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"Alucinação", novo livro de Daniel Perroni Ratto, reverencia Belchior com poemas para incomodar

Daniel Perroni Ratto teve uma infância culturalmente privilegiada ao ser criado em meio ao Pessoal do Ceará. À época, entre outras vivências, era costume a voz de Belchior passear por entre os ouvidos e, já ali, em tenra idade, motivar uns versos e postura crítica perante o mundo e a vida. A alta voltagem do que escutou logo traduziu-se em poemas, os quais encontram-se reunidos no novo livro do autor paulista, "Alucinação".
Lançada em Fortaleza, a obra chega às mãos do público com importante reconhecimento: é a vencedora do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019, na categoria Escritor do Ano. Dividido em cinco capítulos e publicado pela Editora Algabora - de propriedade do autor - o exemplar configura-se, conforme Ratto, como um "livro de guerrilha, alerta, de botar o dedo na ferida, incomodar o status quo, a cultura hegemônica".
Tal característica esparrama-se, de maneira inteligente, por entre cada parte do material - prefaceado por Vanderley Mendonça, do selo Demônio Negro. "Cachorros Loucos" versa sobre a guinada à barbárie do neofascismo; "A Luz dos Desvarios" segue a narrativa, de forma suave e lúdica.
Por sua vez, "Viver é um delírio absoluto" é o mais duro e contundente ataque a forças retrógradas; "A Desordem da Vida" embarca em lirismo, amores e homenagens; e "Insânia", o último capítulo, é a distopia crua e violenta que já estamos vivendo no Brasil.
"Alucinação", em breve, também deve ganhar outras praças. Até lá, fica o pensamento de Ratto: "O Ceará sempre influenciará meus versos".
A seguir, leia entrevista completa com Daniel Perroni Ratto:
Verso: “Alucinação” reúne poesias escritas por você nos dois últimos anos. Como se deu a seleção dessas criações?
Daniel Perroni Ratto: Tudo que está no mundo, no universo, nos afeta. A nossa sociedade, o cotidiano, os amores, as desilusões, as catástrofes, a política, o caos e o nirvana, entre tantas outras coisas. E, nesses dois anos, vivemos um período sombrio, com a volta do fantasma da ditadura, a explosão fascista no mundo, a censura, ataques à democracia, ataque aos Direitos Humanos e às minorias, à liberdade acima de tudo. Comecei a seleção pelos poemas de confronto, de guerrilha a tudo isso. Ao mesmo tempo, vivemos o microcosmo de nossos desejos, não é mesmo? Entraram então, alguns poemas dos amores vividos, outros sonhados e reminiscências.
V: Que linha narrativa/temática integra os poemas?
DPR: O livro tem cinco capítulos. Todos derivados da “Alucinação” do título da obra. O primeiro capítulo, “Cachorros Loucos”, poemas feitos no mês de agosto de 2018, e versa sobre essa guinada à barbárie do neofascismo e sobre o efeito do desmonte cultural e educacional atrelados à futilidade que resulta nessa vida líquida em que vivemos, subaproveitando a tecnologia. “A Luz dos Desvarios” segue a narrativa, de forma mais suave e lúdica sem perder a essência e a retórica. O capítulo, “Viver é um delírio absoluto”, é o mais duro e contundente ataque às forças retrógradas que nos cercam. “A Desordem da Vida” entra nas viagens do lirismo, dos amores, das homenagens e das reminiscências. O último capítulo, “Insânia”, é a distopia crua, sangrenta, violenta que já estamos vivendo no Brasil, a partir desse governo miliciano, até o futuro, no século XXII, em um cenário causado pela vitória de Bolsonaro ao se tornar ditador, de fato.
Nesses dois anos, vivemos um período sombrio, com a volta do fantasma da ditadura, a explosão fascista no mundo, a censura, ataques à democracia, ataque aos Direitos Humanos e às minorias, à liberdade acima de tudo. Comecei a seleção pelos poemas de confronto, de guerrilha a tudo isso
V: O quanto de Belchior há no livro, para além do título? E o quanto há desse artista na sua vida, como um todo?
DPR: Há a epígrafe, “Viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto.”, que Belchior falava e que, de certa forma, aplico para mim. Para quem escreve, viver e pensar sobre a vida são coisas intrínsecas. E quando ele diz que é um “delírio absoluto”, penso nas pessoas que esquecem de viver ou nas pessoas que não podem viver, pois precisam trabalhar para sobreviver e viver para trabalhar. E ele está presente em alguns poemas como o “Desgovernado”. Há muito de Belchior na minha vida, pois cresci no Ceará, no meio dessa turma, do Pessoal do Ceará.
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Fundador da Editora Algaroba, Daniel Perroni Ratto comemora vitória de "Alucinação" no Prêmio Guarulhos de Literatura neste ano
Foto: Cláudia Perroni
V: Vanderley Mendonça, no prefácio da obra, escreve que você sabe fazer versos, é conhecedor das formas dele. Como você se enxerga enquanto poeta? O que busca em sua forma de fazer poesia e a que deve esse saber profundo do lapidar a palavra?
DPR: Vanderley é muito generoso. Enquanto poeta, o metapoema “Cuidando das arengas” é autoexplicativo: “Ser, sou poeta/o resto estou/Se sou bom ou ruim/estou pouco me fodendo/Poeta sou/o resto estou”. Gosto do tempo em que vivemos, onde não precisamos nos atrelar às formas. Podemos usá-las como quisermos. Posso começar um poema em soneto, continuá-lo em versos livres e terminá-lo em redondilha, maior ou menor. É um tempo de experimentações e liberdades. Não sei desse saber profundo, não, mas lhe agradeço, Diego e ao Vanderley, pela deferência. Sempre fui curioso, desde menino, pelas letras. Lembro que ficava imaginando, o que seriam aquelas coisas que meus pais faziam no papel, com a caneta. Achava que era mágica. Tinha meus cinco anos, por aí. Desde então, essa mágica me aconteceu. Poesia, lembro de ter feito já aos 10 anos, não tenho certeza, porque sempre estive ligado às brumas poéticas que estão conosco, assim como a aurora boreal está lá.
V: Em qual proporção sua vivência no Ceará influencia até hoje na composição dos versos? Em “Predadores”, por exemplo, você resgata aspectos muito intrínsecos à vida por aqui…
DPR: Ceará sempre influenciará meus versos. Costumo dizer que dei azar ao nascer em São Paulo, mas aos dois meses de idade meus pais me trouxeram para morar aqui. Minha irmã nasceu aqui. A família inteira, por parte de pai, é cearense. Minha filha, Julia Perroni, é cearense há 23 anos. Meu sítio, entre Pacatuba e Itaitinga, existe na família desde o século XIX. É meu sitio do pica pau amarelo. “Predadores” foi escrito no sítio. Fui criado, como falei ali na outra pergunta, dentro do “Pessoal do Ceará”. Meu pai, o paisagista, Moraes Costa Jr. foi goleiro do time do Fagner, o Beleza. Tenho outros “pais” cearenses como o ex-jogador e hoje ótimo jornalista, Sérgio Redes, o Serginho Amizade. E o médico, Antônio José Silva Lima. Essa turma era grande e eu sempre estava brincando nos quintais e terreiros de Francis Vale (escreveu prefácio do meu segundo livro), Rodger Rogério, Teti, Marciano, Mazé do Bandolim e seus filhos Frank e Zaqueu e toda essa trupe. Aí não tem para onde correr, é Ceará na veia!
Quando Belchior diz que é um “delírio absoluto”, penso nas pessoas que esquecem de viver ou nas pessoas que não podem viver, pois precisam trabalhar para sobreviver e viver para trabalhar

V: O que há de mais diferente neste livro dos outros sob sua autoria?
DPR: Esse é um livro de confronto, de guerrilha, de alerta, de botar o dedo na ferida, de incomodar o status quo, a cultura hegemônica.
V: O fato de ser um poeta andarilho te faz cada vez mais próximo de outras culturas e formas de fazer arte. E “Alucinação” traduz muito bem isso. Que outras incursões você anda fazendo pelo Brasil e o mundo de modo a fomentar sua literatura?
DPR: O andarilho é o lance de não se acomodar, de estar sempre querendo ler e aprender o desconhecido para além da viagem física. Gosto de viajar pelo Brasil, para lugares fora do circuito, pequenos e peculiares, seja uma cidadezinha do Rio Grande do Sul, ou Ipueiras, na divisa com Piauí.
V: Vencer o Prêmio Guarulhos de Literatura deste ano sinaliza os voos mais altos que o livro pode dar. Em quais outras praças quer chegar com ele e o que já está arquitetando para 2020 quanto a seus outros projetos?
DPR: Quero chegar onde puder. Quanto mais leitor, melhor. Afinal, esse é o propósito de quem lança um livro, ser lido. E um prêmio grande, como o Guarulhos, nos permite ampliar a base de leitores. 2020 é o ano em que completo vinte anos da publicação do meu primeiro livro. Estou preparando um projeto bem bacana, fazendo um livro, coletânea de todos os livros por mim, publicados. Além de um álbum com dez ou doze faixas, poesias minhas, musicadas por cantores e bandas desse Brasilzão. Então será um box com o livro e o CD para comemorar esses vinte anos de literatura.
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Alucinação
Daniel Perroni Ratto
Editora Algaroba
2019, 116 páginas
R$ 41


Diário do Nordeste

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