28 de abril de 2017

1ª greve geral do país, há 100 anos, foi iniciada por mulheres e durou 30 dias

Trabalhadores no Cotonifício Crespi, na Mooca, São Paulo, em 1917Direito de imagemARQUIVO EDGAR LEUENROTH | UNICAMP
Image captionGreve teve início em uma fábrica têxtil em São Paulo, e só depois da adesão de outras categorias passou a ter demandas gerais
Em junho de 1917, décadas antes da consolidação das leis trabalhistas no Brasil, cerca de 400 operários - em sua maioria mulheres - da fábrica têxtil Cotonifício Crespi na Mooca, em São Paulo, paralisaram suas atividades.
Eles pediam, entre outras coisas, aumento de salários e redução das jornadas de trabalho, que até então não eram garantidos por lei. Em algumas semanas, a greve se espalharia por diversos setores da economia, por todo o Estado de São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Era a primeira "greve geral" no país.
Mas uma das principais diferenças entre aquela e a greve geral convocada para esta sexta-feira, em protesto contra as reformas trabalhista e da Previdência, é que, em 1917, ela não foi anunciada como tal, disse à BBC Brasil o historiador Claudio Batalha, da Unicamp.
"Não é uma greve que já tivesse bandeiras gerais. Ela começa com questões específicas dos setores que vão aderindo ao movimento grevista, alguns por solidariedade. Depois é que a pauta passou a incluir desde reivindicações relacionadas ao trabalho até reivindicações de cunho político - libertação dos presos do movimento, por exemplo."
Uma destas questões específicas, menos comentada nos livros de história, era o assédio sexual. Segundo Batalha, parte da revolta das funcionárias do Cotonifício Crespi era o assédio que sofriam dos chamados contramestres, funcionários que supervisionavam o chão de fábrica.
"Isso não era incomum na época. Greves anteriores já haviam começado contra determinado funcionário que tivesse um cargo de chefia e tirasse proveito desse poder", explica.

Crescimento

Mas se a convocação de 2017 reflete a insegurança causada pelo desemprego e pela recessão, em 1917, a indústria brasileira ia de vento em popa.
Na verdade, os lucros das empresas chegavam a duplicar a cada ano.
"Entre 1914 e 1917, com a Primeira Guerra Mundial, se passou de uma recessão econômica a um superemprego, porque os produtos brasileiros passaram a substituir os importados e a serem exportados", explica o historiador italiano radicado no Brasil Luigi Biondi, da Unifesp.
"Em 1914, o Cotonifício Crespi lucrou 196 contos de réis. No ano seguinte, o lucro foi de 350 contos de réis. E foi aumentando. Enquanto isso, aumentavam as horas de trabalho."
Com o aumento da produção, as fábricas brasileiras, que tinham poucas máquinas, vindas do exterior, tiveram que usá-las por mais tempo. Isso significava que os operários passaram a trabalhar até 16 horas por dia, sem aumento de salário.
De acordo com Biondi, a insatisfação das mulheres se explica também pelo fato de que elas acompanhavam mais de perto a perda de poder aquisitivo dos trabalhadores.
"Além de também serem operárias, porque naquele momento havia muito emprego para elas na indústria têxtil, elas também controlavam os gastos das famílias. Então viam o aumento acelerado da inflação dos produtos."
No final de junho, a paralisação dos operários do Crespi contagiou os 1.500 operários da fábrica têxtil Ipiranga. Em seguida, se espalhou pela indústria de móveis, concentrada no Brás, e chegou até a fábrica de bebidas da Antarctica.
"Em julho, a greve parou a cidade (São Paulo). Havia embates de rua e tentativa de saques aos moinhos que produziam farinha por causa da crise de abastecimento. Muitos foram mortos e feridos nos confrontos com a polícia", diz Biondi.
O movimento ganhou mais fôlego no dia 11 de julho, quando milhares acompanharam o enterro do sapateiro espanhol José Martinez, de 21 anos.
Ele morreu com um tiro no estômago depois que uma unidade de cavalaria da polícia dispersou manifestantes que quebraram barris de cerveja diante da fábrica da Antartica, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, que noticiou o confronto.
"A partir daí, a greve se alastrou para quase todas as cidades do interior de São Paulo. Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba, Ribeirão Preto. Até Poços de Caldas, no sul de Minas, que não era uma cidade industrial, teve movimentos de greve", afirma o historiador.
Cortejo fúnebre do sapateiro Martinez, morto em confrontos com a políciaDireito de imagemARQUIVO EDGAR LEUENROTH | UNICAMP
Image captionRepressão a grevistas aumentou a adesão de trabalhadores à paralisação, diz historiador

Negociação

Em 16 de julho - mais de um mês após o início da paralisação no Cotonifício Crespi - um acordo entre autoridades, organizações trabalhistas e industriais, mediado por jornalistas, pôs fim à greve em São Paulo. Mais ainda não era o fim da greve geral.
"Só em São Paulo a greve de fato terminou com uma negociação única. No Rio e em Porto Alegre, os movimentos tiveram dimensões gerais, mas só terminaram na medida em que cada setor chegava a um acordo com seu patronato. O ritmo de saída da greve foi aos poucos, assim como a adesão", explica Batalha.
Segundo Biondi, até mesmo na cidade de São Paulo ainda havia categorias entrando em greve no dia 18 de julho, como os pedreiros. Parte dos empresários se recusava a assinar os acordos e queria negociar condições diretamente com os funcionários.
Mesmo com a assinatura dos acordos, a consolidação dos direitos só viria em 1943, durante o regime de Getúlio Vargas.
"O que acontecia muitas vezes na época é que algo era obtido com uma greve, passava-se algum tempo e essa reivindicação voltava para nada", diz Claudio Batalha.
"Em 1907, também houve uma série de greves pedindo a jornada de trabalho de oito horas. E elas chegaram a diminuir, mas, depois de algum tempo, o patronato voltou a estabelecer as jornadas anteriores. O mesmo ocorreu após 1917."
A experiência da primeira greve geral também fez com que os empresários se preparassem para enfrentar futuras paralisações - o que tornou novas negociações mais difíceis para os trabalhadores.
"Uma das coisas que levou ao sucesso relativo da greve em 1917 é que as fábricas não tinham estoques. Quando os operários paravam, não havia produtos nas lojas. A partir daí, eles passaram a ter grandes estoques, e podiam permanecer sem funcionar um certo período porque tinham produção para vender."
Batalha lembra, no entanto, que o acordo só surgiu depois que "a greve atingiu dimensões tais que não tinha mais como controlar o movimento".
"A primeira tentativa de lidar com a greve foi de repressão. Essa era a tônica do período, tanto que houve mortes. Parte do processo de ampliação da greve, inclusive, se deveu a essas mortes."
"Até hoje a solução repressiva pode ser um desserviço às autoridades. Se a gente pensar nos protestos de 2013, a virada no número de pessoas em São Paulo foi quando houve uma repressão desproporcional à manifestação", afirma.
Jornal A Gazeta de 11 de julho de 1917Direito de imagemREPRODUÇÃO
Image captionDepois de tomar capital paulista, movimento de paralisação se espalhou pelo interior do Estado e chegou a Rio e Porto Alegre

Ideologia

Em fevereiro de 1917, meses antes da greve brasileira, mulheres que trabalhavam na indústria têxtil deram início a protestos e a uma paralisação que teria consequências ainda maiores do outro lado do mundo: a Revolução Russa.
Os protestos começaram contra a escassez de alimentos no país e rapidamente ganharam a adesão de outros trabalhadores e a simpatia das forças de segurança. Ao fim de uma semana, a mornaquia russa chegava ao fim, abrindo caminho para a revolução comunista, no fim daquele ano.
"Essa greve também é importante porque mostra a conexão do Brasil com o resto do mundo. Naquele ano, greves como aquela ocorreram em diversos países", diz Luigi Biondi.
Ideologias como o anarquismo e o socialismo marxista, que chegaram a São Paulo principalmente pelos imigrantes italianos, tiveram um papel importante na organização do movimento.
"Por causa da Rússia, eles tinham a ideia de que aquilo poderia levar a uma insurreição dos trabalhadores. Isso não ocorreu, mas a cidade foi tomada. Pela primeira vez isso espantou as elites do país, que começaram a se dar conta de que a questão social urbana era grave e tinha que ser considerada."
Batalha acha que as correntes socialistas "tinham certa liderança", mas que sua influência era maior sobre trabalhadores qualificados.
"O que faz com que uma greve funcione é que as pessoas sintam que aquele estado de coisas chegou ao limite. Uma das características importantes de 1917 é que, pela primeira vez, setores que não participavam desse tipo de movimento começaram a participar."
BBC.COM

A Misericórdia do Deus eterno

Padre Geovane Saraiva*
Pe. Geovane SaraivaO Regina Caeli é a oração mariana que assume o lugar do Angelus, oração e louvor dos católicos por ocasião do Tempo Pascal, que vai do Domingo de Páscoa até a Festa de Pentecostes, numa maneira de consagrar o dia a Deus e à Virgem Maria. É o convite da Igreja aos seguidores de Jesus de Nazaré, agradecida e exultando de alegria pela ressurreição do Filho de Deus, sem jamais se separar do mistério da encarnação do Senhor. O Papa Francisco assim se pronunciou no Regina Caeli (23/04/2017): "A experiência da misericórdia abre a porta da mente para compreender melhor o mistério de Deus e da nossa existência pessoal". Ressaltou igualmente que "a misericórdia abre a porta do coração e permite expressar a proximidade, sobretudo, aos que estão sós e marginalizados, porque os faz sentir irmãos e filhos de um só Pai".

Resultado de imagem para regina coeliRender graças ao bom Deus - porque sua misericórdia é eterna - significa acreditar que a única saída é a vida renovada na Páscoa do Senhor, proporcionando a superação de todo medo. O convite é para que, repletos de feliz esperança, com os olhos fixos na fé e no testemunho, voltemo-nos, evidentemente, para Jesus ressuscitado e seu maravilhoso projeto de amor. Pela generosidade, doação e renúncia, somos chamados a provar a nossa fé no contexto misterioso da ressurreição. Jesus ressuscitado, ao se apresentar aos discípulos, oferece-lhes a paz, infundindo neles a vida e a esperança, revela o verdadeiro sentido da alegria pascal.

O nosso mundo hodierno, tão diverso, vive envolto em sinais de mortes, exigências e desafios.  Nossa esperança, porém, está em um Deus que não está longe, à margem do mundo e da criatura humana. Urge vê-Lo sempre mais próximo, no convite sempre renovado, a partir de sua morte de cruz e sua Páscoa, a uma generosa entrega, ao oferecer tudo de que precisamos, dando-nos também força e vigor, indispensáveis para prosseguirmos com segurança na construção do nosso futuro definitivo. Deus nos conceda sempre mais a graça de abraçar o mistério tão excelso, em uma sólida firmeza de fé e de coragem profética, apoiando-nos nas armas do amor, que têm origem no Senhor ressuscitado.

Que neste Ano Mariano/2017, dos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, fique a lição de ânimo e esperança, vivenciada por Maria, agora no Tempo Pascal, com o Regina Caeli: “Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso, concedei-nos, Vos suplicamos, que por sua Mãe, a Virgem Maria, alcancemos as alegrias da vida eterna. Por Cristo, Senhor Nosso”. Amém!

*Pároco de Santo Afonso, Jornalista, Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal, integra a  Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - geovanesaraiva@gmail.com  

Aplicativo que oferece serviço de lavagem de carro seleciona colaboradores em Fortaleza

O Lavô seleciona cerca de 1.500 colaboradores em Fortaleza (FOTO: Reprodução)
O aplicativo Lavô, que oferece um serviço de lavagem de carros, deve chegar em Fortaleza entre o final de maio e início de junho. E ele seleciona cerca de 1.500 colaboradores em Fortaleza.
O sistema do aplicativo é semelhante ao Uber, o usuário solicita uma pessoa para lavar seu carro e o colaborador, chamado de lavôr, mais próximo, presta o serviço.
A ferramenta realiza serviços agendados de lavagens automotivas ecológicas de forma rápida e segura, podendo ser realizadas em qualquer lugar e horário, inclusive feriados e finais de semana. A seleção está aberta no site do aplicativo www.lavo.online.
O diretor comercial do aplicativo, Ricardo Pereira, explica como é feita a seleção. “A pessoa interessada se cadastra no site, com seus documentos, então é feita uma análise. Após essa análise, se a pessoa for aprovada, ela passa por um treinamento online com vídeo-aula e outro presencial”, esclarece.
A empresa já está presente em Brasília, Goiânia, Anápolis, Belo Horizonte, Vitória, Recife, Natal e João Pessoa.
Fortaleza será a 8ª cidade a receber o aplicativo. Com baixo custo inicial, é possível gerar uma renda mensal de aproximadamente R$ 6 mil reais.
Tribuna do Ceará

Pesquisadores comprovam a resistência de tijolo ecológico com resíduos da mandioca

do BOL, em São Paulo
  • Cícero R. C. Omena/Wikimedia Commons
    Resíduos do processamento da mandioca podem ser reaproveitados para confecção de tijolos, sem o uso de água ou fogo
    Resíduos do processamento da mandioca podem ser reaproveitados para confecção de tijolos, sem o uso de água ou fogo
Pós-graduandos da Universidade Federal de Campina Grande (PB), estudaram as características do tijolo feito sem água nem queima no forno e demonstraram que ele tem as mesmas propriedades do tijolo comum.
O material é feito com a manipueira, resíduo poluente resultante da fabricação da farinha de mandioca. Tradicionalmente descartado, o resíduo se torna um risco ambiental com o aumento da produção da farinha.
A vantagem do tijolo de mandioca é não utilizar água, além de dispensar o cozimento dos blocos em fornos.
Os pesquisadores paraibanos chegaram à conclusão de que o tijolo de manipueira pode substituir o tijolo comum em qualquer tipo de construção, com exceção dos reservatórios de água, onde o tijolo poderia se desmanchar, segundo o grupo.
As instruções para fazer construções ecológicas com o material podem ser encontradas no site do Sebrae, que lista outras utilizações para o resíduo, como adubo e sabão, por exemplo.
(Com informações do Conexão Planeta)
Bol Notícias

Festival de filmes em Recife com acessibilidade para cegos e surdos vai até o dia 31

do BOL, em São Paulo
  • Alzio Dias/Divulgação
    Júri popular na mostra competitiva do VerOuvindo poderá escolher a melhor audiodescrição
    Júri popular na mostra competitiva do VerOuvindo poderá escolher a melhor audiodescrição
O festival VerOuvindo traz curtas e longa-metragens com descrição em áudio e libras, além de oficinas, palestras e debates com acessibilidade para deficientes auditivos e visuais. Organizado em três salas de cinema em Recife (PE), a mostra acontece até o domingo (30).
Em sua quarta edição, o VerOuvindo traz uma mostra competitiva de filmes, além de incentivar o uso de tecnologias assistivas nas salas de cinema.
A mostra competitiva inclui produções de diretores iniciantes, incluindo artistas adolescentes, todos com locução e audiodescrição, além de legendas adaptadas. A premiação total do festival chega a R$ 5.000, divididos entre as categorias de audiodescrição e locução para o júri técnico e audiodescrição pelo júri popular.
Sexta-feira (28), o festival irá exibir uma sessão especial com curtas pernambucanos, a partir das 18h, no Cinema do Museu.
No sábado (29), será a vez do Cinema São Luiz mostrar a sessão memória, a partir das 18h30, com o filme "Amigos de Risco", longa de estreia do diretor Daniel Bandeira. No mesmo local, a partir das 20h30, será projetado o documentário "Trans".
O longa "O Shaolin do Sertão" será o destaque no domingo (30). A exibição no cinema São Luiz, às 17h, contará com um óculos para visualização da linguagem de sinais na tela com o uso de um aplicativo.
A programação completa do festival pode ser consultada no site oficial do evento.

Serviço

Festival VerOuvindo - 27 a 30 de abril de 2017 - Recife (PE)
Cinema do Museu - Av. Dezessete de Agosto, 2187, Casa Forte
Cinema São Luiz - Rua da Aurora, 175, Boa Vista
Paço do Frevo  - Rua da Guia, S/N, Bairro do Recife

(Com informações do Só Notícia Boa)

Luis Augusto Fischer: Zen e a arte de aprender o frio

Foto: William Morrow / HarperCollins
A janela me confirma pelo olho aquilo que o corpo já vem sentindo: o frio está mesmo chegando. Depois de tanto calor no verão, agora se anunciam dias de arrepio na pele, cheiro diferente nas coisas, gosto pelo recolhimento. Muita leitura. Tempo também de viagem, do gosto por ficar do lado do sol. Lagartear.
Não sei se meus filhos já aprenderam a gostar do inverno como ele merece. Andar pela rua não tá fácil em Porto Alegre, mas caminhar no frio, mãos no bolso e focinho afundado no cachecol, orelhas protegidas, bá, tem pouca coisa tão boa quanto isso.
Será também um tempo para ser mais lento. Ter a velocidade em que deve se desenvolver uma conversa ao pé do fogo, quando a gente presta atenção à dança das fagulhas e das labaredas e, sem perder nada, também à fala de cada um na roda, especialmente se alguém começar a contar uma história. História que vai nos encontrar em estado de relaxamento interno, disponível para a surpresa do relato.
Quando será a hora adequada para mostrar aos filhos ainda pequenos a maravilha do Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas? Será que para as novas gerações o livro de Roberto Pirsig fará o maravilhoso estrago que fez em mim e nos meus contemporâneos?
Saído em 1974, traduzido apenas em 1984 ao português brasileiro (tradução de Celina C. Cavalcanti, ed. Paz & Terra), o livro captou como poucos o espírito do tempo, em uma dimensão cada vez mais claramente fundamental: a relação da contracultura (hippismo, vida alternativa, rejeição do consumismo, visão oriental da vida, gente-finice em geral) com a tecnologia (representada ali pela motocicleta – oh, céus, quão antigos ficaram aqueles tempos pré-computador pessoal e pré-internet!).
Mas isso na embalagem de um romance, sim senhor: uma história forte de um pai com seu filho (o narrador, que viaja de moto por estradas secundárias dos EUA, entre Minnesota e a Califórnia, tendo seu filho de 11 anos na garupa). Acompanham esses dois um casal, em outra moto. A viagem dura 17 dias, durante os quais desde logo fica clara uma enorme diferença entre o narrador e seu amigo, que dirige a outra moto: enquanto o narrador quer entender sua moto, quer compreender as formas por detrás das aparências, o amigo prefere apenas dirigir sua máquina, esperando que esteja sempre boa.
Dessa diferença de temperamento, singela, o narrador deriva uma longa conversa, que atravessa o relato todo, para distinguir entre uma visão clássica (a dele) e outra romântica (a do outro). O clássico é mais frio e vai além das aparências, o romântico é impressionável e costuma parar na casca das coisas, com a vantagem de ser entusiasmado. (Pirsig estudou Filosofia, incluindo a oriental.)
Mas há outra camada narrativa, não menos forte. É que o narrador, um pensador ao vivo e a quente que vai relatando o que vê e vive e refletindo organizadamente sobre isso, tem no presente da história a singela profissão de redator e revisor de manuais técnicos – sabe esses que vêm junto com a batedeira e o celular, e que ninguém lê? –, mas no passado foi professor de língua materna, em escolas. Entre os dois mundos, um abismo, sobre o qual pende a ponte da linguagem, que Pirsig atravessa garboso, nós na garupa de sua moto de palavras.
E ainda outra: o narrador vai contando da viagem, de seu filho, das dificuldades da relação entre eles dois, mas também vai lembrando a vida, os pensamentos e os sofrimentos de outro personagem, Fedro. Quem é ele? Não posso contar, porque ia estragar a surpresa, assim como não dá para dizer como tudo termina – mas é lindo o ponto a que chega o relato, pode crer.
Pirsig teve consciência clara do que estava fazendo. O original foi rejeitado 120 vezes até ser aceito, mas antes disso ele havia escrito um volume maior de texto, que ele mesmo segurou, por se dar conta de que faltava à primeira redação algo essencial – uma narrativa, com personagens de carne e osso, feitos ambos de palavras.
Olho mais uma vez a luz enviesada que banha Porto Alegre nesse outono e penso que deverá funcionar com os mais novos esse livro tão peculiar. Ao menos enquanto durar nosso conflito entre ser e ter, entre ciência e ética, entre pensar e sentir – quer dizer, enquanto nós formos como somos.
Vou ali contar pras crianças algo disso tudo.
Zero Hora

Paginário: uma biblioteca pública mutante no Maloca Dragão

Se a leitura é vista como um exercício solitário e individual, o objetivo do projeto Paginário é justamente desconstruir essa visão. Sob curadoria da artista local Fernanda Meireles, fortalezenses são convidados a levar páginas de seus livros preferidos para compor o que a Fernanda chama de “pequena biblioteca pública mutante”. A montagem do Paginário, que acontece no dia 30, domingo, faz parte do festival Maloca Dragão 2017, porém, o “mural” permanecerá disponível para visita e para intervenção após o fim do evento.
Para ter as páginas de sua obra preferida no Paginário, basta tirar xerox de 10 delas e levá-las no dia da montagem com o nome da obra escrito na parte de baixo da folha ou escaneá-las e enviar para o email da curadora (acgrandeonda@gmail.com). Antes da criação do Paginário, haverá uma conversa com o escritor Leonardo Villa-Forte, que desenvolveu o projeto no Rio de Janeiro com os amigos Rodrigo Lopes e Ana Hupe em 2014.
O mural será montado em uma das paredes do Cinema do Dragão, próximo ao café, um local tipicamente de encontro, o que permitirá que as pessoas continuem lendo as páginas e acrescentando suas preferidas após o fim da Maloca. Com o tempo passando, as páginas que serão coladas neste domingo irão descolar, deixando espaço para uma constante intervenção.
Fernanda acredita que “todos os artistas estão contando histórias, sejam sonoras ou visuais”, entretanto, a literatura é tipicamente colocada em um “pedestal” e não é vista como algo acessível e coletivo. Para ela, até mesmo a representação do escritor, sempre uma figura isolada e iluminada, pode ser transformada. Trazer o Paginário para Fortaleza é então uma proposta para repensar a leitura e torná-la uma atividade divertida, coletiva, pública, urbana e possível.

Serviço
Paginário no Maloca Dragão
Quando: 30 de abril, domingo, às 17h30
Onde: Auditório do Dragão do Mar (R. Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)
Mais informações: http://bit.ly/2qiV4YG e http://paginario.com.br
MARIAH COSTA
O Povo

Julian Lennon expõe fotos em SP e diz que fotografia é 'alívio' após ser 'crucificado' por cantar como pai

Entre a cruz e a câmera fotográfica, Julian Lennon escolheu a segunda opção. Pelo menos por um tempo, o artista, que será sempre conhecido (e "crucificado", segundo ele) por ser filho de John Lennon, se dedica pouco a cantar e muito a uma arte que rende menos comparações com o pai. Aos 54 anos, ele lança em SP duas exposições de fotos - a primeira mostra uma viagem à Ásia e outra retrata amigos famosos nos bastidores de turnês (veja serviço abaixo).
Julian conversou com jornalistas brasileiros sobre o "alívio" que achou na fotografia, sobre a jornada que rendeu a série de fotos em países asiáticos "Cycle", e sobre o trabalho filantrópico na White Feather Foundation. O nome da fundação ("pena branca") vem de uma frase dita pelo pai. Antes de morrer, John teria dito ao pequeno Julian que tudo ficaria bem, e que um sinal disso seria dado por uma pena branca.
Anos depois, em viagem à Austrália na turnê do disco "Photograph smile" (1998, já sem o sucesso dos anos 80 de hits como ""Too late for goodbyes"), um desavisado aborígene ofereceu uma pena branca ao filho do beatle. A história meio surreal, que até lembra uma cena famosa do filme "Forrest Gump", inspirou trabalho sério de ativismo ambiental e social da fundação. A ação se mistura às fotos de "Cycle", muitas em áreas pobres do mundo.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Julian Lennon autografa livro de exposição para Samuel Rosa, do Skank, em coquetel de abertura em SP (Foto: Divulgação / Leica Gallery São Paulo)
Julian Lennon autografa livro de exposição para Samuel Rosa, do Skank, em coquetel de abertura em SP (Foto: Divulgação / Leica Gallery São Paulo)

Julian Lennon e a fotografia

"Agradeço por ter encontrado a fotografia. Por trinta anos eu tenho sido crucificado pela indústria musical e por críticos por soar como o meu pai, parecer com meu pai ou com os Beatles. Quando eu achei a fotografia, foi um alívio de muitas formas.
Não que eu tenha desistido da música. Estou dando só dando uma pequena parada. E felizmente eu achei isso (a fotografia) como uma maneira de seguir em frente, assim como a Fundação (White Feather). Claro que na primeira exposição teve ansiedade, ataques de pânico, estresse, nervosismo, porque por três dias eu estava tremendo, achando que iam me crucificar de novo. 'Aí está outro cantor que acha que é um fotógrafo, e blá blá blá."

Conhecer outras culturas em tempos de xenofobia

"É muito triste ver isso acontecer. Um exemplo: no dia do meu aniversário (durante a viagem que rendeu as fotos da exposição), estava em um lugar chamado Kuching (na Malásia, que mistura população malaia, chinesa e de outras origens). É um lugar incomum e muito bonito, que parece um pouco com o Caribe e Cuba de 30, 50 anos atrás.
É um lugar com muitas religiões e culturas de todo mundo. Fiquei maravilhado, pois foi a primeira vez na minha vida que eu andava na rua e literalmente qualquer pessoa que você olhava sorria na sua direção.
É um lugar tão diverso, e eles conseguiam viver em harmonia e respeitar um ao outro. Isso só mostrou que é algo absolutamente possível, mas a ganância humana e a necessidade de poder matam isso. Mas só espero que pessoas como eu continuem tentando fazer a diferença, de um jeito ou de outro.
Muita gente me diz para ficar fora disso, mas me desculpe, em um nível humano eu não consigo ficar fora. Se eu puder fazer algo para fazer a diferença, eu vou, e danem-se aqueles que dizem o contrário."
Foto de Julian Lennon, da exposição 'Cycle' (Foto: Divulgação / Julian Lennon / Leica Gallery)
Foto de Julian Lennon, da exposição 'Cycle' (Foto: Divulgação / Julian Lennon / Leica Gallery)

O que Julian aprendeu com as fotos de 'Cycle'

"Com esse projeto, vi que, não importa o que aconteça com as pessoas, elas têm muita força dentro delas para continuar, seguirem em frente. É espantoso que, mesmo quando as pessoas ficam sem nada, conseguem sobreviver e serem felizes. Fico encantado com este sentimento de felicidade e amor, que se opõe ao materialismo.
Onde quer que eu esteja, seja nos desertos da Etiópia ou em escolas no Quênia , há sempre um sorriso, algo que nos motiva. Isso faz parte da essência do meu trabalho: entregar algo que ajude, e dar às pessoas que não podem presenciar o que acontece nestes lugares uma ideia da vida de outros povos e outras culturas."
Foto da exposição 'Cycle', de Julian Lennon (Foto: Divulgação / Julian Lennon / Leica Gallery)
Foto da exposição 'Cycle', de Julian Lennon (Foto: Divulgação / Julian Lennon / Leica Gallery)

Música x fotografia

"Quando eu estava na estrada como músico, eu costuma fazer turnês mundiais, e a única coisa que eu via eram hoteis, ônibus, palcos... Você nunca via nada além disso. É por isso que isso (fotografia e ativismo) se tornou uma paixão tão grande para mim. Ter começado a fundação White Feather e poder viajar, ajudar pessoas e tentar capturar o momento, me deu a paixão e a vontade de fazer mais, colaborar mais e espalhar essa mensagem."

Apego pela 'pena branca' de John Lennon

"Ainda tenho essa ligação. No livro infantil ("Touch the earth", lançado recentemente por Julian) , o personagem principal é um avião cujas asas são penas brancas. Ter ganhado a pena branca de um indígena, de uma tribo que existe há milhares de anos, depois de o meu pai ter dito que, quando ele morresse, uma maneira de mostrar que todos vamos estar ok seria na forma de uma pena branca... Eu não sou religioso, mas sou certamente espiritual... E isso sem dúvidas foi uma das coisas mais claras que eu já vi mostrando essa conexão, que aparece em todo o meu trabalho."
Foto de Bono Vox, parte da exposição 'Rock'n Roll Suite', de Julian Lennon (Foto: Divulgação / Julian Lennon)
Foto de Bono Vox, parte da exposição 'Rock'n Roll Suite', de Julian Lennon (Foto: Divulgação / Julian Lennon)

Serviço: Julian Lennon - Exposições 'Cycle' e 'Rock'n Roll Suite' em SP

  • Local Leica Gallery São Paulo
  • Rua Maranhão, 600, Higienópolis, Tel. (11) 3512-3909, São Paulo, SP.
  • Horário: Terça a sexta-feiras: 11h às 19hs. Sábado: 11h às 16h
  • Período: de 27/04 a 24/06 (Cycle) e acervo permanente ('Rock'n Roll Suite')
  • Entrada gratuita
Do G1