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Então é Natal. É mesmo?

Das singelas noites felizes do passado aos cybernatais de agora


Na mochila, Milito trazia mais um adorno que encontrou no lixo da cidade para compor seu presépio na favela
Na mochila, Milito trazia mais um adorno que encontrou no lixo da cidade para compor seu presépio na favela
Marco Lacerda*
Numa dessas tardes escuras com jeito de chuva, quando o coração da gente se enche de cinzas, aí pelas seis da tarde saio para um passeio pelas redondezas da minha casa. Como sempre, tudo me parece estranho até que avisto à distância o garoto Milito, as duas mãos segurando firmes no braço direito da mãe, Flora, que criou o filho sozinha, desde que ficara viúva, levada pela certeza de que só se pode ensinar uma criança a amar, amando-a.
Voltavam para casa - ele da escola, ela da labuta diária como empregada doméstica num bairro distante. Mais passeavam que andavam rumo ao casebre de três cômodos que habitam numa favela da região, mobiliado apenas com o essencial, tudo muito simples mas gracioso e aconchegante. Não é pobre quem se contenta com o que possui.
Na mochila, Milito trazia mais um adorno que encontrara no lixo das ruas para compor seu presépio de Natal. O presépio, já quase pronto, é um prodígio da imaginação infantil de Milito. O menino Jesus é maior que o boi, as casinhas espetadas nas colinas cobertas de algodão são maiores que a virgem, tem uma réplica da Torre Eiffel de alumínio e um trenzinho-de-corda e um fiscal de trânsito, representado por um soldadinho de chumbo capenga, ordenhando a passagem de um rebanho de cordeiros numa esquina de Jerusalém, para evitar conflitos com os palestinos. Acima de tudo, uma estrela de papel-alumínio dourado indica aos Reis Magos o caminho da salvação.
É feínho, mas parece conosco. Parece conosco nos tempos em que ainda acreditávamos que os presentes de Natal eram trazidos, não pelos Reis Magos, mas pelo menino Deus e íamos dormir mais cedo para que os presentes chegassem depressa. Foi por essa época que uma tia solteirona resolveu contar a verdade sobre a procedência daqueles presentes. Minha infância acabou um pouco naquele dia, não só porque acreditava que era o Menino Jesus quem os trazia, mas porque queria continuar acreditando.
Jogadas de marketing sucessivas acabaram por destronar o Menino, substituindo-o por um tal Papai Noel, também conhecido como Santa Claus, ambos com narizes de bebuns, que descem dos céus sob uma tempestade de neve apocalíptica, nunca vista na tropical Noite Feliz da América Latina.
Com o tempo, as renas e os trenós também foram sendo trocados e este ano – dizem – o mundo presenciará o mais revolucionário Natal de todos os tempos, com uma Ferrari puxada por uma matilha de pitbulls voadores, trazendo a bordo o que existe de mais exótico no mercado: a nova linha de acessórios de Hannibal Lecter, extintores de flatulência, kits para piromaníacos e outras utilidades domésticas.
Por estas e por outras, não surpreende que esse engodo cultural tenha levado milhões de crianças pelo mundo afora a acreditar piamente que a gruta de Belém fica na Trump Tower e que o menino Jesus nasceu em Nova York
*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total

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