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O futuro que nos rodeia

Há coisas que estão aí, no dia a dia, mas que, mais cedo ou mais tarde, serão engolidas pelo futuro
Estariam os táxis em extinção?
Estariam os táxis em extinção? (Unsplash/ Lexi Ruskell)

Afonso Barroso*
Falo em tomar um táxi para ir a um endereço em bairro distante, mas o neto Felipe, do alto dos seus 16 anos, me faz um alerta:
— Que isso, vô? Táxi é coisa do passado.
Como coisa do passado, penso eu, se os táxis estão aí aos milhares pelas ruas com suas placas vermelhas à disposição de passageiros apressados? Enquanto penso, ele já vai completando:
— Hoje tem Uber, vô. Táxi já era. Vá de Uber – e aponta as vantagens da nova modalidade de transporte nos chamados carros de praça. A principal delas é ser mais barata. De fato, pegar um Uber custa bem menos.
E de repente me vejo pensando nas constantes mudanças deste mundo louco. Dou-me conta de coisas que ainda estão aí, no dia a dia, mas têm presença transitória. Mais cedo ou mais tarde serão engolidas pelo futuro. Exemplo muito próximo está bem aqui do lado. É o gabinete volumoso do computador que me serve neste momento. Olho pra ele quase com um ar de despedida. Sei que daqui a pouco será coisa do passado. Já está sendo substituído pelos tablets, pelos computadores compactos. Assim como os táxis, vivem os momentos de se entregar aos novos tempos.
E lembro das muitas mortes que vi e vivi de máquinas e aparelhos diversos. Vi perecerem as máquinas fotográficas e as filmadoras, que perderam a vez, a utilidade e o foco. Vi o adeus às câmaras escuras, aos reveladores e fixadores, aos filmes ou películas, aos fotogramas. As polaroides, essas surgiram do nada e se foram sem se despedir. E o mais triste: vi o adeus aos lambe-lambes.
Assisti à morte súbita das máquinas de escrever, nas quais a gente aprendia a datilografar no tempo em que saber datilografia facilitava a obtenção de emprego. Máquinas datilográficas eram indispensáveis nos escritórios, onde faziam parte do ambiente como protagonistas, responsáveis que eram pelos memorandos, avisos e correspondências. Nos jornais, as Remingtons ou Olivettis enchiam as redações com um barulho ensurdecedor. Mas era um barulho bom. Daquele toc-toc generalizado nasciam as notícias que repórteres buscavam nas fontes e transpunham datilografadas para o papel. Vi quando elas de repente cederam lugar ao silêncio dos computadores. Nas oficinas dos jornais, desapareceram os linotipos.
Também vi quando se despediram do mundo os discos de vinil, e com eles as radiolas e as agulhas que os faziam emitir sons. Querem ressuscitá-los, mas o mundo da música não parece disposto a acolhê-los.
Presenciei a despedida das fitas VHS, dos disquetes, dos videocassetes, dos videogames, do walkman, do telefone de mesa com disco, da televisão em preto e branco. Os orelhões estão em estado terminal.
Também viraram coisas do passado no mapa caseiro os álbuns de fotografias e o coador de pano.
Mas há uma coisa que teima em não mudar e muito menos desaparecer. São as baterias, acumuladoras de carga elétrica. Um século atrás eram as mesmas de hoje, e parece que não apenas na aparência. A tecnologia não conseguiu reduzi-las desde o tempo em que serviam para acionar não apenas automóveis, mas os mais diversos aparelhos. Tínhamos em nossa casa de São José do Jacuri um enorme rádio Philips de válvulas, movido a bateria. Era a mesma dos automóveis antigos e é a mesma dos atuais. Talvez acumulasse menos energia, mas ocupava o mesmo espaço, e o formato era exatamente o mesmo. Não sei por que a tecnologia, que avança tanto, ainda não conseguiu acumular energia numa bateria menor. Só se conseguiu para algumas horas de funcionamento nos telefones celulares, e olhe lá.
É, meu caro amigo e minha amantíssima amiga. Ao longo desta minha vida que caminha para o nada (felizmente ainda em passos lentos), vi muita coisa que de repente trocou o presente pelo passado. Até políticos honestos eu vi. Juro que vi. Mas esses, se ainda existem, estão em extinção, assim como os táxis.
*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

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