...o Cristo Luz, ressuscitado. Vivo!

Enfim, sua arquitetura nesta obra é, em si, uma homilia perene. E de ressurreição! Um discurso explícito de fé. Ao olharmos para frente vendo um Cristo de Luz, temos a sensação de que a cruz fica para trás. E isso é a libertação.

Acompanhando algumas de suas obras nos últimos anos constato que em seu trabalho não há um projeto, uma construção, um detalhe, mas "o" projeto, "a" construção, "o" detalhe. Em seu trabalho o artigo é definido.

*Músico, apreciador da arte e da arquitetura, de São Paulo
A imagem pode conter: pessoas sentadas e área interna
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