Weibe Tapeba. Pelos olhos de um índio cearense

Isabel Filgueiras
Advogado, ativista e líder de comunidade, o índio Weibe Tapeba se pinta com tinta da semente do urucum e usa as redes sociais para divulgar a causa dos povos indígenas. Em entrevista ao O POVO, ele conta que já sofreu ameaças de morte e detalha como entrou para a política para se tornar o primeiro vereador tapeba de Caucaia.
Na semana em que se lembra o Dia do Índio, Weibe fala sobre como é ser índio hoje no Ceará. Ele ainda elenca os frutos de orgulho da militância indígena e as principais causas de frustração na política fundiária do País.
O POVO – O Dia do Índio foi comemorado agora, no dia 19. O que há para celebrar nesta data?
Weibe Tapeba – Aqui no Brasil não tem muita coisa para comemorar. A gente percebe que a temática indígena não tem ganhado muita força com relação à efetividade de direitos. A gente tem avançado muito na legislação indigenista.
Talvez tenhamos uma das estruturas legislativas mais seguras de todo o planeta.
Mas, na efetivação desse direito, temos um desafio muito grande. Infelizmente, é costume violar direitos. Não é uma prioridade do Estado brasileiro demarcar terras indígenas. Há um desdobramento do que chamamos de criminalização de lideranças indígenas. No Ceará, por exemplo, temos 23 terras indígenas e apenas uma encontra-se com o procedimento de demarcação já concluído. Todas as outras estão em estágios diferentes de demarcação. Aqui o conflito tem se intensificado. 
OP – Qual o seu tempo de militância?
Weibe – Eu sou filho de liderança tradicional. Meu pai é uma das lideranças que representam a articulação dos povos indígenas no Nordeste. Minha mãe é agente de saúde e desde pequeno eu acompanho essa luta. Meu povo foi percussor no movimento indígena aqui no Ceará, iniciando esse levante no final da década de 1970. Hoje são 14 povos indígenas localizados em 19 municípios. Nós somos uma população estimada de 32 mil indígenas. Atualmente, eu estou na Coordenação de Povos Indígenas no Ceará (Copice). 
OP – O que é ser indígena hoje no Brasil e no Ceará? Como se faz o equilíbrio entre tradição e tecnologia?
Weibe – Quando se fala de indígena no Brasil, se lembra logo de uma pessoa despida, numa lagoa, que só come peixe, vive no mato, na beira da lagoa. Não é bem isso. Vai muito além. A história do Ceará é complicada. De 42 povos indígenas, hoje só temos 14. O que aconteceu com os outros? Isso não está escrito. A gente não esquece da tradição. Temos as pinturas de urucum, jenipapo, temos o ritual do toré, do torém, a dança guerreira, a culinária nossa.
Tem a medicina tradicional, o poder da cura com a mente, dos rezadores. Ser indígena é conhecer a memória do nosso povo, respeitar os mais velhos, porque os troncos velhos são sagrados, eles nos aconselham e nos ensinam. Ter referência à natureza. Temos uma espiritualidade muito forte, a gente acredita nos encantados. Evidente que muitas vezes a tecnologia acaba dificultando na juventude. É um desafio pra nós. Mas temos buscado, inclusive, por meio das tecnologias, a visibilidade das questões culturais. 
OP – Há um orgulho indígena? Sempre houve?
Weibe – Existe. Mas não foi sempre assim. Já enfrentamos muita dificuldade. Eu, por exemplo, tive que estudar fora da terra indígena porque não tínhamos escola.
Quando criamos as escolas, ainda não tínhamos ensino médio e eu já cursava o ensino médio e dava aula no fundamental para nossas crianças. Foi muito difícil para os que tiveram que sair das aldeias para estudar. Pintura, cabelo grande, que usávamos muito. Tinha que esconder a identidade, mas acabava não escondendo porque todo mundo sabia que éramos da Lagoa dos Tapebas. Então chamavam de “tapebão”, “carniceiro”. Era preconceito mesmo. Está mais fácil para esta geração. 
OP – Que ideia errada se costuma ter dos índios?
Weibe – Existe uma visão extremamente equivocada de imaginar que há vantagem de ser indígena. Tem gente que acha que o indígena é inimputável perante a legislação, que se eu praticar um crime eu não cumpro com minhas responsabilidades. Se eu praticar um homicídio vou preso igual a todo brasileiro.
Tem uma visão de que o Governo Federal mantém todo mundo, dá dinheiro, paga cesta de alimento. Não é bem assim. Tem muitas comunidades, como a nossa, que vivem uma situação de vulnerabilidade alimentar. 
OP – O senhor venceu as eleições de 2016 para vereador. Como foi seu processo de entrada na política?
Weibe – A gente já vinha de alguns processos anteriores. Já tinha coordenado a campanha do meu pai quatro vezes. A gente começou com uma campanha pequena, tímida, tiramos 138 votos na primeira campanha dele. Na última campanha dele, a gente tirou 1.248 votos. Ali, fizemos uma assembleia e resolvemos lançar meu nome e conseguimos sagrar vitoriosos com 2.541 votos.
OP – É a primeira vez que um tapeba ocupa cadeira na Câmara Municipal?
Weibe – Sim. Primeira vez no município de Caucaia. O Município foi originado pelo aldeamento Nossa Senhora dos Prazeres, ou seja, a história do povo tapeba se confunde com a história do Município. Mas é a primeira vez que um Tapeba consegue se eleger. No Estado, temos apenas dois indígenas eleitos vereadores, um em Caucaia e outro em Monsenhor Tabosa, o Vicentino Potiguara já em segundo mandato. 
OP – O que isso representa em termos de espaço na política para indígenas?
Weibe - O modelo político brasileiro não dá conta de uma representatividade das comunidades indígenas no País. Tanto é que no Congresso não temos nenhum indígena deputado federal ou senador. Nas assembleias legislativas de todos os estados, também não temos nenhum representante. Mas a gente conseguiu, no último pleito, um número de 163 vereadores eleitos e cinco prefeitos em todo o Brasil. Teve uma elevação em relação ao pleito anterior. Estamos tentando intensificar a participação dos indígenas nos próximos pleitos. 
OP – Como está o Ceará em comparação a outros estados em relação às políticas indígenas?
Weibe - Consideramos que tivemos vários avanços, principalmente nas áreas de saúde e educação. Dei aula em uma escola que começou a funcionar em 1990 debaixo de um pé de cajueiro. Em 2006, construímos o primeiro prédio em que pudesse funcionar uma escola (dentro da comunidade) com recursos do Governo Federal e apoio do Governo Estadual. De lá para cá, temos 41 escolas indígenas.
São mais de 600 professores, a maioria deles formados por meio de cursos específicos diferenciados, pagos pelos municípios ou pelo Estado. Avançamos muito. Muitas escolas atuavam em locais improvisados e hoje já estão em espaços próprios. Na parte da saúde, temos equipes de saúde atuando em todas as comunidades indígenas do Ceará. Neste aspecto é um fato a ser comemorado, embora haja alguns desafios. Na questão territorial, o Ceará é um dos piores. 
OP – Que riscos os indígenas correm?
Weibe – Nós vivemos num estado onde o número de posseiros, proprietários de terra é muito grande. São mais de mil ocupantes indígenas da nossa área. Então, a pressão é constante. As ameaças se dão de diversas formas. Tem as diretas, em algum tipo de ocupação ou procuram as lideranças. Como estive à frente por um tempo, acabaram concentrando essas ameaças na minha pessoa. Já teve ameaças indiretas, oferecimento de propina para não dificultar a atuação dos proprietários nas áreas. Temos denunciado, mas a apuração não tem sido da forma que deveria.
OP – Quais foram os momentos de maior tensão?
Weibe – Já vivi momentos tensos de ter uma pistola apontada para mim a cinco metros de distância, dentro de uma área legítima de ocupação nossa. Teve também de algumas pessoas irem até minha casa e eu ter que, de algum modo, me afastar da luta, deixar a poeira baixar um pouco. A gente procura se expor o mínimo possível para que a gente não seja uma presa fácil. Mas também não dá para desistir porque essa luta precisa da nossa atuação. Se desistir é pior. Temos uma missão a cumprir, e a gente acredita que os encantados são nossos protetores. Por isso, continuamos na militância.   
O Povo

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