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Unidade prisional recebe atividades da XII Bienal

O ator, cantor e poeta cearense Gero Camilo esteve com cerca de 200 internos da Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, em Aquiraz ( Foto: Kléber A. Gonçalves )
"Os girassóis me deram a certeza de que eu vinha para um encontro com pensadores". Assim sentiu o ator, cantor e poeta cearense Gero Camilo ao cruzar o jardim plantado na entrada da Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, em Aquiraz, na manhã de ontem (17). O peso da rotina de alguns dos 200 internos da penitenciária foi amenizado pela longa conversa sobre poesia e liberdade com o escritor, que integrou a programação da "Bienal Fora da Bienal", ciclo de atividades externas da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, realizada de 14 a 23 deste mês.
Como preparativo para receber Gero, os internos assistiram ao filme Carandiru (2003), em que o ator interpreta o personagem homossexual 'Sem Chance', que casa dentro da penitenciária. A narrativa trata da rotina da extinta Casa de Detenção, localizada no bairro paulista Carandiru, antes e depois do massacre que vitimou centenas de presos. "Eu entrei aqui sensível, mas meus sentimentos foram passando e fui ficando frio. Quando vi o filme, percebi que ainda podia sentir, porque fiquei muito ferido", relatou Roman Aguiar, 40 anos, que há pouco mais de um ano está encarcerado.
O músico baiano, preso no Ceará, foi um dos cerca de 30 internos que se transportaram para fora do peso das grades por meio da leveza de Gero Camilo. "Essa liberdade ninguém tira da gente. Essa de voar pelos pensamentos", alertou, em forma de conselho, o ator. "Vocês não estão distantes do eu-poético. É possível fazer poesia entre quatro paredes", encorajou Gero. Tão possível que os versos e rimas já habitam as celas, a biblioteca e as áreas de convivência da unidade prisional, transcritos em caderninhos de anotações e nos pensamentos dos internos - os únicos que desconhecem a falta de liberdade.
"Eu não sabia que tinha capacidade para criar versos. Mas aqui dentro a gente fica mais refinado, mais sentido. Isso aflora!", exclama Raimundo Reinaldo Teodoro, 61, autodescoberto poeta nos últimos quatro anos e sete meses de prisão. Com a criatividade livre, já escreveu 175 páginas do primeiro de muitos romances que quer publicar. "Quando sair, quero ser escritor", projeta.
Das mãos do sonhador, saiu um papel direto às de Gero Camilo: um poema-presente, o primeiro dos dois que o artista cearense ganhou durante o par de horas de convivência com os internos. O segundo foi recitado em voz alta por Edmilson Coelho Lemos, 64, em versos sobre a biografia do visitante - e sobre a gratidão por ele estar ali. "Você veio nos ver, mostrando ser generoso", disse Edmilson, emocionando o biografado. "Essa troca de experiências e olhares, ouvir depoimentos e histórias, ver tanta poesia aqui dentro... Foi a melhor coisa que a Bienal me deu", declarou Gero.
Destaque
Segundo o titular da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), Fabiano dos Santos, a unidade prisional Irmã Imelda Lima Pontes - destinada a detentos GBT (gays, bissexuais, transexuais e travestis), idosos e condenados por infrigir a Lei Maria da Penha - é destaque em atividades artísticas e de leitura. "A remição de pena por leitura, por exemplo, é muito praticada aqui", disse. A diretora da unidade, Lídia Amaral, reforça que os projetos de literatura e arte mudaram a rotina da detenção. "A leitura trouxe uma mudança de paradigma, uma facilidade de diálogo".
Diário do Nordeste

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